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"Conhecido pela autoria de uma das mais lidas traduções da Bíblia em
português, ele teve uma vida movimentada e morreu sem terminar a tarefa
que abraçou ainda muito jovem."
Entre a grande maioria dos evangélicos do
Brasil, o nome de João Ferreira de Almeida está intimamente ligado às
Escrituras Sagradas. Afinal, é ele o autor (ainda que não o único) da
tradução da Bíblia mais usada e apreciada pelos protestantes brasileiros.
Disponível aqui em duas versões publicadas pela Sociedade Bíblica do
Brasil - a Edição Revista e Corrigida e a Edição Revista e Atualizada - a
tradução de Almeida é a preferida de mais de 60% dos leitores evangélicos
das Escrituras no País, segundo pesquisa promovida por A Bíblia no Brasil
(ver número 158).
Se a obra é largamente conhecida, o mesmo não
se pode dizer a respeito do autor. Pouco, ou quase nada, se tem falado a
respeito deste português da cidade de Torres de Tavares, que morreu há 300
anos na Batávia (atual ilha de Java, Indonésia). O que se conhece hoje da
vida de Almeida está registrado na "Dedicatória" de um de seus livros e
nas atas dos presbitérios de Igrejas Reformadas (Presbiterianas) do
Sudeste da Ásia, para as quais trabalhou como pastor, missionário e
tradutor, durante a segunda metade do século XVII.
De acordo com esses registros, em 1642, aos 14
anos [nasceu em 1628], João Ferreira de Almeida teria deixado Portugal
para viver em Málaca (Malásia). Ele havia ingressado no protestantismo,
vindo do catolicismo, e transferia-se com o objetivo de trabalhar na
Igreja Reformada Holandesa local.
Tradutor aos 16 anos
Dois anos depois [aos 16 anos
de idade, somente!], começou a traduzir para o português, por iniciativa
própria, parte dos Evangelhos e das Cartas do Novo Testamento em espanhol.
Além da Versão Espanhola [de Reyna, 1569], Almeida usou como fontes nessa
tradução as Versões Latina (de Beza), Francesa [Genebra, 1588] e Italiana
[Diodati 1641] - todas elas traduzidas do grego e do hebraico. Terminada
em 1645 [quando Almeida tinha somente 17 anos], essa tradução de Almeida
não foi publicada. Mas o tradutor fez cópias à mão do trabalho, as quais
foram mandadas para as congregações de Málaca, Batávia e Ceilão (hoje Sri
Lanka). Mais tarde, Almeida tornou-se membro do Presbitério de Málaca,
depois de escolhido como capelão e diácono daquela congregação.
No tempo de Almeida, um
tradutor para a língua portuguesa era muito útil para as igrejas daquela
região. Além de o português ser o idioma comumente usado nas congregações
presbiterianas, era o mais falado em muitas partes da Índia e do Sudeste
da Ásia. Acredita-se, no entanto, que o português empregado por Almeida
tanto em pregações como na tradução da Bíblia fosse bastante erudito e,
portanto, difícil de entender para a maioria da população. Essa impressão
é reforçada por uma declaração dada por ele na Batávia, quando se propôs a
traduzir alguns sermões, segundo palavras, "para a língua portuguesa
adulterada, conhecida desta congregação".
Perseguido pela
Inquisição, ameaçado por um elefante
O tradutor permaneceu em Málaca até 1651 [23
anos de idade], quando se transferiu para o Presbitério da Batávia, na
cidade de Djacarta. Lá, foi aceito mais uma vez como capelão, começou a
estudar teologia e, durante os três anos seguintes, trabalhou na revisão
da tradução das partes do Novo Testamento feita anteriormente. Depois de
passar por um exame preparatório e de ter sido aceito como candidato ao
pastorado, Almeida acumulou novas tarefas: dava aulas de português a
pastores, traduzia livros e ensinava catecismo a professores de escolas
primárias. Em 1656 [aos 28 anos], ordenado pastor, foi indicado para o
Presbitério do Ceilão, para onde seguiu com um colega, chamado Baldaeus.
Ao que tudo indica, esse foi o período mais
agitado da vida do tradutor. Durante o pastorado em Galle (Sul do Ceilão),
Almeida assumiu uma posição tão forte contra o que ele chamava de
"superstições papistas", que o governo local resolveu apresentar uma
queixa a seu respeito ao governo de Batávia (provavelmente por volta de
1657). Entre 1658 e 1661, época em que foi pastor em Colombo, ele voltou a
enfrentar problemas com o governo, o qual tentou, sem sucesso, impedi-lo
de pregar em português. O motivo dessa medida não é conhecido, mas
supõe-se que estivesse novamente relacionado com as idéias fortemente
anti-católicas do tradutor.
A passagem de Almeida por Tuticorin (Sul da
Índia), onde foi pastor por cerca de um ano, também parece não ter sido
das mais tranqüilas. Tribos da região negaram-se a ser batizadas ou ter
seus casamentos abençoados por ele. De acordo com seu amigo Baldaeus, o
fato aconteceu porque a Inquisição havia ordenado que um retrato de
Almeida fosse queimado numa praça pública em Goa.
Foi também durante a estada no Ceilão que,
provavelmente, o tradutor conheceu sua mulher e casou-se. Vinda do
catolicismo romano para o protestantismo, como ele, chamava-se Lucretia
Valcoa de Lemmes (ou Lucrécia de Lamos). Um acontecimento curioso marcou o
começo de vida do casal: numa viagem através do Ceilão, Almeida e Dona
Lucretia foram atacados por um elefante e escaparam por pouco da morte.
Mais tarde, a família completou-se, com o nascimento de um menino e de uma
menina.
Idéias e personalidade
A partir de 1663 (dos 35 anos de idade em
diante, portanto), Almeida trabalhou na congregação de fala portuguesa da
Batávia, onde ficou até o final da vida. Nesta nova fase, teve uma intensa
atividade como pastor. Os registros a esse respeito mostram muito de suas
idéias e personalidade. Entre outras coisas, Almeida conseguiu convencer o
presbitério de que a congregação que dirigia deveria ter a sua própria
cerimônia da Ceia do Senhor. Em outras ocasiões, propôs que os pobres que
recebessem ajuda em dinheiro da igreja tivessem a obrigação de
freqüentá-la e de ir às aulas de catecismo. Também se ofereceu para
visitar os escravos da Companhia das Índias nos bairros em que moravam,
para lhes dar aulas de religião - sugestão que não foi aceita pelo
presbitério - e, com muita freqüência, alertava a congregação a respeito
das "influências papistas".
Ao mesmo tempo, retomou o trabalho de tradução
da Bíblia, iniciado na juventude. Foi somente então que passou a dominar a
língua holandesa e a estudar grego e hebraico. Em 1676, Almeida comunicou
ao presbitério que o Novo Testamento estava pronto. Aí começou a batalha
do tradutor para ver o texto publicado - ele sabia que o presbitério não
recomendaria a impressão do trabalho sem que fosse aprovado por revisores
indicados pelo próprio presbitério. E também que, sem essa recomendação,
não conseguiria outras permissões indispensáveis para que o fato se
concretizasse: a do Governo da Batávia e a da Companhia das Índias
Orientais, na Holanda.
Exemplares destruídos
Escolhidos os revisores, o trabalho começou e
foi sendo desenvolvido vagarosamente. Quatro anos depois, irritado com a
demora, Almeida resolveu não esperar mais - mandou o manuscrito para a
Holanda por conta própria, para ser impresso lá. Mas o presbitério
conseguiu parar o processo, e a impressão foi interrompida. Passados
alguns meses, depois de algumas discussões e brigas, quando o tradutor
parecia estar quase desistindo de apressar a publicação de seu texto,
cartas vindas da Holanda trouxeram a notícia de que o manuscrito havia
sido revisado e estava sendo impresso naquele país.
Em 1681, a primeira edição do Novo Testamento
de Almeida finalmente saiu da gráfica. Um ano depois, ela chegou à
Batávia, mas apresentava erros de tradução e revisão. O fato foi
comunicado às autoridades da Holanda e todos os exemplares que ainda não
haviam saído de lá foram destruídos, por ordem da Companhia das Índias
Orientais. As autoridades Holandesas determinaram que se fizesse o mesmo
com os volumes que já estavam na Batávia. Pediram também que se começasse,
o mais rápido possível, uma nova e cuidadosa revisão do texto.
Apesar das ordens recebidas da Holanda, nem
todos os exemplares recebidos na Batávia foram destruídos. Alguns deles
foram corrigidos à mão e enviados às congregações da região (um desses
volumes pode ser visto hoje no Museu Britânico, em Londres). O trabalho de
revisão e correção do Novo Testamento foi iniciado e demorou dez longos
anos para ser terminado. Somente após a morte de Almeida, em 1693, é que
essa segunda versão foi impressa, na própria Batávia, e distribuída.
Ezequiel 48.21
Enquanto progredia a revisão do Novo Testamento, Almeida começou a
trabalhar com o Antigo Testamento. Em 1683, ele completou a tradução do
Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento). Iniciou-se,
então, a revisão desse texto, e a situação que havia acontecido na época
da revisão do Novo Testamento, com muita demora e discussão, acabou se
repetindo. Já com a saúde prejudicada - pelo menos desde 1670, segundo os
registros --, Almeida teve sua carga de trabalho na congregação diminuída
e pôde dedicar mais tempo à tradução. Mesmo assim, não conseguiu acabar a
obra à qual havia dedicado a vida inteira. Em 1691 [aos 63 anos de idade],
no mês de outubro, Almeida morreu. Nessa ocasião, ele havia chegado até
Ezequiel 48.21. A tradução do Antigo Testamento foi completada em 1694 por
Jacobus op den Akker, pastor holandês. Depois de passar por muitas
mudanças, ela foi impressa na Batávia, em dois volumes: o primeiro em 1748
e o segundo, em 1753.
Fonte:
A Bíblia no Brasil, nº. 160, 1992, p. 14.
www.sbb.org.br/portugues/historia/almeida.html
pr. Celso:
ALMEIDA, VASO ESCOLHIDO POR DEUS,
PARA POR A BÍBLIA EM LÍNGUA PORTUGUESA NAS MÃOS DE MUITOS MILHÕES DE PESSOAS
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