O Resgate do Soldado Ryan,
de Steven Spielberg

(EUA , 1998)

Roteiro: Robert Rodat Produ��o: Ian Bryce M�sica: John Williams Fotografia: Janusz Kaminski Montagem: Michael Kahn. Com Tom Hanks, Tom Sizemore, Edward Burns, Barry Pepper, Adam Goldberg, Vin Diesel, Giovanni Ribisi, Jeremy Davies, Matt Damon, Ted Danson. Dura��o: 2h50min.

O Resgate do Soldado Ryan: mais um filme de Steven Spielberg. O que quer dizer: mais uma vez a comuidade inteira do cinema se congrega para dizer que Spielberg � o melhor diretor disso, melhor diretor daquilo. Que as imagens de guerra nunca foram t�o impressionantes, que o espectador sente-se entrando na guerra. No caso de O Resgate do Soldado Ryan, h� alguns ju�zos corretos. � verdade, por exemplo, que a representa��o da guerra jamais foi t�o equipada de efeitos visuais e dubl�s de modo a ilustrar "perfeitamente" os horrores da guerra. O que talvez seja o maior problema, dentre v�rios outros, de Spielberg: ele v� o m�tier do diretor tal qual o economista de hoje v� o seu m�tier – algo desprovido de �tica, de moral, onde apenas o que conta � a compet�ncia para levar a diante tal projeto.

O Resgate... nos aparece antes de tudo como um apelo aos mortos. Vemos um senhor, os olhos verdes, acompanhado de toda a fam�lia, num enorme cemit�rio de v�timas da Segunda Guerra Mundial. Ele p�ra diante de uma sepultura e come�a a chorar. Um close em seus olhos vai nos guiar, de um personagem que j� viveu aquilo tudo (e nisso a narrativa nos remete ao Titanic de James Cameron), para a sua hist�ria da guerra, para o que ele viveu. Num corte brusco, passamos a ver o desembarque americano na Normandia, epis�dio dos mais sangrentos da Guerra. Spielberg nos faz ver isso claramente. Com uma c�mera tremida, aquisi��o proveniente dos filmes de Fuller e dos "novos" diretores de Hong Kong, Spielberg nos mostra o sujeito perdendo o bra�o e voltando para procur�-lo, a cabe�a que se separa do corpo, os amputados, e sobretudo os olhos do Capit�o Miller. � esse capit�o Miller que, depois do desembarque, ser� encumbido de liderar sete homens para encontrar o soldado Ryan, �nico filho ainda vivo da sra. Ryan, de Yowa. A hist�ria do filme ser� o percurso e os problemas enfrentados pelo grupo para achar Ryan.

A hist�ria para Spielberg sempre tem um papel fundamental. Cineasta ISO 9000 que �, tudo deve ter seu lugar milimetricamente programado no relato: momentos para piadas, outros para melodrama, etc. Nesses dois tipos de clich�s � onde encontramos os dois lados mais repugnantes de O Resgate do Soldado Ryan. Numa cena de batalha, vemos um soldado ser alvejado no capacete. Vemos ele tirar o capacete, como que para agradec�-lo. E, do nada, uma bala atinge ele no mesmo lugar, agora sem a cobertura, e o soldado morre. Em outro momento, exatamente a 1h de filme, o esquadr�o encontra um soldado Ryan. O Capit�o o informa da morte de seus irm�os, ao que vemos primeiro o choro do soldado, e depois a lembran�a de que eles ainda eram crian�as, que n�o tinham nem quinze anos. Acoplado a essa inf�mia desastrosa – e que, ali�s, se repete em todos os filmes de Spielberg –, vemos tamb�m o melodrama barato ser elevado a uma inst�ncia metaf�sica. A situa��o em que o pai franc�s entrega a filha � equipe de resgate para que ela seja salva � de um mau gosto impressionante. Essa seq��ncia termina com o acerto de contas da filha, que d� diversos tabefes no pai. O espectador sente a vontade de fazer o mesmo com quem lhe mostrou essa cena.

O Resgate do Soldado Ryan � a realiza��o m�xima de Steven Spielberg. Nela, todas as suas caracter�sticas s�o levadas a extremos de compet�ncia t�cnica e narrativa. As cenas de batalha, devidamente copiadas de Samuel Fuller, Sam Peckinpah, John Woo, Tsui Hark e at� de Quentin Tarantino, jamais tiveram nas m�os um artes�o t�o empenhado em fazer a reconstitui��o. Mas ningu�m se engane com esse desejo de realismo em Spielberg: n�o se trata de um realismo, mas de um naturalismo. O prop�sito est�tico n�o est� em nada vinculado a um qualquer desejo �tico, de direita ou de esquerda. Est� simplemente associado ao entretenimento, esse grande desconhecido que n�o tem cara, n�o tem caracter�sticas, s� rende divisas. E � a esse desconhecido que Spielberg paga seu tributo anual, seja em filmes ditos mais s�rios (A Lista de Schindler) ou em filmes de divers�o (O Parque dos Dinossauros). O entretenimento em Spielberg � a desculpa para contar apenas uma hist�ria, como se esse apenas uma hist�ria n�o estivesse vinculado de primeira a uma moral que o elege como modelo de vida.

Spielberg � o homem da compet�ncia por excel�ncia. � o �nico que faz melhor. � tamb�m um grande cara-de-pau. Pois s� ele � capaz de colocar o velho Ryan diante de um cemit�rio, com sua fam�lia, perguntando � sepultura do Capit�o Miller se ele havia merecido ser a miss�o de oito homens, se ele mereceu continuar vivendo. Depois ele pergunta para a mulher, ao que a c�mera faz aparecer sua fam�lia. Se Spielberg tem um estilo pr�prio, o espectador n�o vai encontr�-lo nem na narrativa, nem nos movimentos de c�mera, nem nos personagens, mas no sentido de mercado de seus filmes. E, claro, na filigrana de seus filmes, que s�o todos um grande elogio da classe m�dia como um todo. S� ter feito fam�lia j� quer dizer que valeu a pena ele ter vivido, nos diz Spielberg. E o espectador sai contente de ser um nada, pelo menos uma fam�lia ele vai construir. Pouco importa o sentido dessa fam�lia, j� � alguma coisa. � nesse sentido que Steven Spielberg � magnanimamente um conservador, o anti-Coen, o anti-Altman, o anti-Waters.

Ruy Gardnier

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