A CARA DO CONTADOR

    Certa vez fui ao encontro de um cliente, com quem, até aquele momento, só havia tratado por telefone. Ao apresentar-me, notei uma expressão de espanto e surpresa no empresário, que não resistiu muito tempo e soltou: Você é o contador? Que coisa engraçada, você não tem cara de contador !.  Foi quando me veio a pergunta: 

    Que tipo de cara eu deveria ter para ficar parecido com um contador ?" outra passagem curiosa se deu quando visitei o escritório de um advogado, a pedido de um cliente comum, para que pudesse inteirar-me um pouco mais sobre a questão tributaria a ser defendida. Ao chegar, o advogado foi logo me convidando a sentar e dizendo:

    "Desnecessária a vinda do colega até aqui. Eu disse ao meu cliente que precisava conversar com o contador e não com o seu advogado".   Quando eu disse que era o próprio, ele argumentou: Mas também, de paletó e gravata, pensei que fosse um dos nossos ! "será que se eu estivesse de branco ele teria pedido para eu medir a sua pressão sanguínea ?".

     Ha poucos meses, a revista VEJA preencheu quase trinta de suas caras paginas enumerando e discriminando as profissões mais procuradas e promissoras do país. E, claro, a profissão de contador tinha de ficar de fora daquela lista. Afinal, que charme ela possui para ser divulgada em espaço tão lido e concorrido? Por essas e outras, resta-nos procurar responder e identificar os fatores que leva esse total desconhecimento e aparente desinteresse por parte das pessoas com relação a nossa profissão.

    Penso que, de vez em quando, uma breve apresentação do que realmente somos seria um bom começo. Do livro Perfil do Contabilista Brasileiro, editado pelo Conselho Federal de Contabilidade, em 1996, podem-se extrair alguns dados estatísticos sobre nós, tais como: o contador brasileiro tem em média de 36 a 45 anos; é, portanto, jovem.    Recebe mensalmente salários em tomo de 1.500 a 2.500 dólares; portanto, tem acesso a cultura e pode andar dignamente vestido.         Mais alguns dados revelam que 60% dos contadores são empregadores; portanto, empresários, e que 77% deles estão satisfeitos com a carreira e pretendem continuar nela. 85% possuem casa própria, 87% possuem veículo, 40% possuem outro curso superior e quase 100% dos contabilistas praticam algum tipo de esporte.  

    Para os padrões nacionais, até que não é um mau perfil, é ?!.  Porém, pesquisas recentes, feitas pela FFA/LJSP e por outras entidades, mostraram que, no inconsciente coletivo do brasileiro, a imagem física do contador é a de sujeito idoso, de óculos com lentes verdes e grossas, baixinho, detalhista, rabugento, introspectivo e que vive atolado de burocracia e papel por todos os lados.

    E, ainda, quando perguntadas sobre a função do contador, as pessoas não hesitam em dizer: apurar impostos", "fazer imposto de renda" ,"atender a fiscalização" ,"fazer escrituração" ,"fazer serviços de cartório" e obtenção de vias de documentos". Percebeu- se que, mesmo os entrevistados que possuíam familiares contadores, disseram que nossas funções limitavam-se ao tipo fiscal- tributário e às rotinas de trabalho específicas de escritórios de contabilidade. 

    Convenhamos, é muito pouco para uma profissão de tão amplos horizontes. Essa ignorância coletiva que acomete as pessoas com relação a nós, contadores, deve-se, por um lado, a nossa manifesta e confessa incompetência ao lidar com a mídia e, por outro lado, pelos resquícios que ainda conservam alguns colegas de que os "segredos de nossa profissão" devem ser mantidos guardados a sete chaves, em nome de nossa suposta preservação. Balela ! A nossa preservação nada tem a ver com isso, pelo contrário, pode até ser prejudicada com tanto segredo assim. Quem pode gostar daquilo que não conhece ?!.

    Por causa disso, grandes revistas e jornais brasileiros e, por conseguinte, o público que os lê, ficam sem saber que a função fiscal-tributária é tão somente uma das inúmeras funções da contabilidade, incluindo-se nesse rol as funções de Auditoria Interna, Auditoria Independente Perícias judiciais, Magistério, Consultoria e Controladoria, a mais nova sensação do mercado. 

    Também não se divulga o fato de que a concorrência por vagas de empregos nas áreas ditas mais nobres da contabilidade supera até ao mais difícil vestibular de nosso país. Por exemplo, podemos citar os casos das empresas de auditoria que recebem, em média, de 7 a 10 mil fichas de inscrição por ano, para selecionar apenas 100 trainees, que deverão seguir uma das mais seguras e promissoras carreiras que se conhece: a de auditor independente. Começam com um salário de 600 dólares e, após 15 anos de carreira, podem até chegar a sócios das empresas que os havia contratado, com salários, aí sim, de causar inveja a qualquer profissional liberal. Existem contadores que como peritos ou "pareceristas" especializam-se em fornecer pareceres e relatórios que muitas vezes, auxiliam o judiciário em causas que movimentem quantias vultosas, na casa de milhões de dólares.

     Nesses casos suas teses contábeis transformadas em parecer, após atingidos os objetivos a que se propunham, podem render, de uma só vez, dezenas de milhares de dólares ao profissional. E, ainda assim, alguns insistem em rebaixar a profissão contábil a uma mera rotina de preencher guias e dizer quanto o cidadão deve pagar de impostos !.

    Estamos na trilha certa de um caminho que vislumbra, num futuro real e palpável, um profissional de contabilidade especializado, invejavelmente bem capacitado, culto, respeitado, incorruptível e justo nas suas posições e procurado por todos para solucionar problemas de gestão empresarial ou governamental que só a ele caberia resolver. Isso se dará, tenho certeza, quando tivermos mais qualidade e seriedade nas informações que transitam entre o contador, a sociedade e a mídia. Ao colega profissional, lembramos que antes de ser auditor controller ou perito, ele é contador e, portanto, é assim que deveria se apresentar, mostrando aos outros quem realmente somos. 

    Ao público, dedicaremos todo o tempo do mundo, se preciso for, para que, muito em breve, enfim se possa ter uma visão menos obtusa sobre as prerrogativas de nossa profissão, bem como ter mais simpatia por ela. Aos responsáveis pelas informações veiculadas na mídia que, com raras exceções, sempre erram ao criar uma imagem deturpada e denegrida de nossos profissionais, ligando-os a escândalos econômico-financeiros ou à famigerada carga tributária e obrigações acessórias impostas pelo fisco, resta-nos dizer:" Errar é humano, mas insistir no erro...".

Por: Haroldo Santos Filho - Presidente do Sescon-ES. (Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis, de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Espírito Santo)  1999. 1

Hosted by www.Geocities.ws