INTRODUÇÃO - Os mitos gregos

 

            Os gregos foram uma civilização que não formaram um grande império, como os macedônios, os romanos ou o Islã, porém influíram decisivamente para a formação da cultura ocidental, para não dizer que foram seus pais. Como foi possível, numa pequena península do mar Mediterrâneo, o surgimento de uma sociedade que desenvolveu o que ainda hoje entendemos por política, filosofia, escultura e teatro, tendo o homem como o centro das interrogações? É possível fornecer algumas respostas a esta indagação, começando pelos primeiras manifestações culturais da cultura helênica, a mitologia.

            Todas as culturas em geral possuem a sua mitologia. Ela serve como uma explicação coerente para o surgimento do mundo, do homem e dos fenômenos naturais. Ela fornece um sentido, uma explicação, uma razão para a existência humana e sua presença na natureza. Os mitos são arbitrários assim como são as diferentes culturas. Cada mitologia conta a seu modo, com uma história diferente, a origem humana e a sua relação com as entidades divinas.

Os gregos também produziram os seus mitos de criação, da origem humana e de explicação dos fenômenos naturais, como o dia e a noite, a presença do sol, da lua e dos oceanos. Porém algo novo surgiria na mitologia helênica. Segundo uma frase que sintetiza o espírito da mitologia grega, os gregos “divinizaram os homens e humanizaram os deuses”. O homem aparece como um ser em constante conflito com os deuses, procurando desafiar o destino e a realidade dada com sua inteligência e astúcia. Da mesma maneira, os deuses gregos são relatados como possuindo sentimentos, vingativos uns com os outros, gananciosos, mas em outras ocasiões realizando grandes banquetes, divertindo-se e embriagando-se. Nos relatos de Hesíodo, as entidades divinas são organizadas em grandes famílias, pelos diversos casamentos que dão origem a várias gerações. Assim, os gregos conceberam os deuses como dotados de sentimentos e características humanas, mas ao mesmo tempo divinas.

A mitologia grega é uma grande galeria de entidades diversas. Não é nosso objetivo aqui descrevê-la na sua totalidade, mas para ilustrar o que foi dito nos parágrafos anteriores, tomemos dois exemplos da mitologia helênica: o mito de Prometeu e de Ulisses.

Conta a lenda grega que a primeira geração mítica criou a raça dos Titãs (Enciclopédia da Mitologia, Vol. II. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 305-320). Estes, na pessoa de Cronos (Saturno), o deus-tempo, destronaram seus antecessores, castrando Urano (Céu), princípio masculino de todas as coisas. Zeus (Júpiter), filho de Cronos, sucede ao pai e elimina toda a antiga estirpe, numa guerra sangrenta que coloca os olímpicos no poder. Pela lógica da seqüência temporal da História, a raça que sucederia aos olímpicos e deveria igualmente combatê-los e destroná-los são os homens. O crime de Prometeu foi ter tentado criar uma raça que superasse os olímpicos, a raça humana.

Para forjar o homem, Prometeu arranca o barro do chão e mistura-o com suas próprias lágrimas. Incessantemente trabalhando, com paixão e arte aquela massa informe, obtém feições semelhantes às de um deus. Embevecido com sua obra, Prometeu decidiu esculpir uma multidão de estátuas. O grande gesto foi entregar o fogo aos homens. Conhecendo o segredo do precioso elemento, pouco os difere dos deuses. Estes, temendo o poderio humano, obtido com o domínio do fogo, discutem como tornar os homens novamente submissos e humildes. Júpiter inventa a forma mais rápida de destruir o paraíso dos homens: a mulher, representada por Pandora. Júpiter, antes de enviá-la aos homens, entrega-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Nela estão contidas as misérias destinadas a assolar os mortais: reumatismo, gota, dores para enfraquecer o corpo humano, inveja, despeito e vingança para desesperar-lhes a alma.

Quando Pandora chega ao mundo, encontra Epimeteu, irmão de Prometeu. Oferece-lhe então a caixa como um presente de Júpiter. Epimeteu, encantado pela bela visão de Pandora, esquece o juramento, feito a seu irmão, de jamais aceitar qualquer presente de Júpiter, e abre a tampa da caixa fatal. Imediatamente saltam de dentro da caixa todas as desgraças do mundo. Entretanto, no fundo do recipiente, permanece um sentimento que poderia estragar a vingança dos deuses: a esperança. Júpiter não quer que os homens esperem mais nada. Sob sua ordem, Pandora fecha a caixa, deixando a esperança calcada no fundo, e o homem perde seu paraíso. Pandora torna-se esposa de Epimeteu e Prometeu é castigado ao acorrentamento no cume do monte Cáucaso, onde, durante o dia, uma águia devora-lhe o fígado, fazendo o criador dos homens contorcer-se em terríveis dores. O órgão regenera-se à noite, para a agonia da manhã seguinte. Foram trinta anos de dor até Prometeu ser libertado por Hércules, o mais forte dos homens.

O mito de Prometeu aparece em várias referências na literatura. Ésquilo (525-456 a.C.) dedicou a Prometeu uma trilogia, seguida de uma sátira. Somente uma destas é conhecida, Prometeu Acorrentado. No diálogo Protágoras, Platão (427?-437? a.C.) celebra Prometeu como deus civilizador, que dá fogo aos homens para que estes possam suprir suas necessidades, sociabilizarem-se e inventarem a linguagem. Prometeu também aparece em As Suplicantes, de Eurípedes (480?-406 a.C.). Alguns escritores cristãos, como Tertuliano e Santo Agostinho, adotaram Prometeu crucificado e revoltado como uma projeção de Cristo, o ‘verdadeiro Prometeu’. Na Renascença, viu-se em Prometeu a imagem da consciência humana, que se levanta contra tudo que é arbitrário. Na comédia mitológica de Pedro Calderón de la Barca (1680-1681), A Estátua de Prometeu, o herói é um estudioso homem de ciências, que, decepcionado por não ter conseguido ensinar seu concidadãos, retira-se à solidão e esculpe uma imagem de Minerva. No Romantismo, Goethe (1749-1832), num fragmento dramático intitulado Prometeu, descreve o herói liberto do medo dos deuses. Sua personagem chega a recusar parecer-se com um deus, e inclusive nega-se a morar com eles, no Olimpo.

De forma geral Prometeu é o símbolo da humanidade tentando libertar-se do jugo divino.

O outro mito grego que descreveremos é Ulisses. Suas aventuras foram narradas por Homero (século IX a.C.) na Odisséia. Juntamente com a Ilíada, as epopéias homéricas contêm relatos sobre a transformação da cultura helênica e de expansão das fronteiras, de colonização de terras distantes e de abertura de novas rotas de comércio. Mileto, onde historicamente nasceu o primeiro fragmento filosófico, sendo a maior cidade grega da Ásia Menor, conseguira lançar seus navios na rota do Mar Negro e no Cáucaso, onde abundavam os metais. Em direção ao Ocidente, foi explorado todo o contorno da Grécia. As viagens pelo mar e pelas rotas comerciais forneceram aos poetas da Antigüidade o material para a elaboração do mito de Ulisses.

Helena foi raptada por Páris, príncipe troiano, e seu marido, Menelau, requisita todos os guerreiros gregos para lutar a seu lado, entre eles, Ulisses. Este parte para a guerra, deixando sua esposa, Penélope, e seu filho, Telêmaco. Ulisses traça o plano grandioso que propiciaria aos gregos a conquista de Tróia, num conflito que já durava dez anos. Sob suas ordens, os soldados começam a erigir um grande cavalo talhado em madeira. No interior oco da estátua há lugar para dezenas de homens. O jovem Sínon entrega a obra aos troianos, dizendo-lhes tratar-se de um presente para a deusa Atena. Curiosos, os habitantes de Tróia correm para ver a misteriosa escultura. No intuito de conduzí-la a Príamo, seu rei, derrubam o sólido muro que defende a cidade. Felizes com o suposto fim da guerra e deslumbrados com o presente, os troianos festejam durante toda a noite. Na madrugada, dormem após consumirem muito vinho. Cautelosamente, os gregos saem do interior do cavalo e os soldados que estavam nos navios penetram pela fenda aberta no muro. Atacados de surpresa, os troianos sofrem sua definitiva derrota.

Os gregos, após a vitória, esquecem de agradecer aos deuses, que os haviam ajudado na empreitada, e ficam irados. Sob a liderança de Atena, os olímpicos decidem que nenhum guerreiro conseguirá voltar à pátria, e sobre a cabeça de Ulisses, inventor do cavalo fatal, haverá de recair a punição com mais vigor. Assim, o herói torna-se vítima de tempestades noturnas que lhe açoitam a embarcação. Ele reconstrói navios e refaz planos de voltar para à Ítaca, onde estão Penélope e Telêmaco. Seus companheiros pouco a pouco perecem na jornada trágica. Na longa viagem de volta, Ulisses enfrenta os maiores perigos, como tempestades marítimas, sereias sedutoras e fatais, e Ninfas que, em cada ilha para onde o herói é atirado, recebem-no apaixonadamente e tentam mantê-lo prisioneiro. Muitas vezes ele amou estas Ninfas, e teve dificuldade em deixá-las, para continuar o retorno. No entanto, a saudade da família triunfava sempre sobre as paixões do acaso. O herói civilizado, sediado numa terra onde é rei, está ligado vigorosamente ao núcleo familiar.

Em uma de suas paradas durante o seu retorno, Ulisses teve de enfrentar na ilha da Sicília o cíclope Polifemo, a criatura de um olho só que devorava os homens. O relato de sua vitória sobre o monstro é um exemplo de utilização da inteligência contra a força bruta: Polifemo está ausente, apascentando os rebanhos. Não voltará tão cedo. Ulisses começa a inspecionar a caverna, para ver se descobre alguma outra saída. Não encontra. Mas, na busca, depara-se com um pedaço de madeira. Pede aos companheiros que agucem a ponta da estaca, endurecendo-a ao fogo. Depois, esconde-a, pensando em usá-la como arma contra o ciclope, tão logo ele voltasse. À noite, Polifemo reconduz os rebanhos para a gruta. Antes de dormir, agarra dois companheiros de Ulisses e devora-os, inteiramente crus. Surdo aos gritos desesperados do herói seus soldados, o monstro mastiga a carne com fome feroz.

Refazendo-se da emoção, Ulisses aproxima-se do ciclope. Oferece-lhe uma gamela cheia de vinho tinto. De um só trago, Polifemo esvazia a gamela e pede mais. Ulisses serve-o três vezes. O ciclope, embriagado, pergunta ao prisioneiro qual era seu nome, e o herói responde: "Ninguém". "Ninguém, serás o último a ser comido depois dos teus companheiros. Sim. A todos comerei antes de ti. Será esse o meu presente de hospitalidade."

Perplexo ante essa estranha hospitalidade, Ulisses observa o monstro caindo de cansaço e bebedeira, sobre sua imensa cama. Então, aquece a estaca que guardara como arma, e a introduz no único olho de Poliferno. O sangue corre da ferida. A carne arde. O monstro urra de dor. Os rugidos que emite, do fundo do sofrimento, ressoam como um estrondo. E fazem tudo tremer à sua volta. Ulisses e seus companheiros refugiam-se, espavoridos, no fundo da caverna, longe do alcance do ciclope cego e furioso. Atraídos pelos uivos de Polifemo, os outros Ciclopes da ilha acorrem. Perguntam-lhe quem o ferira tão fortemente. "Ninguém", é a resposta. "Ninguém me cega, Ninguém quer me matar". Sem saberem que "Ninguém" era um nome, os Ciclopes vão embora, pensando que tudo aquilo era obra de Júpiter.

Ainda assim, pela manhã, cego e cheio de dor, Polifemo senta-se à porta, para deixar saírem os animais, e prepara-se para agarrar os homens, que julga estarem fugindo. Mas Ulisses já havia planejado a fuga: agarrados ao ventre dos carneiros, o herói e seus companheiros enganam novamente Polifemo e recuperam a liberdade. E, sem olhar para trás, correm até a praia, sobem nos navios e abandonam definitivamente a ilha dos sofrimentos e dos monstros (Enciclopédia de Mitologia, vol. II, p. 368).

Quando retorna à Ítaca, o herói, que sempre pensa antes de agir, é sugestionado por Minerva a disfarçar-se de velho mendigo, para conhecer melhor a situação de sua mulher e de seu filho. Após vinte anos de agonia e espera, Penélope ainda é jovem e bela, pretendida por dezenas de homens que, certos de sua viuvez, querem esposá-la. Ninguém consegue afastá-los do palácio, onde se instalaram como se fossem donos, maltratando Telêmaco e humilhando Penélope. Mas ela, à custa de muito sacrifício, mantém-se fiel ao esposo ausente.

Novamente transformado em velho mendigo, Ulisses entra no palácio real. Os pretendentes de Penélope bebem e gritam incansavelmente. Curva e humilhada no fundo da sala, a infeliz mulher observa a cena terrível sem poder impedi-Ia. Ao verem o falso mendigo na soleira da porta, os homens esbofeteiam-no e atiram-lhe vinho por todo o corpo. Horrorizada com tal tratamento, Penélope chama a serva, Euricléia, e pede-lhe que conduza o pobre ancião a seus aposentos. Euricléia vem trazendo uma bacia cheia de água para lavar os pés do estranho, quando enxerga a cicatriz em seu joelho. No mesmo instante reconhece-o: aquele é Ulisses. E aquela marca fora obtida durante a luta que ele e seu pai empreenderam contra um javali, no monte Parnaso, há muitos anos. Comovida, Euricléia beija os pés de seu amo, que lhe pede silêncio.

Chega a noite. Com Telêmaco, Ulisses junta todas as armas que consegue encontrar no castelo e prepara-se para o ataque. Penélope - esperando a chegada do esposo, mas ainda sem desconfiar que seja ele o forasteiro andrajoso - entra na sala onde estão os pretendentes e anuncia: esposará aquele que conseguir atirar uma flecha, com o arco de Ulisses, através de doze orifícios abertos nos cabos de doze machados. A arma é trazida. Um a um, os candidatos tentam esticar o arco, mas, embora usando de toda a força, nada conseguem. É então que o mendigo se aproxima. Todos zombam de sua figura grotesca. Desafiam-no. Ele finge grande esforço ao empunhar o pesado arco. Atinge, porém, os doze alvos, e depois, rindo muito, mata um a um dos pretendentes.

A velha ama chama Penélope ao quarto e conta-lhe o feliz segredo. A rainha sai correndo pelos salões do palácio e encontra-o sem demora.

Baseados no relato homérico, vários escritores, antigos e modernos, criaram sua figura de Ulisses. Sófocles, na tragédia Ajax, Eurípedes, em Hécuba e em O Ciclope, Platão, Píndaro, Sêneca, Cícero, Dante, em A Divina Comédia e, no século XX, James Joyce.

Homero sintetizou em Ulisses mais que um comerciante arrojado ou um marinheiro sem destino; no personagem está presente a marca da criatura que luta contra os desígnios dos deuses, tentando manter a supremacia da razão e da consciência humanas.

Essa mitologia, característica do séc. IX a.C., forneceria os elementos fundadores para que a cultura grega desenvolvesse suas potencialidades máximas, expressadas plenamente a partir do séc. VII a.C., com a invenção das artes, da política e da filosofia, ao mesmo tempo que estas duas últimas romperiam definitivamente os laços do homem com os mitos.

 

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