O que Caçapava e Paris tem (ou deveriam ter) em comum.

A sujeira do totó

Paris vai multar o dono de cão que não limpar a rua

Revista Veja 1728 - 28/11/01
Ruth de Aquino, de Paris

O lixeiro de moto: 16 toneladas
 diárias de fezes nas calçadas


A guerra atual do prefeito socialista de Paris, Bertrand Delanoë, não é nada santa – mesmo que a relação entre os parisienses e seus cãezinhos tenha um fervor quase religioso. O inimigo da prefeitura atende pelo nome elegante de la crotte. São as fezes de cachorro, um tema tão polêmico que virou debate político na TV. Não é para menos. O jornal Libération deu o tom numa matéria intitulada "La crotte, mais cara que o caviar", em que mostra como o rastro de sujeira deixado pelos cães consome verbas públicas. Delanoë, o primeiro prefeito de esquerda em Paris nos últimos 130 anos, está apostando numa administração que pune com rigor os pequenos delitos contra a cidadania. O trânsito caótico foi seu primeiro alvo. Agora, é la crotte. Ele se baseia em números impressionantes. Em Paris são:

A ofensiva de Delanoë inclui a contratação de uma "brigada anti-crotte" de 2.000 pessoas para convencer os parisienses a manter as ruas limpas. Funcionários municipais também começaram a distribuir saquinhos plásticos e a explicar às madames dos bairros elegantes como fazer o ramassage – o "recolhimento", que é a nova palavra de ordem do controvertido prefeito. Isso porque nem todos os donos têm o saudável hábito de limpar a sujeira deixada nas ruas por seus cãezinhos, embora boa parte costume levá-los a tiracolo a restaurantes e galerias de arte.

Como não dá para contar só com a boa vontade alheia, Delanoë estipulou multas pesadas para quem não recolher a sujeira de seu totó. A partir de 2002, os réus primários terão de desembolsar 1.200 francos (420 reais). Os reincidentes, 3.000 francos (cerca de 1.000 reais). Além da polêmica com os donos dos cães, a iniciativa da prefeitura vai provocar desemprego. A ameaça paira sobre os moto-crottes, os 140 motoqueiros equipados com um aspirador específico para la crotte. A prefeitura reclama que eles só conseguem aspirar 20% da sujeira despejada pelos cães. Eles rebatem afirmando que têm sempre de mudar de itinerário porque são hostilizados pelos parisienses-sem-cachorro, que os acusam de "não fazer o serviço direito". O contrato dos moto-crottes, lixeiros de motocicleta criados por Jacques Chirac quando era prefeito da cidade, vai até 2004. Depois, não será renovado. Mas, até lá, a campanha anti-crotte promete ser virulenta. E a discussão, escatológica, mesmo em francês


 

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