As
tarefas dos conselhos operários
CAPITULO III
A ORGANIZAÇÃO NO LOCAL DE
TRABALHO
A
ideia de propriedade comum dos meios de
produção ameaça a instalar-se no espirito dos
trabalhadores. Logo que tomarem consciência de
que a ordem nova, de que o seu próprio
domínio sobre o trabalho é uma questão de
necessidade e de justiça, todos os seus pensamentos
e Actos se dirigirão no sentido da sua
realização. Eles sabem que isso não se
consegue num dia. Será inevitável um longo
período de luta. Para veneer a
resistência obstinada das classes dirigentes, os
trabalhadores terão que desenvolver todos os
seus esforços, até aos mais extremos
recursos. Terão que utilizar todas as suas
faculdades, tanto as que relevam da inteligência
como as que relevam da forca de carácter,
todas as suas capacidades de organização,
todos os seus conhecimentos. Terão que mostra-se
capazes de reunir tudo quanto puderem
mobilizar. Mas, antes de mais, terão que
determinar claramente o objectivo visado e o
que representa a ordem nova a estabelecer.
Quando
um homem tem um trabalho a fazer, deve
começar por concebê-lo na sua mente, sob
a forma de um plano ou de um projecto
mais ou menos consciente. Eis o que distingue
as acções dos homens dos actos puramente
instintivos dos animais. Isto também é
válido em principio, nas lutas comuns, nas
acções revolucionárias das classes sociais. Não inteiramente,
é evidente, porque há uma grande parte de
acções espontâneas e não premeditadas nas explosões
de uma revolta apaixonada. Os trabalhadores em luta
não são um exército conduzido por um estado-maior de chefes competentes, agindo
segundo um plano minuciosamente preparado. Formam uma massa que, a pouco e
pouco, emerge da submissão e da ignorância, que, a pouco e pouco, toma consciência
da explorarão, que se vê obrigada a lutar implacavelmente por melhores
condições de vida e que, assim, vê a sua força desenvolver-se gradualmente.
Jorram novos sentimentos, elevam-se novos pensamentos: dizem respeito ao que
poderia ser, ao que deveria ser o mundo. Agora, têm em mente novos desejos,
novos ideais, novos objectivos que determinam a sua vontade e guiam os seus
actos. Pouco a pouco, as perspectivas esboçam-se
mais claramente. Aquilo que inicialmente, não
era mais que uma simples luta por melhores
condições de trabalho, dá origem a ideias de
reorganização fundamental da sociedade. O ideal de
um mundo sem exploração nem opressão
assediou durante gerações a mente dos trabalhadores.
A concepção dos trabalhadores como donos dos
meios de produção, devendo dirigir, eles próprios,
o trabalho, impõe-se cada vez mais claramente
a todos.
Devemos
aplicar todos os recursos da nossa inteligência
para procurar saber e explicar, tanto para
nós como para os outros, qual será esta
nova organização do trabalho. Não podemos extraí-la
unicamente da nossa imaginação; deduzimo-la das
condições reais e das necessidades do trabalho
e dos trabalhadores no momento actual.
Não
pode, bem entendido, ser exposta detalhadamente:
nada conhecemos das condições futuras que
irão determinar as suas formas precisas. Estas
formas definir-se-ão no espirito dos trabalhadores
quando eles afrontarem essa tarefa. De momento,
devemos contentar-nos com traçar unicamente as
linhas gerais, as ideias directrizes que
irão orientar as acções da classe operária.
Estas ideias serão como que uma estrela,
como o objective supremo para o qual os trabalhadores
lançarão permanentemente o olhar quando, durante
a luta, conhecerem as alternâncias de vitórias
e de derrotas, as sequências de sucessos
e de fracassos na sua auto-organização. Estas
ideias directrizes devem ser tornadas mais claras,
não por minuciosas descrições de detalhe, mas
essencialmente pela comparação entre os princípios
deste mundo novo e as formas de
organização existentes que já conhecemos.
Quando
os operários se apoderarem das fabricas para organizarem o trabalho verão
levantar-se inúmeros problemas, novos e espinhosos. Mas disporão também de
novas forças igualmente numerosas. Um novo sistema de produção nunca é uma estrutura
artificial edificada unicamente pela vontade dos homens. Brota como um processo
irresistível da natureza, como uma convulsão que abala a sociedade no mais
profundo de si mesma, libertando as mais poderosas forças e paixões do homem. É
o resultado de uma luta de classe longa e obstinada.
Só
através deste combate podem nascer e
desenvolver-se as forças necessárias para a
construção de um mundo novo.
Quais serão as bases deste
mundo? Serão
as forças sociais: a fraternidade e a solidariedade,
a disciplina e o entusiasmo; serão as forças
morais: a abnegação e a dedicação à comunidade; serão
as forças espirituais: o saber, a coragem, a
perseverança; será a sólida organização que congrega
e encaminha para um objectivo último estas forças
que, todas, são a concretização da luta de classe.
Não se pode criá-las antecipadamente por
uma acção voluntarista. Os primeiros sintomas
dessas forças surgirão nos trabalhadores espontaneamente,
a partir da sua exploração comum; desenvolver-se-ão
incessantemente através das necessidades da luta,
sob a influência da experiência, do estímulo
mútuo, da educação recíproca. Nascerão necessariamente,
porque a sua expansão trará a vitória, ao passe
que a sua ausência é sinónimo de derrota. Enquanto
estas forcas sociais continuarem insuficientemente
desenvolvidas, enquanto os novos princípio não
ocuparem completamente o coração e a mente dos
trabalhadores, fracassarão as tentativas para construir
um mundo novo, mesmo se as lutas obtiverem
um certo sucesso. Porque os homens têm
de viver, a produção tem de continuar e,
na sua ausência, outras forças, de
coacção, de repressão e de regressão tomarão
em mãos a produção. Deverá então retomar-se o
combate, até que as forças sociais da classe
operária atinjam um poder tal que possam
conduzir a auto-governação, ao domínio total da
sociedade.
A
tarefa maior é, para os trabalhadores, a
organização da produção em novas bases. Deverá
começar pela organização no interior da fábrica.
Também o capitalismo possui uma organização minuciosamente
planificada; mas os princípios da nova
organização serão totalmente diferentes. Em ambos
os casos, as bases técnicas serão as mesmas:
é a disciplina do trabalho, imposta pelo ritmo
regular das máquinas. Mas as bases
sociais, as relações mútuas entre os homens
serão o oposto do que foram. A
colaboração entre camaradas, iguais entre si, substituirá
o comando dos patrões e a obediência dos que
os serviam. O medo da fome e do risco
permanente de perder o trabalho serão substituídos
pelo sentido do dever, pela dedicação à
comunidade, pelos louvores ou censuras feitos pelos
camaradas aos esforços e às realizações de cada
um e que agirão como estimulantes. Em vez
de serem os instrumentos passivos e as vitimas
do Capital, os trabalhadores serão os
donos e os organizadores da produção, seguros
de si, exaltados pelo orgulho de cooperarem
activamente no aparecimento de uma nova humanidade.
O
órgão de gestão, nesta organização da fábrica,
será constituído pela colectividade dos trabalhadores
que nela colaborarem. Reunir-se-ão para discutir
todos os problemas e tomarão as decisões em
assembleia. Assim, todos os que tomarem parte
no trabalho participarão na organização do trabalho
comum. Este método impõe-se naturalmente como
evidente e normal; parece ser idêntico ao que
é adoptado em regime capitalista pelos grupos
e sindicatos de trabalhadores quando decidem, pelo
voto, assuntos comuns. Mas existem diferenças
essenciais. Nos sindicatos, encontramos habitualmente uma
divisão do trabalho entre os delegados e
os membros: os delegados preparam e enunciam
as propostas e os filiados votam. A fadiga dos
corpos e a lassidão dos espíritos obrigam os
trabalhadores a delegar noutros a tarefa de
conceber os projectos. Só muito parcialmente
e aparentemente é que se ocupam dos seus
próprios assuntos. Na organização em comum da
fábrica deverão fazer eles próprios tudo ter
as ideias, elaborar os projectos, bem como
tomar as decisões. A dedicação e a emulação não
se limitarão a desempenhar um papel no
trabalho de cada um, mas serão ainda mais
importantes na tarefa comum de organizar toda
a produção. Para começar, porque se trata de
uma obra comum, logo da maior
importância, que não podem deixar para outros
fazerem. Seguidamente, porque está em relação
directa com o sistema das relações mútuas
no seio do seu próprio trabalho, que a
todos diz respeito e em que todos são
competentes. É por isso que esta tarefa deve
absorver toda a sua atenção e que os problemas
postos se devem resolver através de discussões
profundas. Não é unicamente com o esforço físico,
mas mais ainda com o esforço intelectual
que cada um deverá contribuir para a
organização geral da produção e estes esforços
serão objecto da emulação e da apreciação reciprocas.
A discussão deverá além disso apresentar um
carácter diferente daquele que existe nas associações
e nos sindicatos sob o regime capitalista, onde
se verificam sempre divergências devidas á
existência de interesses pessoais, onde cada um,
no mais profundo da sua consciência, se
preocupa antes de mais com a sua sorte
pessoal e onde as discussões têm por função
ajustar e aplanar as diferenças com vista
a uma acção comum. Na nova comunidade
do trabalho, pelo contrário, todos os
interesses serão essencialmente os mesmos e
todos os pensamentos serão orientados para o
objectivo comum da organização, numa cooperação efectiva.
Nas
grandes fabricas, o número de operários é
demasiado elevado para que possam reunir numa
assembleia única e para que possam levar
a cabo uma discussão real e profunda. As
decisões só poderão ser tomadas a dois tempos:
pela acção combinada de assembleias nas diferentes
oficinas da fábrica com as assembleias
de comités centrais de delegados. As funções
e o andamento prático destes comités não podem
ser determinados antecipadamente; constituem algo inteiramente
novo, um órgão essencial da nova estrutura
económica. É quando se encontrarem a braços com
as necessidades práticas que os operários constituirão
as estruturas adequadas. As linhas gerais de
algumas das características dessas estruturas podem
contudo ser deduzidas por comparação com
as organizações e os grupos que conhecemos.
No
mundo capitalista, o comité central de delegados
é uma instituição bem conhecida. Encontramo-la no
parlamento, em toda a espécie de organizações
políticas e nos bureaux de diversas associações
e sindicatos. São investidos de uma autoridade
sobre os que os designaram, ou mesmo,
por vezes, reinam sobre estes como verdadeiros
patrões. Esta é a forma assumida por estes
organismos, e que corresponde a um sistema social
em que uma grande massa de trabalhadores
é explorada e comandada por uma minoria: a
classe dominante. A tarefa essencial, no mundo novo,
consistirá em encontrar uma forma de organização
constituída por uma colectividade de produtores,
livres e associados, que controlem, tanto nos
actos como na concepção destes, a
actividade produtiva comum, regulamentando-a segundo
a sua própria vontade, mas com poderes idênticos
para cada um; será um sistema social totalmente
diferente do antigo. No sistema antigo, também
existem conselhos sindicais que administram os
assuntos correntes, entre duas reuniões
dos filiados, a intervalos mais ou menos próximos,
em que se fixam as grandes linhas da
política geral. Aquilo de que estes conselhos
se ocupam então são apenas os
imprevistos do quotidiano e não as questões
fundamentais. No mundo novo, e a própria base
da vida, a sua essência, que estão em
causa: é o trabalho produtivo que ocupa e
ocupará permanentemente o espirito de cada um,
que será o objecto primordial do seu pensamento.
As
novas condições de trabalho farão destes
comités de fabrica algo muito diferente do
que conhecemos no mundo capitalista. Serão organismos
centrais mas não organismos dirigentes, não conselhos
governamentais. Os delegados que os compuserem
terão sido mandatados pelas assembleias de secção
com instruções especificas; virão de novo a
estas assembleias para prestar contas da
discussão e do resultado obtido e, após deliberações
mais amplas, os mesmos delegados, ou outros,
munidos de novas instruções, voltarão a
reunir-se no comité de fábrica.
Deste
modo, actuarão como agentes de ligação
entre os membros das diferentes secções. Estes
comités de fábrica também não serão grupos
de especialistas encarregados de fornecer directivas
a massa dos trabalhadores não qualificados. Naturalmente
que serão necessários especialistas, isolados
ou em equipas, para se ocuparem dos
problemas científicos ou técnicos específicos. Os
comités de fábrica tratarão dos problemas quotidianos,
das relações mútuas, da regulamentação do
trabalho, tudo coisas em que cada um é
ao mesmo tempo competente e parte interessada.
E, entre outras coisas, terão de estudar
a aplicação prática do que os especialistas
tiverem sugerido. Os comités de fábrica não
serão responsáveis pelo bom funcionamento do
conjunto, porque isto teria como consequência
deixar que cada membro se isentasse das
suas responsabilidades, confiando numa colectividade
impessoal. Pelo contrario, e embora este funcionamento
incumba a toda a comunidade, poderão confiar-se a
certas pessoas, e só a elas, tarefas especificas que
desempenharão devido às suas capacidades particulares,
sob a sua inteira responsabilidade, recebendo
todas as honras se forem bem sucedidas.
Todos
os membros do pessoal, homens e
mulheres, novos e velhos, terão uma parte igual no
trabalho, uma parte igual nesta organização da
fábrica, tanto na execução quotidiana como na
regulamentação geral. Sem dúvida que haverá grandes
diferenças na natureza dos trabalhos; mais ou
menos árduos segundo a forca e as capacidades de
cada um, serão repartidos em função dos
gostos e das aptidões. E, bem entendido, as
disparidades em matéria de cultura geral permitirão
que os mais conhecedores ou mais inteligentes
façam prevalecer a sua opinião. Devido à
herança do capitalismo, continuarão inicialmente a
existir grandes diferenças de educação e de
qualificação e, por conseguinte, as massas
sentirão a ausência de bons conhecimentos técnicos
e gerais como uma inferioridade grave. Dado o
seu pequeno numero, os técnicos altamente qualificados
e os quadros científicos deverão portanto actuar na
qualidade de dirigentes técnicos, sem por
tal se poderem arrogar funções de comando
ou privilégios sociais além da estima dos
camaradas e da autoridade moral que sempre se
liga às capacidades e ao saber.
A
organização da empresa não é senão a
ordenação e ligação consciente das diversas etapas
do trabalho, de maneira que estas formem
um todo. É possível expor todas estas interconexões
entre estas operações articuladas umas com as
outras, por meio de um esquema geral,
de uma representação mental do processo real.
Esta imagem presidiria à elaboração do primeiro
"planning", correspondendo outras aos melhoramentos
e desenvolvimentos ulteriores. Este esquema deverá estar
presente no espirito de todos os trabalhadores;
é necessário que todos tenham um perfeito conhecimento
do que diz respeito a todos. Um mapa,
ou um gráfico, fixa e mostra, por uma
imagem simples e acessível a todos, as relações
de um conjunto complexo; do mesmo modo,
a situação da empresa no seu conjunto deverá
ser mostrada a todo o momento, em todos os
seus desenvolvimentos, por representações adequadas.
Sob a forma de números, é o que realiza a
contabilidade. Esta regista tudo o que se
passa no processo de produção: as matérias
primas que entram na fabrica, as máquinas
de que esta dispõe, o que ela produz,
a quantidade de horas de trabalho que foram
necessárias para obter um dado produto
e que cada operário fornece, finalmente quais
são os produtos terminados e entregues. Ela segue
e descreve os trajectos dos diversos materiais
no processo de produção. Permite assim comparar,
com o auxilio de balanços sistemáticos, os resultados
efectivos com as previsões do plano. A
produção da empresa transforma-se deste modo
num processo submetido a um controle mental.
A
gestão capitalista da empresa baseia-se igualmente
no controle mental da produção. Neste caso,
como no outro, as operações são representadas
sob forma de contabilidade. Mas, ao contrário
do precedente, o método de cálculo capitalista
está a todos os níveis adaptado ao ponto
de vista da produção de lucro. Os
seus dados fundamentais são os preços e
os custos; o trabalho e os salários entram unicamente
na qualidade de factores no balance da
empresa, quando este é efectuado para calcular
o montante anual do lucro. Pelo contrário,
no novo sistema de produção, o dado fundamental
é o número de horas de trabalho, quer seja
expresso em unidades monetárias, nos primeiros
tempos, ou sob forma real. No seio da
produção capitalista, o calculo e a contabilidade continuam
a ser segredos reservados unicamente à direcção. Não
dizem respeito aos operários. Estes não passam
de objectos submetidos à exploração, que surgem
apenas como factores entre muitos outros no
calculo dos custos e dos rendimentos, como vulgares
acessórios das máquinas. Com a apropriarão colectiva
da produção, a contabilidade passa a ser um assunto
público; toda a gente pode ter acesso
aos livros. Os trabalhadores têm a todo
o momento uma visão completa do processo
de conjunto. Só assim poderão estar aptos
a discutir problemas que se põem nas assembleias
da unidade de produção e nos comités de
empresa, a decidir quais as medidas a tomar e
a executar. Os resultados numéricos são tornados
visíveis sob a forma de quadros estatísticos,
de gráficos e de mapas que permitam abarcar
facilmente a situação. Estas informações não são
reservadas ao pessoal da fábrica: são públicas,
acessíveis a todos, empregados ou não. Não
passando toda e qualquer empresa de um elemento
da produção social, a relação entre as
suas actividades e o conjunto do trabalho social
efectua-se por meio da contabilidade. Assim,
o conhecimento exacto da produção em cada empresa
constitui um simples fragmento de um conhecimento
comum ao conjunto dos produtores.
ANTON PANNEKOEK