O processo de R Eliezer

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Hoje estudamos a primeira parte de um trecho do Talmud Bavel  que compreende o final de Avodah Zarah capítulo 16 e compreende a parte inicial do capítulo 17. Este trecho é a discussão de um processo com sua implicação jurídica e a emissão de um veredicto pelo tribunal rabínico envolvido na época, contudo também trás as mesmas variáveis de um processo secular movido contra importante mestre da época. Aparentemente não se discute [principalmente] sobre conceitos e a doutrina judaica, porém comportamentos que não seriam permitidos pela verdade e a ética e a conseqüente aplicação dos procedimentos cabíveis. Muitas das vezes nos dói em pensar, quanto mais em saber, que as pessoas a quem consideramos podem cometer, e cometem, erros medíocres, embora comum a todos os homens, e que por isso devem ser envergonhados ou punidos muitas das vezes em público. O relato ali contido é do tempo do R Akiva, mas seu protagonista principal é o R Eliezer. Contudo você deve saber que há outras histórias acerca de R Eliezer, porém, não tão impactantes. Mas acompanhemos os relatos procurando absorver um pouco da luz dos sábios e entender o que significam estes comentários. O trecho final do texto diz:

  [16b] Nossos Rabinos ensinaram: Quando R Eliezer foi preso por causa de [Minuth] eles o trouxeram até a tribuna para ser julgado. Disse-lhe o governador, Como um homem de sólidas tradições como você pode se ocupar com essas coisas nulas? Ao que ele respondeu: Submeto-me ao justo Juiz. O governador teve para si essa referencia, entretanto ele se referia ao Pai do Céu, e então diz: Porque me reconheces como justo, eu te perdôo; tu foste absolvido. Quando ele voltou para casa, foram chamar os seus discípulos para o consolar, mas ele não aceitou nenhuma consolação. Disse-lhe então R Akiva: Mestre, permita-me dizer uma coisa sobre o que tens ensinado a mim? Diga isto, respondeu ele: Talvez algum dos que ensinam sobre [Minima - ref a minuth] tem transmitido algo a você[16b] [17a] e aprovastes e por causa disso foste preso?  Ele exclamou: Akiva, tu me tens lembrado. Eu estava entrando uma vez no mercado superior de Sippores quando me encontrei com [um dos discípulos de Jesus o Nazareno por nome] Jacob de Kefar-Sekaniah que me disse:

Está escrito em tua Torah: Tu não deverás trazer o aluguel de uma prostituta para a casa do Senhor teu D’us. Tal dinheiro pode ser aplicado à edificação de um lugar de aposentos para o Sumo Sacerdote?

Para qual pergunta não dei resposta alguma.

Ele então me disse:

Assim eu [Jacob] ensinei [em nome de Jesus o Nazareno] isto: Por meio de contrato de serviço de meretriz ela ajuntou [esse dinheiro] e para o aluguel da meretriz [eles] devem retornar [os valores]. Porquê veio de um lugar imundo, então que voltem de novo para um lugar de imundície.

Essas palavras me agradaram muito e é por isso que fui preso por apostasia [Minuth]; por que assim transgredi o que dizem as escrituras: Remova-a [a prostitua] para longe do seu caminho – o que se refere a Minuthe não pare perto à porta da casa dela – que se refere ao poder governante. [17a]

 A pergunta seria: Qual teria sido o tão grave crime cometido R Eliezer para ser preso? Mas aparentemente ele foi preso pelo poder governante sob suspeita de envolvimento com a heresia na época do conflito entre Romanos e cristãos na palestina em 109ec sob o governo de Trajano, e não que tenha se envolvido de fato, contudo isso lhe custou duras penas de um indício de envolvimento que, pela gravidade, mereceu ir a julgamento secular. O resultado do seu julgamento dá a entender, nas entrelinhas, que ele foi absolvido porque seu comportamento era conhecido e reconhecido pelo governador e uma vez que este, pelas palavras de R Eliezer, vislumbrou que se referia ao seu status, então o absolveu. Uma evidência disso é que o governador lhe faz a pergunta manifestando estranheza quanto ao envolvimento de R Eliezer com os cristãos da época. Contudo não é esta a explicação dada no texto.

 Agora em relação às palavras que o Jacob de Kefar-Sekaniah, dirigiu a R Eliezer, o que se deduz do texto acima deixa implícito que:

1- A proposição do seu questionamento inicial nada tinha haver com o estudo das escrituras e nem estava nisso interessado, pois se assim fosse teria dito: “... em nossa Torah, pois como judeu se igualaria em posição a R Eliezer”, porém diz “... em tua Torah”, onde ficou óbvio que se exclui, na sua doutrina, do contexto da Torah.

2- Ao argumentar sobre o pagamento da prostituta com as palavras “e para o aluguel da meretriz [eles] devem retornar” deixa implícito que: “os valores em dinheiro vindo do contrato de um serviço de prostituição, que afinal viesse parar nas mãos de alguém não poderiam ser aplicados senão no lugar de onde vieram”, pois diz “devem retornar para o aluguel da meretriz”.

 

Numa obra dedicada a R Akiva que também explica o referido nessa gemarah é dado o nome do líder messiânico da época como Jacob Ben Alfa de Segônia. De fato no caso da proposição de número 2, fica uma dúvida se o Jacob se referiu ao retorno do dinheiro para o ambiente de aluguel de prostitutas ou se era para a prostituta pagar o seu aluguel. Certamente nem só em aluguéis uma pessoa, mesmo uma prostituta, aplica seus ganhos mas sim em outras áreas da sua existência. Diante desta dúvida considere as conseqüências, dos ensinos nos moldes dos implícitos nas palavras de Jacob. Talvez não seriam outras senão propor acesso recursivo aos serviços de uma prostituta, ou no melhor dos casos a aplicação do dinheiro assim possuído em outros ambientes de igual imundície! A continuação do texto talmúdico nos dará uma explicação para esta dúvida. Agrava-se a situação quando isso deixa implícito que, tais recursos, fossem parar nas mãos dos oficiais da religião no Templo Santo que por assim dizer, representavam a moral e os bons costumes. Tal discussão iniciada por Jacob de fato não era pertinente e acertou R Eliezer em não dar resposta alguma à pergunta. Contudo errou em admitir que o ensino ministrado por Jacob era bom e lhe tenha sido agradável. Mas há algo que pode ajudar R Eliezer porque o assunto está relacionado com o preceito "Não trazer para sacrifícios o que fora dado como pagamento de prostituta ou pagamento em geral – "Não trareis pagamento de prostituta …" – Dt 23:19. " o que para nós era ao que R Eliezer se referia. É o que diz Michnê Torah nº. 100, embora na época de R Eliezer ainda não havia sido compilada". Ora isso ainda mais exclui o Jacob de Kefar-Sekaniah de um convívio pacífico com os judeus de época. Em relação à punição efetiva da prisão que se aplicou em R Eliezer não é de se estranhar que alguém que concordasse publicamente com tais conceitos de fato seria preso pelo poder secular. Por outro lado, este pequeno texto informativo sobre conceitos cristãos primitivos relativos a Torah não confirma as alegações atuais que os tais cristãos primitivos seguiam a Torah e as tradições sendo a única diferença, como alegam, crer que Jesus fosse o Messias! Seria bom que fosse, pois assim nossa redenção já se teria tornado efetivada. A bem da verdade, estes conceitos errôneos sobre a Torah e o pecado não constituem prática exclusiva daqueles por serem discípulos de Jesus, porque foram observados também em líderes judaicos de grande influência como, por exemplo, Chabtai Tzivi que chegou a afirmar que a Torah havia sido abolida. Também entre cristãos como Paulo de Tarso ensinou que a Torah havia sido abolida, e futuros cristãos que ensinaram a transgressão explícita da Torah, entre muitos figurando principalmente os Hanter...

Na seqüência do texto talmúdico observamos as discussões e o julgamento, agora dos rabinos, sobre a suspeita em que R Eliezer se viu envolvido, sua prisão, bem com o seu veredicto. No final deste comentário será apresentado o conteúdo da obra sobre R Akiva que dilui não apenas os primeiros eventos como também a postura final em que os sábios se encontraram ante a morte do R Eliezer.

  [17a] Há alguns que aplicam a frase, remova-a para longe do teu caminho, para Minuth como também para o poder governante, e não pare perto à porta da casa dela, para uma meretriz. E qual é a distância da pessoa para mantê-la longe? Disse R Hisda: Quatro cúbitos. E para o que disseram os Rabinos da aplicação, do serviço de uma meretriz? Concernente a declaração de R Hisda. Porque R Hisda disse: Toda meretriz que se permite ser contratada até o fim terá que ser contratada, até mesmo como é dito, e nisso tu concedes contrato, e nenhum contrato é dado a você, assim tu com destreza inverteu. O que está ao contrário do que R Pedath disse; porque R Pedath disse: Só no caso de incesto a Torah proíbe aproximação íntima, como é dito, Nenhum de vocês se aproximará a qualquer que é próximo de família para lhe descobrir a nudez.[17a]

 Nesse ponto já observamos que é feita a análise dos méritos da questão que envolve R Eliezer, procurando avaliar e estabelecer parâmetros para um futuro julgamento rabínico da questão, que nos bastidores já se iniciou. É preciso estabelecer minuciosamente se há crime, qual é o crime e como identificá-lo. Nas palavras de R Hisda fica claro sobre o que se pensa sobre uma aproximação da casa de uma prostituta, que ele simbolicamente define como quatro cúbitos, uma medida que representa a distância que vai do cotovelo até a extremidade do dedo médio e que representa mais ou menos 48cm. Diante disso considerando literalmente a opinião de R Hisda, temos, que a medida de segurança entre um homem e uma mulher seria de 1,92m e por inferência algo menos já significaria um ensaio para namoro, evidentemente segundo a opinião do sábio. Pensando bem a distância proposta por R Hisda e tão inconveniente para uma comunicação discreta que realmente significa separação espacial cuja comunicação, se houver, somente poderá ser feita em vós alta e para diálogos extremamente curtos, ou seja; clara e à vista de todos. Evidentemente devemos considerar que a permanência de alguém mais próximo de alguma prostituta poderia afigurar-se como uma negociação para efetivar um contrato dos seus serviços e assim provocar uma dúvida no poder governante com as conseqüentes medidas para apurar as causas. Se isto é válido provavelmente R Eliezer tenha se aproximado ou passado perto da casa de prostituição a menos que uma distância segura e como teria sido visto na companhia de Jacob de Kefar-Sekaniah, foi tido pelo poder secular como suspeito de Minuth.

 Ficam algumas dúvidas aparentemente pertinentes:

Se o que levou a prisão secular de R Eliezer por Minuth indicaria ser prática dos adeptos da doutrina de Jacob a visita às prostitutas? Quais seriam as causas reais da perseguição movida contra os cristãos sob o governo de Trajano?

 Certamente que os sábios usam de alta simbologia entre os dois tópicos da discussão, considerando a doutrina representada por Jacob como o caminho da prostituição; no sentido de se desviar da Torah e a frase “e não pare perto à porta da casa dela”, como estabelecer qualquer tipo de aproximação com a doutrina de Jacob, ou ainda visitar os seus templos.

 Há divergências entre os sábios e a opinião de R Hisda, no caso em que se consolide fisicamente a aproximação íntima e quanto isto é proibido, porque aparentemente R Pedath admite que somente haverá erro quando alguém se aproxima, em termos sexuais, de um parente próximo [Só no caso de incesto a Torah proíbe aproximação íntima]. Contudo sabemos que há outros motivos em que a Torah proíbe a aproximação íntima! Por exemplo: No caso da mulher casada cuja incidência resulta na morte dos adúlteros! Enquanto R Hisda diz que é necessário manter uma distância segura que evite até mesmo a suspeita, como é dito: Não basta apenas ser... é preciso parecer que é ...! Porém segundo R Pedath essa distância é perigosa apenas se for tão próxima como a distância íntima entre um parente próximo e outro. Portanto a opinião de R Pedath é mais flexível, porém passível de suspeita por leigos! Há um indício na omissão de R Pedath sobre a reprovação da Torah quanto a aproximação da mulher casada e para nós isso indica que a discussão gira em torno de simbologia, porém se a aproximação, sobre a qual R Eliezer era agora julgado, era de cunho sexual ou não ganha mais força no próximo parágrafo:

 [17a] Ula quando retornava da escola, usava beijar as mãos de suas irmãs; alguns dizem que era no peito. Então ele se contradiz, porque Ula disse: Qualquer mera aproximação é proibida, porque nós dizemos para um Nazarite; Vá, ande pelas redondezas; mas não se aproxime o vinhedo.[17a]

 Do peito também se conclui como o seio, a mama e o coração, e o vinho é o conhecimento do iniciado conforme a analogia do pão, o azeite e o vinho, que se mostram numa hierarquia de conhecimento espiritual. As relações são de participação íntima e sustento alimentar, assim em relação ao Nazarite não é possível evitar sua presença, porém não se toma do seu vinhedo.

[17a] O cavalo da sanguessuga tem duas filhas; Dá, dá: O que significa “Dá, dá?” Disse Mar Ukba: esta é a voz das irmãs que choram a partir da Gehenna clamando por este mundo: Traga, traga! E quem são eles? Minuth e o governo. Alguns informam: Disse R Hisda em nome de Mar Ukba: É a voz do inferno chorando e chamando: Traga as duas filhas que choram e chamam por este mundo para mim, “Traga, traga”.

 A interessante afirmação de Mar Ukba [Minuth e o governo] mostra aqui que havia uma relação de propósitos, ao menos potencial, entre Minuth e o governo. Associando-os num mesmo propósito, o que pode ser; de querer para si o mundo! Ou mesmo não haver perseguição tão intensa como se acredita! No meu ponto de vista foi isso o que aconteceu, pois num futuro não muito distante ocorre a fusão entre a Igreja Cristã e o Estado patrocinada e executada por nada menos que o Imperador Romano. Os aparentemente oponentes se unem numa força invencível e que tomaria posse do Mundo todo unindo força e ideologia, como se viu nos quase dois mil e poucos anos seguintes! Então para os sábios, estas vozes e sua procedência têm origem no Inferno. Mas o Talmud se desvia de um comprometimento com Minuth, embora hoje muitos se propõem estabelecer uma relação harmônica da fé cristã com os relatos de discussões dos sábios, contudo mostram claramente ser isso impossível. Fechamos por aqui nosso estudo do tratado e passaremos oportunamente aos relatos contidos na obra sobre R Akiva onde se enfoca principalmente os fatos que envolveram R Eliezer e as atitudes dos rabinos da época.

[Continua]

Notas e comentários adicionais.

Mello Corrêa

 
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