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A
Viagem de Eärendil
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O radioso Eärendil era então senhor do povo que habitava perto das bocas do Sirion, e tomou como esposa Elwing, a Bela, e ela deu-lhe Elrond e Elros, chamados Meios Elfos. No entanto, Eärendil não podia descansar, e as suas viagens pelas costas das terras próximas não acalmavam seu desassossego. Dois propósitos cresciam no seu coração, unidos num só pelo seu amor ao vasto mar: pensava navegar, procurar Tuor e Idril que não regressavam; e pensava encontrar talvez a última costa e levar antes de morrer a mensagem dos Elfos e dos Homens para os Valar, no Ocidente, a mensagem que despertaria nos seus corações a piedade pelos sofrimentos da Terra Média. Eärendil travou grande amizade com Círdan, o construtor naval, que residia na ilha de Balar com a sua gente que escapara ao saque dos portos de Brithombar e Eglarest. Com a ajuda de Círdan, Eärendil construiu Vingilot (flor de espuma), o mais belo dos navios cantados: dourados eram os seus remos e brancas as suas madeiras cortadas nas matas de bétulas de Nimbrethil, e as velas eram como a argêntea Lua. Na Balada de Eärendil cantam-se muitas coisas das suas aventuras no mar e em terras virgens, assim como mares e em muitas ilhas; mas Elwing não o acompanhava e vivia desgostosa junto as bocas do Sirion Eärendil
não encontrou Tuor nem Idril, nem chegou nunca ao fim da
viagem às costas de Valinor, vencido por sombras e
encantamentos, levado por ventos contrários, até que, saudoso
de Elwing, rumou para casa, na direção das costas de
Beleriand. E o seu coração disse-lhe que se apressasse, pois
abatera-se sobre ele um medo súbito, gerado em sonhos; e os
ventos contra os quais antes lutara com todas as suas forças não
o faziam regressar agora tão rapidamente quanto desejava. Grande
foi o desgosto de Eärendil e Elwing pela ruína dos portos de
Sirion e pelo cativeiro dos seus filhos, que temiam fossem
mortos, mas assim não aconteceu, pois Maglor compadeceu-se de
Elros e Elrond e estimou-os, e nasceu depois amor entre eles
como dificilmente seria de esperar; mas o coração de Maglor
estava doente e fatigado do peso do terrível julgamento. Então,
Eärendil disse a Elwing: "Espera por min aqui, pois um só
pode transmitir a mensagem que é meu destino transmitir."
E penetrou sozinho na terra e chegou à Calacirya; e
pareceu-lhe vazia e silenciosa, pois, como Morgoth e Ungoliant
tinham chegado em eras passadas, assim chegara agora numa época
de festival, e quase toda a gente élfica fora para Valimar ou
estava reunida nos salões de Manwë, e poucos restavam para
vigiar as muralhas de Tirion. "Salve,
Eärendil, dos marinheiros o mais famoso, o esperado que chega
inesperadamente, o desejado que chega quando perdida é a
esperança! Salve, Eärendil, portador de luz perante o Sol e a
Lua! Esplendor dos filhos da Terra, estrela na escuridão,
pedra preciosa no crepúsculo radiante!" A
voz era do arauto de Manwë que vinha de Valimar e disse a Eärendil
que comparecesse perante os poderes de Arda. E Eärendil entrou
em Valinor e nos salões de Valimar e nunca mais voltou a pisar
as terras dos Homens. Então, os Valar reuniram-se em conselho
e chamaram Ulmo das profundezas do mar; e Eärendil encarou os
seus rostos e transmitiu a mensagem das duas famílias. Pediu
perdão para os Noldor e piedade para os seus grandes
sofrimentos, assim como compaixão para com os Homens e os
Elfos e socorro nas suas necessidades. E a sua súplica foi
atendida.Diz-se entre os Elfos que, depois de Eärendil ter
partido em busca de Elwing, sua mulher, Mandos falou a respeito
do seu destino e disse: "Poderá mortal homem pisar vivo
as imortais terras e mesmo assim viver?" Mas Ulmo disse:
"Para isto nasceu ele no mundo. E diz-me: é ele Eärendil,
filho de Tuor, da linhagem de Hador, ou filho de Idril, filha
de Turgon, da casa élfica de Finwë?" E Mandos respondeu:
"Igualmente os Noldor, que de livre vontade se exilaram, não
podem aqui regressar." "Nesta
matéria, o poder de decidir compete-me. O perigo a que ele se
aventurou por amor das duas famílias não recairá sobre
Eärendil,
nem recairá sobre Elwing, sua mulher, que perigo correu por
amor dele; mas eles não voltarão a caminhar nunca mais entre
elfos ou homens nas terras exteriores. E eis o que decreto a
seu respeito: a Eärendil e a Elwing, assim como aos seus
filhos, será dada a cada um autorização para escolher
livremente a qual das famílias os seus destinos se unirão e
sob cuja família serão julgados." Como
Eärendil estivesse ausente muito tempo, Elwing sentiu-se só e
receosa; e, caminhando pela margem do mar, chegou perto de
Alqualondë, onde se encontravam as esquadras dos Teleri. Os
Teleri acolheram-na com amizade, escutaram as suas histórias
de Doriath e Gondolin e dos sofrimentos de Beleriand e ficaram
cheios de compaixão e espanto; e aí Eärendil a encontrou ao
regressar, no porto dos Cisnes. Mas não tardaram a ser
chamados a Valimar, onde o decretado pelo rei supremo lhes foi
repetido. Então,
Eärendil disse a Elwing: "Escolhe tu, pois eu agora estou
cansado do mundo."E Elwing escolheu ser julgada entre os
filhos primogênitos de Ilúvatar, por causa de Lúthien; e,
por amor dela, Eärendil escolheu o mesmo, embora o seu coração
estivesse mais com a família dos Homens e do povo do seu pai.
Então, por ordem dos Valar, o arauto de Manwë foi à praia de
Aman onde os companheiros de Eärendil ainda se encontravam à
espera de notícias; escolheu um barco, os três marinheiros
foram metidos nele e os Valar enviaram-nos para o Oriente, com
um grande vento. Mas depois consagraram Vingilot e levaram-no
através de Valinor, até à orla extrema do mundo; e aí
transpôs a porta da noite e foi erguido até aos oceanos do céu. Quando
Vingilot foi preparado para navegar nos mares do céu, a
Silmaril ergueu-se de forma inesperada e cintilante; e o povo
da Terra Média olhou-o de longe e pasmou, tomou-o por um sinal
chamando-lhe de Gil-estel (a Estrela da Alta Esperança). E,
quando essa nova estrela foi vista ao escurecer Maedhros falou
a Maglor, seu irmão, e perguntou: "É certamente um
Silmaril que brilha agora no ocidente?" E Maglor
respondeu: "Se é, na verdade, o Silmaril que vimos lançado
ao mar que se ergue de novo pelo poder dos Valar, então
alegremo-nos, pois a sua glória é vista por muitos e, apesar
disso, está protegido de todo o mal." Então, os Elfos
olharam para cima e deixaram de desesperar; mas Morgoth ficou
cheio de dúvida. Diz-se,
no entanto, que Morgoth não esperava o ataque que contra ele
foi desencadeado do Ocidente, pois o seu orgulho tornara-se tão
grande que se convencera de que ninguém voltaria a
declarar-lhe guerra aberta. Além disso, pensava que afastara
para sempre os Noldor dos senhores do Ocidente e que,
satisfeitos no seu reino bem-aventurado, os Valar não se
importariam mais com o reino dele no mundo exterior, pois para
aquele que é desapiedado. os atos de piedade são sempre
estranhos e inesperados. Mas a hoste dos Valar preparou-se para
o combate; debaixo das suas bandeiras brancas marchavam os
Vanyar, o povo de Ingwë e também aqueles dos Noldor que nunca
tinham partido de Valinor e cujo chefe era Finarfin, filho de
Finwë. Poucos dos Teleri estavam dispostos a partir para a
guerra, pois lembravam-se da matança no Porto dos Cisnes e do
roubo dos seus navios; mas escutaram Elwing, que era filha de
Dior Eluchíl e provinha da sua própria família, e enviaram
marinheiros suficientes para tripular os navios que
transportavam a hoste de Valinor para oriente, pelo mar. No
entanto, permaneceram a bordo dos seus navios e nenhum deles pôs
os pés nas terras próximas. Da
marcha da hoste dos Valar para o Norte da Terra Média pouco se
fala em qualquer história, pois entre eles não se contava
nenhum dos elfos que tinham vivido e sofrido nas terras próximas
e que fizeram as histórias desses tempos que ainda são
conhecidas; notícias dessas coisas só as tiveram muito
depois, por intermédio dos seus parentes em Aman. Mas,
finalmente, o poderio de Valinor veio do Ocidente e o desafio
das trompas de Eönwë encheu o céu; e Beleriand ficou
incendiada com a glória das suas armas, pois a hoste dos Valar
apresentava-se com formas jovens, belas e terríveis, e as
montanhas estremeciam debaixo dos seus pés. Assim
se pôs fim ao poder de Angband no Norte e o reino do mal foi
reduzido a nada; e das profundas prisões saiu para a luz do
dia uma multidão de escravos que haviam perdido toda a esperança
e deparou-se-lhes um mundo que estava mudado, pois tão grande
fora a fúria daqueles adversários que as regiões
setentrionais do mundo ocidental tinham sido separadas, e o mar
avançava, rugindo através de muitos abismos, e havia confusão
e grande barulho; e rios desapareceram ou encontraram novos
leitos, os vales subiram e montes desceram; e o Sirion já não
existia. Mas
Maedhros respondeu que, se regressassem a Aman e o favor dos
Valar lhes fosse recusado, então o seu juramento manter-se-ia,
mas sem qualquer esperança de cumprimento; e disse: "Quem
poderá dizer que terrível destino nos esperará se
desobedecermos aos poderes na sua própria terra ou alguma vez
nos propusermos levar de novo a guerra ao seu reino
sagrado?" E
Maedhros respondeu: "Mas como chegarão as nossas vozes a
Ilúvatar, para além dos círculos do mundo? E por Ilúvatar
juramos na nossa demência e clamamos que se abatesse sobre nós
a escuridão eterna se não cumpríssemos a nossa palavra. Quem
nos libertará?" "Se
ninguém nos puder libertar", disse Maglor, "então,
a escuridão eterna será o que nos espera, quer cumpramos o
nosso juramento, quer lhe faltemos; mas menos mal faremos
faltando a ele.' No
entanto, acabou por submeter-se à vontade de Maedhros e
aconselharam-se juntos quanto à maneira de deitarem mãos aos
Silmarils. Disfarçaram-se, foram de noite ao acampamento de
Eönwë,
entraram sorrateiramente no lugar onde os Silmarils estavam
guardados; mataram os guardas e apoderaram-se das jóias. Então,
todo o acampamento se levantou contra eles e prepararam-se para
morrer, defendendo-se até ao fim. Eönwë, porém, não
permitiu que se matassem os filhos de Fëanor; e, partindo sem
combate, eles fugiram para muito longe. Cada um deles tomou
para si um Silmaril, pois disseram: "Visto um estar
perdido para nós e só restarem dois, e dos nossos irmãos
também só restarmos nós dois, é evidente que o destino
queria que compartilhássemos a herança do nosso pai." E
diz-se de Maglor que não pôde suportar a dor com que o
Silmaril o atormentava e, por fim, lançou-o ao mar; depois
disso vagueou para sempre nas praias, a cantar de dor e mágoa
ao lado das ondas, pois Maglor era poderoso entre os cantores
de antigamente, vindo logo a seguir a Daeron de Doriath; mas
nunca voltou ao seio do povo dos Elfos. E assim aconteceu que
os Silmarils encontrassem as suas longas moradas: um nos ares
do céu, um nos fogos do cor do mundo e um nas águas
profundas. Naquele
tempo construíram-se muitos navios nas costas do mar
ocidental; e daí, em muitas frotas, se fizeram os Eldar à
vela para o Ocidente e nunca mais voltaram às terras de pranto
e guerra. E os Vanyar regressaram sob as suas bandeiras brancas
e foram conduzidos em triunfo a Valinor; mas a sua alegria pela
vitória não era completa, pois regressavam sem os Silmarils
da coroa de Morgoth e sabiam que essas jóias não poderiam ser
encontradas e de novo reunidas, a não ser que o mundo fosse
destruído e reconstruído. No
entanto, nem todos os Eldalië estiveram dispostos a abandonar
as terras próximas, onde longamente tinham sofrido e vivido; e
alguns ficaram muitas eras na Terra Média. Entre eles
contavam-se Círdan, o construtor naval, e Celeborn, de Doriath,
com Galadriel, sua mulher, os únicos que restavam dos que
tinham conduzido os Noldor ao exílio Na Terra Média ficou
também Gil-galad, o rei supremo, e com ele estava Elrond
Meio-Elfo, que escolheu, como lhe foi consentido, ser contado
entre os Eldar; mas Elros, o seu irmão, preferiu viver com os
Homens. E apenas através destes irmãos passou a haver entre
os Homens o sangue dos primogênitos e um vestígio dos espíritos
divinos existentes antes de Arda, pois eles eram os filhos de
Elwing, filha de Dior, filho de Lúthien, filha de Thingol e
Melian; e Eärendil, seu pai, era o filho de Idril Celebrindal,
filha de Turgon, de Gondolin. Mas
a Morgoth os Valar empurraram pela porta da noite, para lá das
muralhas do mundo, para o vazio eterno; e foi colocado um
guarda para sempre nessas muralhas, e Eärendil vigia nas
fortificações do céu. No entanto, as mentiras que Melkor, o
poderoso e maldito, Morgoth Bauglir, o poder do terror e do ódio,
semeou nos corações dos Elfos e dos Homens são uma semente
que não morre e não pode ser destruída; e de tempos a tempos
germina de novo e dará negro fruto até aos dias derradeiros. |
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