Roi Ferreiro
Yoga e Revoluçom
1. Ao igual do que pioneiros como Wilhelm Reich, aquel*s que luitamos pola transformaçom integral da vida humana temos que afrontar, sempre, um trabalho de investigaçom científica e crítica sobre a realidade psico-social, buscando umha compreensom superior. Nesta busca, focada tanto persoal como socialmente, movida pola aspiraçom a umha liberdade verdadeira e pola necessidade conseguinte de luitar revolucionariamente contra a sociedade existente, é onde se sitúa o nosso descubrimento e interesse polo yoga.
Nom existe um automatismo entre a transformaçom da consciência e a acçom histórica -muito menos se falamos da psique como totalidade. A maduraçom espiritual do movimiento proletario nom foi, até o de agora, para além do nível histórico dumha consciência racional do comunismo, com diferentes apontamentos cara umha transformaçom psicológica -como o de Reich-, mas nom umha compreenssom concreta e total da transformaçom da natureza humana. Mais bem, mantivo-se a idea falsa de que, as relaçons de comunidade dentro da classe obreira, formadas em ruptura coa psicologia do individuo burgués, serían suficientes para transformar a sociedade sobre bases comunistas.
Nós consideramos que a autotransformaçom humana tem que ir além do comunistarismo; tem que avançar no sentido do desenvolvimento de todas as capacidades humanas, que estám limitadas pola autoalienaçom em que se desenvolve a vida social dos individuos -autoalienaçom que compreende toda a hummanidade, ainda que, como diziam já Marx e Engels, a classe dominante veja nessa autoalienaçom umha apariência de humanidade e umha fonte de poder, se veja identificada por tanto na autoalienaçom e a considere a (sua) verdadeira natureza humana. Em cambio, o proletariado experimenta nessas relaçons o desgarramento e a perda de si próprio, a sua autoanulaçom e escravizamento.
A condiçom fundamental do desenvolvimento espiritual da humanidade, descuberta polo proletariado no seu esforço por libertarse da sociedade existente, é a autonomia. Como classe dominada, para o proletariado a sua autonomia como classe nom separa o persoal do social, o individual do colectivo, como acontece na classe burguesa. O proletariado necessita, para luitar contra a explotaçom, que os individuos que o componhem desenvolvam as suas capacidades como seres humanos, autotransformando-se integralmente. A autonomia espiritual e a autonomía material, a autonomia dos individuos e a autonomia do conjunto, som dous aspectos dum mesmo movimento, consistente na autosupressom do proletariado enquanto classe explotada e massa alienada.
2. O yoga nom é só umha técnica o un conjunto de técnicas e exercícios; é, mais que isso, um determinado modo de compreender o desenvolvimento prático das capacidades psicológicas humanas. É, além, umha teoria acerca da sua plena realizaçom, que sobrepassa, tanto por extensom como por profundidade, os limites da ciência psicológica ordinaria.
O conceito de yoga tem como significaçom essencial a praxis espiritual. Deste modo, serve extensivamente para referirse a toda a diversidade de técnicas, práticas e doctrinas que se refirem à transformaçom espiritual do ser humano, em contraposiçom ao conceito de religiom, que se refire sempre a um conjunto de dogmas e ritos baseados na crença.
Mentres existem religions baseadas numha suposta revelaçom sobrenatural, e que, por conseguinte, sempre tiveram um carácter de crença, reproduzindo-se socialmente meiante a alienaçom dos individuos e em virtude das adesons de elementos das classes dominantes, existem outras religions que constituem originalmente a forma degenerada de doctrinas ou correntes espirituais anteriores, que nasceram e se extenderam a partir da experiência prática e nom dumha adesom irracional. O núcleo desas correntes de espiritualidade viva, umha compreensom prática determinada da autotransformaçom humana, é o que se refire popularmente como yoga ou como disciplinas e exercicios espirituais.
A palavra yoga é universal porque significa uniom, ainda que a sua orige e mais forte tradiçom se situe na Índia. Fai referência ao estado espiritual que se persegue, no que a consciência-energia do individuo experimenta a sua uniom coa totalidade do existente e, interiormente, a integraçom dos distintos planos da psique em torno ao centro psicológico verdadeiro -que nom é a mente, senom o centro dinámico da energia e da estrutura psíquica, com os seus distintos níveis (somático, sexual, vital, emocional, mental, etc.)-.
3. A prática do yoga nom persegue o mero autoconhecimento, senom um desvelamento de todas as potencialidades da psique e a sua realizaçom. De aí o seu profundo antagonismo co que se denomina, histórica e socialmente, a religiom. Nom obstante, trata-se do mesmo tipo de contradiçom que existe entre a acçom e o pensamento humanos dentro do marco da sociedade alienada. O proletariado nom pode liberar-se da consciência dominante mais que ao longo dum processo no que, movido pola necessidade e a través da sua acçom, adquira a sua própria experiência e desenvolva a sua capacidade para assimila-la. Do mesmo modo, como corrente espiritual real, o yoga nom parte de nengum pressuposto sobrenatural, mas da necessidade de transformar a existência espiritual dos seres humanos, do esforço por lograr um estado de harmonia interna e co exterior, da posta em prática da aspiraçom à autosuperaçom que brota da rebeliom instintiva contra o mundo e a consciência alienados da comunidade primordial como espécie e coa natureza. Estas som as motivaçons que conduziram, ao longo dum processo histórico, ao desenvolvimento de distintas teorias, focages e técnicas. O que estas teorias descrevem como o Divino é um estado espiritual ou umha forma de consciência, mas nom já qualquer representaçom simbólica ou antropomórfica convertida em fetiche. Se este estado espiritual, esta experiência da consciência, é umha realidade permanente e efectiva, nom é entom umha questom teórica, senom prática.
Em virtude da compreensom crítico-prática do mundo alienado, a tarefa que se nos apresenta é distinguir entre as formas alienadas em que até agora se realizou o progresso humano, e a verdadeira evoluçom da humanidade como especie. A distinçom invoca a necessidade de unir o progresso material ao progresso espiritual; a busca de avançar na verdadeira evoluçom impulsa-nos a indagar no desconhecido e descubrir o modo de dar um salto evolutivo.
4. A idea de que o ser é consciência, de que o universo conhecido é umha manifestaçom dum ser-consciência mais amplo, poderia semelhar própria do idealismo filosófico ou da crença religiosa hai um século, mas hoje a ciência mais avançada esta-se a aproximar precisamente a estas ideas. Nom, porém, pola via de corroborar o creacionismo religioso, senom pola via científica de descubrir a matéria como conjunto de relaçons, como estrutura de informaçom, isto é: como “consciência”, mas umha consciência mui diferente do que entendemos normalemente (derivada da noçom de consciência como actividade mental). O conceito de consciência na tradiçom do yoga é entendido no sentido amplo, e a totalidade do existente descreve-se como sat-chit-ananda, existência-consciência-dita, ou seja, como um todo que é experimentado simultaneamente como ser, consciência e dita. A compreensom moderna da consciência, simultaneamente como faculdade cognoscitiva e como campo energético, e a compreensom do ser como estrutura e como conjunto significante de interrelaçons portador de informaçom, é fundamentalmente umha explicaçom em forma objectiva -desde a perspectiva do observador científico- do que na tradiçom yóguica se explica em forma subjectiva -desde a perspectiva do experimentador- como umha trascendência da individualidade numha experiência de identidade e uniom coa totalidade.
A questom de se esta totalidade é, ela mesma, um ser autónomo num sentido persoal, se existe um espírito puro separado da materia, etc., ou seja, a questom da existência de Deus no sentido convencional, nom é algo que poda resolver-se escolásticamente, meiante as velhas refutaçons ateistas da existência de Deus, que som umha prolongaçom antitética dos postulados filosóficos teistas sobre a existência de Deus. De qualquer modo, a experiência profunda do mundo nom está a impulsar à ciência no sentido de separar, senom de integrar, materia e espírito, entendendo-os como categorias relativas do ser. Igualmente -e como se afirma na doctrina yóguica da identidade esencial entre o ser interior e o Divino-, se existe tal ser autónomo “sobrenatural” isto nom se corrobora na experiência yóguica, na que o individuo entra em comuniom coa totalidade. O próprio conceito do “sobrenatural” implica umha distinçom dualista que pressupóm umha dimensom incognoscible -isto é, é um conceito acientífico por definiçom, dado que o progresso científico consiste precisamente em fazer sensível, meiante a investigaçom e a técnica, o que antes era “suprasensível” ou “sobrenatural”. Em qualquer caso, o yoga nom afirma a existência ou inexistência de Deus, senom a identidade do individuo com Deus -que nom é objecto de culto, senom de efectivizaçom, pois essa identidade encontra-se em estado potencial, obstruida polo ego (ego que nom é o verdadeiro eu, a expressom da consciência total do nosso ser, mas um mecanismo primitivo e nom realmente consciente).
Em resumo, a questom da existência ou da interpretaçom mesma do conceito de Deus ou do Ser Divino é secundaria para a prática do yoga, no que tudo remite-se directamente à experiência e à sua verificaçom prática tanto na prática subjetiva como na vida objetiva.
5. A prática de distintas formas de yoga veu-se extendendo durante o século XX nos países ocidentais, assí como aconteceu umha expansom de outras disciplinas orientais relacionadas coa saúde. Mas esta expansom do yoga tivo em grande medida um carácter alienado, sendo na prática umha expansom de técnicas de trabalho espiritual orientadas a finalidades de relaxaçom, terapeuticas, de controlo da mente, etc.. Esta interpretaçom prescinde do objectivo fundamental do yoga, que é umha transformaçom profunda do ser humano e da sua experiência vital subjectiva, nom umha transformaçom superficial que lhe permita assimilar as frustraçons da vida alienada. Ou seja, no capitalismo a vida espiritual verdadeira tende a converter-se, baixo o peso da vida material alienada, no oposto do que diz ser.
A contraposiçom entre o capitalismo e o livre desenvolvimento espiritual alcança tamém às disciplinas espirituais. O caso do cristianismo, cuja prática inicial nom foi a da Igreja romana, senom a das primitivas comunidades judeo-cristianas comunistas formadas polos discípulos originais, é somentes um caso mais -e pouco divulgado por motivos evidentes. A sociedade de classes, a dominaçom de classe, é incompatível cumhas doctrinas que atacam directamente o modo de vida 'materialista' elevado à sua máxima expressom polo capitalismo, que instam à classe explotada a ver no egoísmo e na organizaçom egoísta da sociedade a causa de todos os maís da humanidade. Evidentemente, estas ideas podem ser tergiversadas e voltas do revés pola ideologizaçom religiosa, mas o mesmo acontece com todas as ideas.
Igual que as ideas revolucionarias do proletariado resistem este engulimento pola orde capitalista nom aferrando-se à sua integridade doctrinal, senom buscando o caminho da prática e servindo de instrumento para extender e elevar a autoactividade do proletariado -para construir a sua autonomia de classe-, do mesmo modo as ideas revolucionarias espirituais somentes tenhem efectividade a nível social -e nom só em individuos isolados- quando demonstram a sua utilidade para despertar as capacidades psiquicas e impulsar a activaçom da energia interior capaz de superar a inercia, os complexos e as limitaçons criadas polas relaçons sociais e as ideas repressivas.
6. A diferência da psicologia ocidental -que, até o de agora, foi em geral umha psicologia burguesa-, a psicologia yóguica parte e basea-se no livre despregue da autoactividade do individuo, nom na entrega e dependência dum profissional (ainda que existam doctrinas que preconiçam a subordinaçom incondicional a “mestres” ou “gurus”). Ainda que existe umha forte tradiçom de mestres/as espirituais, de acordo coa sua própria teoria o seu papel consiste em estimular e ajudar a esse processo livre do individuo, nom em adoctrina-lo. Que o papel autoritario de mestres é um anacronismo acescentado, igual que as referências religiosas, pode ver-se polo carácter mesmo de todos os métodos universais da prática yóguica. O nosso interior é o campo no que começa, se desenvolve e acaba o processo de transformaçom espiritual, cuja fim é a dissoluçom do mecanismo egóico e da personalidade separativa, para deixar passo a umha integraçom interna em torno ao ser psíquico profundo.
Ainda se a forma da experiência espiritual é sempre singular às condiçons psicológicas de cada individuo, o yoga verifica que existe um conhecimento e umha transformaçom verificáveis em comum na medida em que a experiência é auténtica e nom umha mera ilusom. O critério da prática é o utilizado desde sempre polos buscadores espirituais para discernir entre mestres, escolas, filosofías, etc., e para valorar as suas próprias experiências e a efectividade dos resultados da sua praxis. Assí, o auténtico yoga é diverso em todas as suas manifestaçons e insta a cada individuo a buscar o seu próprio curso prático. Nom pode ser calificado dumha "mística", dado que procede meiante a verificaçom da experiência a través dos seus resultados permanentes no estado espiritual e do conhecimento útil que proporciona. Igualmente, o yoga desenvolve e razona os seus métodos práticos, nom funciona em virtude de "arrebatos místicos" nem se contenta com interpretar as experiências espirituais à luz de ideologias religiosas (como, p.e., a mística cristiana).
7. Como ciência, o yoga pode ser sempre válido no fundamental, mas sem deixar de encontrar-se determinado polo estado social no que se desenvolve e pola própria evoluçom das experiências espirituais. O conhecimento só tem sentido como expressom dumha necessidade de transformaçom, e por isso mesmo existem importantes diferências na atitude das distintas correntes de yoga cara a vida social, desde o ascetismo até o yoga da acçom; incluso existem diferências entre os distintos níveis de progresso espiritual que se descrevem, dando lugar a correntes de pensamento completamente opostas, como o ilusionismo (que considera toda a multiplicidade do mundo como umha ilusom) e o yoga integral.
O yoga integral, desenvolvido por Aurobindo Ghose, é o único que tem avançado explícitamente a umha compreensom revolucionária e integral da transformaçom humana. Para este yoga nom existe separaçom entre a vida exterior e a vida interior; entende que o sentido da vida é umha evoluçom espiritual que se realiza através da multiplicidade material, e que a consequência natural da elevaçom espiritual da humanidade será a supressom do capitalismo e o establecimento dum régime comunista, e dumha auténtica unidade humana mundial baseada na fraternidade espiritual e na anarquia; que a transformaçom espiritual da humanidade que a conduza a umha verdadeira fraternidade, fundada no inegoísmo, é umha condiçom indispensável para que a sociedade sem classes e sem Estado poda establecer-se.
8. Para Aurobindo, a luita de classes nom é em sí mesma um elemento progressivo, ainda que poda ser necessária para o progresso geral da humanidade. Ao contrário da ideología obreirista e revolucionarista, é preciso ver que a importáncia da luita de classes nom consiste, dum ponto de vista comunista, no facto da sua existência, mas no seu conteúdo, na sua tendência; no facto de constituir ou nom um elemento progressivo para umha nova consciência e umha nova prática que apontem, ou melhor que levem, à libertaçom humana. @s proletari@s nom luitam sempre, nem muito menos, como umha classe revolucionária; mais bem luitam normalmente como um colectivo de indivíduos egoistas, cuja única perspectiva é reclamar maiores salarios e adquirir assí mais direitos como proprietários da sua força de trabajo. Deste modo, em lugar de avançar na sua consciência própria, os proletários avançam na sua integraçom no capitalismo; em lugar de entregar-se ao sentido de comunidade e desenvolver a solidariedade e a fraternidade, entregam-se ao corporativismo egoísta, a um egoísmo colectivo. Este egoísmo colectivo nom é outra cousa que a psicologia do reformismo, o seu suporte espiritual, que os revolucionários devemos combater. Em cámbio, quando a luita proletária já nom possue o carácter dumha luita funcional ao capitalismo, que actúa como mecanismo de autorregulaçom para socializar o crescimento económico, senom que adquire o carácter dumha luita contra o capitalismo, que actúa movida pola necessidade histórica de superar este sistema, entom a luita de classe do proletariado tende a desenvolver nom só um carácter revolucionario para fóra, senom tamém para dentro, transformando a associaçom dos proletários numha forma de comunidade fundada na verdadeira fraternidade.
Mas o desenvolvimento da fraternidade proletaria tem que ir além das finalidades materiais e da identidade de classe -que é a forma limitada na que se fragua inicialmente esta identidade humana universal. Ademais, o objectivo nom é somentes umha fraternidade emocional, senom umha fraternidade efectiva em todos os aspectos das relaçons sociais, para o qual nom basta coa comunidade de objectivos, senom que é necessária a supressom da tendência ao egoísmo (individual e colectivo) e a afirmaçom da tendência comunista inherente à natureza humana como natureza evolutivo-social (o que Marx denominou a essência humana ou, melhor, a essência genérica humana, a essência da humanidade como espécie, que consiste na própria socialidade). Ou dito em termos marxianos, que o desenvolvimento da comunidade humana chegue à supressom completa do individuo egoísta e instaure, como a sua norma, a vida de acordo coa comunidade essencial da humanidade como espécie -o "estado anárquico", que dizia Aurobindo.
9. No capitalismo a abstracçom mercantil convirte o yoga numha mera "técnica", suprimindo as suas orientaçons radicais e transformadoras; convirte-o num mecanismo de reforço da vida alienada, somando-o a toda a diversidade de "paliativos" espirituais disponhíveis (religions, sectas, superstiçons, espectáculos, drogas, video-jogos, etc.). Os próprios individuos tendem a deformar o yoga, dando-lhe um carácter religioso e/o paliativo.
Como já diziam Marx e Engels, a religiom é connatural ao capitalismo, pois nel a realidade humana tem que apresentar-se sempre de modo invertido e fetichizado, como o movimento autonomizado do capital global. A realidade imediata para os individuos está determinada pola guerra de tod@s contra tod@s e polo nojento “materialismo” mercantil, reduze-se ao continuo movimento dumha imensa massa de mercadorias que se producem, circulam, consumem. Igual que o capital se apresenta como um producto da acumulaçom de dinheiro e a produçom como resultado da inversom do mesmo -quando na realidade o trabalho é a única fonte criadora de valor-, do mesmo modo o ser humano apresenta-se como a criatura dum Deus extrano e exterior ao mundo, do qual em realidade é el mesmo o seu criador. Ou seja, os produtos da actividade humana apresentam-se como seres autónomos e independentes dos produtores, tanto sejam productos materiais como produtos espirituais.
A tendência "religiosa" da vida alienada se traduz actualmente numha recuperaçom das disciplinas espirituais, reduzindo-as a umha busca da "paz espiritual" ou da "harmonia" estática e cega, descartando como umha ilusom ou como efémeros os conflitos da vida social. Tanta "espiritualidade" do mundo burgués nom fai esforços por lembrar, agora, a velha frase cristiana de que seria tam dificil que os ricos entraram no reino dos ceus como um camelo passar polo olho dumha agulha. As vertentes da prática social do yoga som, por suposto, deixadas à marge, dado que tenhem que estar dirigidas pola prática da equanimidade e o desapego às possessons, e o seu objectivo haverá de ser o próprio progresso interior cara um estado espiritual inalterável, nom a gratificaçom altruista nem o benefício próprio. Como sempre, a caridade vem a reempraçar à prática comunista de fazer o adequado sem diferenciar o próprio do alheo, sem sentido do "meu" e do "teu" (umha consciência social de identidade imediata entre os indivíduos).
10. Por outro lado, as classes "meias" e altas podem encontrar umha satisfacçom persoal em certas práticas ascéticas, sempre que sejam temporais ou que disponham de rendas de por vida. Mentres aos proletarios, que se deixam explotar cada vez mais, acusa-se-lhes de ser demasiado egoístas, a hipocrisia dos que se elevam sobre eles fai-se passar por um ejemplo de inegoísmo. Consuma-se assi o já dito: na sociedade capitalista tudo se apresenta de modo invertido e mistificado, a causa apresenta-se como efeito e a mentira mais burlesca como umha verdade eterna.
Mas o yoga nom nasceu para buscar a "paz interior" e alonjar-se do mundo para refugiar-se no "sagrado", mas para realizar as necessidades espirituais da humanidade, isto é, a autoexperimentaçom integral do seu próprio ser e o seu autodesenvolvimento igualmente total. O yoga reconhece o carácter integral das necessidades humanas, absolutamente incompatível coa pretensom de dar-lhes a todas umha forma de realizaçom massiva, mercantilizada e efémera, e coas formas de actividade social nas que o indivíduo se autoaliena.
O yoga nom é um sistema rígido de práticas -que a gente ordinária somentes pode aplicar dedicando-lhe um tempo especial fóra da vida corrente-, senom que aspira a umha prática consciente e continua, adequada às condiçons de cada momento. Nom se basea na acçom de nengum poder externo dominante, dum "guru" ou mestre espiritual, mas na auto-interacçom do sujeito co seu ser psíquico profundo (voltar a consciência cara o interior, mas nom para umha introspecçom permanente, senom para establecer a consciência no centro psíquico e assi volta-la em todas as direcçons, interiores e exteriores, desde um nivel superior de energía e intensidade) e na apertura consciente à uniom espiritual coa totalidade. Toda a mitologia dos "gurus" dissolve-se reconhecendo a necessidade de comunicar as experiências e conhecimentos, que é connatural ao carácter social da mesma existência humana, coa fim de acelerar o progresso interior, e tamém no facto experimental de que a energia espiritual é comunicável, de modo que nom só a sua activaçom se traduz numha estimulaçom da autoactividade e da dita interiores, senom que ao mesmo tempo transmite-se ao ambiente, as persoas, os lugares, favorecendo assi as relaçons sociais o progresso espiritual dos indivíduos do arredor.
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@s que escrevemos isto baseamo-nos num conhecimento próprio e numha experiência efectiva, nom só considerada na sua dimensom persoal, senom na sua interacçom coa militáncia proletária. E o que nós defendemos é simplesmente a necessidade de ir além das simplificaçons sobre os problemas do desenvolvimento do proletariado como sujeito revolucionario e da transformaçom comunista da sociedade, e a necessidade de que @s militantes revolucionári@s assumam o esforço pola sua própria autotransformaçom espiritual como parte imprescindível da luita revolucionária.
O comunismo nom é realizável no aquí e agora, mas sem o esforço por viver o ideal nom pode tampouco luitar-se efectivamente por el, sendo interferido contínuamente polos rasgos mezquinhos, egoístas e limitantes da natureza humana alienada, que o impulsam a inercia, que impidem que se supere a sí mesmo, que o desviam até a autocontradiçom. Mas
"Os obreiros nom tenhem nengumha utopia lista para implantarla par décret du peuple. Sabem que para conseguer a sua própria emancipaçom, e com ela essa forma superior de vida cara a que tende irresistívelmente a sociedade actual polo seu próprio desenvolvimento económico, terám que passar por longas luitas, por toda umha série de processos históricos, que transformarám as circunstáncias e os homes. Eles nom tenhem que realizar ideais alguns, senom simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante leva no seu seo."
Marx, A guerra civil na França, 1871.
Essa frase deve entender-se no seu contexto. O proletariado nom tem nengum ideal que realizar, enquando as ideas revolucionarias, para ser umha força real, tenhem que proceder directamente da sua própria maduraçom na experiência da luita de classes; isto é, para o proletariado as ideas nom provenhem de fóra de sí mesmo, nem podem ser adquiridas ou extendidas meiante a "educaçom", senom que requirem da experiência directa dos individuos como parte integrante da classe para poder ser geradas ou assimiladas. Os ideais do proletariado nom existem independentemente do seu movimiento real, como suposta emanación da sua condiçom social ou dumha abstracta essência de classe; e quando parece ser assí, ou bem trata-se dumha falsificaçom, que apresenta como os ideais do proletariado formas de pensamento burguesas ou fai umha combinaçom de ambos, ou bem trata-se dumha mera apariência, e na realidade o que acontece é que individuos ou grupos aparentemente isolados som capazes de retomar os ideais colectivos graças à sua própria experiência e maduraçom numha luita de classes ainda demasiado limitada para reconhecer conscientemente, nesses ideais, a sua autoexpressom.
A tentativa de assumir as práticas espirituais ou yóguicas cum critério experimental, e converte-las em elementos constitutivos da praxis revolucionaria, deve entender-se no marco dum esforço por definir os ideais que correspondem a umha necessidade histórica do movimento proletario e da evoluçom humana mesma. E hoje estamos numha época de desorientaçom geral, na que os ideais revolucionarios devem reafirmar-se como tais com nova força prática, ao tempo que se busca a sua conexom coa luita de classes actual -coas suas tendencias, debilidades, avanços, obstáculos. Esta afirmaçom dos ideais é necessária, pois sempre existe a tendência perigosa a abandonar os ideais ante a pressom das circunstáncias regressivas e da consciência dominante.
O ideal da unidade do espiritual e do material nom é, embora, algo novo. Como unidade revolucionária da autolibertaçom material e espiritual d@s proletári@s, estava presente no marxismo original (como unidade de transformaçom social e autotransformaçom persoal, como crítica prática do egoísmo e afirmaçom da socialidade humana essencial) e foi retomada mais tarde polo marxismo conselhista (concebindo a autoactividade proletária de luita, organizaçom e pensamento como autodesenvolvimento espiritual, e a revoluçom proletária como fundamentalmente umha vitória do espírito). A nossa tarefa hoje é dar-lhe a este ideal um maior desenvolvimento, que somentes poderá ser o fruto da experiência.
«Umha fraternidade mais profunda, umha lei de amor todavia desconhecida, é o único fundamento seguro possível para umha perfeita evoluçom social; nengumha outra cousa poderá rempraça-lo. Mas esta fraternidade e este amor nom procederám dos instintos vitais nem da razom, pois cedo se veriam enfrentados a razonamentos opostos e seriam perturbados ou dislocados por outros instintos discordantes. Nom se fundarám tampouco no coraçom natural do home, onde tantas outras paixons apressariam a combate-los. É na alma onde devem achar as suas raízes; é um amor fundado numha verdade mais profunda do nosso ser, e umha fraternidade, ou, digamos, mais bem, um companheirismo espiritual -pois é um sentimento completamente distinto do sentido mental ou vital da fraternidade, umha força motriz mais aprazível e perdurável- que é a expressom dumha realizaçom interior da unidade. Só assi pode desaparecer o egoísmo, e o verdadeiro individualismo da divinidade única em cada home pode fundamentar-se no verdadeiro comunismo da mesma divinidade na espécie; porque o Espírito, o Ser-Essencial recóndito, a Divinidade universal que reside em cada ser é o que, pola sua natureza mesma de unidade na diversidade, haverá de realizar a perfeiçom da sua vida e da sua natureza individual na existência de todos, na vida e na natureza universal.
Poderá-se objetar que esta soluçom pospóm a consumaçom dumha sociedade humana melhor a umha época lonjana da evoluçom futura da espécie. Em efeito, segundo esta soluçom, nengum dos mecanismos inventados pola razom tem poder para perfeiçoar ao home, nem como indivíduo, nem como ser colectivo; precisa-se dumha mudança interior da natureza humana...”
“...Nom vemos a necessidade lógica de concluir que esta mudança jamais poderá ter lugar polo simples facto de nom ser imediatamente possível em toda a sua perfeiçom. Nom é completamente impossível que a humanidade vire, de modo decisivo, para o ideal espiritual; que comece a ser guiada e inície um ascenso constante às alturas, ainda quando os seus cumes nom sejam completamente acessíveis, no princípio, mais que para um reduzido número de pioneiros, e pareça todavia lonjano o dia em que podam ser pisadas por todo o género humano. E esse começo pode significar o descenso dumha influência que modificará instantáneamente a orientaçom de toda a vida da humanidade, como o fixo o desenvolvimento da razom e muito mais do que nengum desenvolvimento da razom, e que ampliará para sempre as suas potencialidades e toda a sua estrutura.”
Aurobindo Ghose, O ciclo humano, 1915-18.