Athrabeth

O Diálogo de Finrod e Andreth
Sobre a Morte dos Filhos de Eru e a Desfiguração dos Homens


Finrod (filho de Finarfin, filho de Finwë) era o mais sábio dos Noldor exilados, sendo mais preocupado do que todos os outros com questões de pensamento (em lugar de fabricação ou com habilidade das mãos); e ele estava, além disso, ansioso para descobrir tudo aquilo que ele pudesse relacionado ao Gênero Humano. Foi ele quem primeiro encontrou os Homens em
Beleriand e os ajudou; e por esta razão freqüentemente era chamado pelos Eldar de Edennil, 'Amigo dos Homens'. Seu amor principal era dado ao povo de Bëor, o Velho, porque foram estes que havia encontrado primeiro nas florestas de Beleriand Oriental. Andreth era uma mulher da Casa de Bëor, a
irmã de Bregor pai de Barahir (cujo filho era Beren Erchamion, o renomado). Ela era sábia em raciocínio e instruída no conhecimento dos Homens e as suas histórias; por qual razão os Eldar a chamaram Saelind; sábio-coração.

Entre os Sábios alguns eram mulheres, e elas eram grandemente estimadas
entre os Homens, especialmente por seu conhecimento das lendas dos dias
antigos. Outra mulher-sábia era Adanel, irmã de Hador Lórindol (em certa
época, Senhor do Povo de Marach) cujos conhecimentos e tradições, e também cuja língua, eram diferentes dos do Povo de Bëor. Mas Adanel era casada com um parente de Andreth, Belemir da Casa de Bëor: ele era avô de Emeldir, mãe de Beren. Em sua juventude Andreth habitara por longo tempo na casa de Belemir, e assim aprendera de Adanel muito da tradição do Povo de Marach,além da tradição de seu próprio povo.

Nos dias da paz antes que Melkor quebrasse o Cerco de Angband, Finrod
visitava freqüentemente Andreth, a quem ele amava com grande amizade porque a considerou mais preparada para comunicar seu conhecimento para ele do que era a maioria dos Sábios entre os Homens. Uma sombra parecia estar sobre eles, e havia uma escuridão por trás dos homens da qual eram contrários a falar até mesmo entre si. E estavam em temor dos Eldar e não iriam facilmente revelar-lhes o seu pensamento ou as suas lendas. De fato os
Sábios entre os Homens (que eram poucos) em sua maior parte mantiveram o seu segredo de sabedoria e só passaram este para aqueles a quem eles escolheram.

Aconteceu que em um momento de primavera Finrod foi por um tempo hóspede na casa de Belemir; e ele se pôs a conversar com Andreth, a Mulher-Sábia, a respeito dos Homens e dos seus destinos. Pois naquele tempo Boron, Senhor do povo de Bëor, havia morrido recentemente, logo depois do Yule, e Finrod estava pesaroso.

- Triste para mim, Andreth - ele disse - é a passagem rápida de seu povo.
Pois agora Boron, o pai de seu pai se foi; e embora ele fosse velho,
digamos, como a idade avança entre os Homens, ainda eu o tinha conhecido
muito brevemente. De fato para mim parece que faz pouco tempo da primeira vez que eu vi Bëor no leste desta terra, contudo agora ele se foi, e seus filhos, e o filho do seu filho também.

- Faz mais de cem anos agora - disse Andreth - desde que nós atravessamos as Montanhas; e Bëor, Baran e Boron, cada um viveu além do seu nonagésimo ano. Nossa passagem era mais rápida antes que nós encontrássemos esta terra.

- Então você está feliz aqui?

- Feliz? - perguntou Andreth - nenhum coração mortal está feliz. Toda
passagem e morte são um pesar para este; mas se o definhar for menos breve então isso é alguma melhora, uma pequena imitação da Sombra.

- O que você quer dizer com isso?

- Seguramente você sabe bem! - disse Andreth - a escuridão está agora
limitada ao Norte, mas uma vez ela aqui viveu. – dizendo isso os olhos de
Andreth escureceram, como se a sua mente tivesse regressado para os anos
negros que estavam melhor esquecidos - Uma vez a sombra existiu em toda a Terra-média, enquanto vós moráveis em vossa glória.

- Não foi relacionado à Sombra que eu perguntei. - disse Finrod - O que você
quer dizer, eu diria, pela imitação disto? Ou como o destino rápido dos
Homens se relaciona com isto? Vós também, nós consideramos (sendo instruídos pelos Grandes que sabem), sois Filhos de Eru, e vosso destino e natureza são  provenientes dEle.

- Eu vejo - disse Andreth - que neste assunto vós dos Altos-elfos não
diferem dos seus parentes inferiores a quem nós encontramos no mundo, embora  eles nunca tenham morado na Luz. Todos vós julgais que nós morremos  rapidamente pela nossa verdadeira espécie. Que nós somos frágeis e breves, e vós sois fortes e duradouros. Nós podemos ser "os Filhos de Eru" como dizeis  em vossa tradição; mas nós também somos filhos para vocês: para sermos  amados um pouco talvez, e ainda criaturas de menor valor, sobre quem vós  podeis olhar para baixo da altura do seu poder e seu conhecimento, com um  sorriso ou com piedade, ou com um menear de cabeças.

- Ah, você fala próximo da verdade - disse Finrod - pelo menos de muitos do
meu povo; mas não de todos, e certamente não de mim. Mas considere isto bem,  Andreth, quando nós os chamamos "Filhos de Eru" não falamos indolentemente;pois o nome dEle não articulamos nunca em gracejo ou sem um forte intento. Quando falamos assim falamos a partir de conhecimento, não de mera tradição Élfica; e proclamamos que vós sois nossa família em um parentesco muito mais íntimo (ambos hröa e fëa) do que aquele que une todas as outras criaturas de Arda, e nós mesmos a elas. Outras criaturas também na Terra-média nós amamos em sua medida e espécie: as bestas e pássaros que são nossos amigos, as árvores, e até mesmo as flores belas que passam mais rapidamente que os Homens. A passagem delas nós lamentamos; mas acreditamos que seja uma parte da sua natureza, tanto quanto o são suas formas ou os seus matizes.

- Mas para vocês - suspiro Finrod - que são nossos parentes mais próximos,
nosso pesar é muito maior. E contudo, se considerarmos a brevidade da vida
em toda a Terra-média, não devemos acreditar que a sua brevidade também seja parte de sua natureza? O seu próprio povo não acredita nisso também? E ainda de suas palavras e da amargura delas eu acho que você pensa que nós estamos errados.

- Eu penso que você erra e todos que pensam igualmente - disse Andreth - e
que esse próprio erro vem da Sombra. Mas para falar dos Homens, alguns dirão isto e alguns aquilo; mas a maioria, pensando um pouco, sempre considerará que o que está no seu período curto de tempo no mundo sempre foi assim e permanecerá assim para sempre, quer gostem disto ou não. Mas há alguns que pensam o contrário; os homens os chamam de "sábios", mas lhes dão pouca atenção. Porque eles não falam com segurança ou com uma única voz, não tendo nenhum conhecimento seguro tal como vós ostentais, mas forçosamente dependendo de conhecimento, do qual a verdade (se esta puder ser encontrada) deve ser separada. E em toda a separação há joio com o trigo que é escolhido, e indubitavelmente um pouco de trigo com o joio que é rejeitado.

- Contudo, entre meu povo - continuou Andreth - de Sábios para Sábios
originários da escuridão vem a voz dizendo que os Homens não são agora como eram, nem como a verdadeira natureza deles era em seu começo. E mais claro ainda é isto dito pelos Sábios do Povo de Marach, que preservaram em memória um nome para Ele que vós chamais de Eru, embora em meu povo Ele fosse quase esquecido. Assim eu sou informada de Adanel. Eles dizem claramente que os Homens não são por natureza de vida-curta, mas se tornaram assim pela malícia do Senhor do Escuro quem não nomeiam.

- Isso eu bem posso acreditar - disse Finrod - que os seus corpos sofrem em
alguma proporção a malícia de Melkor. Porque vocês vivem em Arda Desfigurada como nós vivemos, e toda a matéria de Arda foi corrompida por ele, antes que vós ou nós viéssemos e tirássemos os nossos hröar e o alimento deles de lá: toda Arda exceto talvez Aman antes que ele lá vivesse por algum tempo. Pois saiba, não é diferente mesmo com os Quendi: sua saúde e estatura estão diminuídas. Aqueles de nós que moram na Terra-média e até mesmo nós que retornamos a esta, achamos que a mudança dos corpos deles é mais rápida do que no princípio. E isso, eu julgo, deve predizer que eles provarão serem menos fortes para durar do que eles foram criados para ser, embora esse  destino possa não ser revelado claramente durante muitos longos anos. E igualmente os hröar dos Homens - continuou Finrod - são mais fracos do que deveriam ser. Assim vem a suceder que aqui no Oeste, para o qual em tempos  antigos o poder dele raramente se estendia, eles têm mais saúde, como você
diz.

- Não, não! - exclamou Andreth - você não compreende minhas palavras porque você está sempre em uma mesma opinião, meu senhor: Elfos são Elfos e Homens  são Homens, e embora tenham um Inimigo comum, por quem ambos são prejudicados, ainda a distância ordenada permanece entre os senhores e os  humildes, os que vieram primeiro altos e duradouros, os seguidores humildes e de serviço breve. Essa não é a voz que os Sábios ouvem falar vindo da escuridão e de além desta. Não, senhor, os Sábios entre os Homens dizem: "Nós não fomos feitos para a morte, nem nascidos para morrer. A morte foi imposta sobre nós". E observe! o medo desta sempre está conosco, e nós fugimos para sempre dela como o cervo do caçador. Mas por mim mesmo eu julgo que nós não podemos escapar dentro deste mundo, não, não até mesmo se nós pudéssemos chegar à Luz além do Mar, ou àquela Aman da qual vós falais. Naquela esperança nós partimos e temos viajado por muitas vidas de Homens. A esperança era vã; assim disseram os Sábios. Mas isso não sustentou a marcha, pois como disse, eles recebem pouca atenção. E veja! nós fugimos da Sombra para as últimas costas da Terra-média, para descobrir somente que ela está aqui diante de nós!

- Então Finrod ficou calado; mas depois de um tempo disse: 'Estas palavras
são estranhas e terríveis. E você fala com a amargura de alguém cujo orgulho foi humilhado e busca então ferir aqueles a quem fala. Se todos os Sábios entre os Homens falam assim, então eu bem posso acreditar que vós tendes sofrido alguma grande ferida. Mas não pelo meu povo, Andreth, nem por qualquer um dos Quendi. Se nós formos como nós somos, e vós sois como nós os  encontramos, isso não é por qualquer ação nossa nem de nosso desejo; e o seu sofrimento não nos regozija nem alimenta o nosso orgulho. Somente uma pessoa diria o contrário: aquele Inimigo a quem você não nomeia. Tome cuidado com o joio de seu trigo, Andreth, porque pode ser mortal: mentiras do Inimigo que a partir da inveja criarão ódio. Nem todas as vozes que vêm da escuridão falam a verdade para aquelas mentes que escutam notícias estranhas.

- Mas quem lhes causou essa ferida? - continuou Finrod - Quem impôs a morte sobre vocês? Melkor, é claro que você diria, ou qualquer nome você tenha para ele em segredo. Porque você fala de morte e a sua sombra como se estes fossem um e o mesmo; e como se escapar da Sombra fosse também escapar da  morte. Mas estes dois não são o mesmo, Andreth. Assim eu julgo, ou a morte não seria encontrada em absoluto neste mundo que ele não criou. Não, a morte é no entanto o nome que nós damos a algo que ele corrompeu e soa mal desde então; mas imaculado seu nome seria bom.

- O que vós sabeis da morte? Vós não a temeis, porque vós não a conheceis.

- Nós a vimos e a tememos - respondeu Finrod - Nós também podemos morrer, Andreth; e nós temos morrido. O pai de meu pai foi cruelmente morto e muitos o seguiram, exilados à noite, no gelo cruel, no mar insaciável. E na Terra-média nós temos morrido, através de fogo, por veneno e pelas lâminas cruéis da batalha. Fëanor está morto e Fingolfin foi pisado sob os pés de Morgoth. E para que fim? Para subverter a Sombra, ou se isso não pode ser, para impedi-la de se espalhar mais uma vez por toda a Terra-média. Para defender os Filhos de Eru, Andreth, todos os Filhos e não apenas os  orgulhosos Eldar!

- Eu ouvira - disse Andreth - que foi para recuperar seu tesouro que o
Inimigo roubara; mas talvez a Casa de Finarfin não esteja unida com os
Filhos de Fëanor. Todavia por todo seu valor, eu digo novamente: o que vós
sabeis da morte? Para vocês esta pode estar na dor, pode ser amarga e uma
perda, mas só durante um tempo, um pouco levado da abundância, a menos que  eu tenha ouvido mentiras. Pois vós sabeis que em morrer vocês não deixam o mundo e podem retornar a vida. O contrário acontece conosco: morrendo nós morremos e partimos para não voltarmos. A morte é um fim absoluto, uma perda irremediável. E é abominável; porque também é uma injúria feita a nosso povo.

- Essa diferença eu percebo - disse Finrod - você diria que existem duas
mortes: uma é um dano e uma perda mas não um fim, a outra é um fim sem
reparação; e os Quendi sofrem só a primeira?

- Sim, mas também há outra diferença - disse Andreth - uma é apenas um
ferimento nas casualidades do mundo, que o valente, o forte ou o afortunado
podem esperar evitar. A outra é a morte inelutável; a morte caçadora da qual não se pode no fim escapar. Seja um Homem forte, rápido ou corajoso; seja ele sábio ou um tolo; seja ele mal ou seja ele em todas as ações dos seus dias justo e misericordioso, deixe-o amar o mundo ou abominá-lo, ele deve morrer e se tornar carne putrefata que os homens têm tendência a esconder ou  queimar.

- E sendo perseguidos assim, os Homens não têm nenhuma esperança? -
Perguntou Finrod.

- Eles não têm nenhuma certeza e nenhum conhecimento, somente medos ou
sonhos na escuridão - respondeu Andreth - Mas esperança? Esperança, que é
outra questão da qual até mesmo os Sábios raramente falam. - então sua vo  ficou mais gentil - contudo, Senhor Finrod da Casa de Finarfin, dos
Altos-elfos, talvez nós possamos falar disso agora, você e eu.

- Isso nós podemos - disse Finrod - mas enquanto ainda caminhamos nas
sombras do medo. Assim sem dúvida, então, eu percebo que a grande diferença  entre os Elfos e os Homens está na velocidade do fim. Nisto apenas. Pois se  você julga que para os Quendi não há nenhuma morte inelutável, você se  engana. Nenhum de nós sabe, embora os Valar possam saber, o futuro de Arda,  ou por quanto tempo esta é ordenada para durar. Mas Arda não vai durar para sempre, foi feita por Eru mas Ele não está nela. Apenas o Único não tem  nenhum limite. Arda e o próprio Ëa, devem então ser limitados. Você nos vê,  os Quendi, ainda nas primeiras eras de nosso ser e o fim está distante. Enquanto talvez entre vocês a morte possa dar a impressão de um homem jovem  em sua força; salvo que nós temos longos anos de vida e pensamento já atrás  de nós. Mas o fim chegará, isso todos nós sabemos. E então nós devemos  morrer; nós devemos perecer totalmente, parece, porque pertencemos a Arda (em hröa e fëa). E além disso o que existe? A partida para nenhum retorno,  ou como você diz; o maior fim, a perda irremediável?

- Nosso caçador caminha mais lento - continuou Finrod - mas ele nunca perde
o rastro. Além do dia quando ele soprará a trombeta que anuncia a morte, nós não temos nenhuma certeza, nenhum conhecimento. E ninguém nos fala de  esperança.

- Eu não sabia disso - disse Andreth - e ainda assim...

- E ainda assim, pelo menos - continuou Finrod - nosso caminho é mais lento,
você diria? É verdade. Mas não está claro que uma destruição prevista há
muito tempo, ainda que possa ser adiada, seja de todas as formas um fardo
mais leve do que uma que chega logo. Mas se eu compreendi as suas palavras até então, você não acredita que esta diferença foi planejada assim no princípio. Que vocês não eram no princípio sentenciados a morte rápida.
Muito poderia ser dito relativo a esta crença, seja esta uma suposição
verdadeira ou não. Mas primeiro eu perguntaria: como vós dizeis que isto
aconteceu? Pela malícia de Melkor eu pensei, e você não negou. Mas eu vejo
agora que você não fala da diminuição que tudo em Arda Desfigurada sofre;
mas de algum golpe especial de inimizade contra o seu povo, contra os Homens enquanto Homens. É assim?

- De fato assim é. - Disse Andreth.

- Então esta é uma questão de espanto - disse Finrod - para nós que
conhecemos Melkor, Morgoth, e o conhecemos por ser poderoso. Sim, eu o vi e ouvi a voz dele; e fiquei cego na noite que está no coração da sua sombra,
de quem você, Andreth, não sabe nada exceto por ouvir dizer e pela memória de seu povo. Mas nunca até mesmo na noite nós acreditamos que ele poderia prevalecer contra os Filhos de Eru. Este ele engana ou aquele ele poderia corromper; mas mudar o destino de um povo inteiro dos Filhos e despojá-los da sua herança; se ele pudesse fazer isso contra a vontade de Eru, então sem dúvida ele é maior e mais terrível do que nós pensávamos; então todo o valor dos Noldor é meramente presunção e tolice.

- Entenda minhas palavras - disse Andreth - eu não disse que vós não
conheceis a morte? Observe! Quando você é forçado a enfrentá-la apenas em pensamento, enquanto nós a conhecemos em ação e em pensamento todas as nossas vidas, imediatamente você cai em desespero. Nós sabemos, se vós não sabeis, que o Inominável é o Senhor deste Mundo, e o seu valor, e o nosso também, é uma tolice; ou pelo menos é infrutífero.

- Tenha cuidado - exclamou Finrod - cuide para que você não fale do
indizível, mordazmente ou em ignorância, confundindo Eru com o Inimigo que
teria inclinado você a ter agido assim. O Senhor deste Mundo não é ele mas o Único que o fez, e o seu Governante é Manwë, o Rei Mais Velho de Arda que é abençoado. Não, Andreth, a mente escurecida e distraída; para curvar e ainda para abominar; para fugir e contudo não para rejeitar; para amar o corpo e ainda desprezá-lo, o desgosto da carne putrefata: estas coisas podem vir de Morgoth, realmente. Mas sentenciar o imortal a morte, de pai até filho, e ainda deixar para eles a memória de uma herança arrebatada e o desejo pelo que está perdido: poderia Morgoth fazer isto? Não, eu digo. E por essa razão eu disse que se o que você conta é verdade, então tudo em Arda é vão, do pináculo de Oiolossë até o maior abismo. Porque eu não acredito na sua história. Ninguém poderia ter feito isto exceto o Único.

- Então eu digo a você Andreth - continuou Finrod - o que vós fizestes, vós
Homens, há muito tempo na escuridão? Como vós enfurecestes Eru? Pois caso contrário todas as suas histórias são apenas sonhos escuros inventados em uma Mente Escura. Você dirá o que você sabe ou o que você ouviu?

- Eu não direi - disse Andreth - nós também não falamos disto àqueles de
outra raça. Mas realmente os Sábios são incertos e falam com vozes
contrárias; pois o que quer que tenha acontecido há muito tempo atrás, nós
temos fugido disto; nós temos tentado esquecer, e temos tentado por tanto
tempo que agora não podemos nos lembrar de qualquer época quando não éramos como somos - salvo apenas lendas de dias quando a morte chegava menos rapidamente e nosso período de tempo ainda eram muito mais longo, mas já havia morte.

- Não podeis lembrar-vos? - disse Finrod - Não existem histórias de seus
dias antes da morte, embora vós não as conteis a estranhos?

- Talvez existam - disse Andreth - se não entre meu povo então talvez entre
o povo de Adanel, talvez entre eles. - Então ela ficou calada, e olhou
fixamente para o fogo.

- Você pensa que ninguém sabe exceto vós mesmos? - disse Finrod afinal - Os Valar não sabem?

Andreth olhou para cima e seus olhos escureceram.

- Os Valar? - ela disse - como eu deveria saber ou qualquer Homem? Seus
Valar não nos aborrecem nem com cuidado ou com instrução. Eles não enviaram nenhuma convocação para nós.

- O que você sabe deles? - perguntou Finrod - Eu os vi e morei entre eles, e
na presença de Manwë e Varda estive na Luz. Não fale deles assim nem de
qualquer coisa que esteja elevada acima de você. Tais palavras saíram
primeiro da Boca Mentirosa. Nunca entrou em seu pensamento, Andreth, que lá fora em eras há muito tempo passadas vós podeis ter se colocado fora do
cuidado deles e além do alcance da ajuda deles? Ou até mesmo que vós, os
Filhos dos Homens, não fôsseis uma matéria que eles pudessem governar? Pois vós éreis grandes demais. Sim, eu quero dizer isto e não somente lisonjear seu orgulho: grandes demais. Mestres exclusivos de si mesmos dentro de Arda,debaixo apenas da autoridade do Único. Tenha cuidado então como você fala!
Se vós não falareis a outros de seu ferimento ou como vós chegastes a isto,
preste atenção para que vós (como sanguessugas inábeis) não julgueis mal a
ferida ou em orgulho distribuam a culpa erradamente.

- Mas deixe-nos mudar agora para outros assuntos - continuou Finrod - uma
vez que você não dirá nada mais sobre isto. Eu consideraria seu primeiro
estado antes do ferimento. Pois o que você diz disso também é para mim uma surpresa e difícil de entender. Você diz: "nós não fomos feitos para a
morte, nem nascemos para morrer". O que você quer dizer que vós éreis como nós somos, ou o contrário?

- Esta sabedoria não leva nenhum relato seu - disse Andreth - porque nós não sabíamos nada dos Eldar. Nós consideramos somente morrer e não-morrer. Da vida tão longa quanto o mundo mas não mais longa que este nós não ouvíramos; de fato, até agora tal coisa não havia entrado em minha mente.

- Para falar sinceramente - disse Finrod - eu pensava que esta crença sua,
que vós também não foram feitos para a morte, era apenas um sonho de seu
orgulho criado em inveja dos Quendi, para igualá-los ou ultrapassá-los. Não
é assim, você dirá. Contudo muito tempo antes que chegásseis a esta terra
vós encontrastes outro povo dos Quendi, e por alguns foram ajudados. Vós não éreis então já mortais? E vós nunca falastes com eles a respeito da vida e da morte? Embora sem quaisquer palavras eles logo descobririam sua
mortalidade, e muito tempo antes vocês perceberiam que eles não morriam.

- Não é assim, eu digo realmente - respondeu Andreth - nós podemos ter sido mortais quando encontramos os Elfos pela primeira vez distante daqui, ou talvez não fôssemos: nossa tradição não diz, ou pelo menos nenhuma que eu tenha aprendido. Mas já tivemos nossa tradição e não precisamos de nenhuma dos Elfos: nós sabíamos que em nosso começo tínhamos nascido para nunca morrer. E por isso, meu senhor, nós queríamos dizer: nascidos para a vida perpétua, sem qualquer sombra de fim.

- Então os Sábios entre vocês consideraram o quão estranha é a verdadeira
natureza que eles reivindicam para os Atani? - Disse Finrod.

- É assim tão estranho? - perguntou Andreth - Muitos dentre os Sábios
consideram que em sua verdadeira natureza nenhuma coisa vivente morreria.

- No que os Eldar diriam que eles erram. - respondeu Finrod - Para nós sua
reivindicação a respeito do destino dos Homens é estranha e dura de aceitar.
Vocês reivindicam, se vós compreendeis completamente suas próprias palavras, terem tido corpos imperecíveis não limitados pelas fronteiras de Arda, e ainda derivados de sua matéria e sustentados por esta. E você também reivindica (entretanto isto você possa não ter percebido) terem tido hröar e fëar que eram desde o princípio sem harmonia. Contudo a harmonia de hröa e fëa é, nós acreditamos, essencial para a verdadeira natureza não desfigurada de todos os Mirroanwi: os Encarnados como, os Quendi chamam os Filhos de Eru.

- A primeira dificuldade eu percebo - disse Andreth - e para esta nossos
Sábios tem sua própria resposta. A segunda, como você adivinha, eu não
percebo.

- Você não percebe? - perguntou Finrod - Então vocês não se vêem claramente.
Mas pode acontecer freqüentemente que os amigos e os parentes vejam coisas claramente que são escondidas do seu próprio amigo. Agora nós Eldar somos seus parentes e seus amigos também (se você acreditar nisto) e nós já os observamos por três vidas de Homens com amor, preocupação e atenção. Disto então nós estamos certos sem debate, ou então toda nossa sabedoria é vã: o fëa dos Homens embora parente próximo do fëa dos Quendi, contudo não é o mesmo. Pois estranho como nós os julgamos, nós vemos claramente que os fëar dos Homens não são, como são os nossos, confinados a Arda, nem Arda é o lar deles.

- Você pode negar isto? - continuou Finrod - Nós Eldar não negamos que vós
amais Arda e tudo aquilo que está nela (na medida em que vós sois livres da
Sombra) talvez até mesmo tão grandemente quanto nós somos. Porém cada uma de nossas famílias percebe Arda diferentemente e avaliam suas belezas de modo e grau diferentes. Como eu direi isto? Para mim a diferença parece como aquela entre alguém que visita um país estranho e permanece um tempo lá (mas não necessita viver lá) e alguém que sempre viveu naquela terra (e tem que viver lá). Para o anterior todas as coisas que vê são novas e estranhas, e nessa qualidade amáveis. Para o outro todas as coisas são familiares, as únicas coisas que são suas próprias, e nessa qualidade preciosas.

- Se você quer dizer - falou Andreth - que os Homens são os visitantes...

- Você disse a palavra - disse Finrod - esse é o nome que demos a vocês.

- Soberanamente como sempre - suspirou Andreth - mas até mesmo se nós formos meramente convidados em uma terra onde tudo é propriedade de vocês, meus senhores, como você diz, me diga que outra terra ou coisas nós conhecemos?

- Não, que você me diga! - disse Finrod - Pois se vocês não sabem como nós
podemos saber? Mas você sabe que os Eldar dizem dos Homens que eles não
olham para coisa alguma pelo que ela é; que se eles a estudam é para
descobrir algo mais; que se eles a amam é somente porque ela lhes lembra de outra coisa mais cara? Mas com o que fazem tal comparação? Onde estão essas outras coisas?

- Nós estamos ambos - continuou Finrod - Elfos e Homens, em Arda, e somos
parte de Arda; e tal conhecimento como os Homens têm é derivado de Arda (ou assim pareceria). De onde vem então esta memória vós tendes com vocês, até mesmo antes que vós começásseis a aprender? Não é de outras regiões em Arda das quais vós viajastes. Nós também viajamos de longe. Mas eu e você deveríamos ir juntos para seus lares antigos no leste distante e eu deveria reconhecer as coisas lá como parte da minha casa, mas deveria ver em seus olhos a mesma admiração e comparação como eu vejo nos olhos dos Homens em Beleriand que nasceram aqui.

- Você fala palavras estranhas, Finrod - disse Andreth - as quais eu não
ouvi antes. Todavia meu coração é agitado como se por alguma verdade que
reconhece até mesmo se este não a entende. Mas passageira é aquela memória e se vai antes que possa ser compreendida; e então nós ficamos cegos. E aqueles entre nós que conheceram os Eldar, e talvez os amaram, dizem no o nosso lado: “Não há nenhum cansaço nos olhos dos Elfos". E nós achamos que eles não entendem a declaração que avança entre os Homens: “O que é visto demais e com muita freqüência não é mais visto”. E eles admiram-se muito que nas línguas dos Homens a mesma palavra possa significar ambas as coisas "há-muito-conhecido" e "passado".

- Nós pensávamos que isto era assim - continuou Andreth - somente porque os Elfos têm vida duradoura e vigor não diminuído. "crianças adultas" nós às
vezes os chamamos, meu senhor. E contudo - e contudo - se nada em Arda retém seu sabor por muito tempo e todas as coisas belas escurecem, isto não vem da Sombra sobre nossos corações? Ou você diz que isso não é assim, mas esta foi sempre nossa natureza, até mesmo antes do ferimento?

- Assim eu digo, de fato. - respondeu Finrod - A Sombra pode ter escurecido
seu desassossego, trazendo cansaço mais rápido e logo alterando este para
desdém, mas o desassossego sempre esteve lá, acredito. E se isto é assim,
então você não pode agora perceber a desarmonia da qual eu falei? Se
realmente sua Sabedoria tivesse conhecimento como o nosso, ensinando que os ncarnados são feitos de uma união de corpo e mente, de hröa e fëa, ou como nós dizemos de modo figurado: a Casa e o Habitante. Pois o que é a "morte" que você lamenta senão a divisão destes dois? O que é a "imortalidade" que vocês perderam senão que os dois deveriam permanecer unidos para sempre?

- Mas o que então deveríamos pensar - disse Finrod - da união no Homem: de um Habitante que é apenas um estrangeiro aqui em Arda e não está em seu lar, com uma Casa que é feita da matéria de Arda e deve portanto aqui permanecer?
Ao menos não esperar-se-ia para essa Casa uma vida maior que a de Arda, da qual ela é parte. Contudo, afirmais que a Casa também era imortal, não? Eu preferiria acreditar que tal fëa, por sua própria natureza, iria em algum
momento de livre vontade abandonar a casa de sua habitação aqui, ainda que a habitação pudesse ter sido mais longa do que é agora permitido. Então a "morte" soaria de maneira diversa para vós: como uma libertação, ou um
retorno - não, como ir para casa! Mas nisso não acreditais, parece?

- Não! não acredito nisso - exclamou Andreth - pois isso seria desprezo pelo
corpo, e é um pensamento da Escuridão não-natural em qualquer dos
Encarnados, cuja vida incorrupta é uma união de amor mútuo. Mas o corpo não é uma estalagem que mantém um viajante aquecido por uma noite, antes que ele siga seu caminho, e depois recebe outro. É uma casa feita para um habitante apenas, e de fato não apenas casa mas também vestimenta; e não está claro para mim se deveríamos neste caso dizer que a vestimenta é adequada ao usuário e não que o usuário é adequado à vestimenta. Sustento então que não se deve pensar que a separação destes dois poderia ser de acordo com a verdadeira natureza dos Homens. Pois se fosse "natural" para o corpo ser abandonado e morrer, mas "natural" para o fëa continuar a viver, então de fato haveria uma desarmonia no Homem, e suas partes não estariam unidas por amor. Seu corpo seria na melhor das hipóteses um impedimento, ou uma cadeia.
De fato uma imposição, e não uma dádiva. Mas há alguém que impõe, e que
concebe cadeias, e se tal fosse a nossa natureza no princípio, então
deveríamos derivá-la dele - mas isto, dizeis, não se deve ser falado.

- Ah! Pela escuridão os homens dizem isto todavia - continuou Andreth - mas
não os Atani como tu conheceste, não agora. Eu considero que nisto nós somos como vós sois, verdadeiramente Encarnados, e que nós não vivemos em nossa essência correta e sua plenitude salvo em uma união de amor e paz entre a Casa e o Morador. Portanto a morte, que os divide, é um desastre para ambos.

- Sempre mais você confunde meu pensamento, Andreth. - disse Finrod - Pois se sua reivindicação for verdadeira, então observe: um fëa que é aqui
meramente um viajante está casado indissoluvelmente com um hröa de Arda;dividi-los é uma ferida dolorosa, e contudo cada um deve preencher sua legítima natureza sem a tirania do outro. Então isso seguramente deve
seguir: o fëa quando este parte deve levar consigo o hröa. E o que isso pode
significar a menos que o fëa tiver o poder para enaltecer o hröa, como seu
cônjuge eterno e companheiro, em uma duração perpétua além de Ëa, e além do Tempo? Assim Arda, ou parte dessa, seria curada não apenas da corrupção de Melkor, mas libertada até mesmo dos limites que lhe eram estabelecidos na "Visão de Eru" da qual os Valar falam.

Então eu digo - continuou Finrod - que se isto pode ser acreditado, então
poderosos de fato, abaixo de Eru apenas foram Homens feitos no seu começo; e terrível além de todas as outras calamidades foi a mudança feita na condição deles. Esta é, então, uma visão do que foi projetado para ser quando Arda estava completa - de coisas viventes e até mesmo das mesmas terras e mares de Arda feitas eternas e indestrutíveis, para sempre bonitas e novas - com que os fëar dos Homens comparam o que eles vêem aqui? Ou existe em outro lugar um mundo do qual todas as coisas que vemos, todas as coisas que os Elfos ou Homens sabem, são apenas recordações ou lembranças?

- Nesse caso residem na mente de Eru, eu julgo - disse Andreth - para tais
questões como nós podemos achar as respostas aqui, nas névoas de Arda
Desfigurada? Poderia ter sido diferente, se não tivéssemos sido mudados; mas sendo como nós somos, até mesmo os Sábios entre nós têm dado muito pouca atenção à própria Arda, ou para outras coisas que vivem aqui. Nós pensamos geralmente sobre nós mesmos: sobre como nossos hröar e fëar deveriam ter morado juntos para sempre em alegria, e sobre a escuridão impenetrável que agora nos espera.

- Então não apenas os Altos Eldar estão esquecidos da sua família! - disse
Finrod - Mas isto é estranho para mim, e até mesmo como fez o seu coração
quando eu falei de seu desassossego, assim agora o meu salta ao ouvir falar
de boas novas. Esta então, eu proponho, era a incumbência dos Homens, não os seguidores mas os herdeiros e os realizadores de tudo: curar a Ruína de
Arda, já pressagiada antes da criação deles; e fazer mais, como agentes da
magnificência de Eru: aumentar a Música e ultrapassar a Visão do Mundo! Por
isso Arda Curada não será Arda Não Desfigurada, mas uma terceira coisa maior e ainda a mesma. Eu conversei com os Valar que estavam presentes na criação da Música antes que a existência do Mundo começasse. E agora imagino: eles ouviram o fim da Música? Não havia algo dentro dela ou além dos acordes finais de Eru que, estando oprimido na música não perceberam?

- Ou novamente - continuou Finrod - uma vez que Eru é para sempre livre,
talvez ele não fizesse nenhuma Música e não mostrasse nenhuma Visão além de um certo ponto. Além desse ponto nós não podemos ver ou saber, até que por nossas próprias estradas nós cheguemos lá, Valar, Eldar ou Homens. A medida em que um mestre pode, em sua narração dos contos, manter escondido o maior momento até que este chegue no tempo devido. Pode ser adivinhado realmente, em alguma medida, por aqueles de nós que escutaram com pleno coração e mente; mas assim o narrador desejaria. Em nenhum modo a surpresa e maravilha da sua arte são assim diminuídas, pois desta maneira nós compartilhamos,como esta era, na sua autoria. Mas não seria assim, se tudo nos fosse contado em um prefácio antes que nós entrássemos!
- O que então você diria que seja o momento supremo que Eru reservou?

- Ah, senhora sábia! - disse Finrod - Eu sou um Elda, e novamente estava
pensando em meu próprio povo. Eu estava pensando que pelos Segundos a Nascer poderíamos ter sido libertados da morte. Para sempre como nós falamos da morte sendo uma divisão do que está unido, eu pensei em meu coração sobre uma morte que não é dessa forma: mas o fim simultâneo de ambos. Pois isso é o que permanece antes de nós, tão distante quanto a nossa razão poderia ver:a conclusão de Arda e seu fim, e então também de nós, os filhos de Arda; o fim quando todas as vidas longas dos Elfos estarão completamente no passado. 
- E então, de repente, eu observei como uma visão Arda Recriada; lá os Eldar completos mas não terminados poderiam permanecer no presente para sempre e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles tais canções enquanto, até mesmo na Glória além da felicidade, deveria fazer os vales verdes soarem e os topos eternos das montanhas vibrarem como harpas.

Então Andreth olhou por baixo das suas sobrancelhas para Finrod: - E o que,
vós nos diríeis quando não estivésseis cantando? - ela perguntou.

Eu só posso adivinhar. - Finrod disse rindo - Por que, senhora sábia, eu,
penso que nós deveríamos lhes contar contos do Passado e da Arda que existia Antes, dos perigos e grandes ações, e a criação das Silmarils! Nós éramos então os únicos soberanos! Mas vós, vós estaríeis então em casa, olhando todas as coisas atentamente como suas próprias. Vós seríeis os soberanos. "Os olhos dos Elfos sempre estão pensando em alguma coisa mais", vós diríeis. Mas vós saberíeis então sobre o que nos estávamos lembrados: dos dias quando nós nos encontramos pela primeira vez, e nossas mãos se tocaram na escuridão. Além do Fim do Mundo nós não mudaremos; porque na memória está o nosso grande talento, como será sempre visto mais claramente enquanto as eras de Arda transcorrem: um fardo pesado para acontecer, eu temo; mas nos Dias dos quais nós falamos agora uma grande riqueza. E então ele parou, porque ele viu que Andreth estava lamentando em silêncio. 

- Ai de nós, senhor! - disse Andreth - O que então será feito agora? Porque
nós falamos como se estas coisas acontecessem, ou como se elas seguramente realizar-se-ão. Mas os Homens foram diminuídos e o poder deles está tomado. Nós não contemplamos nenhuma Arda Recriada: a escuridão permanece diante de nós, a qual nós fitamos em vão. Se por nossa ajuda suas mansões perpétuas devessem ser preparadas, elas não serão agora construídas.

- Vós não tendes então nenhuma esperança? - Perguntou Finrod.

- O que é esperança? - disse Andreth - Uma expectativa do bem, que embora
incerta tem alguma fundação no que é conhecido? Então nós não temos nenhuma.

- Então isso é a coisa que os Homens chamam esperança - disse Finrod - Amdir nós a chamamos, "olhar para cima". Mas há outra que é fundada mais
profundamente. Estel nós a chamamos, que é "confiança". Esta não é derrotada pelos caminhos do mundo, porque não vem da experiência, mas de nossa natureza e primeira essência. Se nós realmente formos os Eruhini, os Filhos do Único, então Ele não admitirá ser privado do que for seu, não por nenhum Inimigo, nem mesmo por nós. Esta é a última fundação de Estel, que nós mantemos até mesmo quando contemplamos o Fim: de todos os Seus desígnios a questão deve ser para alegria dos Seus Filhos. Amdir vocês não possuem, você diz. Nem Estel permanece de qualquer modo?

- Talvez sim - ela disse - mas não! Você não percebe que faz parte de nosso
ferimento que Estel deveria titubear e suas fundações serem abaladas? Nós
somos os Filhos do Único? Nós não estamos derrotados finalmente? Ou nós
sempre fomos assim? O Inominável não é o Senhor do Mundo?

- Não diga isso nem mesmo em indagação! - Disse Finrod.

- Não pode deixar de ser mencionado - respondeu Andreth - se você entendesse o desespero no qual nós caminhamos. Ou no qual a maioria dos Homens caminha. Entre os Atani, como você nos chama, ou Seguidores como nós dizemos: aqueles que deixaram as terras do desespero e os Homens da escuridão e viajaram para o oeste em esperança vã: acredita-se que a cura ainda possa ser encontrada, ou que haja algum modo de escapar. Mas isto é realmente Estel? Não é mais propriamente Amdir; mas sem razão: mero vôo em um sonho do qual despertando eles sabem: que não há nenhuma escapatória da escuridão e morte?

- Mero vôo em um sonho você diz. - respondeu Finrod - Em sonho muitos
desejos são revelados; e o desejo pode ser a última luz bruxuleante de
Estel. Mas você não quer dizer sonho, Andreth. Você confunde sonho e
despertar com esperança e convicção, para tornar o primeiro mais duvidoso e o outro mais seguro. Eles estão adormecidos quando falam de escapatória e cura?
 - Adormecidos ou despertos, eles não dizem nada claramente. - respondeu
Andreth - Como ou quando a cura virá? E quanto a nós que antes disto
partiremos para dentro da escuridão sem sermos curados? Para tais questões somente aqueles da Velha Esperança (como chamam a si mesmos) têm qualquer suposição de uma resposta.

- Aqueles da Velha Esperança? - perguntou Finrod - Quem são eles?

- Poucos - ela disse - mas seu número cresceu desde que nós viemos para esta terra, e eles compreendem que o Inominável pode (como pensam) ser desafiado. Contudo essa não é uma boa razão. Desafiá-lo não desfaz o trabalho dele do passado. E se o valor dos Eldar falhar aqui, então o desespero deles seria mais profundo. Porque não era no poder dos Homens, ou de qualquer um dos povos de Arda, que a velha esperança estava fundamentada. 
- O que era então esta esperança, se você sabe? - Finrod perguntou.

- Eles dizem - respondeu Andreth - que o Único entrará ele próprio em Arda,
e curará os Homens e toda a Ruína desde o começo até o fim. Isto que eles
dizem também, ou fingem, é um rumor que veio por anos incontáveis, até mesmo dos dias de nossa ruína.

- Eles dizem, eles fingem? - disse Finrod - Você então não é um deles?

- Como eu posso ser, senhor? Toda a sabedoria está contra eles. Que é o
Único, quem vós chamais de Eru? Se nós colocarmos de lado os Homens que
servem o Inominável, como muitos fazem na Terra-média, ainda muitos Homens percebem o mundo somente como uma guerra entre a Luz e o Escuro eqüipotente.
Mas você dirá: não, isso é Manwë e Melkor; Eru está acima deles. Então
apenas Eru é o maior dos Valar, um grande deus entre deuses, como a maioria dos Homens dirá, até mesmo entre os Atani: um rei que mora longe do seu reino e deixa príncipes inferiores fazerem aqui em grande parte o que for de suas vontades? Novamente você diz: não, Eru é o Único, sozinho, inigualável, Ele fez Ëa, e está além disto; e os Valar são maiores do que nós, mas todavia não se aproximam da majestade dele. Não é assim?
- Assim é - disse Finrod - nós dizemos isto, e os Valar nós conhecemos, eles
dizem o mesmo, todos exceto um. Mas qual, você pensa, é o mais provável para mentir: aqueles que se fazem de humildes ou ele que exalta a si mesmo?

- Eu não duvido - disse Andreth - por essa razão a declaração de Esperança
ultrapassa minha compreensão. Como poderia Eru entrar em sua criação e da qual Ele é incomensuravelmente maior? Pode o cantor entrar em sua canção ou o desenhista em seu quadro?

- Ele já está nisto como também do lado de fora - disse Finrod - mas de fato
o "habitar dentro" e o "viver fora" não estão no mesmo modo.

- Verdadeiramente - disse Andreth - assim pode Eru naquele modo estar
presente em Ëa que procedeu dEle. Mas eles falam do próprio Eru entrando em Arda, e isso é uma coisa completamente diferente. Como poderia Ele fazer isto? Isso não despedaçaria Arda, ou realmente todo o Ëa?

- Não me pergunte - disse Finrod - estas coisas estão além do limite da
sabedoria dos Eldar, ou dos Valar talvez. Mas eu duvido que nossas palavras
possam nos enganar, e que quando você diz "maior” você pensa nas dimensões de Arda, na qual o maior recipiente não pode ser contido no menor. Mas tais palavras não podem ser usadas sobre o Imensurável. Se Eru desejasse fazer isto, eu não duvido que Ele encontrasse um modo, embora eu não possa prevê-lo. Pois, como me parece, até mesmo se Ele em Si mesmo entrasse, Ele ainda deve permanecer também como Ele é: o Autor exteriormente. E contudo, Andreth, para falar com humildade, eu não posso conceber de que outro modo esta cura poderia ser alcançada. Uma vez que Eru certamente não consentirá que Melkor desvie o mundo para sua própria vontade e triunfe no fim. Todavia não há nenhum poder concebível maior do que Melkor exceto apenas Eru. Por conseguinte Eru, se Ele não quiser abandonar o Seu trabalho a Melkor, que deve de outro modo conseguir o domínio, então Eru deve entrar para subjugá-lo.

- Ainda mais - continuou Finrod - até mesmo se Melkor pudesse ser derrubado de qualquer forma ou pudesse ser expulso de Arda, ainda sua Sombra permaneceria e o mal que ele tenha forjado e disseminado como uma semente cresceria e se multiplicaria. E se qualquer remédio para isto for encontrado antes que tudo esteja terminado, qualquer luz nova para se opor a sombra, ou qualquer remédio para as feridas: então deve, eu julgo, vir de fora.
- Então, senhor - disse Andreth olhando para cima maravilhada - você
acredita nesta Esperança?

- Não me pergunteis ainda. - ele respondeu - Pois ela ainda é para mim como
uma estranha nova que vem de longe. Nenhuma esperança como essa foi jamais dita aos Quendi. Para vós apenas ela foi mandada. E contudo através de vós nos podemos ouvi-la e levantar nossos corações". Ele parou por um momento e então, olhando gravemente para Andreth, disse: "Sim, mulher-sábia, talvez tenha sido ordenado que nós, os Quendi, e vós, os Atani, antes que o mundo envelheça, nós encontrássemos e trouxéssemos novas uns para os outros, e assim soubéssemos da Esperança através de vós: ordenado, de fato, que tu e eu, Andreth, sentássemos aqui e conversássemos, através do golfo que divide nossas gentes, para que enquanto a Sombra ainda paira no Norte nós não estivéssemos de todo amedrontados".

- Através do golfo que divide nossas famílias - disse Andreth - Não há ponte
alguma além de palavras? E então ela lamentou outra vez.

- Talvez haja para alguns. Eu não sei. - ele disse - O golfo, talvez, está
mais entre nossos destinos, pois de resto somos parentes próximos, mais
próximos do que quaisquer outras criaturas no mundo. Contudo, perigoso é
cruzar um golfo imposto pelo destino; e os que se arriscassem a fazê-lo não
encontrariam alegria do outro lado, mas a tristeza para ambos. Assim julgo
eu.

- Mas por que dizes "meras palavras"? Palavras não ultrapassam o golfo entre uma vida e outra? Entre ti e mim certamente passou mais do que som vazio? Não nos aproximamos de forma alguma? Mas isso é, creio, pouco conforto para ti.

- Não pedi conforto - disse Andreth - por que preciso dele?

- Para a destruição dos Homens que te tocou como uma mulher - disse Finrod -
tu pensas que eu não sei? Ele não é meu irmão afetuosamente amado? Aegnor: Aikanár, a Chama Afiada, célere e sôfrego. E não faz muitos anos desde que vos encontrastes pela primeira vez, e vossas mãos se tocaram neste escuro.
Contudo, eras então apenas uma donzela, valente e sôfrega, na manhã sobre os altos montes de Dorthonion.

- Continue - disse Andreth - diga: quem és agora a não ser uma mulher-sábia, sozinha, e a idade que não tocá-lo-á já assentou o cinza do inverno em teus cabelos! Mas não digas tu para mim, pois assim ele fez uma vez!

- Ai de nós! - disse Finrod - isso é a amargura, amada adaneth, mulher
mortal, não é? Isso traspassou todas as suas palavras. Se eu pudesse falar
algum conforto, você julgaria isto soberanamente de alguém do meu lado da
destruição que nos separa. Mas o que eu posso dizer, salvo para lembrar da
Esperança que tu mesma revelaste?

- Eu não disse que alguma vez ela fora a minha esperança - respondeu Andreth - e mesmo que assim fosse, ainda assim eu gritaria: por que esse ferimento deveria vir aqui e agora? Por que deveríamos amar-vos, e por que vós deveríeis amar-nos e ainda assim colocar o golfo entre nós?

- Porque assim fomos feitos, parentes próximos - disse Finrod - mas não
fizemos a nós mesmos, Andreth, e portanto nós, os Eldar, não colocamos esse golfo. Não, adaneth, não somos altivos nisto, mas cheios de compaixão. Tal palavra pode desagradar-te. Contudo, a compaixão é de dois tipos: uma vem do parentesco reconhecido, e é próxima do amor; a outra vem da diferença de sorte percebida, e é próxima do orgulho. Falo da primeira.

- Não faleis de nenhuma para mim! - disse Andreth - não desejo nenhuma. Eu era jovem e olhei para a chama dele, e agora estou velha e perdida. Ele era jovem, e sua chama saltou na minha direção, mas ele se afastou, e é jovem ainda. Velas se compadecem de mariposas.

- Ou mariposas de velas, quando o vento as apaga? – perguntou Finrod -
Adaneth, eu te digo, Aikanár, a Chama Afiada, te amava. Por tua causa ele
jamais tomará a mão de qualquer noiva de sua própria gente, mas viverá
sozinho até o fim, lembrando-se da manhã nos montes de Dorthonion. Mas cedo demais no Vento Norte a chama dele apagar-se-á! Previsão é dada aos Eldar em muitas coisas que não estão distantes, embora raramente de alegria, e digo a ti que viverás muito na medida de tua gente, e ele sairá diante de ti e não desejará retornar.

Então Andreth se levantou e esticou suas mãos na direção do fogo: - Por que
então ele se afastou? Por que deixar-me se eu ainda tinha alguns bons anos
para gastar?

- Ai de nós! - disse Finrod - temo que a verdade não te irá satisfazer. Os
Eldar são de uma maneira, e vós de outra; e cada um julga os outros por si
mesmo, até que aprenda, o que poucos fazem. Este é um tempo de guerra,
Andreth, e em tais dias os Elfos não se casam nem concebem filhos, mas
preparam-se para a morte ou para a fuga. Aegnor não tem confiança alguma, nem eu tenho, que o cerco de Angband dure muito; e então o que será desta terra? Se seu coração o governasse, ele teria desejado tomar-te consigo e fugir para longe, para o leste ou o sul, abandonando sua gente e a tua. Amor e lealdade o prendem à gente dele. E quanto a ti à tua? Tu mesma disseste que não há escapatória por fuga dentro dos limites do mundo.

- Por um ano, um dia da chama, eu teria dado tudo: parentesco, juventude e a própria esperança; adaneth eu sou. - Disse Andreth.

- Isso ele sabia - disse Finrod - e se retirou e não tomou aquilo que estava
diante de sua mão: elda ele é. Pois tais barganhas são pagas em angústia que não pode ser imaginada até que venha, e em ignorância, e não em coragem, os Elfos crêem que elas são feitas. Não, adaneth, se algum casamento pode acontecer entre nossa gente e a tua, então será por algum alto propósito do Destino. Breve será e duro no fim. Sim, o fado menos cruel que poderia  suceder-lhe seria que a morte logo o encerrasse.

- Mas o fim é sempre cruel para os Homens - disse Andreth - eu não o teria
importunado, quando minha curta juventude estivesse esgotada. Eu não teria
me arrastado como um fardo atrás de seus pés brilhantes, quando eu não mais  pudesse correr ao lado dele!

- Talvez não - disse Finrod - assim o sentes agora. Mas pensas nele? Ele não
teria corrido diante de ti. Ele teria ficado a teu lado para te levantar.
Então compaixão terias a toda hora, compaixão inescapável. Ele não
consentiria em ver-te humilhada. Andreth adaneth, a vida e o amor dos Eldar
repousa muito na memória; e nós, se não vós, preferimos antes ter uma
memória que é bela mas inacabada do que uma que continua até um fim triste.
Agora ele sempre lembrar-se-á de ti no sol da manhã, e daquela última noite
perto da água do Aeluin, na qual ele viu teu rosto espelhado com uma estrela
presa entre teus cabelos - sempre, até que o Vento Norte traga a noite de
sua chama. Sim, e depois disso, sentar-se na Casa de Mandos nos Salões da
Espera até o fim de Arda.

- E do que me lembrarei? - perguntou Andreth - e quando eu partir, para que
salões irei? Para uma escuridão na qual mesmo a memória da chama afiada será apagada? Mesmo a memória da rejeição. Pelo menos essa.

Finrod suspirou e se levantou: - Os Eldar não têm palavras de cura para tais
pensamentos, adaneth - ele disse - mas desejarias que Elfos e Homens jamais tivessem se encontrado? A luz da chama, que de outra forma nunca teriasvisto, não tem valor mesmo agora? Tu te acreditas desprezada? Afasta de tao menos esse pensamento, que vem da Escuridão, e então nossa conversa juntos não terá sido totalmente em vão. Adeus!

A escuridão caiu sobre o aposento. Ele tomou a mão dela na luz do fogo: Para onde ides? - ela disse.

- Para o Norte – respondeu Finrod - para as espadas, o cerco e os muros de
defesa. Para que por ainda algum tempo em Beleriand os rios possam correr
limpos, as folhas possam brotar e os pássaros possam construir seus ninhos,
antes que a Noite venha.

- Ele estará lá - perguntou Andreth - brilhante e alto, e o vento em seu
cabelo? Dizei-lhe. Diga-lhe para não ser descuidado. Para não buscar o
perigo sem necessidade!

- Direi isso a ele - disse Finrod - mas poderia também te dizer para não
chorar. Ele é um guerreiro, Andreth, um espírito de ira, e em cada golpe que
dá vê o Inimigo que há muito te fez esta ferida. Mas vós não sois de Arda.
Para onde fordes que possais encontrar luz. Espera por nós lá, a meu irmão,
e a mim.

Agradeciemntos especiais ao grupo Duvendor e Gil Estel

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