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Diálogo
de Manwë e Eru
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A declaração que (...a tradição élfica da reencarnação foi originada de uma permissão especial concedida por Eru a Manwë, quando este o consultou sobre a morte de Míriel...) parece muito estranha levando-se em conta as leis dos eldar onde é declarado explicitamente que (...um fëa sem corpo que escolhe ou tem permissão de voltar ao mundo dos vivos, retorna como uma criança recém nascida...). Apenas assim o retorno seria possível, excetuando-se casos muitos raros, como Beren e Lhútien que voltaram da morte em seus próprios corpos restaurados, e a própria Míriel cujo espírito abandonou seu corpo por vontade própria sem nunca ter retornado. Ulmo disse no debate dos Valar que o fëa de Míriel pode ter partido por necessidade, mas partiu sem a promessa de um retorno posterior em outro hröa (corpo) ou como criança, pois neste momento Manwë ainda não teria recebido de Eru a dádiva da reencarnação élfica. Obs:
a palavra fëa é de origem élfica e significa espírito ou
alma. Quando acompanhada de um R no final, assume a forma fëar,
que está no plural, significando espíritos. A palavra hröa
também é de origem élfica e significa corpo físico, as
vezes o corpo também é chamado de "vestimenta"
pelos elfos. A
explicação para isso é que, depois da escrita dos primeiros
textos sobre o destino dos elfos após a morte, as visões de
meu pai (o professor Tolkien) sofreram uma grande mudança. Foi
citado um texto chamado "O Diálogo entre Manwë e
Eru", que seguia as leis conhecidas hoje no tocante à
reencarnação élfica, mas esse texto seria anterior ao diálogo
de Finrod e Andreth, no qual as questões sobre a morte e pós-vida
dos elfos e homens é discutida em detalhes. Este
texto foi planejado em duas partes: primeiro um diálogo com as
perguntas de Manwë e as respostas de Eru, e em segundo uma
discussão filosófica e elaborada da significação e implicações
destas respostas; infelizmente este texto foi abandonado antes
de ser terminado por tolkien, mas da parte conhecida temos o
que está abaixo: -
Manwë falou a Eru: Veja! Existe um mal em Arda que não vimos
antes. Os quendi, que tu fizeste imortais, estão sofrendo com
a separação de seus espíritos e corpos. Muitos dos fëar dos
elfos na Terra-média estão sós, e até mesmo em Aman há um
também desabrigado. Os fëar desabrigados nós chamamos a Aman
para protegê-los da escuridão, e aqui eles esperam. O que será
deles mais adiante? Não há nenhum meio pelo qual suas vidas
possam ser renovadas para seguir os cursos que tu planejastes? -
Eru respondeu: Deixe que os desencarnados sejam novamente
abrigados! -
Eru respondeu: Eu não dei aos Valar o poder sobre Arda? E o
poder de moldar qualquer substância a seu julgamento, estando
ele abaixo apenas do meu próprio? Vós não alterastes a
Terra-média em sua batalha contra a sombra de Melkor? -
Então Manwë perguntou mais adiante: Tu não falaste do
renascimento. Ele também está dentro de nosso poder e
autoridade, o retorno dos fëar desabrigados como crianças? Agora
entramos em dimensões totalmente novas sobre a questão do
retorno dos mortos para o mundo dos vivos. Meu pai (o professor
Tolkien) chegou a concluir que antes da morte de Míriel nunca
nenhum elfo reencarnou, e foi apenas em resposta à vontade de
Manwë que Eru decretou tal possibilidade, e os modos pelo qual
isso poderia ser feito. Um modo é o renascimento do fëa
(alma) como uma criança, mas os mortos que assim o quiserem têm
que se entregar a Eru para aguardar seu julgamento. O outro
modo, pelos Valar, é (...um corpo tal que mesmo seus detalhes
não tenham sido atingidos pelo mal...), a reencarnação do
morto num hröa (corpo físico) idêntico ao qual ele ocupou
quando foi morto. A longa discussão que segue ao "diálogo"
é ricamente relacionada com idéias de identidade e equivalência
em relação a essa forma de reencarnação, representado um
comentário feito pelos mestres das tradições Eldarin. Um
manuscrito escrito apressadamente em pequenas folhas de papel,
intitulado "Reencarnação dos Elfos", parece revelar
as reflexões de meu pai sobre o assunto, entre o abandono do
"Diálogo entre Manwë e Eru" e o "Comentário
do Athrabeth". Nessa discussão ele referiu-se em expressões
rápidas e elípticas às dificuldades em cada nível
(incluindo níveis práticos e psicológicos) da idéia de
reencarnação do fëa como uma nova criança de novos pais, no
que à medida que cresce, recaptura a memória de sua vida
passada: a objeção mais fatal é que ele contradiz a noção
fundamental de que fëa e hröa foram um feito para o outro,
sendo que os hröar são características físicas, o corpo do
renascimento, tendo pais diferentes são diferentes, e isso
deve ser doloroso para o renascido. Ele
estava abandonando, graças a Deus, a radical concepção de
renascimento pelo qual os elfos podem voltar a encarnar: do
escrutínio de sua idéia mítica, questionando sua validade
pelos termos que ele adotou, pareceu-lhe uma falha grave na
metafísica da existência élfica. Mas, disse ele, era um
dilema já que a reencarnação dos elfos parecia um elemento
essencial nos contos. A
única solução - decidiu ele - era a nova idéia de refazer
um hröa idêntico ao original do morto: o fëa retêm uma memória,
uma impressão, de seu hröa tão poderosa e precisa que a
reconstrução de um corpo idêntico pode ser perfeitamente
possível nos termos da metafísica élfica. Esta
idéia não foi totalmente abandonada, e é mencionada no
"Reencarnação dos Elfos" (mas o 'diálogo' como foi
dito deve ter existido, já que Eru declara expressamente que o
renascimento era um modo de reencarnação aberto aos fëa
incorpóreos, enquanto na discussão presente tal idéia é
repudiada firmemente e não se encaixa na 'única solução'
para o dilema).A nova concepção procede, em linhas gerais,
como se segue. A Música dos Ainur não tinha previsão para a
morte dos elfos e a existência de fëar incorpóreos, já que
de acordo com sua natureza eles deveriam ser imortais
juntamente com Arda. Muitos desses fëar élficos que morreram
na Terra-média estavam juntos nos Salões de Mandos, mas foi
somente com a morte de Míriel em Aman que Manwë clamou por
Eru, pedindo conselhos. Eru aceitou e confirmou sua posição -
apesar de deixar claro para Manwë que os Valar deveriam ter
contestado a dominação de Melkor na Terra-média muito antes,
e que lhes faltava esperança: eles deveriam ter acreditado
que, numa guerra legítima, Eru não permitiria que Melkor
fizesse mal o bastante ao mundo para que os Elfos não pudessem
nascer nele ou habitá-lo. "...e
Manwë disse aos Valar: Este é o conselho de Ilúvatar que está
em meu coração: devemos retomar o reino de Arda, a qualquer
custo, e retirar os quendi da sombra de Melkor. Então Tulkas
ficou contente, mas Aulë estava pesaroso pois sabia das
feridas que a terra sofreria nesta batalha..." É
dito então que (...os fëar de todos os Mortos vão para Aman:
ou agora são convocados para lá pela autoridade concedida por
Eru, habitando num lugar feito para eles...). Isto parece nos
dizer que somente neste momento foi concedido a Mandos o poder
de convocar os espíritos dos mortos para Aman; mas as palavras
"um lugar feito para eles" são difíceis de
entender, já que elas parecem dizer que mesmo os Salões de
Mandos não existiam antes que Manwë conversasse com Eru,
ignorando a afirmação anterior em "Reencarnação dos
Elfos" que existiam muitos fëar incorpóreos em Mandos
antes que o "diálogo" ocorresse. Os
Valar agora tinham autoridade de reencarnar os fëar dos elfos
mortos em corpos idênticos aos que perderam; e o texto
continua: (...o fëa renascido vai continuar normalmente em
Aman, exceto em casos excepcionais, como Beren e Lúthien, que
foram transportados de volta para a Terra-média...). Então a
morte na Terra-média tinha o mesmo tipo de tristeza e luto
para os Elfos e os Homens. Mas como Andreth obviamente
percebeu, a certeza de viver novamente e fazer coisas em uma
forma reencarnada fazia grande diferença atenuando o lado
aterrorizante da morte, mas somente os elfos tinham esse privilégio. No
que parecia ser um segundo pensamento, meu pai então perguntou
se era possível ou não que os fëar incorpóreos pudessem, se
fossem instruídos pelos Valar a tal procedimento, reconstruir
seu hröa de sua memória. Isto, como aparece em escrituras
mais tardias sobre a reencarnação de Glorfindel de Gondolin,
virou um firme e estável ponto de vista. Ele escreveu: (...a
memória de um fëa experiente é poderosa, vívida e completa.
Então o fundamento é de que a mente toma para si a matéria,
virando parte de seu conhecimento - ficando eterna e sobre o
comando do espírito...). Então os elfos restantes na Terra-média
vagarosamente "consumiam" seu corpo ou o
transformavam em pedaços de sua memória? A ressurreição do
corpo, ou pelo menos o que os elfos entendiam dela, era de um
corpo incorpóreo e espiritual. Mas enquanto ela pudesse passar
barreiras físicas com sua vontade, ela também poderia impor,
com sua vontade, uma barreira para o físico. Se você tocasse
um corpo ressuscitado você o sentiria. Mas se ele quisesse ele
poderia simplesmente iludi-lo desaparecendo. Sua posição no
espaço era aleatória e dependente da vontade do fëar. Nem
na passagem sobre o assunto no Comentário do Athrabeth, nem na
Nota 3 que se refere a ele há alguma menção ao renascimento;
enquanto esse último evidentemente ecoa as palavras do
"Renascimento dos Elfos". Então está fortemente
indicado na Nota 3, se não constatado, que apenas após o
"diálogo" foi que Mandos ganhou o poder de convocar
os fëar dos mortos; e a passagem abaixo que segue na nota é
similar ao que ele disse no "Ressurreição dos Elfos": Eles
tinham a escolha de continuar incorpóreos, ou (se quisessem)
serem reincorporados na mesma forma e tamanho que tinham. Porém,
deviam continuar em Aman. Ou, se fizessem moradia na Terra-média,
não deveriam reatar relações com seus parentes e amigos. A
morte não era de todo curada. Mas, assim como Andreth mostrou,
essa certeza sobre seu futuro depois da morte, e o conhecimento
de que eles poderiam reencarnar e continuar a viver suas vidas
em Arda, fez da morte uma coisa diferente para homens e elfos. Outro
ponto a respeito da cronologia da composição vem da nota
encontrada em "Ressurreição dos Elfos" e a Nota 3
do Comentário, que diz que a morte era diferente para os
homens e elfos, 'como Andreth mostrou'. Assim o Athrabeth já
existia quando "Ressurreição dos Elfos" foi
escrito; mas o comentário veio depois de 'Ressurreição'.
Esta é uma clara evidência de que existiu um intervalo entre
o escrever o Debate de Finrod e Andreth e de seus comentários. Outra
passagem em "Reencarnação" deve ser mencionada:
(...saindo da linha de seu pensamento, movendo-se mais rápido
que sua pena, meu pai reforçou que "a natureza exata da
existência em Aman ou Eressëa depois de sua remoção deveria
ser dúbia ou inexplicada, assim como fez com a questão de
como mortais poderiam estar em Aman. Nisto ele observou que Eru
tinha "há tempos atrás" direcionado a morte dos
mortais também para Mandos. O que acontecia com seus espíritos
os elfos não sabiam. Alguns diziam que eles também iam para
os Salões de Mandos; mas seu lugar de espera ali não era o
mesmo dos elfos; e somente Mandos, Manwë e Eru, sabiam para
onde iam depois da época de chamamento naqueles salões
silenciosos. A jornada de Frodo para Eressëa - e então para
Mandos? - foi apenas uma forma estendia disso. Frodo teria que
sair do mundo (desejando isso). Então a viagem de barco foi o
equivalente à morte. Com
isso pode ser contrastado o que ele escreveu no final de seu
relato sobre o Senhor dos Anéis em sua carta para Milton
Waldman em 1951 (uma passagem omitida nas Letters, mas impressa
no HoME IX.132): (...para Bilbo e Frodo a graça especial é
dada através da permissão de ir com os elfos que eles amavam
- um final arthuriano, não foi, claro, explicitado que esta é
uma alegoria da morte, ou de um modo de cura e restauração.
Eles não podem sobreviver para sempre, e apesar de não
poderem voltar para o mundo mortal, podem e vão morrer de
livre e espontânea vontade, e assim deixar o mundo...). E mais tarde, em uma carta de 1963 (Letters 246), ele escreveu: (...a Frodo foi permitido passar através do mar para ser curado, se isso pudesse ser feito antes que ele morresse. Nenhum mortal poderia, ou pode, sobreviver para sempre na terra, através do tempo. Então ele foi ao mesmo tempo para um purgatório e para uma recompensa, por um tempo: um período de reflexão e paz e um ganho do verdadeiro entendimento de sua posição em sua pequenez e sua grandeza, gastando o resto de seu tempo entre a beleza natural da Arda Intocada pela sombra...). |
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