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E D I T O R I A L
CRITICA MEDICINA®

Brasil, 15 de febrero de 2004.

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DESMITIFICANDO A MEDICINA
(publicado hoje Jornal ZH)

ALOYZIO ACHUTTI / Membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
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A criação de um mito em torno da medicina pode reforçar as fantasias de onipotência do médico e traz uma exagerada sensação de segurança para o cliente.

O preço que se paga é elevado: o profissional pode perder a visão dos limites de sua competência, prescindindo da participação do paciente no processo; e este, por sua vez, pode se acomodar na passividade, esperando um milagre do médico que, por ter sido colocado numa esfera sobre-humana, não fica sujeito a nenhuma das comuns vicissitudes, incluindo a incerteza e a necessidade de ganhar algum dinheiro para seu sustento.

O jogo da mitificação acompanha a humanidade desde todo o sempre. Tudo aquilo que assusta ou causa apreensão pelo desconhecido ou pelo risco iminente, é depositado num reino mitológico onde, por sua vez, seus porteiros facilmente se inebriam com o eventual exercício do poder. Em qualquer parte pode-se observar a busca e a exploração do mítico e do fantástico.

As maravilhosas conquistas das ciências biológicas que a medicina aplica na compreensão da vida, no diagnóstico das doenças e na busca de recursos para a prevenção e tratamento, dependem da experiência e da arte do médico e da participação do paciente na tomada da decisão mais adequada. Este estonteante desenvolvimento científico dá lugar a um mito, a uma ilusão de que já se sabe quase tudo, quando, ao contrário, a cada descoberta, se desvenda quanto ainda falta conhecer e, quanto do que se sabia, era incompleto ou inadequado.

Por outro lado, embora ciência biomédica seja essencial para uma boa prática, não é sinônimo de medicina, e seu avanço aumenta o número de opções entre as quais é preciso escolher o melhor caminho, o que demanda tempo, bom senso, experiência e conhecimento do paciente para se adequar à sua realidade.

Não existem algoritmos decisórios de aplicação automática, computadorizada ou mística. O médico e seu paciente precisam se orientar dentro do emaranhado que se abre frente a cada situação nova e concreta. É neste processo que se desenvolveu a medicina, e não existem atalhos que possam reduzir custos ou aumentar os lucros da intermediação, sem desfigurar a medicina ou colocar em risco seus reais objetivos e a saúde do paciente.

Na competição pelo mercado, e pelo interesse no faturamento paralelo, a propaganda de muitas entidades que utilizam o trabalho médico freqüentemente reforça a tendência ao exagero na expectativa do paciente expondo-o a frustrações futuras.

O currículo médico precisa estender a discussão para além da ciência e tecnologia tradicionais, precisa sair da torre de marfim e trabalhar também tópicos de economia, política, sociologia, organização e gerenciamento do trabalho profissional, ética e jurisprudência.

Quem, afinal, vai regular o tipo de formação médica necessária, não será a universidade, mas a clientela. Enquanto a demanda for de milagres, cercados de parafernália tecnológica, sem considerar seus custos, necessidade de participação e interação mais demorada com um profissional responsável e humano, estaremos sujeitos a vagar sem controle por um reino mítico, nebuloso e cheio de incertezas, não mais orientado pela ética médica, mas por interesses secundários desvinculados do pacto primordial e simples, paciente-médico.
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Aloyzio Achutti
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