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Tuor e a sua chegada a
Gondolin
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Rían, esposa de Huor, morava com seu povo da Casa de Hador; mas notícias chegavam a Dor-lómin, vindas da Nirnaeth Arnoediad, e apesar disso ela não ouvia nenhuma nova sobre seu esposo, e ela ficou perturbada e vagou para a floresta, sozinha. Ali ela teria perecido, mas os elfos-cinzentos encontraram-na e socorreram-na, pois havia uma moradia dessa raça nas montanhas a oeste do Lago Mithrim, e para lá eles a levaram; e Rían, naquelas montanhas, deu à luz um filho, antes do fim do Ano das Lamentações. E
Rían disse aos elfos: -
Que ele seja chamado de Tuor,
pois seu pai escolhera este nome antes que a guerra sobreviesse
a nós. E eu lhes imploro para que adotem-no e mantenham-no
escondido e sob seus cuidados. Pois eu pressinto que uma
grandiosa bem-aventurança, para elfos e homens, deverá surgir
desta criança. Entretanto, eu preciso prosseguir em busca de
Huor, meu esposo e senhor. Então
os elfos tiveram pena dela; mas Annael, o único daqueles elfos,
e que foi para a guerra em auxílio daquele povo, e que
recentemente retornara da Nirnaeth, disse a ela: -
Que lástima, senhora, pois há pouco tempo eu soube que Huor
tombou ao lado do irmão Húrin, e ele jaz, creio eu, na imensa
colina de mortos que os orcs ergueram sobre o campo de batalha. Então
Rían levantou-se e deixou o lar dos elfos e atravessou a terra
de Mithrim e chegou, finalmente, a Haudhen-Ndengin na vastidão
de Anfauglith, e lá ela deitou-se e morreu. Mas os elfos
cuidaram do bebê de Huor, e Tuor cresceu entre eles. E ele era
possuía um belo rosto e tinha os cabelos dourados ao modo da
raça de seu pai, e ele tornou-se forte, alto e valente, e por
ter sido adotado pelos elfos em sua infância tinha tanto
conhecimento, habilidade e perícia quanto o mais hábil príncipe
dos edain, antes da ruína chegar ao norte. Mas
com o passar dos anos, a vida dos povos ancestrais de Hithlum,
ou seja, os elfos e os homens, tornou-se difícil e perigosa.
Pois, como era dito por toda a parte, Morgoth traiu os
orientais que o serviam, e negou-lhes as terras de Beleriand,
as quais eles eram ávidos em obter, e guiou esse povo maligno
a Hithlum, e ordenou que ali morassem. E embora eles não mais
adorassem Morgoth, eles ainda o serviam por medo, e odiavam
todo o povo élfico e menosprezavam os remanescentes da Casa de
Hador (que eram, na maioria, idosos, mulheres e crianças) e os
oprimiam e tomavam-lhes as mulheres à força e escravizavam as
crianças. Orcs iam e vinham por toda aquela terra como bem
desejavam, perseguindo os elfos que se demoravam nas partes
mais seguras das montanhas, capturando muitos para trabalhar
nas Minas de Angband como escravos de Morgoth. Então
Annael conduziu seu pequeno povo para as cavernas de Androth, e
ali viveram uma vida dura e cautelosa, até Tuor alcançar os
dezesseis anos de idade e se tornar forte e apto para empunhar
armas: o machado e o arco dos elfos-cinzentos; e sua coragem
desenvolveu-se como uma chama ardente dentro de seu coração,
por ter ouvido os contos sobre o sofrimento de seu povo, e Tuor
desejou partir e vingar seu povo dos orcs e orientais,
entretanto ele foi proibido de fazê-lo, por Annael. -
Pois distante daqui está teu destino, Tuor filho de Huor,
creio eu - ele disse. - E esta terra não deverá ser libertada
da sombra de Morgoth, até que a própria Thangorodrim seja
derrubada. Portanto, finalmente decidimos abandonar esta terra
e partir em direção ao sul; e deverás partir conosco. -
Mas como poderemos escapar da teia de nossos inimigos? -
Questionou Tuor. - Pois um grande grupo em marcha obviamente
será avistado e atacado. -
Não deveremos atravessar esta terra abertamente, - disse
Annael - e se tivermos boa sorte, deveremos chegar ao caminho
secreto que nós chamamos de Annon-in-Gelydh, O Portal dos
Noldor; pois tal caminho foi construído com a habilidade desse
povo, há muito tempo atrás, nos dias de Turgon. E,
ao ouvir tal nome, Tuor sentiu uma agitação estranha dentro
de si, mas não sabia o porquê; e ele indagou a Annael sobre
Turgon. -
Ele é o filho de Fingolfin, - respondeu Annael - e agora ele
é apontado como o Rei Supremo dos noldor, desde a queda de
Fingon. Pois ele ainda vive, sendo o mais temido dos inimigos
de Morgoth, e escapou da ruína da Nirnaeth, quando Húrin de
Dor-lómin e Huor, teu pai, guardaram sua retaguarda nos passos
do Sirion. -
Então eu devo partir e procurar Turgon, pois certamente ele me
aceitará para ajudar na causa de meu pai. - disse Tuor. -
Você não pode fazer isso, - disse Annael - pois a fortaleza
de Turgon permanece oculta dos olhos dos elfos e dos homens, e
nós não sabemos onde ela fica. Alguns noldor talvez conheçam
o caminho que conduz até lá, mas eles não o diriam a ninguém.
Todavia eles poderiam, se você pudesse falar com eles, na
minha companhia e da maneira como eu lhe ordenar; pois nos
distantes portos que ficam no sul, você poderá se encontrar
com andarilhos do Reino Oculto. Ora,
aconteceu que os elfos abandonaram as cavernas de Androth e
Tuor partiu junto com eles. Mas seus inimigos mantinham
constante vigília sobre aquelas terras, e logo estavam cientes
da fuga; e eles não tinham se distanciado muito na planície
quando foram interceptados e atacados por um imenso grupo de
orcs e orientais, e os elfos espalharam-se por toda a volta,
fugindo para a mortalha da noite. Mas o coração de Tuor ardia
com o calor da batalha e ele não fugira, mas era apenas um
rapaz e brandia seu machado como fizera seu pai antes dele, e
por um longo tempo durante a batalha ele postou-se firme no chão
e matou muitos inimigos que o atacavam seguidamente. Porém,
finalmente, Tuor foi subjugado e capturado, e foi levado até
Lorgan, o Oriental. Lorgan, naquele momento, havia conquistado
a liderança dos orientais, e reivindicou a regência sobre
toda a Dor-lómin, como se fosse um feudo sob o poder de
Morgoth, e tomou Tuor como seu escravo. A
vida de Tuor era dura e amarga, pois Lorgan se deliciava em
tratar Tuor da pior maneira possível, por ser ele parente dos
senhores de antigamente, e tentava acabar com o orgulho da Casa
de Hador. Mas Tuor era sábio e suportou toda a dor e insultos
com cautela e paciência; e depois de algum tempo, seu fardo
ficou mais leve, pois ele não havia ficado subnutrido como
ficaram muitos dos escravos infelizes de Lorgan, pois Tuor era
forte e ágil e Lorgan alimentava bem seus melhores “animais
de carga”, enquanto fossem jovens e pudessem trabalhar. Mas
após três anos de escravidão Tuor finalmente percebeu uma
chance de fuga. Ele já tinha quase alcançado sua plena
estatura: mais alto e mais rápido do que qualquer um dos
orientais. E foi enviado com outros escravos para trabalhar nos
bosques, e então ele subitamente virou-se na direção dos
guardas e os matou com um machado e fugiu para as colinas. Os
orientais caçaram-no com cães, mas sem nenhum sucesso, pois
quase todos os cães de Lorgan eram amigos de Tuor, e quando os
cães aproximaram-se dele, saltaram sobre ele e o lamberam, e a
uma ordem sua, correram de volta para casa. Então, finalmente,
voltou para as cavernas de Androth, e lá morou sozinho. E por
quatro anos viveu como um proscrito nas próprias terras de
seus pais, terrível e solitário; e seu nome era temido, uma
vez que, freqüentemente, ele saía de seu esconderijo e matava
muitos orientais que cruzavam seu caminho. E então os
orientais fixaram um preço altíssimo por sua cabeça, mas não
ousavam chegar perto de seu esconderijo, mesmo com uma
companhia de muitos homens, pois temiam o povo élfico e
evitavam as cavernas onde eles outrora moraram. Ainda assim,
dizia-se que as jornadas de Tuor não eram feitas com o propósito
de vingança; ele tinha em mente buscar pelo Portal dos Noldor
do qual Annael falara. Mas não o encontrava, pois não sabia
por onde procurar, e os poucos elfos que ainda permaneciam nas
montanhas, nunca ouviram falar de tal lugar. Agora
Tuor sabia que, apesar de tudo, a sorte ainda o favorecia,
ainda no fim dos seus dias como proscrito que estavam contados
e eram sempre desalentadores. Ele não queria viver dessa
maneira para sempre, como um selvagem, morando em montanhas inóspitas.
E sua coragem sempre o direcionava a prestar grandes feitos.
Naquela região o poder de Ulmo foi mostrado; pois ele reunia
notícias de tudo que se passava em Beleriand, e cada corrente
de água que fluía da Terra-média para o Grande Mar, era para
ele, um mensageiro que ia e que vinha; e ele mantinha, também,
uma amizade antiga com Círdan e os fabricantes de navios nas
fozes do Sirion1. E na maior parte daquela época Ulmo deu atenção
para o destino da Casa de Hador, pois em seus profundos
conselhos Ulmo pretendia que eles fossem instrumentos de seus
desígnios no auxílio aos Exilados; e ele estava ciente sobre
as necessidades de Tuor, visto que Annael e muitos de seu povo
haviam, de fato, escapado de Dor-lómin e chegado a Círdan no
sul distante. Ora,
aconteceu que, um dia, no início do ano (vinte e três, desde
a Nirnaeth), Tuor sentou-se à beira de uma nascente que
passava perto da entrada da caverna onde morava, e ele olhou na
direção do pôr-do-sol nebuloso. Então decidiu em seu coração,
que não deveria esperar mais, mas ao invés disso levantar e
partir. -
Agora eu deixarei a terra cinzenta de minha família que aqui não
mais se encontra - bradou - e partirei ao encontro de minha
sina! Mas para que direção devo me virar? Pois há muito
tempo procuro pelo portal, mas jamais o encontrei. Então
ele apanhou a harpa que sempre carregava consigo, e era hábil
em seu manuseio; e sem se dar conta do risco de sua voz clara,
soando solitária no ermo, cantou uma canção élfica do norte
que animava os corações dos que a escutassem. E no momento em
que começou a cantar, a nascente sob seus pés começou a
borbulhar e a encher-se com uma grande quantidade de água, e
então transbordou, e um riacho passou a correr ruidosamente,
descendo do flanco rochoso da colina, diante de Tuor, que
interpretou o fato como um sinal, e desceu das altas colinas de
Mithrim e passou para a planície setentrional de Dor-lómin; e
o riacho crescia em tamanho e volume, conforme Tuor o seguia em
direção ao oeste, até que, depois de três dias, ele
conseguiu divisar no oeste as longas cordilheiras cinzentas de
Ered Lómin, que naquela região se estendiam de norte a sul,
cercando todas as distantes regiões costeiras das praias
ocidentais. Àquelas colinas, em todas as suas viagens
posteriores, Tuor jamais retornou. Agora
a terra tornava-se novamente mais rochosa e fendida, como se os
contrafortes estivessem próximos, e logo a terra começou a se
elevar, diante dos pés de Tuor, e o riacho afundou em um leito
fendido. Mas quando anoiteceu no terceiro dia de sua viagem,
Tuor encontrou diante dele, uma parede de pedra, e nela havia
uma abertura como um grande arco; e o riacho passava para
dentro dele e se perdia na escuridão. Então Tuor desanimou e
disse: -
Então é deste modo que minha esperança me trai! O sinal nas
colinas me guiou somente para um fim nefasto, bem no coração
da terra de meus inimigos. E
com o coração entristecido ele se sentou em meio às rochas
na margem alta do riacho, mantendo guarda através de uma noite
fria e amarga; pois ainda era o mês de Súlimë, e nenhum
resquício de primavera havia chegado àquela distante terra do
norte, e um vento estridente soprava do leste. Mas
quando os primeiros raios da aurora brilharam pálidos nas
distantes névoas de Mithrim, Tuor ouviu vozes, e olhando para
baixo ele divisou, assombrado, dois elfos que atravessavam a
parte mais rasa do riacho, e quando começaram a subir por
degraus esculpidos na margem alta, Tuor ficou de pé e
chamou-os. Imediatamente eles sacaram suas espadas brilhantes e
saltaram em sua direção. Então, viu que os elfos estavam
cobertos com mantos cinzentos e protegidos por cotas de malha
sob os mantos. E ele ficou admirado, pois eles eram mais belos
e mais temíveis de olhar, do que qualquer outro elfo que ele
conhecera, por causa da luz que lhes ardiam nos olhos. Tuor
postou-se plenamente ereto e esperou por eles, mas quando os
elfos observaram que Tuor não sacara arma nenhuma, mas
encontrava-se sozinho e os cumprimentara no idioma élfico,
embainharam suas espadas e dirigiram-lhe educadamente as
palavras. E um dos elfos disse: -
Eu sou Gelmir e este é Arminas; somos do povo de Finarfin. Você
não é um dos edain que antigamente moravam nestas terras,
antes da Nirnaeth? E, sem dúvida, parente de Hador e Húrin,
julgo eu; pois o dourado de teus cabelos declara tal linhagem. E
Tuor respondeu: -
Realmente. Eu sou Tuor, filho de Huor, filho de Galdor, filho
de Hador; mas eu finalmente desejo deixar esta terra, onde eu
sou um proscrito. -
Então, - disse Gelmir - se você deseja escapar e encontrar os
portos no sul, desde já teus pés estão na direção correta.
-
Assim eu pensei, - disse Tuor - pois eu seguia um riacho que
apareceu de súbito nas colinas, até se tornar este rio traiçoeiro.
Mas agora eu não sei que rumo devo tomar, pois ele se dirige
para a escuridão deste arco. -
Através da escuridão, alguém pode encontrar a luz. - disse
Gelmir. -
Ainda assim, esse alguém caminhará sob a luz do sol enquanto
puder. - disse Tuor - Mas já que você é daquele povo,
diga-me, se tiver permissão, e se souber, onde fica o Portal
dos Noldor. Pois eu procurei por ele durante muito tempo, desde
que Annael, meu pai adotivo, dos elfos-cinzentos, falou-me a
respeito de tal portal. Então
os elfos riram e disseram: -
Sua busca está terminada; pois nós mesmos acabamos de passar
pelo portal. Aí está ele, diante de você! E
eles apontaram para o arco, para dentro do qual o riacho fluía.
-
Venha agora! Pois da escuridão você deverá chegar à luz.
Colocaremos você na direção correta, entretanto não
poderemos guiá-lo até muito longe, uma vez que fomos enviados
de volta para as terras de onde fugimos, pois temos uma missão
urgente. -
Mas não tema. - disse Gelmir. - Um grande destino está
gravado em tua fronte, e ele o guiará para longe destas
terras; longe da Terra-média, na verdade, como agora posso
supor. E
então Tuor seguiu os noldor, descendo os degraus e
atravessando a água fria, até terem passado para dentro da
sombra, além do arco de pedra. Então Gelmir trouxe uma das
lamparinas que tornaram os noldor famosos; pois antigamente
elas eram feitas em Valinor, e nem o vento, nem a água,
poderiam apagá-las, e quando estavam sem cobertura, lançavam
adiante, um raio de luz azul saído de uma chama aprisionada em
um cristal transparente2. Agora, no limiar da luz emitida pela
lamparina que Gelmir acima de sua cabeça, Tuor viu que o rio
descia abruptamente por uma encosta lisa, em direção a um
grande túnel, mas junto a seu curso esculpido na pedra,
estendiam-se longos lances de degraus, conduzindo para baixo,
em direção a uma profunda escuridão, além do alcance da luz
da lamparina. Quando
eles chegaram aos pés das corredeiras, pararam sob uma imensa
abóbada de pedra, e ali o rio precipitava-se sobre uma
cachoeira íngreme, com um grande ruído que ressoava pela câmara,
e então passava novamente sob um outro arco de um túnel mais
adiante. Ao lado das quedas os noldor pararam e despediram-se
de Tuor. -
Agora devemos retornar e seguir nosso caminho com toda a
rapidez, - disse Gelmir - pois grandes perigos estão ocorrendo
por toda Beleriand. -
Então, é chegada a hora na qual Turgon deverá sair de sua
fortaleza? - disse Tuor. E os elfos olharam-no com espanto. -
Esse é um assunto que concerne mais especialmente aos noldor
do que aos filhos dos homens. - disse Arminas. - O que você
sabe a respeito de Turgon? E
Tuor respondeu: -
Pouco. Apenas que meu pai o ajudou em sua fuga da Nirnaeth, e
que em sua fortaleza oculta está a esperança dos noldor.
Ainda assim, embora eu não saiba o porquê, seu nome sempre
faz com que meu coração se agite quando eu o pronuncio, e se
fosse a minha vontade, eu procuraria por ele, preferindo isso a
pisar neste caminho escuro e apavorante. A menos que, talvez,
esta estrada secreta seja o caminho que leva até sua morada? -
Quem poderia dizer? - respondeu Arminas. - Pois uma vez que a
morada de Turgon permanece oculta, as sendas que a ela levam,
estão ocultas também. Eu não as conheço, embora também
tenha procurado por elas durante um longo tempo. Mas ainda se
eu soubesse onde ficam, eu não revelaria a nem a você, nem a
ninguém entre os homens. Porém,
disse Gelmir: -
Mas eu ouvi que a casa a que você pertence, está sob os
cuidados do Senhor das Águas. E se seus conselhos o guiarem até
Turgon, então certamente você chegará a ele, não importando
para que direção você se volte. Siga agora a estrada de teu
destino, pois pela água das colinas foste guiado até ela, e
nada tema! Você não andará por muito tempo na escuridão.
Adeus! E não pense que nosso encontro foi por acaso; pois o
Morador das Profundezas ainda age sobre muitas coisas nesta
terra. Anar
kaluva tielyanna?! Com
aquelas palavras, os noldor viraram-se e subiram de volta as
longas escadas; mas Tuor permaneceu ainda ali, até a luz da
lanterna desaparecer, e ele, agora, estava sozinho naquela
escuridão mais profunda do que a noite, em meio ao rugido das
cataratas. Então, invocando sua coragem, ele pôs sua mão
esquerda junto à parede de pedra e seguiu adiante, lentamente
no início, mas cada vez mais rápido conforme seus olhos se
adaptavam à escuridão, e logo, não havia mais nada que o
atrapalhasse em seus movimentos. E após muito tempo, como lhe
pareceu, ele cansou-se e apesar disso não sentia vontade de
parar e descansar. Distante no túnel escuro ele viu uma luz, e
apressando-se, chegou a uma fenda, alta e estreita, e seguiu o
rio caudaloso entre as paredes inclinadas da fenda até
contemplar um crepúsculo dourado, pois havia chegado a
uma ravina profunda com laterais altas e abruptas, que se
estendia em direção ao oeste; e diante dele estava o sol
poente, descendo em um céu claro, e então reluziu na ravina e
iluminou suas paredes com um fogo dourado, e as águas do rio
fulgiram, também douradas, ao baterem nas rochas e espumarem
sobre pedras cintilantes. Naquele
lugar profundo Tuor se encheu novamente de esperança e
deliciou-se ao encontrar uma senda sob a muralha setentrional,
onde corria um córrego longo e estreito. E quando a noite
caiu, o rio corria sem ser visto, a não ser por um brilho de
altas estrelas refletidas nas lagoas escuras, Tuor descansou e
dormiu, pois não sentia medo, à beira daquelas águas, nas
quais ainda corria o poder de Ulmo. Com
a chegada do dia, Tuor partiu novamente, e sem pressa. O sol
ergueu-se às suas costas e se pôs à sua frente, e quando o
rio espumava entre os rochedos ou corria para cascatas
repentinas, de manhã e à noite, arcos-íris entrelaçavam-se
pelo rio. Por essa razão ele chamou aquela ravina de Cirith
Ninniach. Então
Tuor diminuiu a velocidade de sua marcha, caminhando mais
lentamente durante três dias, bebendo a água fria, embora não
desejasse qualquer alimento, embora houvesse muitos peixes que
cintilavam como prata e ouro, ou brilhavam nas cores do arco-íris
na nuvem de respingos que ali se erguia. E no quarto dia, o
canal ficou mais amplo e suas paredes diminuíram de altura, e
ficaram menos íngremes; mas o rio ficava mais profundo e
corria mais forte, pois as altas colinas estendiam-se de ambos
os lados e aquelas águas frescas derramavam-se para a Cirith
Ninniach, em cachoeiras trêmulas. Naquela região, Tuor ficou
sentado por um longo tempo, observando os redemoinhos no rio, e
ouvindo sua voz incessante, até o cair da noite, e as estrelas
brilharam frias e brancas na escura linha do céu. Então Tuor
ergueu sua voz e tocou sua harpa, e sobre o ruído das águas o
som de sua canção e o doce som das cordas da harpa ressoaram
nas pedras e se multiplicaram, e se espalharam ao redor,
reverberando nas colinas cobertas pela escuridão da noite, até
que as terras ermas fossem enchidas com aquela música, sob as
estrelas. Pois, embora não soubesse, Tuor havia chegado às
Montanhas Ressoantes de Lammoth, nas proximidades do Estuário
de Drengist. Naquele lugar, há muito tempo, Fëanor chegou
vindo do mar, e as vozes de suas hostes ergueram-se em um
poderoso clamor pelo litoral do norte, antes que a Lua
fosse erguida aos céus. Então
Tuor encheu-se de espanto e parou sua canção e, lentamente, a
música foi morrendo nas colinas, e o silêncio dominou. E em
meio ao silêncio ele ouviu nos céus um grito estranho, e não
sabia de que criatura vinha aquele grito. Então, pensou: “É
a voz de uma fada”, mas depois objetou: “Não, é um
pequeno animal gemendo no ermo”. Mas, ao ouvir novamente,
pensou: “Sim, é o grito de algum pássaro noturno que não
conheço”. E lhe pareceu que esse som era um lamento, e ainda
assim ele desejava, apesar de tudo, ouvir e seguir esse som,
pois parecia que estava sendo chamado, mas não sabia por que
motivo. Na
manhã seguinte ele ouviu a mesma voz sobre sua cabeça, e
olhando para cima, viu três grandes pássaros brancos descendo
a ravina, contra o vento oeste, e suas poderosas asas brilhavam
no sol da manhã, e ao passarem sobre Tuor, gemeram
ruidosamente. Então, pela primeira vez, ele contemplou as
grandes gaivotas, amadas pelos teleri. E então Tuor
levantou-se e as seguiu, para poder observar para onde se
dirigiam, e ele escalou o penhasco à sua esquerda, e
manteve-se no topo, e então sentiu um vento forte vindo do
Oeste contra sua face; e seus cabelos esvoaçavam. E ele
respirou fundo o ar fresco e disse: “Isso deixa o coração
mais leve, como o gole de um bom vinho!” Mas ele não sabia
que aquele vento suave chegava do Grande Mar. E
Tuor partiu mais uma vez, seguindo as gaivotas que voavam alto
sobre o rio; e à medida que avançava, as laterais da ravina
erguiam-se juntas novamente e ele chegou a um canal estreito
que estava repleto com o som de água corrente. E olhando para
baixo, viu uma grande maravilha, como assim lhe pareceu; pois
uma inundação incontrolável vinha dos estreitos e ia de
encontro ao rio que ainda corria forte, e uma onda coroada com
cristas espumantes, ergueu-se como uma muralha até quase alcançar
o topo do penhasco. E o canal foi inundado por aquelas águas
profundas, e o som do rolar nos grandes rochedos, era como um
trovão. Assim Tuor foi salvo da morte graças ao chamado das
gaivotas em virtude do aumento da maré; e a maré subia muito
naquela época do ano, graças à estação e ao forte vento
oeste. Mas
Tuor novamente desanimou em virtude da fúria daquelas águas
estranhas, e virou-se para o sul, seguindo naquela direção, e
sendo assim, nunca chegou ao Estuário de Drengist, porém,
continuou vagando por alguns dias por um terreno irregular, sem
árvore alguma, que fora outrora varrido por um vento do mar, e
qualquer coisa que crescesse ali, mato ou arbusto, recurvava-se
em direção ao leste, em virtude da predominância do forte
vento que vinha do oeste. Então, por aquele caminho, Tuor
passou pelas fronteiras de Nevrast, onde Turgon outrora morara;
e de súbito (pois os topos dos penhascos à margem daquela
terra eram mais altos do que as ladeiras que postavam-se atrás)
Tuor chegou à borda negra da Terra-média e viu o Mar:
Belegaer, o Grande. E naquela hora o sol dirigiu-se para além
da borda do mundo, como se fosse uma chama poderosa; e Tuor
ficou sozinho sobre o penhasco, com os braços abertos e
estendidos, e um grande sentimento de nostalgia tomou conta de
seu coração. Conta-se que ele foi o primeiro homem a alcançar
o Grande Mar, e que ninguém, nem mesmo os eldar, havia sentido
mais profundamente a saudade que ele traz. Tuor
permaneceu durante muitos dias em Nevrast, e isso lhe parecia
bom, pois aquela terra, cercada por montanhas a Norte e a
Leste, e próxima ao mar, era mais agradável e suave do que as
planícies de Hithlum. Durante muito tempo ele se acostumara a
morar sozinho, como um caçador no ermo, por isso ele não
sentiu necessidade de comida, uma vez que a primavera se
ocupava ali em Nevrast, e o ar se enchia com o ruído dos pássaros,
tanto aqueles que moravam em multidões nas praias, quanto
aqueles que eram abundantes nos pântanos de Linaewen, no meio
da terra erma. Mas naqueles dias, nenhuma voz de elfo ou de
homem fora ouvida naquela solidão. Aos
limites do grande lago Tuor chegou, mas suas águas estavam além
de seu alcance, por causa dos amplos lamaçais e por causa da
floresta de juncos sem trilhas que se estendia por toda a
volta. E logo ele virou-se e partiu dali, voltando para as regiões
costeiras, pois o Mar o atraía, e Tuor não desejava
permanecer por muito tempo onde ele não pudesse ouvir o som de
suas ondas. E naquelas praias Tuor encontrou indícios antigos
dos noldor. Uma vez que entre os penhascos altos e esculpidos
pelas ondas ao sul do Estuário de Drengist, havia muitas
angras e reentrâncias, com praias de areia branca entre as
cintilantes rochas negras, e Tuor freqüentemente encontrava
escadas serpeantes, cortadas e esculpidas na rocha nua, que
conduziam a esses lugares, e à beira da margem d’água havia
desembarcadouros arruinados, que outrora haviam sido construídos
com grandes blocos retirados dos penhascos e então esculpidos,
exatamente onde os navios élficos uma vez atracavam. Naquela
região, Tuor permaneceu por muito tempo, observando o Mar que
sempre se transformava, enquanto a primavera e o verão
passavam e o ano minguava, e a escuridão ficava mais profunda
em Beleriand, e o outono do ano da sina de Nargothrond se
aproximava. E
pareceu que os pássaros enxergaram na distância o inverno que
se aproximava5, pois aqueles que estavam habituados a ir para o
Sul, logo começaram a reunir-se para que pudessem partir, e os
outros pássaros, que costumavam morar no Norte, vieram de suas
moradas para Nevrast. E um dia, quando estava sentado na praia,
Tuor ouviu as batidas e o rumor de asas e, olhando para cima,
viu sete cisnes brancos voando céleres, formando um triângulo,
mais ao sul. Mas ao passarem sobre Tuor, deram meia-volta e
voaram subitamente para baixo e pousaram no mar, com um
grande barulho de água sendo esparramada. Ora,
Tuor passou a amar os cisnes, que ele já havia conhecido nas
lagoas cinzentas de Mithrim. E o cisne, além disso, era o símbolo
de seu povo adotivo e de Annael. E então Tuor levantou-se para
saudar os pássaros e chamá-los, maravilhado em observar que
eles eram maiores e mais magníficos do que qualquer espécie
que ele havia visto anteriormente. Mas eles bateram suas asas e
soltaram um grito rude, como se estivesse furiosos com Tuor, e
como se quisessem empurrá-lo para longe da costa. Então, com
um forte barulho, eles ergueram-se novamente da água e voaram
por sobre a cabeça de Tuor, e o ruflar de suas asas soprou
como um vento sussurrante. E girando em um amplo círculo,
ergueram-se ao ar e foram para o sul. E
Tuor bradou com força: -
É chegado outro sinal dizendo que me demorei demais! - e
imediatamente subiu no penhasco e observou que os cisnes ainda
faziam voltas nas alturas, mas quando começou a se dirigir
para o sul, os cisnes, suave e rapidamente, se foram. Então
Tuor viajou em direção ao sul, ao longo da costa, por sete
dias inteiros, e em todas as manhãs ele era acordado pelo
bater de asas na aurora, e a cada dia os cisnes continuavam
voando, à medida que Tuor os seguia. E conforme as milhas
ficavam para trás, os penhascos ficavam mais baixos e seus
topos começavam a ficar cobertos pela turfa em flor; e longe
no leste, havia bosques que estavam ficando amarelecidos com a
aproximação do fim do ano. Mas Tuor viu diante de si, uma
linha de grandes colinas que barravam seu caminho, se
aproximando mais e mais, estendendo-se para o oeste até
terminarem em uma montanha muito alta: um torreão escuro e
coroado por nuvens, elevado sobre poderosos contrafortes, sobre
um grande manto verde que se estendia até o mar. Aquelas
colinas cinzentas eram, na verdade, os contrafortes ocidentais
das Ered Wethrin, a muralha norte de Beleriand, e a montanha se
chamava Monte Taras, a mais ocidental de todas as torres
daquela terra, e cujo topo era a primeira coisa que um
marinheiro poderia enxergar, através das longas milhas no mar,
à medida que se aproximasse do litoral das terras mortais. Sob
suas imensas encostas, em dias passados Turgon morara, nos Salões
de Vinyamar, o mais antigo de todos os trabalhos de pedra que
os noldor já construíram nas terras de seu exílio. E ali
eles ainda permaneciam, desolados mas resistentes, altos sobre
grandes terraços que olhavam em direção ao mar. Os anos e os
servos de Morgoth passaram pelos Salões e, apesar disso, não
os abalaram; mas o vento, a chuva e o frio os deixaram
marcados, e sobre o cume de suas muralhas e sobre seus grandes
telhados cresciam plantas verde-acinzentadas que, vivendo sob o
ar salino, cresciam com sucesso até mesmo nas rachaduras da
pedra árida. Tuor
havia chegado às ruínas de uma estrada perdida, e passou em
meio a montículos verdes e pedras encurvadas, e então chegou,
ao entardecer, aos velhos salões e seus pátios altos, tocados
pelo vento. Nenhum resquício de terror ou mal ocultava-se ali,
mas um temor pairava sobre Tuor ao pensar naqueles que ali
moraram e que se foram, ninguém sabe para onde: o povo
orgulhoso; imortal, mas condenado, de além-mar. E Tuor
virou-se e olhou, como de costume, para o fulgor das águas
inquietas no limite da visão. E virando-se em direção a
terra, novamente, viu que os cisnes haviam pousado sobre o
terraço mais alto e ficaram diante da porta oeste dos salões;
e bateram suas asas, e lhe pareceu que os cisnes acenavam para
que ele entrasse. Então Tuor dirigiu-se às amplas escadarias
semi-escondidas, mas ainda visíveis, e passou por sob a
imponente soleira da porta, e adentrou as sombras da casa de
Turgon; e, enfim, chegou a um salão com altos pilares. Se
visto de fora, o salão parecia grande. Agora, visto por
dentro, ele era extremamente vasto e maravilhoso, e por medo
talvez, Tuor não desejou acordar os ecos em seu vazio. Ele não
conseguia ver nada, exceto um alto assento sobre um estrado no
lado leste, e então, suavemente, caminhou em direção ao
assento; mas seus passos eram ruidosos no chão pavimentado,
como se fossem os passos do destino, e os ecos espalharam-se ao
redor, e ao longo dos corredores com pilares. E
ao postar-se diante do grande assento em meio àquela solidão,
ele percebeu que o assento fora esculpido em um único pedaço
de pedra, e gravado com estranhos símbolos, e o sol que
afundava nivelou-se com uma grande janela na parte superior da
parede oeste, e um raio de luz incidiu na parede diante dele,
que fulgurou como se fosse coberta por metal polido. E então,
Tuor, maravilhado, viu que na parede atrás do trono, estavam
pendurados um escudo e uma loriga de escamas, e um elmo e uma
espada longa em uma bainha. A loriga reluzia como se fosse
forjada com prata imaculada, e o raio de sol a iluminou com faíscas
douradas. Mas o escudo era de um formato estranho para Tuor,
pois era longo e estreito; seu campo era azul e no centro
estava lavrado um emblema de uma asa de cisne branco. E então
Tuor falou, e sua voz ecoou como um desafio no salão: -
Como um sinal simbólico, tomarei estas armas para mim, e sobre
mim, que recaia qualquer destino que elas possam ter.6 E
ele removeu o escudo e o achou leve e fácil de manejar, além
de qualquer expectativa; pois lhe parecia que era feito de
madeira, porém revestido com placas de metal, graças à arte
dos ferreiros élficos. Forte ainda que fino como uma folha e,
por essa razão, permaneceu preservado dos vermes, das intempéries
e do tempo. Então
Tuor vestiu-se com a loriga de escamas e pôs o elmo sobre a
cabeça, e cingiu-se com a espada. A bainha e o cinturão eram
negros, e as fivelas, prateadas. Então, paramentado, ele
seguiu adiante e saiu do Salão de Turgon, e postou-se sobre os
altos terraços do Taras à luz vermelha do sol. Ninguém
estava ali para vê-lo, enquanto ele dirigia seu olhar em direção
ao oeste, cintilando em prata e ouro, sem saber que naquela
ocasião ele parecia um dos Poderes do Oeste, sendo comparado
com o Pai dos reis dos Reis dos Homens, de Além-Mar, sendo
esse, de fato, seu destino7; mas ao apanhar aquelas armas, uma
mudança ocorreu em Tuor filho de Huor, e sua coragem
desenvolveu-se grandiosa dentro de si. Mas, quando desceu das
portas, os cisnes fizeram reverência a ele, e cada um arrancou
uma grande pena das asas e ofereceram-nas a Tuor, inclinando
seus longos pescoços sobre a rocha, diante de seus pés; e ele
pegou as sete penas e colocou-as na crista de seu elmo, e
imediatamente os cisnes levantaram vôo e foram para o norte,
na hora do pôr-do-sol, e Tuor nunca mais voltou a vê-los. Então
Tuor sentiu que estava sendo atraído para a beira do mar, e
desceu as longas escadas até chegar em uma praia ampla, no
lado norte do Taras; e viu que o sol estava, lentamente, se
afundando para dentro de uma imensa nuvem negra que vinha do
horizonte, no mar que escurecia; e ela cresceu fria, e havia
uma agitação e um murmúrio como se uma tempestade estivesse
se formando. E Tuor postou-se sobre a praia, e o sol tornou-se
um fogo esfumaçado, detrás da ameaça que vinha do céu; e
Tuor teve a impressão que uma onda gigantesca ergueu-se bem
longe, e que rolava em direção a terra, mas o espanto o
deixara imóvel, e ali ele permaneceu. E a onda vinha em direção
a Tuor, e sobre ela havia uma nuvem de sombra. Então, de
repente, ao chegar bem perto, a onda encurvou-se e quebrou,
rolando para frente, como braços de espuma; mas exatamente
onde a onda se quebrou apareceu, escura contra a tempestade
crescente, uma silhueta viva, alta e majestosa. Então
Tuor curvou-se em reverência, pois ele teve a impressão de
que estava contemplando um rei poderoso. Ele usava uma alta
coroa prateada, de onde seus cabelos pendiam como espumas
cintilantes no anoitecer; e jogou para trás seu manto
cinzento, que pendurado em seus ombros, parecia uma névoa.
Estava vestido com uma malha cintilante, que observada de
perto, parecia o couro de um peixe majestoso, e uma túnica de
um verde profundo que cintilava e tremeluzia com o fulgor do
mar, conforme lentamente caminhava em direção a terra. Então,
o Morador das Profundezas, a quem os noldor chamam de Ulmo, o
Senhor das Águas, mostrou-se a Tuor filho de Huor da Casa de
Hador, à vista de Vinyamar. Ele
não pôs os pés fora d’água, mas ficou em um lugar onde a
água lhe tocava os joelhos, no mar sombrio, e então falou a
Tuor, e pela luz de seus olhos e pelo som de sua voz muito
profunda, que parecia vir das fundações do mundo, o medo
sobreveio a Tuor que encurvou-se e caiu de joelhos sobre a
areia. -
Levanta-te, Tuor filho de Huor! - disse Ulmo - Não temas minha
ira, embora por muito tempo te chamei e tu não tivesses me
escutado; e, apesar de tudo encontrar-se preparado, tu te
demoraste na jornada para cá. Na primavera tu deverias ter
chegado até aqui; entretanto um inverno terrível não tarda a
chegar, vindo da terra do Inimigo. Em velocidade tu deverás
aprender, e a estrada agradável, a qual eu designei a ti,
deverá ser alterada. Pois meus conselhos foram desprezados8, e
um grande mal rasteja sobre o Vale do Sirion, e agora mesmo um
exército de inimigos posta-se entre ti e tua meta. -
Então, qual é minha meta, Senhor? - questionou Tuor. -
Aquela que teu coração sempre buscou: - respondeu Ulmo -
encontrar Turgon e contemplar a Cidade Oculta. Pois, agora, tu
estás preparado para ser meu mensageiro, com as armas que há
muito tempo determinei que fossem deixadas para ti. Mas tu
ainda deves passar por sob as sombras, correndo riscos.
Cubra-te portanto com este manto, e jamais saia de sob sua
proteção, até que tua jornada tenha chegado ao fim. E
Tuor viu que Ulmo partiu um pedaço de seu manto cinzento e
nele fez uma barra, e quando o manto caiu sobre Tuor, parecia
ser um manto grande, que poderia cobri-lo por completo, da cabeça
aos pés. -
Deste modo tu deverás andar sob minha sombra. - disse Ulmo -
Mas não te demores mais; pois nas terras de Anar e às chamas
de Melkor minha sombra não resiste. Aceitas, então, a missão
que lhe designo? -
Aceito, senhor! - respondeu Tuor. -
Então estabelecerei palavras em tua boca, que deverão ser
ditas a Turgon - disse Ulmo. - Mas primeiramente devo te
ensinar, e tu aprenderás coisas que nenhum outro homem já
ouviu, nem mesmo os mais poderosos entre os eldar. E
Ulmo falou a Tuor a respeito de Valinor e seu ocaso, e sobre o
exílio dos noldor, sobre a Condenação de Mandos, e a Ocultação
do Reino Abençoado. -
Mas observa! Na armadura do Destino (como os Filhos da Terra o
chamam) sempre existe uma fenda, e nas muralhas da Sina, uma
brecha, até que estejam totalmente completas, sendo o que vós
chamais de Fim. E será assim, enquanto eu permanecer - uma voz
secreta que objeta, e uma luz onde a escuridão era total.
Portanto, embora nos dias dessa escuridão eu pareça
confrontar a vontade de meus Irmãos, os Senhores do Oeste,
essa é minha posição entre eles, para a qual eu fui
apontado, antes da criação do Mundo. Ainda assim a Condenação
é forte e a sombra do Inimigo estende-se cada vez mais; e meu
poder diminui, até chegar um dia em que, na Terra-média, eu não
serei nada mais do que um sussurro secreto. As águas que
correm para o oeste gradualmente secam, e suas nascentes estão
conspurcadas, e meu poder recua das águas que correm pela
terra; pois elfos e homens crescem cegos e surdos a meu
respeito, em virtude do poder de Melkor. E a Condenação de
Mandos apressa-se até sua definição, e todas as obras dos
noldor perecerão, e toda esperança edificada deverá
desmoronar. A última esperança é deixada sozinha, a esperança
pela qual elfos e homens ainda não buscaram, por ainda não
estarem preparados. E tal esperança jaz em ti; pois assim
determinei. -
Então Turgon não deverá se opor a Morgoth, como esperam
todos os eldar? - disse Tuor. - E o que tu farás a mim,
Senhor, se eu puder chegar a Turgon? Pois, embora eu realmente
deseje fazê-lo, como fez meu pai, e ficar ao lado daquele rei
em sua necessidade, ainda sou de pouco valor, um homem mortal
solitário entre os tantos e tão valorosos, que estão entre o
Alto Povo do Oeste. -
Se eu escolho enviar-te, Tuor filho de Huor, então não
acredites que tua espada não seja digna de tal demanda. Pois
do valor dos edain, os elfos sempre deverão recordar, à
medida que os anos se estendem, pois se surpreenderão pelo
fato de que, tão espontaneamente, abriram mão do pouco tempo
que têm na terra. Mas não é somente por teu valor que te
envio, mas para trazer ao mundo uma esperança que jaz além de
tua visão, e uma luz que perfura as brumas da escuridão. E
quando Ulmo terminou de dizer estas palavras o murmúrio da
tempestade ergueu-se até se tornar um poderoso clamor, e o
vento aumentou e o céu escureceu; e o manto do Senhor das Águas
esvoaçou como uma nuvem que rola. -
Agora vá - ordenou Ulmo - para que o mar não o devore! Pois
Ossë obedece à vontade de Mandos, e ele está furioso, uma
vez que é um servo da Condenação. -
Que seja como vós comandais! Mas se eu escapar de tal sina,
que palavras deverei dizer a Turgon? - questionou Tuor. -
Quando chegares a Turgon - respondeu Ulmo - as palavras brotarão
em tua mente, e tu falarás do modo como eu falaria. Fales e não
temas! E, desde já, aja conforme teu coração e teu valor te
guiarem. Cubra-te depressa com meu manto, pois desta forma
estarás protegido. E eu mandarei alguém até ti, retirando
essa pessoa do alcance da cólera de Ossë, e então tu serás
conduzido: sim, o último marinheiro do último navio que
partira para o Oeste, antes do levantar da Estrela. Parta agora
e volta para a terra! E
então houve um trovão, e um relâmpago iluminou os céus
sobre o mar; e Tuor observou Ulmo postando-se entre as ondas,
como se fosse uma torre de prata tremeluzindo com chamas
saltitantes; e gritou contra o vento: -
Eu irei, Senhor! Ainda que meu coração sinta uma saudade
devastadora do Mar. E então Ulmo apanhou uma grandiosa trompa
e a tocou produzindo uma nota simples e poderosa, perto da qual
o rugido da tempestade nada mais era do que o sussurro de uma
brisa suave em um lago. E ao ouvir aquela nota Tuor foi
envolvido e preenchido por ela, e teve a impressão que as
costas da Terra-média desapareceram, e ele vislumbrou todas as
águas do mundo em uma grande visão: dos veios das terras às
fozes dos rios; dos córregos aos estuários, dirigindo-se às
profundidades. O Grande Mar ele viu, através de suas regiões
inquietas, concebendo estranhas formas em suas entranhas sem
luz, onde, em meio à escuridão eterna, vozes terríveis para
ouvidos mortais, ecoavam. Suas vastidões imensuráveis ele
vislumbrou com o olhar célere dos Valar, jazendo, sem serem
tocadas por vento algum, sob o olhar de Anar, ou cintilando sob
Ithil em forma de foice, ou erguido sobre colinas de fúria que
se arrebentam sobre as Ilhas Sombrias9, até se distanciar no
limiar da visão, para além da contagem das léguas. Ele
vislumbrou uma montanha erguendo-se além do alcance de sua
mente para dentro de uma nuvem refulgente, e sob seus pés, uma
ampla onda enfraquecendo. E mesmo estando deliciado em ouvir o
som daquelas distantes ondas e em ver mais claramente aquela
luz longínqua, a visão cessou e ele se viu novamente sob os
trovões da tempestade; e os relâmpagos ramificados rasgavam
os céus sobre si. E Ulmo se fora, e o mar estava tumultuado,
como se as ondas selvagens de Ossë cavalgassem contra as
muralhas de Nevrast. Então
Tuor fugiu da ira do mar e, com esforço, conseguiu subir de
volta para os altos terraços, pois o vento o empurrava contra
o penhasco e quando ele alcançou o topo, caiu de joelhos. Então,
entrou novamente no salão vazio e escuro para se abrigar, e
ficou sentado durante toda a noite no trono de pedra de Turgon.
Os próprios pilares tremiam com a violência da tempestade, e
lhe pareceu que o vento estava repleto de gemidos e gritos
selvagens. Todavia, estava cansado e dormiu, e seu sono foi
perturbado com muitos sonhos, sendo que nenhum permaneceu na
memória quando ele acordou, exceto um: a visão de uma ilha, e
no meio dela havia uma montanha escarpada, e para trás dela o
sol desceu, e as sombras saltaram para o céu; mas no céu
resplandecia uma única estrela. Após
esse sonho Tuor caiu em um sono profundo, pois antes que a
noite terminasse, a tempestade havia passado, levando as nuvens
negras para o leste do mundo. Tuor acordou, finalmente, em meio
àquela luz cinza, e levantou-se, deixando o alto trono, e
quando ele dirigiu-se ao salão obscuro, viu que este estava
repleto de aves marinhas, empurradas até ali, pela tempestade;
e ele saiu quando as últimas estrelas estavam pálidas no
oeste diante do dia vindouro. E ele viu que as grandes ondas à
noite haviam arrebentado altas sobre os penhascos e lançado
suas cristas por sobre seus topos e que as ervas rasteiras
foram arrancadas e arremessadas até mesmo sobre os altos terraços
diante das portas. E Tuor desceu seu olhar e viu um elfo
coberto por um manto cinzento, encharcado com a água do mar,
encostado na muralha entre as rochas e pedregulhos; em silêncio
ele sentou-se observando além da ruína das praias, ao longo
do grande cordão de ondas. Tudo estava quieto e não havia
nenhum som, exceto o rugido das ondas logo abaixo. Quando Tuor parou e olhou para a figura cinzenta e silenciosa, ele lembrou-se das palavras de Ulmo, e um nome que não lhe era conhecido veio-lhe aos lábios, e então, chamou em alta voz: -
Seja bem-vindo, Voronwë! Eu estava esperando por você.10 Então
o elfo virou-se e olhou para cima e Tuor percebeu o olhar
penetrante daqueles olhos cinzentos e soube então que ele era
do alto povo dos noldor. Mas o medo e o assombro cresceram em
seu olhar quando ele viu Tuor de pé, alto sobre a muralha logo
acima, coberto em seu grande manto como uma sombra, que deixava
escapar apenas o cintilar da loriga élfica em seu tronco. Por
um breve momento eles ficaram parados, cada um observando o
outro, e então o elfo subiu e curvou-se suavemente diante de
Tuor. -
Quem é você, senhor? - ele disse - Por muito tempo eu lutei
no mar implacável. Diga-me: grandes feitos têm ocorrido desde
a última vez que eu caminhei sobre esta terra? A Sombra está
derrotada? O Povo Oculto abandonou seu esconderijo? -
Não - respondeu Tuor, - a Sombra se estende e os que estão
ocultos assim permanecem. Então
Voronwë olhou para Tuor em silêncio, longamente, e perguntou
novamente: -
Mas quem é você? Pois há muito tempo atrás meu povo deixou
esta terra, e ninguém tem morado aqui desde então. E agora eu
percebo que, apesar de seu traje, você não faz parte de meu
povo como eu pensei, mas é da raça dos homens. -
Eu sou. - disse Tuor - E você é o último marinheiro do último
navio em busca do Oeste, e que partiu dos Portos de Círdan, o
Armador? -
De fato. - respondeu o elfo - Eu sou Voronwë filho de Aranwë.
Mas como você conhece meu nome e meu destino, eu não
compreendo. -
Eu realmente conheço, pois o Senhor das Águas me disse na
noite passada. - respondeu Tuor - E Ele disse que lhe salvaria
da cólera de Ossë e lhe mandaria para cá para ser meu guia. Então,
assombrado e ao mesmo tempo amedrontado, Voronwë gritou: -
Você falou com Ulmo, o Poderoso?! Então realmente grandiosos
devem ser o teu destino e o teu valor! Mas para onde eu deveria
guiá-lo, senhor? Pois obviamente você deve ser um rei de
homens e muitos devem aguardar tuas palavras. -
Não, eu sou um escravo fugitivo, e um proscrito solitário nas
terras ermas. Mas tenho uma missão relacionada a Turgon, o Rei
Oculto. Você sabe por qual estrada eu poderei encontrá-lo? -
disse Tuor. -
Muitos são escravos e proscritos nestes dias malignos, muito
embora não tivessem nascido nessas condições. - respondeu
Voronwë - Você é um senhor de homens por direito, creio. Mas
mesmo que você fosse o maior de teu povo, ainda assim você não
teria direito de procurar Turgon, e vã seria tua busca. -
Não peço que você me conduza para dentro dos portões. -
disse Tuor - Lá o destino deverá aspirar pelos conselhos de
Ulmo. E se Turgon não me receber, então minha missão estará
encerrada e a Condenação prevalecerá. Mas eu tenho direito
de procurar por Turgon, pois eu sou Tuor filho de Huor, parente
de Húrin, de cujos nomes Turgon não deve ter se esquecido. E
estou nesta busca por ordem direta de Ulmo, também. Será que
Turgon se esqueceu do que lhe foi falado por Ulmo antigamente:
“Lembra-te
que a verdadeira esperança dos noldor está no oeste e vem do
Mar”? Ou ainda: “No
entanto, se esse perigo chegar muito perto, da própria Nevrast
virá alguém te avisar”?11 Eu sou aquele que “virá”
e eu estou preparado, enfim, com os trajes que me foram
determinados. Tuor
espantou-se ao ouvir a si mesmo falando daquela maneira, pois
as palavras de Ulmo a Turgon em sua partida de Nevrast não lhe
eram conhecidas anteriormente, nem por ninguém, a não ser
pelo Povo Oculto. Devido a isso, mais espantado estava Voronwë;
mas ele se virou e olhou em direção ao Mar e suspirou. -
Raios! Eu nunca havia pensado em retornar. E com freqüência
eu jurava nas vastidões do Mar que, se eu voltasse a pôr meus
pés sobre esta terra eu descansaria, morando longe da Sombra
no norte, ou perto dos portos de Círdan, ou talvez, nos agradáveis
campos de Nan-tathren, onde a primavera é mais doce do que o
coração poderia desejar. Mas se o mal cresceu enquanto eu
peregrinara, e finalmente o perigo final se aproxima, então eu
devo ir em auxílio de meu povo. - ele virou-se novamente em
direção a Tuor - Guiar-te-ei, então, até os portões
ocultos, pois o sábio não contrariaria os conselhos de Ulmo. -
Então iremos juntos como foi-nos aconselhado. - disse Tuor -
Mas não fique triste, Voronwë! Pois meu coração diz que
para longe da Sombra tua longa estrada deverá te conduzir, e
tua esperança o levará para o Mar.12 -
E o mesmo vale para a tua, filho de Huor. - disse Voronwë -
Mas agora devemos partir, e rapidamente. -
Sim. - disse Tuor - Mas para onde você me conduzirá, e quão
distante? Não deveríamos pensar primeiro sobre como poderíamos
sobreviver nas regiões selvagens, ou se o caminho for longo,
como passaremos o Inverno Mortal? Mas
Voronwë não respondia nada que fosse claro em relação à
estrada. -
Você conhece a força dos homens. Como eu sou um noldo, grande
deve ser a fome e gélido deve ser o inverno, para que possa
matar um descendente dos que passaram através do Gelo
Atritante. Ainda assim, você imagina como os noldor se esforçaram
durante dias sem conta nas vastidões salinas do mar? Ou você
nunca ouviu falar dos pães-de-viagem dos elfos? E eu ainda
guardo aqueles que todo marinheiro guarda até o fim. - Então
mostrou sob seu manto uma bolsa lacrada presa em seu cinto. -
Nem a água nem o clima a danificará enquanto ela estiver
lacrada. - disse Voronwë - mas devemos economizá-los até que
estejamos em enorme necessidade e, certamente, um proscrito ou
caçador poderá encontrar outra espécie de alimento, antes
que o ano piore. -
Talvez. - disse Tuor - Mas não é seguro caçar em qualquer
terra, mesmo que a caça seja abundante. E caçadores demoram
na estrada. Agora
Tuor e Voronwë estavam prontos para partir. Tuor levou com ele
o arco curto e as flechas que trouxera, fixando-os na lateral
do traje que ele apanhou no salão; mas sua lança, na
qual seu nome foi escrito em runas élficas do norte, ele pôs
na parede do salão, como um sinal de que ele havia passado por
ali. Voronwë não possuía nenhuma arma, a não ser uma espada
curta, somente. Antes que a manhã já estivesse adiantada eles
abandonaram a antiga morada de Turgon, e Voronwë conduziu Tuor
para oeste das ladeiras escarpadas do Taras, e pelo grande
manto verde. Certa
vez a estrada de Nevrast a Brithombar passava por ali, mas era
agora apenas uma trilha verde entre paliçadas cobertas pela
turfa. Assim eles chegaram a Beleriand e à região norte das
Falas; e virando para o leste eles procuraram os promontórios
escuros das Ered Wethrin, e deitaram-se escondidos e
descansaram até o pôr do sol. Pois, embora as antigas
moradias dos falathrim, Brithombar e Eglarest, ainda estivessem
muito distantes, os orcs agora moravam naquele território
infestado com os espiões de Morgoth, pois ele temia que os
navios de Círdan que às vezes faziam incursões nas regiões
costeiras trouxessem reforços que poderiam se unir aos
atacantes vindos de Nargothrond. Tuor
e Voronwë agora estavam sentados, cobertos em seus mantos,
como sombras sob as colinas, e conversavam muito. E Tuor
perguntava sobre Turgon, mas Voronwë falava pouco a respeito
dele, preferindo falar sobre as moradas na Ilha de Balar, e de
Lisgardh, a terra dos juncos, nas fozes do Sirion. -
Naquele lugar os eldar prosperam cada vez mais - ele disse -
pois sempre mais e mais eldar fogem para lá por medo de
Morgoth e por estarem cansados das guerras. Entretanto, não
abandonei meu povo por escolha própria. Pois, após a
Bragollach e o rompimento do cerco a Angband, sobreveio a dúvida
ao coração de Turgon de que Morgoth pudesse realmente provar
ser forte. E naquele ano Turgon enviou os primeiros de seu
povo, que saíram dos portões. Eram bem poucos e estavam em
uma missão secreta. Eles desceram o Sirion até as angras
perto das Fozes, e ali construíram barcos. Mas de nada
valeram, exceto para chegar à grande Ilha de Balar e ali
estabeleceram moradas solitárias, distantes do alcance de
Morgoth. Pois os noldor não conhecem a arte da construção de
barcos que resistam por muito tempo às ondas de Belegaer, o
Grande.13 -
Mas quando Turgon posteriormente ouviu a respeito dos ataques
às Falas e da pilhagem nos antigos portos dos fabricantes de
navios, e que Círdan conseguiu salvar o restante de seu povo e
navegou para o Sul, para a Baía de Balar, enviou mensageiros
novamente. Isso foi há bem pouco tempo atrás, mas apesar
disso, em minha memória, esse pouco tempo parece ser a maior
parcela de minha vida. Pois eu era um dos que foram enviados,
sendo jovem em anos entre os eldar. Eu nasci aqui na Terra-média,
em Nevrast. Minha mãe era dos elfos-cinzentos das Falas e
parente do próprio Círdan. Havia muito poucas e raras uniões
entre as casas na época do reinado de Turgon, e eu herdei do
povo de minha mãe o anseio pelo mar. Graças a isso eu estava
entre os escolhidos, uma vez que a missão era encontrar Círdan
e procurar por seu auxílio na fabricação de barcos, para que
algum pedido de ajuda pudesse chegar aos Senhores do Oeste
antes que tudo estivesse perdido. Mas eu me atrasei no caminho,
pois eu havia visto pouco da Terra-média, e enfim havíamos
chegado a Nan-tathren na primavera. Aquela terra encanta o coração,
Tuor, como você poderá vir a descobrir se um dia você for
para o sul, descendo o Sirion. Ali existe a cura da saudade do
mar, exceto para aqueles que a Condenação mantém presos.
Ali, Ulmo é apenas um servo de Yavanna, e a terra trouxe à
vida uma abundância de coisas agradáveis e boas que estão além
da imaginação das duras colinas do norte. Naquele território,
o Narog se junta ao Sirion, e eles correm mais suave e
lentamente, e fluem amplos e silenciosos pelos prados vivos; e
em toda a volta do rio fulgurante há lírios como uma floresta
florescente, e a grama é cheia de flores como jóias, como
sinos, como chamas vermelhas e douradas, como uma vastidão de
estrelas multicoloridas em um firmamento verde. Apesar disso
tudo, as coisas mais belas de todas são os salgueiros de
Nan-tathren, verdes-pálidos e prateados ao vento, e o
farfalhar de suas folhas inumeráveis é um encantamento
musical: o dia e a noite passavam despercebidos enquanto eu
estava quieto, de pé, com a grama na altura dos joelhos,
apenas escutando. Ali eu estava enfeitiçado e esqueci o Mar.
Caminhei dando nomes a novas flores, ou me deitei divagando em
meio ao canto dos pássaros e ao zumbido das abelhas e belos
insetos; e ali eu poderia morar, deliciado, abandonando meu
povo, seja dos barcos dos teleri ou das espadas dos noldor, mas
meu destino não é esse. Nem pelo próprio Senhor das Águas,
talvez; ainda que ele seja forte naquela terra. -
Então veio-me à mente fazer uma canoa com madeira de
salgueiros e partir pelo leito do Sirion; e assim eu fiz, e então
veio um vento e me apanhou, e me carregou para fora da Terra
dos Salgueiros, para o Mar. Ora, eu finalmente cheguei, o último
dos mensageiros, a Círdan. E dos sete navios que ele construiu
a pedido de Turgon apenas um não estava totalmente pronto. E
um a um eles navegaram para o Oeste, e nenhum deles havia
retornado até então, nem se sabia nada a respeito deles. -
Mas o ar salino voltara a agitar meu coração, e eu me
deleitava junto às ondas, aprendendo todo o conhecimento sobre
barcos, que agora está guardado em minha mente. Ora, quando o
maior e último navio ficou pronto, eu estava ávido por
partir, dizendo em meus pensamentos: “Se as palavras dos
noldor forem verdadeiras, então no Oeste há prados e campinas
com as quais a Terra dos Salgueiros não se compararia. Não
existe mácula ou fim na primavera. E talvez até mesmo eu,
Voronwë, possa chegar até lá. E a pior viagem no mar ainda
é, de longe, melhor do que ficar sob a Sombra do norte.” E
eu não temi, pois os navios dos teleri água nenhuma poderia
afundar. -
Mas o Grande Mar é terrível, Tuor filho de Huor, e ele odeia
os noldor, pois serve à Condenação dos Valar. Ele reserva
coisas piores do que afundar ao abismo e perecer: ódio, solidão
e loucura; ventos aterrorizantes, tumulto e silêncio, e
sombras onde a esperança é perdida e todas as formas de vida
morrem. E em muitas costas malignas e estranhas ele toca, e
muitas ilhas de medo e perigo o infestam. Não desejo
obscurecer teu coração, filho da Terra-média, com os contos
de minha faina no Grande Mar, que durou sete dias, indo para o
norte e para o sul, mas nunca para o Oeste que permanece
fechado para nós. -
Finalmente, em um desespero negro, saturados daquele lugar,
viramos e fugimos do destino que por tanto tempo teve misericórdia
de nós, apenas para nos golpear mais cruelmente. Pois quando nós
havíamos divisado uma montanha eu gritei: “Vejam! Ali está
o Taras e a terra onde nasci!” E o vento acordou e grandes
nuvens trovejantes vinham do oeste. E as ondas nos caçavam
como se fossem coisas vivas e cheias de malícia, e os relâmpagos
nos castigaram; e quando fomos reduzidos a um casco indefeso,
os mares saltaram furiosos sobre nós. Mas, como você pode
ver, eu fui poupado; pois naquela hora me pareceu que vinha uma
enorme onda, maior, mas mais calma do que todas as outras, e me
apanhou do navio e me levou em sua crista, e rolando em direção
a terra, me arremessou sobre a areia, e foi tragada pelo mar,
derramando-se de volta sobre o penhasco em uma gigantesca queda
d’água. Fazia uma hora que eu estava sentado quando você
veio até mim, ainda atordoado pelo mar. E eu ainda estou com
medo do mar e triste com a perda amarga de todos os meus amigos
que estiveram comigo, além da vista das terras mortais. Voronwë
suspirou e então falou suavemente consigo mesmo:
“Extremamente brilhantes eram as estrelas no limiar do mundo,
quando às vezes as nuvens no Oeste eram empurradas de lado.
Apesar disso, se nós vimos apenas nuvens ainda mais remotas,
ou vislumbramos, na verdade, como alguns pensam, as Montanhas
Pelóri nas costas perdidas de nosso antigo lar, isso eu não
sei. Muito, muito longe elas estão e ninguém das terras
mortais deverá chegar até lá algum dia, eu creio.” Então
Voronwë caiu em silêncio, pois a noite havia chegado e as
estrelas brilhavam brancas e frias. Pouco
depois Tuor e Voronwë levantaram-se e deram as costas para o
mar e partiram em sua jornada no escuro; dela há pouco a
dizer, uma vez que Tuor estava sob a sombra de Ulmo, e ninguém
os viu passar por bosque ou pedras, por campo ou por brejo,
entre o crepúsculo e a aurora. Mas sempre cautelosos eles
seguiam, evitando os caçadores de Morgoth que enxergavam no
escuro, e abandonaram os caminhos trilhados por elfos e homens.
Voronwë escolheu o caminho que deveriam seguir. Tuor não
fazia perguntas à toa, mas percebia claramente que eles
prosseguiam para o leste, ao longo das encostas das montanhas,
e nunca viravam para sul, ao contrário do que ele imaginara,
pois ele sempre acreditara que, como fizeram quase todos os
elfos e homens, Turgon morava longe das batalhas do norte. Lentas
eram suas partidas ao crepúsculo, ou à noite nas selvas
insondáveis, e o inverno nefasto vinha rapidamente do norte,
do reino de Morgoth. Apesar do abrigo das colinas os ventos
eram fortes e amargos, e logo a neve começou a cair densa nas
alturas, ou rodopiava através das passagens, caindo sobre os
bosques de Núath antes que as árvores tivessem perdido por
completo suas folhas murchas.14 E, embora eles tivessem partido
antes da metade de Narquelië, Hísimë chegou com uma geada
penetrante, até mesmo quando eles ainda se aproximavam das
Nascentes do Narog. E
no final daquela noite cansativa em meio aos primeiros raios pálidos
da aurora eles pararam; e Voronwë estava desanimado olhando à
sua volta com sofrimento e medo. Onde uma vez a bela lagoa de
Ivrin repousava em sua grande bacia pedregosa esculpida pelas
águas que caíam, e tudo a seu redor era um vale coberto de árvores
sob a sombra das colinas, agora ele via uma terra definhada e
desolada. As árvores haviam sido queimadas ou arrancadas pelas
raízes; e as margens rochosas da lagoa estavam rachadas e
dessa forma as águas de Ivrin vacilaram e formaram um pântano
estéril em meio à ruína. Tudo era agora um lamaçal
congelado e disforme, e um fedor nefasto jazia como uma névoa
abominável sobre o solo. -
Maldição! Até mesmo a este lugar o mal estendeu seus braços
profanos? - bradou Voronwë - Este lugar outrora estivera longe
da ameaça de Angband, mas os dedos de Morgoth tateiam cada vez
mais longe. -
É exatamente como Ulmo me contou: - disse Tuor - “As
nascentes estão conspurcadas e meu poder recua das águas que
correm pela terra.” -
Mas apesar disso - disse Voronwë - aqui se fez presente uma
malícia muito mais poderosa que a dos orcs. O medo ainda
existe neste lugar. - E ele postava-se silencioso, examinando
ao redor das margens do lamaçal, até gritar novamente: - Sim,
um grande mal! - E ele acenou para Tuor que, ao chegar, viu um
rastro como um sulco imenso que ia para o sul, e de cada lado,
agora confusas e duramente cobertas pelo gelo, as marcas de
grandes patas com garras. -
Veja! - disse Voronwë, e sua face estava pálida, mostrando
terror e nojo. - Não faz muito tempo que o Grande Lagarto de
Angband, a mais terrível de todas as criaturas do Inimigo!
Nossa missão já se mostra atrasada. Precisamos nos apressar. Quando Voronwë terminou estas palavras, eles ouviram um grito em meio às árvores, e ficaram quietos, imóveis como pedras, apenas escutando. Mas a voz era bonita, embora cheia de tristeza, e parecia que estava chamando por um nome, como alguém que chama outro, que encontra-se perdido. E, enquanto eles aguardavam, uma figura saiu das árvores, e os dois viram que se tratava de um homem alto, armado, e seus trajes eram negros, e ele empunhava uma espada longa; e eles ficaram espantados, pois a lâmina da espada também era negra, mas seus gumes fulguravam com uma chama fria. Sua face estava marcada pela angústia, e quando ele contemplou a ruína de Ivrin ele gritou forte com uma tristeza muito profunda: -
Ivrin, Faelivrin! Gwindor e Beleg! Aqui eu fui curado, uma vez.
Mas agora eu nunca mais poderei beber um único gole de paz. E,
então, ele se foi com rapidez em direção ao Norte, como se
estivesse em uma busca, ou em alguma missão apressada, e os
dois ouviam-no gritar: “Faelivrin, Finduilas!” até sua voz
se perder em meio às árvores.15 Mas eles não sabiam da queda
de Nargothrond e que aquele era Túrin filho de Húrin, o
Espada Negra. Então, por um breve instante, os caminhos
daqueles primos, Tuor e Túrin, se entrecruzaram. Quando
o Espada Negra se foi, Tuor e Voronwë prosseguiram em seu
caminho por mais um tempo, embora já houvesse amanhecido; pois
a lembrança de sua tristeza ainda pairava pesada sobre eles,
que não agüentavam ficar ali, ao lado da definhada Ivrin. Mas
não demorou até eles procurarem um esconderijo, pois parecia
que toda aquela terra estava repleta de mau-agouro. Eles
custaram a dormir, e ainda assim dormiram pouco, e o dia ficou
escuro, e uma neve pesada caiu, e com a chegada da noite veio
também um frio penetrante. E desde então o gelo e a neve
foram implacáveis e, por cinco meses, o Inverno Mortal, por
muito tempo lembrado, manteve o Norte em seus laços. Tuor e
Voronwë agora estavam atormentados pelo frio e temiam que a
neve os revelasse a caçadores inimigos, ou que caíssem diante
de perigos ocultos. Por nove dias eles prosseguiram, cada vez
mais lenta e dolorosamente, e Voronwë desviou o caminho um
pouco para o norte, até cruzarem as três nascentes do Teiglin;
e então ele desviou novamente para o leste deixando as
montanhas, e prosseguiram cautelosos até passarem por Glithui
e chegarem ao Malduin que estava congelado.16 Então Tuor disse
a Voronwë: -
Terrível é este frio, e a morte se aproxima de mim, se não
de você. - Eles passavam por uma necessidade terrível, pois
fazia dias que eles não encontravam comida naqueles ermos, e o
pão-de-viagem estava minguando; e eles estavam cansados e com
muito frio. -
É terrível ser pego entre a Condenação dos Valar e a Malícia
do Inimigo. - disse Voronwë - Eu escapei das garras do Mar
apenas para morrer sob a neve? -
Quão longe estamos agora, Voronwë? - disse Tuor - Pois
finalmente você deve abdicar de seu segredo. Você está me
conduzindo diretamente? Pois se eu devo gastar minhas últimas
forças, eu deveria saber onde e em que elas deverão ser
dispensadas. -
Eu o conduzi pelos caminhos mais diretos que eu pude,
certamente. - respondeu Voronwë - Saiba, então, que Turgon
ainda mora no norte das terras dos eldar, embora poucos creiam
nisso. Já estamos nos aproximando dele. Mas ainda há muitas léguas
a serem percorridas, num vôo de pássaro, e ainda devemos
cruzar o Sirion, e o mal pode, talvez, estar no caminho. Pois
devemos chegar logo à Grande Estrada que antigamente saía da
Minas Tirith do Rei Finrod Felagund e ia até Nargothrond.17
Ali os servos do Inimigo caminham e mantêm-se vigilantes. -
Eu pensava que fosse o mais resistente dos homens, - disse Tuor
- e eu suportei as amarguras de muitos invernos nas montanhas.
Mas eu tinha uma caverna para me abrigar e fogo para me
aquecer, e eu duvido que minha força perdure muito mais, através
deste clima maligno. Mas percorramos então a distância que
pudermos, antes de nossa esperança findar. - Não temos outra escolha, a menos que nos deitemos aqui e esperemos ser tomados pelo adormecimento na neve. - disse Voronwë. Então,
durante todo aquele dia amargo eles prosseguiram duramente,
considerando menos o risco de encontrar inimigos do que ficar
parados naquele inverno; mas à medida que eles deixavam as
milhas para trás, a neve diminuía, pois eles dirigiam-se
novamente para o sul, em direção ao Vale do Sirion, e as
Montanhas de Dor-lómin foram deixadas para trás. Naquele crepúsculo
profundo eles chegaram à Grande Estrada no fundo de uma fenda
com árvores altas. Logo eles escutaram vozes, e, olhando
cautelosamente das árvores, viram uma luz vermelha logo
abaixo. Uma companhia de orcs estava acampada no meio da
estrada e estavam aconchegados à beira de uma fogueira. -
Gurth an Glamhoth! - resmungou Tuor18 - Agora a espada deverá
ser sacada de sob o manto. Eu arriscarei minha vida para obter
o domínio sobre aquele fogo, e até mesmo a carne de orcs
seria uma recompensa! -
Não! Nesta busca apenas o manto terá serventia. - disse
Voronwë - Você deve abrir mão do fogo ou abrir mão de
Turgon. Este bando não está sozinho no ermo: a sua visão de
mortal não está conseguindo ver as chamas distantes de outros
postos, ao norte e ao sul? Uma confusão atrairá uma grande
hoste até nós. Escute-me, Tuor! É contra a lei do Reino
Oculto que alguém se aproxime dos portões, com inimigos em
seus calcanhares; e tal lei eu não vou quebrar, nem por ordem
de Ulmo, nem pela morte. Provoque os orcs e eu abandono você! -
Então, que seja como você me aconselha - disse Tuor - mas que
eu possa viver até o dia em que eu não precise me desviar de
um punhado de orcs como um cão covarde. -
Então venha logo! - disse Voronwë - Pare de discutir ou eles
nos descobrirão. Siga-me! - Então eles arrastaram-se sob as
árvores, para o sul, contra o vento, até estarem a meio
caminho entre aquela fogueira e a seguinte, ao longo da
estrada. Eles pararam quietos por um tempo, apenas escutando. -
Não ouço nada se movendo na estrada - disse Voronwë - mas não
sabemos o que pode estar oculto nas sombras. - Ele espreitou
naquela escuridão e estremeceu. - O ar está cheio de malícia.
- ele balbuciou - Maldição! Naquela direção está a terra
de nossa busca e esperança, mas a morte se interpõe no
caminho até lá. -
A morte está em toda a nossa volta. - Tuor respondeu - Mas eu
tenho forças somente para trilhar a estrada mais curta. Aqui
eu devo cruzar ou perecer. Confiarei no manto de Ulmo, e a você
também ele deverá encobrir. Agora eu passo a conduzir! Ao
dizer isso Tuor furtou-se até a beira da estrada e abraçando-se
a Voronwë cobriu a ambos com o manto cinzento do Senhor das Águas
e saltou adiante. Tudo
estava quieto. O vento frio murmurava conforme varria a estrada
antiga até, subitamente, silenciar. Tuor sentiu uma mudança
no ar, como se o alento da terra de Morgoth vacilasse por um
instante e, fraca como uma lembrança, veio uma brisa do Oeste.
Como uma névoa cinzenta ao vento eles passaram pela estrada
pedregosa e adentraram um bosque em sua borda leste. Então
aconteceu que, para desespero dos dois, houve um grito
selvagem, ao que muitos outros ao longo das margens da estrada
responderam. Uma trombeta soou cruel, e houve, então, o som de
muitos pés correndo. Mas, Tuor esperou. Ele havia aprendido o
suficiente da língua dos orcs em seu cativeiro para saber o
significado daquela balbúrdia: os vigias os haviam percebido e
escutado, embora não os houvessem enxergado. A caçada estava
começando. Desesperadamente ele tropeçou e rastejou para
frente com Voronwë a seu lado, e subiram uma encosta cheia de
vinhas agarrando-se entre muitas romãzeiras e bétulas baixas.
No topo daquela encosta, eles pararam, ouvindo o tumulto logo
atrás, e o rebuliço dos orcs nos os arbustos abaixo. Ao
lado de Tuor e Voronwë, havia uma pedra gigantesca que se
inclinava na direção de um emaranhado de urzes e sarças, e o
lugar abaixo dela era como uma toca, onde uma fera perseguida
poderia tentar escapar da perseguição ou, pelo menos com suas
costas para a pedra, tentar vender sua vida a um alto preço.
Sob aquela sombra escura Tuor trouxe Voronwë e, lado a lado,
eles se deitaram, ofegando como raposas exaustas. Eles
permaneceram em silêncio total, e toda a sua atenção
destinava-se a ouvir algo. Os
gritos dos caçadores começaram a enfraquecer, pois os orcs não
avançavam muito naqueles ermos, de nenhum dos lados da
estrada, mas preferiam rastejar subindo ou descendo a estrada.
Mas não se importavam com fugitivos incautos, mas eles temiam
espiões e batedores inimigos armados; pois Morgoth
estabelecera uma guarda na estrada, não para emboscar Tuor e
Voronwë (dos quais não sabia nada a respeito), nem alguém
vindo do oeste, mas para manter vigilância sobre o Espada
Negra para que ele não pudesse escapar dos cativeiros de
Nargothrond e trazer ajuda, se pudesse, de Doriath. A
noite passou e o silêncio de espera se pôs novamente sobre
aquelas terras ermas. Cansado e desgastado Tuor dormiu sob a
proteção do manto de Ulmo; mas Voronwë rastejou adiante e
postou-se de pé como uma pedra, silencioso e imóvel,
perfurando as sombras com sua visão élfica. Ao nascer do dia
ele acordou Tuor, e arrastando-se para fora, viu que o tempo
havia melhorado e que as nuvens negras haviam rolado para
longe. E, naquela aurora vermelha, ele podia divisar adiante os
picos de estranhas montanhas cintilando contra a chama do
leste. Alae!
Ered en Echoriath, ered e·mbar nin!19- Voronwë disse em uma
voz alta e clara, pois sabia que estava contemplando as
Montanhas Circundantes e as muralhas do reino de Turgon. Abaixo
delas, a leste, em um vale sombreado e profundo, corria o belo
Sirion, famoso em canções; e mais além, envolta em uma névoa
profunda, uma terra cinzenta que se erguia do rio, até as
colinas fissuradas aos pés das montanhas. -
Naquela direção está Dimbar - disse Voronwë - Ali deveríamos
estar agora! Pois, nossos inimigos raramente ousam andar por
ali. Ou costumava ser assim quando o poder de Ulmo era forte no
Sirion. Mas agora tudo pode estar mudado20, exceto o perigo do
rio: ali ele já é fundo e veloz e é perigoso até mesmo para
os eldar cruzá-lo. Mas eu o conduzi bem; pois logo ali reluz o
Vau de Brithiach, um pouco a sul, onde a antiga Estrada Leste
se estendia desde o Taras no oeste até a passagem pelo rio.
Atualmente ninguém ousa usá-la, a não ser em necessidade
extrema, nem elfo, nem homem, nem orc, uma vez que a estrada
leva a Dungortheb e a terra do pavor entre Gorgoroth e o Cinturão
de Melian; e há muito tempo ela está fadada a ser coberta
pelas selvas, ou reduzida a uma trilha sob a relva e
espinheiros rasteiros.21 Então
Tuor olhou para onde Voronwë apontava e, à distância, captou
o brilho como o de águas amplas à breve luz da aurora; mas
mais além se agigantava uma escuridão, onde a grande floresta
de Brethil estendia-se para o sul em um distante planalto. Com
cautela eles desceram para o vale até finalmente chegarem à
estrada antiga que descia da encruzilhada nas fronteiras de
Brethil onde cruzava com a Grande Estrada de Nargothrond. Então
Tuor percebeu que se aproximavam do Sirion. As margens de seu
leito profundo ficavam mais baixas ali, e suas águas,
sufocadas por inúmeras rochas,22 eram espalhadas em amplas
piscinas, cheias do murmúrio de correntes agitadas. E, pouco
adiante, o rio reunia suas águas novamente e afundava em um
novo leito que corria para a floresta, e desaparecia na distância,
para dentro de uma névoa profunda, onde seu olho não podia
penetrar, pois embora ele não soubesse, ali estava o marco
setentrional de Doriath, sob a sombra do Cinturão de Melian. E
Tuor de uma vez se apressava em direção ao vau, mas Voronwë
o impediu dizendo: -
Não podemos ir por Brithiach abertamente de dia, não enquanto
permanecer qualquer dúvida de que estejamos sendo perseguidos. -
Então devemos sentar aqui e apodrecer? - disse Tuor - Pois tal
dúvida permanecerá enquanto o Reino de Morgoth durar. Venha!
Prosseguiremos sob a sombra do manto de Ulmo. Voronwë
hesitava em silêncio, olhando para o oeste; mas a trilha logo
atrás, estava completamente deserta e tudo ao redor estava em
uma quietude profunda, a não ser pelo som das águas. Ele
olhou para cima e viu que o céu cinzento estava vazio, e que
nenhum pássaro voava. Então sua face encheu-se de alegria e
ele falou alto: -
Isso é muito bom! Brithiach ainda permanece guardada pelos
inimigos do Inimigo. Os orcs não nos seguirão aqui, e sob a
sombra do manto poderemos agora passar sem mais dúvidas. -
Que novas você descobriu? - disse Tuor. -
Curta é a visão dos homens mortais! - disse Voronwë - Vejo
as águias de Crissaegrim, e elas vêm para cá. Olhe um pouco! Então
Tuor ficou olhando e logo viu três figuras no ar batendo asas
poderosas, vindas dos distantes picos agora cobertos pelas
nuvens. Lentamente, elas desceram em amplos círculos, e então
elas subitamente inclinaram-se acima dos viajantes; mas antes
que Voronwë pudesse chamá-las, elas viraram-se em um amplo e
célere movimento e voaram para o norte, ao longo da linha do
rio. -
Agora vamos. Se houver algum orc nas redondezas - disse Voronwë
- ele deverá rastejar com seu nariz covarde ao solo, até que
as águias estejam bem longe. Rapidamente
desceram por uma ladeira e passaram por Brithiach, andando
sobre bancos de cascalho ou caminhando nos bancos de areia, com
a água na altura dos joelhos. A água era límpida e muito
fria e as partes que formavam piscinas rasas estavam
congeladas, onde os fluxos serpeantes perdiam-se em meio às
pedras; nunca, porém, nem mesmo no Inverno Mortal da Queda de
Nargothrond, o hálito mortal do Norte congelara o leito
principal do Sirion.23 Do
outro lado do vau, eles chegaram a uma fenda que devia ser o
leito de um antigo riacho onde água nenhuma fluía; mas,
apesar disso, parecia que uma torrente havia dividido seu leito
profundo, vinda do norte, das montanhas de Echoriath, trazendo
desde então, as pedras de Brithiach para o Sirion. - Além de qualquer esperança finalmente encontramos! - bradou forte Voronwë - Veja! Aqui está a foz do Rio Seco e aquela é a estrada que devemos tomar.24 - então eles atravessaram a fenda que virava para o norte e a terra ao redor começava a subir, dessa maneira suas margens erguiam-se de ambos os lados, e Tuor tropeçava à luz débil entre os espigões de pedra, nos quais seu tosco leito se estendia. -
Se esta é a estrada - disse Tuor - então ela é perversa para
com aqueles que encontram-se exaustos. -
Apesar disso, esta é a estrada que leva a Turgon. - respondeu
Voronwë. -
Mas o que mais me surpreende - observou Tuor - é que a entrada
encontra-se aberta e desprotegida. Eu esperava encontrar um
portal grandioso e bem guarnecido. -
Isso você ainda verá. - respondeu Voronwë - Esta é tão
somente a soleira. Eu disse que esta é uma estrada; mas, mesmo
assim, ninguém caminha nela há mais de trezentos anos, a não
ser poucos mensageiros, em segredo, e toda a arte dos noldor
foi aproveitada para erigi-la, quando o Povo Oculto entrou por
aqui. A entrada encontra-se aberta? Você a teria encontrado se
não tivesse alguém do Povo Oculto como um guia? Ou você
imaginava que isso fosse o trabalho do tempo e das águas indomáveis?
E quanto às águias que você contemplou? Elas são do povo de
Thorondor, que uma vez morou até mesmo sobre Thangorodrim
antes que Morgoth se tornasse tão poderoso, e que agora moram
nas montanhas de Turgon, desde a queda de Fingolfin.25 Somente
as águias, exceto pelos noldor, conhecem o Reino Oculto e
guardam os céus acima dele, embora nenhum servo do Inimigo
havia ousado, até então, voar até os altos céus; e elas
trazem notícias ao Rei sobre tudo que se move nas terras
externas. Se fôssemos orcs, não tenha dúvida de que seríamos
agarrados e levados a uma grande altura e soltos para nos
arrebentarmos sobre as rochas inclementes. -
Eu não duvido, - disse Tuor - Mas eu fico imaginando se as
novas sobre nossa aproximação realmente chegarão a Turgon
mais rápido do que nós. E, se isso for bom ou mau, só você
pode dizer. -
Nem bom nem mau. - disse Voronwë - Pois não podemos passar
pelo Portão Vigiado sem sermos vistos, sendo procurados ou não;
e se chegarmos os guardas não necessitarão ser informados se
somos orcs ou não. Mas, para passarmos, precisaremos de um
argumento melhor. Pois você sequer imagina, Tuor, que perigo
enfrentaremos. Não me culpe, como alguém desavisado, pelo que
possa vir então a ocorrer. Que o poder do Senhor das Águas
possa portanto ser mostrado! Pois, somente em tal esperança eu
aceitei guiá-lo, e se a esperança se mostrar vã então é
mais do que óbvio que morreremos aqui mesmo, ao contrário
daqueles dias no inverno do ermo. - Ao que Tuor respondeu: -
Não mais pronuncie palavras de mau-agouro. A morte no ermo é
certa; e a morte no Portão ainda me é duvidosa, apesar de
tuas palavras. Continue a me conduzir! Eles
percorreram penosamente muitas milhas nas rochas do Rio Seco,
até não conseguirem ir mais adiante, e o anoitecer escureceu
aquele desfiladeiro sombrio. Eles escalaram a margem leste e
chegaram às colinas que postavam-se aos pés das montanhas.
Tuor olhou para cima e viu que eles subiam de um modo diferente
do que ele jamais havia feito em qualquer outra montanha. Pois
suas encostas eram como muralhas escarpadas e sobrepostas, com
a plataforma mais baixa pouco mais à frente que a superior,
como se fossem torres cercadas de precipícios de uma
profundidade imensurável. Mas o dia se foi e todas as terras
ao redor estavam cinzentas e enevoadas, e o Vale do Sirion
estava oculto nas sombras. Então Voronwë conduziu Tuor a uma
caverna não muito profunda, em uma encosta que vislumbrava as
ladeiras solitárias de Dimbar, e arrastaram-se para dentro e
deitaram escondidos; e ali comeram os últimos restos de
comida, e estavam com frio e cansados, porém não dormiram.
Ora, Tuor e Voronwë haviam chegado ao crepúsculo do décimo
oitavo dia de Hísimë, o trigésimo sétimo de sua jornada, às
torres das Echoriath e à soleira de Turgon e, graças ao poder
de Ulmo, escaparam da Condenação e da Malícia. Quando
os primeiros raios da aurora brilharam cinzentos, filtrados
pela névoa densa de Dimbar, eles se arrastaram de volta para o
Rio Seco, cujo curso voltava-se para leste logo adiante,
serpeando em direção às próprias montanhas; e, diretamente
diante deles, agigantava-se um imenso desfiladeiro, erguendo-se
abrupto de um contraforte escarpado, onde crescia um bosque
emaranhado de azevinheiros. Nesse bosque, o canal pedregoso
adentrava, e ali ainda estava escuro como a noite, e então
eles pararam, pois os espinhos cresciam cobrindo as bordas da
fenda, e as sarças emaranhadas formavam um teto denso acima, tão
baixo que Tuor e Voronwë precisaram rastejar como feras
furtivas que voltam para a toca. Mas
finalmente, através de muito esforço, chegaram ao sopé do
desfiladeiro, e encontraram uma abertura como se fosse a
entrada de um túnel escavado na própria rocha, por águas que
fluíam do coração das montanhas. Por ali entraram, e era
escuro como as trevas, mas Voronwë prosseguiu firmemente,
enquanto Tuor o seguia com sua mão sobre o ombro do elfo,
levemente encurvados, pois o teto era baixo. Então, por um
momento, eles prosseguiram cegos, passo a passo, até chegarem
a um trecho onde podiam sentir que o solo nivelava-se e ficava
livre de pedras soltas. Então, eles pararam e respiraram
profundamente, enquanto permaneciam escutando. O ar parecia
fresco e puro, e eles perceberam que havia um grande espaço ao
redor deles; mas tudo estava quieto, e nem mesmo o gotejar da
água podia ser ouvido. Pareceu a Tuor que Voronwë estava
perturbado e duvidoso, e então sussurrou: -
Onde está o Portão Vigiado, Voronwë? Ou já teríamos
passado por ele, na verdade? -
Não, apesar disso eu estou preocupado, pois é estranho que um
intruso possa se arrastar até tão longe sem ser interceptado.
- respondeu ele - Eu temo um golpe no escuro. Mas,
seus sussurros despertaram os ecos, e os sussurros foram
amplificados e multiplicados, espalhando-se pelo teto e pelas
paredes invisíveis, chiando e murmurando como o som de muitas
vozes furtivas. E quando os ecos morreram nas rochas, Tuor
escutou, saída da escuridão, uma voz que falava nas línguas
élficas: primeiro no alto-idioma dos noldor que ele não
conhecia; e então na língua de Beleriand, embora de um modo
um pouco estranho a seus ouvidos, como se fosse falada por alguém
que está afastado há muito tempo de seu povo.26 -
Parem! - ordenou a voz - Não se movam, ou morrerão, sejam
amigos ou inimigos. -
Somos amigos. - respondeu Voronwë. -
Então faça como ordenamos. - disse a voz. Então
o eco de suas vozes silenciou. Voronwë e Tuor permaneceram
quietos, e pareceu a Tuor que minutos lentos e longos passaram,
e um medo crescia em seu coração, como nenhum outro perigo na
estrada provocara. Então, houve um som de passos, crescendo até
se tornar como o som da batida de muitos pés pesados, como a
marcha de trolls, naquele lugar vazio. De repente, uma
lamparina élfica foi descoberta, e seus raios brilhantes foram
virados para Voronwë, à sua frente, mas Tuor não enxergava
nada, a não ser uma estrela ofuscante na escuridão. E ele
percebeu que, enquanto aquela luz o tocava, não podia se
mover, fugir ou sequer correr para frente. Por
um instante eles foram mantidos sob a luz e, então, a voz
novamente falou: -
Mostrem seus rostos! - e Voronwë jogou o capuz de seu manto
para trás e sua face brilhou àquela luz, dura e clara, como
se fosse gravada na pedra; e Tuor espantou-se ao ver sua
beleza. E ele falou orgulhosamente: -
Não está me reconhecendo? Eu sou Voronwë filho de Aranwë da
Casa de Fingolfin. Ou eu estou esquecido em minha própria
terra, após poucos anos? Muito longe, além da vista da
Terra-média eu caminhei, não obstante eu me lembro de tua
voz, Elemmakil. -
Então Voronwë ainda deve se lembrar das leis de sua própria
terra. - disse a voz - Uma vez que lhe foi ordenado que
partisse em missão, teria o direito de retornar. Mas, não
deveria ter trazido para cá nenhum estranho. Por tal feito o
direito está anulado, e então deverá ser levado como
prisioneiro ao julgamento do Rei. Quanto ao estranho, ele deverá
ser morto ou mantido preso até o julgamento da Guarda. Traga-o
até aqui para que eu possa julgá-lo. Então
Voronwë trouxe Tuor para perto da luz, e quando eles chegaram,
muitos noldor, vestidos em cotas de malha e armados, saltaram
da escuridão e, de espadas sacadas, cercaram-nos. E Elemmakil,
o Capitão da Guarda, que portava a lamparina, observou-os
longamente. -
É uma atitude estranha de tua parte, Voronwë. - ele disse -
Por muito tempo fomos amigos. Então, por que raios você me
interpõe, cruelmente, entre a nossa amizade e a nossa lei? Se
você tivesse trazido para cá, ainda que sem permissão, alguém
de uma outra casa de noldor, bastaria. Mas você cedeu o
conhecimento do Caminho a um homem mortal - pois por seus olhos
eu percebo sua raça. Apesar disso ele nunca mais poderá ser
libertado, já que conheceu o segredo e, por ser de uma raça
diferente, eu deveria matá-lo, mesmo sendo ele teu amigo e
tendo você se afeiçoado a ele. -
Nas vastas terras exteriores, Elemmakil, muitas coisas
estranhas podem acontecer a alguém, e deveres que não foram
esperados podem surgir. - respondeu Voronwë - Então, o
viajante pode retornar diferente do modo como ele partiu. O que
fiz, fiz sob um comando maior que o da Guarda. Somente o Rei
pode julgar a mim e a este que veio comigo. -
Eu vim com Voronwë filho de Aranwë, porque ele foi escolhido
para ser meu guia pelo Senhor das Águas. Para tal finalidade
ele foi salvo da cólera do Mar e da Condenação dos Valar.
Pois eu trago de Ulmo um aviso para o filho de Fingolfin, e a
ele eu falarei. - E Elemmakil olhou admirado para Tuor. -
Então quem é você? - ele perguntou - E de onde você vem? -
Eu sou Tuor filho de Huor da casa de Hador e parente de Húrin,
e estes nomes que eu citei, não são desconhecidos no Reino
Oculto. Venho de Nevrast, através de muitos perigos para
encontrar o Rei. -
De Nevrast? - espantou-se Elemmakil - Mas é dito que ninguém
mora lá, desde que nosso povo partiu. -
E isso é verdade. - disse Tuor - Vazia e fria é a corte de
Vinyamar. Apesar disso, foi de lá que eu vim. Leve-me àquele
que construiu aqueles salões antigos. -
Em assuntos tão grandiosos o julgamento não é meu. - disse
Elemmakil - Portanto eu o conduzirei à luz onde mais coisas
poderão ser reveladas, e eu o entregarei ao Guardião do
Grande Portão. Então
ele deu uma ordem, e Tuor e Voronwë foram colocados entre
altos guardas, dois à frente e três atrás deles; e o capitão
os conduziu da caverna da Guarda Externa, e lhes pareceu que
haviam passado por uma passagem direta, e ali caminharam por um
chão nivelado, sob uma luz pálida que brilhava mais adiante.
Então eles finalmente chegaram a um amplo arco com altos
pilares de cada lado, talhados na própria rocha, e nele havia
um grande pórtico de barras de madeira entrecruzadas,
maravilhosamente entalhadas, e com pregos de ferro habilmente
batidos. Elemmakil
tocou o pórtico que, por sua vez, ergueu-se silenciosamente, e
passaram por ele; e Tuor viu que agora estavam no fim de uma
ravina, que ele jamais havia imaginado, ou sequer vislumbrado
em seus pensamentos, muito embora ele tenha andado nas
montanhas selvagens do norte. Pois Cirith Ninniach era tão
somente um entalhe na rocha, se comparada às Orfalch Echor,
onde as mãos dos próprios Valar, em guerras antigas, no início
do mundo, arrancaram pedaços das próprias montanhas; e as
encostas do despenhadeiro eram lisas como se fossem cortadas
por um machado, e elas erguiam-se a alturas inimagináveis.
Distante nas alturas estendia-se uma faixa entre as encostas,
onde era possível divisar o céu, e contra seu azul profundo
postavam-se picos negros e pináculos denteados, remotos, mas
austeros; cruéis como lanças. Muito altas eram aquelas
poderosas muralhas, para que o sol do inverno pudesse olhar de
cima, e ali embaixo tudo estava escuro, a não ser, porém,
pela pálida luminosidade das lamparinas, postas em ambos os
lados da estrada. Pois o chão da ravina inclinava-se
levemente para cima, em direção ao leste, e à sua esquerda,
Tuor viu, ao lado do leito do riacho, um amplo caminho
pavimentado, serpeando para o alto, até desaparecer nas
sombras. -
Vocês passaram pelo Primeiro Portão, o Portão de Madeira. -
disse Elemmakil - Ali está o caminho. Devemos nos apressar. Quão
longe aquela longa estrada percorria Tuor não conseguia
imaginar e, conforme olhava adiante, um grande cansaço tomou
conta de seu corpo, vindo como uma nuvem. Um vento gelado chiou
em meio às faces das pedras e, então, ele cobriu-se com o
manto. - Gélido é o vento que sopra no Reino Oculto! - disse
ele. -
Sim. Pode parecer a um estranho que o orgulho possa ter tornado
os servos de Turgon impiedosos. - disse Voronwë - As longas léguas
dos Sete Portões podem vir a ser duras e penosas para os
famintos e viajantes. -
Se nossa lei fosse menos severa, há muito tempo a trapaça e o
ódio teriam entrado e nos destruído a todos. Isso você bem
sabe, Voronwë, - disse Elemmakil - mas não somos impiedosos.
Aqui não há comida e o estranho não poderá voltar por um
portão pelo qual já passara. Agüente mais um pouco, e no
Segundo Portão você será liberado. -
Isso é bom. - disse Tuor, e ele prosseguiu como lhe foi
ordenado. Após um instante ele virou-se, e viu que apenas
Elemmakil os seguia. -
Os guardas não são mais necessários. - disse Elemmakil, como
se houvesse lido os pensamentos de Tuor - Das Orfalch não há
escapatória ou retorno, para elfos ou homens. Então,
continuaram pelo caminho inclinado, às vezes por longas
escadarias, outras por ladeiras serpeantes, sob a sombra
profunda do desfiladeiro, até o momento em que, depois de
cerca de meia légua após o Portão de Madeira, Tuor viu que o
caminho era bloqueado por uma grande muralha construída de
lado a lado da ravina, com robustas torres de pedra de cada
lado. Na muralha havia um imenso arco para onde a estrada se
dirigia, mas parecia que os construtores o haviam bloqueado com
uma única e poderosa pedra. Conforme eles se aproximaram, sua
face escura e polida reluziu à luz de uma lamparina branca
sobre o centro do arco. -
Eis o Segundo Portão, o Portão de Pedra. - disse Elemmakil; e
se dirigindo ao portão, lhe deu uma leve batida. Ele girou
sobre um eixo invisível até sua borda estar na direção
deles, e o caminho abriu-se em dois lados, pois tal eixo ficava
no centro do arco. E, passaram pelo arco, até chegarem a um pátio
onde havia muitos guardas armados, vestidos de cinza. Nada foi
dito, mas Elemmakil conduziu seus prisioneiros a uma câmara
sob a torre setentrional; e ali lhes foram trazidos comida e
vinho, e lhes foi permitido que descansassem um pouco. -
O desjejum pode parecer escasso, - disse Elemmakil - mas, se
for provado o que você alega, então tal escassez será
ricamente corrigida. -
Isto já me é suficiente. - disse Tuor, então - O coração
fraco que precisava da cura não poderia ter encontrado uma
melhor. - E na verdade Tuor recuperou-se rapidamente com a
comida e a bebida dos noldor e, logo, mostrou-se ávido em
prosseguir. Após
uma pequena caminhada eles chegaram a uma muralha mais alta e
forte que as anteriores, e nela estava o Terceiro Portão, o
Portão de Bronze: uma gigantesca porta dupla coberta com
escudos e placas de bronze nos quais foram gravados estranhos símbolos
e muitas figuras. Na muralha, acima de seu parapeito, havia três
torres quadriláteras cujos topos e paredes eram revestidos com
cobre que, por algum artifício das artes de forjar metais,
eram sempre brilhantes, e fulguravam como fogo à luz das
lamparinas vermelhas como tochas, ao longo da muralha.
Novamente, em silêncio, eles passaram pelo portão e viram um
pátio que estava atrás de uma companhia de guardas ainda
maior, vestidos em malhas cujo brilho ardia como uma chama
ofuscante; e as lâminas de seus machados eram vermelhas. A
maioria daqueles que guardavam o Terceiro Portão eram sindar
de Nevrast. Haviam
chegado, então, à parte mais cansativa da estrada, pois no
meio das Orfalch a subida tornara-se mais íngreme do que em
qualquer outro lugar e, enquanto subiam Tuor viu a mais
imponente das muralhas, aproximando-se escura logo acima. Ora,
eles finalmente chegaram ao Quarto Portão, o Portão de Ferro
Retorcido. Alta e negra era a muralha, e não era iluminada por
lamparina nenhuma. Quatro torres de ferro erguiam-se dela e,
entre as duas torres centrais, foi colocada uma imagem de uma
águia gigantesca forjada em ferro, à semelhança do próprio
Rei Thorondor pousando sobre uma montanha, vindo do alto
firmamento. Mas quando Tuor parou diante do portão, para seu
espanto, parecia que estava olhando através de ramos e troncos
de árvores imperecíveis, para uma pálida clareira à luz da
lua. Pois uma luz chegava através dos adereços do portão que
eram lavrados e forjados à forma de árvores com raízes
retorcidas e galhos ondulados, carregados de folhas e flores. E
conforme Tuor passou, percebeu como ele era; pois a muralha era
de uma grande espessura, mas havia, ao invés de uma, três
aberturas em linha reta, assim colocadas para que alguém que
se aproxime, o faça pelo meio do caminho. Assim, os três
arcos estavam enfileirados naquela construção; mas a luz além,
era a luz do dia. E
eles já haviam escalado uma grande altura e, além do Portão
de Ferro, a estrada era quase plana. Além disso, haviam
ultrapassado a coroa e o coração das Echoriath, e os grandes
pináculos agora desciam em direção aos contrafortes
internos, e a ravina alargava-se, e seus flancos tornavam-se
menos íngremes. Sua longa fileira ficara coberta de uma neve
muito alva, e a luz do céu refletida na neve, chegava branca
como o luar através de uma névoa resplandecente que preenchia
o ar. Eles
haviam ultrapassado as fileiras dos Guardas de Ferro que
ficavam detrás do Portão; seus mantos eram negros, como o
eram, também, suas malhas e seus longos escudos; e suas faces
eram encobertas com máscaras com visores e com bicos de águia
forjados nas mesmas. Então Elemmakil passou para a frente
deles, que o seguiram até a luz pálida; e Tuor viu ao lado,
um gramado onde floresciam como estrelas as pequeninas uilos,
as Sempre-em-mente que florescem em todas as estações e nunca
murcham.27 Então, com o coração leve e admirado, Tuor chegou
ao Portão de Prata. A
muralha do Quinto Portão era construída em mármore branco, e
era baixa e larga, e seu parapeito era uma grade de prata,
entre cinco grandes globos de mármore; e ali ficavam muitos
arqueiros vestidos de branco. O Portão possuía o formato de
um círculo tripartido, e era feito de prata e com as pérolas
de Nevrast, no formato da Lua; mas acima do Portão, acima e
atrás do globo central do parapeito, havia uma grande imagem
de Telperion, a Árvore Branca, erigida em prata e malaquita,
cujas flores eram feitas com as grandes pérolas de Balar.28 E
além do portão, em um grande pátio pavimentado com mármore
verde e branco, havia arqueiros em malhas prateadas, ataviados
com elmos cujas cristas eram brancas; cem de cada lado do
caminho. Então Elemmakil conduziu Tuor e Voronwë através de
suas fileiras e adentraram uma longa estrada pavimentada de
branco que se estendia diretamente em direção ao Sexto Portão;
e conforme prosseguiam, o gramado ficava mais amplo, e, entre
as estrelas brancas de uilos,
abriam-se inúmeras flores pequeninas como olhos dourados. Assim
eles chegaram ao Portão Dourado, o último dos antigos portões
de Turgon que foram erigidos antes da Nirnaeth; e era muito
semelhante ao Portão de Prata, exceto que a muralha era feita
de mármore amarelo e o parapeito era de um vermelho dourado e
havia seis globos, ao invés de cinco. E no meio, sobre uma pirâmide
dourada, havia uma imagem de Laurelin, a Árvore Dourada, cujas
flores eram feitas de topázio, em grandes cachos sobre
correntes de ouro. E o próprio Portão era adornado com discos
raiados de ouro, no formato do sol, colocados entre adereços
de granadas e topázios e diamantes amarelos. No pátio além,
eles divisaram trezentos arqueiros com arcos longos, e suas
malhas eram douradas, e plumas altas e douradas erguiam-se de
seus elmos; e seus escudos arredondados eram vermelhos como
fogo. A
estrada agora se estendia na direção do sol que estava
descendo ao horizonte, pois as muralhas das colinas eram baixas
de ambos os lados da estrada, e eram verdejantes, apesar da
neve em seus picos; e Elemmakil apressou-se à frente, pois o
caminho era curto até o Sétimo Portão, que era chamado de o
Grande, o Portão de Aço que Maeglin forjou após retornar da
Nirnaeth, cruzando a entrada das Orfalch Echor. Não
havia nenhuma muralha, mas de cada lado havia duas torres
circulares, muito altas e repletas de janelas, com sete
pavimentos, e se estreitavam até um torreão de aço
brilhante, e entre as torres havia uma cerca de aço gigantesca
que não enferrujava, mas brilhava branca e fria. Sete imensos
pilares de aço existiam ali, com a altura e a espessura na
proporção de uma árvore jovem, mas seus topos eram
terrivelmente pontiagudos, como agulhas; e, entre os pilares,
haviam sete barras horizontais de aço e, em cada espaço entre
os pilares, barras de aço erguiam-se com pontas afiadas como
lanças. Mas no centro, sobre o pilar central, foi erigida uma
imagem imponente do elmo real de Turgon, a Coroa do Reino
Oculto, cravejada de diamantes. Tuor
não via nenhuma porta ou portão naquela poderosa cerca de aço,
mas na medida em que ele foi se aproximando dos espaços entre
as barras, houve um lampejo ofuscante, e ele semicerrou os
olhos, e parou, apavorado e ao mesmo tempo admirado. Mas
Elemmakil continuou em frente e nenhum portão abriu a seu
toque; mas ele bateu em uma barra e a cerca soou como uma harpa
de muitas cordas, tocando notas claras em uma harmonia que
corria de torre a torre. Imediatamente,
saíram cavaleiros das torres, mas à frente dos cavaleiros saídos
da torre norte, vinha um cavaleiro montado em um cavalo branco;
então, ele desmontou e saltou na direção deles. E era nobre
e alto como Elemmakil, mas mais alto e mais majestoso era
Ecthelion, Senhor das Fontes, que naquela época era o Guardião
do Grande Portão.29 Ele estava completamente vestido de prata,
e sobre seu elmo fulgurante havia uma ponta de aço com um
diamante no topo; e, quando seu escudeiro apanhou seu escudo,
este refulgiu como se possuísse gotas de orvalho, mas eram, na
verdade, milhares de rebites de cristal. Elemmakil o saudou. -
Aqui eu trago Voronwë Aranwion, que retorna de Balar; e eis
aqui o estranho que ele conduzira até aqui e que deseja ver o
Rei. Então
Ecthelion virou-se para Tuor, mas Tuor cobriu-se com o manto e
vestiu o capuz sobre a cabeça e permaneceu em silêncio,
encarando o primeiro; e pareceu a Voronwë que uma névoa
envolvia Tuor, e sua estatura havia aumentado e, deste modo, o
topo de seu capuz superava o topo do elmo do Senhor élfico, e
era como a crista de uma onda cinzenta do mar, correndo para
terra. Mas, Ecthelion lançou seu olhar brilhante sobre Tuor e,
após um momento de silêncio, falou de modo grave. -
Você chegou ao Último Portão. Saiba, então, que nenhum
estranho que venha a passar por ele, poderá sair novamente,
exceto pelas portas da morte. -
Não diga tolices! Se o mensageiro do Senhor das Águas passar
pela porta que mencionaste, então todos aqueles que moram aqui
o seguirão! Senhor das Fontes, não interrompas o mensageiro
do Senhor de Todas as Águas! Então
Voronwë e todos aqueles que estavam ao redor olharam
espantados para Tuor, admirando suas palavras e sua voz, como
se fosse um chamado de alguém, a uma distância inimaginável.
Mas parecia a Tuor que ele ouvia a si mesmo, mas que alguém
falava através de seus lábios. Por
um instante Ecthelion permaneceu em silêncio, olhando para
Tuor e, lentamente, o temor tomava conta de sua face, como se
da sombra cinzenta do manto de Tuor, ele vislumbrasse visões
de muito tempo atrás. Então ele se inclinou e dirigiu-se para
a cerca e pôs nela suas mãos, e portões se abriram dos dois
lados do pilar da Coroa. Então, Tuor passou por eles e,
chegando a um imenso gramado que se estendia por todo o vale
adiante, contemplou Gondolin em meio à neve branca. E ele
estava tão enfeitiçado que, por um longo tempo, não
conseguia olhar para mais nada; pois, ele via, diante de si, a
visão de seus desejos de muito tempo atrás, que agora
tornavam-se reais. Então,
ele parou e não disse palavra. De cada lado havia uma hoste do
exército de Gondolin; ali estavam representadas todas as divisões
das guardas dos outros Portões; mas, seus comandantes e capitães
estavam montados em cavalos brancos e cinzentos. Então eles
contemplaram Tuor admirados e, então, ele soltou seu manto e
parou diante deles, em sua vestimenta de Nevrast. E muitos dos
presentes haviam visto o próprio Turgon colocar aqueles
objetos sobre a parede, atrás do Alto Trono em Vinyamar. E
Ecthelion finalmente disse: -
Agora não se faz necessária nenhuma outra prova; e até mesmo
o nome que ele menciona, como sendo o filho de Huor, importa
menos do que a verdade óbvia, que ele realmente veio, por
ordem do próprio Ulmo. |
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