Conto dos filhos de Húrin

O Senhor de Dor-lómin

Húrin Thalion pertencia a Casa de Hador, a terceira casa dos Edain. Ele entrou a serviço da Casa de Fingolfin em sua juventude, e foi muito estimado pelo rei supremo dos Noldor. Devido a isso Fingolfin fê-lo senhor de Dor-lómin, e nessa terra reuniu Hador Lórindol a maior parte da gente da sua família e tornou-se o mais poderoso dos capitães Edain. Na sua casa falava-se apenas a língua élfica, mas a sua própria língua não foi esquecida e dela proveio a língua comum de Númenor. Nesse tempo, a força dos Homens foi acrescentada ao poder dos Noldor, cuja esperança aumentou; e Morgoth ficou rigorosamente cercado, pois o povo de Hador era capaz de resistir ao frio e às longas caminhadas e não receava, de vez em quando, penetrar profundamente no Norte e vigiar os movimentos do inimigo. Os Homens das três casas prosperaram e multiplicaram-se, mas a maior de entre eles era a casa de Hador “Cabeça Dourada”, par de senhores élficos. O seu povo tinha grande força e estatura, era inteligente, ousado e firme, rápido na cólera e no riso.

Os filhos de Hador foram Gundor, Glóredhel, que casou com Haldir, filho de Halmir, senhor dos homens de Brethil e Galdor, que desposou Haret, filha de Halmir. Os filhos de Galdor e Haret foram Húrin e Huor. Havia grande amor entre os dois irmãos e raramente se separavam. Na batalha da Chama Súbita, Morgoth atacou de forma violenta e inesperada, lançando grandes rios de chamas, os seus balrogs, dragões e os seus orcs contra os Noldor e seus aliados; e muitos dos mais fortes adversários de Morgoth foram destruídos nos primeiros dias de guerra, atordoados, dispersos e afastados uns dos outros.

Tão grande foi o ataque de Morgoth que Fingolfin e Fingon não puderam ir em auxílio dos filhos de Finarfin e os exércitos de Hithlum foram repelidos com grandes baixas para as fortalezas de Ered Wethrin, as quais dificilmente conseguiam defender-se dos orcs. Diante das muralhas de Eithel Sirion caiu Hador, a defender Fingolfin, e com ele caiu Gundor, seu filho mais novo, trespassado por muitas setas. Então, Galdor, o Alto, sucedeu a seu pai. E por causa da força e da altura das montanhas da Sombra, que detiveram a torrente de fogo, e graças à coragem de Elfos e Homens do Norte, que nem balrog nem orc conseguia ultrapassar, Hithlum permaneceu inconquistada. Fingolfin desafiou Morgoth para um combate singular e foi morto. Fingon, desgostoso, assumiu a soberania dos Noldor.

Húrin e Huor viveram com os Haladin (o segundo povo de Homens a entrar em Beleriand, também chamado povo de Haleth, que habitou na Floresta de Brethil), com o seu tio Hardil, pois era esse o costume dos homens nesse tempo; e foram ambos para uma batalha com orcs que tentaram invadir Brethil, pois nada os dissuadiu, apesar de terem só 16 e 13 anos, respectivamente. Mas foram isolados do resto da hoste e perseguidos, teriam sido capturados ou mortos se não fosse o poder de Ulmo. Subiu do rio uma névoa que os ocultou de seus inimigos, eles escaparam e erraram entre os montes sem saber o caminho nem para prosseguirem nem para regressarem. Thorondor enviou duas águias em seu auxílio, que os levaram para o vale secreto de Tumladen e para a cidade escondida de Gondolin, que nenhum homem ainda vira.

Turgon, o rei, recebeu-os bem quando soube do seu parentesco, pois tinham-lhe chegado mensagens e sonhos, enviados por Ulmo, Senhor das Águas, a aconselhá-lo a tratar generosamente os filhos da casa de Hador, de quem receberia ajuda em caso de necessidade. Húrin e Huor viveram como convidados em casa do rei durante quase um ano; e Húrin aprendeu muita tradição dos Elfos e compreendeu alguns dos propósitos do rei, pois Turgon ganhou grande amizade pelos filhos de Galdor. Mas por fim, Húrin e Huor desejavam regressar para junto do seu povo e participar das suas guerras e desgostos. No entanto, Turgon tinha uma lei em que nenhum estrangeiro, homem ou elfo, podia partir até o rei abrir o cerco e o povo escondido poder sair.

Mas os irmãos juraram nunca revelar os desígnios de Turgon e conservar secreto tudo quanto tinham visto no seu reino; e as águias levaram-nos de noite e depositaram-nos em Dor-lómin. Grande foi o contentamento do seu povo ao vê-los, pois mensageiros de Brethil tinham comunicado que estavam perdidos; mas eles nem a seu pai disseram onde tinham estado, a não ser que tinham sido salvos do deserto pelas águias. E Galdor não lhes fez perguntas, mas ele e muitos outros adivinharam a verdade; e com o tempo, isso chegou aos ouvidos dos servidores de Morgoth, que desejava saber onde eram os reinos escondidos de Turgon e Felagund.

Alguns anos depois da batalha da Chama Súbita, Morgoth renovou o seu ataque e enviou grande força contra Hithlum. No cerco de Eithel Sirion uma seta matou Galdor, o Alto, senhor de Dor-lómin. Defendia essa fortaleza em nome de Fingon, o rei supremo; e nesse mesmo lugar, seu pai e seu irmão tinham morrido pouco tempo antes. Húrin rechaçou os orcs com grande morticínio e perseguiu-os longamente. Húrin, filho de Galdor, tornou-se senhor da casa de Hador e de Dor-lómin e vassalo de Fingon. Casou com Morwen, da casa de Bëor e tiveram 3 filhos, Túrin, Urwen (que morreu na infância) e mais tarde, Nienor. Huor casou com Rían e o filho de ambos foi Tuor.

Nos anos após a batalha da Chama Súbita e a queda de Fingolfin, o medo de Morgoth aumentou. Mas depois tornou-se conhecido os feitos de Beren e Lúthien, que tinham arrancado um silmaril da coroa de Morgoth, e a esperança voltou a nascer entre Elfos e Homens. E resolveram unir-se, vendo que Morgoth não era inatacável. Reuniram toda a força possível de Elfos, Homens e Anões e resolveram atacar Angband, naquela que seria conhecida como a Batalha das Lágrimas Inumeráveis. Antes de partir, Húrin estava cheio de esperança e confiante quanto ao resultado da batalha; no entanto, aconselhou Morwen a não esperar por ele, se a sorte da batalha não lhes fosse favorável: para partir para Sul, que ele depois encontra-la-ia.

Maedhros devia atacar Angband com uma grande força, atraindo dessa forma os exércitos de Morgoth; e depois Fingon avançaria dos desfiladeiros de Hithlum e assim pensavam apanhar o poder de Morgoth e fazê-lo em pedaços. O exército de Fingon estava bem oculto do inimigo, e à sua direita estava a hoste de Dor-lómin e toda a valentia de Húrin e Huor e também os homens de Brethil. E para surpresa de todos, Turgon, irmão de Fingon, abriu o cerco de Gondolin e vinha com um exército de dez mil; e uma grande alegria e esperança nasceu nos corações de todos. Mas Morgoth sabia tudo o que era feito e projetado pelos seus inimigos, pois secretamente mandara muitos homens, os Easterlings, comandados por Ulfang e os seus filhos, aliarem-se a Maedhros; e não só contavam tudo a Morgoth como enganavam Maedhros com falsas advertências.

Mas Morgoth era astuto, ele enganou os elfos levando-os a um ataque precipitado que terminou em desastre. Tudo parecia perdido, mas Húrin e os que restavam da casa de Hador mantinham-se firmes com Turgon de Gondolin, e as hostes de Morgoth ainda não podiam conquistar o desfiladeiro de Sirion. Mas Húrin voltou-se para Turgon, pedindo-lhe para abandonar a batalha, enquanto podia; porque enquanto Gondolin, o reino escondido, existisse, havia uma esperança. Turgon não queria partir e abandonar Húrin e Huor, mas Huor também pediu ao rei élfico para partir, pois previu, com os olhos na morte, que da casa de ambos viria a esperança de elfos e homens. Assim, Turgon reuniu todos quantos restavam da sua hoste e conseguiu escapar, com Húrin e Huor a protegerem a sua retirada no Pântano de Serech; ali ficariam até ao fim. De todos os feitos de guerra que os pais dos Homens desempenharam em benefício dos Elfos, a última resistência dos homens de Dor-lómin é o mais famoso.

Todas as hostes de Angband se lançaram contra eles e fizeram uma ponte no rio com os seus mortos. No final do 6º dia Huor caiu, atingido num olho por uma seta envenenada, e todos os valentes homens de Hador foram chacinados à sua volta. Por fim, Húrin encontrava-se sozinho, lançou fora o escudo e empunhou um machado; e canta-se que cada vez que o brandia, Húrin gritava: "Aurë entuluva!" - "O dia voltará a nascer!". Setenta vezes soltou esse grito, até que por fim conseguiram apanhá-lo vivo, pois era esse o desejo Morgoth. Morgoth desejava muito saber onde ficava Gondolin, o reino escondido de Turgon, que era agora o rei supremo de todos os Noldor. Por isso, Húrin foi levado á sua presença, depois de ter sido torturado, pois ele sabia que Húrin tinha a amizade do rei élfico e calculava que já tinha estado no reino escondido e queria saber por ele onde era; deu a escolher a Húrin o que mais desejava, se partir para onde quisesse ou receber poder e posição como o maior dos seus capitães, bastando para isso trair Turgon. Mas Húrin riu-se e zombou dele; e Morgoth, furioso, disse-lhe que a mulher e os filhos moravam agora no seu reino e estavam à sua mercê. Húrin respondeu-lhe que jamais chegaria a Turgon através deles, pois eles nada sabiam sobre o reino escondido.

Então a ira dominou Morgoth, que pegou numa espada e quebrou-a diante dos olhos de Húrin, e um estilhaço feriu-o no rosto. Morgoth estendeu o braço na direção de Dor-lómin e amaldiçoou Húrin e Morwen e os seus descendentes, dizendo que a sombra do seu pensamento se abateria sobre eles e o seu ódio persegui-los-ia até ao fim do mundo. Mas Húrin disse-lhe que ele não era o mais poderoso dos Valar, pois tinha desperdiçado e esgotado a sua força em si próprio e no seu vazio, que não era mais do que um escravo fugido dos Valar, cujas correntes ainda o esperavam, e chamou-o escravo Morgoth! Então Morgoth ficou mesmo furioso. Sentou-o numa cadeira de pedra no alto das Thangorodrim, donde ele podia ver a terra de Hithlum e de Beleriand, e ali ficou preso pelo poder de Morgoth,vendo e ouvindo pelos seus olhos, o mal e o desespero abaterem-se sobre aqueles que amava.

E assim aconteceu; Húrin esteve prisioneiro 28 anos, e viu e ouviu através do poder de Morgoth, todo o mal e desespero atingirem a sua família e o seu povo; mas nada diz que Húrin alguma vez pediu misericórdia. Aos Easterlings, os homens que traíram Maedhros, Morgoth deu Hithlum, para poderem saquear e perseguir o que restava do povo de Hador. Depois de os seus filhos se terem suicidado, desesperados, devido aos feitiços de Glaurung, pai dos dragões (que Túrin matou), Morgoth libertou Húrin, na esperança que ele aumentasse o ódio entre Homens e Elfos, pois tudo o que Húrin vira e ouvira estava deturpado com as mentiras de Morgoth. Húrin dirigiu-se para Hithlum, mas o seu próprio povo evitou-o, pois pensavam que se tinha tornado escravo de Morgoth. Isso encheu ainda mais de amargura o coração de Húrin. Então lembrou-se de Turgon e de Gondolin e desejou lá voltar. Dirigiu-se para as montanhas que circundavam o reino escondido, mas ele não conhecia a entrada, e olhou para o céu, na esperança de ver as águias, mas nada viu. Triste e desesperado, olhou na direção de Gondolin e gritou:

“- Turgon, lembra-te do Pântano de Serech! Ò Turgon, não ouves nos teus salões ocultos???”

Húrin desconhecia que as criaturas de Morgoth vigiavam todos os seus passos e assim ficaram a calcular a localização de Gondolin. Mas Thorondor viu Húrin, abandonado e triste, e foi imediatamente avisar Turgon. De início, o rei também pensou que Húrin se tinha rendido à vontade de Morgoth, mas depois de pensar demoradamente ficou perturbado, lembrando-se dos seus feitos, e mandou as águias procurá-lo e levá-lo, se pudessem, para Gondolin. Mas era tarde de mais e elas já não o viram.

Nessa noite, Húrin sonhou que Morwen, sua esposa, chamava por ele, e parecia que a sua voz vinha de Brethil. No dia seguinte dirigiu-se para lá, acabando no local onde Túrin tinha morto Glaurung. Havia aí uma pedra levantada em memória dos seus filhos e sentada junto à pedra estava Morwen, que, esgotada, morreu pouco depois, apertando a mão de Húrin. Então uma grande cólera obscureceu-lhe a razão e seguiu para Nargothrond, e lá encontrou Mîm, o pequeno Anão que tinha atraiçoado Túrin, e matou-o.E de todos os tesouros de Felagund, Húrin escolheu Nauglamír, o Colar dos Anões, e dirigiu-se para Doriath, onde foi recebido com amizade por Thingol.

Mas Húrin atirou o Nauglamír para os pés de Thingol, dizendo, com desdém, que aquela era a paga por ter cuidado bem da sua mulher e dos seus filhos. Thingol conteve a sua ira, pois estava cheio de piedade, e Melian fez ver a Húrin que tudo o que ele tinha visto e ouvido estava deturpado por Morgoth, e que a sua família tinha sido bem recebida em Doriath. E ali, em Menegroth, defendida pela Cerca de Melian da escuridão do inimigo, Húrin leu a verdade de tudo quanto fora feito e avaliou a extensão do sofrimento que lhe destinara Morgoth. Apanhou o Nauglamír e pediu a Thingol que o recebesse como uma dávida e em memória de Húrin de Dor-lómin.

Húrin partiu das Mil Cavernas e ninguém teve coragem para deter a sua partida, nem ninguém soube para onde ele ia. Mas diz-se que Húrin não quis viver depois disso e que por fim se lançou no mar ocidental; e assim terminou a história do maior dos guerreiros, Húrin, o Firme, que enfrentou Morgoth.

________________________________________

Copyright © 2002 Conselho dos Nove 9

Todos os direitos reservados

1
Hosted by www.Geocities.ws