O Desastre de Gladden Fields

Sobre a Morte de Isildur e a perda do Um Anel

Depois da queda de Sauron, Isildur, filho e herdeiro de Elendil, retornou para Gondor. Lá ele assumiu o Elendilmir [1] como Rei de Arnor, e proclamou sua soberania sobre todos os Dúnedain do Norte e do Sul; pois ele era um homem com muito orgulho e vigoroso. Ele ficou um ano em Gondor, restaurando a ordem e definindo suas fronteiras; [2] mas a maior parte do exército de Arnor retornou a Eriador pelas estradas Númenóreanas dos Vaus de Isen até Fornost.

Quando finalmente Isildur se viu livre para retornar para seu próprio reino ele estava com pressa e queria ir primeiro para Imladris; pois lá havia deixado sua esposa e filho mais novo,[3] e também tinha necessidade urgente de se aconselhar com Elrond. Portanto Isildur escolheu ir pelo norte de Osgiliath pelos Vales do Anduin até Cirith Forn en Andrath, o passo alto ao norte, que levava a Imladris mais abaixo[4]. Ele conhecia bem a terra, pois havia viajado por lá muito antes da Guerra da Aliança, e havia marchado aquele caminho com os homens do leste de Arnor na companhia de Elrond.

Era uma longa viagem, mas o único outro caminho a oeste e depois ao norte da encruzilhada em Arnor e depois a leste para Imladris era muito mais longo.[6] Era rápido talvez para homens montados, mas Isildur não tinha cavalos aptos para serem montados;[7] mais seguro talvez em dias anteriores, mas Sauron fora derrotado, e o povo dos Vales havia sido seu aliado na vitória. Ele tinha receio apenas pelo tempo e cansaço, mas esses homens deveriam agüentar pela necessidade daqueles que os enviavam para bem longe na Terra-média.

Portanto como era contado nas lendas dos dias posteriores, naquele final do segundo ano Isildur partiu para Osgiliath no começo de Ivanneth,[9] com a expectativa de alcançar Imladris em quarenta dias, no meio de Narbeleth, antes do inverno chegar com mais rigor no Norte. No portão leste da Ponte numa manhã iluminada Meneldil[10] se despediu. "Vá agora com boa velocidade, e que o sol desta partida não pare de brilhar sobre o seu caminho!".

Com Isildur foram seus três filhos, Elendur, Aratan e Ciryon,[11] e sua Guarda de duzentos cavaleiros e soldados, homens austeros de Arnor endurecidos pela guerra. De sua jornada nada se conta até eles terem passado por Dagorlad, e indo para o norte para os espaçosos e vazios terrenos ao sul da Grande Floresta Verde. No vigésimo dia, quando eles puderam avistar a floresta que coroa as terras altas em frente a eles com um fulgor distante de vermelho e dourado de Ivanneth, o céu ficou carregado e um vento escuro veio do Mar de Rhún carregado de chuva. A chuva durou quatro dias; assim quando eles chegaram na entrada dos Vales, entre Lórien e Amon Lanc,[12],Isildur desviou-se do Anduin aumentado com águas rápidas, e subiu as encostas íngremes do lado leste para alcançar os antigos caminhos dos Elfos Silvestres que passavam perto da fronteira da Floresta.

Foi assim que na tarde do trigésimo dia de sua viagem eles passavam pelas bordas ao norte dos Gladden Fields,[13] marchando por um caminho que levava ao reino de Thranduil,[14]. O belo dia estava quase findando; acima das montanhas distantes nuvens estavam se aglomerando, vermelhas pelo sol rubro que se aproximava indo em sua direção. A parte mais funda do vale já estava na penumbra. Os Dúnedain estavam cantando, pois seu dia de marcha estava terminando, e três partes do longo caminho para Imladris já haviam sido percorridas. A sua direita à floresta se erguia acima deles no topo de encostas íngremes que ladeavam seu caminho, embaixo das quais a descida até o fundo do vale era mais plana.

De repente quando o sol mergulhou numa nuvem eles ouviram os gritos terríveis dos Orcs, e viram-nos saindo da floresta e descendo as encostas, bradando seus gritos de guerra.[15] Na luz minguante a sua quantidade poderia somente ser deduzida, mas os Dúnedain eram obviamente muitas vezes menos, mesmo dez vezes menos. Isildur ordenou um thangail[16] a ser erguido, uma parede-escudo de duas fileiras serradas que se dobrariam em qualquer das pontas se excedesse o grupo, caso precisasse formaria um círculo. Se a terra fosse plana ou a encosta fosse a seu favor ele teria ordenado a formação em um dírnaith[16] e atacado os Orcs, esperando que a grande força dos Dúnedain fosse o seu meio de cortar um caminho através deles e espalhá-los em consternação, mas isso não poderia ser feito. Uma sombra de mau presságio desceu sobre seu coração.


"A vingança de Sauron continua viva apesar de sua morte". disse ele a Elendur, que estava ao seu lado. "Há esperteza e planejamento aqui! Nós não temos esperança de ajuda: Moria e Lórien estão longe agora, e Thranduil está a quatro dias de marcha, e nós temos fardos valiosos sem precedência" disse Elendur; pois ele contava com a confiança de seu pai.

Os Orcs se aproximavam. Isildur voltou-se para seu escudeiro: "Ohtar",[17] disse ele, "Eu deixo isso sob sua proteção"; e ele lhe passou os restos de Narsil, a espada de Elendil. "Impeça-a de ser capturada de qualquer maneira que você julgar, e a qualquer custo; mesmo ao preço de acharem-no covarde por ter me abandonado. Pegue seu companheiro com você e fuja! Vá! Eu lhe ordeno!" Então Ohtar ajoelhou-se e beijou sua mão, e os dois jovens fugiram pelo vale escuro.

Se os Orcs de visão aguçada perceberam sua fuga, não se importaram. Eles pararam rapidamente, preparando seu ataque. Primeiro deixaram voar uma chuva de flechas, e de repente com um grande brado fizeram o que Isildur faria, e enviaram um grande grupo de seus principais guerreiros encosta abaixo contra os Dúnedain, esperando quebrar sua defesa. Mas ela estava firme. As flechas foram inofensivas contra a armadura Númenóreana. Os grandes homens sobressaiam aos mais altos Orcs, e suas espadas e lanças sobrepujavam as armas de seus inimigos. O ataque falhou, desmembrou-se e retraiu deixando os defensores pouco machucados, inabalados atrás de pilhas de Orcs caídos.

Pareceu a Isildur que o inimigo se retraia para a floresta. Ele olhou a sua volta. O círculo vermelho do sol brilhava sobre as nuvens enquanto descia atrás das montanhas; a noite chegaria logo. Ele deu ordens para continuar a marcha imediatamente, mas para curvar o curso mais para um terreno plano e abaixo aonde os Orcs teriam menos vantagens.[19] Talvez Isildur acreditasse que após sua custosa investida eles dariam passagem, apesar de talvez seus batedores o seguirem durante a noite e vigiarem o acampamento. Esse era o jeito dos Orcs, que muitas vezes ficavam constrangidos quando sua presa se virava e reagia.

Mas ele se enganara. Havia além de muita esperteza no ataque um ódio feroz e inabalável. Os Orcs das montanhas estavam endurecidos e eram comandados por servos severos de Barad-dûr, enviados há muito para vigiar os desfiladeiros,[20] e apesar de não saberem o Anel, cortado da mão negra dois anos antes estava ainda carregado com a maldade da vontade de Sauron, e chamava todos seus servos em seu auxílio. Os Dúnedain ainda não haviam andado uma milha quando os Orcs moveram-se novamente. Desta vez eles não atacaram, mas usaram toda a sua força. Vieram numa frente ampla, que se curvava como uma lua crescente e logo fecharam um círculo em volta dos Dúnedain. Eles estavam silenciosos agora, e mantiveram distância fora do alcance dos terríveis arcos de Númenor,[21] apesar da luz estar rapidamente diminuindo e Isildur ter muito poucos arqueiros para sua necessidade, [22] ele parou.

Houve uma pausa, entretanto os de melhor visão entre os Dúnedain disseram que os Orcs estavam se movendo para dentro sorrateiramente, passo a passo. Elendur foi a seu pai que estava em pé sombrio e só, como que perdido em pensamento. 'Atarinya,' ele disse, 'e se usasse o poder que intimida essas criaturas horrorosas e as fizesse obedece-lo? Não serve para nada?'

'É, realmente não, senya. Eu não posso usá-lo. Eu temo a dor de tocá-lo [23]. E eu ainda não achei a força necessária para comandá-lo a minha vontade. É preciso alguém maior do que sei que sou. Meu orgulho se esvaiu. Deveria ir para os guardiões da árvore.'

Naquele momento veio o trovoar de trompas, e os Orcs fecharam o cerco de todos os lados, atirando-se contra os Dúnedain com ferocidade insana. A noite chegara e a esperança findara. Homens caiam; pois alguns dos maiores Orcs pulavam para cima, dois ao mesmo tempo, e mortos ou vivos com seu peso, derrubavam um Dúnadan de tal maneira que outras garras fortes podiam puxá-lo para fora e matá-lo. Os Orcs talvez pagassem cinco por um nessa troca, mas era um preço pequeno a ser pago... Ciryon foi morto desta maneira e Aratan foi ferido mortalmente na tentativa de socorrê-lo.

Elendur, ainda não machucado, procurou Isildur. Ele estava encorajando os homens na parte leste onde o ataque era mais forte, pois os Orcs ainda temiam o Elendilmir que usava na testa, e o evitavam. Elendur tocou-o no ombro e ele se virou violentamente, achando que um Orc estava por trás.

'Meu rei,' disse Elendur, 'Ciryon está morto e Aratan está morrendo. Seu último conselheiro deve aconselhá-lo, não comandá-lo, como o senhor comandou Ohtar. Vá! Leve seu fardo, e a qualquer custo leve-o para os Guardiões: mesmo sendo preciso abandonar seus homens e a mim!'

'Filho de rei,' disse Isildur, 'Eu sabia que devia fazê-lo; mas eu temia a dor. Nem poderia ir sem seu assentimento. Perdoe-me, e meu orgulho que os trouxe a esse fim.' [24] Elendur beijou-o. 'Vá! Vá agora!' ele disse.

Isildur virou-se a oeste, e tirando o Anel que estava preso numa corrente em seu pescoço o pôs no dedo com um grito de dor, e nunca mais foi visto por nenhum olho na Terra-média. Mas o Elendilmir do Oeste não poderia ser apagada, e de repente ele brilhou um vermelho vingativo como uma estrela ardente. Homens e Orcs deram lugar ao medo; e Isildur colocando uma capa sobre sua cabeça desapareceu no meio da noite.[25]

Do que aconteceu aos Dúnedain somente isto se soube: não muito tempo depois estavam todos mortos, menos um, um jovem escudeiro atordoado e coberto por homens caídos. Assim morreu Elendur, que deveria ter sido rei, e como previam todos os que o conheciam sua força e coragem e sua majestade sem orgulho, um dos maiores e mais justos da linhagem de Elendil, o mais parecido com seu antepassado.[26]

De Isildur se conta que ele tinha muita dor e um coração angustiado, mas primeiro ele correu como um veado perseguido por cães, até chegar ao fundo do vale. Lá parou para ter certeza de não ter sido perseguido; pois Orcs podiam seguir um fugitivo no escuro pelo faro e não precisavam de olhos. Então ele seguiu mais cauteloso por terrenos planos que se estendiam a sua frente na penumbra, acidentados e sem trilhas definidas, com várias armadilhas para pés incautos.

Foi assim que ele chegou às margens do Anduin no fim da noite, e estava exausto; pois havia feito uma jornada que nenhum Dúnedain num terreno desses teria feito mais rapidamente, marchando com paradas e de dia.[27] O rio tinha redemoinhos rápidos a sua frente. Ele ficou parado por uns momentos, só e desesperado. Então rapidamente tirou sua armadura, despejou suas armas, exceto uma espada curta na cintura,[28] e pulou na água. Isildur era um homem forte e com uma resistência que poucos Dúnedain dessa idade poderiam igualar, mas tinha pouca esperança para alcançar a outra margem. Antes de ele ter ido longe foi forçado a virar quase para o norte contra a correnteza, e lutando como podia era sempre guiado de volta ao emaranhado de plantas dos Gladden Fields. Eles estavam mais próximos do que Isildur supusera,[29] e mesmo sentindo a correnteza diminuir tendo quase chegado ao outro lado ele se viu preso em meio a um emaranhado de plantas aquáticas. Então de repente soube que o Anel se fora. Por acaso ou uma oportunidade bem posta, o Anel deixou sua mão e foi para onde ele sabia não ser possível achar de novo. De começo foi tão grande a sua sensação de perda que parou de lutar, teria afundado e se afogado. Mas tão rápido como veio essa sensação se foi. A dor o deixara. Um grande fardo lhe havia sido tirado. Seus pés acharam o fundo do rio e empurrando-se para fora da lama. Isildur passou por entre as plantas até uma estradinha pantanosa perto da margem oeste. Lá saiu da água: apenas um mero homem mortal, uma pequena criatura perdida e abandonada na selva da Terra-média. Mas para os Orcs de visão noturna que por ali rondavam de vigília ele cresceu, uma sombra de medo, com um olho aterrador, como uma estrela penetrante. Eles soltaram suas flechas venenosas nele e fugiram. Sem motivo, pois Isildur sem armadura foi atingido no coração e na garganta, e caiu sem um grito de volta na água. Nenhuma pista de seu corpo foi encontrada pelos Elfos ou Homens. Assim pereceu a primeira vítima da maldade do Anel sem dono: Isildur, segundo Rei de todos os Dúnedain, lorde de Arnor e Gondor, e naquela era do mundo o último.

________________________________________

Copyright © 2002 Conselho dos Nove 9

Todos os direitos reservados

1
Hosted by www.Geocities.ws