K a r l K o r s c h
O ponto
de vista da concepção materialista
da história
(1922)
Para
os eruditos burgueses dos nossos dias, o marxismo representa não só uma grave dificuldade
teórica e prática de primeira ordem, mas, além disso, uma dificuldade teórica
de segunda ordem, uma dificuldade "epistemológica". Não é possível
arrumá-lo em nenhuma das gavetas tradicionais do sistema das ciências burguesas
e mesmo se se quisesse abrir especialmente para ele e para os seus compadres
mais chegados uma nova gaveta chamada sociologia, ele não ficaria sequer quieto
lá dentro, iria constantemente passear para todas as outras.
"Economia", "filosofia", "história", "teoria
do Direito e do Estado", nenhuma destas rubricas pode contê-lo, mas
nenhuma estaria a salvo dele se se quisesse metê-lo noutra. Falta-lhe,
portanto, por completo aquela qualidade que Karl Marx celebrou uma vez como
"a raiz da moral e da probidade alemãs, que se encontra não só nos
indivíduos, mas também nas classes", esse "egoísmo modesto que
reivindica a sua própria estreiteza de espírito e deixa que a façam valer
contra si próprio". Pelo contrário, já nessa inconstância latina com que
zomba de todas as tentativas de classificação, mesmo dos mais eminentes
dignatários da república das letras burguesa, se reconhece, independentemente
de tudo o resto, que ele é totalmente estranho ao "carácter alemão".
A
explicação simples para estas dificuldade insolúvel do ponto de vista da
epistemologia burguesa consiste em que o marxismo não pode ser considerado como
uma "ciência", mesmo no sentido burguês mais amplo do termo, em que a
palavra "ciência" compreende mesmo a mais especulativa filosofia
metafísica. Se portanto, se designou até agora normalmente o socialismo e o
comunismo marxista como socialismo científico, para o opor aos sistemas
"crítico-utópicos" de um Saint-Simon, um Fourier, um Owen etc., e se
trouxe, assim, durante décadas, um conforto indescritível à honrada alma pequeno-burguesa
de muito social-democrata alemão, a constatação de que, precisamente no sentido
decoroso e burguês do termo "ciência", o marxismo nunca foi nem nunca
poderá ser, enquanto permanecer fiel a si próprio, uma "ciência", não
pode senão destruir cruelmente este belo sonho.
[ Crítica da economia e crítica da
ideologia ]
O
marxismo não é nem uma "economia", nem uma "filosofia", nem
uma "ciência", nem qualquer outra "ciência humana" (Geisteswissenschaft)
ou combinação destas ciências - tudo isto entendido no sentido do
"espírito científico" burguês. A principal obra económica de Marx
contém, pelo contrário, como diz expressamente o seu subtítulo e como todo o
seu conteúdo confirma página por página, uma "crítica" da economia
política, o que deve evidentemente entender-se como crítica da economia política
tradicional, pretensamente "imparcial", mas, na realidade,
estritamente "burguesa" quer dizer, determinada e limitada por
preconceitos burgueses; isso torna igualmente óbvio que esta crítica da
economia política resulta abertamente do ponto de vista novo da classe que, de
todas as classes existentes, é a única que não tem nenhum interesse na
manutenção dos preconceitos burgueses e cujas condições de existência apontam,
antes pelo contrário, cada vez mais imperativamente para a sua destruição definitiva,
prática e teórica. E o que se aplica à economia marxista aplica-se também a
todos os outros elementos do sistema de pensamento marxista, quer dizer, às
doutrinas que o marxismo professa sobre questões que, segundo os critérios de
classifição tradicionais da epistemologia burguesa, pertenceriam ao domínio da
filosofia, da história ou de qualquer outra "ciência humana". Também
nestas partes da sua doutrina, Marx não quer fazer de "Hércules fundador
de impérios".
São
completamente erradas as ideias da erudição burguesa e semi-socialista, que
partem do pressuposto de que o marxismo queria estabelecer um nova
"filosofia" em lugar da filosofia anterior (burguesa), uma nova
"historiografia" em lugar da historiografia anterior (burguesa) uma
nova "teoria do Direito e do Estado" em lugar da teoria do Direito e
do Estado existente (burguesa), ou ainda uma nova "sociologia" em
lugar desse produto inacabado a que a epistemologia burguesa actual chama
"a" ciência sociológica. A teoria marxista quer tanto isto como o movimento
social e político do marxismo de que ela é a expressão teórica visa substituir
o velho sistema dos Estados burgueses e de todos os membros que o compõem por
novos "Estados" ou por um "sistema de Estados". Em vez
disso, Karl Marx propõe-se como objecto a "crítica" da
filosofia burguesa, a "crítica" da historiografia burguesa, a
"crítica" de todas as "ciências humanas" burguesas, numa
palavra, a "crítica" da ideologia burguesa, no seu conjunto - e
empreende esta crítica da "ideologia" burguesa, do ponto de vista da
classe proletária.
Assim,
enquanto a ciência e a filosofia burguesas perseguem o fantasma enganoso da
"objectividade", o marxismo renuncia de antemão e em todos os seus
domínios a esta ilusão. Ele não quer ser uma ciência "pura" ou uma filosofia
"pura", mas antes criticar a "impureza" de toda a ciência e
filosofia burguesas conhecidas desmascarando impiedosamente os seus
"pressupostos" implícitos. E mesmo esta sua "crítica" não
quer, por sua vez, de forma alguma ser uma crítica "pura" no sentido
burguês da palavra. Não é empreendida só por ser, de forma
"objectiva", está na mais estreita relação com a luta prática de
libertação da classe operária, de que se sente e se diz simples expressão
teórica. Ela distingue-se, por conseguinte, de tudo aquilo a que a ciência e a
filosofia burguesas tradicionais chamaram "crítica" e que encontrou a
expressão teórica mais acabada na filosofia crítica de Kant tão radicalmente
como de toda a ciência ou filosofia burguesa não crítica (dogmática, metafísica
ou especulativa).
Se
queremos agora compreender o ponto de vista novo e particular a partir do qual
o marxismo, na sua qualidade de "expressão
geral das condições reais de uma luta de classes que existe" (1),
empreendeu e levou a cabo a sua "crítica" da economia e da ideologia
da burguesia, importa conseguirmos um ideia clara e completa da concepção
especificamente marxista da vida social do homem que os seus partidários e
adversários designam hoje habitualmente pela expressão, que não é perfeitamente
exacta em todos os sentidos, de "concepção materialista da história".
Em relação a isto, temos de novo que começar com a pergunta: que relação existe no sistema global do marxismo entre as
duas partes que distinguimos na sua doutrina, entre a crítica da economia, por
um lado, e, por outro, aquilo a que chamamos a crítica da ideologia?
Há
que observar aqui antes de mais nada que elas formam uma unidade indivisível. É
totalmente impossível rejeitar as "teorias económicas" do marxismo,
mas querer, ao mesmo tempo, ser "marxista" na atitude face às
questões políticas, jurídicas, históricas, sociológicas e outras questões
extra-económicas. E a inversa é também uma empresa completamente impossível,
por mais frequentemente que economistas burgueses que já não podiam fechar-se à
verdade das "teorias económicas" do marxismo a tenham tentado: não se
pode dar o acordo à Crítica da Economia Política de Marx e querer, ao
mesmo tempo, recusar as consequências que dela decorrem para a posição a tomar
face a problemas políticos, jurídicos, etc.
A
"crítica da economia política" e a "crítica da ideologia"
da classe burguesa constituem, pois, no sistema marxista, um todo indivisível,
cujas partes não podem ser simplesmente separadas umas das outras e supostas
isoladamente por si sós. A importância que corresponde a cada uma das partes no
interior do sistema marxista é, porém, absolutamente diferente. Isto revela-se
entre outras coisas, na minúcia diferente com que Marx tratou as duas partes do
seu sistema nas obras que chegaram até nós. Karl Marx, que, no período da
juventude, se tinha ele próprio colocado num ponto de vista filosófico que, a
utilizar a sua terminologia ulterior, se teria que qualificar de puramente
"ideológico", só por um longo e difícil trabalho de reflexão dele se
conseguiu libertar-se.
Entre
o período de juventude e o verdadeiro período de maturidade a sua actividade
criadora, há um longo trabalho de "autoclarificação". No decurso
deste, porém, libertou-se tão radicalmente de toda a ideologia que já não
reservou à "crítica da ideologia", nos seus períodos ulteriores,
senão observações ocasionais, enquanto o melhor do seu interesse se voltava
agora cada vez mais para a "crítica da economia política". A sua obra
levou-a ele, assim, a cabo começando por uma "crítica da ideologia"
em que descobriu o seu novo ponto de vista materialista, que aplicou então
ocasionalmente em todos os domínios da forma mais fecunda embora já só o tenha
levado verdadeiramente até às últimas consequências no domínio que lhe parecia
agora o mais importante: o da economia política. Estes diversos estádios da
evolução de Marx podem indicar-se nas suas obras da forma mais precisa. Ele
começou o segundo e mais importante período da sua actividade criadora com a Crítica
da Filosofia do Direito de Hegel (1843-44), inspirada pela crítica
da religião de Feuerbach, e encheu ainda, alguns anos depois, juntamente com o
seu amigo Engels, "dois grossos volumes in octavo" com uma crítica de
toda a filosofia alemã post-hegeliana.
Já
não mandou, porém, imprimir esta Segunda obra e, no período de maturidade da
sua vida que se iniciou então, deixou de forma geral de dar grande valor à
elaboração mais detalhada de uma "crítica da ideologia". Em vez
disso, dedicou-se, desde então, com todas as suas forças, à investigação
crítica do domínio económico, em que tinha descoberto o verdadeiro eixo de
todos os movimentos sócio-históricos. E, neste campo, levou então a sua tarefa
"crítica" mesmo até ao fim. Criticou a economia política tradicional
da classe burguesa de maneira não só negativa, mas também positiva,
opondo, para usar aqui uma das suas expressões favoritas, a
"economia política da classe operária".
Na
economia política da classe possidente burguesa, a propriedade privada domina,
mesmo teoricamente, toda a riqueza social, o trabalho morto acumulado do
passado domina o trabalho vivo do presente. Inversamente na economia política
do proletariado e também, portanto, na sua "expressão teórica", o
sistema económico do marxismo, a "sociedade" (Sozietät) domina todo o
seu produto, quer dizer, o trabalho vivo domina o trabalho morto acumulado ou
"capital". E é aqui que se encontra, como reconheceu Marx, o eixo em
torno do qual tem que girar a eminente transformação do mundo; é em torno deste
ponto que, por conseguinte, tem que girar, no plano teórico uma confrontação
"radical", quer dizer, "que vá até à raiz das coisas"
(Marx), entre a filosofia e a ciência burguesas e as novas ideias que a classe
operária forja ao avançar para a libertação.
Uma
vez feito isto em profundidade, todas as outras transformações, tornam-se quase
evidentes. Quando se aproxima a hora da acção histórica, toda a crítica
"ideológica" do passado já não pode, pois, ser vista senão como uma
forma imatura daquele conhecimento de que depende, em ultima analise, a
realização prática da transformação do mundo histórico. Só se considerarmos
retrospectivamente a evolução histórica da consciência revolucionária da nossa
época é que podemos dizer que "a critica da religião foi a condição prévia
de toda a crítica". Se olharmos em frente, o que é verdade, pelo
contrário, é que a luta contra a religião só muito mediatamente é a luta
contra o mundo de que a religião é o "aroma espiritual". Se queremos
chegar à acção histórica real, trata-se, portanto, de transformar a
"critica do céu" numa "critica da terra". E transformar a
"critica da religião" na "critica do Direito" na critica da
teologia" na "crítica da política", é apenas um primeiro passo
neste sentido. Com tudo isso, continuamos a só abarcar a "outra face"
do ser humano e ainda não a sua verdadeira "realidade", ainda não a
"questão propriamente terrestre na sua dimensão natural". Isto só
acontecerá quando procurarmos o adversário no terreno em que ele se encontra na
realidade, com todas as suas actividades reais e também com todas as suas
ilusões; o terreno da economia, da produção material. Toda a critica da
religião, da filosofia, da história, da política e do Direito tem, portanto,
que ir buscar a sua fundamentação última à "mais radical" de todas as
críticas, à crítica da economia política (2).
Desta
posição fundamental que a "economia política" ocupa no sistema
crítico do marxismo (os burgueses diriam: a economia política é a "ciência
fundamental" do marxismo!) resulta que, para fundar teoricamente o
marxismo, não há absolutamente nenhuma necessidade de uma critica pormenorizada
da ciência jurídica e política, da historiografia e de todas as outras
"ideologias" burguesas que leve à constituição de uma nova ciência
marxista do Direito, do Estado e da sociedade. Os epígonos de Marx, que se
incluem a si próprios entre os "marxistas ortodoxos", vão num
perfeito descaminho quando, como Renner, na Áustria, ou Conow, na Alemanha,
sentem a necessidade imperiosa de "completar" a economia política do
marxismo com uma teoria acabada do Direito ou do Estado ou mesmo com uma
sociologia marxista completamente desenvolvida. O sistema marxista precisa
tanto deste complemento como uma "filologia" ou
"matemática" marxistas. Também o conteúdo dos sistemas matemáticos é
condicionado histórica, social, económica e praticamente - e é significativo
que isto seja hoje muito menos contestado neste preciso domínio do que em
muitos outros incomparavelmente mais concretos do saber humano; não oferece a
mínima dúvida que, antes, durante e, sobretudo, depois da transformação
iminente do mundo sócio-histórico, a matemática se transformará também
"com maior ou menor rapidez".
[ O materialismo
histórico contra a ideologizaçom da ciência ]
A
concepção materialista da história e da sociedade aplica-se, portanto, também à
"matemática". Mas seria um disparate ridículo que um
"marxista" pretendesse por isso afirmar, baseando-se no seu
conhecimento mais aprofundado das realidades económicas, sociais e históricas
que determinam também, "em ultima instância", a evolução passada e
futura da ciência matemática, que poderia agora, por sua vez, opor uma nova
matemática "marxista" aos sistemas que o labor milenário dos
matemáticos edificou. Mas é precisamente isto que Renner e Cunow tentaram
fazer, com meios absolutamente insuficientes para esse fim, noutros campos
científicos determinados (no campo igualmente milenário da "ciência
jurídica" e no da mais jovem ciência "burguesa", a sociologia!).
E é isso que tentam inúmeros outros pseudomarxistas, que julgam poder
acrescentar qualquer coisa de novo aos resultados práticos da investigação
histórica ou da filosofia ou de qualquer outra ciência humana ou da natureza
com a repetição monótona da sua profissão de fé marxista. Um Karl Marx e um
Friedrich Engels, porém, que dominavam, no entanto, o saber do seu tempo em
mais do que um campo científico de forma verdadeiramente enciclopédica, nunca
se entregaram a tais ideias insensatas e delirantes. Deixavam isso aos Dühring
e companhia, de que, tal como hoje e sempre, havia no seu tempo número mais que
suficiente. No que lhes competia, limitavam-se estritamente, no que respeitava
a todas as ciências que excediam a sua especialidade económica e os campos de
investigação filosófica e social a ela imediatamente ligados, a uma crítica
radical, não dos resultados objectivos da investigação em si, mas do ponto de
vista burguês, que irradia mesmo para estas esferas "espirituais".
É
precisamente na detecção destas radiações das mais ténues que eles revelam um
génio que não encontra equivalente em nenhum outro cientista, mas tão só, no
máximo, em alguns poetas. Para conseguir esta proeza, eles tinham evidentemente
que penetrar com o maior rigor no objecto e no método das ciências em questão e
é claro que cérebros como os de Marx e Engels não podiam, nesta circunstância, deixar
de fazer certas descobertas concretas, mesmo em domínios bastante afastados da
sua especialidade económico-sociológica. Não era este, porém, de forma alguma o
objectivo que se propunham. O que pretendiam era unicamente seguir o ponto de
vista burguês contra que lutavam desde a base económica até às ramificações
"ideológicas" mais ténues e, mesmo nestes seus últimos redutos,
oferecer-lhes combate com as armas da crítica.
Este
exame levou-nos a reconhecer, por um lado, a unidade interna do conjunto do sistema
de pensamento de Marx, mas também, por outro lado, a importância diversa dos
seus vários elementos dentro do conjunto. Foi na crítica da ideologia
tradicional que Karl Marx elaborou o seu ponto de vista
"materialista" que lhe fez ver no factor económico ou na
"economia política" o factor fundamental e determinante da vida
histórica e social do homem. Reconheceu então como sua missão específica o
levar, neste domínio fundamental, até às últimas consequência a crítica das
concepções burguesas tradicionais. No seu último período, transferiu mesmo, no
essencial, a luta contra a ideologia burguesa para este domínio, já que é aqui,
na base mais profunda do sistema social burguês, que todas as ideologias
burguesas têm também evidentemente as suas origens. Em contrapartida, foi já
ocasionalmente, nalguns poucos escritos, extremamente condensados e perfeitos
na forma, mas, na aparência, de pouca envergadura, que ele se entregou, na
última fase, ao exame crítico da ideologia nos outros domínios da existência história
e social.
Este
exame da conexão global do sistema de pensamento de Marx revela já também
implicitamente o caracter perfeitamente absurdo das lamentações repetidas e
comoventes pelo facto de Karl Marx não ter exposto de forma circunstanciada,
numa obra à parte, como fez para a "economia política", as suas
concepções filosóficas, quer dizer, o ponto de vista e o método da sua
concepção "materialista" da história e da sociedade.
Na
realidade, Karl Marx apresentou-nos com a máxima minuciosidade, por assim
dizer, de forma viva, esta sua ideia "materialista" fundamental com
todas as suas consequências nas suas obras e particularmente na principal, O
Capital, e revelou-nos, assim, de forma infinitamente mais clara a essência
desta sua concepção fundamental do que poderia tê-lo feito com uma descrição
teórica. A importância d’O Capital não se limitou de forma alguma ao
domínio do "económico". Nesta sua obra, Karl Marx não só criticou
radicalmente a economia política da classe burguesa, mas, ao mesmo tempo, todas
as outras ideologias burguesas que têm a sua origem nesta ideologia económica
básica. E, ao pôr em evidência como toda a filosofia e ciência burguesas são
condicionadas por esta ideologia económica, atacou, ao mesmo tempo,
criticamente e da forma mais radical todo o principio ideológico. Não se
contentou com uma critica puramente negativa face à "economia
política" da burguesia, contrapôs-lhe, por seu lado, sem jamais abandonar
totalmente o terreno da crítica, um sistema completo de uma economia nova: a economia
política da classe operária; da mesma forma, ao mesmo tempo que refutava
criticamente o princípio "ideológico" da filosofia e ciência
burguesas, contrapunha-lhe um novo ponto de vista e um novo método, o ponto de
vista e o método da concepção "materialista" da classe operária
sobre a história e a sociedade que ele tinha elaborado e fundado juntamente
com o seu amigo Friedrich Engels. Neste sentido, o sistema teórico de Karl Marx
sempre contém, portanto, em aparente contradição com o que sobre isso dissemos
ao princípio, tanto uma "ciência", a nova ciência da economia
marxista, como também uma "filosofia", a nova concepção
filosófico-materialista da ligação de todos os fenómenos históricos e sociais.
Esta
contradição é, porém, apenas aparente. Tivemos que a deixar aparecer porque não
se pode dizer tudo de uma vez. É que, na realidade, tanto sob um como sob o
outro aspecto, quer dizer, tanto na sua "economia" como na sua
"filosofia", já não estão de forma alguma em causa, na teoria
marxista, uma "ciência" ou uma filosofia no sentido burguês
tradicional destas palavras. É certo que tanto a "doutrina económica do
marxismo" como o seu princípio geral, a "concepção materialista da
história", contém ainda, em parte, alguma coisa análoga à ciência e
filosofia burguesa. Como refutação crítica e superação destas, elas continuam
ainda inevitavelmente, sob certo aspecto, a ser ciência e filosofia. Mas, por
outro lado, vão já, ao mesmo tempo, mais além do horizonte da ciência e da
filosofia burguesas. É o mesmo que se passa com o Estado que a classe
proletária vencedora no combate político e social prático erigirá em lugar do
Estado burguês destruído e que continuará a ter, sob certo aspecto, o carácter
de "Estado" (no sentido actual da palavra); só sob outro aspecto, na
qualidade de fase de transição para a sociedade comunista futura, sem classes
e, portanto, também sem Estado, é que ele já não será bem, ao mesmo tempo, um
"Estado", mas já algo superior .
Esta
comparação, bem como toda a exposição precedente sobre a essência da doutrina
de Marx, pouco poderão de certo dizer, à primeira vista, a quem não tiver já
penetrado por si próprio mais profundamente nesta doutrina. Quer-se travar
conhecimento coma a "concepção materialista da história" de Marx e nós
começamos com explicações que já se situam elas próprias totalmente no terreno
desta nova concepção marxista e, por conseguinte, já a pressupõem.
Consideramos, porém, que esta via, por mais impraticável que pareça a
princípio, é a única que permite conduzir a uma verdadeira compreensão do ponto
de vista novo e singular de Karl Marx. O filósofo Hegel exige, na sua Fenomenologia
do Espírito, da consciência do indivíduo que se confie espontaneamente a
ele e ao seu método "dialéctico", mesmo se o pensamento segundo este método
filosófico lhe parece, a princípio, uma tentativa análoga à de "caminhar
sobre a cabeça"; do mesmo modo, quem quiser chegar a uma verdadeira
compreensão do método de Marx, da "dialéctica materialista", em
contraposição à "dialéctica idealista" de Hegel, deve começar por se
confiar sem reservas a este método, tanto quanto lhe for possível. Nenhum
professor de natação pode ensinar a nadar quem não quer entrar na água antes de
ter apreendido a nadar. O próprio Karl Marx procede sempre n’O Capital e
nas outras obras do seu período de maturidade de forma que o seu ponto de vista
materialista, para cujo desenvolvimento e fundamentação mais aprofundada todas
estas obras, por sua vez, contribuem, está já, contudo, nelas pressuposto. Isto
aplica-se à Crítica da Economia Política de Marx, mas também à sua
crítica de toda a ciência e de toda a filosofia burguesas, que qualificamos
atrás de "crítica da ideologia" no sentido que Marx, dá ao termo.
Em
todas as obras de Marx, não se encontra senão um único passo em que ele tenha
tentado parafrasear explícita e, em certa medida, completamente o ponto de
vista específico a partir do qual todas as suas obras desde meados dos anos
quarenta foram escritas. Esse passo, cada palavra do qual deve se pesada, lida
e relida vezes sem conta, se se quiser assimilar completamente o sentido destas
poucas frases extremamente condensadas, encontra-se no prefácio à Crítica da
Economia Política de 1859. Com a clareza enérgica que caracteriza o seu
estilo, Marx dá aqui algumas curtas "indicações" sobre o curso dos
seus estudos universitários e sobre a sua breve actividade jornalística. Foi
nesta que ele se viu primeiro na "situação embaraçosa" de ter que se
pronunciar sobre "os chamados interesses materiais" e caiu, assim,
num terrível conflito interior com o seu ponto de vista anterior, que era, no
essencial, idealista hegeliano. O seu jornal foi interdito pela censura poucos
meses depois do início da sua actividade como redactor e ele aproveitou
"avidamente" a oportunidade para se retirar de novo da cena pública
"para o gabinete de trabalho", a fim de esclarecer estas dúvidas.
"O primeiro trabalho, empreendido para resolver as dúvidas que me
assediavam, foi uma revisão crítica da filosofia do Direito de Hegel, cuja
introdução apareceu em letra de forma nos Anais Franco-Alemães, publicados
em Paris, em 1844. As minhas investigações levaram-me à conclusão de que tanto
as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser explicitadas nem
por si próprias nem pela chamada evolução geral do espírito humano, antes têm
as suas raízes nas condições materiais de existência cujo conjunto Hegel reúne,
a exemplo dos Ingleses e Franceses do século XVIII, sob o nome da
"sociedade civil"; é na economia política que é preciso buscar a anatomia
da sociedade civil. Comecei em Paris o estudo desta ciência e continuei-o em
Bruxelas, para onde tinha emigrado na sequência de uma ordem de expulsão do Sr.
Guizot. O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu de fio
condutor aos meus estudos, pode formular-se resumidamente da seguinte forma:
Na produção social da sua existência, os homens contraem relações
determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção,
que correspondem a um dado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas
materiais. O conjunto destas relações de produção forma a estrutura económica
da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e
política e a que correspondem formas determinadas de consciência social. O modo
de produção da vida material condiciona a existência social, política e
intelectual em geral. Não é a consciência do homem que determina a sua
consciência. Em determinado grau da sua evolução, as forças produtivas
materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção
existentes ou, o que não é senão uma expressão jurídica disso, com as relações
de propriedade em cujo seio se tinham movido até então. Estas relações
transformam-se de formas de desenvolvimento das forças produtivas em seus entraves.
Abre-se então uma época de revolução social. Com a transformação da base
económica, toda a imensa superestrutura se transforma com maior ou menor
rapidez.
Ao considerarmos estas transformações, é sempre preciso distinguir
entre a transformação material das condições económicas de produção,
susceptível de ser constatada de modo cientificamente rigoroso, e as formas
jurídicas, políticas, religiosas ou filosóficas, numa palavra, ideológicas em
que os homens tomam consciência deste conflito e o dirigem até ao fim. Assim
como não se julga um indivíduo pelo que ele pensa de si próprio, também não se
pode julgar uma tal época de revolução pela consciência que ela tem de si
própria, é preciso, pelo contrário, explicar esta consciência pelas
contradições da vida material, pelo conflito entre as forças produtivas sociais
e as relações de produção. Uma formação social nunca declina antes que se tenha
desenvolvido todas as forças produtivas que ela é suficientemente ampla para
conter e nunca surgem novas relações de produção superiores antes de as suas
condições materiais de existência se terem gerado no próprio seio da velha
sociedade. É por isso que a humanidade nunca se propõe senão tarefas que pode
levar a cabo, já que, se virmos bem as coisas, chegaremos sempre à conclusão de
que a própria tarefa só surge se as condições materiais da sua resolução já
existem ou estão, pelo menos, em vias de se formarem.
Em traços largos, os modos de produção asiático, clássico, feudal e
burguês moderno podem ser qualificados como épocas progressivas da formação
económica da sociedade. As relações de produção burguesas são a última forma
antagónica do processo social da produção, antagónica, não no sentido de
antagonismo individual, mas no de um antagonismo nascido das condições de
existência social dos indivíduos; mas as forças produtivas que se desenvolvem
no seio da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais que
resolverão este antagonismo. Com esta formação social, termina, portanto, a
pré-história da sociedade humana."
Nestas
poucas frases, exprime-se com a maior clareza
e precisão possíveis o traçado e os elementos
do que se deve entender por «concepção
materialista da história e da sociedade». Mas
nem se tenta apoiar estas afirmações em
qualquer demonstração nem se indica suficientemente
as extensas consequências teóricas e práticas que
delas resultam, para dar ao leitor que
não tenha lido as principais obras de
Marx uma ideia da sua importância; falta
também, por fim, uma prevenção contra determinados
equívocos que a forma e o conteúdo destas frases
em certa medida favorecem. E que, para o
objectivo imediato que Marx se propunha com
estas breves «indicações», todos os
acrescentamentos desse tipo teriam sido supérfluos.
Ele comunica ao leitor por que «fio
condutor» se deixou guiar nos seus estudos económicos
e sociais. E é evidente que a única maneira
como Marx podia demonstrar teoricamente que o
seu método era «adequado»era aplica-lo a
determinados domínios da investigação cientifica, em
particular ao estudo dos factos «de economia
política». Friedrich Engels cita uma
vez. num contexto semelhante, o provérbio inglês
« the proof of the pudding is in the eating (3). Não será nunca uma
discussão teórica mais ou menos confusa que
poderá decidir definitivamente se um método
cientifico é correcto ou não, mas apenas um
ensaio «prático», por assim dizer, desse método.
Como
Marx sublinha expressamente, não se deve procurar nestas frases, tal como se
apresentam por si sós, mais que um «fio condutor» para o estudo dos
dados empíricos (quer dizer, neste contexto, históricos)
da existência social do homem. Mais tarde,
Marx manifestou-se ainda mais que uma vez contra o equívoco
que significava querer ver nelas mais que isso. Mas é evidente que, por trás
destas frases se esconde algo mais do que aquilo que nelas se
exprime directamente. Não esgotamos o seu significado se não virmos nelas mais
que o enunciado hipotético de um «principio heurístico». Juntamente com tudo o
que Karl Marx escreveu antes e depois, elas contêm o que, mais do que todas as
chamadas «filosofias» que produziu a época burguesa moderna, merece o nome de «cosmovisão»
filosófica. Isto porque a separação rígida entre teoria e prática que
caracteriza justamente esta época burguesa e que a filosofia da Antiguidade e
da Idade Média tinham desconhecido é aqui, pela primeira vez nos tempos
modernos, superada de novo completamente, o que já Hegel, ao elaborar o seu
método «dialéctico», tinha preparado.
Citámos
já, atrás, algumas palavras do célebre passo do Manifesto Comunista sobre
o significado das «concepções teóricas» no sistema do comunismo marxista:
«as concepções teóricas do
comunismo não assentam de forma alguma em ideias, em princípios inventados ou
descobertos por este ou aquele reformador do mundo. Elas não são senão
expressões gerais das condições reais de uma luta de classes que existe, de um
movimento histórico que se desenrola diante dos nossos olhos».
Isto
encontra-se em antítese absoluta com a ideologia burguesa, segundo a qual os
princípios e ideais teóricos se opõem automaticamente, como essências ideias
válidas só por si, à realidade comum, terrena e material, o que implica que se
pode melhorar o mundo a partir da ideia.
[ As Teses sobre Feuerbach ]
Estas
palavras do Manifesto encontram uma fundamentação mais detalhada e
precisa nas onze Teses sobre Feuerbach, que Marx anotou, em 1845, para
sua «autoclarificação» e que Friedrich Engels deu, mais tarde, a público como
apêndice a uma das suas próprias obras filosóficas (Ludwig Feuerbach e o fim
da Filosofia Clássica Alemã, 1888).
Estas
onze teses do jovem Marx contém muito mais que o «germe genial da cosmovisão»
que Engels nelas vê. O que nelas se exprime com rigor audacioso e uma clareza
luminosa nunca vistas é toda a concepção filosófica fundamental do
marxismo. Sob estas onze marteladas enérgicas, desmoronam-se um a um todos os
esteios em que assentava a filosofia burguesa. Marx não se detém aqui nem um
instante no «dualismo» ordinário entre pensamento e ser, entre vontade e
acção que é característico, até aos nossos dias, da filosoìia vulgar da época
burguesa. Começa imediatamente com a crítica dos dois grandes grupos de
sistemas filosóficos que tinham já realizado, no seio do próprio mundo burguês,
uma superação aparente do dualismo. Quer dizer, começa. por um lado, com a
critica dos sistemas do «materialismo» anterior, que culmina em Feuerbach, e,
por outro, dos sistemas do «idealismo» de Kant-Fichte-Hegel. Ambos são
desmascarados como mentirosos e, em seu lugar, surge o novo materialismo, que desfaz
de um só golpe os mistérios da teoria ao colocar o homem no mundo como ser
pensante e, ao mesmo tempo, actuante e ao conceber agora a objectividade deste
mundo no seu conjunto como «produto» da «actividade» do «homem socializado».
Esta viragem filosófica decisiva encontra a sua expressão mais concisa e
incisiva nos dois curtos períodos da oitava tese:
«A vida social é essencialmente prática. Todos
os mistérios que fazem a teoria perder-se no misticismo encontram a sua solução
racional na pratica humana e na compreensão desta prática.»
Se
queremos compreender na sua totalidade o que há de essencialmente novo
nesta concepção de Marx, temos que tomar consciência da dupla oposição em que
ela se encontra, por um lado, em relação ao «materialismo» e por outro, em
relação ao «materialismo» que a precedem. Contrariamente ao «idealismo», que,
mesmo na filosofia hegeliana da identidade, continua a conter o «Além» como
momento bem visível, o «materialismo» de Marx coloca-se no campo de um «Aquém»
plenamente realizado: não só os «ideais» ético-práticos, mas também todas as outras
«verdades» teóricas têm para Marx esta natureza estritamente terrena. Os deuses
eternos que cuidem da manutenção das eternas verdades divinas. Todas as
verdades que disseram ou jamais dirão respeito a nós, seres terrenos, são de
natureza terrena e, por conseguinte sujeitas também, sem qualquer privilégio, à
«caducidade» e a todas as outras chamadas «insuficiências» dos fenómenos
terrenos.
Mas,
por outro lado, também nada no mundo do homem é um simples ser morto, um jogo
cego de forcas que se movem inconscientemente e de matérias que são deslocadas,
como o velho «materialismo» as mais das vezes imaginou! As «verdades» também
não. Todas as «verdades» humanas são pelo contrário, tal como o próprio
homem que as pensa, um produto e, diferentemente dos chamados puros «produtos
da natureza» (que, enquanto «natureza», não são, no fundo, «produtos»), um
produto humano. Quer dizer, portanto, para falar mais precisamente, que eles
são um produto social, engendrado juntamente com outros produtos da
actividade humana pela cooperação dos homens no quadro da divisão do trabalho,
nas condições naturais e sociais de produção de uma época determinada da
história da natureza e da humanidade.
Estamos
agora de posse da chave da compreensão de toda a «concepção materialista da
sociedade» de Karl Marx. Os fenómenos deste mundo real em que vivemos como
seres pensantes e seres actuantes ou como seres a um tempo actuantes e
pensantes dividem-se em dois grupos principais: por um lado, pertencemos,
juntamente com tudo o que existe. a um mundo que podemos considerar como
«natureza», quer dizer, como um mundo «inumano» totalmente independente do
nosso pensamento, da nossa vontade e da nossa acção. Por outro lado, enquanto
seres capazes de pensar, querer e agir, situamo-nos, ao mesmo tempo, num mundo
sobre o qual exercemos uma acção prática e cujos efeitos práticos
experimentamos e que, por conseguinte. podemos considerar essencialmente como
nosso produto, da mesma forma que somos produto dele.
Estes
dois mundos, o natural, por um lado, e o da prática histórica e social, por
outro, não são, porém mundos separados, mas um e um só: a sua unidade vem-lhes
de que ambos estão envolvidos pela existência passiva-activa dos seres humanos.
que continuamente reproduzem e desenvolvem, na sua cooperação no quadro da
divisão do trabalho e no seu pensamento, o conjunto da sua realidade. Mas o
traço de união entre dois mundos assim considerados não pode residir senão
precisamente na economia ou, mais exactamente, na «produção material». É que,
como Marx afirma expressamente numa «introdução geral» à sua economia critica
(4). «esboçada» em 1857, também para sua «autoclarificação» este processo de
produção material constitui. de entre todos os múltiplos factores a partir de
cuja interacção a vida histórica e social do homem se forma, se renova
continuamente e se desenvolve, o factor que «abrange» todos os outros e os
junta, assim, numa unidade real.
Ludwig
Woltmann, antropólogo político, filosofo kantiano e socialista revisionista,
distingue, na sua obra sobre O Materialismo Histórico (5), Seis aspectos
diferentes do «materialismo», que, segundo ele, devem ser todos considerados
como partes integrantes do «marxismo como cosmovisão». Afirma ele (pág. 6):
«marxismo como cosmovisão é em
traços largos, o sistema mais acabado do materialismo. Compreende:
1. O materialismo dialéctico, que
examina os princípios gnoseológicos gerais que regem as relações entre ser e
pensamento.
2. O materialismo filosófico, que
resolve os problemas da relação entre espírito e matéria no
sentido da ciência moderna.
3. O materialismo biológico do
evolucionismo derivado de Darwin.
4. O materialismo geográfico, que
demonstra a dependência da história cultural do homem da configuração da
superfície da terra e do meio físico da sociedade.
5. O materialismo económico, que
põe a descoberto a influência das relações económicas, das forças produtivas e
do estado da técnica sobre a evolução social e intelectual. O materialismo
geográfico e o económico constituem a concepção materialista da história no
sentido restrito.
6. O materialismo ético, que
representa a ruptura radical com todas as representações religiosas do Além e
transfere todos os fins e energias da vida e da história para a realidade
terrena (6).»
Pode
perfeitamente conceder-se a Woltmann que o marxismo mantém uma certa relação,
mais ou menos íntima, com todos estes aspectos do materialismo. Mas não os
contém de Forma alguma como elementos necessários da sua essência. A «concepção
materialista da história e da sociedade» só compreende verdadeiramente, pelo
contrario, as duas categorias que Woltmann qualifica no fim como o
quinto e o sexto aspectos do materialismo. O materialismo de Marx é de facto um
materialismo «ético» no sentido que Woltmann dá aqui à palavra e não, portanto.
no sentido, por exemplo, da concepção ética em que «o interesse privado se
considera como o fim último do mundo» e que Marx estigmatizou numa das suas
obras de juventude (Nachlasse, I, pág. 321) como um «materialismo
corrompido». O marxismo deixa o «materialismo» ético nesta última acepção aos
representantes da concepção burguesa do mundo e dessa moral mercantil que,
ainda há bem pouco, um órgão capitalista glorificou nos termos seguintes:
«O comerciante que, por falsa
timidez perante um lucro excessivo numa especulação coroada de êxito, renuncia
voluntariamente a uma parte da sua sorte enfraqueceria com isso ele próprio a
sua forca de resistência a perdas futuras e a sua acção seria apenas
economicamente insensata, sem ser de forma alguma moralmente boa» (Deuetsch
Bergwerkszeitung, editorial de 23-3-22).
Contrariamente
a este «materialismo ético» da classe capitalista, o «materialismo ético» da
classe operária representa essencialmente, como Woltmann justamente acentua, a
ruptura radical com todas as representações do Além; e por «representações do
Além» não se deve entender aqui apenas as representações, própria, expressa e
conscientemente religiosas, mas também (o que Woltmann, como Kantiano, não
reconheceu suficientemente) todas as representações «substitutas» que a
filosofia iluminista e, mais tarde, a filosofia idealista critica puseram em
seu lugar, por exemplo. a ideia de uma pura legislação da Razão por meio do
imperativo categórico.
Finalmente,
como veremos ainda mais de perto, se queremos romper de facto «radicalmente»
com «todas» as ideias do Além e consumar «completamente» esta viragem para a
realidade terrena, há ainda mais coisas a considerar: além das ideias e dos
ideais práticos e éticos da religião e da moral burguesa dualista, pertencem
também ao Além as verdades do conhecimento teórico, enquanto se estiver
possuído da ideia de que há verdades «em si», «eternas», imperecíveis e
imutáveis, que a ciência e a filosofia teriam que procurar até acabarem por as
encontrar, depois do que as possuiriam de forma já não sujeita a mutações. Uma
concepção destas é um sonho, e nem sequer um sonho bonito, porque uma
ideia imutável, invariável, seria evidentemente, ao mesmo tempo, uma ideia já
não susceptível de ser desenvolvida. Ora, é evidente que por uma
coisa destas só uma classe saturada, que se sente bem e realizada na situação
presente, se pode entusiasmar. Mas, para uma classe que luta e se esforça por
avançar e que, na situação a que se chegou, se sente, portanto, necessariamente
insatisfeita, ela nunca terá valor.
Em
segundo lugar o materialismo marxista é de facto um «materialismo económico».
Ele vê o traço de união entre a evolução da natureza e a evolução da sociedade
humana no processo económico concebido como «produção material» através da qual
os homens reproduzem e desenvolvem continuamente os seus meios de existência e,
portanto, a sua existência e todo o conteúdo desta. A par desta «realidade» da
vida social dos seres humanos, que tem uma importância primordial, todos os
outros acontecimentos da existência histórica, social e prática no sentido mais
lato, que inclui, portanto, também a existência «espiritual», são em si mesmos
fenómenos, é certo que não menos reais, mas, contudo, com menos influência
sobre o desenvolvimento do todo; são, para empregar a imagem de Marx, apenas a
superestrutura do edifício da vida social do homem, enquanto a base deste
edifício é formada pela «estrutura económica» respectiva da sociedade.
É
porém incorrecto que o antropólogo Woltmann, que se coloca no ponto das vista
das «ciências da natureza» e não no das «ciências sociais», acrescente que «o
materialismo geográfico e o económico» só «conjuntamente» constituem a
«concepção materialista da história no sentido restrito». Já que queremos
diferenciar uma concepção materialista da história no sentido «lato» e no
sentido «restrito», parece-me indubitável que a determinação do sentido
restrito do materialismo especificamente marxista, por contraste com o que já
só em sentido lato representa um «materialismo», tem que ser feita, segundo
Marx, no sentido de se distinguir o materialismo como concepção materialista da
existência «sócio-histórica» do materialismo a que Marx e Engels chamaram
«naturalistas» (7).
A
consideração das influencias geográficas, bem como das biológicas e
de outras influencias «naturais» sobre a evolução histórica da sociedade humana
situa-se então fora do campo da «concepção materialista da história em
sentido restrito». Esta verdade, encoberta por Woltmann e por muitos outros que
escreveram sobre a concepção materialista da história de Marx, impor-se-á
necessariamente a quem quer que se dê ao trabalho de penetrar de forma
independente nas obras de Marx.
[ História e natureza ]
Tal
como Hegel, Herder, e um muito grande número de outros filósofos,
historiadores, poetas e sociólogos dos séculos XVIII, XIX e XX, Karl Marx
considera sobremaneira importante a influência de todos estes factores
naturais, físicos ou outros, sobre a evolução da sociedade humana. Esta não é
evidentemente para ele nada de exterior ou superior à «natureza»; encontramos,
por exemplo, nos apontamentos para desenvolvimento posterior que ele anotou no
fim da sua «introdução geral» à Critica da Economia Policia de 1837 um
reconhecimento expresso desse sentido lato do Conceito de
«natureza», em que «está compreendido tudo o que é objectivo, portanto, também
a natureza». E anota expressamente: «É evidente que o ponto de partida são os
factores naturais; subjectiva e objectivamente, povos, raças, etc.».
Em O Capital, Marx indicou então efectivamente, em muitos passos
extraordinariamente elucidativos, essas determinações «naturais» da evolução
económica e social do homem. Na sua correspondência com Engels, encontramos
mais provas do valor que Marx atribuiu a esse complemento e fundamentação do
seu materialismo sócio-histórico pelas «ciências da natureza». Assim, por
exemplo, para só escolher uma frase muito curta, ele faz a seguinte observação
muito característica sobre a Natural Selection de Darwin, numa
carta de 19-12-1860: «Embora grosseiramente elaborada, como costumam os
Ingleses, é esta a obra que contém os fundamentos de história natural que
servem às nossas ideias».
A
despeito de tudo isto, considerar a concepção materialista da história e da
sociedade uma aplicação simples e directa dos princípios da investigação
cientifica à existência histórica e social, seria uma incompreensão muito
grosseira das ideias e intenções de Marx e também de Engels, na medida em que
consideramos que também neste ponto existe concordância entre os dois amigos.
Os fundadores do comunismo materialista, que tinham passado pela escola de
Hegel, não podiam cair em superficialidades destas. O conjunto da base natural,
no seu estado respectivo e na. «história natural» da sua evolução, exercia,
segundo eles, uma influência imediata da máxima importância sobre a evolução
histórica da sociedade humana, mas. apesar de toda a sua força, esta influência
permanece, contudo, mediata.
Os
factores naturais como clima, raça, riquezas naturais e outros não intervêm
directamente como tais no processo de desenvolvimento histórico-social,
condicionam apenas o grau de desenvolvimento das «forças produtivas materiais»
existente em cada lugar ao qual «correspondem», por sua vez, relações sociais
determinadas: as «relações materiais de produção». Só estas relações materiais
de produção social constituem então, como «estrutura económica da sociedade» a
«base real» que condiciona toda a vida social, incluindo a existência
«espiritual». Mas Marx separa sempre o mais rigorosamente possível estas
diferentes coisas. Mesmo onde parece, a principio, que uma observação sua se
refere à vida natural do homem nas suas relações com a natureza, trata-se
sempre, em todos os casos, se virmos bem, da vida histórica e social que se
desenrola sobre esta base social, influenciando-a e sendo por ela influenciada,
segundo as suas próprias leis histórico-sociais e não segundo simples «leis
naturais» como tais.
Esta
fidelidade indefectível de Marx ao seu ponto de vista e objecto sociais
mostra-se de forma particularmente clara num passo do primeiro volume d’O
Capital em que se trata de novo de Darwin. Nele se Iê: «Darwin atraiu a
atenção para a história da tecnologia natural, quer dizer, para a
formação dos órgãos das plantas e dos animais como instrumentos de produção da
sua vida. Não merece a mesma atenção a história da formação dos órgãos
produtivos do homem social, da base material de toda a organização social
particular? E não seria ela mais fácil de levar a cabo, já que, como diz
Vico, a história do homem se distingue da história da natureza porque aquela
fizemo-la e esta não? A tecnologia desvenda o comportamento activo do homem
face à natureza, o processo directo de produção da sua vida e, portanto, também
das suas condições sociais de existência e das representações espirituais que
delas derivam». - Assim, mesmo a «tecnologia», isto é, o estudo da natureza não
como ela é em si mesma mas na forma sob que se apresenta como objecto e
material da actividade humana, desvenda, é certo, ao mesmo tempo que elucida o
processo de produção natural da vida humana «também» o processo de produção das
suas condições sociais e existência. Todavia como o diz ainda mais
explicitamente a introdução Geral de 1857 já várias vezes mencionada, a
«economia política» não se torna por isso uma «tecnologia», permanece sempre a
ciência de um «objecto social»(8).
E
última análise, todas as incompreensões de Woltmann e, parece-me, todas
verificadas até agora no que respeita à verdadeira essência da concepção
materialista da história e da sociedade de Marx têm uma e a mesma causa; uma
realização ainda insuficiente do principio da «imanência» (Diesseitigkeit). Todo
o «materialismo»de Marx consiste precisamente, na
sua expressão mais concisa, na aplicação, levada
pura e simplesmente até as últimas consequências.
deste principio à existência histórico-social do
homem. E sóporque exprime da forma mais clara
este caracter «absolutamente» imanente do pensamento
de Marx é que o nome de «materialismo», aliás
demasiado equívoco, merece, não obstante, continuar
a designar a concepção marxista. Ele exprime
este significado único e fundamentalíssimo do
marxismo tão bem como é possível Fazê-lo numa
se palavra.
Todo
o «materialismo» tem, como já vimos, a sua primeira
origem na critica da religião. Ao
declarar, nos seus programas, a religião «assunto
privado», em vez de vincular os seus partidários expressamente a agir
«irreligiosamente», a social-democracia colocou-se já por
isso em posição irreconciliável com o principio
fundamental do marxismo. Para a dialéctica materialista,
a religião pode tanto ser «assunto privado» como
qualquer outra ideologia. Se não recuamos perante
um paradoxo, poderíamos antes caracterizar francamente
este estado de coisas nos termos seguintes:
a irreligiosidade, o combate «à»religião, em geral, e não só o
combate às pretensões exclusivas de dominação de uma qualquer religião
determinada, já oferecido do ponto de vista democrático-burgês, tem para o
revolucionário materialista o mesmo significado que a religião tem para o
crente. Trata-se aqui de um «problema materialista de transição» semelhante ao
que já destacámos atras a propósito do «Estado», da «ciência» da filosofia.
Na
medida em que se desenrola como um processo
intelectual no cérebro humano antes,
durante e depois da transformação das condições
sociais de produção, transformação em que
se baseia tudo o resto, a critica, combate a
superação da religião tem ainda inevitavelmente
sob um certo aspecto, a forma de «religião»,
justamente na sua qualidade de «superação da religião». Neste sentido, a
fórmula, hoje usada a maior parte das vezes como simples maneira de falar, que
designa o socialismo ou o comunismo como a «religião deste mundo» reveste-se
ainda de um muito grande significado real
para. a actual fase de evolução da
sociedade europeia (ainda e, talvez, precisamente
para ela). A «religião deste mundo», como primeira
etapa, ainda absolutamente insuficiente, na transição
para a consciência plenamente imanente (diesseitig)
do mundo da sociedade comunista, corresponde
efectivamente no Estado da «ditadura revolucionária
do proletariado» do período de transformação revolucionária da
sociedade capitalista na sociedade comunista.
Uma
irreligiosidade radical, um ateísmo activo, são, pois. a condição prévia evidente
de uma plena imanência do pensamento e da acção no sentido do materialismo de
Marx. Mas esta plena imanência não resulta ainda da simples superação das
representações religiosas do Além. Há ainda um «Além»mesmo «neste mundo»enquanto
se acreditar no valor intemporal e, portando,
supra-terrestre de quaisquer «ideias» teóricas ou práticas. E
mesmo depois de o pensamento humano ter superado mais esta etapa, pode
acontecer que continue a não encontrar a imanência especifica e, em última
análise, única real que, segundo Marx (segunda tese sobre Feuerbach) não se
encontra senão na «prática»humana. Só o ultrapassar também desse
«Além» que continua ainda agarrado ao materialismo
simplesmente «naturalista» ou «contemplativo» (anschauend) como
resíduo intacto da época dualista burguesa constitui, por conseguinte a
verdadeira realização da «imanência»no sistema da concepção materialista
da história e da sociedade de Karl Marx.
O
passo decisivo pelo qual o novo materialismo marxista
chega a esta realização definitiva e capital da
sua imanência consiste em opor à
realidade definida simplesmente, no sentido restrito
e cientifico do termo, como «natureza», a
realidade da «existência prática, social e
histórica do homem». Como precisamente o livro de Woltmann e
centenas de outros e, sobretudo, a evolução histórica das diversas tendências
dos partidos socialistas e semi-socialistas da Europa c da América não se
cansam de demonstrar, o materialismo essencialmente naturalista e contemplativo
não é de modo algum capaz de dar uma solução «materialista» ao problema da revolução
social a partir do seu ponto de vista, pois que a ideia de uma revolução a
realizar no mundo real graças a acções humanas reais já não tem para ele qualquer
«objectividade» material.
Para
um materialismo destes, para o qual a objectividade da acção humana prática
permanece sempre, em última análise, um, «Além» imaterial, só há, em
consequência, duas atitudes possíveis face a realidades «materiais práticas»como
a «revolução». Ou deixa, como diz Marx na
primeira tese sobre Feuerbach, «o desenvolvimento
do aspecto activo ao idealismo», via
que seguiram e seguem todos os maxistas-kantianos,
revisionistas e reformistas, ou então toma o
caminho que a maioria dos sociais-democratas alemães
seguiu até a guerra e que hoje, depois de
a social-democracia ter passado a um reformismo
declarado, se tornou posição característica dos «marxistas
centristas»: considera o declínio da sociedade
capitalista e o nascimento da sociedade socialista-comunista
como uma necessidade económica que, mais tarde
ou mais cedo, «virá por si» com a
necessidade das leis naturais. Esta via conduz
então, segundo todas as probabilidades, e fenómenos
«extra-económicos» que caem do céu e permanecem
propriamente inexplicáveis, como a Guerra Mundial de
19141918, que, de início, ficou sem ser
aproveitada para a libertação do proletariado.
Bem
pelo contrário, como Karl Marx e Friedrich Engels
repetiram sempre em todas as suas obras
desde a juventude até ao fim da vida,
a despeito de toda a «teoria das duas almas»(Zweiseelentheorie),
sóa revolução que a actividade humana prática
realizará conduz da sociedade capitalista à
comunista; e esta revolução não deve ser concebida
como uma mutação «intemporal»mas antes como
um longo período de luta na transição
entre a sociedade capitalista e a comunista, no
decurso da qual a ditadura revolucionária do
proletariado deve realizar a transformação revolucionária
de uma na outra (Marx, Glosas Marginais
ao Programa do Partido Operário Alemão,
1675). É que, segundo o principio geral deste seu
materialismo que Marx tinha já formulado,
trinta anos antes, com uma concisão clássica,
na terceira das Teses sobre Feuerbach,
primeiro esboço da sua nova concepção materialista
«A coincidência da transformação do meio
e da actividade humana sópode ser concebida e
compreendida racionalmente como prática revolucionária»
KARL KORSCH
Março de 1922
Notas:
(1) Cf. o Manifesto Comunista,
capitulo II: "Proletários e Comunistas"
(2) As citações dos últimos
períodos pertencem ao artigo sobre a lei contra os roubos de madeira, à
correspondência Marx-Ruge-Feuerbach-Bakunine e à Crítica da Filosofia do
Direito de Hegel (tudo isto publicado em Nachlass, volume I).
(3) Cf. Engels, introdução à
edição inglesa de Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico (1893) reproduzida
na Neue Zeit XI, I, p. 15 sgs.
(4) Esta «introdução», que nos dá
as informações mais profundas sobre as premissas da invetigação de Marx, foi
publicada pela primeira vez na Neue Zeit, 21, I, p. 710
(5) H. Michels Verlag, Düsseldorf,
1900. Entre os trabalhos em língua alemã sobre os fundamentos filosóficos do
marxismo, é este de longe o melhor, apesar da posição errada que discutimos
acima.
(6) É estranho que Woltmann, no parágrafo
1, qualifique de simples «exame» das relações entre pensamento e ser já como
«materialismo» (materialismo dialéctico!). Em vez disso deveria dizer mais ou
menos: o materialismo dialéctico (ou dialéctica materialista), que,
contrariamente ao idealismo dialéctico (a dialéctica idealista) de Hegel,
concebe o pensamento e o ser como momentos de uma unidade em que
não é o pensamento que determina o ser, mas o ser que determina essencialmente
o pensamento. O facto de Woltmann evitar aqui uma tomada de posição precisa
relaciona-se com a sua atitude gnoseológica kantiana que discutimos acima.
(7) Cf., no último capitulo da Introdução
Geral à Crítica da Economia Política, a nota 4, que é característica
(ibid., p. 779). Nalguns passos d’O Capital, fala de forma mais precisa
da insuficiência do «materialismo abstracto das ciências naturais, que exclui o
processo histórico» e contrapõe-lhe como «único método materialista e, por
conseguinte, cientifico» aquele outro que não se contenta com reduzir pela
análise as formas e os conteúdos dos diversos fenómenos «sociais» e
«espirituais» da existencia histórica ao seu «núcleo terrestre», mas que,
inversamente, procura também «desenvolvê-los a partir das condições reais de
vida» (Kapital, I, 13, nota 89)
(8) Ibid., p. 712. O termo
«Subjekt» é empregue aqui no sentido do francês »sujet», quer dizer, no sentido
do termo alemão «Objekt» e não no sentido actual do alemão «Subjekt», como
prova uma comparação com as pp.718 e 774