Khuzdul 

No segundo capítulo do Silmarillion ficamos sabendo que, tão logo Aulë fez os Sete Pais dos Anões, ele “começou a instruir os anões na língua que concebeu para eles”. O seu nome na própria língua era Khuzdul, que é simplesmente “dos Anões” (Dwarvish, de Dwarves, anões), pois os anões chamam a si próprios Khazâd (o singular poderia ser Khuzd). Lemos que “de acordo com suas lendas, seu criador, Aulë o Vala, fez esta língua para eles e a ensinou aos Sete Pais dos Anões antes que tivessem sido colocados a dormir, até que a hora do seu despertar chegasse. Após acordarem, esta língua (assim como todas as línguas e todas as coisas em Arda) modificou-se com o tempo, e divergiu nas suas diversas casas, que eram muito separadas. Mas a mudança era tão lenta e a divergência tão pequena que, mesmo na Terceira Era, a conversa entre todos os anões em sua própria língua era fácil. É dito que as mudanças no khuzdul quando comparadas com as da língua dos elfos, e ainda mais com as das dos homens, era “como a erosão de duras rochas comparada ao derretimento da neve”. Também Pengolodh comentou sobre “a tradição que tinham... de que Aulë concebeu para eles sua língua no seu início, e portanto as modificações foram pequenas”. Em contraste, a linguagem gestual que os anões conceberam para eles mesmos, chamada iglishmêk, foi muito mais mutável.

Mas, apesar de ser bem preservada, o khuzdul era raramente aprendido por outros que não os próprios anões. Lendas antigas tinham que, em Valinor, Aulë apresentou a Fëanor a língua que tinha feito para os anões, mas Tolkien notou que isso não era necessariamente verdadeiro; talvez fosse apenas uma história, devida à fama de Fëanor (VT 39:10). Na Terra-média, os elfos não tinham particular interesse na língua dos anões, e não a tinham em alta consideração, de qualquer maneira: “Não conseguiam, porém, entender nenhuma palavra da língua dos naugrim [anões], que a seus ouvidos era pesada e sem beleza. E poucos foram os Eldar que chegaram a dominá-la” (Silmarillion, cap. 10). O próprio Tolkien estabeleceu como fato que “a língua dos anões era tanto complicada quanto cacofônica. Mesmo os filólogos élficos antigos a evitaram” (Letters, 31). Mas, mesmo que alguém realmente quisesse aprender o khuzdul, os próprios anões eram relutantes em ensiná-lo. Sua língua era “um segredo que eles não revelavam voluntariamente, nem aos amigos” (SdA, Apêndice F). Uma teoria é que eles sentiam que o khuzdul pertencia exclusivamente à sua própria raça, e que ninguém mais tinha o direito de entendê-la. Quando queriam comunicar-se com outras raças, usualmente para comércio, eles preferiam aprender a língua dos outros, ao invés de ensinar a eles o khuzdul – mesmo se a outra parte estivesse disposta a aprender. Apenas duas ou três vezes, em todas as longas eras da Terra-média, os anões se dispuseram a ensinar sua língua a pessoas de raças estranhas.

Na Primeira Era, quando a Casa de Hador chegou a Beleriand do leste, e encontraram os Barbas Longas (longbeards), uma amizade especial nasceu entre as duas raças, porque os homens, sendo cavaleiros habilidosos, podiam oferecer aos anões alguma proteção contra os orcs. Então, os anões realmente “não se mostraram adversos a ensinar sua própria língua aos homens aos quais tinham uma amizade especial, mas os homens acharam-na difícil e eram lentos em aprender mais do que palavras isoladas, muitas das quais foram adaptadas e tomadas para sua própria língua.” (PM:303. Apesar disso, parece que o khuzdul influenciou mesmo a estrutura do adûnaico, descendente da língua dos primeiros Edain.) O interesse élfico pelo khuzdul foi pequeno na Primeira Era, mas houve uma exceção: “Curufin era muito interessado na estranha linguagem dos anões, sendo o único dos noldor que ganhou sua amizade. Foi dele que os mestres da tradição obtiveram o pouco conhecimento que puderam do khuzdul” (PM:358). Pelo menos uma palavra khuzdul fez seu caminho no sindarin: kheled “vidro”, que aparece no élfico cinzento como heledh (ver Silmarillion Apêndice, entrada khelek). A palavra khuzdul Khazâd, “anões”, foi adaptada ao quenya como Casar e ao sindarin como Hadhod (a raça dos anões era chamada Hadhodrim, WJ:388). Ao mesmo tempo, os anões parecem ter tomado pelo menos uma palavra do sindarin: kibil “prata” deve ser relacionada ao élfico cinzento celeb.

Mais tarde, na Segunda Era, os anões relutantemente permitiram a alguns poucos elfos aprenderem um pouco de khuzdul, puramente no interesse da ciência: “Eles entenderam e respeitaram o desejo desinteressado de conhecimento, e a alguns dos mestres da tradição noldorin posteriores foi permitido aprender o suficiente tanto de sua lambe (aglâb) [“língua” em quenya e khuzdul], quanto de sua iglishmêk [código gestual] para entender seus sistemas”. De Pengolodh, o Mestre da Tradição de Gondolin, é dito que “por um tempo morou entre os anões em Casarrondo (Khazad-dûm)” (WJ:395,396). Estes mestres da tradição posteriores evidentemente tinham uma atitude menos arrogante que seus colegas da era anterior, que, com exceção de Curufin, deliberadamente “evitaram” o khuzdul (Letters:31).

Num ponto, contudo, os anões foram sempre “rigidamente sigilosos”. Por razões que nunca elfos ou homens entenderam completamente, eles não revelavam qualquer nome pessoal para os de outras raças, e nem permitiam que eles fossem gravados ou escritos, depois que adquiriram a arte da escrita. Portanto, tomavam nomes em formas humanas pelos quais pudessem ser conhecidos pelos seus aliados” (PM:304). O Apêndice F confirma: “Seus nomes secretos e ‘interiores’, seus nomes verdadeiros, jamais foram revelados pelos anões a quem fosse de raça alheia. Nem mesmo em seus túmulos eles os inscrevem.” Assim, os nomes Balin e Fundin, que ocorrem num contexto khuzdul na laje sobre a tumba de Balin, não eram eles mesmos khuzdul. Eram nomes humanos, meramente os nomes substitutos que Balin e Fundin usavam quando outros que não anões estavam presentes.

No capítulo 20 do Silmarillion, é dado um nome anão, Azaghâl, o nome do Senhor dos Anões de Belegost. Talvez fosse um título ou uma alcunha, e não seu verdadeiro “nome interno”. Foi sugerido que ele significava “guerreiro”, e estaria relacionado ao verbo númenoreano azgarâ “fazer guerra” (SD:439). Há também Gamil Zirak, o nome de um ferreiro anão, mestre de Telchar de Nogrod (UT:76). Talvez fosse também outra alcunha, ou que seu nome tenha vazado para não anões por acidente, para seu grande e duradouro pesar. Por outro lado, os pequenos-anões (petty-dwarves”) evidentemente não tentavam esconder seus nomes khuzdul. No capítulo 21 do Silmarillion, o pequeno-anão Mîm rapidamente diz a Túrin não apenas seu próprio nome, mas também o de seus filhos Khîm e Ibun. Talvez tal chocante indiscrição fosse uma das coisas que os anões normais odiavam nos pequenos-anões.

Contudo, os anões não consideravam impróprio revelar os nomes dos lugares. Gimli, por iniciativa própria, diz à Irmandade como os anões chamavam as montanhas sobre Moria e a própria Moria: “conheço as montanhas e seus nomes, pois sob elas está Khazad-dûm, a Mina dos Anões... Mais além fica Barazinbar, o Chifre Vermelho... e além dele ficam o Pico de Prata e o Cabeça de Nuvem..., que nós chamamos de Zirakzigil e Bundushathûr” (SdA 1/II Cap. 3). Os anões não ficavam necessariamente ofendidos se outros soubessem alguns nomes de lugares em khuzdul. Quando Gimli chega a Lórien, ainda zangado por razão dos elfos no início terem requerido que ele fosse vendado, Galadriel diz a ele: “Escuras são as águas do Kheled-zâram, e frias são as nascentes do Kibil-nâla, e belos eram os salões cheios de pilares de Khazad-dûm nos Dias Antigos, antes que poderosos reis caíssem no seio da rocha.” Lemos, então, que: “o anão, ouvindo os nomes ditos em sua própria língua antiga, levantou os olhos encontrando os dela, e teve a impressão de que olhou de repente para o coração do um inimigo e ali viu amor e compreensão. A admiração cobriu seu rosto, que então sorriu para ela” (SdA 1/II Cap. 7). Gimli percebeu que Galadriel, ao usar os antigos nomes em khuzdul, fazia um gesto amigável. De volta a Primeira Era, o pequeno-anão Mîm diz, sobre a montanha onde vivia: “Amon Rûdh é como se chama a montanha agora, desde que os elfos trocaram todos os nomes” – sugerindo que isso o irritava.

História Externa

No Tolkien estabeleceu, sobre o khuzdul, que “essa língua teve sua estrutura esboçada até certo detalhe, mas com um vocabulário muito pequeno” (PM:300). Ela evidentemente foi criada nos anos 30. Os nomes khuzdul Khazaddûm e Gabilgathol aparecem nas versões iniciais do Silmarillion; veja LR:274. Encontramos também Khuzûd como o nome khuzdul para sua raça, depois alterada para Khazâd. Tolkien primeiro usou o nome Khazaddûm para Nogrod, não para Moria. Christopher Tolkien comentou: Khazaddûm é a primeira ocorrência do famoso nome. É interessante observar que ele existia – mas como o nome anão de Nogrod – já nesse tempo. Posteriormente, o nome de Nogrod passou a Tumunzahar... Gabilgathol, que não havia aparecido antes, continuou sendo o nome anão para Belegost (LR:278).

Da língua dos anões é dito que “estrutural e gramaticalmente diferia largamente das outras línguas no Oeste daquele tempo”. Parece que era reconhecidamente considerada como uma língua difícil, proverbial, assim como muitos dos ocidentais consideram hoje o chinês.

A fonologia, sob alguns aspectos, era peculiar, comparada a das línguas contemporâneas. Havia pelo menos duas oclusivas aspiradas, kh e th, isto é, k e t seguidos de h. (Note que, aqui, o kh e o th não denotam o ach-Laut alemão nem o th de thin no inglês, como esses dígrafos freqüentemente aparecem grafados por Tolkien.) Em inglês, k e t iniciais são também aspirados, mas provavelmente não tanto quanto no khuzdul. O khuzdul também possuía oclusivas não-aspiradas, como o k e t francês e russo, mas diferentemente do inglês, francês e russo, no khuzdul o k e o t são fonemas de direito próprio, e devem ser distinguidos de kh e th. Como conhecemos poucas palavras em khuzdul, é bastante surpreendente que não tenhamos pares mínimos, mas k vs. kh e t vs. th serem vistos contrastando inicialmente: Kibil-nâla vs. Khazad-dûm e Tumunzahar vs. Tharkûn. Outras consoantes são a oclusiva sonora b, as aspiradas surdas f e s, as aspiradas sonoras z e gh, a lateral l, a vibrante r (alguns anões usavam um R uvular, outros evidentemente usavam um R fortemente vibrante), as nasais n e m, e uma semivogal, o y.

Se algumas das consoantes têm algo de peculiar, o sistema das vogais é bastante ordinário. As vogais curtas parecem formar o clássico sistema de cinco vogais, a, e, i, o, u. De acordo com as notas de Tolkien para as Runas de Daeron, vogais reduzidas, como as encontradas na palavra inglesa butter, também eram comuns, mas não estão diretamente atestadas (a menos que alguns destes u’s e e’s representem tais vogais). Quatro vogais longas são atestadas, â, ê, î e û. A aparente ausência do pode bem ser devida ao nosso pequeno corpus. Vogais longas poderiam ser encurtadas quando não fossem tônicas (?), compare Khazâd e Khazad-dûm. (Na verdade, nada sabemos sobre a tonicidade das palavras khuzdul).

A estrutura básica do khuzdul lembra a das línguas semíticas, como o árabe e o hebreu. As raízes das quais as palavras derivam não são propriamente palavras pronunciáveis, mas consistem apenas de consoantes. Substantivos, verbos, adjetivos etc são derivados não apenas pela adição de prefixos e sufixos (se é que esses afixos são realmente utilizados), mas também pela inserção de certas vogais entre as consoantes, e algumas vezes também dobrando-se uma das consoantes. Freqüentemente as palavras são flexionadas por mudanças nas vogais internas, e não pela adição de afixos: Rukhs significa “orc”, mas seu plural, “orcs”, é Rakhâs. As consoantes da raiz – chamadas “radicais” – permanecem as mesmas, como *R-Kh-S neste caso. Em khuzdul, assim como nas línguas semíticas, o mais comum é haver 3 radicais na raiz; diversas dessas raízes são mencionadas em TI:174 e RS:466: B-R-Z “vermelho”, B-N-D “cabeça”, K-B-L “prata”, N-R-G “negro”. Um exemplo de raiz biconsonantal é Z-N “escuro, obscuro” (RS:466). É claro que vogais são adicionadas quando estas raízes aparecem como palavras, por exemplo, baraz “vermelho” ou bund “cabeça” de B-R-Z, B-N-D. Os radicais Kh-Z-D contêm uma idéia geral de “anão” (“dwarvishness”) – podem ser observados em palavras como Khazâd “Anões” e Khuzdul “dos Anões” (“dos Orcs” seria presumivelmente *Rukhsul). Os mesmos radicais Kh-Z-D evidentemente estão presentes no antigo nome khuzdul de Nargothrond, Nulukkhizdîn, mas o significado preciso deste nome é desconhecido (note que Nulukkizdîn no Silmarillion Cap. 21 contém um erro de grafia; veja WJ:180). O significado mais básico de Kh-Z-D pode ter algo a ver com o número “sete”, compare com hazid em adûnaico (SD:428). Os anões eram descendentes de Sete Pais e estavam divididos em Sete Clãs – e, como sabemos, anões ainda hoje são associados ao número sete, mesmo numa mitologia humana muito posterior e mais infantil.

Vocabulário

aglâb

língua

ai-mênu

sobre vocês

Azanulbizar

Vale do Escuro

aya

sobre

baraz

vermelho

Barazinbar

Chifre Vermelho

baruk

machados

bizar

vale

bund

cabeça

Bundushathûr

Cabeça avoada

dûm

escavações

felek

cortar pedra

felak

pequeno machado

felakgundu

escavador de cavernas

Fundinul

filho de Fundin

gabil

grande

Gabilân

rio Sirion

Gabilgathol

Grande Fortaleza

Gamil Zirak

Velho Prateado

gathol

fortaleza

gundu

salão/mansão

gunud

escavar

iglishmêk

código gestual

inbar

chifre

Khazâd

anões

Khazad-dûm

Mina dos Anões

Khazâd ai-mênu!

Os Anões estão sobre vocês

kheled

vidro

Khuzûd

anões

kibil

prata

Kibil-nâla

Veio de Prata

Mazarbul

registros

mênu

vocês

nâla

curso do rio

Narag-zâram

Poço Negro

Nargûn

Mordor

Nulukkhizdîn

Nargothrond

Rukhs

orc

Sharbhund

Monte Careca

shathûr

nuvem

Sigin

longo

Sigin-tarâg

Barbas  longas

tarâg

barbas

Tumunzahar

Morada Oca

Khazad-dûmu

Senhor de Moria

ûl

rios, riachos

Uruktharbun

Moria

zâram

lago, poço

zigil

pico, espinho, espigão

Zirak-zigil

Pico de Prata

zirak

prata, prateado

Zirakinbar

Chifre de Prata

tarâg

barbas

Kibil-nâla

Veio de Prata

uzbad

senhor

Kheled-zâram

Lago de vidro

Tharkûn

Homem do Cajado

Forn

Tom Bombadil

dush

escuro, negro    

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