Naquele domingo, senti uma necessidade muito forte de ir a Missa. Tinha que ser aquela missa. Recordo-me que levantei apressado, saí sem me arrumar direito, tinha uma necessidade sobrenatural de chegar a Igreja. Até hoje, quando lá retorno para agradecer a Deus o dom do meu chamado, sinto a mesma emoção, os mesmos sentimentos. Lembro perfeitamente e com detalhes p.ex. o banco onde estava, o padre, o horário, o 'toque' do Senhor. Hoje como padre franciscano durante algumas missas que celebro, sinto às vezes essa necessidade de dizer: "Meu irmão, minha irmã, essa missa vai mudar a sua vida". Aquela missa mudou a minha vida para sempre.
Desde esse dia, procurei discernir esse chamado. No entanto, nunca tive pressa. Em seguida a esse acontecimento, procurei o padre para me orientar. Lembro-me que ele não me deu muita importância. Disse-me: "Vamos aguardar". No entanto, o desejo em mim de entender tudo aquilo era muito grande. Comecei a escrever para o jornal da Diocese, revistas especializadas, etc. Por incrível que pareça até hoje não recebi nenhuma resposta. Mas Deus tem os seus caminhos...
Nesse meio tempo, estava trabalhando na Bloch Editores. Um dia, na correspondência que veio para o meu setor, encontrei uma revista endereçada a mim. O nome da revista era Cavalheiro da Imaculada, dos Frades Franciscanos Conventuais de Brasília. Um detalhe: até hoje não descobri quem fez a assinatura para mim. Só sei que a revista veio na hora e no momento certo. Disso tenho certeza!
Na última página da referida revista, vinha um artigo com fotos intitulado: "Conhecendo a vida no Seminário". Tenho até hoje esse exemplar. Foi a partir daí que comecei a fazer contato. Nem sabia o que era frade franciscano conventual. Porém, no meu coração tudo apontava que esse era o caminho. Escrevi uma, duas, três, quatro cartas e nada de resposta. Continuava firme no propósito. Nesse meio tempo, talvez na ânsia de conhecer um frade, fui parar no Convento Santo Antonio do Largo da Carioca-RJ. Lá procurei um frade que pudesse me orientar. Saí de lá com a data do encontro. Porém no dia, ou melhor, na porta do Convento desisti. Alguma coisa me dizia que não era lá. Continuei esperando uma resposta de Brasília. Passados alguns meses, o frade animador vocacional me escreveu. Pediu inúmeras desculpas por não ter respondido minhas cartas. Ao final daquela carta me passou o endereço do centro vocacional dos franciscanos conventuais no Rio de Janeiro. Naquela mesma tarde, uma sexta.feira, procurei fazer contato. Na carta havia somente o endereço, mas a vontade de estabelecer logo um contato era maior. Com a ajuda do auxilio a lista, consegui o telefone. Quem me atendeu foi o Fr. José Luiz que logo me informou o nome e o telefone do frade animador vocacional. À noite, liguei para o seminário na Rua Estrela, n.14.
Fr. Jorge Fernando, o animador vocacional, me atendeu prontamente. No sábado a tarde lá estava eu. Coração batendo acelerado, um pouco nervoso, bastante ansioso. No caminho de minha casa para o seminário, fui imaginando como seria o convento, os frades, a comunidade. Em minha mente imaginava encontrar um convento antigo, frades idosos e de hábito. Para minha surpresa, Fr. Jorge se apresentou de calça, camiseta e sandálias havaianas.
A comunidade dos frades era totalmente formada por jovens. Algo logo me chamou atenção: eram todos muito alegres e acolhedores. Conversamos bastante e logo após fomos ao refeitório tomar um lanche. Saí de lá com uma certeza no coração: ali era o meu lugar. Dois meses depois estava fazendo meu primeiro encontro de discernimento vocacional. Como cheguei no segundo semestre teria que esperar mais um ano até finalmente entrar para o seminário. Embora minha vontade primeira fosse logo entrar, o tempo de mais um ano foi muito bom para mim. Em janeiro de 1995 entrei para o postulantado em Andrelândia-MG. A partir daí foram se seguindo as demais etapas formativas.
Neste ano do Senhor de 2007 faz quatorze anos que esta história começou. Nesse tempo, aconteceram muitas coisas... Muitos altos e baixos, momentos fortes de crise, de falta de perspectiva em relação ao meu futuro como religioso, momentos fortes de alegria, de fraternidade, de fidelidade e infidelidade, de constatação de que vale a pena sim ser religioso franciscano conventual, momentos fortes de Deus em minha vida de consagrado. De tudo isso tenho uma certeza: a mão de Deus nunca me faltou. Sua misericórdia sempre me abraçou embora em algumas vezes não fosse capaz de compreender.
Por isso sempre digo aos que vem se aconselhar comigo ou aos meus formandos: 'Faça de todos esses momentos um aprendizado. Tire uma lição para sua vida. Faça disso tudo uma ponte, um caminho de crescimento na sua vida espiritual, fraterna e comunitária. Não tenha medo! Coragem! Ele te chama, levanta-te!'.
Tive a graça nesses anos, desde os meus primeiros votos, de trabalhar com os jovens vocacionados a nossa vida franciscana. Foram oito anos neste serviço. Sempre uma alegria em receber aqueles que querem compartilhar a vida franciscana conosco no ideal do Pai São Francisco.
Desde 2005 exerço a função de formador dos postulantes. É uma grande graça de Deus na minha vida trabalhar com esses jovens. Junto a eles me sinto pai, irmão. Posso dizer que sou muito feliz em realizar este trabalho para a minha Custódia. É uma maneira de dizer a Deus, a Ordem que me acolheu e formou, para os meus confrades, o meu muito obrigado por tudo.
Bom, eu teria algo mais a dizer. Como disse, essa história começou e está sendo escrita. Quem sabe não estaria aqui uma convocação de Deus para eu continuar a escrevê-la?
Neste momento peço a Deus e a Virgem Imaculada apenas uma coisa: que eu continue escrevendo essa história ao longo de minha existência e vivência franciscana.
Minha pena seja o Espírito Santo, a cada linha escrita eu aprenda com os erros e os acertos e não tenha a tentação de apagá-los, o final desta história eu conclua no seio da Santíssima Trindade e com a benção do Pai São Francisco de Assis.  A todos que lerem essa breve história, orai por mim.


                                                                       Fr. Robson Malafaia Barcellos, ofm conv.
Caríssimo irmão (ã), o Senhor te dê a paz!

Meu nome é Frei Robson Malafaia Barcellos, ofm conv. Eu sou o segundo filho do casal Mariza Malafaia Barcellos e Gracil Rodrigues Barcellos (in memorian). Nasci em Duque de Caxias-RJ, no dia 15 de agosto de 1969, dia em que a Igreja celebra na sua liturgia a Assunção de Maria.
Minha vida é permeada dos sinais de Deus! Conta minha mãe que no dia seguinte ao meu nascimento, umas Irmãs vieram visitá-la. Quando me viram, disseram que se tratava de uma 'criança especial aos olhos de Deus'. Por isso, apresentaram a minha mãe uma estampa da Virgem pedindo a ela que me entregasse somente quando estivesse 'em idade de compreender as coisas'. O que aconteceu mais tarde. Nesse momento compreendi que a Virgem me acompanharia em todos os momentos de minha vida. Coincidência ou não, a Senhora me levou até sua igreja onde celebrei minha primeira missa como neo-sacerdote em Andrelândia-MG. Guardo até hoje comigo esta estampa como sinal da proteção da Virgem Imaculada.
O chamado do Senhor em minha vida, aconteceu bem cedo. Lembro-me - embora bem pequeno - o dia em meu pai levando-me ao cinema para assistir o filme Marcelino Pão e Vinho eu disse: "Pai, quando eu crescer eu quero ser igual a esses homens". Mais tarde revendo o filme, me dei conta de que os homens a que eu me referia eram os frades que adotaram o pequeno Marcelino. Um dia visitando a Igreja de Nossa Senhora da Glória no bairro do mesmo nome no Rio de Janeiro, disse a minha mãe que eu queria ser "igual aquele homem no altar". E assim fui crescendo...
Ainda mais tarde, através de uma enfermidade de minha mãe, aproximei-me mais da Igreja. Esse momento foi decisivo! Ali, na Catedral de Santo Antônio em Duque de Caxias-RJ, senti forte o chamado de Deus. Lembro-me como se fosse hoje...
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