TEXTOS & PESQUISAS
Aqui estão algumas anotações de minha autoria e, também, de outros autores que me serviram de fonte e inspiração.
Criei este espaço para dar liberdade aos meus pensamentos, idéias, devaneios, catarses e, principalmente, à minha imaginação.
Eu pensei em reunir tudo em um livro, mas, sinceramente, não creio que conseguirei despertar interesse em alguém pela minha obra. Meu desejo de atingir pessoas com este conteúdo é maior que o meu desejo de ser imortal, famoso e rico. ;-)
É possível copiar, imprimir e distribuir tudo que está aqui. Só espero que, pelo menos, os créditos sejam mantidos.
Se algum autor desejar retirar sua obra deste espaço, é só entrar em contato pelos diversos meios aqui disponíveis.
José Carlos Ferrari Jr.
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desde 10 de julho de 2005.
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A MÚSICA NA IGREJA
Trabalhando há muitos anos com corais, percebi, dentro da Igreja Católica, pontos interessantes relacionados com a música litúrgica e que chamaram minha atenção, forçando a realização destas anotações, cujo único objetivo é incitar os dirigentes de coro, coralistas, religiosos, leigos e fiéis para o aprofundamento do tema e percepção da real importância da música no culto católico, para que essas pessoas, de fato, se questionem sobre o direcionamento de seus trabalhos ou simplesmente sobre as músicas que escutam e cantam em suas paróquias.
O que estou escrevendo não passou pela aprovação de nenhuma autoridade eclesiástica por um motivo simples: um dos grandes tesouros da Igreja Católica é a unidade na diversidade, ou seja, ela é única, ainda que sob seu manto cantem os monges beneditinos e a Renovação Carismática. Assim sendo, jamais poderei agradar a todos. Então, apenas escrevo como músico e cristão, Católico, que resolveu aprofundar um pouco mais os estudos sobre música e liturgia. Se meus rabiscos estiverem de acordo com a vontade de Deus, certamente encontrarão guarida em alguns corações. Caso contrário, esquecidos ficarão pelos cantos da vida.
Para iniciar, transcrevo abaixo um texto que ganhei certa vez. Não sei quem é o(a) autor(a), pois na minha cópia esqueceram de citar o nome da obra e quem a escreveu. Já tentei encontrar esses dados, mas, até o momento, não consegui. Minha pesquisa continua e espero, em uma próxima edição, fornecer, com exatidão, a fonte. Talvez, em função disso, surja o questionamento de como posso elaborar um trabalho com base em escritos que talvez sejam “apócrifos”. Ora, o fato de, por enquanto, não ser possível citar a fonte, não tem muita importância, pois, se o texto não existisse, ainda assim minhas idéias seriam expostas pelo que aprendi com a prática, dentro da própria Igreja e que, por coincidência, estão de acordo com o texto que escolhi. Vejamos:
REFLEXÃO SOBRE A MÚSICA NA LITURGIA
Como as demais artes, também da música a Igreja se serve para abrilhantar o culto divino. A música é um dos meios mais dignos de se louvar a Deus, pois, por ser uma arte, ela procura inspirar-se na fonte de tudo que é belo e perfeito. Para ser admitida no serviço de Deus, a música deve tornar-se digna desta grandiosa vocação. Para Deus, só o melhor; para o culto divino, só o que há de mais perfeito. Existe uma música profana, uma música religiosa e uma música sacra. A primeira é arte do mundo, mais ou menos artística, destinada a deliciar os ouvidos e abrilhantar as festividades do mundo. É a música que se ouve nos teatros, nos concertos, nas festas profanas e em lugares de divertimentos. Esta espécie de música não serve para o culto divino e dele está excluída por princípio. Há ainda a música religiosa, que é bem diferente da primeira já mencionada. É uma música mais suave, que mais ou menos traduz os enlevos religiosos e os da alma; são composições que objetivam assuntos religiosos. Esta espécie de música dispõe dos recursos e dos meios de expressão da música profana, e dela tira o que precisa para exprimir o colorido do caráter que lhe é próprio. Há músicas religiosas que podem ser admitidas nas igrejas, o que depende do exame consciencioso de alguém que seja competente nesta matéria. A música sacra é a música própria da Igreja, a música litúrgica oficialmente aprovada e autêntica. A Igreja faz questão de ver observadas suas determinações relativas à música sacra; e grande é a responsabilidade das autoridades eclesiásticas neste particular. A música na Igreja não deve visar outra coisa senão a glória de Deus e a edificação dos fiéis. Admitir músicas profanas e indignas no culto divino é pecado, por ser uma profanação do templo de Deus e um escândalo para os fiéis. Aqueles que devem interessar-se mais de perto pela música sacra, não podem deixar de ler e estudar o Motu Proprio, de Pio X, sobre a música sacra, documento de alto valor, que é considerado o código musical da Igreja Católica.
Com o meu trabalho dentro das igrejas, percebi uma certa confusão. As pessoas hoje, até com o consentimento de alguns Padres, estão misturando tudo: música profana, religiosa e sacra. Ninguém sabe mais o que é cada uma e assim o profano se mistura com o sagrado de maneira lamentável.
O texto diz: “Para ser admitida no serviço de Deus, a música deve tornar-se digna desta grandiosa vocação. Para Deus, só o melhor; para o culto divino, só o que há de mais perfeito”. Alguém discorda? Não. Mas também poucos se negam a cantar músicas de Português sofrível, que fazem parte de discos mundanos. Mercadorias que se transformam em dinheiro. A intenção primeira do autor foi mesmo louvar a Deus ou vender milhões de cópias? Precisamos pensar. Algumas dessas músicas estão no “Louvemos ao Senhor”, um tipo de hinário Católico. Tocam nas igrejas, tocam nos botecos, tocam em qualquer lugar. E aí? Eu não estou dando respostas nem afirmando nada. Quero apenas questionar. Que cada um pare, pense, refleta e tire suas próprias conclusões.
Transcrevo, agora, algumas observações pessoais.
Nas Missas, poucos são os Padres e grupos de canto que escolhem o repertório de acordo com a liturgia.
Essa teoria que prega o fim do coro (aquele lugar suspenso atrás dos Templos, onde os corais cantavam) para que o povo participe mais da Missa, hoje, merece ser questionada, afinal, algumas igrejas só faltam colocar seus grupos de canto em cima do altar, com músicas e instrumentos musicais modernos e, ainda assim, os fiéis continuam indiferentes, apáticos, calados. A boa música religiosa não tem culpa do fracasso de ninguém. Se a Missa, por vezes, é um tédio, então, que os seminários formem melhor os Padres, pois muitos não sabem nem falar nem transmitir com clareza a palavra de Deus, quanto menos orientar o grupo de canto para bem realizar a função a qual se destina.
No mosteiro de São Bento, no bairro de Messejana, em Fortaleza, as Missas são todas acompanhadas por cantos gregorianos, em Latim, e a capela dos monges vive lotada de gente simples, sem muita formação musical. Essas pessoas não entendem nada? Certamente entendem mais as músicas em Latim do que algumas do jornalzinho “O Domingo” que, por vezes, não conseguem passar do teto das igrejas, muito menos chegar aos ouvidos de Deus, no céu. Querem que a assembléia cante? Publiquem e usem um hinário. É muito simples. Enquanto persistir essa troca constante de músicas no jornalzinho para ajudar na venda de impressos e CD’s, o povo continuará calado, indiferente ao estilo popular que esteja sendo introduzido em seus ouvidos, pois, como diz o texto, “admitir músicas profanas e indignas no culto divino é pecado, por ser uma profanação do templo de Deus e um escândalo para os fiéis”.
Muitos grupos de canto, hoje, se posicionam tão perto do altar que contribuem para desviar a atenção dos fiéis. Ao invés de concentrar a atenção no Cristo, no Padre, no altar, as pessoas ficam olhando um desfile de vaidade de músicos que, muitas vezes, usam as igrejas para vender seus trabalhos extensivos a casamentos, aniversários e demais cerimônias festivas.
Que os corais e grupos de canto não fiquem mais no “coro”, tudo bem, mas eles precisam entender que o anonimato valoriza mais o trabalho musical na Igreja. Podemos refletir essa questão, lendo Mateus 6,1: “Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles; de outra sorte não tereis recompensa junto de vosso Pai, que está nos céus”.
Na Catedral de St. Patrick, em New York, até hoje, o Coral canta atrás, no fundo da igreja. E, por mais lindo que seja o que cantam, ninguém sabe quem é o dono da voz maravilhosa que fez um solo ou coisa parecida. Não no momento da Missa.
E quanto aos ritmos? Compor uma música religiosa em ritmo de forró vai agradar mais os fiéis nordestinos? Em ritmo de fandango agradará mais os gaúchos? Que tal se ao invés disso os compositores se preocupassem mais em agradar a Deus? Com certeza, agradando a Deus, tocarão o coração dos fiéis que cantarão as músicas sem se importar com o ritmo escolhido. Sim, pois existem músicas “inspiradas” e “inventadas”. A grande diferença se faz sentir na voz do povo que, livremente, opta em cantar apenas as primeiras.
Imagine uma festa de carnaval com uma orquestra tocando violinos. Parece bobagem, mas cada instrumento, cada timbre, tem uma cor especial que combina com determinado local ou evento. Assim, não subestime o som do órgão (church organ) em uma cerimônia religiosa. Ele ainda é um importante recurso de elevação do espírito.
Atualmente, estão reduzindo a importância da gramática a nada. Letras escritas de qualquer jeito, sem forma, sem rima, sem métrica e, pior, sem mensagem alguma, estão sendo empurradas nos ouvidos de quem tenta louvar a Deus cantando.
Existe paróquia com quase uma centena de pastorais! No entanto, entre esses números, não existe uma pastoral do canto. Como pode isso se a Missa é quase toda MÚSICA? Esse fato mostra bem a importância que essas paróquias dão ao canto litúrgico e explica, até certo ponto, o rumo das coisas. Nelas, a música é apenas “fundo”. Nada mais que isso.
Simplesmente alguns regentes, corais e grupos de canto ignoram coisas simples da música litúrgica como por exemplo:
O ATO PENITENCIAL deve cantar SENHOR, CRISTO, SENHOR (Kyrie, Christe, Kyrie).
O GLÓRIA, embora cristológico, faz alusão à Trindade. Se assim não for, sob o ponto de vista litúrgico, a música não serve. Aquele “Glória” cuja letra diz: “Glória pra sempre ao Cordeiro de Deus, a Jesus, o Senhor, ao Leão de Judá...” não deve ser cantado em uma Missa. Pode ser cantado em um louvor ou adoração, mas não durante o “Glória” em uma Missa.
Vamos comentar todos os cânticos na ordem em que aparecem em uma Missa comum.
1. CANTO DE ENTRADA – Deve ser, sempre que possível, alegre. Um convide à adoração, ao louvor, ao culto.
2. ATO PENITENCIAL – Deve ser cantado com suavidade, com humildade. Não se pede perdão gritando, mas sim, implorando de todo o coração.
3. GLÓRIA – Barulho não significa alegria. Alguns grupos pensam que colocando pandeiro, bateria, cavaquinho, estarão sendo alegres. Nem sempre. A alegria vem de dentro e deve acontecer quando se canta aqui. Cuidado com músicas que não conseguem encaixar a proparoxítona ESPÍRITO e acabam martelando um ESPIRÍTO ou ESPIRITÚ. Estão inventando, no final, dar Glória à Trindade Santa. Por favor! Não cometam esse sacrilégio.
4. SALMO – Deve ser cantado sempre. Se não todo, pelo menos o refrão, com uma “salmodia” simples que possa ser cantada pela assembléia.
5. ACLAMAÇÃO – Você já percebeu alguns cânticos que trazem “Aleluiá”? Que triste! Aclame o evangelho cantando ALELUIA!!! Nunca ALELUIÁ!
6. OFERTÓRIO – Dê preferência a um cântico que esteja de acordo com o momento litúrgico.
7. SANTO – O completo tem Santo, Hosana, Bendito.
8. PAZ – Um canto breve e fraterno.
9. Na hora da consagração não invente nada. Não tem música, nem som, nem ruído aqui.
10. Depois tem o “Amém”. Se possível, cante.
11. COMUNHÃO – Nada de barulho. Tente fazer com que as pessoas possam se encontrar com Deus dentro delas. A viagem deve ser pra dentro. Suavidade, mensagem, conteúdo.
12. AÇÃO DE GRAÇAS – Normalmente, durante este cântico, as pessoas que comungaram ainda estão contritas, em oração. Pense nisso e não as desconcentre, mas contribua, com sua música, para que a oração delas seja mais inspirada. Se quiser e puder, substitua a música pelo mais absoluto silêncio.
13. CANTO FINAL – Alegre, por favor! As pessoas devem sair da igreja com vontade de viver e não de morrer na esquina! Fé, confiança, segurança, alegria! Isso deve ter um bom canto final. Aliás, você sabe o que significa a palavra “MISSA”? Assim diz o Dicionário Aurélio: Verbete: missa [Do lat. tardio missa, f. substantivada do lat. mittere, 'enviar', da fórmula final do ofício religioso: ite missa est.]
Durante uma Missa comum, converse com o Padre sobre onde e como encaixar um canto sobre Maria ou outro Santo qualquer.
Algumas pessoas não se preocupam em ler totalmente a letra de uma música e assim vão encaixando absurdos que não têm nada a ver com nada. Exemplo: “Sobe a Jerusalém” no Natal. A música traz a palavra “Natal” e as pessoas cantam no Natal. Se lessem refletindo o resto da letra, perceberiam que diz “quando Deus morrer” etc. Ora, Ele acabou de nascer e já estão falando na morte? Uma Missa de Natal deve louvar a Jesus Cristo em toda sua plenitude! Deve fazer referência ao plano de salvação de Deus, ao resgate do homem pecador, enfim, deve ser uma Missa de louvor! Alegre! Festiva!
Durante alguns períodos litúrgicos, algumas músicas não devem ser cantadas. Por exemplo: Glória, no Advento. Nesse tempo, se a Missa for festiva, é melhor conversar com o Padre.
Antes de cantar uma música, reflita no que diz a letra. Tem quem diga não ser importante estar ou não a letra correta gramaticalmente, pois o que importa é a mensagem. Não é verdade! Uma letra com erros grosseiros de Português, contribui para deteriorar o idioma, patrimônio cultural de um povo. Não seja cúmplice. Dê preferência para músicas bem escritas e cujas mensagens estejam de acordo com a liturgia.
Em cerimônias religiosas como casamento, aniversário, formatura etc., alguns “católicos”, que só freqüentam a Igreja nessas ocasiões, solicitam aos responsáveis pelo canto, músicas populares, de cinema, de televisão, de novela, enfim. Cabe a você, que faz do seu trabalho musical um instrumento de evangelização, mostrar a essas pessoas que, apenas no hinário “Louvemos”, existem mais de 1000 (mil) músicas apropriadas para qualquer tipo de cerimônia sendo, inclusive, na maioria das vezes, mais bonitas do que muitas dessas músicas mundanas solicitadas. Resumindo: faça tudo que for possível para não cantar música popular dentro do Templo. Hoje existem profissionais cobrando verdadeiras fábulas para profanar os ouvidos de Deus com suas operetas populares. E o pior é que encontram quem pague por essa blasfêmia. A mesma música que toca no bordel e na ópera bufa é tocada dentro da igreja. Existe bom senso nisso?
Que Santa Cecília, a padroeira da Música e dos Músicos, nos inspire, cada vez mais, a louvar melhor a Deus, Nosso Senhor.
ORAÇÃO A SANTA CECÍLIA
Ó gloriosa Santa Cecília, apóstola de caridade, espelho de pureza e modelo de esposa cristã! Por aquela fé esclarecida, com que afrontastes os enganosos deleites do mundo pagão, alcançai-nos o amoroso conhecimento das verdades cristãs, para que conformemos a nossa vida com a santa lei de Deus e da sua Igreja. Revesti-nos de inviolável confiança na misericórdia de Deus, pelos merecimentos infinitos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dilatai nosso coração para que, abrasados do amor de Deus, não nos desviemos jamais da salvação eterna. Gloriosa Padroeira nossa, que os vossos exemplos de fé e de virtude sejam para todos nós um brado de alerta, a fim de estarmos sempre atentos à vontade de Deus, na prosperidade como nas provações, no caminho do céu e da salvação eterna. Amém.
ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS SOBRE SANTA CECÍLIA
Santa Cecília, da nobre família romana dos Metelos, embora vivendo num meio pagão, bem cedo recebeu de Deus a graça de conhecer a religião de Cristo.
Os dotes físicos e morais da jovem parecem ter sido extraordinários. Adepta fervorosa da nova doutrina, o coração virginal, como uma flor aos primeiros raios do astro solar, abriu-se-lhe à luz que veio para iluminar os homens.
De caráter nobre, quanto mais repugnância sentia das abominações pagãs, tanto mais se deixava encantar pela beleza da religião de Jesus. Para nada mais recear do mundo mau, dedicou todo o amor a Jesus Cristo, com quem, como a fidelíssimo Esposo, se ligou pelo voto de castidade.
Tão profunda era a sua convicção religiosa, tão sincera sua dedicação à causa de Jesus, porque nem por um segundo teria hesitado em sacrificar a vida, se a circunstância o exigisse.
Estudava dia e noite o santo Evangelho, de onde se pode deduzir não só o ardente desejo de conhecer cada vez melhor o grande Mestre, o bom Jesus de Nazaré, mas também a resolução firme de modelar o coração pelo Coração Divino, nas virtudes, nas aspirações, no amor.
Quando seus pensamentos se concentravam no objeto de seu amor, Jesus Cristo e a única aspiração que nutria era ser cristã perfeita, os pais de Cecília, sem que a filha soubesse, prometeram-na em casamento a um jovem patrício romano, chamado Valeriano. Se bem que tivesse alegado os motivos que a levavam a não aceitar este contrato, a vontade dos pais se impôs de maneira a tornar-lhe inútil qualquer resistência. Assim se marcaria o dia do casamento e tudo estava preparado para a grande cerimônia.
Da alegria geral que estampava nos rostos de todos, só Cecília fazia exceção. A túnica dourada e alvejante peplo que vestia não deixavam adivinhar que por baixo existia o cilício, e no coração lhe reinasse a tristeza.
Cecília tinha posto toda a confiança em Deus. Um jejum de três dias tinha-lhe servido de preparação para a festa e, em preces ardentes, pedira ao Divino Esposo que lhe defendesse a virgindade. No mesmo empenho tinha se dirigido à Santíssima Virgem e ao santo Anjo da Guarda.
Estando só com o noivo, disse-lhe Cecília com toda a amabilidade e não menos firmeza: “Valeriano, acho-me sob a proteção direta de um Anjo que me defende e guarda minha virgindade. Não queiras, portanto, fazer coisa alguma contra mim, o que provocaria a ira de Deus contra ti”. A estas palavras, incompreensíveis para um pagão, Cecília fez seguir a declaração de ser cristã e obrigada por um voto que tinha feito a Deus de guardar a pureza virginal.
Disse-lhe mais: que a fidelidade ao voto trazia a bênção, a violação, porém, o castigo de Deus. Valeriano vivamente impressionado com as declarações da noiva, respeitou-lhe a virgindade, mas manifestou desejo de ver aquele Anjo a que Cecília se referia, prometendo crer em Jesus Cristo e em sua doutrina se este desejo fosse cumprido. Cecília respondeu-lhe que isso só seria possível se ele se decidisse a receber o batismo. O jovem não opôs a mínima resistência e pediu à noiva que proporcionasse ocasião de ser batizado. Cecília fez com que se dirigisse ao Papa Urbano, o qual bondosamente o recebeu, o instruiu na santa religião e lhe conferiu o sacramento do batismo.
Feito cristão, Valeriano voltou para casa e encontrou a noiva em oração. Qual não lhe foi a surpresa quando, de fato, viu ao lado de Cecília um Anjo, rodeado de celestial esplendor. Uma alegria antes nunca experimentada invadiu-lhe o coração e, pasmo e estupefato, não pode proferir palavras.
Historiadores antigos falam de duas esplêndidas coroas de rosa e lírio de que o Anjo teria cingido os esposos, exortando-os à perseverança. Ambos se prostraram por terra agradecendo a Deus as graças extraordinárias recebidas.
Valeriano relatou ao irmão Tibúrcio o que tinha passado e conseguiu que também este se tornasse cristão. Valeriano e Cecília lhe tinham falado. Não pode ficar em silêncio a conversão dos dois irmãos.
Almáquio, prefeito de Roma, logo dela teve conhecimento. Citou-os perante o tribunal e exigiu peremptoriamente que abandonassem, sob pena de morte, a religião que tinham abraçado. Diante da formal recusa, foram condenados à morte e decapitados.
Também Cecília teve de comparecer na presença do irredutível juiz. Antes de mais nada, foi intimada a revelar onde se achavam escondidos os tesouros dos dois sentenciados. Cecília respondeu-lhe que os sabia bem guardados, sem deixar perceber ao tirano que já tinham achado o destino nas mãos dos pobres. Almáquio, mais tarde, cientificado deste fato, enfureceu-se extraordinariamente e ordenou que Cecília fosse levada ao templo e obrigada a render homenagens aos deuses.
De fato foi conduzida ao lugar determinado, mas com tanta convicção falou aos soldados da beleza da religião de Cristo, que estes se declararam a seu favor, e prometeram abandonar o culto dos deuses.
Almáquio vendo novamente frustrado seu estratagema, deu ordem para que Cecília fosse trancada na instalação balneária do seu próprio palacete e asfixiada pelos vapores d’água.
Cecília experimentou uma proteção divina extraordinária e, embora a temperatura tivesse sido elevada aponto de tornar-se intolerável, a serva de Cristo nada sofreu. Segundo outros, a Santa foi metida em um banho de água fervente do qual teria saído ilesa.
Almáquio recorreu então à pena capital. Três golpes vibrou o algoz sem conseguir separar a cabeça do tronco. Cecília, mortalmente ferida, caiu por terra e ficou três dias nesta posição. Aos cristãos que a vinham visitar dava bons e caridosos conselhos. Ao Papa entregara todos os bens, com o pedido de distribuí-los entre os pobres. Outro pedido fora o de transformar a sua casa em igreja, o que se fez logo depois de sua morte.
No terceiro dia, a bela alma uniu-se ao divino Esposo. O corpo vestido de túnica imperial, foi enterrado no novo cemitério, perto da via Ápia.
As diversas invasões dos godos e lombardos fizeram com que os Papas resolvessem a transladação de muitas relíquias de santos para igrejas de Roma.
O corpo de Santa Cecília ficou muito tempo escondido, sem que lhe soubessem o jazigo.
Uma aparição da Santa ao Papa Pascoal I (817-824) trouxe luz sobre este ponto. Achou-se o caixão de cipreste que guardava as preciosas relíquias. O corpo foi encontrado intacto e na mesma posição em que tinha sido enterrado.
O esquife foi achado em um ataúde de mármore e depositado no altar de Santa Cecília.
Ao lado da Santa acharam seu repouso os corpos de Valeriano, Tibúrcio e Máximo.
Em 1599, por ordem do Cardeal Sfondrati, foi aberto o túmulo de Santa Cecília e o corpo encontrado ainda na mesma posição descrita pelo papa Pascoal.
O escultor Stefano Maderno que assim o viu, reproduziu em finíssimo mármore, em tamanho natural, a sua imagem.
A Igreja ocidental, como a oriental, tem grande veneração pela gloriosa Mártir, cujo nome figura no cânon da santa Missa.
O ofício de sua festa traz como antífona um tópico das atas do martírio de Santa Cecília, as quais afirmam que a Santa, nos festejos do casamento, ouvindo o som dos instrumentos musicais, teria elevado o coração a Deus nestas piedosas aspirações: “Senhor, guardai sem mancha meu corpo e minha alma, para que não seja confundida”.
Desde o século XV, Santa Cecília é considerada padroeira da música sacra. Sua festa é celebrada no dia 22 de Novembro.
(Para outros dados sobre a vida de Santa Cecília, cf. Dom Servilio Conti, O Santo do dia, 4ª. ed. revista e atualizada, Petrópolis, Vozes, 1990, p. 519-522; Alban Butler, Vida dos Santos de Butler, vol. XI/novembro, Petrópolis, Vozes, 1993, p. 207-210)
Nota: Dia 22 de Novembro, dia de Santa Cecília, é o dia da Música e dos Músicos.
“GLÓRIA
A
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A IGREJA E A CASTIDADE
Na recente onda de escândalos sexuais envolvendo religiosos católicos, me causa espanto ler, ver e ouvir diversas opiniões e análises, na maioria, superficiais, sobre o assunto e, principalmente, sobre a castidade.
Quase sempre os articulistas são “ateus” metidos a “cientistas” ou, quando muito, aqueles “católicos” que só entram na igreja em ocasiões das quais não podem fugir, pois que fizeram do comodismo sua religião, justificando que Deus está em todo lugar, inclusive na televisão aos domingos, não sendo capazes de entender que uma visita ao Templo pode ser muito mais para meditar e agradecer do que pedir e sofrer.
Fico preocupado também ao ver os demais religiosos dando explicações tão simplórias quanto a dos acusadores, interlocutores e donos do saber, deixando o povo e os fiéis quase que perdidos e sozinhos no mar de lama, tendo que depositar toda a fé na mão de Deus se não quiserem perecer.
Não pretendo esclarecer o mundo sobre o que está acontecendo, nem muito menos ser o arauto da verdade, já que, como leigo, tenho o direito de estar errado e ser superficial, mas, ainda assim gostaria de convidar as pessoas a uma reflexão, lendo, sem ardor fundamentalista, a Bíblia que, para os que acreditam, é a palavra viva de um Deus vivo e verdadeiro. Nela é possível encontrar razões e respostas para aquilo que o mundo racional não consegue entender nem muito menos explicar.
Vamos considerar o seguinte:
1. A Igreja não sai pelo mundo caçando candidatos a Padre ou Freira, obrigando estas “pobres vítimas” a se trancafiar por décadas em um seminário, tolhendo-lhes a vida sexual de forma compulsória. Com algumas exceções (sempre elas!), entra para a vida religiosa quem se sente chamado e vocacionado. Quem conhece o processo de formação de um religioso sabe quantas vezes o(a) aspirante a tal vida tem a chance de desistir e voltar para a vida normal do mundo a hora e a tempo que desejar, até mesmo depois de ordenado(a).
2. Mesmo com o fim do celibato obrigatório, muitos religiosos continuariam com o desejo de viver a castidade e, assim, consagrar toda sua vida a Deus. Se isso fosse causa de desvio de conduta no que se refere a sexualidade, os de vida sexual ativa não estariam também sendo citados nos recentes casos de pedofilia, sodomia, incesto, entre outros que sorrateiramente acontecem “nas melhores famílias de Londres”. Causas e soluções são assuntos para outra conversa.
Muitas explicações para a existência e manutenção do celibato na Igreja são lançadas pelo mundo afora e, por incrível que possa parecer, muita gente acredita no que escuta. A mais comum delas é a de que, casando o Padre, o patrimônio da Igreja seria diluído em acordos de divórcios, herança etc. Os herdeiros dos Padres brigariam na justiça pela Basílica de São Pedro, pela Catedral de Notre Dame e assim por diante. Fala sério! Essa é hilariante! Vá lá. Que seja verdade. Mas será que também não merece consideração alguma as palavras deixadas na Bíblia, inclusive na dos irmãos Protestantes, escritas na 1ª. carta de São Paulo aos Coríntios, capítulo 7? Como aqui não cabe tudo, transcrevo alguns versículos, grifando que bom mesmo é ler o texto completo na própria Bíblia, para evitar que caia sobre mim a pecha de radical fundamentalista.
Diz:
24 Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado.
28 Mas, se te casares, não pecaste; e, se a virgem se casar, não pecou. Todavia estes padecerão tribulação na carne e eu quisera poupar-vos.
32 Pois quero que estejais livres de cuidado. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor,
33 mas quem é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar a sua mulher,
34 e está dividido. A mulher não casada e a virgem cuidam das coisas do Senhor para serem santas, tanto no corpo como no espírito; a casada, porém, cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido.
35 E digo isto para proveito vosso; não para vos enredar, mas para o que é decente, e a fim de poderdes dedicar-vos ao Senhor sem distração alguma.
36 Mas, se alguém julgar que lhe é desairoso conservar solteira a sua filha donzela, se ela estiver passando da idade de se casar, e se for necessário, faça o que quiser; não peca; casem-se.
40 Será, porém, mais feliz se permanecer como está, segundo o meu parecer, e eu penso que também tenho o Espírito de Deus.
Algumas religiões cristãs permitem o casamento de seus líderes, mas, por outro lado, nenhuma delas tem o sacramento da comunhão e o dogma da transubstanciação. Explico mais adiante este parágrafo.
A Psicanálise difere a sexualidade humana da animal pelo fato de, na primeira, existir o que Freud chamou de “perversão”, aqui entendida de forma diferente da que estamos acostumados a ouvir por aí.
Enquanto no reino animal o ato sexual está resumido à reprodução, na humana vai muito além disso, sendo possível extrapolar os limites genitais, ou seja, um sapato pode ser tão excitante para alguns quanto um pênis ou uma vagina, sendo que o sapato, pelo menos até o momento, não é capaz de gerar outro ser humano. Isto posto, é de se presumir que um sacerdote casado, como qualquer ser humano “quase normal”, não ficará restrito ao ato sexual reprodutivo, embora seja esse o ideal religioso católico pregado para todos os fiéis, mas que sabemos, cumprido por pouquíssimos. Então, como será a dedicação aos fiéis, ao ser humano carente, ao doente, ao enfermo, ou, até mesmo, como será celebrada a Missa no domingo, feita a consagração, a transubstanciação e a distribuição da comunhão pelas mãos e mentes de um sacerdote que passou a noite fazendo coisas, entre quatro paredes, que até Deus duvida? E os problemas familiares? E o futuro dos filhos? E o dinheiro para o sustento da casa? E a mulher? E a sogra? E... Quem assistiu o filme "O Padre", entende melhor este parágrafo.
Não sou inocente e ingênuo para achar que isso não acontece hoje, mesmo com o celibato. Porém, esse é um assunto que será tratado pelo sacerdote diretamente com Deus, um dia. Nem muito menos estou dizendo que sexo é sujo, nojento e pecado. Jamais! No entanto, enquanto católico, prefiro sempre acreditar que, ao comungar, confessar ou simplesmente participar da Missa, estou diante de alguém que, como diz São Paulo, não divide atenções com o mundo, mas cuida e se dedica exclusivamente ao espiritual e a Deus, sendo d'Ele um representante na Terra. Esse é o PADRE, com todas as letras maiúsculas, que todo católico deseja ter em sua paróquia.
No dia que isso não existir mais ou deixar de ser verdade, o mundo não vai acabar, mas também não será mais o mesmo, é claro. Melhor ou pior? Quem viver, verá! Eu espero já estar no céu...
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O DETALHE
Aos meus coralistas, na esperança de que jamais, a cada um, possa escapar o mínimo detalhe de uma obra musical.
Comentário sobre a “Messe de Notre Dame” (Machaut).
“(...) Quero mencionar que são os detalhes que fazem a beleza da arte, por isso a música, a escultura e as demais artes se tornam tão importantes. É o conjunto de detalhes que fazem dessa missa uma pérola, e o mesmo acontece com as demais obras artísticas. Veja uma escultura do barroco, são os detalhes dessa arte que fazem a beleza dos trabalhos. Uma certa vez Michele Angelo estava preocupado com um detalhe em uma de suas esculturas, e aí um transeunte chegou a ele e falou, "... senhor porquê o senhor está tão preocupado com esse detalhe? Afinal nesse local ninguém vai ver, e mesmo que veja, para mim tudo está perfeito..." Aí o artista respondeu: "... caro senhor, para o senhor este detalhe pode não ter a menor importância, mas posso lhe assegurar que para mim este detalhe é crucial para a conclusão desta obra... e mais ninguém sabe como poderia ser, mas eu e Deus sabemos como eu deveria ter feito e se o não fiz minha consciência exigirá que eu termine esta obra nos mínimos detalhes". Só para mostrar que os detalhes são mais importantes do que se imagina. Se observarmos, por exemplo a quinta sinfonia de Beethoven, o pequeno detalhes formado por quatro notas faz surgir uma das mais importantes obras de arte do compositor. São os detalhes que fazem a diferença.” (Maestro Emanuel Martinez).
"Debussy era um artífice imensamente hábil e consciencioso. Levou dez anos escrevendo e reescrevendo até ao último instante sua única ópera, 'Pelléas et Mélisande'. Corre uma história de que quando Gatti-Casazza, diretor-geral do Metropolitan Opera de Nova York, foi a Paris depois do sucesso de Pelléas na esperança de obter os direitos de sua nova ópera, Debussy lhe disse que ainda estava na fase do planejamento.
- Eu posso esperar dois ou três meses - declarou Gatti.
- Dois ou três meses? - exclamou Debussy - Esse tempo eu levo para me decidir entre dois acordes!" (Grandes Mestres da Música)
Quando fiz "master class" de Piano com Arnaldo Cohen, ele disse que ficava horas tentando obter o som perfeito de uma única nota de uma peça musical ao piano.
Que busquemos apurar nossas vozes e ouvidos para que a cor e o detalhe sejam características inexoráveis do nosso coral.
Com um cordial abraço,
Mo. José Carlos Ferrari Jr.
Janeiro/2003
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DIES IRAE
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Dies Irae, Dies Illa,
(Dia de ira,
aquele dia)
(Tudo será
cinza fria)
(Diz Davi, diz
a Sibila)
(Quanto tremor
há de haver)
(Quando o juiz
aparecer)
(Para tudo
examinar)
(Correrão
todos ao trono)
(Quando em
meio ao eterno sono)
(Soar terrível
trombeta)
(A morte e o
mundo se espantam)
(As criaturas
se levantam)
(Para
responder ao juiz)
(Um livro será
trazido)
(No qual tudo
está contido)
(Onde o mundo
está julgado)
(Logo que o
juiz se assente)
(O oculto será
patente)
(Nada impune
ficará).
(Pobre de mim,
que farei?)
(Que patrono
rogarei) (Se o próprio justo se inquieta?) |
Rex Tremendae Majestatis,
(Rei de
terrível majestade)
(Que salvais
só por piedade)
(Só por graça
me salvai)
(Recordai, ó
bom Jesus)
(Fui causa de
Vossa cruz)
(Não me
percais nesse dia)
(A buscar-me
Vós cansastes) (Pela luz me resgatastes) Tantus Labor Sit Cassus. (Não seja vã Vossa obra) Juste Judex Ultionis,
(Juiz de justo
castigo)
(Piedoso para
comigo)
(Perdoai-me
antes do dia) (O meu rosto se enrubesce)
Culpa Rubet
Vultus Meus,
Supplicanti Parce,
Deus!
Et Latronem Exaudisti,
(E ao bom
ladrão escutando)
(Meu pedido
não é digno)
(Mas Vós,
Senhor, sois benigno:) (Não me queime o fogo eterno) |
Inter Oves Locum Praesta,
(No rebanho,
dai-me abrigo)
(Arrancai-me
do inimigo)
(À direita
colocai-me)
(Os malditos
condenados)
(À eterna
chama votados)
(Entre os
benditos, chamai-me)
(Do meu
coração contrito)
(Senhor,
escutai o grito:)
(Tomai conta
do meu fim)
(Lacrimoso
aquele dia)
(Quando em
meio à cinza fria) (Levantar-se o homem, réu)
(Poupai-o, então, Deus do céu) Pie Jesi Domine,
(Bom Senhor,
Jesus piedoso) (Dai-lhes o eterno repouso)
ARQUIVO
www.geocities.com/ferraristudio/
10/02/2005
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DIES IRAE é a "Sequentia"(1) para a Missa de Réquiem. O autor é provavelmente Tomaz de Celano, O.F.M. (+1250), um dos primeiros seguidores de S. Francisco de Assis. Não foi escrito como uma "Sequentia" e possivelmente é uma readaptação de umas linhas preexistentes.
Uns pensam que é o maior poema da época medieval. É uma meditação profundamente emocional sobre o Último Juízo e o desamparo de qualquer homem quando todas as coisas são reveladas. A segunda parte é um apelo delicado à misericórdia do Salvador, lembrando quanto Ele sofreu pelos pecadores e exortando que tanto suplício não seja em vão.
É marcadamente rítmico, com trocaico(2) dímetro(3) e um esquema de rima AAA. Dá a impressão de uma tripla martelada.
As últimas seis linhas não pertencem ao original, mas foram acrescentadas à Missa de Réquiem de corpo presente: Huic ergo parce Deus se refere ao corpo presente na Missa do defunto. Quebram o ritmo, o esquema da rima, e estão fora do lugar.
Diversas Missas de Réquiem têm esta "Sequentia"; por exemplo: as de Mozart e Verdi. Outras obras têm traços do Dies Irae: A Symphonie Fantastique, de Berlioz, a Danse Macabre, de Saint-Saens, e o Totentanz, de Lizt.
(1) Lit. Hino que, na missa, é cantado como continuação do gradual e da aleluia; prosa. [ V. próprio (12).]
(2) Verso formado de troqueus: Pé de verso grego ou latino, constituído de uma sílaba longa e outra breve.
(3) Verso grego ou latino de duas medidas ou quatro pés.
Fonte: Dic. Aurélio Século XXI
Bibliografia: MÚSICA SACRA - SUBSÍDIOS PARA UMA INTERPRETAÇÃO MUSICAL Autor: Thomas Lynch Cullen, SJ
O texto bíblico que inspirou o Dies Irae, encontra-se no livro SOFONIAS, Cap. 1, Vers.14-16
DIES IRAE – Resumo e pesquisa: MAESTRO FERRARI
SUGESTÕES PARA A BOA CONVIVÊNCIA EM GRUPO
1. ESCUTE MAIS, FALE MENOS
2. AO DAR UMA OPINIÃO, FUNDAMENTE SEUS ARGUMENTOS
3. POSICIONAMENTOS POLÊMICOS E DESAGRADÁVEIS DEVEM SER FEITOS COM CAUTELA
4. DEFENDA SEUS PONTOS DE VISTA COM SERENIDADE, LUTE POR SEU DIREITO DE OPINAR, MAS NUNCA DESCONSIDERE AS DECISÕES TOMADAS PELA LIDERANÇA, COM APOIO DA MAIORIA, MESMO QUE SEU POSICIONAMENTO SEJA DIVERGENTE
5. TENTE SE ADAPTAR AO MODO DE SER DO GRUPO. SE NÃO CONSEGUIR, TENTE ADAPTAR O GRUPO AO SEU MODO DE SER. SE NÃO CONSEGUIR, SAIA DO GRUPO
6. NÃO PARTICIPE DE INTRIGAS, FOFOCAS E SIMILARES. ABSTENHA-SE DE TUDO QUE NÃO CONDUZ AO CRESCIMENTO PESSOAL, SOCIAL, INTELECTUAL, ESPIRITUAL E HUMANO
7. NUNCA FAÇA, NO GRUPO, COMENTÁRIOS DESAGRADÁVEIS DE PESSOAS AUSENTES NO MOMENTO
8. NUNCA ESPALHE UMA NOTÍCIA, BOA OU RUIM, SEM ANTES CONFERIR A AUTENTICIDADE DA INFORMAÇÃO
9. RESPEITE A PLURALIDADE DE IDÉIAS, A DEMOCRACIA, O VOTO, O ESPAÇO DE CADA UM E O SEU
10. SIGA O MANDAMENTO MAIOR: AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO. VOCÊ CERTAMENTE TERÁ MENOS ABORRECIMENTO E DIFICULDADE PARA SE RELACIONAR COM QUEM QUER QUE SEJA
JOSÉ CARLOS FERRARI Jr.
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CANTO GREGORIANO
A
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Os neumas
O
Há duas
As
Puctum, Virga, Pes, Clivis, Torculus, Porrectus, Climacus, Scandicus
Punctum
Virga
Virga
e punctum
Pes
Clivis
Os pes,
Torculus
Porrectus
Climacus
Scandicus
O torculus
consiste de
O porrectus é o
O climacus (
O scandicus é o
Neumas liquescentes
Oriscus
É
Quilisma
No
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NOTA SOBRE A PRONÚNCIA DO LATIM
Quando o Império Romano caiu, no século V, o idioma latino perdeu a sua força civilizadora e educadora, dando origem às línguas românicas e a um grande número de dialetos. O empobrecimento cultural não se restringiu somente às camadas populares, e, ao cabo de algumas gerações, a pronúncia do latim ficou inteiramente deturpada.
Já no período de Carlos Magno, no século oitavo, Alcino tentou reorganizar o currículo de estudos e corrigir a má pronúncia do latim. Com a Renascença, no século XVI, autores como Erasmo tentaram voltar ao ideal clássico, mas foram mal informados a respeito da verdadeira pronúncia antiga.
De novo no século XIX, com a restauração do Canto Gregoriano feita pelos Beneditinos de Solesmes, patrocinada e promulgada pelo grande Pontífice Pio X, propagou-se no mundo católico a chamada pronúncia romana. Julgou-se a população da Itália, e mais precisamente a de Roma, a herdeira direta dos antigos romanos. Embora a tentativa de promover a referida pronúncia tenha sido baseada numa falsa premissa histórica, a motivação era perfeitamente válida: unificar a pronúncia do latim litúrgico.
Ainda que sejam louvados os desejos de voltar às antigas normas de beleza e simplicidade, devemos avaliá-los com as outras tendências puritanas. Temos de concordar com aqueles que queiram ouvir a música de Bach tocada com instrumentos antigos, em urna igreja velha e de má acústica? E qual é a pronúncia ideal do latim da música sacra: a da época de Cícero, ou a da época medieval, quando as letras foram escritas?
Se tocarmos um disco com o Canto Gregoriano cantado pelos Beneditinos de Solesmes, ouviremos o celebrante entoar: Credo in Unum Deum com o u claramente francês. Ninguém mais zeloso na restauração da beleza primitiva do Canto Gregoriano que os monges de Solesmes, mas nem eles exageraram a importância da pronúncia. A pronúncia é importante, mas não está acima de tudo.
Quando os católicos de diversos paises tentaram, em reverência ao Papa, imitar a chamada pronúncia romana, o som que causou maiores problemas foi o "c" antes do "e", "i" e "ae". Na frase Dona nobis pacem a palavra pacem era pronunciada patchem.
Os estudos lingüísticos que floresceram no século XIX basearam-se na gramática comparada e na fonética. Demonstraram sem nenhuma dúvida que as letras "c" "k" e "q" têm o mesmo som e a palavra pacem era pronunciada pakem. A chamada pronúncia germânica estava certa.
Gramáticos do século IV escreveram que a letra "k" não tem utilidade porque a letra "c" tem o mesmo valor. Nas inscrições tumulares, às vezes lemos em lugar de Hic Jacet o errado Hic Iakit. O nome de Cícero foi transcrito em grego Kikero, usando o kappa, não o sigma.
Da mesma maneira sabemos que o som de "g" sempre foi duro, como em português tem antes de "a", "o" e "u". É brando antes de "e" e "i"(*).
Todavia, temos de adotar um sistema de pronunciar o latim que seja consistente e em conformidade com o bom gosto. Os ouvidos modernos brasileiros não aceitam o som duro do "kélum" para caelum. Conseqüentemente, adotaremos a pronúncia do latim clássico, com certas exceções.
O alfabeto usado pelos romanos é essencialmente o mesmo usado hoje por nós em português, com algumas exceções. Os romanos não distinguiram o "i" e o "j". O "j" foi introduzido mais tarde para representar o "i" antes das vogais e pronunciado como um "i" apoiando o "u", como na palavra portuguesa "iodo", e tem o mesmo som.
Da mesma maneira o "v" foi introduzido mais tarde, para representar o "u" antes das vogais, enquanto o "u" permaneceu antes das consoantes: navis (navio) e nauta (marinheiro). Os sons foram quase iguais e somente as pessoas cultas sabiam distinguir as diferenças. Hoje, porém, por causa da tradição recente, adotaremos o "v" normal, o labial sonoro português.
Às
As vogais diferenciam-se pelo timbre e pela qualidade. Os romanos usavam vogais longas que correspondem às nossas vogais fechadas, e breves, que correspondem às abertas. Na realidade não há diferença entre as vogais longas e breves nos casos de "a", "i", "u". O "e" longo é vizinho do som da letra "ê"(*) enquanto o "e" breve é semelhante ao ditongo "ae". O "e" breve é igual ao "e" aberto em português, enquanto o "o" longo é igual ao "ô"(*) fechado.
Em latim, os mais freqüentes ditongos eram "ae" e "au", o relativamente raro "oe", e os muito, raros "eu" e "ui". Como os gramáticos romanos nos informaram, chamam-se ditongos porque compreendem dois phthongos, ou vozes. Cada vogal é pronunciada, mas as duas são ligadas entre si e proferidas na mesma emissão de voz. Assim, o "au" e o "eu" pronunciam-se como em português. O "ae" e o "oe" têm o mesmo som, equivalente ao "e" do português. Assim, caelum é pronunciado "sélum".
Certas letras têm o mesmo som em latim e português: "b", a oclusiva bilabial sonora, e "p", a surda; "d" a oclusiva linguodental, e "t" a surda.
Em latim a letra "g" sempre teve o som duro que tem em português quando ocorre antes do "a", "e" e "u". Deve manter o som duro antes do "n" como em "dignus" e "magnificat". Cantando, porém, preferimos seguir com o som mais brando antes das letras "e", "i" e o ditongo "ae". Assim, nugae é cantado "nuje", agimos e "ájimus" e genitum é "jenitum".
Existem certos erros e pronúncias nos quais facilmente poderíamos cair. A letra "x" é sempre pronunciada "ks" e jamais "z". A palavra Exercitus é falada "eksercitus" e não "ezercitus". Devemos evitar também o erro americano: Gloria in excelsis não é "Gloria in egg shellsis" (em inglês "egg shell" é casca de ovo).
As letras "ch" sempre têm o som de "k": pulchra é pronunciada "pulkra". Temos de ter cuidado com a sílaba final do Filioque. Não é o fonema português "que", mas "qüê". Da mesma maneira com a forma da palavra Deum de Deo, o "o" deve ser mantido, e não se deve transformá-lo em "u". Finalmente, as finais "am" não devem ter um som nasal.
Devemos ter cuidado com as letras "ti". Sabemos que depois do tempo áureo, houve um processo de silibação. No século IV o nome Martia foi grafado erroneamente "Marsia", e no século VI o núrnero ordinal tertio era grafado "tersio". Por isso sabemos que as letras "ti" são pronunciadas "si". Natio é falado "nassio", dictio é "diksio". As exceções são quando o som da sílaba anterior termina em "s" (s ou x), nestes casos o "ti" reverte ao som do "t". Assim, adustio é pronunciado "a-dus-tio", e mixtio é "miks-tio".
Embora o som "th" não exista nem em latim nem em português, às vezes a música sacra cita algumas palavras gregas usando a letra theta. Nos Impropérios de sexta-feira da Semana Santa cantamos Agios o Theos... Agios Athanatos e nos Salmos palavras como Cithara. Em Grego o Tau (T) e o Theta (TH) são sons diferentes, mas o Theta não tem o som do "th" em inglês ou o "z" em espanhol. Tem o som do "T" aspirado. A diferença entre os sons do "t" e "th" é tão sutil que não devemos tentar distingui-los. Cantemos o "th" como "t". Finalmente, com o nosso desejo de suavizar o som do latim, cantado, queremos que nas palavras com "ce", "ci" e "cae" o som de "c" seja "ss"; pacem deve ser cantado "passem". Da mesma maneira as letras "cs" em crescere tem o mesmo som "ss": "kressere".
A pronúncia sugerida não é a da época áurea do latim clássico; mas as letras cantadas não foram desta época, porém do tempo medieval. Até a época da Renascença o latim era um idioma vivo, com a capacidade de crescer e se desenvolver, e os poetas e compositores usaram o idioma vivo.
(*)
AUTOR: Pe. THOMAS LYNCH CULLEN, S.J.
Nascido em New York a 19 de Agosto de 1917. Tornou-se Jesuíta em 1935. Bacharel em letras clássicas e Filosofia. Doutor em Física, na área de radioatividade do meio-ambiente, sob a orientação de Victor Hess, Prêmio Nobel de Física e descobridor de raios cósmicos.
O Pe. Cullen,
Participa do
OBS:
Todas as
Arquivo: Ferrari Studio
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José Carlos Ferrari Jr.
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J. Teixeira Coelho Netto (*)
O Amador (aquele que pratica a pintura, a música, o esporte, a ciência, sem espírito de maestria ou de competição), o Amador reconduz seu gozo (amator: que ama e continua amando); não é de modo algum um herói (da criação, do desempenho); ele se instala graciosamente (por nada) no significante; na matéria imediatamente definitiva da música, da pintura; sua prática, geralmente, não comporta nenhum rubato (esse roubo do objeto em proveito do atributo); ele é – ele será, talvez – o artista contraburguês. (ROLAND BARTHES por Roland Barthes, Cultrix, 1977)
Um amigo me chamou a atenção, há algum tempo, para uma proposta de Roland Barthes, hoje já bastante divulgada e repartida – pouco faltando para transformar-se em divisa, palavra de ordem. Numa passagem de sua (espécie de autobiografia, Barthes apresenta o amador como aquele que pratica alguma coisa, arte ou não, sem o espírito de maestria ou de competição, e que está envolvido apenas com seu gozo; que não é um herói, nem da criação nem do desempenho, e que se acomoda graciosamente – isto é, a troco de nada – na matéria da sua ação; e que por tudo isso será, diz ele, o artista contraburguês.
Essa colocação, situada num país de práticas artísticas assentadas em bases sólidas – num país de tradição, enfim, para usar o chavão – talvez seja recebida como mais uma proposta intelectual engenhosa, capaz de estimular a mente por algum tempo. Repetida no Brasil, ela pode ser simplesmente desastrosa. Esta terra (que padece de uma incompetência cósmica, como observou algum tempo Serafim Ponte Grande) está sempre pronta para receber de braços abertos todos os esquemas de simplificação. Ela está sempre pronta para receber, adubar abundantemente e fazer germinar temas como o do cinema novo, para o qual produzir artisticamente era apenas uma questão de ter uma câmara na mão e uma idéia na cabeça. Palavra de ordem imediatamente acolhida e de validade logo reconhecida – pois não é sabido que o brasileiro é um gênio nato? Para que mais do que isso? Uma idéia na cabeça e uma câmara na mão ou um palco ou um violão ou uma folha de sulfite – e mais um gênio se alevanta para curvar a Europa à nossa frente.
Surgiram até discursos ideológicos para defender o esquema embutido naquela palavra de ordem: a técnica, o método, o treinamento, a preparação seriam camisas-de-força que o Sistema (que seria de nós de 64 não tivesse inventado essa palavra?) estabelece para cercear a criação, aburguesar os espíritos, domar as vontades. Tudo isso seriam formas de censura disfarçadas, modos de jogar o artista dentro do circuito burguês (pelo menos uma vez o Brasil precedeu a Europa e Barthes não fez mais do que copiar nossos ideólogos da cultura avançada, não é mesmo?). Além do mais, o Brasil é um país pobre, não existem recursos, não há dinheiro para preparação adequada, a arte possível será a arte da miséria – e a única coisa que fazem, não dá para evitar o previsível jogo de palavras, é a miséria da arte. E mais, aqui tudo é urgente, tudo tem de ser feito já, especialmente a arte de ação social, e portanto não há tempo para preparação alguma: o que deve interessar é o conteúdo, a idéia, a preocupação com a forma é uma preocupação burguesa desses formalistas colonizados que povoam a Ilha da Universidade, até uma criancinha sabe disso, não? Portanto, é já, agora e como der.
Depois, quando estouram as sucessivas e quase contínuas crises de público da arte brasileira, ninguém sabe porque e a primeira coisa que se faz é acusar esse mesmo público de alienado, de capacho da arte multinacional, de desinteressado – e ninguém aceita admitir que o público está mas é cansado de ver filmes nacionais com cenas filmadas fora de foco (e não é culpa da projeção), encenações nacionais com atores que não sabem falar, pinturas de pessoas que pretendem substituir um demorado aprendizado pessoal pela cópia mal feita do que vem de fora. E se a música, a música popular, não sofre processo de rejeição semelhante, é porque, sendo a música talvez a forma por excelência de manifestação artística do brasileiro, somos bem pouco exigentes para com ela. Qualquer coisa vai, qualquer coisa serve – com um empurrãozinho das gravadoras, da TV e do rádio. Mas nada disso fica, nada disso permanece, tudo se transforma em produto de consumo imediato, use e jogue fora, válido até a próxima semana, até o próximo disco, até o próximo programa. Sob esse aspecto, o Brasil é um imenso acampamento de férias juvenil. Melhor: infanto-juvenil. E a culpa não é do público (ou não dele apenas), mas antes de mais nada dos “artistas” da produção instantânea: basta abrir o pacotinho das idéias e mexer num pouco de (escolha um) celulóide-pentagrama-palco-sulfite-pano-etc., etc..
DOMÍNIO DA EXPRESSÃO
A prática artística, no entanto, está longe de tudo isso. O primeiro mandamento do credo poético (entendendo por poética qualquer um dos processos artísticos), que todo produtor deveria saber de cor, já foi enunciado por Ezra Pound: a técnica é a verdade do homem. Ou melhor: “Creio na técnica como prova da sinceridade de um homem”. Ou ainda, recitando Dante por Pound: “Creio que a única coisa de valor seja aquela em que se emprega toda arte” (leia-se: todo engenho, todo o domínio da matéria específica). A poética que se justifica, que atrai, que funciona, que serve, é a resultante de um paciente trabalho de domínio de todas as formas de expressão com ela relacionadas. Toda produção só pode subsistir após um trabalho de controle da matéria. Fora disso, o que há são baboseiras, ideológicas ou não, para justificar a própria incompetência. Um grande domínio da técnica da forma e da técnica do conteúdo é necessário, antes de mais nada, para que os amadores deixem de procurar sobrepor-se aos mestres e se apresentem pelo menos como artesão competentes capazes de justificar a receptividade a que julgam ter direito.
E aqui se volta ao amador de Barthes. Sem dúvida será fundamental apresentar-se despido desse espírito de competição que marca nossos tempos e evitar as armadilhas (quase me escapa os mata-burros) do estrelismo resultante da crença de ser o herói da produção (tão comum na música através do virtuosismo, isto é, da ostentação falsamente pavônica – porque o bicho pelo menos tem de fato algo a mostrar – de uma técnica de pacotilha ou de butique). Mas o “graciosamente” e o tom geral da colocação de Barthes podem resultar na defesa de um empirismo, de um primitivismo poético que está longe de apresentar resultados minimamente satisfatórios. Não se pode de fato entender que o produtor se compraza no tecnicismo de uma execução brilhante, e muito menos que ele transforme sua produção numa caixa registradora (embora Fourier, com seu seu senso de subversão de qualquer valor firmado. seja qual for sua cor ideológica, perguntasse a esta altura candidamente: e por que não?). Ele não deve julgar-se o grande mestre em sua arte – mas tem de dominá-la, tem de conhecer alguns segredos de sua produção, tem de conhecer o caminho principal, os desvios e as rotas paralelas; as coisas que faz não são por nada, ele não é um diletante ou, como disse Barthes, uma senhorita burguesa do século XIX; os fatos da poética não são um passatempo, uma futilidade. Pelo menos não mais do que a vida. Posso até decidir levar uma vida fútil. Mas há uma arte para isso, há uma coerência do que vem a ser uma vida fútil (se eu não quiser simplesmente jogá-la na lata do lixo) e é essa coerência interna que tem de ser dominada. Com isso não se está dizendo que a poética deve levar-se tragicamente a sério: nada mais ridículo do que aquilo que se toma por definitiva e constantemente sério. Mas poética não é cortar as unhas, aparar a grama, colar figurinhas num álbum, jogar bola de gude. Ela pode ser isso às vezes, mas mais do que isso.
BARTHES ADVOGOU EM CAUSA PRÓPRIA
Freqüentemente se pretende estabelecer uma boba oposição entre espontaneidade e técnica, para privilegiar aquela em detrimento desta. A intenção, aqui, é figurar o livre, o vivo, contra o esquema, a camisa-de-força. Mas a esta altura as pessoas já não mais deveriam admitir serem lembradas desta verdade enunciada por Acácio Bragança e Dantas, bisavô do famoso conselheiro: uma poética não nasce da espontaneidade, mas da disciplina. Da disciplina que cria a espontaneidade, da disciplina que é a única fôrma (com circunflexo mesmo) da espontaneidade. Não há contradição nenhuma nisso aí: a existência humana é assim mesmo, formada sobre coisas contraditórias. É o que se chama de dialética. A ciência, se é preciso recorrer a esse mito) já confirmou essa proposta e deu-lhe um rótulo: Acaso & Escolha. Toda produção poética tem uma parcela de acaso que não sobrevive, porém, se não for recebida por uma escolha, por um agenciamento. E não há escolha sem preparação para efetuá-la. Quer dizer, sem disciplina. Disciplina apenas não leva a nada, ou melhor, leva ao tecnicismo, à repetição. Mas sem ela não há criação.
Há ainda uma outra coisa que deveria ser óbvia. Algumas pessoas, como Barthes e Gláuber Rocha, dizem algumas coisas aparentemente simples e propõem simplificações quando já chegaram, interiormente, a um certo nível de complexidade e a um certo domínio de uma prática que lhes permite esses aparentes simplismos (sem falar que, no caso de Barthes, há um evidente gosto pelo jogo com o sentido das palavras que se esgota em si mesmo, embora pretendendo aplicar-se a outras coisas, aparentemente: é o caso do privilégio por ele atribuído ao amador, isto é, amator, aquele que ama, o amigo, o amante, o que continua amando, em oposição ao profissional.
Ainda em relação a Barthes: quando escreveu e publicou sua defesa do amador, praticamente ninguém poderia supor que estivesse advogando em causa própria. Ninguém sabia (ou pelo menos não era público) que Barthes pintava em sua casa (a partir de fevereiro de 1981, sua primeira exposição pública se dará em Roma, com 234 obras). Pelo que se pode ver de algumas poucas reproduções publicadas, Barthes seguramente não é um grande criador, nem inovador, a história da pintura não será perturbada por ele. Mas também ele está longe de ser um pintor de domingo, um pintor da Praça da República: algumas de suas obras “tachistas”, ou expressionistas-abastratas, seriam muito bem colocadas no mercado – coisa que, pelo menos da boca para fora, ele abominaria. Portanto, talvez tenha sido um amador da pintura, mas não no sentido que normalmente se dá a essa palavra, o sentido da improvisação, do desprezo pela técnica, o sentido do “tudo é bom, tudo vale, o que vale é a intenção”. Ainda se poderia admitir o vale-tudo e o laxismo naqueles casos, como de Barthes em vida, em que a pessoa não pretende de modo algum fazer circular sua produção: ele não a exibe, não a oferece, não a troca, apenas usa-a para si mesmo. Mas a partir do momento em que a produção sai dessa esfera, o produtor tem de levar em consideração a expectativa do receptor, que não suporta e não é obrigado a suportar os tartamudeios narcisistas que inundam nossas telas, nossos palcos, nossos livros, nossos ouvidos (nossos, do Brasil) numa proporção bem superior ao máximo admitido por aí.
AMADOR, O QUE DOMINA A MATÉRIA
A comparação não deve ser feita entre o amador e o profissional, mas entre o amador (no sentido comum da palavra) e o perito amator, o que domina a matéria e a ama, gosta do que faz. E esse domínio, ao contrário do que ainda se insiste em divulgar, depende da experiência, do exercício, do saber fazer, do controle de uma tradição da poética visada. Não há ou não deveria haver lugar para a incompetência, a mistificação ou para uma prática da arte equivalente à prática de escovar os dentes ou à pratica da benemerência musical, feita para ilustrar e descontrair como alívio para a indigência cultural. Os discursos, incluindo os ideológicos, que se fazem contra o domínio da matéria, são manifestações tatibitates de espíritos que nunca serão antiburgueses, pelo contrário. Tipicamente burguês é o diletantismo fácil, de efeito. Como todo trabalho de libertação (e não precisa ser libertação coletiva), basta que seja individual, se bem feita), também o de libertação através da arte é um trabalho duro, que se faz aos poucos, através de um aprendizado e um domínio específico.
Fato: quando aquele que pratica alguma coisa, arte ou não, se apresenta em público, convoca um público, surge no mesmo momento o direito básico (devidamente inscrito na Carta dos Direitos do Receptor) que tem todo mundo de esperar que seja ultrapassado um certo limiar de competência, de maestria. O resto é tentativa de diversionismo, ou ilusão de inocentes úteis do, santa palavra, Sistema – isto é, da mediocridade, do supérfluo, da degenerescência.
FIM
1. A Arte da Poesia, São Paulo, Cultrix-Edusp, 1976.
(*) J. Teixeira Coelho Netto, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, é autor, entre outros, dos livros A Construção do Sentido na Arquitetura, o Intelectual Brasileiro: Dogmatismo & Outras Confusões, Em Cena o Sentido (Semiologia do Teatro).
Digitação: Ferrari Studio
http://www.geocities.com/ferraristudio/