Plano Geral
setembro de 1999
Festival Internacional Mas, como sempre tento fazer (seja em curtas ou longas) me centrei mesmo na produ��o nacional, pois Paulo Em�lio nos ensinou (e at� hoje n�o entenderam por qu�) que o pior filme nacional � mais importante que o melhor estrangeiro. E o Festival de Curtas permite um olhar quase completo (infelizmente, pois existe a chance �nica de faz�-lo ser completo) na produ��o nacional de um formato no qual o Brasil tem grande tradi��o. Pude ver 57 dos 66 filmes em exibi��o, al�m de outros 9 entre os n�o selecionados. A sensa��o � a mesma: o curta � um microcosmo do que podia ser o nosso cinema de longa metragem se o deixassem produzir em quantidade: uma grande variedade de temas, motiva��es, e uma vontade imensa de mostrar o pa�s e suas diferentes regi�es e possibilidades est�ticas. Especialmente agora que a produ��o de longas passa por mais esta crise, a verdade � que � um privil�gio poder ver o pa�s espelhado nos curtas, como tem acontecido nos �ltimos anos sistematicamente. Desta nova safra, dois filmes merecem destaque: Texas Hotel de Cl�udio Assis, um filme pernambucano "porreta", "du caraio" mesmo, com ousadia est�tica se misturando a uma po�tica puramente brasileira misturando a grandeza criativa com a mis�ria nacional, os sotaques multiculturais de Recife, uma experi�ncia inovadora e excepcional como n�o se v� no cinema nacional h� algum tempo; e o mais rodado (estreou aqui no Rio na Curta Cinema em novembro passado) Do Dia em Que Macuna�ma e Gilberto Freyre Visitaram o Terreiro da Tia Ciata Mudando o Rumo da Nossa Hist�ria, de Vitor �ngelo e S�rgio Zeigler, que cresce a cada revis�o pelo seu ritmo contemplativo, sua excepcional e discreta fotografia, seu olhar m�tico sobre a cultura brasileira. Se o n�mero de filmes "excepcionais" foi pequeno, mas de acordo com a m�dia de outros anos (ano passado, por exemplo, t�nhamos A Hora Vagabunda, N�ufrago e Kyrie), impressionou mais uma vez a vitalidade e a qualidade dos filmes, na m�dia. Muitos filmes muito bons passaram em S�o Paulo. T�nhamos por exemplo a for�a do cinema ga�cho com Tr�s Minutos (que sem a fala final seria um excepcional...) e Um Estrangeiro em Porto Alegre; as anima��es fort�ssimas De Janela pro Cinema e Cidade Fantasma; o "cinema publicit�rio qualidade ISSO 9000" de boa qualidade em E No Meio Passa um Trem e Uma Hist�ria de Futebol; uma vitalidade fora do comum de grande alegria de viver e fazer cinema nos exemplos nordestinos de Concei��o (Pernambuco) e R�dio Gog� (Bahia); a for�a do cinema-ensaio em Algo em Comum; e a bela surpresa Rota de Colis�o de Roberval Duarte (cujo uso do som � sublime, no m�nimo). Destaque maior merece a safra de document�rios, sempre representativa, mas neste ano especialmente fort�ssima. Liderados por Copacabana de Fl�vio Frederico, com seu enfoque social-pessoal sobre a passagem do Reveillon no Rio, misturando poesia est�tica com um verdadeiro olhar antropol�gico. Mas ainda com Uma Na��o de Gente, lindo retrato do vaqueiro nordestino; Bubula um filme de est�tica "careta" mas que revela um material hist�rico de cinema absolutamente fenomenal; Pombagira e Palestina do Norte, retratos dignos de Brasis pouco conhecidos, seja no interior do Par�, seja no Rio de Janeiro, dando maior resson�ncia �s palavras de Paulo Em�lio. Entre as decep��es, alguns curtas de diretores de quem se esperava mais, como O Pedido de Adelina Pontual, um filme esteticamente bel�ssimo mas longo demais para uma id�ia que n�o se sustenta; mesmo problema de Ano Novo de Marcos F�bio Katudjan. Houve ainda a produ��o capixaba Bem Vindos ao Para�so que n�o justifica completamente sua op��o de narrativa temporal quebrada, ou A Pessoa � para o que Nasce, uma experi�ncia abortada, digamos assim. Mas, dois g�neros tradicionais do curta nacional decepcionaram especialmente, a com�dia e o experimental. Entre as primeiras, a maioria das piadas filmadas n�o tinham qualquer interesse cinematogr�fico ou desenvolvimento narrativo, como o incensado Deus � Pai, que � uma bobagem sem nada de novo; Quadrilha, Entrevista, Os Pen�ltimos ser�o os Segundos, e at� mesmo O Oitavo Selo, que embora tenha uma estrutura mais interessante s� far� rir de verdade quem nunca viu Monty Python. O Casseta e Planeta semanalmente produz esquetes melhores... Dentro deste grupo, melhor os filmes paulistas "certinhos", mas que possuem dramaturgia pr�pria como A Idade do Cora��o e Vou te Encontrar Vestida de Cetim. Os filmes experimentais pareceram surpreendentemente cansados e repetitivos, do Hi-Fi de Ivan Cardoso ao Spirit de Tripolli, passando por Encontro com Bardem. Apenas Solid�o Vadia e Impress�es para Clara possuiram momentos de interesse, embora nenhum deles tenha ido at� o fim na proposta apresentada. Vale ainda dizer que estou me eximindo de comentar os filmes universit�rios em detalhes, por estar na posi��o de organizador do Festival Brasileiro de Cinema Universit�rio, o que seria bastante anti-�tico. Basta dizer entretanto que j� houve safras melhores, ainda que destaque-se (sem problemas �ticos por j� terem sido exibidos no Festival) os premiados por aqui Banco de Sangue, Pol�mica, T� na M�o e Fam�lia do Barulho. N�o parece no entanto que nenhum destes vai ficar para futuras retrospectivas, como aconteceu este ano com Terral, Ave, A Escada, Juven�lia, Nunc et Semper, Gostosa, Noite Final Menos Cinco Minutos ou Geraldo Voador, inclu�dos entre os melhores da d�cada. Ali�s, a mostra em homenagem aos dez anos do Festival, �nica a ser exibida tamb�m no Rio, teve muitos pontos altos, mas tamb�m outros question�veis. O n�mero de filmes brasileiros era excessivo (at� por uma compreens�vel conten��o de despesas), e com isso a qualidade de alguns deles era discut�vel para estar numa amostragem dos melhores da d�cada. J� os internacionais tinham exemplos de filmes de diretores conhecidos, ou filmes que estabeleceram fama no circuito dos curtas. No entanto, quem acompanha sempre o Festival sabe que os melhores filmes mesmo n�o t�m necessariamente este perfil, mas sim o de experimenta��es de linguagem ou narrativa que ficam escondidos quais pepitas a serem descobertas (especialmente os premiados em Tampere, anualmente destaques de S�o Paulo). Mesmo assim temos que louvar sempre a chance de rever filmes como o h�ngaro Vento, o polon�s Tango, ou o mexicano No Espelho do C�u, ou ainda os brasileiros A Hora Vagabunda, Enigma de um Dia, Mem�ria ou Wholes. A lista final com os 10 favoritos do p�blico no panorama Brasil e Internacional/Latinos, pareceu coerente como costuma ser. No caso brasileiro, a aus�ncia de Macuna�ma n�o chega a surpreender, pois n�o � um filme que agrada a todos. O resto da lista premia os document�rios, e realmente escolhe alguns dos melhores filmes em exibi��o. Comemore-se a exclus�o de "Deus � Pai", mostrando que o p�blico n�o se enganou por esta piada (tendo escolhido o melhor entre as piadas apenas para representar este "grupo"), e lamente-se ainda a aus�ncia de R�dio Gog�. A lista tem: Bubula, Concei��o, Copacabana, De Janela pro Cinema, E No Meio Passa um Trem, O Oitavo Selo, Tr�s Minutos, Texas Hotel, Uma Hist�ria de Futebol e Uma Na��o de Gente. O pr�mio revela��o, que deve ser comemorado inclusive por praticamente permitir de fato a realiza��o de um filme, ao contr�rio de outras premia��es-engodo onde o realizador sa� com um montante ou servi�os insuficientes para sequer come�ar a produ��o, premiou Rota de Colis�o como melhor filme de estreante. Uma escolha bastante razo�vel, visto que entre os estreantes apenas Uma Hist�ria de Futebol, Uma Na��o de Gente e De Janela pro Cinema poderiam argumentar superiores ou no m�nimo equivalentes ao premiado. Como s� podia ser um o premiado, fica justo. Que esta iniciativa continue!! J� a lista estrangeira costuma ser mais "popularesca" e isso se confirmou, com a inclus�o de curtas mais fracos como Era uma Vez, O Chin�s e Falar, todos bons filmes menores. Ficou faltando o radicalismo de Piquenique, Eight ou O C�clope do Mar, mas comemore-se as inclus�es de Perrif�rico e Um Dia um Homem Comprou Uma Casa, filma�os indiscut�veis. Embora os filmes sejam sempre o centro de tudo, � bom que se diga que em S�o Paulo eles s�o apenas o come�o. O Festival de Curtas tem um clima especial de reuni�o de realizadores, organizadores de Festivais, jornalistas, cr�ticos, profissionais em geral ligados ao cinema, que al�m de centralizados no MIS para assistir filmes, acabam partindo para hom�ricas baladas sem fim. A organiza��o certamente incentiva o clima informal que rola entre os realizadores, e a verdade � que, se por um lado h� uma certa estranheza na carnavaliza��o geral em meio a t�o grave crise no cinema nacional, por outro n�o se pode negar a import�ncia da sublima��o pela farra, e da import�ncia destes p�los de encontro (sempre ligados aos filmes e sua exibi��o) para a perpetua��o de id�ias e contatos vitais para a cena cinematogr�fica. Eduardo Valente |
Filmes
na TV No m�s do cinema no Rio de Janeiro, quem ficar em casa vendo televis�o vai encontrar uma bela programa��o esperando. O canal Cinemax estr�ia tr�s filmes de Sam Peckinpah in�ditos em cabo: Major Dundee (Julgamento de Vingan�a, 1965), seu terceiro filme, passa no dia 12, �s 23:00. Uma semana depois, no dia 19, � a vez de The Ballad Of Cable Hogue (A Morte N�o Manda Recado, 1970), sua quinta realiza��o, que ser� exibida no mesmo hor�rio. No dia 26, passa The Getaway (Os Implac�veis, 1973), tamb�m �s 23:00. Seu gosto pelo maneirismo e pelo primeir�ssimo plano, tanto quanto a (t�o badalada) estiliza��o da viol�ncia, poder�o ser verificados ou ent�o questionados com esses tr�s filmes pouco conhecidos. Cineastas a (re)descobrir: Arturo Ripstein, realizador de Vermelho Sangue e do maravilhoso Evangelhgo das Maravilhas, ter� seu Princ�pio e Fim exibido pelo canal Fox no dia 17, �s 22:00. Terra, de Julio Medem, ser� exibido pelo Cinemax �s 21:00 do dia 19. O enfant terrible americano Harmony Korine ter� seu Gummo (Vidas Sem Destino) exibido pelo mesmo Cinemax no dia 10, �s 04:45. Por fim, o telefilme de Joe Dante, Conquista da Gal�xia, ser� exibido pelo Telecine 1 no dia 12, �s 21:00. Mesmo que o filme seja anterior � bela f�bula que � Pequenos Guerreiros (mas n�o anterior a Gremlins!), vale a vis�o. Para os cultores de antigos filmes, o canal Futura exibir� infelizmente em sua vers�o dublada o filme Moonfleet (O Tesouro do Barba Ruiva, dia 25, 22:00), de Fritz Lang, de 1954, filme que j� foi considerado obrigat�rio do conhecimento cin�filo e hoje caiu no esquecimento. Outra p�rola a ser redescoberta � o Robinson Cruso� de Luis Bu�uel, que a TNT exibe no dia 29, �s 06:45. O filme foi rodado no M�xico com um tipo de coloriza��o logo abandonado. Al�m das cores in�ditas, Bu�uel mostra a depura��o formal/moral de sempre para mostrar o mito-espelho do self made man. O Cinemax exibe no dia 17, �s 21:00, um dos filmes mais raros do realizador italiano Luchino Visconti, Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei, 1969). E last but not least, o grande Howard Hawks ter� seu A Noiva Era Ele (I Was A Male War Bride) estreado no canal Telecine 5 no dia 23, �s 22:00. Ruy Gardnier + Hitchcock: Evoca-se a crit�rio do cinema de Alfred Hitchcock que � o melhor cinema de entretenimento do mundo. Um poss�vel corol�rio seria considerar os filmes de Steven Spielberg como os eventuais sucessores de Psicose, Janela Indiscreta ou Intriga Internacional. Ora, partindo-se de premissa falsa, acaba-se alcan�ando as piores conclus�es. Que o cinema de Hitchcock fa�a um ex�mio trabalho de depura��o para ser palat�vel ao p�blico, � uma coisa, e um grande m�rito; mas que se diga que esse � o grande valor de sua obra seria t�o est�pido que nem se trata aqui de necessitar provar. Tudo que admiramos num grande autor � a capacidade de recriar o mundo tal qual demiurgo, tornar o mundo vis�vel sob outros olhos. E realmente � poss�vel falar (mesmo sendo redutor) num universo propriamente hitchcockiano: o suspense como ontologia, o homem falido e a dist�ncia do universo feminino, por exemplo. E se admiramos o cinema de Alfred Hitchcock, � simplesmente porque gostamos de mergulhar nesse mundo estranho (e nada palat�vel!) que pode t�o bem caracterizar a maturidade sexual como um projeto, o bom casamento como um alvo que s� pode ser atingido a partir de uma prova, um pr�vio teste de for�a. O cinema de Hitchcock libera o desejo, torna-o mais forte. Onde isso em Spielberg? O cinema de Steven Spielberg, depois de uma d�cada promissora, provou ser o maldoso cinema do papai, um cinema da autoridade (t�cnica, dram�tica e narrativa), logo, do recalcamento do desejo. Lembre-se de um personagem feminino forte de Spielberg (tempo para pensar...): o �ltimo remonta a A Cor P�rpura, e n�o se pode dizer que a sexualidade desempenha um grande papel nesse filme. Bom ou ruim, o cinema de Steven Spielberg sempre foi assexuado; antes ele ainda podia usar a sua assexualidade para fazer um personagem sair da sua in�rcia familiar em Contatos Imediatos. Ao contr�rio, o cinema de Wes Craven vem-se revelando como extremamente pol�tico, uma bela pol�tica do desejo: em P�nico, s� depois da revela��o sexual a personagem principal consegue descobrir o assassino. P�nico trata de poder, saber e sexualidade, como os melhores filmes de Hitchcock. Trata-se aqui, ent�o, de reverter a funesta heran�a e fazer de P�nico o �nico filme realmente herdeiro da moral cinematogr�fica hitchcockiana.
++ Hitchcock: vulgaridade Em recente artigo de malfadada revista da direita brasileira, o trabalho de Hitchcock � "revisto" por um senhor de nome S�rgio Augusto de Andrade (n�o confundir com S�rgio Augusto, cr�tico bund�o da nada bundona BUNDAS), que acha que consegue desautorizar toda o trabalho de elucida��o feito pela nouvelle vague (Godard, Chabrol, Truffaut, Rohmer) a respeito da obra do bret�o centen�rio. A obra de Hitchcock, diz o senhor SAA, apresentaria um conjunto de vulgaridade inexpugn�vel, e por isso seus filmes deveriam ser relegados ao lugar que mereceram os simples filmes mercadol�gicos americanos da mesma �poca. Al�m do simples argumento de autoridade que, apesar de muito critic�vel, aqui valeria (por que preferir o argumento de um senhor que de cinema nada sabe em detrimento de verdadeiros conhecedores e excelentes cineastas como Godard, Rohmer e Truffaut?), resta outro tipo de argumenta��o, dessa vez positiva: a vulgaridade nunca foi algo sen�o um atributo de moda, t�o cambiante quanto a echarpe da suposta sra. SAA quando sai com seu cachorrinho pelas ruas da Zona Sul (ou de Interlagos, sei l�). Vulgaridade em Hitchcock seria atribuir � idiotiza��o dos personagens masculinos, � sexualiza��o do menor gesto (a bengala de James Stewart coincidindo com o suti� de sua amiga pela montagem em Vertigo) um certo tom de "mau gosto" que � t�o vago quanto produto de um pressuposto saber est�tico assente em premissas de "sociabilidade" e de "vida em sociedade". Pois bem, os filmes de Hitchcock s�o uma verdadeira afronta a esse tipo de vida vagabunda e blas�. Hitchcock, ao inventar uma est�tica, inventa um mundo e reinventa os valores da est�tica, fun��o que ali�s realiza Howard Hawks tamb�m em Monkey Business e hoje parece estar sendo realizada pelos irm�os Farrelly (Quem Vai Ficar Com Mary?, Dumb and Dumber). Considerar esses filmes como sendo "de mau gosto" n�o � obra do pensamento, mas sim puro produto de recogni��o social; s�o filmes cuja est�tica afronta o gosto legitimado e que, por isso, s�o t�o mal compreendidos pelos defensores apressados do "bom gosto" e da cultura em geral como h�bito de reconhecer na arte um esquema pr�vio de valores e gostos. Esse cinema frustra esses defensores por construir sua pr�pria est�tica, sua pr�pria frui��o e seu pr�prio esquema de valores. Todo grande cineasta realiza esse tipo de opera��o, e pobres dos maus cr�ticos, que s� poder�o reconhec�-lo quando for tarde demais. Ruy Gardnier Quando o cinema Perdoem-me o excesso. A auto-refer�ncia, mesmo justificada, sempre beira o rid�culo. Pior � torn�-la uma "li��o de vida", algo moral e... elevado. Neste caso, n�o �. �, sim, uma banalidade, uma tolice, ou na melhor das hip�teses, um caso que se conta para amigos. Uma piada amarga para rir e pensar "que merda!" (t� a fim?). Era a avant-premi�re tijucana do filme Karat� Kid II, com Ralph Macchio. O cinema era o Art-Tijuca II, na rua Conde de Bonfim. N�o havia uma fila quilom�trica, como de costume, mas um abarrotado turbilh�o juvenil. Est�vamos ruidosos, aglomerados em frente aos port�es cerrados da enorm�ssima sala. Restando meia hora para o in�cio da sess�o, um grupo de impacientes eu inclusive deu para escalar as grades do cinema. Sob os aplausos conscienciosos do aglomerado, nos pusemos a balan�ar a grade agressivamente, ao ponto de arrebent�-la. Isto feito, deflagrado o movimento: cerca de 250 jovens ensandecidos invadiram o finado recinto e, neste momento, a guarda foi acionada. Nada puderam fazer: j� est�vamos todos aboletados em nossas cadeiras. Ainda ruidosos, nossa express�es exprimiam uma ordem categ�rica: cinema!, eis o que brad�vamos. A cara do gerente revelava algo entre assustado e falido porque poucos pagaram a sess�o (poucos mesmo!). Ele ainda teve um admir�vel senso de humor, soltando uma risada como quem dissesse "porra!", ou qualquer outro palavr�o de al�vio. Outra hist�ria aconteceu no Cine Am�rica, que hoje "� f�brica". Eu havia sido despedido de meu primeiro emprego. Trabalhava como balconista de uma locadora de v�deo, igual ao Tarantino. Com a rescis�o, recebi uma grana bastante razo�vel e "meti o pau" comprando bolachas de vinil e gorda crian�a lanches no Bobs. No mesmo dia fui ao Am�rica para a estr�ia de De volta para o futuro II, entrando �s 15h e saindo somente � noite. De modo que, nas diversas sess�es que assisti com a cabe�a cheia de problemas (como explicar a demiss�o a mam�e?), n�o ouvi uma palavra de J. Fox. Cada sess�o findada correspondia � entrada de outra turba ainda mais chacoalhante que as anteriores. O filme foi interrompido diversas vezes e s� cessaram a balb�rdia com a chegada dos PMs. No �ltimo caso eu estava acompanhado de um maluco: meu av�. Ele encasquetou de ver Pink Floyd The Wall em sua reestr�ia, se n�o me engano, em 1986. Era no Tijuca Palace II, tamb�m na Conde de Bonfim. Meu av�, f� de Prince, Stevie Wonder e Richard Brooks, dizia ter gostado dos desenho e odiado a m�sica. Queria conferir e me levou. (Naquele tempo, menor n�o freq�entava "filme de idade", nem com ordem do Papa). Embora atrasados, n�o tivemos maiores problemas em entrar. L� dentro, travei o primeiro contato com um odor, hoje bastante familiar: cannabis, presente em fuma�a bruta e opaca. Meu av�, que n�o tinha muita censura e falava alto mesmo, gritou: "vamu par� cuessa macumba a�! Aqui n�o � lug� di macumba n�o!", e caiu na gargalhada. A galera fumava em larga escala e, na tela, Bob Geldof manifestava sua loucura de brinquedo. Muito pouco tempo depois de tatearmos um lugar e sentarmos, acenderam as luzes e... cruzes! Que flagra! PMs invadiram a sala e o bicho pegou. N�o me lembro bem, mas tenho a impress�o que levaram uma galera embora. O filme foi cortado, o dinheiro devolvido e meu av� terminou bastante satisfeito. Tinha odiado "aquelas figurinhas fren�ticas ao som de m�sica marcial". S�bia figura. Hoje a Tijuca n�o tem salas de cinema, a n�o ser nos shoppings. Tudo � templo. Mas o show tem que continuar: algumas semanas atr�s, um cortejo de mais ou menos trinta carros da Pol�cia Militar varreu a Tijuca. Em velocidade lenta, com as sirenes ligadas e as lanternas piscando num paroxismo de luzes e sons, "apresentaram" � dign�ssima popula��o tijucana a nova frota de carros de �ltima gera��o. Vieram do Est�cio e desfilaram por toda Conde de Bonfim. Foi, digamos, grandioso. Confesso que me senti uma barata acuada, t�o indefeso e carente perante a magnitude do evento. Como se, enquanto morador, eu estivesse pedindo aquele "policiamento ostensivo", alardeado nos moldes de uma manifesta��o fascista. L� estavam os policiais, mais uma vez, roubando o espet�culo. Mais uma vez, eu me escondia, at�nito, sem saber por qu�. E n�o me venham com perguntas dif�ceis. Bill Lee knows. Pergunte a seu amigo Benway, em Liberterra. Bernardo Oliveira |