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Por
um curioso acaso, numa manhã distante, na quietude do mundo,
quando havia menos barulho e mais verde, e quando os hobbits
eram ainda numerosos e prósperos, e Bilbo Bolseiro estava
parado à sua porta depois do desjejum, fumando um enorme
cachimbo de madeira que chegava quase até os lanudos dedos dos
seus pés (cuidadosamente escovados), Gandalf apareceu. Gandalf!
Se vocês tivessem ouvido apenas um quarto do que eu já ouvi a
respeito dele, e eu ouvi só um pouco de tudo o que existe para
ouvir, estariam preparados para qualquer tipo de história
surpreendente. Histórias e aventuras brotavam por todo lado,
onde quer que ele fosse, da maneira mais extraordinária. Ele não
passava por aquele caminho sob a Colina havia muito tempo; na
verdade, não passara por ali desde que seu amigo, o Velho Tûk,
morrera, e os hobbits quase se haviam esquecido de seu aspecto.
Estivera viajando, para além da Colina e do outro lado do Água,
cuidando de seus próprios negócios, desde que eles todos eram
meninos e meninas hobbits. Tudo o que Bilbo, sem suspeitar de
nada, viu naquela manhã foi um velho com um cajado. Usava um
chapéu azul, alto e pontudo, uma capa cinzenta comprida, um
cachecol prateado sobre o qual sua longa barba branca caía até
abaixo da cintura, e imensas botas pretas.
-
Bom dia! - disse Bilbo, sinceramente. O sol brilhava, e a grama
estava muito verde. Mas Gandalf lançou-lhe um olhar por baixo
de suas longas e espessas sobrancelhas, que se projetavam da
sombra da aba do chapéu.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou ele. - Está me
desejando um bom dia, ou quer dizer que o dia está bom, não
importa que eu queira ou não, ou quer dizer que você se sente
bem neste dia, ou que este é um dia para se estar bem?
-
Tudo isso de uma vez - disse Bilbo. - E uma manhã muito agradável
para fumar um cachimbo ao ar livre, além disso. Se você tiver
um cachimbo com você, sente-se e tome um pouco do meu fumo! Não
há pressa, temos o dia todo pela frente! - E então Bilbo se
sentou numa cadeira à sua porta, cruzou as pernas e soprou um
belo anel de fumaça cinzento que se ergueu no ar sem se
desmanchar e foi flutuando sobre a Colina.
- Muito bonito! - disse Gandalf. - Mas eu não tenho tempo para
soprar anéis de fumaça esta manhã. Estou procurando alguém
para participar de uma aventura que estou organizando, e está
muito difícil achar alguém.
-
Acho que sim, por estes lados! Nós somos gente simples e
acomodada, e eu não gosto de aventuras. São desagradáveis e
desconfortáveis! Fazem com que você se atrase para o jantar!
Não consigo imaginar o que as pessoas vêem nelas - disse o
nosso Sr. Bolseiro, colocando um polegar atrás dos suspensórios
e soprando outro anel de fumaça ainda maior. Depois pegou sua
correspondência matinal e começou a lê-la, fingindo não
prestar mais atenção ao velho. Havia decidido que não era do
tipo que o agradava e queria que ele fosse embora. Mas o velho
não se mexeu. Ficou parado, apoiando-se no seu cajado,
observando o hobbit sem dizer nada, até que Bilbo se sentiu
meio embaraçado, e até um pouco contrariado.
- Bom dia! - disse ele finalmente. - Nós não queremos
aventuras por aqui, obrigado! Você podia tentar além da
Colina ou do outro lado do Água. - Com isso quis dizer que a
conversa estava terminada.
-
Você usa Bom dia para um monte de coisas! - disse Gandalf. -
Agora está querendo dizer que quer se livrar de mim e que o
dia não ficará bom até que eu vá embora?
-De
jeito nenhum, de jeito nenhum, caro senhor! Deixe-me ver, acho
que não sei o seu nome.
- Sim, sim, meu caro senhor, e eu sei o seu, Sr. Bilbo Bolseiro.
E você sabe o meu nome, embora não se lembre de que ele se
refere a mim. Eu sou Gandalf, e Gandalf significa eu! E pensar
que eu viveria para escutar um "Bom dia" do filho de
Beladona Tûk como se fosse um simples mascate que bate de
porta em porta!
-
Gandalf, Gandalf! Puxa vida! Não o mago errante que deu ao
Velho Tûk um par de abotoaduras de diamante que se abotoavam e
nunca se soltavam até que fosse ordenado? Não o camarada que
costumava contar histórias maravilhosas nas festas, sobre dragões,
orcs e gigantes e sobre resgates de princesas e sobre a sorte
inesperada de filhos de viúvas? Não o homem que costumava
fazer fogos de artifício especialmente maravilhosos! Eu me
lembro deles! O Velho Tûk costumava soltá-los na véspera do
Solstício de Verão. Esplêndido! Eles subiam como grandes lírios
e bocas-de-leão e laburnos de fogo, ficavam no céu durante
todo o entardecer! - Vocês já devem ter notado que o Sr.
Bolseiro não era tão prosaico como queria acreditar que
fosse, e também que gostava muito de flores. - Ora, ora! -
continuou ele. - Não o Gandalf que foi responsável por tantos
moços e moças tranqüilos partirem em loucas aventuras?
Qualquer coisa, desde subir em árvores até visitar elfos, ou
navegar em navios, navegar para outras praias! Puxa! A vida
costumava ser muito interessan... quero dizer, você costumava
perturbar muito as coisas por estas bandas naquela época. Eu
peço desculpas, mas não imaginava que ainda estava na ativa.
-
Onde mais eu poderia estar? - disse o mago. - De qualquer
forma, estou satisfeito em saber que você se lembra de alguma
coisa a meu respeito. Parece que a lembrança dos meus fogos de
artifício, pelo menos, lhe é agradável, e isto já é alguma
coisa. Mas, em memória do seu velho avô Tûk e de sua mãe
Beladona, darei o que você me pediu.
- Peço desculpas, mas não pedi nada!
- Você pediu sim, duas vezes agora. Desculpas. Está
desculpado. Na verdade, vou muito além disso, vou mandá-lo
nessa aventura. Muito divertido para mim, muito bom para você...
e lucrativo também, muito provavelmente, se você conseguir
chegar até o fim.
- Sinto muito! Eu não quero aventuras, muito obrigado. Hoje não.
Bom dia! Mas, por favor, venha tomar chá, a qualquer hora que
quiser! Por que não amanhã? Venha amanhã! Até logo! - Com
isso o hobbit se virou e entrou por sua porta redonda e verde e
a fechou o mais rápido que era possível sem parecer rude.
Afinal de contas, magos são magos.
-
Por que raios eu o convidei para o chá!? - perguntou para si
mesmo, enquanto ia para a despensa. Tinha acabado de tomar o
desjejum, mas achou que um pedaço de bolo ou dois, e um gole
de alguma coisa, lhe fariam bem depois do susto.
Enquanto isso, Gandalf ainda estava parado do lado de fora da
porta, rindo muito, mas sem fazer ruído. Depois de uns
instantes ele se levantou, e com o cravo de seu cajado riscou
um sinal estranho na bela porta verde da toca do hobbit. Depois
foi embora, mais ou menos no momento em que Bilbo estava
terminando o seu segundo pedaço de bolo e começando a pensar
que se havia safado muito bem das aventuras. No dia seguinte,
quase havia esquecido Gandalf. Ele não se lembrava muito bem
das coisas, a não ser que as anotasse em sua Agenda de
Compromissos. Assim: Gandalf - Chá, Quarta-Feira. No dia
anterior tinha ficado muito agitado para fazer qualquer coisa
desse tipo. Um pouco antes da hora do chá, um tremendo toque
soou na campainha da porta da frente, e então ele se lembrou!
Apressou-se e colocou a chaleira no fogo, pôs na mesa outra xícara
e outro pires, um ou dois pedaços de bolo a mais, e correu
para a porta.
- Desculpe por fazê-lo esperar! - ia dizer, quando viu que não
era realmente Gandalf. Era um anão com uma barba azul enfiada
num cinto de ouro, e olhos muito brilhantes sob seu capuz verde
escuro. Assim que Bilbo abriu ele se enfiou porta adentro, como
se fosse esperado.
Pendurou a capa com capuz no cabide mais próximo e: - Dwalin,
às suas ordens! - disse ele, fazendo uma grande reverência.
- Bilbo Bolseiro às suas! - disse o hobbit, surpreso demais
para perguntar qualquer coisa no momento. Quando o silêncio
que se seguiu tornou-se incômodo, ele acrescentou: - Estava
quase na hora do meu chá; por favor, venha e sirva-se. -
Talvez ele tenha sido um pouco seco, mas suas intenções eram
gentis. E o que vocês fariam, se um anão aparecesse sem ser
convidado em sua casa, e pendurasse suas coisas no seu corredor
sem uma palavra de explicação?
Não fazia muito tempo que eles estavam à mesa, na verdade,
mal tinham chegado ao terceiro pedaço de bolo, quando veio um
toque ainda mais alto da campainha.
- Com licença - disse o hobbit, e foi até a porta.
- Então, finalmente você chegou! - Era o que ele ia dizer
para Gandalf desta vez. Mas não era Gandalf. Em vez dele, ali
estava na entrada um anão que parecia muito velho, com uma
barba branca e um capuz vermelho, que também pulou para dentro
assim que a porta foi aberta, como se tivesse sido convidado.
-
Vejo que já começaram a chegar - disse ele quando viu
pendurado o capuz verde de Dwalin. Pendurou o seu perto do
outro, e: - Balin, às suas ordens - disse, com a mão sobre o
peito.
- Obrigado! - disse Bilbo, ofegante. Não era a coisa certa
para dizer, mas o já começaram a chegar o agitara muito. Ele
gostava de visitas, mas gostava de conhecê-las antes que
chegassem, e preferia convidá-las por sua própria conta. Teve
um pensamento horrível de que o bolo poderia não ser
suficiente e então ele, como anfitrião, que sabia de sua
obrigação e se resignava a ela apesar do sofrimento, poderia
ter de ficar sem.
- Entre e tome um pouco de chá! - conseguiu dizer, depois de
respirar fundo.
- Um pouco de cerveja me cairia melhor, se não lhe fizer
diferença, meu bom senhor - disse Balin, agitando a barba
branca. - Mas eu não recuso um pouco de bolo... bolo de
sementes, se você tiver.
-
Um monte! - Bilbo se viu respondendo, para sua própria
surpresa; e se viu também correndo até a adega para encher
uma caneca de cerveja, e depois para a despensa para pegar dois
belos e redondos bolos de sementes que fizera aquela tarde para
petiscar depois do jantar.
Quando voltou, Balin e Dwalin estavam conversando à mesa como
velhos amigos (na verdade, eles eram irmãos). Bilbo arriou a
cerveja e o bolo com um baque na mesa diante deles, quando veio
um toque forte da campainha de novo, e depois outro toque.
"Gandalf,
com certeza, desta vez", pensou ele, enquanto arfava ao
longo do corredor. Mas não era. Eram mais dois anões, ambos
com capuzes azuis, cintos de prata e barbas amarelas; e cada um
deles carregava um saco de ferramentas e uma pá. Quando
saltaram para dentro, assim que a porta começou a se abrir,
Bilbo não ficou nem um pouco surpreso.
-
Dwalin e Balin já estão aqui, pelo que vejo - disse Kili. -
Vamos nos juntar à multidão!
"Multidão!", pensou o Sr. Bolseiro. "Isso não
soa bem. Realmente preciso me sentar um pouco e colocar a cabeça
no lugar, e tomar alguma coisa." Ele só tinha tomado um
gole - no canto, enquanto os quatro anões se sentavam em volta
da mesa, e conversavam sobre minas e ouro e problemas com os
orcs, e as depredações de dragões, e um monte de outras
coisas que ele não entendia, e não queria entender, porque
soavam aventureiras demais - quando dingue-lingue-dongue-longue,
sua campainha tocou novamente, como se algum menino-hobbit
travesso estivesse tentando arrancá-la fora.
-
Alguém está à porta! - disse ele, piscando.
- Pelo som, eu diria que uns quatro - disse Fili. - Além
disso, nós os vimos vindo atrás de nós ao longe.
O pobrezinho do hobbit sentou-se no corredor e colocou as mãos
na cabeça, querendo saber o que havia acontecido e o que iria
acontecer, e se eles todos iriam ficar para o jantar. Então a
campainha tocou outra vez, mais alto que nunca, e ele correu
para a porta. Não eram quatro no fim das contas, eram CINCO.
Um outro anão juntara-se aos quatro enquanto ele estivera
cismando no corredor. Mal havia girado a maçaneta e estavam
todos dentro, fazendo reverências e dizendo "às suas
ordens" um após o outro. Dori, Nori, Ori, Oin e Gloin
eram seus nomes; e logo dois capuzes roxos, um cinza, um marrom
e um branco estavam pendurados nos cabides, e eles marcharam
para a frente com suas mãos largas enfiadas em seus cintos de
ouro e prata para se juntarem aos demais. Aquilo já quase se
transformara numa multidão. Alguns pediram cerveja clara,
outros pediram cerveja escura, e um deles pediu café, e todos
pediram bolo, o que manteve o hobbit ocupado por um bom tempo.
Um
grande bule de café acabava de ser levado ao fogo, os bolos de
sementes tinham acabado, e os anões estavam começando uma
rodada de bolinhos amanteigados, quando veio uma batida forte.
Não um toque de campainha, mas um grande ratatá na bela porta
verde do hobbit. Alguém estava batendo com um cajado!
Bilbo correu pelo corredor, muito zangado e totalmente
desnorteado e desconcertado - era a mais estapafúrdia
quarta-feira de que ele se lembrava. Abriu a porta com um
solavanco e todos caíram para dentro, um em cima do outro.
Mais anões, mais quatro! E Gandalf estava atrás,
inclinando-se sobre seu cajado e rindo. Tinha feito um estrago
razoável na superfície da bela porta; a propósito, também
tinha feito desaparecer o sinal secreto que deixara nela na
manhã anterior.
-
Cuidado! Cuidado! - disse ele. - Não é do seu feitio, Bilbo,
deixar amigos esperando no capacho, e depois abrir a porta como
uma espingarda de pressão! Deixe-me apresentar Bifur, Bofur,
Bombur e, especialmente, Thorin!
- Às suas ordens! - disseram Bifur, Bofur e Bombur parados em
fila. Penduraram dois capuzes amarelos e um verde-claro, e também
um azul-celeste com uma longa borla prateada. Este último
pertencia a Thorin, um anão enormemente importante, na verdade
ninguém menos que Thorin Escudo de Carvalho em pessoa, que não
estava de modo algum satisfeito por ter caído sobre o capacho
de Bilbo como uma fruta madura, com Bifur, Bofur e Bombur em
cima dele. Para começo de conversa, Bombur era imensamente
gordo e pesado. Na verdade, Thorin era muito altivo, e não
disse nada sobre estar às ordens, mas o pobre Sr. Bolseiro
disse tantas vezes que sentia muito que finalmente ele
resmungou um "não tem problema" e parou de franzir a
testa.
-
Agora estamos todos aqui! - disse Gandalf, olhando para a
fileira de treze capuzes, capuzes de festa, removíveis, da
melhor qualidade, e seu próprio chapéu, pendurados nos
cabides. - Que reunião alegre! Espero que tenha sobrado alguma
coisa para os atrasados comerem e beberem! O que é isso? Chá!
Não, obrigado! Um pouco de vinho tinto para mim, eu acho.
- Para mim também - disse Thorin.
- E geléia de framboesa e torta de maçã - disse Bifur.
- E pastelão de carne com queijo - disse Bofur.
- E torta de carne de porco com salada - disse Bombur.
- E mais bolo, e cerveja clara, e café, se não se incomoda -
disseram os outros anões através da porta.
- Sirva também alguns ovos, meu bom rapaz! - disse Gandalf
para ele ouvir, enquanto o hobbit se esbaforia para as
despensas. - E traga também a salada de galinha com picles.
"Parece
que ele sabe tanto sobre o conteúdo das minhas despensas
quanto eu", pensou o Sr. Bolseiro, que estava se sentindo
positivamente aturdido e começava a se perguntar se a mais
infame das aventuras não tinha vindo parar exatamente dentro
de sua casa. Na hora em que tinha acabado de pegar todas as
garrafas e comidas e facas e garfos e copos e pratos e colheres
e coisas empilhadas em grandes bandejas, já estava ficando com
muito calor, e com o rosto vermelho, e zangado.
- Raios partam esses anões! - disse em voz alta. - Por que
eles não vêm dar uma ajuda? - Dito e feito! Lá estavam Balin
e Dwalin na porta da cozinha, e Fili e Kili atrás deles, e
antes que o hobbit pudesse dizer faca eles tinham arrebatado as
bandejas e um par de mesinhas para a sala e arrumado tudo de
novo.
Gandalf
sentou-se à cabeceira, com todos os anões em volta: e Bilbo
se sentou num banquinho ao lado do fogo, mordiscando um
biscoito (estava totalmente sem apetite) e tentando fingir que
tudo aquilo era perfeitamente normal e nada parecido com uma
aventura. Os anões foram comendo e comendo, e conversando e
conversando, e o tempo passou. Finalmente eles afastaram as
suas cadeiras, e Bilbo foi retirar os pratos e copos.
-
Imagino que vocês todos vão ficar para o jantar? - disse ele,
com sua voz mais educada e calma.
- É claro! - disse Thorin. - E até depois disso. Não devemos
terminar até muito tarde, e precisamos de um pouco de música
primeiro. Agora vamos limpar tudo!
Então os doze anões - não Thorin, ele era importante demais
e ficou conversando com Gandalf - puseram-se imediatamente de pé,
e fizeram grandes pilhas com todas as coisas. E foram, sem
esperar por bandejas, equilibrando colunas de pratos, cada uma
com uma garrafa no topo, em uma única mão, enquanto o hobbit
corria atrás deles quase gemendo de pavor: "Por favor,
tenham cuidado" e "por favor, não se incomodem, eu
posso cuidar disso!". Mas os anões apenas começaram a
cantar:
Copos
trincados e pratos partidos!
Facas cegas, colheres dobradas!
É isso que em Bilbo causa gemidos -
Garrafas em cacos e rolhas queimadas!
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Pise
em gordura, corte a toalha!
Sobre o tapete jogue os ossinhos!
O leite entornado no chão se coalha!
Em cada porta há manchas de vinho!
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Jogue
esta louça em água fervente;
Soque bastante com este bastão;
Se nada quebrar, por mais que se tente,
Faça rolar, rolar pelo chão!
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Isso
é o que Bilbo Bolseiro detesta!
Cuidado! Cuidado com os pratos da festa! |
E
é claro que eles não fizeram nenhuma dessas coisas terríveis,
e que tudo estava limpo e guardado a salvo com a rapidez de um
relâmpago, enquanto o hobbit ficava dando voltas e voltas na
cozinha tentando ver o que eles estavam fazendo. Depois
voltaram e encontraram Thorin com os pés sobre a guarda da
lareira, fumando um cachimbo. Estava soprando os maiores anéis
de fumaça, e onde quer que ordenasse que os anéis fossem,
eles iam - para cima da chaminé, para baixo da mesa, ou dando
voltas no forro; mas onde quer que um anel fosse, não era rápido
o suficiente para escapar de Gandalf. Pop! Ele enviava um anel
de fumaça menor do seu pequeno cachimbo de barro direto no
meio de cada um dos anéis de Thorin. Então o anel de fumaça
de Gandalf ficava verde e voltava para flutuar sobre a cabeça
do mago. Já havia uma nuvem deles sobre a sua cabeça, e na
luz fraca aquilo o deixava estranho e misterioso. Bilbo estava
quieto, olhando - adorava anéis de fumaça -, e então ficou
vermelho ao pensar em como se orgulhara dos anéis de fumaça
que tinha soprado no vento sobre a Colina.
-
Agora, um pouco de música! - disse Thorin. - Tragam os
instrumentos!
Kili e Fili correram até seus sacos e trouxeram pequenas
rabecas; Dori, Nori e Ori tiraram flautas de algum lugar em
seus casacos; Bombur trouxe um tambor do corredor; Bifur e
Bofur saíram também, e voltaram com clarinetas que haviam
deixado entre as bengalas. Dwalin e Balin disseram: "Com
licença, deixei a minha na varanda!". "Traga a minha
também!", disse Thorin. Voltaram com violas tão grandes
como eles próprios e com a harpa de Thorin embrulhada num pano
verde. Era uma bonita harpa dourada, e quando Thorin a dedilhou
a música irrompeu imediatamente, tão repentina e doce que
Bilbo esqueceu todo o resto, e foi levado para terras escuras
sob luas estranhas, lugares distantes do Água e muito
distantes de sua toca de hobbit sob a Colina.
A escuridão entrava na sala pela pequena janela que se abria
na encosta da Colina; a luz do fogo tremia - era abril - e,
ainda assim, continuavam tocando, enquanto a sombra da barba de
Gandalf se agitava contra a parede.
A escuridão encheu toda a sala, o fogo se extinguiu, as
sombras se perderam e, ainda assim, continuaram tocando. E, de
repente, primeiro um, e depois outro, começaram a cantar
enquanto tocavam, o canto grave dos anões das profundezas de
seus antigos lares; e este é como um fragmento de sua canção,
se é que pode ser como uma de suas canções sem a sua música.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços cravados,
Devemos partir antes de o sol surgir,
Em busca do pálido ouro encantado. |
Operavam
encantos anões de outrora,
Ao som de martelo qual sino a soar
Na profundeza onde dorme a incerteza,
Em antros vazios sob penhascos do mar.
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Para
o antigo rei e seu elfo senhor
Criaram tesouros de grã nomeada;
As pedras plasmaram, a luz captaram
Prendendo-a nas gemas do punho da espada.
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Em
colares de prata eles juntaram
Estrelas floridas; fizeram coroas
De fogo-dragão e no mesmo cordão
Fundiram a luz do sol e da lua.
|
Para
além das montanhas nebulosas, frias, Adentrando cavernas,
calabouços perdidos,
Devemos partir antes de o sol surgir. Buscando tesouros há
muito esquecidos.
|
Para
seu uso taças foram talhadas
E harpas de ouro. Onde ninguém mora jazeram perdidas e suas
cantigas.Por homens e elfos não foram ouvidas. |
Zumbiram
pinheiros sobre a montanha,
Uivaram os ventos em noites azuis.
O fogo vermelho queimava parelho,
As árvores-tochas em fachos de luz.
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Tocaram
os sinos chovendo no vale,
Erguiam-se pálidos rostos ansiosos;
Irado o dragão feroz se insurgira
Arrasando casas e torres formosas. |
Sob
a luz da lua fumavam montanhas;
Os anões ouviram a marcha final.
Fugiram do abrigo achando o inimigo
E sob seus pés a morte ao luar. |
Para
além das montanhas nebulosas, frias, Adentrando cavernas,
calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,Buscando tesouros há
muito esquecidos. |
Enquanto
eles cantavam, o hobbit sentiu agitar-se dentro de si o amor
por coisas belas feitas por mãos, com habilidade e com mágica,
um amor feroz e ciumento, o desejo dos corações dos anões.
Então alguma coisa dos Tûk despertou no seu íntimo, e ele
desejou ir ver as grandes montanhas, e ouvir os pinheiros e as
cachoeiras, explorar as cavernas e usar uma espada ao invés de
uma bengala. Olhou pela janela. As estrelas apareciam num céu
escuro sobre as árvores. Pensou nas jóias dos anões
brilhando em cavernas escuras. De repente, na floresta além do
Água uma chama surgiu - provavelmente alguém acendendo uma
fogueira - e ele pensou em dragões saqueadores alojando-se em
sua calma Colina e transformando-a toda em chamas. Sentiu um
tremor e muito rapidamente voltou a ser o Sr. Bolseiro de Bolsão,
Sob-a-Colina, novamente.
Levantou-se tremendo. Estava muito pouco disposto a ir buscar
uma lamparina, e muito disposto a fingir que ia fazê-lo e se
esconder atrás dos barris de cerveja na adega e não sair mais
de lá até que todos os anões tivessem ido embora. De repente
descobriu que toda a música e cantoria haviam parado, e todos
estavam olhando para ele com olhos que brilhavam no escuro.
-
Aonde você vai? - perguntou Thorin, num tom de quem parecia
estar adivinhando tudo sobre as disposições do hobbit.
- Que tal um pouco de luz? - disse Bilbo, como que pedindo
desculpas.
- Nós gostamos do escuro - disseram todos os anões. - Escuro
para negócios escusos! Ainda há muitas horas antes da
alvorada.
- Claro! - disse Bilbo, sentando-se apressadamente. Não
acertou o banquinho e acabou se sentando na guarda da lareira,
derrubando o atiçador e a pá com muito barulho.
-
Silêncio! - disse Gandalf. - Deixem Thorin falar! - E foi
assim que Thorin começou.
- Gandalf, anões e Sr. Bolseiro! Estamos reunidos na residência
de nosso amigo e companheiro de conspiração, este mui
excelente e audacioso hobbit. Que o pêlo de seus pés jamais
caia! Todos os elogios ao seu vinho e à sua cerveja! - Parou
para tomar fôlego e receber um polido comentário do hobbit,
mas os elogios haviam sido desperdiçados com o pobre Bilbo
Bolseiro, que estava fazendo muxoxos de protesto por estar
sendo chamado de audacioso e, pior de tudo, companheiro de
conspiração, embora não conseguisse emitir nenhum som, de tão
desconcertado que estava. E Thorin continuou:
- Estamos reunidos para discutir nossos planos, caminhos,
meios, política e estratégias. Deveremos, brevemente, antes
do nascer do dia, iniciar uma longa viagem, uma viagem da qual
alguns de nós, ou todos nós (com a exceção de nosso amigo e
conselheiro, o engenhoso mago Gandalf), talvez nunca voltemos.
Este é um momento solene. Nosso objetivo é, pelo que entendo,
bem conhecido por todos. Para o estimável Sr. Bolseiro, e
talvez para um ou dois dos anões mais jovens (acho que estou
certo em citar Kili e Fili, por exemplo), a situação exata no
momento parece exigir uma pequena e breve explicação...
Este era o estilo de Thorin. Ele era um anão importante. Se
lhe fosse permitido, provavelmente continuaria assim até que
estivesse sem fôlego, sem dizer a ninguém coisa alguma que
ainda não fosse conhecida. Mas ele foi rudemente interrompido.
O pobre Bilbo não podia suportar mais. Ao ouvir talvez nunca
voltemos, começou a sentir um grito agudo vindo de seu
interior, que logo irrompeu como o apito de uma locomotiva
saindo de um túnel. Todos os anões pularam, derrubando a
mesa. Gandalf acendeu uma luz azul na ponta de seu cajado mágico,
e nesse brilho de fogo de artifício podia-se ver o pobre
hobbit ajoelhado sobre o tapete da lareira, tremendo como
gelatina derretendo. Então caiu duro no chão, e ficou
gritando "atingido por um raio, atingido por um
raio!" repetidas vezes; e isso foi tudo que conseguiram
arrancar dele por um longo tempo. Então os anões o pegaram e
o tiraram do caminho, levando-o para o sofá da sala de visitas
e deixando uma bebida perto dele, e voltaram para seus negócios
escusos.
-
Sujeitinho impressionável - disse Gandalf, enquanto eles se
sentavam. - Tem uns acessos estranhos, mas é um dos melhores,
um dos melhores. Feroz como um dragão num aperto.
Se vocês alguma vez na vida já viram um dragão num aperto,
irão perceber que essa comparação só podia ser uma licença
poética quando aplicada a qualquer hobbit, mesmo no caso do
tio-bisavô do Velho Tûk, Urratouro, que era tão grande (para
um hobbit) que conseguia montar um cavalo. Ele atacou os pelotões
dos orcs de Monte Gram, na Batalha dos Campos Verdes, e
arrancou a cabeça de seu rei Golfimbul com um taco de madeira.
A cabeça voou pelos ares cerca de cem jardas e caiu numa toca
de coelho, e dessa maneira a batalha foi vencida e ao mesmo
tempo foi inventado o jogo de golfe.
Enquanto
isso, entretanto, o descendente mais pacífico de Urratouro
estava voltando à vida na sala de visitas. Depois de um
momento e de uma bebida, arrastou-se nervosamente até a porta
da sala. Isto foi o que ouviu, Gloin falando: - "Hunf!"
- ou algum resmungo mais ou menos assim. - Você acha que ele
serve? Para Gandalf está tudo bem ficar falando da ferocidade
desse hobbit, mas um acesso desses numa hora de agitação
seria o suficiente para acordar o dragão e todos os seus
parentes, e matar a todos nós. Eu acho que o acesso pareceu
mais de medo do que de agitação! Na verdade, se não fosse
pelo sinal na porta, eu teria a certeza de que tinha chegado na
casa errada. Assim que bati os olhos nesse sujeitinho bufando e
esperneando no tapete, eu tive minhas dúvidas. Ele parece mais
um dono de armazém que um ladrão!
Então
o Sr. Bolseiro girou a maçaneta e entrou. O lado Tûk havia
vencido. De repente sentiu que poderia ficar sem comida ou
descanso só para ser considerado feroz. Quanto a sujeitinho
bufando e esperneando no tapete, isso quase o fez ficar
realmente feroz. Muitas vezes no futuro a sua parte Bolseiro
iria se arrepender do que estava fazendo agora e ele diria a si
mesmo: "Bilbo, você foi um bobo; você caiu na armadilha
e meteu os pés pelas mãos."
-
Desculpem - disse ele - se, por acaso, ouvi o que vocês
estavam dizendo. Não vou fingir que estou entendendo o que
disseram, ou a referência que fizeram a ladrões, mas acho que
estou certo em acreditar - isto é o que ele chamava
"defender sua dignidade" - que acham que eu não
sirvo. Eu vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta,
que foi pintada há uma semana, e tenho certeza de que vocês
vieram bater na casa errada. Assim que vi suas caras esquisitas
na porta, tive minhas dúvidas. Mas façam de conta que esta é
a casa certa. Digam-me o que vocês querem que seja feito e vou
tentar fazê-lo, mesmo que eu tenha de andar daqui até o leste
do leste e lutar contra os Homens-dragões selvagens no Último
Deserto. Eu tive um tio-tetravô, Urratouro Tûk, que...
- É, sim, mas isso foi há muito tempo - disse Gloin. - Eu
estava falando de você. E garanto que existe um sinal em sua
porta... O sinal comum que usamos nesse negócio, ou costumava
ser assim. Ladrão procura por um bom emprego, com grandes Emoções
e uma boa Recompensa, geralmente é assim que se anuncia. Você
pode dizer Especialista em Caçadas de Tesouro em vez de ladrão,
se quiser. Alguns deles preferem. Para nós é a mesma coisa.
Gandalf nos disse que havia um homem do tipo nestas redondezas
procurando um emprego urgente, e que ele tinha acertado um
encontro aqui nesta quarta-feira, na hora do chá.
-
É claro que há um sinal - disse Gandalf. - Eu mesmo o
coloquei. Por razões muito boas. Vocês me pediram para
encontrar o décimo quarto homem para a sua expedição, e eu
escolhi o Sr. Bolseiro. Se alguém disser que escolhi o homem
errado, ou a casa errada, podem ficar em treze e com todo o
azar que quiserem, ou então vão voltar à extração de carvão.
Ele franziu o cenho para Gloin com tanta raiva que o anão
afundou na cadeira; e quando Bilbo tentou abrir a boca para
fazer uma pergunta, ele se virou e franziu-lhe a testa
levantando as sobrancelhas espessas, e Bilbo fechou a boca
imediatamente. - Assim está bem - disse Gandalf. - Não vamos
mais discutir. Eu escolhi o Sr. Bolseiro e isto deve ser o
suficiente para todos vocês. Se eu digo que ele é um ladrão,
isso é o que ele é, ou será quando chegar a hora. Existe
muito mais nele do que vocês podem imaginar, e muito mais do
que ele mesmo possa ter idéia. Vocês vão (possivelmente)
viver para me agradecer um dia. Agora, Bilbo, meu rapaz, traga
a lamparina e vamos iluminar um pouco isto aqui.Sobre a mesa,
à luz de uma grande lamparina com um quebra-luz vermelho, ele
desenrolou um pergaminho muito parecido com um mapa.
-
Isto foi feito por Thror, seu avô, Thorin - disse ele em
resposta às perguntas excitadas dos anões. - É um mapa da
Montanha.
- Acho que isso não vai ajudar muito - disse Thorin,
desapontado, depois de dar uma olhada. - Eu me lembro muito bem
da Montanha e das terras em volta dela. E eu sei onde fica a
Floresta das Trevas, e também o Urzal Seco, onde os grandes
dragões se reproduziam.
- Há um dragão marcado em vermelho na Montanha - disse Balin
-, mas vai ser fácil encontrá-lo sem isso aí, se é que
vamos conseguir chegar lá.
-
Existe um ponto que vocês não notaram - disse o mago -, e é
a entrada secreta. Estão vendo a runa no lado oeste, e a mão
apontando para ela saindo das outras runas? Isso marca uma
passagem secreta para os Salões Inferiores. (Olhem o mapa no
início deste livro e lá verão as runas em vermelho.)
- Pode ter sido secreta uma vez - disse Thorin -, mas como
podemos saber se ainda é secreta? O Velho Smaug viveu lá
tempo suficiente para descobrir qualquer coisa que se possa
conhecer sobre essas cavernas.
- Pode ser, mas ele não tem podido usá-la por muitos e muitos
anos.
- Por quê?
-
Porque a passagem é muito pequena. "Cinco pés de altura
a porta, e três podem passar lado a lado", dizem as runas,
mas Smaug não passaria por um buraco desse tamanho nem mesmo
quando era um dragão jovem, e certamente não depois de ter
devorado tantos anões e homens de Valle.
- Para mim parece um buraco bem grande - exclamou Bilbo (que não
tinha nenhuma experiência com dragões, mas apenas com tocas
de hobbits). Estava ficando entusiasmado e interessado de novo,
tanto que se esqueceu de manter a boca fechada. Adorava mapas,
e em seu corredor estava pendurado um bem grande da Região
Circunvizinha com todas as suas caminhadas favoritas marcadas
com tinta vermelha. - Como poderia uma porta tão grande ser
mantida em segredo para todas as pessoas de fora, com exceção
do dragão? - perguntou. Ele era apenas um pequeno hobbit, vocês
devem se lembrar.
-
De muitas maneiras - disse Gandalf. - Mas de que maneira esta
porta foi escondida nós não saberemos sem ir lá verificar.
Pelo que diz o mapa, posso adivinhar que existe uma porta
fechada, que foi feita de modo a se parecer exatamente com a
encosta da Montanha. Esse é geralmente o método dos anões...
Acho que é isso, não é?
-
Certo - disse Thorin.
- E também - continuou Gandalf - esqueci de mencionar que com
o mapa havia uma chave, uma chave pequena e curiosa. Aqui está
ela! - disse ele, entregando a Thorin uma chave com uma haste
longa e dentes intricados, feita de prata. - Guarde-a em lugar
seguro!
- Vou fazer isso - disse Thorin, e colocou a chave numa
corrente fina que pendia de seu pescoço, sob o casaco. - Agora
as chances parecem maiores. Essa notícia melhora muito as
coisas. Até agora não tínhamos uma idéia clara do que
fazer. Estávamos pensando em ir para o leste, com o maior
cuidado e silêncio possível, até o Lago Comprido. Depois
disso o problema iria começar...
-
Muito antes disso, se é que sei alguma coisa sobre as estradas
que levam para o leste - interrompeu Gandalf.
- Nós poderíamos sair daqui, subindo ao longo do Rio Corrente
- continuou Thorin, sem prestar atenção -, e assim até as ruínas
de Valle, a velha cidade naquele vale, sob a sombra da
Montanha. Mas nenhum de nós gostou da idéia do Portão
Dianteiro. O rio vem exatamente de dentro dele através do
penhasco ao sul da Montanha, e por ali também sai o dragão;
muito freqüentemente, a não ser que tenha mudado seus hábitos.
- Isso não adiantaria nada - disse o mago -, não sem um
Guerreiro valente, até um Herói. Eu tentei achar um, mas os
guerreiros estão ocupados lutando uns contra os outros em
terras distantes, e por estes lados os heróis são raros, ou
simplesmente impossíveis de encontrar. As espadas nestas
partes estão em sua maioria cegas, os machados são usados
para árvores, e os escudos como berços ou tampas de pratos; e
os dragões estão confortavelmente distantes (e por isso são
lendários). É por isso que optei pelo roubo, especialmente
quando me lembrei da existência de uma porta lateral. E aqui
está o nosso pequeno Bilbo Bolseiro, o ladrão, o escolhido e
eleito ladrão. Então vamos continuar e fazer alguns planos.
-
Então, muito bem - disse Thorin -, se o ladrão perito nos der
algumas idéias e sugestões. - Virou-se para Bilbo, numa
gentileza fingida.
- Primeiramente eu queria saber um pouco mais a respeito das
coisas - disse este, sentindo-se todo confuso e um pouco
amedrontado, mas, até o momento, determinado como um Tûk a ir
adiante. - Quero dizer, sobre o ouro e o dragão, e tudo o
mais, e como ele chegou até lá, e a quem ele pertence, e todo
o resto.
- Por minhas barbas! - disse Thorin - Você não viu o mapa? E
não ouviu nossa música? E não estamos falando de tudo isso há
horas?
-
Mesmo assim, gostaria de tudo bem explicadinho - disse ele
obstinadamente, adotando sua atitude de negócios (geralmente
reservada para pessoas que tentavam tomar dinheiro emprestado
dele), e fazendo de tudo para parecer sábio e prudente e
profissional e à altura das recomendações de Gandalf. - Eu
também gostaria de saber sobre os riscos, despesas extras, o
tempo necessário e a remuneração, e tudo o mais. - Com isso
ele queria dizer: "O que vou ganhar com isso?" e
"Vou voltar vivo?"
- Muito bem - disse Thorin. - Há muito tempo, na época de meu
avô Thror, nossa família foi expulsa do extremo norte, e
voltou com toda sua riqueza e ferramentas para a Montanha deste
mapa. Ela fora descoberta pelo meu ancestral distante, Thrain,
o Velho, mas na época de Thror eles exploraram minas e fizeram
salões maiores e oficinas maiores também, e, além disso,
acho que encontraram uma grande quantidade de ouro, além de
muitas jóias. De qualquer modo, ficaram imensamente ricos e
famosos, e meu avô tornou-se Rei sob a Montanha novamente, e
era tratado com grande reverência pelos homens mortais, que
viviam no sul, e estavam se espalhando gradualmente ao longo do
Rio Corrente até o vale que fica à sombra da Montanha.
Naqueles dias, eles construíram a alegre cidade de Valle. Reis
costumavam mandar buscar nossos artífices, e recompensavam
muito bem até os menos habilidosos. Pais nos imploravam para
aceitar seus filhos como aprendizes, e nos pagavam regiamente,
sobretudo com suprimentos de comida, que nunca nos preocupávamos
em procurar ou cultivar para nosso uso. Esses foram dias
felizes, e os mais pobres de nós tinham dinheiro para gastar e
emprestar, e tempo para fazer coisas bonitas por puro prazer,
sem falar dos brinquedos mais mágicos e maravilhosos, do tipo
que não se encontra em lugar algum no mundo hoje em dia. Desse
modo, os salões de meu avô ficaram cheios de armaduras e jóias,
de esculturas e taças, e o mercado de brinquedos de Valle era
a maravilha do norte.
-
Sem dúvida, foi isso que trouxe o dragão. Dragões roubam jóias
e ouro, você sabe, dos homens, dos elfos e dos anões, onde
quer que possam encontrá-los; e guardam o que roubaram durante
toda a sua vida (o que é praticamente para sempre, a não ser
que sejam mortos), e nunca usufruem sequer um anel de latão.
Na verdade, eles mal sabem distinguir um trabalho bem feito de
um trabalho ruim, embora tenham uma boa noção do valor de
mercado corrente; e não conseguem fazer nada por si mesmos,
nem sequer remendar uma escama solta de suas armaduras. Havia
muitos dragões no norte naquela época, e o ouro estava
provavelmente se tornando raro por lá, com os anões indo para
o sul ou sendo mortos, e com todo o tipo de ermo e destruição
geral que os dragões provocam, indo de mal a pior. Havia um
dragão especialmente ganancioso, forte e mau, chamado Smaug.
Um dia ele alçou vôo e veio para o sul. O primeiro sinal dele
que ouvimos foi um barulho como um furacão vindo do norte, e
os pinheiros das montanhas chiando e estalando com o vento.
Alguns dos anões por acaso estavam do lado de fora (por sorte
eu era um deles, um bom rapaz aventureiro, naqueles dias,
sempre andando por aí, e isso salvou minha vida naquele dia)
quando, de uma boa distância, vimos o dragão pousar na
montanha num jato de fogo. Então ele desceu as encostas e,
quando atingiu a floresta, ela se incendiou inteira. Naquele
momento todos os sinos estavam repicando em Valle e os
guerreiros estavam se armando. Os anões correram para fora
pelo seu grande portão, mas lá estava o dragão à espera
deles. Nenhum escapou por ali. O rio se ergueu em vapor e um
nevoeiro cobriu Valle, e no nevoeiro o dragão avançou sobre
eles e destruiu a maioria dos guerreiros; a triste história de
sempre, isso era muito comum naquela época. Depois voltou e se
arrastou através do Portão Dianteiro e saqueou todos os salões
e alamedas, e túneis, becos, adegas, mansões e corredores.
Depois disso, não restaram anões vivos no lado de dentro, e
ele pegou toda a riqueza deles para si. Provavelmente, pois
esse é o jeito dos dragões, empilhou tudo num grande monte
bem no interior da montanha, e dorme sobre ela como se fosse
uma cama. Depois, passou a se arrastar para fora do portão
grande e vir à noite até Valle, e levar embora pessoas,
principalmente donzelas, para devorar, até que Valle ficou
arruinada, e todas as pessoas partiram ou morreram. O que
acontece lá agora não sei com certeza, mas não acho que hoje
em dia alguém viva em algum lugar mais próximo da Montanha do
que a extremidade do Lago Comprido.
-
Os poucos de nós que estavam do lado de fora e bem afastados
sentaram-se e choraram escondidos, e amaldiçoaram Smaug; e ali
juntaram-se a nós inesperadamente meu pai e meu avô, com as
barbas chamuscadas. Eles pareciam muito soturnos, mas não
disseram quase nada. Quando perguntei como tinham conseguido
sair, disseram-me para fechar a boca e que no momento certo eu
saberia. Depois disso fomos embora, e tivemos de aprender a
ganhar nossas vidas da melhor maneira possível por esse mundo
afora, muitas vezes tendo de nos rebaixar e fazer o trabalho de
ferreiros e até de mineiros de carvão. Mas nunca nos
esquecemos de nosso tesouro roubado. E, mesmo agora, quando
admito que temos algumas reservas e não estamos tão pobres -
nesse momento Thorin passou a mão sobre a corrente de ouro em
seu pescoço -, nós ainda queremos o tesouro de volta, e fazer
com que nossas maldições caiam sobre Smaug, se pudermos.
-
Eu sempre me perguntei sobre a fuga de meu pai e meu avô. Vejo
agora que deviam ter uma porta lateral particular que apenas
eles conheciam. Mas, ao que parece, fizeram um mapa, e eu
gostaria de saber como Gandalf se apoderou dele, e por que não
chegou às minhas mãos, às mãos do herdeiro por direito.
-
Eu não "me apoderei dele", o mapa me foi dado -
disse o mago. - Seu avô Thror foi morto, você se lembra, nas
minas de Moria por Azog, o Orc.
- Sim, maldito seja esse nome - disse Thorin.
-
E seu pai Thrain foi-se embora no dia 21 de abril, fez cem anos
na última quinta-feira, e nunca mais foi visto desde então.
- É verdade, é verdade - disse Thorin.
- Bem, o seu pai me entregou isto para que o desse a você; e
se eu escolhi minha própria hora e meu próprio jeito de
entregá-lo, você não pode me culpar, considerando a
dificuldade que tive em encontrá-lo. Seu pai não conseguia se
lembrar do próprio nome quando me deu o papel, e nunca me
disse o seu; então, afinal, acho que devem me elogiar e
agradecer! Aqui está - disse ele, entregando o mapa a Thorin.
-
Não entendo - disse Thorin, e Bilbo sentiu que gostaria de ter
dito o mesmo. A explicação não parecia explicar.
- Seu avô - disse o mago austera e lentamente - deu o mapa a
seu filho por segurança antes de partir para as minas de Moria.
Seu pai foi embora para tentar a sorte com o mapa depois que
seu avô foi morto, e teve muitas aventuras da pior espécie,
mas nunca conseguiu se aproximar da Montanha. Como ele chegou
até lá eu não sei, mas encontrei-o aprisionado nas masmorras
do Necromante.
- O que você estava fazendo lá? - perguntou Thorin, com um
arrepio, e todos os anões tremeram.
- Isso não importa para você. Eu estava descobrindo coisas,
como sempre, e era um negócio perigoso e desagradável. Mesmo
eu, Gandalf, escapei por pouco. Tentei salvar o seu pai, mas
era tarde demais. Ele estava fora de si e tinha se esquecido de
quase tudo, a não ser do mapa e da chave.
- Nós nos vingamos há muito tempo dos orcs de Moria - disse
Thorin. - Agora devemos pensar no Necromante.
-
Não seja maluco! Ele é um inimigo acima dos poderes de todos
os anões juntos, se eles pudessem ser reunidos de novo dos
quatro cantos do mundo. A única coisa que seu pai queria é
que o filho dele lesse o mapa e usasse a chave. O dragão e a
Montanha são tarefas mais que grandes para você.
- Escutem, escutem! - falou Bilbo, e acidentalmente falou alto.
- Escutar o quê? - todos disseram, virando-se de repente para
ele, que ficou tão atrapalhado que respondeu: - Escutem o que
eu tenho a dizer!
- O que é? - perguntaram eles.
- Bem, gostaria de dizer que vocês devem ir para o leste e dar
uma olhada no lugar. Afinal de contas, existe uma Porta
Lateral, e os dragões devem dormir de vez em quando, creio eu.
Se vocês ficarem sentados à porta tempo suficiente, acho que
vão pensar em alguma coisa. E, bem, eu não sei, acho que
conversamos muito para uma só noite, se vocês entendem o que
quero dizer. Que tal dormir, e acordar cedo, e tudo o mais? Vou
lhes oferecer um bom desjejum antes de partirem.
- Antes de partirmos, é o que você quer dizer, se não me
engano - disse Thorin. - Você não é o ladrão? E sentar-se
à porta não é o seu serviço, sem falar em entrar pela
porta? Mas concordo sobre a cama e o desjejum. Eu gosto de seis
ovos com presunto, quando vou começar uma viagem: fritos, não
cozidos na água, e espero que você não rompa as gemas.
Depois que todos os outros fizeram seus pedidos sem nem um
"por favor" (o que deixou Bilbo muito irritado), eles
se levantaram. O hobbit teve de arrumar lugar para todos, e
encheu todos os seus quartos de hóspedes, e improvisou camas
em cadeiras e sofás antes de conseguir instalar todos eles e
ir para sua caminha muito cansado e não muito feliz. Uma coisa
que decidiu foi não acordar muito cedo para preparar o maldito
desjejum de todos os outros. A Tûkidade estava desaparecendo,
e ele agora não tinha muita certeza de que partiria em alguma
viagem pela manhã. Deitado em sua cama, podia ouvir Thorin
ainda cantando baixinho no melhor quarto, ao lado do dele.
Para
além das montanhas nebulosas, frias,
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sol surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Bilbo
caiu no sono com aquilo em seus ouvidos, o que lhe proporcionou
sonhos muito desagradáveis. Já passava muito do nascer do dia
quando acordou.
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