A luta operária
CAPITULO VI
A REVOLUÇÃO DOS TRABALHADORES
A
revolução pela qual a classe operária atingirá o poder e a liberdade não é um
acontecimento único, com uma duração limitada. É um processo de organização, de
auto-educação, no decurso do qual os trabalhadores encontrarão pouco a pouco,
ora por uma progressão regular, ora por saltos, a força para vencer a
burguesia, para destruir o capitalismo e construir um novo sistema de produção
colectiva. Esse processo ocupará toda uma época histórica, da qual ignoramos a
duração, mas na qual estamos seguramente à beira de entrar. Se bem que não
possamos prever os detalhes do seu desenrolar, podemos apesar disso discutir
desde já as condições e circunstâncias em que terá lugar.
O
combate em questão não pode comparar-se a uma guerra normal entre forças
antagonistas do mesmo tipo. As forças dos trabalhadores parecem-se com um
exército que se reagrupa durante a batalha! Elas devem crescer pela própria
luta, não podem afirmar-se antes; só podem pôr defronte objectivos parciais e
atingir objectivos parciais. Se examinarmos a história, vemos desenvolver uma
série de acções que parecem ser outras tantas falhas de tentativas de tomada de
poder: do cartismo à Comuna de Paris, passando por 1848. até às revoluções da
Rússia e Alemanha de 1917-1918. Mas há aí progressos numa mesma direcção; cada
tentativa nova mostra um nível de consciência e de força mais elevado. A
história do trabalho mostra-nos, por outro lado, que há, na luta incessante da
classe operária, altos e baixos que correspondem na sua maioria às variações da
prosperidade industrial. No começo do desenvolvimento industrial, cada crise
trazia a miséria e movimentos de revolta; a revolução de 1848 no continente era
a sequela duma grande depressão económica combinada com as más colheitas. A
depressão industrial dos anos de 1867 originou um renovar da agitação política
em Inglaterra, a grande crise dos anos de 1880, o desemprego enorme que se Ihe
seguiu, suscitaram acções de massas, a subida da social--democracia no
continente e o «novo sindicalismo» em Inglaterra. Mas nos períodos: de
prosperidade industrial, como por exemplo entre 1850 e 1870, 1895 e 1914, todo
esse espírito de revolta desapareceu. Quando o capitalismo está florescente e
estende o seu império em actividade febril, quando não há desemprego e quando
as acções dos sindicatos são capazes de originar aumentos de salários, os
trabalhadores não pensam em mudar o que quer que seja no sistema social. A
classe capitalista, acumulando riquezas e poder, acredita-se capaz de tudo,
avança sobre os trabalhadores e consegue impregná-los do seu espírito
nacionalista. Formalmente, os trabalhadores podem ficar agarrados às velhas
palavras de ordem revolucionárias, mas no seu subconsciente estão satisfeitos
com o capitalismo, a sua visão das coisas está estreitada; é por isso que,
ainda que o seu número aumente, o seu poder declina. Até que uma nova crise os
apanhe desprevenidos e os acorde de novo.
Se
o poder combativo adquirido anteriormente se esboroa na satisfação duma
prosperidade nova, a questão põe-se em saber se a sociedade e a classe operária
estarão algum dia suficientemente maduras para a revolução. Para responder a
esta questão, é necessário examinar de mais perto o desenvolvimento do
capitalismo.
A
alternância de prosperidade e de depressão na indústria não é um simples
movimento de pêndulo. Cada novo movimento foi sempre acompanhado de uma
expansão. Depois de cada baixa, de cada crise, o capitalismo foi capaz de
tornar a subir a encosta estendendo o seu domínio, os seus mercados, o número
de produtos e a importância da sua produção. Enquanto o capitalismo puder
estender sempre mais o seu domínio sobre o mundo e aumentar as suas dimensões,
pode oferecer empregos à massa da população. E enquanto puder fazer face à
primeira exigência de todo o sistema de produção, proporcionar o necessário
vital a todos os seus membros, será capaz de se manter, porque nenhuma
inexorável necessidade obrigará os trabalhadores a acabar com ele. Se ele
pudesse continuar a prosperar, estendendo-se sempre mais, a revolução seria
então tanto impossível como supérflua, só restaria esperar por um
desenvolvimento gradual da cultura que pudesse pôr termo às suas carências.
Mas
o capitalismo não é um sistema de produção normal, e de modo nenhum um sistema
estável. Os capitalistas da Europa e depois da América puderam fazer crescer a
sua produção com tal regularidade e rapidez, porque estavam cercados por um
vasto mundo não capitalista, possuindo apenas uma reduzida produção, e sendo,
ao mesmo tempo, fonte de matérias-primas e mercado para os seus produtos. Esta
separação entre um núcleo capitalista activo e um todo à volta passivo, vivendo
na sua dependência, era um estado de coisas artificial: o núcleo estendia-se (e
estende-se) sem cessar. Sendo a própria essência da economia capitalista, o
crescimento, a actividade, a expansão, qualquer paragem significa a queda e a
crise. A razão é que os lucros se acumulam continuamente, sob a forma de novo
capital que tem de ser investido para trazer novos lucros; assim a massa do
capital e a massa dos produtos crescem cada vez mais depressa e os mercados são
procurados cada vez mais febrilmente. Também o capitalismo é uma grande força
revolucionária, que transforma por toda a parte as antigas condições e modifica
o aspecto da Terra. Aos milhões, novos indivíduos, populações inteiras que
durante séculos tinham vivido por si mesmas e sem mudanças notáveis, unicamente
da sua produção familiar, vêem-se envolvidos pelo turbilhão do comércio
mundial. O próprio capitalismo, a exploração industrial, introduzem-se nesses
países e depressa os antigos clientes se tornam concorrentes. No século XIX,
vindo da Inglaterra, o capitalismo instalou-se em Franca, na Alemanha, na
América, no Japão, depois invade, no século XX, os vastos territórios da Ásia.
Inicialmente, permanecendo ao nível da concorrência individual, ulteriormente
organizando-se sob a forma de Estados nacionais, os capitalistas lançaram-se
numa luta pelos mercados, pelas conquistas coloniais, pelo domínio do mundo.
Assim vão sempre em frente, revolucionando domínios cada vez mais vastos.
Mas
a Terra não passa de uma esfera cuja superfície é limitada. A descoberta das
dimensões finitas do globo acompanhou a subida do capitalismo há quatro
séculos; a tomada em consideração dos limites dessas dimensões mostra que o
capitalismo tem um fim. A população a escravizar é limitada. Uma vez que tenha
feito entrar debaixo do seu domínio as centenas de milhões de pessoas que vivem
nas planícies férteis da China e da Índia, o trabalho essencial do capitalismo
estará realizado. Então já não haverá grandes massas humanas para subjugar.
Seguramente ficarão enormes regiões selvagens onde desenvolver as culturas, mas
a sua exploração exigirá a cooperação consciente da humanidade organizada; os
métodos de rapina grosseiros do capitalismo, «a violação da terra» que destrói
a sua fertilidade, não poderão absolutamente ser empregues neste caso. Assim a
expansão do capital encontrar-se-á ela própria posta em cheque. Não como se um
obstáculo se levantasse subitamente diante dela, mas pouco a pouco, pela
dificuldade de vencer os seus produtos e investir o capital. Então o ritmo de
desenvolvimento baixará e a produção diminuirá. O desemprego tornar-se-á uma
doença insidiosa. Então a luta entre capitalistas pela dominação do mundo
tornar-se-á mais encarniçada, com a perspectiva de novas guerras mundiais.
Não
podemos deixar de duvidar do facto de que uma expansão ilimitada do
capitalismo, oferecendo possibilidades de vida duradoiras a toda a população,
esteja excluída pelo carácter económico intrínseco desse sistema. O momento
virá em que todos os males das depressões. as calamidades do desemprego, os
terrores; da guerra, se acentuarão cada vez mais. Então a classe operária, se
ainda não estiver revoltada, deve sublevar-se e combater. Então os
trabalhadores deverão escolher entre sucumbir passivamente ou bater-se
activamente para alcançar a sua liberdade. Então deverão assumir a tarefa de
criar um mundo melhor a partir do caos engendrado pelo capitalismo em plena
decrepitude.
E
eles bater-se-ão? A história humana é uma série incessante de combates; e
Clausewitz, o teórico de guerra alemão, tirava da história a conclusão de que
no mais íntimo de si mesmo o homem é um ser guerreiro. Mas outros, tão cépticos
como ardentes revolucionários, vendo a timidez, a submissão, a indiferença das
massas desesperam muitas vezes quanto ao futuro. É preciso examinar-mos duma
maneira mais aprofundada o impacto de todas as forças psicológicas.
O
impulso dominante e mais profundo no homem é, como para todos os seres vivos. o
instinto de conservação. Esse instinto obriga a defender a própria vida com
todas as forças. O medo e a submissão são assim o efeito desse instinto,
quando, frente a senhores todo-poderosos, são as melhores hipóteses de
conservação. De todas as diversas aptidões do homem, são essas as melhor
adaptadas para conservar a vida, nas circunstâncias do momento, que
prevalecerão e se desenvolverão. Na vida quotidiana, no regime capitalista, é
impossível e mesmo perigoso para um trabalhador conservar os seus sentimentos
de independência de orgulho; quanto mais os reprimir e obedecer em silêncio,
menos dificuldades encontrará para achar e conservar um emprego. A moral ensinada
pelos padres da classe dominante reforça esta disposição. E só alguns espíritos
independentes aceitam o desafio e estão prontos a enfrentar as dificuldades que
daí resultam.
Mas
em período de crise e de perigo, toda essa submissão, toda essa virtude, não
tem qualquer utilidade para a preservação da vida; somente o combate pode
consegui-lo e então eles cedem lugar aos opostos, a revolta e a coragem. Os
mais audazes dão o exemplo e os tímidos descobrem com surpresa de que actos de
heroísmo são capazes. A confiança e o ardor despertam neles; e crescem porque
só do seu desenvolvimento dependem as hipóteses de vida e de felicidade. E
imediatamente, por instinto e por experiência, eles sabem que só a colaboração
e unidade podem dar forças às massas. Quando então compreendem que forças
existem neles e nos seus camaradas, quando sentem a felicidade e o orgulho do
despertar do respeito por si mesmos e do devotamento fraternal, quando vêm
despontar a imagem duma sociedade nova que ajudam a construir, o entusiasmo e ardor
tornam-se uma força irresistível. Então a classe operária começa a estar madura
para a revolução. Então o capitalismo começa a estar maduro para o afundamento.
---*---
Assim,
uma humanidade nova está prestes a nascer. Os historiadores espantam-se muitas
vezes quando vêm as rápidas mudanças que intervêm no carácter das pessoas em
período revolucionário. Isso parece ter algo de milagroso; mas simplesmente
mostra quantos traços estão nelas escondidos, reprimidos porque não têm nenhuma
utilidade. E ressurgem então, temporariamente talvez; mas, se a situação
continua a exigi-lo, tornam-se as qualidades dominantes, transformando o homem,
tornando-o apto para fazer frente às novas circunstâncias e às novas
necessidades.
A
primeira metamorfose, a mais importante, exprime-se pelo desenvolvimento do
sentimento comunitário. As suas primeiras manifestações aparecem no
capitalismo, como consequência do trabalho comum e da luta comum. É reforçado
pela tomada de consciência, extraída da experiência, de que o operário isolado
é impotente contra o capital e que somente uma solidariedade efectiva pode
garantir condições de vida suportáveis. Quando a luta se torna mais áspera e
mais importante e se alarga numa luta pelo domínio sobre o trabalho e a
sociedade, uma luta de que dependem a vida e o amanhã, a solidariedade deve
estender-se, dar origem a uma unidade generalizada e indissolúvel. O novo
sentimento comunitário, penetrando por toda a parte a classe operária, suplanta
o velho egoísmo do mundo capitalista.
Isto
não é inteiramente novo. Nos tempos primitivos, predominava na tribo o
sentimento comunitário, o das formas simples, comunistas, do trabalho. O homem
estava inteiramente ligado à tribo, separado dela não era nada; em todos os
seus actos, o indivíduo não contava, comparado com a prosperidade e a honra da
comunidade. O homem primitivo era um com a tribo; estava ligado a ela por
relações complexas, inextricáveis, e não era ainda uma «pessoa» reconhecida.
Quando, seguidamente, os homens se separaram e se transformaram em pequenos
produtores independentes, o sentimento comunitário apagou-se para dar lugar a
um individualismo que fazia da própria pessoa o centro de todo o interesse e de
todos os sentimentos. Durante longos séculos que marcaram a ascensão da
burguesia, da produção mercantil e do capitalismo, o individualismo despertou e
esse novo carácter afirmou-se cada vez mais solidamente. É uma aquisição que
não pode mais ser contestada. Seguramente, isso não impede que o homem seja, no
sistema capitalista, um ser social; a sociedade comanda e, em momentos críticos
- por exemplo, revoluções e guerras -, o ssentimento comunitário impõe-se
temporariamente, como um dever excepcional. Mas em período normal, esse
sentimento é reprimido e submergido pela quimera orgulhosa da independência do
indivíduo.
Aquilo
que se desenvolve na classe operária não é a transformação inversa, como aliás
a modificação das condições da vida não é um regresso às formas do passado.
Trata-se de uma fusão do individualismo e do sentimento comunitário numa
unidade superior. É a subordinação consciente de todas as forças do indivíduo
ao serviço da comunidade. Ao gerar poderosas forças produtivas, os
trabalhadores, como os seus senhores todo-poderosos de hoje, desenvolvem a sua
personalidade a um nível ainda desigual. Desde que toma consciência da relação
que existe entre o sentimento de personalidade e a sociedade, o homem,
unificando este com o sentimento social infinito que o anima, atinge uma nova
percepção da vida, que se apoia na compreensão do facto de que a sociedade é a
fonte do ser humano inteiro.
O
sentimento comunitário é, desde sempre, a força principal, necessária para o
progresso da revolução. Esse progresso incarna no desenvolvimento da
solidariedade, das relações mútuas entre trabalhadores, na sua unidade. A
organização e poder crescente são caracteres novos, que se forjam durante a
luta; correspondem a uma transformação do ser no mais íntimo de si mesmo, a uma
nova moralidade. O que os comentadores dizem da guerra ordinária - quer dizer que
as forças morais aí têm um papel predominante -, é também verdadeiro para a
guerra de classes. O que aí se visa é de outro modo importante. As guerras não
têm sido sempre mais que uma luta entre forças rivais da mesma natureza, que,
qualquer que tenha sido o vencedor, não podia modificar a estrutura da
sociedade. Os conflitos de classes, pelo contrário, são combates por novos
princípios e a vitória da classe ascendente conduz a sociedade a um estado
superior de desenvolvimento. Se as comparamos com uma guerra no sentido
ordinário, verificamos que as forças morais exigidas aqui são de natureza
superior: colaboração dedicada e voluntária em lugar de obediência cega, fé num
ideal em lugar de fidelidade a chefes, amor aos seus companheiros de classe, de
humanidade, em lugar de amor à pátria. O seu desencadear não é uma violência
armada, nem assassínio, mas a firmeza, o endurecimento, a perseverança, a força
de persuasão, a organização. O seu objectivo não é partir cabeças, mas abrir
inteligências. É certo que a acção armada também jogará um papel importante na
luta de classes: a violência armada dos dirigentes não pode ser derrubada por
um sofrer paciente «à Tolstoi». Ela deve ser vencida pela força, mas por uma
força animada por uma profunda convicção moral.
Houve
guerras que tiveram um pouco esse carácter, guerras que eram uma espécie de
revolução - ou parte de uma revolução -, por ocasião das lutas pela liberdade
travadas pela burguesia. Nos locais onde a burguesia em expansão lutava pelo
domínio contra os poderes feudais do interior ou do estrangeiro (monarquia e
propriedade da «raiz») - como na Grécia da Antiguidade, a Itália e a Flandres
da Idade Média, a Holanda, a Inglaterra e a França dos séculos seguintes -, o
idealismo e o entusiasmo, nascidos de sentimentos profundos das necessidades de
classe, engendraram actos de grande heroísmo e abnegação. Esses episódios, tais
como os que encontramos na Revolução Francesa ou na libertação da Itália pelos
partidários de Garibaldi, contam-se entre as mais belas páginas da história
humana. Os historiadores glorificaram-nas e os poetas cantaram-nas, como épocas
de grandeza que jamais terminariam. Mas o que se seguiu a esta libertação, a
verdadeira realização prática da nova sociedade, foram a dominação pelo
Capital, o contraste entre o luxo insolente e a miséria, a avareza e a
rapacidade dos homens de negócios, a caça aos lugares de funcionário; todo esse
baixo espectáculo de baixo egoísmo caiu como um balde de água fria sobre a
geração seguinte. Nas revoluções burguesas, o egoísmo e a ambição de algumas
personalidades fortes jogam um papel importante; regra geral, os idealistas são
sacrificados e são os mais vis que alcançam a riqueza e o poder. Na burguesia,
cada um deve tentar elevar-se caminhando sobre os outros. As virtudes do
sentimento comunitário não foram senão uma necessidade temporária para permitir
à classe burguesa alcançar o poder; desde que esse fim foi atingido, dão lugar
a uma luta sem piedade de todos contra todos.
Aqui
tocamos a diferença fundamental entre as revoluções burguesas do passado e a
revolução operária que se aproxima. Para os trabalhadores, o forte sentimento
comunitário que nasce da sua luta pelo poder e pela liberdade é simultaneamente
a base de uma sociedade nova. As virtudes da solidariedade e do devotamento, os
impulsos para a acção comum numa sólida unidade engendrados pela luta social,
são os próprios fundamentos do novo sistema económico que assenta sobre o
trabalho em comum; serão exaltadas e perpetuadas pela sua própria prática. A luta
forma a nova humanidade, aquela requerida pelo novo sistema de trabalho. O
grande individualismo do homem depara, doravante, com uma melhor via para se
afirmar como a sede insaciável de poder pessoal sobre os outros. Aplicando toda
a sua força para a libertação da classe, desenvolver-se-á mais completamente e
nobremente que para atingir fins pessoais.
---*---
O
sentimento comunitário e de organização não chegam para vencer o capitalismo.
Porque ele mantém a classe operária na submissão, o domínio espiritual da
burguesia tem o mesmo poder que a força física. A ignorância é um entrave à
liberdade. As velhas ideias e tradições pesam enormemente nos espíritos, mesmo
quando já foram tocados por ideias novas. É que agora os objectivos são vistos
por outro ângulo mais estreito, as palavras de ordem bem sonantes são aceites
sem crítica, as ilusões de sucesso fácil, as meias-medidas e as falsas
promessas desviam do bom caminho. Mede-se assim toda a importância das forças
intelectuais para os trabalhados. O saber e a perspicácia são factores
essenciais para a ascensão da classe operária.
A
Revolução operária não será o efeito de uma força física brutal, será sim uma
vitória do espírito. Será certamente obra do poder resultante da massa dos
operários, mas este poder será sobretudo espiritual. Os trabalhadores não
ganharão por possuírem sólidos punhos - os punhos são facilmente dirigidos, por
vezes voltados contra os seus possuidores por espíritos astuciosos; também não
ganharão por serem a maioria - as maiorias ignorantes e desorganizadas foram
regularmente mantidas em sujeição e na impotência por minorias organizadas e
instruídas. A maioria só vencerá se forças, morais e intelectuais, poderosas
Ihe permitirem ultrapassar e dominar os seus senhores. Ao longo da história, as
revoluções não foram avante porque novas forças espirituais se levantaram nas
massas. Contudo as revoluções são períodos construtivos de evolução da
humanidade. E mais ainda que todas as que se desenrolaram no passado, a
revolução que fará dos trabalhadores os senhores do mundo exigirá as mais
levadas qualidades morais e intelectuais.
Poderão
os trabalhadores fazer frente a esta necessidade? Como poderão adquirir o saber
necessário? Seguramente não será nas escolas, onde as crianças são impregnadas
de ideias falsas sobre a sociedade, essas ideias que as classes dominantes
desejam ver-lhes adoptar. Certamente também não será nos jornais, pertencendo e
sendo editados por capitalistas ou por grupos em luta pelo poder. Com certeza
não será escutando os sermões lançados do alto dos púlpitos, de onde sempre foi
pregada a submissão e onde só raramente ascendem indivíduos como John Ball (1).
Certamente não será escutando a rádio, porque se, outrora, as discussões
públicas eram um meio poderoso dos cidadãos se iniciarem nos assuntos públicos,
hoje pelo contrário só saiam da rádio discursos de sentido único, procurando
esclerosar os auditores passivos e que, pelo seu barulho incessante e
inoportuno, não permitem uma reflexão ponderada. Certamente também não será indo
ao cinema, que ao contrário do teatro que foi, no início, um meio de educação e
mesmo de combate da burguesia -, faz somente apelo à impressão visual, mas
nunca à reflexão ou à inteligência. Todos são instrumentos poderosos que a
classe dominante utiliza para manter a classe operária numa escravatura
espiritual. Todos são empregues para esse fim, por vezes com uma astúcia
instintiva e uma intenção deliberada. E as massas trabalhadoras submetem-se à
sua influência sem se aperceberem de nada. Deixam abusar de si com palavras
enganadoras e aparências. Mesmo aqueles que compreendem um pouco o que são as
classes e as lutas, abandonam os seus assuntos aos dirigentes e aos políticos e
aplaudem-nos quando utilizam os velhos temas que Ihe são queridos. As massas passam
os seus tempos livres à procura de prazeres pueris, ignorando os grandes
problemas da sociedade e de que dependem a sua existência e a dos seus filhos.
Não será um problema insolúvel esse do desencadear e do sucesso da revolução
operária, quando a sagacidade dos dirigentes e a indiferença dos dirigidos
impedem todo e qualquer desenvolvimento das condições espirituais necessárias!
Mas
as forças do capitalismo trabalham nas profundezas da sociedade, empurrando as velhas
condições, impelindo as pessoas para a frente mesmo contra sua vontade. Os seus
efeitos perturbadores são, tanto quanto possível, reprimidos, para salvaguardar
os velhos hábitos de vida; acumulados no subconsciente, esses efeitos não fazem
mais que intensificar as tensões internas. Até que finalmente, durante a crise,
no paroxismo da necessidade, eles quebram tudo e libertam-se na acção, na
revolta. A acção não é o resultado duma intenção deliberada; surge
irresistivelmente, como um acto espontâneo. Em tais acções espontâneas, o homem
descobre aquilo de que é capaz e isso não deixa de o surpreender. E porque a
acção é sempre colectiva, revela a cada um que as forças confusamente sentidas
em si mesmo existem nos outros. A confiança e a coragem despertam com a
descoberta desta grande força de classe que é a vontade comum; apoderam-se de
massas cada vez mais importantes, sacodem-nas e arrastam-nas.
A
acção estala espontaneamente, imposta pelo próprio capitalismo aos
trabalhadores, que não a desejam. Ela não é o resultado, mas o ponto de partida
do seu desenvolvimento espiritual. Uma vez começada a luta, os trabalhadores
devem continuar a atacar e defender-se; devem utilizar no máximo as suas
forças. A indiferença desaparece, ela era apenas uma forma de resistência a
necessidades que se sentiam incapazes de dominar. Um período de esforços
intelectuais intensos aparece. Ao opor-se às forças imensas do capitalismo, os
trabalhadores compreendem que não podem esperar vencer a não ser pelo preço de
esforços cada vez maiores e utilizando todas as suas reservas de energia. O que
aparecia apenas sob a forma de vagos indícios no decorrer das lutas ordinárias,
desabrocha agora largamente. Toda a força que dormia no seio das massas
desperta e põe-se em movimento. É o trabalho criador da revolução. A
necessidade de uma sólida unidade está agora bem presente nas suas
consciências; a necessidade do saber faz-se agora sentir a todo o momento. Toda
a parcela de ignorância, toda a ilusão sobre o carácter e as forças do inimigo,
qualquer fraqueza na resistência à sua astúcia, a incapacidade para refutar os
seus argumentos e as suas calúnias, pagam-se com a derrota e o revés. Um desejo
ardente, surge dos impulsos profundos do ser, obrigando os trabalhadores a
fazer funcionar o seu cérebro. As novas esperanças, as novas visões do amanhã
animam o espírito, transformam-no numa força activa e viva, que não se poupa a
trabalhos na procura de verdade, na aquisição de conhecimentos.
Onde
encontrarão os trabalhadores o saber de que têm necessidade?
As
fontes são numerosas: toda uma literatura científica, de livros e brochuras,
explicando os factos fundamentais e as teorias da sociedade e do trabalho,
existe já e outras se seguirão. Mas essas obras apresentam a maior diversidade
de opiniões sobre o que deve ser feito; e os próprios trabalhadores devem
escolher e distinguir o que é verdadeiro e justo. Devem utilizar o seu próprio
cérebro, reflectir duma maneira profunda, discutir seriamente. Porque terão sem
cessar que fazer frente a novos problemas, problemas a que os velhos livros não
dão qualquer solução. Neles só encontrarão um conhecimento geral da sociedade e
do Capital; apresentam os princípios e teorias tirados das experiências
precedentes. O nosso próprio trabalho é procurar a sua aplicação a situações
que se renovam sem cessar.
Esta
compreensão necessária não pode resultar da instrução duma massa ignorante por
sábios professores, do rechear de crãneos de alunos passivos. Só pode ser
adquirida pela auto-educação, por essa actividade intensa que anima os cérebros
dum vivo desejo de compreender o mundo. A tarefa da classe operária seria bem
fácil, se apenas consistisse em receber a verdade estabelecida por aqueles que
a conhecem. Mas a verdade de que os operários têm necessidade não existe em
parte alguma do mundo, a não ser neles próprios. Ela tem de ser desenvolvida
neles e por eles próprios. O que está escrito neste livro não tem a pretensão
de ser uma verdade definitiva para ser aprendida de cor. Não é mais que um
sistema de ideias, elaborado a partir duma experiência da sociedade e do
movimento operário e das reflexões críticas que ela inspira. e editado para
levar outras pessoas a reflectir e a discutir os problemas do trabalho e a sua
organização. Há centenas de pensadores capazes de apresentar novos pontes de
vista; há milhares de trabalhadores inteligentes que, uma vez que tenham
examinado estes problemas, serão capazes de tirar do seu próprio conhecimento
uma melhor concepção, mais detalhada da organização da sua luta e do seu trabalho.
O que ali fica dito pode ser a faísca que acenderá a chama nos seus espíritos.
Existem
grupos e partidos que se pretendem detentores exclusivos da verdade. Tentam
conquistar os trabalhadores para as suas ideias pela propaganda e excluir e
aniquilar todas as outras opiniões. Pela coacção moral e, quando não têm outros
meios, também pela coacção física, tentam impôr as suas ideias às massas. Deve
ser bem claro para todos que o ensino unilateral dum sistema doutrinário só
pode servir - e de facto serve - para fabricar seguidores obedientes. Por isso
mantém a velha dominação ou prepara uma nova. A auto-emancipação das massas
trabalhadoras subentende a autonomia de pensamento, a aprendizagem por si
mesmo. Exige que as massas determinem elas próprias o que é verdadeiro ou
falso, pela actividade do seu próprio intelecto. Fazer trabalhar o cérebro é
muito mais difícil e muito mais fatigante que fazer trabalhar os seus músculos.
Mas é preciso fazê-lo, porque é o cérebro que comanda os músculos, e, se o não
fizermos, serão outros cérebros que os comandarão.
É
por isso que a liberdade sem limites de discussão, de expressão e de opinião é
o único ar verdadeiramente respirável, no decorrer das lutas operárias. Há mais
de um século, Shelley, o maior poeta inglês do século XIX, «o amigo dos pobres
abandonados por todos», reivindicava, contra um governo despótico, o direito,
para cada um, de exprimir livremente a sua opinião. «Cada homem tem direito a
uma liberdade de discussão ilimitada...
Não
tem somente o direito de exprimir as suas ideias, mas também o dever de o
fazer... e nenhum acto legislativo pode abolir esse direito». Shelley
proclamava a filosofia que afirma os direitos naturais do homem. Para nós. é
porque é necessária para a libertação da classe operária que a liberdade de
expressão e de imprensa deve ser afirmada. Restringir a liberdade de discussão
e impedir os trabalhadores de atingir o conhecimento que Ihes é necessário.
Todo o despotismo de outrora, todas as ditaduras de hoje começam por perseguir
a imprensa ou mesmo suprimir a sua liberdade; qualquer restrição imposta a esta
liberdade é o primeiro passo para conduzir os operários à dominação pelos novos
senhores, quaisquer que sejam. Contudo, não é necessário que as massas sejam
protegidas contra as mentiras, as deformações e a propaganda enganadora dos
seus inimigos? No domínio da educação, só mantendo o indivíduo cuidadosamente
afastado de influências nefastas se poderá nele desenvolver a faculdade de Ihes
resistir e de as vencer. A classe operária não poderá nunca fazer a
aprendizagem da sua liberdade, submetendo-se a uma tutela espiritual. Quando os
inimigos se apresentam disfarçados em amigos, e quando, examinando a
diversidade de opiniões, cada partido tem tendência a considerar os outros
todos como perigos para a classe, quem deve determinar o verdadeiro e o falso?
Os trabalhadores, seguramente; devem encontrar o seu caminho nesse domínio,
como em todos os outros. Mas os trabalhadores poderão condenar como nocivas
opiniões que, amanhã, se revelarão as bases dum novo progresso. Contudo, só
permanecendo aberta a todas as ideias que a vinda de um novo mundo engendra no
espírito dos homens, pondo-as à prova e escolhendo as que Ihe convêm,
exercitando o seu raciocínio e faculdades mentais, pondo as suas próprias
conclusões em prática, é que a classe operária conseguirá atingir a
superioridade intelectual requerida para dominar o poder do capitalismo e
constituir uma nova sociedade.
Cada
revolução da história foi uma época de febril actividade espiritual. Às centenas,
aos milhares, apareceram jornais e brochuras políticas testemunhando a intensa
auto-educação das massas. Na revolução proletária que virá não será diferente.
E ilusório pensar que, uma vez saídas da submissão, as massas terão uma visão
lúcida e uniforme e que seguirão o seu caminho sem hesitações, numa unanimidade
de opiniões. A história mostra-nos que, aquando de tais alvoradas, surgiu no
espírito dos homens uma profusão de ideias novas, as mais diversas, expressão
de um mundo novo, entrada hesitante da humanidade num novo domínio, oferecendo
imensas possibilidades, desabrochar da vida espiritual. É que só através da
confrontação de todas essas ideias se cristalizarão os princípios directores
essenciais das novas tarefas. Os primeiros grandes sucessos, resultados de
acções espontâneas e unidas, destruindo as velhas cadeias, não farão mais que
abrir todas as grandes portas da prisão; os trabalhadores, pelos seus próprios
esforços, deverão descobrir então novas orientações para irem mais longe na via
do progresso.
Isto
é o mesmo que dizer que esta época estará cheia do barulho das lutas
partidárias. Os que têm as mesmas ideias formarão grupos para as discutir entre
si e propagar, para esclarecer os seus camaradas. Tais grupos, com as mesmas
opiniões, poderão ser chamados partidos, se bem que o seu carácter seja
totalmente diferente do desses partidos políticos que o antigo mundo conheceu.
Sob o regime parlamentar, os partidos políticos são os órgãos representantes de
interesses de classe diferentes ou opostos. No movimento da classe operária
apresentavam-se como organizações, tomando a direcção da classe, agindo como
seus porta-vozes e seus representantes, e aspirando a guiá-la e dominá-la. A
nova função dos partidos estará antes limitada à luta espiritual. A classe
operária não tem necessidade deles para a sua acção prática; terá criado os
seus novos órgãos para a acção, os conselhos. Na organização da fábrica, a
organização em conselhos, será a totalidade dos operários que agirá e que
deverá decidir o que haverá a fazer. Nas assembleias e nos conselhos, as
diferentes opiniões serão expostas e defendidas e da controvérsia deverá sair a
decisão e acção unânime.
A
unidade do fim só poderá ser atingida pela discussão de pontos de vista
divergentes. A função dos partidos, e é uma função importante, será fazer tomar
forma à opinião, organizá-la por trocas, discussões, proceder de maneira que as
ideias nascentes tomem formas concisas, que se clarifiquem, que os argumentos
sejam exprimidos duma forma compreensível e pela sua propaganda, faze-los
conhecer por toda a gente. Só desta maneira os trabalhadores, nas suas
assembleias e conselhos, poderão julgar da verdade dessas ideias e argumentos,
dos seus méritos, da sua aplicabilidade em cada caso particular; poderão então
tomar as suas decisões com pleno conhecimento de causa. É assim que as forças
espirituais, criadas pelas ideias novas, que germinarão como ervas selvagens em
todas as cabeças, serão organizadas, postas em forma, transformadas em
instrumentos utilizáveis pela classe. Eis a grande tarefa que deve desempenhar
a luta entre partidos no decorrer do combate dos trabalhadores pela sua
libertação, tarefa muito mais nobre que aquela na qual os velhos partidos
gastavam todos os seus esforços: apoderar-se do poder por si próprios.
Passar
da supremacia de uma classe para a da outra, eis um elemento essencial de
qualquer revolução, tanto nas do passado como na da classe operária. Esta
transição não depende da sorte, de acontecimentos acidentais. Se os acidentes.
Os altos e baixos dependem de condições e situações diversas, que são
impossíveis de prever, constata-se igualmente, desde que se examinem as coisas
dum ponto de vista mais alargado, que existe uma marcha para diante bem
definida e que pode ser estudada com antecedência. Trata-se do crescimento do
poder social da classe ascendente e do enfraquecimento do poder social da
classe em declínio. Essas rápidas variações de poder, visíveis apesar de tudo,
são a característica fundamental das revoluções sociais. É preciso que
estudemos também mais de perto os elementos, os factores constituintes do poder
das classes que se opõem.
O
poderio da classe capitalista consiste, em primeiro lugar, na posse do capital.
Ela é a dona de todos as fábricas, das máquinas, das minas, de todo o aparelho
produtivo da sociedade. A humanidade depende por isso desta classe para
trabalhar e viver. Com o seu dinheiro e poder que este Ihe confere, pode não
somente comprar os servidores para seu uso pessoal, mas, quando é ameaçada,
estipendiar um número ilimitado de homens, jovens e robustos, para defender o
seu domínio, organizando-os em grupos bem armados e assegurando-lhes uma
posição social. Pode também, fornecendo-lhes lugares de honra e bons salários,
comprar artistas, escritores e intelectuais, não só para divertir e servir os
senhores do momento, mas também para cantar os seus louvores, para celebrar a
sua autoridade e, pela astúcia e também pelo saber, defender o seu domínio de
toda a crítica.
Mas
o poder espiritual da classe capitalista tem raízes mais profundas que a
possibilidade de comprar inteligências. A burguesia, donde é oriunda a camada
superior da classe capitalista, foi sempre uma classe iluminada e confiante em
si própria, graças à sua larga visão que se estende à escala do mundo. Para
ela, a existência, o trabalho, o sistema de produção deveriam assentar sobre a
cultura e o saber. Os seus princípios - reconhecimento da propriedade privada,
responsabilidade pessoal, exaltação do esforço e da energia individual
impregnam toda a sociedade. Os trabalhadores transportam para si mesmos essas
ideias; elas vêm-lhes dos meios pequeno-burgueses arruinados donde provêm, e
todos os meios físicos e espirituais possíveis são postos em acção para
preservar e reforçar a influência destas ideias pequeno-burgueses sobre as
massas. Assim, o domínio da classe capitalista está firmemente enraizado no
pensamento e mesmo nos sentimentos da maioria escravizada.
O
factor mais importante; do poderio da burguesia continua a ser a sua
organização política: o poder do Estado. Somente uma sólida organização pode
permitir a uma minoria governar a maioria. A unicidade e a continuidade dos
fins e a vontade do governo central, a disciplina da burocracia de
funcionários, que enerva a sociedade inteira como o sistema nervoso se ramifica
em todo o corpo e que é animada e dirigida por um mesmo estado e espirito, a
possibilidade da dispor de um força armada sempre que é necessário, tais são os
meios que permitem a esta minoria assegurar o domínio incontestável sobre a
população. A solidez da fortaleza exalta ao máximo as forças físicas da
guarnição e cria um poder indomável que reina sobre uma região inteira; o mesmo
acontece com o poder do Estado: consolida as forças físicas e espirituais da
classe dominante e cria uma fortaleza inatacável. O respeito que os cidadãos
têm pelas autoridades, respeito que provém do sentimento de que a existência de
autoridades é uma necessidade e a influência de tradições e da educação,
assegura normalmente a marcha sem atropelos do aparelho. Se o descontentamento
levasse a população à revolta, que poderia fazer desarmada e sem organização,
contra as forças armadas, bem organizadas e disciplinadas, do governo? Com o
desenvolvimento do Capitalismo, o poderio duma burguesia numericamente importante
encontra-se concentrado nas mãos de um número cada vez mais pequeno de grandes
capitalistas; o Estado concentra-se também, aumenta o seu poder e, estendendo
cada vez mais as suas funções, acrescenta; sempre a sua influência sobre a
sociedade.
Que
pode a classe operária opor a essas formidáveis forças?
Cada
vez mais a classe operária constitui a parte maior da sociedade (sobretudo nos
países ditos avançados); está concentrada em empresas industriais gigantes.
Todos as máquinas, todo o aparelho produtivo da sociedade está nas suas mãos,
não juridicamente sem dúvida, mas literalmente, na prática. É verdade que os
capitalistas são os senhores e os proprietários, mas nada podem fazer além de
comandar. Se a classe operária não fizer caso das suas ordens, não podem fazer
trabalhar as máquinas. Os trabalhadores, esses podem. Os operários são os
senhores directos e reais das máquinas; quer seja obedecendo a ordens ou
decidindo por si próprios, podem faze-las funcionar ou pará-las. São eles que
desempenham a função económica mais importante: toda a sociedade assenta sobre
o seu trabalho.
Esta
força de origem económica fica adormecida tanto tempo quanto os trabalhadores
forem subjugados pelas ideias burguesas. É a consciência de classe que faz uma
força efectiva. Pela prática de vida e do trabalho, os trabalhadores descobrem
que formam uma classe muito particular, explorada pelo Capitalismo, que eles
devem combater para se libertarem eles próprios da exploração. A sua luta
obriga-os a compreender a estrutura do sistema económico, a conhecer o que é a
sociedade. Mau grado todas as propagandas contrárias, este novo conhecimento
tirará das suas cabeças as ideias burguesas tradicionais, porque se enraíza na
verdade, na realidade vivida quotidianamente, enquanto que as velhas ideias
exprimem as realidades passadas de um mundo acabado.
É
pela organização que as forças económicas e espirituais se transformarão em
poder activo. A organização liga todas as vontades diferentes numa unidade de
fim e reúne as forças isoladas em poderosa unidade de acção. As suas formas
exteriores podem modificar-se e diversificar-se segundo as circunstancias, mas
ela tira a sua essência, o seu novo carácter moral, da solidariedade do firme
sentimento comunitário, do devotamento do espirito de sacrifico, da
auto-disciplina. A organização é o princípio vital da classe operária, a
condição da sua emancipação. Uma minoria. governando graças a uma forte
organização, não poderá ser vencida e não o será certamente, a não ser pela
organização da maioria.
Assim
se erguem, frente a frente, os elementos constitutivos do poderio das classes
antagonistas. Os elementos do poderio da burguesia aí estão, imensos e
temíveis, porque são forças que existem e dominam, enquanto que os do poder da
classe operária, à partida insignificantes, devem desenvolver-se com o impulso
duma vida nova. A classe operária cresce em número e em importância económica,
pela mesma razão que o capitalismo se desenvolve; mas outros factores de poder,
tais como a clarividência e a organização, dependem dos esforços dos próprios
trabalhadores. São esses factores que determinam a eficácia na luta e por
consequência eles são os resultados dessa mesma luta; todo o revés obriga, com
efeito, as células cinzentas e os cérebros a procurar remédio, todo o sucesso
enche os corações duma confiança plena de ardor. O despertar da consciência de
classe, um conhecimento mais profundo da sociedade e do seu desenvolvimento,
acarretam a libertação da escravatura espiritual, o fim da passividade, a
abertura às forças intelectuais, a ascensão das massas a uma verdadeira
humanidade. A união para um combate comum é já, fundamentalmente, uma
libertação social; os trabalhadores, escravizados pelo Capital, reencontram a
sua liberdade de acção. Da submissão acordam para a independência,
colectivamente, por essa união organizada que desafia o poder dos seus
senhores. Progredir, para a classe operária, é fazer avançar os factores do seu
poder. O que pode ser ganho como melhoria das condições de trabalho e de vida
depende da força que os trabalhadores adquiriram; se esta força declina, mesmo
relativamente - seja em relação à do capitalismo, seja em consequência de uma
clarividência e de esforços insuficientes ou de mudanças sociais inevitáveis -,
as condições de trabalho dos operários sofrerão. Só há um critério para julgar
qualquer forma de acção, táctica método de luta ou forma de organização:
aumentam ou não o poder dos trabalhadores? Na situação presente, sem dúvida,
mas também, e é o essencial, com vista ao futuro para atingir o fim supremo, a
destruição do capitalismo. Ontem o sindicalismo deu forma aos sentimentos de
solidariedade e de unidade e reforçou a força combativa dos operários,
agrupando-os numa organização eficaz; mas mais tarde, quando reprimiu todo o
espírito de luta e fez passar a obediência aos chefes à frente do instinto de
solidariedade de classe, o desenvolvimento do poder da classe operária foi
entravado. Ontem também, o trabalho dos partidos socialistas contribuiu
fortemente para despertar, nas massas, o interesse pela política e sua
compreensão; mas quando mais tarde esses partidos se puseram a tentar
restringir as actividades das massas ao parlamentarismo e começaram a
pregar-lhes ilusões de democracia política, tornaram-se uma fonte de fraqueza.
Ultrapassando
essas dificuldades passageiras, a classe operária deve fazer brotar a sua força
no decorrer das acções que hão-de vir. Deve esperar-se, sem dúvida, por um
período de crises e combates; poderão ocorrer alternâncias de calma, de
recaída, de consolidação do capitalismo. É então que tradições e ilusões
poderão agir momentaneamente como factores de enfraquecimento. Mas é também
então que se poderá aproveitar asses períodos de descanso para uma preparação
e, graças a uma propaganda perseverante, para fazer penetrar mais nos
trabalhadores as novas ideias de autodeterminação e de organização em
conselhos. Neste momento, e, aliás, desde agora, a tarefa de cada operário que
tomar consciência das possibilidades de libertação da sua classe, será a de
expandir as suas ideias entre os camaradas, tentar sacudir a indiferença e
abrir os seus olhos. Esta propaganda desempenha um papel essencial para o
futuro. A realização prática de uma ideia é impossível, enquanto não tiver
penetrado amplamente os espíritos das massas. A luta é uma fonte inesgotável de
poder para a classe em desenvolvimento. Não se pode prever agora que formas
revestirá o combate dos trabalhadores pela sua libertação. Conforme as épocas e
os lugares. poderá tomar a forma de guerra civil encarniçada, forma que as
revoluções de outrora, onde era necessário forçar a decisão, conheceram
frequentemente. Poder-se-ia pensar que os trabalhadores não teriam, em tal
caso, qualquer possibilidade, porque os governos e os capitalistas podem
recrutar exércitos em numero ilimitado, graças ao seu dinheiro e autoridade. De
facto, a força da classe operária não pode exercer-se plenamente nestes
confrontos sangrentos, os massacres e a matança. O seu verdadeiro terreno é o
domínio do trabalho, do trabalho produtivo e, para mais, esta força reside na
superioridade de espírito e de carácter dos membros da classe. E, na própria
luta armada, a superioridade capitalista não é incontestável. A produção de
armas está nas mãos dos trabalhadores; a acção das tropas mercenárias depende
do seu trabalho. Se estas tropas forem em número limitado e se toda a classe
operária, unida e sem temor, se erguer contra elas, elas serão reduzidas à
impotência e submersas pelo número. Se, pelo contrário, estas tropas forem
numerosas, compreenderão necessariamente trabalhadores acessíveis ao apelo de
solidariedade de classe.
A
classe operária deve encontrar e desenvolver as formas de luta adaptadas às
suas necessidades. Lutar pressupõe que ela siga a via que escolheu livremente,
guiada pelos seus interesses de classe, independente dos seus antigos mestres,
portanto oposta a eles. As suas faculdades criadoras afirmam-se na luta através
da descoberta das vias e dos meios. Outrora, as formas de luta da classe
operária tinham surgido espontaneamente da sua prática e da sua imaginação;
greve, voto, manifestação de rua, meeting de massa, panfletos, greve política,
eis alguns exemplos. O mesmo acontecerá no futuro. As acções, quaisquer que
sejam as formas assumidas, terão sempre as mesmas características, o mesmo fim,
o mesmo efeito: acrescentar os elementos próprios do poder da classe,
enfraquecer e destruir as forças do inimigo. A julgar pela experiência, são as
greves políticas das massas que têm as mais fortes consequências; no futuro
poderiam ser ainda mais eficazes. No decurso destas greves, nascidas de crises
agudas no seio de fortes tensões, os arrebatamentos são demasiado impetuosos,
as perspectivas demasiado vastas, para que sindicatos ou partidos, comités ou
estados-maiores de dirigentes oficiais possam assumir o seu comando. Trazem a
marca das acções directas de massas. Os trabalhadores não entram em greve
individualmente mas por fábrica, enquanto pessoal que decide colectivamente a
acção. Formam-se imediatamente comités de greve, que agrupam os delegados de
todas as empresas e apresentam já características dos conselhos operários.
Devem realizar a unidade na acção e, tanto quanto possível, a unidade nas
ideias e nos métodos, assegurando a interacção continua entre os impulsos da
luta, no seio das assembleias de fábrica, e as discussões no seio dos
conselhos. Assim, os trabalhadores criam os seus próprios órgãos, opondo-se aos
órgãos da classe dominante.
Tal
greve política é uma espécie de revolta, ainda que sob forma legal, dirigida
contra o governo. Tenta, ao paralisar a produção e as trocas, exercer uma
pressão tal que o governo seja obrigado a ceder às reivindicações dos
trabalhadores. Por seu lado, o governo, recorrendo às medidas políticas de
interdição das reuniões, de suspensão da liberdade de imprensa, de mobilização
das forças armadas - isto é, transformando a sua autoridade legal numa força
arbitrária, mas bem real - tenta quebrar a determinação dos grevistas. Nisso é
ajudado pela própria classe dominante que, graças ao seu monopólio da imprensa,
faz a opinião pública e tenta, através de uma propaganda intensa à base de
calúnias, isolar s desencorajar os grevistas. A classe dominante consegue
também recrutar voluntários, não somente para manter um mínimo de actividade
nas trocas e nos serviços públicos, mas também para formar bandos armados que
aterrorizam os trabalhadores e procuram levar a greve para o terreno da guerra
civil, forma que melhor convém à burguesia. A greve não pode durar
indefinidamente e uma das partes, a que possui mais fraca coesão interna, tem
de ceder.
As
acções de massas e as greves universais são a luta de duas classes, de duas
organizações que, apoiando-se cada uma na sua própria coesão, procuram que a
outra dobre e, finalmente, quebre. Isto não pode fazer-se no decurso de uma
única acção; é preciso uma sucessão de lutas, toda uma época de revolução
social. Porque cada uma das classes antagónicas dispõe de recursos profundos,
que constituem a base do seu poder e que Ihes permite refazer-se depois de um
revés. Os trabalhadores podem ser desencorajados e vencidos num dado momento,
as suas organizações podem ser destruídas, os seus direitos abolidos, mas as
forças sempre em movimento do capitalismo, as suas próprias forças internas e a
sua vontade de viver, erguê-los-ão uma vez mais. O capitalismo, por sua vez,
também não pode ser destruído de um só golpe; mesmo se a sua fortaleza, o
Estado e o seu poder, for sacudida e demolida, a classe capitalista dispõe
ainda de toda o peso das suas forças físicas e espirituais. A história é
pródiga de exemplos de governos totalmente desamparados, mesmo abatidos pela
guerra e pela revolução, que foram repostos no lugar pelo poder económico da
burguesia, seu dinheiro, suas capacidades intelectuais, sua paciente
habilidade, sua consciência de classe que se incarna num ardente sentimento
nacional. Mas, finalmente, a classe operária que constitui a maioria do povo,
aquela cujo trabalho está na base de toda a sociedade, aquela que tem a
disposição directa do aparelho de produção, essa classe deve arrebatá-lo. E
esta vitória deve tomar a forma duma dissolução e dum desabamento do poder do
Estado, a mais potente organização da classe capitalista, sob a acção de uma
sólida organização da classe maioritária.
Aí
onde a acção dos trabalhadores for tão poderosa que os próprios órgãos do
governo sejam paralisados, os conselhos deverão desempenhar as funções
políticas. Os trabalhadores deverão assegurar a ordem e a segurança pública,
ocupar-se da continuidade da vida social, os conselhos são os órgãos apropriados
para essa tarefa. O que é decidido nos conselhos é posto em prática pelos
trabalhadores. É por isso que os conselhos se tornarão os órgãos da revolução
social. Com os progressos da revolução, as suas tarefas terão cada vez maior
amplitude. Enquanto durar a luta das classes pela supremacia, tentando cada
uma, graças à solidez da sua organização, quebrar a da outra, a sociedade deve
continuar a viver. Mesmo que nos momentos críticos de alta tensão ela possa
viver das reservas de géneros, a produção não pode estar parada por um tempo
muito longo. É por esta razão que os trabalhadores, se as suas forças internas
de organização falham, são constrangidos pela fome a ficar de novo sob o antigo
jugo. É a razão pela qual, se forem suficientemente fortes para desafiar,
rechaçar e abater o poder do Estado, se conseguirem sobrepor-se à violência, se
se tornarem senhores das fábricas, devem imediatamente ocupar-se da produção.
Serem senhores das fábricas traz imediatamente a necessidade de organizar a
produção. A organização posta a funcionar para a luta, os conselhos, serão
igualmente a organização da reconstrução.
Diz-se
dos Judeus da Antiguidade que construiriam os muros de Jerusalém, que lutaram
com a espada numa mão e a pá na outra. Aqui a espada e a pá serão uma só.
Construir a organização da produção é pôr em marcha a arma mais poderosa, pode
mesmo dizer-se a única arma verdadeira, para destruir o capitalismo. Por toda a
parte onde os trabalhadores abriram o seu caminho nas fábricas e se apoderaram
das máquinas, devem imediatamente começar a organizar o trabalho. Aí onde a
direcção capitalista tenha desaparecido, tenha perdido toda a audiência e
poder, os trabalhadores reconstruirão a produção sobre novas bases. Pela sua
acção prática, estabelecerão o novo direito, a nova lei. Não poderão esperar
que a luta tenha completamente terminado por toda a parte, em todos os
domínios; a nova ordem deverá nascer de baixo, partir das fábricas, trabalho e
luta misturados.
Simultaneamente,
os órgãos do capitalismo e do governo definharão até se tornarem coisas
completamente supérfluas e estranhas à nova ordem. Poderão ainda fazer mal, mas
terão perdido essa autoridade de que se revestem as instituições úteis e
necessárias. Então os papéis serão invertidos. É uma evidência que se imporá
cada vez mais a todos. A classe operária e os seus órgãos, os conselhos, formam
o poder que determina a ordem, porque a vida e prosperidade da; população
inteira dependem do seu trabalho e da sua organização. As medidas e os
regulamentos decididos nos conselhos, executados e seguidos pelas massas
trabalhadoras, serão respeitados e reconhecidos como emanando de uma autoridade
legítima. Ao contrário, os velhos organismos governamentais enfraquecerão, para
se tornarem forças exteriores que tentarão simplesmente impedir a estabilização
da ordem nova. Os bandos armados da burguesia, mesmo que ainda se mantenham
poderosos, tomarão cada vez mais o carácter de perturbadores ilegais, de
destruidores nocivos, no mundo de trabalho em plena ascensão. Causadores de
agitação, acabarão por ser submetidos e dissolvidos.
Eis
tanto quanto nos é possível prevê-lo neste momento, a maneira como o poder do
Estado desaparecerá, com o desaparecimento do próprio capitalismo. Outrora predominavam
ideias diferentes sobre a futura revolução social. Pensava-se que a classe
operária devia primeiramente conquistar o poder político, alcançando através de
eleições a maioria no parlamento, eventualmente com a ajuda de lutas armadas ou
de greves políticas. O novo governo que dai resultaria, composto de
porta-vozes, de chefes e políticos, teria, por decreto, estabelecido um novo
direito, expropriado a classe capitalista e organizado a produção. Os próprios
trabalhadores apenas teriam tido que fazer metade do trabalho, a parte menos
essencial; o trabalho real, a reconstrução da sociedade, a organização do
trabalho, teria sido realizada pelos políticos e burocratas socialistas. Esta
concepção é a imagem da fraqueza da classe operária dessa época; pobre,
miserável, sem poder económico, era-lhe necessário ser conduzida à terra
prometida da abundância por outros, por chefes capazes, por um governo cheio de
boas intenções. E, bem entendido, assim continuaria na sujeição, porque a
liberdade não se dá, conquista-se. Esta ilusão fácil foi dissipada pelo
crescimento do poder do capitalismo. Hoje, os trabalhadores devem compreender
que só desenvolvendo ao mais alto grau o seu próprio poder, poderão esperar
conquistar â sua liberdade, devem compreender que a dominação política, o
domínio da sociedade tem de estar fundamentados no poder económico, no domínio
do trabalho.
A
conquista do poder político pelos trabalhadores, a abolição do capitalismo, o
estabelecimento do novo Direito, a apropriação das empresas, a reconstrução da
sociedade, a construção dum novo sistema de produção, não são elementos
sucessivos e distintos. São simultâneos, coexistem no desenrolar de um processo
de transformação social. São de facto aspectos diferentes, baptizados com nomes
diferentes, dum mesmo processo, duma grande revolução social: a organização do
trabalho pela humanidade trabalhadora.
ANTON PANNEKOEK