SOBRE A CRIATIVIDADE INFANTIL
Podemos perceber com facilidade, que as crianças são muito criativas e curiosas. Exploram com grande prazer o mundo ao seu redor. Nos seus primeiros anos não cansam de surpreender-nos com suas conquistas, iniciativas, desenhos, pensamentos e brincadeiras. Entretanto é de conhecimento geral, que com o tempo esta criatividade efervescente vai sendo gradativamente perdida, as vezes resultando em adultos totalmente "apagados", sem entusiasmo e sem criatividade. Desejando um futuro criativo e feliz para nossas crianças, é da maior importância procurarmos entender por que isso acontece. Com este objetivo, transcrevo abaixo alguns parágrafos do livro O Espírito Criativo, de Daniel Goleman, Paul Kaufman e Michael Ray, edição brasileira da Editora Cultrix, que trata esse assunto com muita competência e de forma muito agradável. Vale a pena ler o livro.
" Se a criatividade é uma condição natural da criança, o que acontece na passagem para a maturidade? Muitos de nós nos reconheceremos na triste história da pequena Teresa Amabile, hoje uma especialista em criatividade. "Eu estava no jardim-de-infância e minha querida professora, a Sra. Bollier, viera ter com a minha mãe uma conversa de fim de ano. E, é claro, eu tentava ouvir essa conversa do quarto ao lado." Teresa espantou-se quando a Sra. Bollier disse a mãe : "Acho que Teresa revela um imenso potencial para a criatividade artística e espero que o desenvolva com o passar dos anos." "Eu não sabia o que era a tal criatividade, recorda ela, mas soou como uma coisa muito boa, sem dúvida. Lembro-me de que corria todos os dias para a escola, muito excitada ante a perspectiva de postar-me diante do cavalete para brincar com aquelas tintas brilhantes e os grandes pincéis que possuíamos. Havia também uma mesa com material de arte à nossa disposição. De volta a casa, dizia a mamãe que queria brincar com lápis de cor, desenhar, pintar." Infelizmente, o jardim-de-infância estava fadado a ser o ponto alto da carreira artística de Teresa. No ano seguinte, foi matriculada numa escola rigorosa e tradicional, e as coisas começaram a mudar.
OS ASSASSINOS DA CRIATIVIDADE
As pressões psicológicas que inibem a criatividade da criança ocorrem bem cedo na vida. Muitas crianças do jardim-de-infância, da pré escola e mesmo do primeiro ciclo gostam da escola. Interessam-se por aprender e explorar. Mas quando estão na terceira ou quarta série, poucos a apreciam ou sentem prazer com a própria criatividade. A Dra. Amabile identificou, em sua pesquisa, os principais assassinos da criatividade: Vigilância: rondar as crianças, fazendo-as sentir que estão sendo constantemente observadas enquanto trabalham. Sob observação constante, a criança não mais assume riscos e o impulso criativo se retrai. Avaliação: consiste em fazer as crianças se preocuparem com o julgamento alheio de seu trabalho. Elas devem, primariamente, ficar satisfeitas com suas realizações, em vez de se inquietarem com avaliações, notas ou opiniões de colegas. Recompensas: uso excessivo de prêmios, como medalhas, dinheiro ou brinquedos. Em excesso, as recompensas privam a criança do prazer da própria atividade criativa. Competição: consiste em colocar a criança na contingência desesperada de vencer ou perder, quando apenas uma galgará o topo. Deve-se consentir que a criança progrida segundo seu proprio rítmo. (Existem, é claro, competições saudáveis que fortalecem o espírito de grupo ou equipe,...) Controle excessivo: dizer às crianças, minuciosamente, o que devem fazer - sua tarefa de casa, seu trabalho doméstico e até as suas brincadeiras. Pais e professores freqüentemente confundem esse tipo de micro gerenciamento com seu dever de instruir. Isso leva a criança a sentir que toda originalidade é um erro, toda exploração uma perda de tempo. Restrição de escolhas: dizer às crianças quais atividades devem empreender em vez de deixar que se encaminhem para onde as levam a curiosidade e a paixão. O melhor é permitir que escolham o que lhes interessa e apoiar essa inclinação. Pressão: alimentar esperanças grandiosas quanto ao desempenho da crianças. Por exemplo, os regimes de força, que obrigam as crianças menores a aprender o alfabeto ou a aritmética antes que tenham real interesse podem facimente produzir resultado contrário e despertar nelas verdadeira aversão pela matéria imposta.
Um dos piores assassinos da criatividade, porém, é mais insidioso e tão enraizado na nossa cultura que poucos o notam. Refere-se ao tempo.
Se a motivação intrínseca é uma das chaves para a criatividade da criança, o elemento principal para seu cultivo é o tempo: tempo livre para que ela saboreie e explore uma dada atividade ou material, tornando-os coisa sua. Talvez um crime hediondo que os adultos cometam contra a criatividade de uma criança seja surrupiar-lhes esse tempo. De um modo mais natural que os adultos, as crianças entram nesse estado de criatividade absolutas que é o fluxo, no qual a absorção total engendra o maximo de prazer e originalidade. No fluxo, o tempo não importa, existe apenas o momento atemporal. Trata-se de um estado em que as crianças se sentem mais à vontade que os adultos, pois estes se dão mais conta da passagem do tempo. "Um dos ingredientes da criatividade é o tempo ilimitado" , afirma Ann Lewin, diretora do Capital Children's Museum em Washington, D.C. O museu da criança é um espaço criado para mergulha-las no estado de fluxo. Mas, como Lewin observa ali, diariamente, há grande diferença entre os rítmos das crianças que comparecem e dos adultos que as acompanham... ... Nada pior que ser interrompido no meio de um processo. O problema é que vivemos com pressa, por isso as crianças são repetidamente impedidas de completar os seus trabalhos. Ficam sujeitas a programações e não tem tempo de obedecer ao próprio rítmo... ... Não é apenas nas excursões aos museus que o tempo de adultos e crianças se revela conflitante. Observem uma criança brincando num monte de areia: ela enche o balde e o esvazia;enche-o de novo e novamente o esvazia, e assim vai. "O pai, que apenas quer preparar a argamassa, fica maluco ao ver isso, diz Lewin." O adulto tem em mente um produto final, qualquer que seja a atividade, e toda ação que o desvie desse fim parece inútil e, portanto, frustante." A cultura da pressa significa que, constantemente, o adulto aparece no exato momento criativo em que a criança está prestes a dominar o que faz - e põe tudo a perder. Há o sino da escola, que interrompe os trabalhos; a urgência das atividades extracurriculares; a agenda dos pais roubando o tempo das crianças, que disparam pela vida afora sem desdobrarem no ritmo natural. Isso, mais que qualquer outra coisa, esmagará a criatividade." O Espírito Criativo, de Daniel Goleman, Paul Kaufman e Michael Ray, edição brasileira da Editora Cultrix |