Organizaçom de fábrica ou sindicatos?

(Betriebsorganisation oder Gewerkschaften?)

 

Fritz Wolffheim

 

(1919)

 

Texto da conferência do 16 de Agosto de 1919 na assemblea da afiliaçom do KPD, organizaçom local de Hamburgo. Impresso por decisom unánime da assemblea. (1)

 

 

  A revoluçom alemana que, nas suas formas políticas, concluiu o 9 de Novembro do ano passado, significou além da destruiçom pola guerra do imperialismo alemám, a destruiçom de todo o Império alemám. No momento em que o poder militar quedou destrozado, em que os trabalhadores e soldados mandarom ao caralho aos terratenentes e príncipes, o Império alemám, tal como tinha existido até entom, deixou de existir. Desde 1871, o Império alemám fora um Estado de classe burguês, dirigido polos príncipes e os latifundistas.

 

  É particular de todo Estado que dentro do seu marco dea umha organizaçom ao povo. Todo Estado de classes burguês significa a concentraçom dos seus habitantes numha naçom. Umha naçom é a organizaçom do povo baixo a direcçom da burguesia. O establecimento da naçom significa que a burguesia organiza-se como classe dominante, procurando que as massas dominadas quedem isoladas de tudo ou que se dotem dumha organizaçom que nom poda pôr em perigo a dominaçom da burguesia. Mentres um Estado burguês esteja firmemente baseado nos meios de poder políticos, a classe dominante tem nas suas maos o poder de impedir ao proletariado que se dote dumha forma de organizaçom revolucionária. Se o proletariado quere organizar-se, tem primeiro que reconhecer este Estado, e agrupar-se no marco que, para a sua forma de organizaçom, o mesmo lhe conceda  generosamente. Qualquer proletariado que começa a empreender a sua luita de classes, ve-se enfrentado coa burguesia dominante dum jeito tal que carece de direito a organizar-se. Assí que a luita do proletariado começa por luitar polo seu direito de poder unir-se dalgum jeito. Esta é a razom pola qual num Estado militar-policiaco-burocrático, como era o Império alemám desde 1871, a luita começa com formas políticas. A luita política é a que haverá de pôr as bases para que o proletariado se poda organizar económicamente. Ao mesmo tempo, meiante a luita política, o proletariado busca ampliar o espaço no que a burguesia lhe permite umha liberdade de movimento para criar as suas organizaçons económicas.

 

  Devido a isto, antes da revoluçom, tanto o movimento político como o movimento sindical, ainda considerando ambos as tradiçons revolucionárias de 1848 como próprias, eram essencialmente reformistas. O movimento obreiro era reformista porque reconhecia o Estado de classes, porque via o seu objectivo principal em tentar, desde um órgao do Estado de classes, desde o parlamento, influir nas dominantes. Era reformista nas suas luitas sindicais, porque nom organizava à classe obreira co objectivo de derrubar à burguesia, de suprimir o principio do empresariado, senom co objectivo de negociar cos empresarios, garantindo-lhes a sua futura existência, e, deste modo, tentar obter melhores condiçons de salário e trabalho para determinadas capas de trabalhadores. E, quando o partido e os sindicatos participam na luita de classes, esta era só umha luita no marco do estado existente. Assí mesmo, nas acçons de luita, nas folgas, nom se tratava por parte dos sindicatos de derrubar à burguesia, senom de obrigar a determinados grupos a reconhecer algumhas esigências de certas capas dos trabalhadores, esigências que se estableciam de tal maneira que de antemao era possível a sua satisfacçom, a qual tampouco impossibilitava a prosperidade do capital para o futuro. Hai que ter isto bem presente se queremos discernir com claridade se a forma sindicato anterior à revoluçom pode ser a que corresponde às necessidades do proletariado alemám, depóis de que se tiver consumado umha revoluçom política.

 

  Ao derrocar o poder dos terratenentes e dos príncipes que a burguesia tinha à sua disposiçom, a revoluçom política destruiu na sua orige todo poder que puidera pechar-lhe o caminho ao poder do proletariado. Com isto, o proletariado situava-se ante a questom: qual forma de Estado deve organizar-se? Hai que criar um Estado capitalista ou um Estado proletário? Coa revoluçom destruira-se o anterior Estado capitalista, e umha vez destruido nom existia Estado nengum; entom, o proletariado tinha nas suas maos a decisom sobre a forma de Estado que haveria de substituir à anterior, destruida. Mas o proletariado nom era consciente disto, nom estava afeito a reflexionar acerca do que é um Estado. Acostumaram-no a limitar-se a juntar, cada 5 anos, umha bonita montanha de papeletas brancas, por riba da qual os chamados representantes do proletariado trepavam logo aos parlamentos. Na organizaçom económica, acostumara-se ou obrigara-se ao proletariado a delegar todas as decisons num pequeno grupo de dirigentes e a limitar-se a pagar quotas mais ou menos elevadas para que este reduzido número de dirigentes tivese a sua existência assegurada.

 

  Estas eram básicamente as funçons do proletariado na Alemanha, e quando as organizaçons políticas e sindicais se usavam tamém para outra cousa era co propósito de transmitir, no partido e nos sindicatos, o exercício mental machucante que a escola e quartel prepararam dignamente no povo alemám, tamém a aqueles obreiros que doutro jeito poderíam ter ideas revolucionárias. Dado que simplesmente ocupar-se da essência do Estado é já umha actividade revolucionária, procurava-se com grande empenho que os proletários da Alemanha rompesem a cabeça sobre se este ou aquel imposto indirecto resultava mais ou menos beneficioso para os terratenentes, mas nom sobre o problema de averiguar em que consiste o poder da burguesia, e que tipo de poder tem que criar o proletariado para estar em condiçons de organizar-se algúm dia el próprio como Estado. Da conquista de poder estatal falavam todos os kautskianos, mas acerca de como levar a cabo esta conquista nem sequer eles próprios se escachavam a cabeça, nem desejavam que os obreiros se ocupasem do assunto. Agora, quando hai quase dous anos um proletariado nom tam cultivado como o alemám, os trabalhadores russos, demonstrarom com que meios se conquista o poder e sobre que base se organiza depóis, entom vinherom todos os kautskianos e suplicarom ao povo alemám que, por amor de deus, nom imitara as "crueldades" que originara a destruiçom da burguesia como classe na Rússia.

 

  O proletariado alemám estava afeito a seguer aos seus dirigentes; o mundo enteiro nom asemelhava outra cousa para el que um grande pátio de quartel, e nom haveria ninguém mais surpreendido do feliz termo da revoluçom alemá que os próprios proletários alemáns. Porque se nom tivese sido assí, se nom tivesem perdido de tanto assombro a fala e a capacidade de pensar, polo menos nesse momento teriam-se perguntado o que tinha que fazer agora para defender o poder conquistado. Esta pergunta seria a interrogaçom pola essência do Estado.

 

  Lassalle, que viveu numha época na que no movimento obreiro alemám todavia nom existiam bonzos, solucionara o problema. «O Estado» -di- «é a concentraçom de todos os meios de poder reais existentes num povo». A concentraçom das metralhadoras e da imprensa, a dominaçom da banca, a dominaçom dos meios de produçom, a concentraçom de todas as organizaçons militares e económicas, isso é o Estado. E o decisivo para o domínio do Estado é a questom de qual classe do conjunto do povo tem nas suas maos os meios de poder mais poderosos.

 

  O poder dos comandantes gerais consistia em que a totalidade das grandes massas de armas, e dos homes que as levavam, estavam baixo o controlo dos gerais. Quando esta circunstáncia cambiou, quando os obreiros e soldados tiverom nas suas maos todos os meios de poder e às restantes classes nom lhes restava nengum, entom só havia que organizar esse poder, acrescentar-lhe o domínio sobre a imprensa, e o Estado proletário teria existido. Os órgaos deste Estado proletário desenvolveram-se, nos dias da revoluçom, muito espontaneamente dentro das massas.

 

  As organizaçons militares estavam destruidas, a policia e os tribunais paralisados, ao igual que a administraçom burocrática do Estado. Para evitar o caos, para ordear as relaçons económicas, em toda Alemanha organizaram-se coa maior naturalidade os conselhos de obreiros e soldados, que nos primeiros dias concentrarom nas suas maos todo o poder; a uniom de todos os conselhos de obreiros e soldados alemáns, o seu firme establecimento nas massas do povo trabalhador, nas minas, nas fábricas, e no campo -esta organizaçom teria sido o Estado-. No marco desta organizaçom, logo, os proletários que possuiam as armas criariam umha organizaçom militar: o exército vermelho. Aos proletários nom se lhes ocorrera que agora era preciso organizar de novo o poder e assegura-lo firmemente. Quando pensavam em organizaçons tinham em mente os conceitos das suas antigas organizaçons, os partidos social-demócratas e os sindicatos, que nasceram no Estado classista e cresceram com el, e que nom tinham nem a vontade nem a possibilidade de assegurar o poder proletário, de organizar ao proletariado como Estado. Pois estes partidos e sindicatos nom só se integraram no Estado de classe burguês, senom que chegaram a ser umha parte essencial do mesmo. E quando todas as organizaçons do Estado burguês se cambaleavam, quando tudo se desmoronava, eles nom vacilarom em converter-se na espinha dorsal do Estado burguês que se formava de novo. Assí, ocorreu que o proletariado da Alemanha foi vencido polos proletários alemáns; que os proletários alemáns permitirom que o antigo Império alemam, que acabavam de botar à rua junto co seu "Reichstag", voltase nascer por meio dos seus partidos, sindicatos e dirigentes, baixo o nome de Assemblea Nacional, e que as cúspides do partido e dos sindicatos se convertesem nas cúspides deste Estado. E, deste modo, no Estado assí reconstruido os proletários förom desarmados e armou-se aos guardas brancos.

 

  Que esta desgraça puidese ocorrer-lhe ao proletariado tem a sua causa, por um lado, no facto de que nom estava preparado em modo algum para levar a cabo umha revoluçom. Mas, aparte desta circunstáncia, hai outra muito importante: que se acostumava ver numha revoluçom essencialmente um cámbio político, e cria-se que, quando se tivera efectuado o cámbio político, o outro seria só questom de tempo; que, quando as antigas formas políticas fossem derrubadas, haveria umha evoluçom cara a sociedade socialista e a partires desse momento já nom seria necessária umha luita do proletariado mesmo. E, umha vez mais, eram o partido social-demócrata e os sindicatos quem alimentavam esta crença dentro do proletariado, quem esqueceram ou se queriam esquecer de explicar ao proletariado que a revoluçom proletária nom se esgota em cámbios da forma política, senom que a revoluçom proletária é essencialmente umha revoluçom económica, umha revoluçom que tem por tarefa revolucionar a fundo toda a economia. Se a revoluçom política se levou a cabo coa sublevaçom na rua, nom poderia acontecer o mesmo coa revoluçom económica, que nom poderia levar-se a cabo meiante acçons armadas, senom que teria que efectuar-se alí onde tem as suas raices o processo económico: nas fábricas.

 

  Quando do que se trata é de dar umha base completamente nova à economia dum país, entom hai que ir às raices desta economia, nom basta com fazer patente qualquer exteriorizaçom casual da economia actualmente existente. Estas raices som as fábricas, e por isso a luita revolucionária dos trabalhadores começa nas fábricas mesmas. E se a luita revolucionária dos proletários começa nas fábricas e termina tamém nas fábricas, e se o objectivo desta luita é pôr ao serviço do proletariado as fábricas mesmas, entom a única maneira de organizar ao proletariado para esta luita é meiante a organizaçom de fábrica.

 

  Os velhos sindicatos fundaram-se numha época na que o proletariado nom se encontrava em meio dumha revoluçom económica. O capitalismo todavia se extendia e chegava a formas superiores, e Alemanha todavia se achava no ascenso capitalista industrial. Entom, quando os sindicatos começavam a unir, dentro da totalidade do povo, ao proletariado, o capitalismo estava ainda fragmentado e competiam muitos empresários os uns cos outros. Nom se tratava, portanto, de destruir à burguesia como classe, já que ela própria estava todavia a formar-se como tal classe. Nessa época só se tratava de obter melhores salários e condiçons de trabalho para algunhas capas dos trabalhadores, e entom a velha forma sindicato si correspondia às necessidades dos proletários. Ainda predominavam os obreiros especializados em amplas capas das massas trabalhadoras, havia empresas pequenas e meianas por todas partes e só de vez em quando umha empresa grande. Entom os sindicatos organizavam os obreiros segundo as suas profissons, e faziam da vivenda do trabalhador a base da sua pertenza ao sindicato, nom a fábrica. Todas as questons da luita sindical eram da competência das instáncias ou das assembleas de afiliados, e de nengum modo se decidiam alí onde os trabalhadores se encontravam dia e noite: nas fábricas.

 

  Esta forma de organizaçom tivo a sua consequência já antes da guerra: que os obreiros nom estavam em condiçons de medir forças co capitalismo em folgas de massas, posto que os velhos sindicatos, que tinham cindido às massas em grupos profissionais, nom tinham a folga de massas no seu programa. A consequência foi que, na grande folga de obreiros de asteleiros de 1913, os obreiros de asteleiros tiverom que sofrer a derrota, dado que a sua forma de organizaçom nom correspondia às necessidades dumha organizaçom de massas. Os velhos sindicatos eram organizaçons de dirigentes, organizaçons nas que o peso da actividade sindical recaia nos dirigentes, que negociavam, nom nas massas, posto que nom queriam que as massas levaram a cabo acçons elas mesmas. Para eles a folga era um último meio de pressom em casos de urgência, nom a arma natural que é a folga numha época revolucionária. Pois alí onde já nom se pode tratar de melhorar só as condiçons de trabalho, a causa de que o próprio capitalismo está agonizando, de que a sociedade capitalista já nom pode melhorar as condiçons de trabalho; alí onde se trata de destruir a economia capitalista, isto só se pode conseguer por meio dumha contínua cadea de folgas de massas revolucionárias que se extendam cada vez mais, e que compreendam sucessivamente todos os ramos da indústria, que sacudam a economia de todo o país e obriguem finalmente à classe capitalista a confessar a sua bancarrota. Hoje está já em bancarrota, mas nom pode abandoar as tentativas de recuperar-se de novo, nom pode confesar a sua incapacidade, pois isso significaria o seu suicídio. Só fará-o quando o proletariado lhe obrigue. O meio para consegui-lo é principalmente a folga revolucionaria.

 

  Esta folga, que pode estoupar por singelas esigências económicas, tem repercusom política polo facto de afectar a grandes massas, de maneira que ameaza a existência da economia na sua totalidade saltando a outros ramos da economia. Isto comprobou-no claramente a folga de mineiros. Pola falta de carbom havia que reduzir as viages em trem, paralisou-se o transporto de mercadorias. Fossem conscientes ou nom disso os mineiros, o facto de que fôram à folga como grande massa tivo, por sí próprio, efeitos políticos. E esta é a segunda razom pola que os velhos sindicatos nom estám em condiçons de dirigir, em tempos revolucionarios, a luita da classe obreira.

 

  Os sindicatos estám preparados para luitas económicas parciais, o velho partido social-demócrata está preparado para luitas políticas parlamentares. Umha luita que é revolucionária, simultáneamente económica e política, só pode ser levada a cabo pola massa mesma e em organizaçons criadas co objectivo de dirigir estas luitas. Alí onde estas luitas já estouparam, onde para os obreiros ficara evidente a incapacidade dos velhos sindicatos, alí esta nova forma converteu-se já em realidade. Os mineiros uniram-se por minas, dentro das minas por territórios, e em todos os distritos numha Uniom que compreende a todos os obreiros que trabalham na empresa. Tal como os mineiros tenhem chegado a esta nova forma, por fim agora tamém os trabalhadores de asteleiros tenhem começado a discutir esta nova forma de organizar-se. Tamém nos asteleiros se unem em organizaçons de empresa (2), para logo agrupar estas organizaçons de empresa numha Uniom Obreira de asteleiros unificada. Além, existe a Deutscher Seemannsbund (organizaçom de marinheiros), e tamém a organizaçom de empresa dos ferroviários alemans se discute por todo o país. Recém os ferroviários fôram empurrados a entrar nos sindicatos livres (3), já começarom a criar, com base nas organizaçons de fábrica, um novo sindicato revolucionário (4). Tanto em Halle como em Berlím e Hamburgo, elaborarom-se de modo independente as formas nas quais os ferroviários tenhem a intençom de unir-se numha organizaçom unitária, baseada na organizaçom de fábrica. Estes trabalhos preparatórios estám muito avançados, e se nom esta, a próxima folga perdida, obrigará aos ferroviários a dar as costas ao velho sindicato e a encontrar umha forma de organizaçom que lhes de a possibilidade de desenvolver-se livremente na luita, sem os freos da burocracia centralizada, compenetrada tam estreitamente co Estado que, de facto, defende os interesses do poder estatal alemám. Tamém em Silesia Superior existe já umha Uniom de toda a gente que trabalha na navegaçom fluvial, e segundo me tenhem informado, hai esforços para unir tamém as mesmas em Hamburgo numha organizaçom unitária.

 

  Ainda hai grandes reticências. Ainda muitos trabalhadores, por longo costume, sintem simpatia polos seus sindicatos; mas umha época revolucionária esige decisons revolucionárias, e quem queira fazer da sentimentalidade a base da sua actividade poderá vencer em três revoluçons políticas, mas perdera-as por falta dumha organizaçom económica, do mesmo jeito que o proletariado alemám depóis da primeira revoluçom alemá voltou a perder quase todo o que tinha conseguido. O proletariado alemám, que está disposto a conquistar o poder estatal para organizar a economia socialista, nom a poderá organizar sem ter-se antes organizado a si próprio para esta economia. Se o socialismo nom ha de ser mais que um modelo burocrático, no qual em lugar dos empresarios locais será umha burocracia centralizada que dirixa o processo económico e domine às massas obreiras, tal e como se tenta levar a cabo hoje em dia, entom o proletariado tem que organizar-se contra a burocracia centralizada, para converter-se el próprio em suporte do processo produtivo. Aí está a diferência, e essa é a razom pola qual os sindicatos odiam as organizaçons de fábrica.

 

  Um trust, umha sociedade financeira norte-americana, dissolve-se hoje, e manhá reorganiza-se baixo novas formas. Para ela é um processo completamente natural quando tropeza com obstáculos que lhe dificultam a produçom. Os sindicatos, sem embargo, depóis dumha revoluçom nom se podem dissolver, para organizar-se sobre umha nova base. Tenhem que conservar a velha centralizaçom, a velha burocracia, e assí é para organizar as guardas brancas, para fazer impossível já nos seus começos a organizaçom de fábrica. Assí estám as cousas. Hoje, quando os trabalhadores estám organizados o suficiente como para levar a cabo o processo de cámbio, em caso dumha direcçom sensata, hoje a burocracia sindical luita junto coas guardas brancas contra aqueles que querem criar unions revolucionárias.

 

  Se um sindicato se dissolve-se, e justo ao dia seguinte levase a cabo nas fábricas as novas directrizes para  deste modo organizar a nova forma, que significaria tal facto? Significaria, para as massas, que teriam umha forma na qual desenvolver livremente as suas forças. Para os dirigentes, nom obstante, isto significaria que já nom faríam falta e, dado que isso nom lhe convém à burocracia, ela ensanha-se coas organizaçons de fábrica.

 

  Como se sabe, os conselhos de fábrica que tivemos se institucionalizaram no Estado de classes burguês recém establecido. Isto proporcionou-lhes aos conselhos alguns direitos e mais deveres. O seu dever principal consiste em procurar, junto co empresariado, o aumento da produtividade da fábrica. Essa nom pode ser a tarefa dos conselhos de fábrica revolucionários. Mentres exista um Estado de classes o proletariado luita, e os conselhos de fábrica tenhem que ser órgaos da luita revolucionária. Tenhem que defender de modo unilateral e adequado os interesses dos obreiros, ainda que por isso a empresa se fosse ao caralho dez vezes, já que ao proletariado nom lhe interessa assegurar a rendabilidade dentro desta orde económica. O proletariado nom tem hoje nengum interesse em que se recupere a economia capitalista, senom em que se derrube, posto que cada passo adiante na recuperaçom é um passo atrás para o proletariado. Cada aumento da rendabilidade dumha empresa só tensa mais cadea coa que se lhe atou novamente às maos ao proletariado trás a revoluçom política.

 

  Mas se os conselhos de fábrica nom devem ser órgaos para assegurar a exploraçom capitalista, senom órgaos do proletariado revolucionário em luita, entom nom devem ser controlados polos sindicatos contra-revolucionários, órgaos do Estado classista, senom polos obreiros nas fábricas. Os obreiros mesmos nom devem consentir ingerência algumha nos conselhos de fábrica, se tente desde onde se tente, especialmente por parte dos sindicatos. Tamém para isso o proletariado necessita as organizaçons de fábrica. Somentes se todos os proletários dumha fábrica estám unidos numha organizaçom de fábrica, estám em condiçons de controlar tudo o que acontece na sua empresa. Mentres nom exista esta forma de organizaçom, os proletários estarám dispersados. Por conseguinte, se se quer pôr fim a esta dispersom nos sindicatos e nos partidos, isto poderá conseguer-se criando umha nova forma de unidade, umha forma de unidade na qual todos os obreiros, seja qual seja a sua profissom, o seu partido, podam actuar conjuntamente. Isto só é possível na organizaçom de fábrica. Se os trabalhadores dumha fábrica tenhem que trabalhar juntos sem preocupar-se a que tendência pertenzen, tamém estarám em condiçons de tratar entre si e de arranjar os seus próprios assuntos na fábrica.

 

  A única condiçom de admissom que terá que establecer a organizaçom, aparte do abandono dos sindicatos, é que se declare a defesa do princípio da luita de classes proletária e se comparta a convicçom de que nom pode haver paz entre empresários e proletários em tanto exista o Estado de classes. Esta declaraçom basta por completo. Com ela se mantenhem apartados a aqueles elementos que anteriormente chamados "amarelos", e se auna a todos os obreiros revolucionários, ainda que as suas opinons partidistas diverxam nalguns pontos (o qual para a actividade na fábrica é indiferente), numha luita unitária contra o empresário e contra o empresariado como classe. Nom é casualidade que, precisamente agora na Alemanha, onde se passou da revoluçom política à económica, comece a impôr-se esta forma de organizaçom.

 

  Noutros países, onde nom existem as limitaçons da policia, onde já existia a democracia capitalista como a entendemos hoje na Alemanha, já hai tempo que os trabalhadores estám organizados segundo estes pontos de vista. Em norte-américa, os Industrial Workers of the World já hai anos que encontrarom esta forma de organizaçom e que aplicam os métodos que hoje nos parecem novos. E assí como os IWW começarom a ganhar às grandes massas para os seus princípios, desde o momento em que quedou claro que as contradiçons sociais chegaram a ser tan grandes que na luita contra os trusts já nom podia haver concesons, senom que havia que destruir a economia capitalista; assí tamém na Alemanha começará a impôr-se a idea da Uniom Obreira Geral (Allgemeine Arbeiter Union) a partir do momento em que os proletários da Alemanha compreendam que ser revolucionário nom significa só soltar discursos revolucionários, ou escuita-los, senom que as ideas revolucionárias tenhem que converter-se em acçom revolucionária, e que sem acçons revolucionárias nom poderám concluir a revoluçom económica, ainda que haja condiçons económicas favoráveis. A dia de hoje, esta acçom revolucionária implica que os proletários tenhem que ter claro que hai que rachar coas velhas e passadas formas sindicais, que antanho prestaram bos serviços mas que hoje som, contudo, um elemento contra-revolucionário; que o importante é concentrar todas as forças nas organizaçons revolucionárias, capaces de conduzir a luita revolucionária e depóis de fazer-se cargo da indústria. Quem deve fazer-se cargo da indústria? Haverám de ser as instáncias sindicais ou querem fazer-se cargo delas os próprios obreiros? Se querem isto último, tenhem que criar a forma de organizaçom que seja capaz de faze-los donos da produçom. Esta forma é a criaçom de conselhos, e seu primeiro grao som os conselhos de fábrica, mas únicamente se tenhem as suas raices na organizaçom de fábrica. De nom ser assí, seríam umha falsificaçom da idea de conselho, e nom serviriam para a luita revolucionária, senom para enganar aos proletários sobre os métodos a eleger.

 

  Quem tenha a firme vontade de assegurar o poder nas maos do proletariado, tamém tem que ter claro o caminho a seguer. Quem queira terminar a luita políticamente coa ditadura do proletariado, e económicamente co passo da produçom às maos do proletariado, só poderá ter umha consigna:

 

  Saíde dos sindicatos e formemos as organizaçons de fábrica!

 

 

 

Notas:

 

(1) Este texto foi reproduzido da versom espanhola da obra de J. Barrot e D. Authier, "A esquerda comunista na Alemanha, 1918-1921". Dado que a redacçom está evidentemente pouco coidada, e tendo em conta os numerosos erros evidentes na traduçom do conjunto da obra citada, procedeu-se a umha revisom livre para salvar as contradiçons mais evidentes, de seguro procedentes de descoidos e vulgarismos introduzidos pola traduçom anterior, utilizando critérios combinados lingüísticos e teóricos alí onde ou bem era claro o problema ou bem se trata da soluçom mais coerente coa menor modificaçom possível.

 

(2) Às vezes utiliza-se como sinómimos organizaçom de fábrica e organizaçom de empresa, e, por extensom, fábrica e empresa, ente produtivo e ente jurídico (algo que parece comum ademais em certas traduçons francesas de textos conselhistas). Ainda que em algum caso nom queda clara esta distinçom, em geral o texto é suficientemente claro porque está tratando de casos nos que umha empresa está constituida por distintas unidades produtivas ou de fabricaçom, explicando nom obstante como a fábrica, a unidade produtiva imediata, constitue a base de toda a estrutura organizativa. Outras veces utiliza-se o termo empresa como substitutivo de fábrica para denominar unidades produtivas que nom som "fábricas" em sentido estrito e a sua actividade adopta mais bem a forma de serviços (ferrovias) ou poder carecer de certas características típicas (asteleiros).

 

(3) Os "sindicatos livres" eram os sindicatos social-demócratas, denominados assí pola concesom do direito à coaligaçom para certas categorias de obreiros.

 

(4) Na versom tomada da obra de Barrot e Authier explica-se que este conceito de "sindicatos revolucionários" era utilizado ainda nessa época e que pouco depóis começou a ser visto como umha contradiçom em termos. Nom obstante, nom queda claro se no original alemám se utiliza o conceito alemám para sindicatos ou bem o sinónimo de unions.  A posiçom adoptada para esta revisom foi, tomando como referência o título em alemám da conferência (Betriebsorganisation oder Gewerkschaften), assí como tendo em conta a significaçom literal do termo alemám específico para "sindicato" (que vem a dizer algo assí como "rama laboral", sendo um sinónimo de "unión de oficio" ou "trade union"), reempraçar em geral nestes contextos sindicatos (revolucionários) por unións  (revolucionárias).

 

  Por outra banda, dado que no momento em que o autor escreve esta-se fraguando a idea da AAUD, que se formaria pouco depóis, parece improvável esta utilizaçom. Além, é possível que o texto da obra fosse traduzido do inglês e nom do alemám, co qual se borrariam as diferências origináis no termo "union".

 

  Em geral, no texto encontramos umha clara polarizaçom entre os conceitos de Gewerkschafft e de Arbeiter Union ou Betriebsorganisation, de modo que em qualquer caso a sua utilizaçom seria muito incongruente literária e teóricamente.

 

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