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Nirnaeth Arnoediad
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A Batalha das Lágrimas Incontáveis Diz-se
que Beren e Lúthien regressaram às terras setentrionais da
Terra Média onde habitaram durante algum tempo, como homem e
mulher vivos; e reassumiram a sua forma mortal em Doriath. Os
que os viam ficavam simultaneamente contentes e temerosos; e Lúthien
foi para Menegroth e sarou o Inverno de Thingol com o contato
da sua mão. Mas
Melian fitou-a nos olhos, leu o destino que lá estava escrito
e desviou a cabeça, pois compreendeu que uma separação para
além do fim do mundo se erguera entre elas, e nenhum desgosto
causado por perda foi maior do que o desgosto sentido por
Melian, a maia, naquela hora. Depois, Beren e Lúthien seguiram
caminho sozinhos sem temer sede nem fome, e passaram para lá
do rio Gelion, para Ossiriand, e lá habitaram em Tol Galen, a
ilha verde no meio do Adurant até deixar por completo de haver
notícias deles. Posteriormente os Eldar chamaram a essa região
Dor Firn-i-Guinar, a Terra dos Mortos que Vivem; e lá nasceu
Dior, o Belo, que depois foi conhecido como Dior Eluchíl, que
quer dizer Herdeiro de Thingol. Nenhum homem mortal voltou a
falar com Beren, filho de Barahir, e ninguém viu Beren ou Lúthien
deixar o mundo ou assinalou onde finalmente os seus corpos
repousaram. Nesse
tempo, Maedhros, filho de Fëanor, ganhou ânimo, vendo que
Morgoth não era inatacável, pois as proezas de Beren e Lúthien
eram cantadas em muitas canções por Beleriand inteira. No
entanto Morgoth destrui-los-ia a todos, um por um, se não
conseguissem unir-se de novo e fazer nova aliança e conselho
comum; e ele iniciou assembléias para o melhoramento da
fortuna dos Eldar, a que se chama a união de Maedhros. Mas
Maedhros teve o auxílio dos Naugrim, tanto em força armada
como em grande quantidade de armas; e os ferreiros de Nogrod e
Belegost estiveram atarefados nesses dias. Ele reuniu de novo
todos os seus irmãos e todos quantos queriam segui-los; e os
homens de Bór e Ulfang foram reunidos e treinados para a
guerra e mandaram vir do Oriente ainda mais parentes seus. Além
disso, no Ocidente, Fingon, sempre amigo de Maedhros,
aconselhou-se com Himring, e em Hithlum os Noldor e os homens
da casa de Hador prepararam-se para a guerra. Na floresta de
Brethil, Halmir, senhor do povo de Haleth reuniu os seus homens
e eles afiaram os machados, mas Halmir morreu antes de
desencadeada a guerra, e Haldir, seu filho, passou a governar
esse povo. E a Gondolin chegaram também às novas, a Turgon, o
rei oculto. Por fim, tendo reunido toda a força possível de elfos, homens e anões, Maedhros resolveu atacar Angband por leste e oeste e propôs-se marchar com bandeiras desfraldadas, numa força aberta pela Anfauglith. Mas quando tivesse atraído como esperava os exércitos de Morgoth em resposta ao ataque, então Fingon avançaria dos desfiladeiros de Hithlum; e assim, pensavam apanhar o poderio de Morgoth como entre bigorna e malho e fazê-lo em pedaços. E o sinal para isso seria o acender de uma grande fogueira em Dorthonion. No
dia combinado, na manhã do solstício de verão, as trompas
dos Eldar saudaram o nascer do Sol e á leste levantou-se a
bandeira dos filhos de Fëanor e a oeste a bandeira de Fingon,
rei supremo dos Noldor. Então Fingon olhou das muralhas de
Eithel Sirion e o seu exército estava disposto nos vales e nas
florestas a leste de Ered Wethrin, bem oculto dos olhos do
inimigo, mas que sabia ser muito grande, pois nele estavam
reunidos todos os Noldor de Hithlum, juntamente com elfos das
Falas e a companhia de Gwindor, de Nargothrond, e ele tinha
grande força de homens: à direita estava a hoste de Dor-lómin
e toda a valentia de Húrin e Huor, seu irmão, e a eles se
juntara Haldir, de Brethil, com muitos homens das florestas. Depois
Fingon olhou na direção das Thangorodrim, e havia uma nuvem
escura à volta dela e um fumo negro subia; e ele soube que a
ira de Morgoth fora desperta e o seu desafio aceito. Uma sombra
de dúvida desceu no coração de Fingon que olhou para leste
para saber se conseguia ver, com vista élfica, a poeira da
Anfauglith levantar-se sob a passagem das hostes de Maedhros.
Ignorava que Maedhros fora atrasado na sua partida pela astúcia
de Uldor, o Amaldiçoado, que o enganara com falsas advertências
de ataque de Angband. Mas
ergueu-se um grito que passou com o vento sul de vale em vale,
e elfos e homens levantaram as vozes de espanto e alegria,
pois, sem ter sido chamado, inesperado, Turgon abrira o cerco
de Gondolin e vinha com um exército de dez mil, com reluzentes
cotas de malha, espadas compridas e uma floresta de lanças.
Então, quando Fingon ouviu ao longe a grande trompa de Turgon,
seu irmão, a sombra passou, o seu coração animou-se e ele
gritou, alto: "Utúlie'n aurë'! Aiya Eldalië' ar
Atanatári, utúlie'n aurë'!. (O dia chegou! Olhai, povo dos Eldar e pais
dos Homens, o dia chegou!) E todos aqueles que ouviram a sua
grande voz ecoar nos montes gritaram, em resposta: "Auta i
lóme'!. "A noite está passando!”. Então Morgoth que sabia muito do que era feito e projetado pelos seus inimigos, escolheu essa hora e, confiando nos seus traiçoeiros servidores para que contivessem Maedhros e impedissem a reunião dos seus adversários, lançou uma força aparentemente grande (no entanto, parte apenas de tudo quanto mandara preparar) na direção de Hithlum; e iam vestidos de tom pardo e não mostravam aço nu. E assim já estavam muito embrenhados nas areias da Anfauglith quando se teve conhecimento da sua aproximação. O
coração dos Noldor incendiou-se e os seus capitães quiseram
atacar os inimigos na planície, mas Húrin discordou e
pediu-lhes que não esquecessem a astúcia de Morgoth, cuja força
era sempre maior do que parecia e cujo propósito era diferente
do revelado. E embora o sinal da aproximação de Maedhros não
se visse e o exército se tomasse impaciente, Húrin aconselhou
que esperassem e deixassem os Orcs desbaratar-se num ataque
contra os montes. Mas
o capitão de Morgoth, a oeste, recebera ordens para atrair
rapidamente Fingon dos seus montes, fosse por que meios fosse.
Por isso, continuou a marchar até a frente da sua batalha ser
detida diante da corrente do Sirion, das muralhas da fortaleza
de Eithel Sirion até ao influxo do Rivil, no pântano de
Serech; e dos postos avançados de Fingon podiam ver os olhos
dos seus inimigos. Mas não houve resposta ao seu desafio e as
provocações dos Orcs vacilaram quando eles olharam para as
paredes silenciosas e para a ameaça oculta dos montes. Então,
o capitão de Morgoth mandou cavaleiros com símbolos de
parlamentação, cavaleiros esses que passaram pelas fortificações
exteriores da Barad Eithel. Levavam com eles Gelmir, filho de
Guilin, esse senhor de Nargothrond que tinham aprisionado na
Bragollach e que haviam cegado. Então os arautos de Angband
mostraram-no à frente e gritaram: "Temos muitos mais como
ele, mas deveis apressar-vos se quereis encontrá-los, pois,
quando regressarmos com eles, lidaremos assim. E deceparam as mãos
e os pés de Gelmir e a cabeça, por fim, à vista dos Elfos. Por
pouca sorte nesse lugar das fortificações exteriores
encontrava-se Gwindor, de Nargothrond, irmão de Gelmir. A sua
ira transformou-se em loucura e ele saltou a cavalo e muitos
cavaleiros com ele; perseguiram os arautos, abateram-nos e
infiltraram-se profundamente na hoste principal. Vendo isso,
todo o exército dos Noldor como se que incendiou, Fingon pôs
o seu elmo branco e tocou as suas trompas e toda a hoste de
Hithlum saltou dos montes num ataque súbito. A luz do
desembainhar das espadas dos Noldor foi como um fogo num
canavial; e tão violento e rápido foi o seu ataque que por
pouco ruíam os desígnios de Morgoth. Antes que pudesse ser
reforçado o exército que ele mandara para oeste foi vencido e
as bandeiras de Fingon passaram por Anfauglith e ergueram-se
diante das muralhas de Angband. Sempre à frente das forças
estiveram Gwindor e os elfos de Nargothrond, e nem chegados aí
puderam ser contidos; irromperam pela porta e chacinaram os
guardas na própria escada de Angband, e Morgoth tremeu no seu
fundo trono ouvindo-os bater às suas portas. Mas foram
encurralados e chacinados todos, com exceção de Gwindor a
quem apanharam vivo, porque Fingon não pode ir em seu auxílio.
Por muitas portas secretas das Thangorodrim fizera Morgoth sair
sua hoste principal que mantivera de reserva, e Fingon foi
rechaçado das muralhas com grandes baixas. Então, na planície de Anfauglith, no quarto dia de guerra, começou a Nirnaeth Arnoediad, A Batalha das Lágrimas Incontáveis, pois não há canto ou história que possa conter todo o seu sofrimento. A hoste de Fingon recuou pelas areias, e Haldir, senhor dos Haladin foi morto na retaguarda; com ele caíram muitos dos homens de Brethil que nunca mais regressaram às suas florestas. Mas no quinto dia quando a noite caía e ainda se encontravam longe de Ered Wethrin, os Orcs cercaram o exército de Hithlum e combateram até ser dia, a pressionar cada vez mais. De manhã nasceu a esperança ao ouvirem-se as trompas de Turgon que marchava com a hoste principal de Gondolin, pois tinham estado parados a sul guardando o desfiladeiro de Sirion, e Turgon dissuadira muita da sua gente de participar no impetuoso ataque. Agora acorria apressado em socorro do irmão; e os Gondolindrim eram fortes, estavam revestidos de cotas de malha e as suas fileiras brilhavam como um rio de aço ao sol. A
falange da guarda do rei abriu caminho através das fileiras
dos Orcs, e Turgon avançou para o lado do seu irmão; e diz-se
que o encontro de Turgon com Húrin, que estava parado ao lado
de Fingon, foi alegre no meio da batalha. Então a esperança
renovou-se nos corações dos Elfos; e nesse preciso momento,
na terceira hora da manhã, as trompas de Maedhros ouviram-se
finalmente vindas de leste, e as bandeiras dos filhos de Fëanor
caíram sobre o inimigo pela retaguarda. Disseram alguns que
mesmo assim os Eldar podiam ter vencido, se todas as suas
hostes tivessem sido fiéis, pois os Orcs hesitaram e o seu
ataque foi contido e alguns começavam já a fugir. Mas no
momento em que a vanguarda de Maedhros caiu sobre os Orcs
Morgoth mandou sair a sua última força, e Angband ficou
vazia. Vieram lobos e montadores de lobos, e balrogs e dragões,
e Glaurung, pai dos dragões. A força e o terror do grande
verme eram então deveras grandes, e elfos e homens
enfraqueciam diante dele; e ele introduziu-se entre as hostes
de Maedhros e Fingon separando-as. Contudo,
nem com lobo, ou balrog ou dragão teria Morgoth alcançado o
seu intento se não fora a traição dos Homens. Nessa hora, os
conluios de Ulfang foram revelados. Muitos dos Easterlings
fugiram com o coração cheio de mentiras e medo; mas os filhos
de Ulfang bandearam-se subitamente para Morgoth, lançaram-se
sobre a retaguarda dos filhos de Fëanor e, na confusão que
geraram, aproximaram-se da bandeira de Maedhros. Não receberam
a recompensa que Morgoth lhes prometera, pois Maglor matou
Uldor, o Amaldiçoado, o chefe da traição, e os filhos de Bór
mataram Ulfast e Ulwarth antes de eles próprios serem
assassinados. Mas chegou nova força de homens pérfidos que
Uldor convocara e mantivera ocultos nos montes orientais, e a
hoste de Maedhros foi atacada por três lados, desarticulou-se,
foi desbaratada e fugiu em todas as direções. No entanto o
destino salvou os filhos de Fëanor, e, embora todos eles
ficassem feridos nenhum foi morto, pois juntaram-se todos e,
reunindo à sua volta uns restos dos Noldor e dos Naugrim
abriram caminho para fora da batalha e escaparam para longe, na
direção do monte Dolmed, a oriente. A
última de todas as forças a permanecer firme foi a dos anões
de Belegost, que, por isso, ganhou fama pois os Naugrim
suportavam o fogo mais valentemente do que os Elfos ou os
Homens e, ademais, era seu costume usar em combate grandes máscaras,
horríveis à vista; e isso dava-lhes vantagem contra os dragões.
Se não fossem eles Glaurung e a sua prole teriam destruído
tudo quanto restava dos Noldor. Mas os Naugrim fizeram um círculo
à volta dele quando os assaltou, e nem a sua poderosa armadura
resistiu totalmente aos golpes dos seus grandes machados; e
quando na sua ira Glaurung se voltou e derrubou Azaghâl senhor
de Belegost, e rastejou sobre ele, com o último alento Azaghâl
cravou-lhe uma faca na barriga, e de tal modo o feriu que ele
fugiu do campo de batalha, e as feras de Angband, apavoradas
fugiram atrás dele. Então os anões levantaram o corpo de
Azaghâl e levaram-nos com passos lentos, caminharam atrás
dele a cantar em voz profunda, como se fora uma pompa fúnebre
na sua terra, e não prestaram mais atenção aos seus
inimigos, e nenhum ousou detê-los. Entretanto,
na batalha ocidental, Fingon e Turgon foram atacados por uma
maré de inimigos três vezes superior a qualquer das forças
que lhe restavam. Gothmog, senhor dos Balrogs, supremo capitão
de Angband chegara, e encravou uma cunha negra entre as hostes
élficas cercando o rei Fingon e afastando Turgon e Húrin na
direção do pântano de Serech. Depois voltou-se para Fingon,
e foi um feroz reencontro. Por fim Fingon era o único de pé,
com a sua guarda morta à sua volta, e lutou com Gothmog até
outro balrog vir por trás e lançar uma faixa de fogo em seu
redor. Então Gothmog atingiu-o com o seu machado preto e uma
chama branca irrompeu do elmo de Fingon, que se abriu. Assim
caiu o rei supremo dos Noldor, e bateram-no no pó com as suas
maças, e à sua bandeira azul e prateada pisaram-na no charco
do seu sangue. O
campo estava perdido, mas Húrin e os que restavam da casa de
Hador mantinham-se firmes com Turgon de Gondolin, e as hostes
de Morgoth ainda não podiam conquistar o desfiladeiro de
Sirion. Então, Húrin falou a Turgon, dizendo-lhe: "Ide
agora, senhor, enquanto é tempo! Em vós vive a última
esperança dos Eldar e, enquanto Gondolin existir, Morgoth
conhecerá o medo no seu coração." Mas
Turgon respondeu: "Não muito tempo poderá Gondolin
continuar oculta e, sendo descoberta, cairá." Então,
Huor falou e disse: "No entanto, se ela existir nem que
seja um pouco mais, então da vossa casa virá a esperança de
elfos e homens. Isto vos digo, senhor, com os olhos da morte:
embora aqui nos separemos para sempre e eu não volte a ver as
vossas muralhas brancas, de vós e de mim uma nova estrela
nascerá. Adeus". E Maeglin, sobrinho de Turgon, que se
encontrava perto, ouviu tais palavras e não as esqueceu, mas não
disse nada. Então,
Turgon aceitou o conselho de Húrin e Huor, e chamando quantos
restavam da hoste de Gondolin e os que puderam ser reunidos da
gente de Fingon, retirou na direção do desfiladeiro de Sirion,
e os seus capitães Ecthelion e Glorfindel guardaram os flancos
à direita e à esquerda para que ninguém do inimigo pudesse
ultrapassá-los. Mas os homens de Dor-lómin defenderam a
retaguarda como Húrin e Huor desejavam, pois o seu coração não
queria deixar as terras do Norte, e, se não conseguissem abrir
caminho para suas casas, ali ficariam até ao fim. Assim foi
reparada a traição de Uldor; e de todos os feitos de guerra
que os pais dos Homens desempenharam em benefício dos Eldar, a
última resistência dos homens de Dor-lómin é de todos o
mais famoso. Foi
assim que Turgon abriu caminho para sul, até que, chegando atrás
da guarda de Húrin e Huor, desceu o Sirion e escapou; e
desapareceu nas montanhas e ficou oculto dos olhos de Morgoth.
Mas os irmãos reuniram à sua volta os restos dos homens da
casa de Hador e, palmo a palmo, retiraram até chegarem atrás
do pântano de Serech, tendo a corrente do Rivil à sua frente.
Aí resistiram e não recuaram mais. Então, todas as hostes de
Angband se lançaram contra eles; e fizeram uma ponte no rio
com os seus mortos e cercaram o que restava de Hithlum como uma
maré enchente à volta de uma rocha. Aí quando o Sol se punha
no sexto dia e a sombra das Ered Wethrin escurecia, Huor caiu,
atingido num olho por uma seta envenenada, e todos os valentes
homens de Hador foram chacinados à volta dele; e os Orcs
cortaram-lhes as cabeças e empilharam-nas como um monte de
ouro à luz do poente. Por
fim Húrin encontrava-se sozinho. Então lançou fora o escudo
e empunhou um machado com as duas mãos; e canta-se que o
machado fumegou no sangue preto do guarda troll de Gothmog até
o sangue secar e que, cada vez que o brandia, Húrin gritava:
"Aurë entuluva!" (O dia voltará a nascer!). Setenta
vezes soltou esse grito, mas por fim apanharam-no vivo, por
ordem de Morgoth, pois os Orcs seguravam-no com as mãos, que
continuavam a agarrá-lo mesmo depois de ele lhes decepar os
braços; e o seu número era sempre renovado, até que, por fim
ele caiu sepultado debaixo deles. Então Gothmog amarrou-o e
arrastou-o para Angband sob zombarias. Assim
terminou a Nirnaeth Arnoediad, quando o Sol se punha para lá
do mar. Caiu a noite em Hithlum e veio uma grande tempestade de
vento do Ocidente. Grande foi o triunfo de Morgoth, e o seu desígnio
realizou-se da maneira que o seu coração queria, pois homens
tiraram a vida a homens e traíram os Eldar, e o medo e o ódio
nasceram entre aqueles que se deveriam ter unido contra ele. A
partir desse dia o coração dos Elfos desafeiçoou-se dos
Homens, excetuando aqueles das três casas dos Edain. O reino
de Fingon já não existia e os filhos de Fëanor vagueavam
como folhas à frente do vento. As suas armas estavam dispersas
e a sua aliança quebrada e entregaram-se a uma vida selvagem e
de floresta, nos sopés das Ered Lindon, misturando-se com os
Elfos Verdes, de Ossiriand, despojados do seu poder e da sua glória
antigos. Em Brethil ainda vivia um punhado dos Haladin, na
proteção das suas montanhas, e Handir, filho de Haldir, era o
seu senhor; mas a Hithlum nunca regressou qualquer dos soldados
de Fingon nem qualquer dos homens da casa de Hador, nem
chegaram quaisquer novas da batalha e da sorte dos seus
senhores. Morgoth, porém mandou para lá os Easterlings que o
tinham servido negando-lhes as ricas terras de Beleriand, que
eles cobiçavam, e fechou-os em Hithlum e proibiu-os de saírem
de lá. Tal era a recompensa que lhes dava por terem traído
Maedhros: saquear e perseguir os velhos, as mulheres e as crianças
do povo de Hador. Os que restavam dos Eldar em Hithlum foram
levados para as minas setentrionais e lá trabalharam como
escravos, salvo alguns que lhe escaparam e fugiram para os
ermos e para as montanhas. E
quando Turgon soube disso mandou de novo os seus mensageiros às
bocas do Sirion e pediu ajuda a Círdan, o construtor naval. A
pedido de Turgon Círdan construiu sete barcos velozes que
navegaram para o ocidente, mas nunca nenhumas novas deles
chegaram a Balar, exceto de um único, o último. Os
marinheiros desse barco labutaram muito tempo no mar e ao
regressarem finalmente, desesperados, afundaram-se numa grande
tempestade à vista das costas da Terra Média; mas um deles
foi salvo por UImo da ira de Ossë, e as ondas trouxeram-no à
superfície e lançaram-no para terra, em Nevrast. Chamava-se
Voronwë e era um dos que Turgon mandara como mensageiros de
Gondolin. Agora
o pensamento de Morgoth não abandonava Turgon, pois Turgon
escapara-lhe, ele que fora o maior de todos os seus inimigos,
precisamente aquele que mais desejara aprisionar ou destruir. E
esse pensamento atormentava-o e maculava a sua vitória, pois
Turgon da poderosa casa de Fingolfin tornara-se, por direito
rei de todos os Noldor; e Morgoth receava e odiava a casa de
Fingolfin, porque tinha a amizade de UImo, seu inimigo, e por
causa das feridas que Fingolfin lhe causara com a sua espada. E
de toda a sua família quem mais Morgoth temia era Turgon, pois
em tempos idos, em Valinor, os seus olhos tinham-se pousado
nele e todas as vezes que se aproximara uma sombra caíra no
seu espírito, num presságio de que num dia ainda oculto do
conhecimento, Turgon representaria ruína para ele. Por
isso Húrin foi levado à presença de
Morgoth, pois Morgoth
sabia que ele tinha a amizade do rei de Gondolin; mas Húrin
provocou-o e zombou dele. Então, Morgoth amaldiçoou Húrin,
Morwen e os seus descendentes, e lançou sobre eles um destino
de trevas e sofrimento; tirando Húrin da prisão sentou-o numa
cadeira de pedra no alto das Thangorodrim. Aí ficou preso pelo
poder de Morgoth, que de pé a seu lado o amaldiçoou de novo,
dizendo: "Senta-te agora aí e vê as terras em que o mal
e o desespero atingirão aqueles que amaste. Ousaste zombar de
mim e pôr em dúvida o poder de Melkor, senhor dos destinos de
Arda. Por isso com os meus olhos verás e com os meus ouvidos
ouvirás; e jamais te moverás deste lugar até tudo estar
cumprido, até às amargas fezes." E assim aconteceu; mas nada diz que Húrin haja alguma vez pedido a Morgoth misericórdia ou morte, para si ou para qualquer da sua família. Por ordem de Morgoth, os Orcs, com grande trabalho, reuniram os corpos de todos aqueles que tinham caído na grande batalha e todos os seus equipamentos e armas e empilharam tudo num grande monte no meio da Anfauglith; e era como um monte que se podia ver de longe. Haudh-en-Ndengin lhe chamaram os Elfos, o Monte dos Chacinados, e Haudh-em-Nirnaeth, o Monte das Lágrimas. Mas a erva nasceu de novo, longa e verde sobre o monte, a única erva de todo o deserto criado por Morgoth; e nenhuma criatura de Morgoth pisou jamais a terra sob a qual as espadas dos Eldar e dos Edain enferrujavam e se desfaziam. |
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