As tarefas dos
conselhos operários
CAPITULO IV
A ORGANIZAÇÃO SOCIAL
O trabalho é um processo
social. Cada empresa representa uma fracção do corpo produtivo da sociedade.
As conexões e a cooperação entre estas diversas partes constituem outros
tantos elementos da produção social global. Tal como as células de que se
compõe um organismo vivo, estas partes não podem subsistir isoladamente,
independentemente do corpo produtivo. Organizar o trabalho nas empresas representa
portanto apenas metade da tarefa. Resta outra parte, infinitamente mais
importante: estabelecer um sistema de ligações entre as diferentes empresas e
reuni-las no seio de uma mesma organização social.
Estando a empresa já organizada
em regime capitalista, é suficiente substitui-la por um tipo de organização com
novas bases. Pelo contrário a organização social do conjunto das empresas é -
ou era, até aos últimos anos - um problema absolutamente novo, sem precedentes,
como testemunha o facto de todo o século XIX ter considerado que a classe
operária tinha por missão construir uma organização deste género, - a que se
chamava o «socialismo». O capitalismo compunha-se de uma massa não
organizada de empresas independentes - «o campo de peleja dos empresários
privados», como dizia o programa do partido trabalhistas - ligadas entre si
unicamente pelos acasos do mercado e da concorrência, tendo como resultado a
falência, a sobreprodução, a crise, o desemprego e um enorme desperdício de
materiais e de força de trabalho. Para abolir este sistema, a classe operária
teria de conquistar o poder político e servir-se dele para organizar a
indústria e a produção. Pensava-se, nesse tempo, que o socialismo de Estado
marcaria o inicio de uma evolução nova.
Nestes últimos anos, a situação
modificou-se na medida em que o capitalismo começou a utilizar a organização
pelo Estado. Não foi levado a isso apenas pelo desejo de aumentar a
produtividade e os lucros através de uma planificação racional da produção. Na
Rússia, por exemplo, era necessário compensar o atraso do desenvolvimento
económico por meio de organização rápida da indústria. Foi o que fez o governo
bolchevique. Na Alemanha, foi a luta pelo poder mundial que conduziu ao
controle da produção pelo Estado e à organização estatal da indústria. Esta
lura era uma tarefa de tal modo pesada que a classe capitalista da Alemanha só
tinha hipótese de a levar a cabo concentrando o poder sobre todas as forcas
produtivas nas mãos do Estado. Na organização nacional-socialista, a propriedade
e o lucro - embora fortemente atingidos pela tributação do Estado - continuam
nas mãos dos capitalistas privados, mas a direcção e a administração dos meios
de produção são assumidas pelos funcionários do Estado. O Capital e o Estado
asseguram para si a totalidade da produção do lucro por meio de uma organização
eficiente. Esta organização de toda a produção baseia-se nos mesmos princípios
que a organização no seio da empresa, ou seja, na autoridade pessoal do
director geral da sociedade, do Führer, do chefe de Estado. Em todos os casos
em que o governo detém nas suas mãos a alavanca de comando da indústria, a
antiga liberdade dos produtores capitalistas cede o lugar aos métodos
autoritários, à coacção. Os funcionários do Estado vêm o seu poder político
consideravelmente reforçado pelo poder económico que Ihes é conferido, pela sua
hegemonia sobre os meios de produção, base da vida social.
Os princípios da classe
operária situam-se, a todos os níveis, no campo oposto. A organização da
produção pelos trabalhadores, com efeito, baseia-se na livre cooperação: nem
patrões nem servos. O mesmo princípio preside ao reagrupamento de todas
as empresas numa organização social unificada. É aos operários que compete
construir o mecanismo social correspondente.
Dada a impossibilidade de
reunir os operários de todas as fábricas numa mesma assembleia, só podem
expressar a sua vontade por intermédio de delegados. De algum tempo a esta
parte que estes corpos de delegados vêm sendo denominados conselhos operários.
Cada grupo de trabalhadores que cooperam designa os membros que irão expressar
as suas opiniões e desejos nas reuniões dos conselhos. Se, através de uma
participação activa nas deliberações do seu grupo, se tiverem evidenciado como
defensores hábeis dos pontos de vista adoptados pela maioria, delegar-se-á
neles a função de porta-vozes do grupo, que irão confrontar os pontos de vista
deste com os dos outros grupos, para chegarem a uma decisão colectiva. Embora
as suas capacidades pessoais contem muito para persuadir os companheiros e para
clarificar os problemas, a importância que assumem não provém da sua força
pessoal, e sim da da comunidade que os escolheu como delegados. Não são meras
opiniões que prevalecem, mas muito mais a vontade e o desejo do grupo de agir
em comum. Indivíduos diferentes desempenharão as funções de delegados,
consoante as questões postas e os problemas delas decorrentes.
O problema fundamental, a base
de tudo o resto, é a própria produção. A organização desta comporta dois
aspectos: o estabelecimento das regras gerais e das normas, e o trabalho
propriamente dito. É necessário elaborar regras e normas que fixem as relações
mútuas no trabalho, os direitos e os deveres de cada um. Em regime capitalista,
a norma era o poder do patrão, do director. No capitalismo de Estado, é o poder
ainda maior do Chefe supremo, do governo central. Na sociedade nova, pelo
contrário, todos os produtores são livres e iguais. O campo económico, o campo
do trabalho assiste a uma metamorfose comparável àquela que a ascensão da
burguesia provocou no campo político, nestes últimos séculos. Quando o reinado
do monarca absoluto foi substituído pelo poder dos cidadãos, isso de modo
nenhum significou uma substituição do arbitrário do autocrata pelo arbitrário
de qualquer outro indivíduo. Significava que as leis, conformes com a vontade
geral, passavam a fixar os direitos e os deveres. Do mesmo modo, no campo do
trabalho, a autoridade do patrão desaparece em proveito de regras elaboradas em
comum, que visam fixar os direitos e os deveres sociais, tanto em matéria de
produção como de consumo. E os conselhos operários terão como primeira missão
formulá-los. Não é uma tarefa árdua, nem uma questão que exija estudos
intermináveis, ou que origine divergências graves. Estas regras germinarão
naturalmente na consciência de cada trabalhador, uma vez que constituem
a base natural da sociedade nova: cada um tem o dever de participar na produção
segundo as suas forças e as suas capacidades, cada um tem direito a uma parte
proporcional do produto colectivo.
Como avaliar a quantidade de
trabalho efectuada e a quantidade de produtos que cabe a cada um? Numa
sociedade em que a produção vai directamente para o consumo, não existe nem
mercado para trocar os produtos, nem valor, enquanto expressão do trabalho
cristalizado nesses produtos, que se estabelece automaticamente, pelo processo
da compra e da venda. O trabalho despendido na produção tem por isso de ser
avaliado de uma maneira directa, pelo número de horas de trabalho. Os serviços
de gestão calculam a quantidade de horas de trabalho cristalizadas em cada
elemento ou quantidade unitária de um produto, bem como a quantidade de horas
de trabalho fornecidas por cada trabalhador. Fazem-se depois as médias, tanto
em relação ao conjunto de operários de uma determinada fábrica como ao conjunto
das fábricas da mesma categoria; desaparecem assim as variações devidas a
factores individuais e podem comparar-se os diversos resultados.
No inicio do período de
transição, quando é necessário reconstruir uma economia arruinada, o problema
essencial consiste em pôr a funcionar o aparelho de produção, para assegurar a
existência imediata da população. É muito possível que, nestas condições, se
continue a repartir uniformemente os géneros alimentares, como sempre se faz em
tempo de guerra ou de fomes. Mas é mais provável que, nesta fase de
reconstrução, em que todas as forças disponíveis se devem empenhar a fundo e,
mais do que isso, em que os novos princípios morais do trabalho comum vão
tomando forma de uma maneira gradual, o direito ao consumo esteja ligado ao
desempenho de qualquer trabalho. O velho ditado popular «quem não trabalha não
come» exprime um sentido instintivo da justiça. Isto significa sem dúvida ver
no trabalho aquilo que ele é na realidade: o fundamento da existência humana.
Mas isto também significa que, a partir desse momento, a exploração capitalista
desapareceu, que acabou a apropriação dos frutos do trabalho de outrém por
uma classe ociosa, em virtude dos seus títulos de propriedade.
Evidentemente que isto não
significa que a totalidade da produção passará a ser repartida pelos produtores
proporcionalmente ao número de horas de trabalho fornecido por cada um deles
ou, por outras palavras, que todos os operários irão receber sob a forma de
produtos o equivalente exacto das horas de trabalho que forneceram. Com efeito,
uma parte muito grande do trabalho tem de ser consagrada à propriedade comum,
tem de servir para aperfeiçoar e para aumentar o aparelho de produção. No
regimen capitalista, uma certa quantidade de mais-valia era utilizada para este
fim. O capitalista tinha de empregar uma parte do seu lucro, acumulado sob a
forma de capital adicional, a inovar, a aumentar e a modernizar o equipamento
técnico; ao fazê-lo, era movido pela necessidade de fazer frente a
concorrência. Deste modo, o progresso técnico era inseparável das formas de
explorarão. Na nova forma de produção, este progresso passa a ser um assunto
que diz respeito à colectividade dos trabalhadores. Se por um lado, antes de tudo
o mais, têm de assegurar a sua existência imediata, por outro a parte mais
exaltante da actividade consiste em edificar as bases da produção futura. Têm
de fixar qual a proporção do trabalho global que será aplicada na preparação de
máquinas e de instrumentos aperfeiçoados, na investigação e na experimentação
com o fim de facilitar o trabalho e no melhoramento da produção.
Além disso, será necessário
dedicar uma parte do tempo de trabalho global a actividades não produtivas, mas
socialmente necessárias: a administração geral, o ensino, os serviços de saúde.
As crianças e as pessoas idosas terão direito a uma parte da produção, sem
participarem nela. O mesmo sucederá a pessoas incapazes de trabalhar entre as
quais, nos primeiros tempos, se contarão grande número de farrapos humanos
herdados do capitalismo. É provável que, regra geral, sejam os elementos mais
jovens da população adulta quem tem seu cargo efectuar o trabalho produtivo;
ou, por outras palavras, este deverá ser efectuado por todos, neste período da
vida em que os desejos e capacidade de acção se encontram no nível mais alto.
Com o rápido progresso da produção do trabalho, a parte da existência dedicada
a produzir os artigos necessários à vida irá diminuindo permanentemente,
enquanto uma parte cada vez maior da existência poderá vir a ser dedicada a
outros fins e a outras actividades.
A organização social da
produção baseia-se numa boa gestão, através de estatísticas e de dados
contabilizáveis. Estatísticas relativas ao consumo dos diferentes bens,
estatísticas sobre a capacidade das empresas industriais, das máquinas, da
terra, das minas, dos meios de transporte, estatísticas sobre a população e os
recursos das cidades, das regiões, dos países, - tudo isto representa, em
colunas bem ordenadas de dados numéricos, a base do processo económico. No
regime capitalista, já se conheciam estatísticas relativas a certas actividades
económicas, mas continuavam a ser imperfeitas, devido à falta de coesão entre
os homens do negócio privado e às suas visões limitadas. A aplicação dessas
estatísticas era limitada. Mas, agora, são o ponto de partida da organização da
produção. Para produzir a quantidade de bens adequada, é necessário conhecer as
quantidades utilizadas ou necessárias. Simultaneamente, estas estatísticas,
resultado numérico condensado do inventário do processo de produção, resumo
global da contabilidade, expressam a marcha do desenvolvimento.
A contabilidade geral, que diz
respeito e engloba as administrações das diferentes empresas, reúne-as a todas
num quadro de evolução económica da sociedade. A diferentes níveis, regista o
processo total da transformação da matéria, acompanhando esta desde a extracção
das matérias-primas, seguindo-a nas diversas fábricas onde é trabalhada até se
transformar em produtos terminados, prontos a serem consumidos. Reunindo num
todo os resultados das empresas do mesmo tipo que cooperam, compara a eficácia
destas, estabelece a média das horas de trabalho necessárias e dirige a atenção
para as possibilidades de progresso. Uma vez organizada a produção, a
administração passa a ser tarefa, relativamente simples, de uma rede de
escritórios de contabilidade, ligados uns aos outros. Cada empresa, cada grupo
de empresas ligadas, cada ramo da produção, cada cidade ou região terá o seu
centro administrativo para reunir, analisar e discutir os números da produção e
do consumo, e para Ihes dar uma forma clara e de fácil exame. Graças ao
trabalho combinado desses centros, a base material da vida transforma-se num
processo dominado pelo intelecto. O processo de produção é patenteado à vista
de todos, sob a forma de uma imagem numérica simples e inteligível. É nesse
momento que a humanidade contempla e controla a sua própria vida. Aquilo que os
operários e os seus conselhos decidem e planificam numa colaboração organizada
surge com clareza, traduzido nos números da contabilidade. Porque estes
resultados estão permanentemente diante dos olhos de cada operário, a direcção
da produção social pelos próprios produtores pode finalmente ser realizada.
Esta organização da vida
económica é inteiramente diference das formas de organização existentes em
regime capitalista; é mais perfeita e mais simples. As complicações e
dificuldades da organização do capitalismo, a que tiveram de se consagrar tantos
grandes homens de negócios de génio tão elogiado, estão ligadas às lutas
mútuas, a essa guerra capitalista que exige tanta arte e tantos sacrifícios
para dominar ou aniquilar os concorrentes. Tudo isso irá desaparecer. A
simplicidade do objectivo a atingir, que é satisfazer as necessidades vitais da
humanidade, faz com que toda a estrutura seja simples e directa. Em principio,
administrar grandes quantidades não é mais difícil ou mais complicado do que
administrar pequenas quantidades; basta acrescentar alguns zeros aos números. A
diversidade rica e multifacetada das necessidades e dos desejos, que pouco
menor é em pequenos grupos de pessoas do que em grandes massas, pode ser
satisfeita mais fácil e completamente, devido precisamente à natureza massiva destas
necessidades.
A função e a importância de que
se revestem os serviços de estatística e de contabilidade pública no seio de
uma dada sociedade dependem do carácter desta sociedade. Desde sempre que a
gestão financeira do Estado constituiu necessariamente uma atribuição do
governo central e os funcionários deste, que eram incumbidos desta missão,
estavam estreitamente submetidos aos reis e aos outros poderosos da terra. Na
era do capitalismo moderno, em que a produção está sujeita a uma organização
social omnipotente, os que detêm em mãos a administração central passam de
facto a ser os senhores principais da economia e transformam-se gradualmente em
burocracia dirigente. Na Rússia, por exemplo, a revolução de 1917 provocou uma
expansão industrial acelerada. Os operários afluíram em massa as fábricas novas
mas, ainda imbuídos de uma ignorância crassa, própria da vida rural, foram
incapazes de obstar aos progressos da burocracia que, nesse momento, se
constituía em nova classe dominante. Na Alemanha de 1933, quando um partido
submetido a uma disciplina de ferro conquistou o poder de Estado e dele fez um
órgão de administração central a ele devotado, assumiu simultaneamente a
organização de todas as forças do capitalismo.
A situação modifica-se
radicalmente quando os operários organizam a produção na qualidade de donos do
seu trabalho e de produtores livres. Determinadas pessoas têm a seu cargo a
contabilidade pública, tal como outras são metalúrgicos ou padeiros. Os
trabalhadores do serviço de estatística nem são senhores nem servos. De modo
nenhum são funcionários ao serviço dos conselhos operários e coagidos a
obedecer às ordens destes. Com efeito, estes grupos de trabalhadores gerem eles
próprios o seu trabalho, dispõem do seu material, desempenham a sua tarefa como
qualquer outro grupo, nunca perdendo de vista as necessidades do conjunto
social. São os peritos encarregados de fornecer os dados de base necessários às
discussões e às decisões das assembleias de trabalhadores e dos conselhos. Têm
a seu cargo a recolha destes dados, que devem apresentar sob uma forma
facilmente acessível (quadros, gráficos, planos...) de modo que cada
trabalhador possa ter sempre uma perspectiva clara do curso das coisas. Os
conhecimentos que possuem não são uma propriedade privada passível de Ihes
conferir um poder; os técnicos de estatística e de contabilidade não formam um
corpo especializado que, único a deter as informações necessárias à gestão, se
veria assim preparado para exercer, de uma forma ou de outra, uma influência decisiva.
O produto do trabalho deles, o conhecimento estatístico indispensável ao bom
andamento da sociedade, está à disposição de todos. É com base nestes
conhecimentos gerais que os operários e as assembleias dos seus delegados
discutem e tomam as decisões, através das quais se constrói a organização do
trabalho.
Pela primeira vez na história,
os homens terão diante de si, como um livro aberto, o conjunto e os pormenores
da vida económica. Em regime capitalista, as bases da sociedade eram
dissimuladas aos olhares, enorme massa perdida no meio de trevas espessas que,
de tempos a tempos, eram penetradas por algumas estatísticas sobre o comércio e
sobre a produção; a partir de agora, nem um só pormenor escapa ao olhar, todo o
edifício surge claramente. A partir desse momento, passa a haver uma ciência da
sociedade, que assenta numa ordenação adequada dos factos e que permite
descobrir sem dificuldade as grandes relações causais. Essa ciência constitui a
base da organização social do trabalho, tal como o conhecimento dos factos da
natureza, também eles concebidos sob a forma de relações causais, serve de base
à organização técnica do trabalho. Todos podem assim adquirir um conhecimento
perfeito da vida quotidiana, nos seus mais ínfimos pormenores, podem estudar e
compreender tanto as exigências do conjunto social como a parte que, dentro
desse conjunto, Ihes respeita. Esta ciência da sociedade constitui o
instrumento por meio do qual os produtores ficam aptos a gerir a produção e a
dominar o seu universo.
ANTON PANNEKOEK