Cadete Winslow (The Winslow Boy),
de David Mamet (EUA, 1999)

O objetivo maior da arte � se superar sempre, definindo novas possibilidades est�ticas e alargando as formas de compreens�o da realidade. Essa �nsia, as vezes doentia, faz das vanguardas um pouco cegas ao se negarem a perceber que a linguagem � �nica e que a cria��o s� existe em cima de um mesmo sistema de c�digos que por sorte ainda n�o est�o totalmente mapeados. Militar por uma evolu��o est�tica, antes de tudo exige um total dom�nio da linguagem usada e qualquer imposi��o revolucion�ria, sem a devida fundamenta��o nesse universo de signos do qual faz uso, j� nasce vazia, falsa e sem capacidade de se firmar como base para futuras cria��es.

Neste visualmente impec�vel O Cadete Wislow David Mamet parece trilhar o �nico caminho poss�vel hoje em dia rumo a um real engrandecimento das possibilidades da linguagem cinematogr�fica. Parece que negando todo e qualquer v�nculo com uma vanguarda que levaria o cinema para um mundo novo e cheio de uma linguagem nova (o que, como j� foi dito, � imposs�vel), Mamet mergulha de cabe�a na boa e velha linguagem cinematogr�fica, sem firulas e sem montagens mirabolantes, buscando extrair o m�ximo que consegue de significa��o nesse vasto universo ainda inexplorado. Na tela, as situa��es tem import�ncia quando despertam uma rea��o nos personagens. S� assim � que a narrativa se desenvolve. � uma obra para pessoas onde elas contam os fatos vivendo-os da sua maneira. N�o interessa reconstruir para o espectador o acontecimento que levou a uma certa forma de agir. A maneira como as rela��es dos personagens se desenrola j� � capaz de mostrar tudo dando uma liberdade de associa��o e interpreta��o enorme para quem v� o filme. � gra�as a essa forma de filmar que cada plano, apesar de convencional, carrega no seu interior uma quantidade enorme de realidade. Por�m, essa realidade n�o est� simplesmente constru�da por esquemas de representa��o j� bastante conhecidos do p�blico. � uma realidade que assume um car�ter menos impositivo nas suas significa��es, e assim n�o se faz t�o ilus�ria.

Extremamente modesto em rela��o � uma poss�vel vanguarda, o filme tem mais direito de ser visto como arte do que qualquer outro cheio de pretens�es mal controladas. Percebendo do que esse cinema cl�ssico ainda � capaz, Mamet ocupa um lugar privilegiado no grupo de cineastas preocupados com a impossibilidade de cria��o no fim do mil�nio, e ao se fechar no convencional, esse filme ultrapassa suas bordas, chegando a um n�vel de atua��o sobre a linguagem que nenhum moderninho, com c�meras tortas, vai conseguir.

Jo�o Mors

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