De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut),
de Stanley Kubrick (EUA, 1999)
Nicole Kidman em Eyes Wide Shut de Stanley KubrickEyes wide shut (I): uma escolha oportuna e tediosa
Como todo grande cineasta, Kubrick gostava muito de escolher e, sobretudo, gostava do ato de escolher. Isto significa criar um ritmo que n�s, meros espectadores, simplesmente n�o concebemos, isto �, n�o entendemos como p�de vir ao mundo. Surpresa, mas, antes, estranhamento. � �bvio que a escolha desta vez passou dos limites. EWS � um filme que peca pelo tema. Ora, quem j� ouviu a est�ria dos planos de Kubrick para filmar um x-rated? Ou me precipito com este jarg�o espec�fico, devendo optar pelo simples porn�? EWS n�o � o porn� que os afobados cantaram, mas ningu�m pode negar: todo mundo entendeu, n�o o sentido (como de h�bito, vago), mas as sensa��es que atormentaram Bill naquela noite. Trai��o, desejo, medo. Ok, isso n�o importa, pois de fato o sexo nesta medida, torna-se perigoso...como tema. Kubrick acerta no labirinto nos fazendo passear por sentimentos bastante habituais. No entanto, esta escolha uma bela escolha carece de sentido para mim e para os muitos brasileiros que foram ver EWS. Deste modo, o veredicto: filme 10, com defeitos geopol�ticos.
A possibilidade de adequarmos tal escolha �s nossas concep��es s�o remotas. Rimos do div�rcio e nos deliciamos com o adult�rio, embora muita gente afirme que n�o. E isto, definitivamente, faz com que nossos olhos (conectados ao nosso c�rebro) vejam um filme bem diferente do que v�em os disseminadores da pol�mica, nossos irm�o gringos. Rimos da Madonna, de Hugh Grant e Divine Brown, de Bill and Monica, enquanto eles trope�am em obst�culos morais, em meio �quele auto-desenvolvimento sustentado. Bill recusando uma caixa de u�sque 25 anos e Alice loosing the line com a maconha s�o cenas ris�veis. Mas e da�? A cr�tica n�o entendeu que o moralismo contido nos atos de Bill s�o caracteriza��es de Kubrick. O filme n�o deixa claro nenhum valor moral "correto". Coloca-se um problema, causa-se um constrangimento, suscita-se um medo. EWS deixa um rombo no c�rebro. Um rombo semelhante ao monolito de 2001.
Com 2001: a space odissey, Stanley Kubrick criou um aparato tecnol�gico que, na melhor das hip�teses, serve de pano de fundo para a coloca��o de um problema. Concordo com meu car�ssimo Alfredo Rubinato: Kubrick � da mesma extirpe de Dreyer, Chaplin, Stroheim, isto �, cineastas-fil�sofos, criadores do que Bazin batizou de "paisagens espirituais". Admito esta hip�tese porque seus filmes sempre nos coloca numa posi��o desconfort�vel. Como se o germe do problema fosse disseminado, n�o sua solu��o. O mesmo ocorre com EWS, s� que com um tema perigoso e ...enfadonho. Incomoda por sua insolubilidade, mas tamb�m por sua banalidade at�vica.
Mas por que este filme � nota 9, nota 10? Bill entedia, Alice nem tanto. Talvez o maior barato � o alto espet�culo est�tico mesclado com um baixo n�vel de interpreta��o. Um problema sexual banal que recorre a um teatro de sombras, um festival de m�scaras, que precisa borrar as fronteiras entre o tes�o e o medo, que nos deixa em p�nico a ponto de n�o lembramos de sexo. � bem verdade que h� umas concess�es meio pat�ticas --- como aqueles flashes com o marinheiro, aquela "voz da consci�ncia". N�o compromete. Justamente porque n�o h� o problema do moralismo, porque o derradeiro "forever" redime, ou melhor, reabre a quest�o em plena cena final. Quando achamos (achamos mesmo?) que tudo vai ficar bem, prontos para profanar o t�mulo...o filme nos recoloca o problema.
Mas que problema � esse? Desta vez o fil�sofo quis falar com a consci�ncia, mas espreitando-lhe. Porque os psicologismos seriam brutais: nem chegar�amos � metade do filme. O que est� sublinhado em EWS n�o � uma crise conjugal, nem uma crise do sujeito (de resto, uma crise filos�fica), nem uma m� consci�ncia pela trai��o. Mas uma viagem ca�tica pelo cotidiano, uma exegese do t�dio, uma pr�-figura��o do que seria a verdadeira �ltima obra de Kubrick. Esta verdade seria expressa em in�meras e curtas frases de efeito sobre um papel branco. Uma crise de enunciados, por assim dizer. Toda a obra de Kubrick � uma escolha, j� dissemos. Ele escolheu tratar do mundo atual, n�o obstante, as �ltimas cento e cinq�enta velinhas do mesmo. E � por isso que enunciar � um problema: n�o h� moralismo no filme porque n�o h� moral. Quando acreditamos em poucas frases e as fazemos guia de nossos atos, produzimos moral. A filmografia de Kubrick delata a crise dos enunciados, formais ou informais, de nosso tempo.
Crise de enunciados: eu te amo ou eu quero te foder?
EWS � um detetor, sai da tela para pescar nossos coment�rios. � um contra-filme, ou h� alguma suspeita? O grande c�nico, n�o o faria para nos dar uma contra-proje��o, para nos ver acusando-o de moralista? Ele nos v�. N�s nos enganamos. Se Jabor p�de "encenar" a morte de Kubrick, via jornal O Globo, porque n�o encenarmos sua grande ressurrei��o:
"Kubrick n�o dispensou a coroa de espinhos e as chagas. O manto sangrava groselha, mas os ap�stolos choraram porque n�o perceberam. Sem barba (alguns acharam estranho) ele ascendeu do mausol�u ainda fechado causando um estranhamento geral. "Como ele p�de?" perguntava Viegas; "cest ne pas possible!!" suspirou Garnier; "tudo efeito especial", rosnava Rubinato. Eu (Oliveira) tamb�m n�o acreditei: chamei de Hollywood, de novela mexicana e lhe perguntei se tamb�m queria o cach� do Jabor. Ele docemente balan�ou a cabe�a, negando, e disse: N�o � necess�rio. Aqui quem paga a bebida � o Nelson Cavaquinho. "
Se h� moral que transcenda os limites est�ticos de uma obra de arte e h� n�o est� em Kubrick. Se h� filme que coloca problemas, que pensa o cinema, que faz com que a pleiboizada grite "fora! isso n�o � filme!", isto � EWS. Se h� testamento, s� pode ser na cabe�a de pseudo-cr�tico de cinema. N�o h� testamento, n�o h� desafio � cr�tica.
Desafio � reflex�o: �ltimo filme de Stanley Kubrick, uma gal�xia pra toda vida, dirigida por Barthelemy Amengual com roteiro paralelo de toda cr�tica mundial: um contra-filme. Antes coment�rio e aprecia��o do que puro diletantismo.
Bernardo Oliveira
Eyes Wide Shut (II): o suspense da consci�ncia
Muito se esperou por EWS, por diversos motivos: as promessas de sacanagem ilimitada, de uma obra prima monumental, de um testamento � altura da obra do mestre etc. Isto foi ruim porque dissolveu o filme num mar de suposi��es que mais pareciam e parecem fofoca de jornal. EWS � um filme aut�ntico, isto �, deve ser avaliado longe dessas pol�micas. De mais a mais, este papo de testamento � um contra-senso. Ou Kubrick estava certo que ia morrer?
Antes, ele ia buscar part�culas de rela��es de poder na guerra, no desconhecido, no pent�gono... agora resolveu montar um labirinto que, se pud�ssemos desenhar, seria uma esp�cie de mapa da consci�ncia burguesa. Mas tamb�m n�o � exatamente um mapa, por que mapa sup�e lugares definidos, bem marcados. Kubrick nos mostra o mapa, mas ele muda diversas vezes. S�o os movimentos de Bill, ao longo do filme. Como se a todo momento, filigranas de psicologia redefinissem o desenho, permanecendo o significado, isto �, antes o movimento que o desenho. Os desenhos nos mostram os detalhes que montam o arqu�tipo atormentado de Bill. Revelam um ser normal, cuja normalidade � afetada pelo mundo, como se Kubrick quisesse dizer: "suponham o normal e observem-no perante a d�vida." .Mas, acima do desenho, o fato de que se movimenta, revela a volatilidade desta consci�ncia, e � disto que devemos tirar nosso riso. Aparentemente r�gida demais, dogm�tica demais, moralista demais, a consci�ncia de Bill sucumbe ao mundo, frente a uma crise. Este sucumbir n�o � um perder, mas, antes, um aderir. Uma met�fora do capitalismo?
A id�ia parece partir deste ator-mentado Bill. Seu casamento, a filha do defunto, a prostituta, a seita sexual, cada detalhe, isto �, cada situa��o, cada cen�rio escolhido por Kubrick, pode ganhar um estatuto diferente no filme, mas representam a mesma coisa: conven��es sociais e rela��es de poder que soterram Bill e o seu desejo. N�o foi � toa que K escolheu Tom Cruise. Ele � a figura burguesa, bom-mocista e bastante americana que reage a uma sinceridade end�mica de sua esposa. A partir da�, o suspense da consci�ncia: mais uma vez Kubrick deixa a moral de lado, pegando-a por tr�s e fazendo uma esp�cie de radiografia da culpa. O suspense � resultado do cinema de K mas tamb�m � um coment�rio sobre a culpa, na medida em que o suspense se resume em uma pergunta e a dilata��o do tempo de espera da resposta: o tempo dilatado � o suspense. O tempo dilatado que entremeia as a��es de Bill, tanto de recusa quanto de aceita��o conduzem a este suspense da consci�ncia que toma o filme a partir da sinceridade de Nicole Kidman. Mas, como apontamos no par�grafo acima, Bill n�o sabe, mas sua culpa � estuprada pelo mundo e redefinida por ele. Esta redefini��o atinge um grau que desqualifica a culpa e a transforma. Esta culpa torna-se, por acaso, um desejo, ou um medo, ou uma excita��o, um desejo adolescente por adrenalina, uma tristeza sincera. O suspense da consci�ncia revela que Bill se perde no meio "do que � certo" e experimenta o mundo. Este suspense �: o que farei agora? Devo faz�-lo? Ou n�o?
Deste modo, K realiza dois movimentos, sem nunca enunci�-los, mas representando-os e, mais que isso, sugerindo-lhes: o primeiro movimento que radiografa a consci�ncia de Bill e revela sua redoma moral e seu conflito e o filme vive este suspense da consci�ncia a partir do que podemos deduzir do moralismo de Bill; e o segundo movimento, subterr�neo, que engendra uma mapa m�vel, um mapa de desenho animado, que � met�fora da vida burguesa, cujo princ�pio de inclus�o/exclus�o revela-se um jogo excitante, pautado por pequenos desafios e grandes d�vidas. Pouco a pouco, observamos o prazer com que Bill � jogado cinematograficamente no mundo: o tempo � prenhe de experi�ncias justamente para nos fazer ver este �ltimo movimento. E, aterrorizados, constatamos que K pinta este jogo psicol�gico sem dar a menor indica��o de que Bill tem consci�ncia dele. Assim, o que vemos � tamb�m uma ontologia da consci�ncia burguesa, da qual K se vale pelo car�ter histri�nico, e que os coment�rios rasteiros, as fofocas, n�o deixaram aparecer.
Basicamente, EWS deixa expl�cito um movimento, mas sem torn�-lo circular. Bill n�o passa pela experi�ncia inc�lume. Ao t�rmino do filme, ela o transforma. EWS seria um filme moralista se �quele derradeiro forever, Nicole respondesse melifluamente: ok, forever. Neste caso, todas as experi�ncias daquela noite seriam mera aventura classe A, pura adrenalina coca�nica yuppie e um monte de outras redund�ncias que podemos ver com maior nitidez em Oliver Stone ou em algum autor do g�nero. K n�o fecha o jogo e introduz um enigma perturbador: fuck! Nicole prop�e umas solu��o que � um rombo do tamanho do monolito de 2001: uma odiss�ia no espa�o.
(continua...)
Bernardo Oliveira