Teses sobre o bolchevismo

A sua natureza de classe e o seu papel histórico na praxis proletária internacional

 

 

Apresentaçom

 

1. Umha história do documento.

 

  As «Teses sobre o bolchevismo» foram elaboradas em 1933 por Helmut Wagner como membro da rede de luitadores vermelhos (Rote Kämpfer, RK) na Alemanha. O texto resumia as discussons e posiçons desenvolvidas dentro do grupo de Dresde da RK no periodo entre 1931 e 1932, e circulou desde 1933 como um papel hectografiado para a discussom nom só dentro da RK, mas tamém entre outros grupos. 

 

  Em 1934 as «Teses» foram publicadas, por primeira vez mais abertamente, em Holanda polo Grupo de Comunistas Internacionais (GIC), através do seu jornal Correspondência Conselhista (Rätekorrespondenz) em holandês e alemám. Esse mesmo ano as «Teses» foram traduzidas ao inglês polo grupo de comunistas de conselhos americanos em torno a Paul Mattick, e publicadas na revista Correspondência Conselhista Internacional (nº 3, Decembro de 1934). Essa traducçom foi por breve tempo reimpressa depois, como folheto, pola Federaçom Comunista Anti-Parlamentária de Glasgow, co novo título de «O papel burguês do bolchevismo. A sua relaçom co comunismo mundial.» (APCF, Glasgow, 1935). A fins da década dos 30, este folheto da APCF distribuiu-se internacionalmente durante alguns anos. Depois disso, e ainda que as «Teses» sejam umha síntetizaçom consistente das posiçons do comunismo de conselhos sobre a «questom russa», nom se lhes tem dedicado a necessária atençom.

 

 

2. A tese perdida número 60.

 

  A versom alemá publicada polo GIC holandês continha umha errata, aparentemente relativa à numeraçom das teses. Nesta versom faltava a número 60, saltando-se directamente da 59 à 61. Com isto, o texto alemám acaba aparentemente com 68 teses, quando em realidade ficavam impressas somentes 67. Na primeira traducçom inglesa e nas versons posteriores, esta errata foi corrigida cambiando a numeraçom, de modo que a tese 61 passou a ser a 60, a tese 62 a 61, etc.. Nom obstante, por sorte apareceu um dos manuscritos originais do autor, conservado no Arquivo Federal de Koblenz na Alemanha.

 

  Ainda que o manuscrito de Koblenz contém diversas variaçons de forma respeito da versom final, no seu grosso vem coincidindo com ela. Nel apareceu umha tese "extra" que parece indicar que o salto na numeraçom do original alemám hai que explica-lo por umha desafortunada omissom de imprensa, nom por um erro na numeraçom. Esta tese, à que corresponde o número 60, incluimo-la nesta ediçom, reestablecendo a numeraçom original.

 

 

3. Acerca desta ediçom.

 

  Se existem traduçons das «Teses» ao português estas terám sido efémeras e hoje provávelmente estám práticamente perdidas. Em espanhol existe umha traduçom, publicada na compilaçom titulada «Crítica do bolchevismo» (editorial anagrama, 1976), realizada a partir dumha versom francesa. Esta versom espanhola é francamente arbitrária em numerosos pontos em comparaçom coa primeira versom inglesa, de modo que decidimos nom utiliza-la e partir exclusivamente da inglesa. Contudo, consultando a versom original alemá, temos observado certas inexatitudes da traducçom inglesa, polo que optamos por realizar diversas correcçons pontuais a partir do alemám.

 

  Pola nossa parte, o motivo de publicar este texto é que o consideramos um documento básico para entender a ruptura profunda e total que existe entre o comunismo de conselhos e o bolchevismo, e para entender tamém a história em geral do movimento obreiro e da esquerda 'marxista' internacional do século XX. Constitue, pois, um importante meio para a formaçom política.

 

  Nas «Teses sobre o bolchevismo» encontram-se resumidos e compilados os posicionamentos dos comunistas de conselhos contra o bolchevismo, que se foram formando ao longo de todo um processo evolutivo, especialmente durante o periodo compreendido entre 1918 --começo da Revoluçom alemá-- e começos dos 30. Ainda que nom constituem umha análise pormenorizada e exaustiva, as «Teses» podem considerar-se no essencial como umha resposta acabada dos comunistas de conselhos aos partidários do bolchevismo, superando a tradicional disputa dos anos 20 entre a acusaçom leninista de «esquerdismo» e a refutaçom «tacticista» procedente do kapdismo (*). Os antecedentes directos das posiçons de Wagner podemos encontra-los já nos escritos de Otto Rühle, representante da tendência «unitária» (**), entre 1920 e 1924, e sintetizados no seu livro Da Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária (1924). Por suposto, hoje as «Teses» deveriam ser actualizadas à luz do processo histórico que chega até o derrube da URSS. Por isso qualquer proposta séria de discussom será bem-vida, e contestaremo-la na medida das nossas possibilidades.

 

  Por último, temos acrescentado para esta ediçom das «Teses sobre o bolchevismo» o subtítulo «A sua natureza de classe e o seu papel histórico na praxis proletária internacional», co objeto de aportar à leitora ou leitor umha idea rápida e precisa acerca da focage e conteúdos do texto.

 

  Lamentamos nom dispôr de informaçom biográfica do autor. Nom obstante, nos últimos anos foi publicado em espanhol um texto seu, «O anarquismo e a revoluçom espanhola», de 1937, na compilaçom «Expectativas fallidas (España 1934-1939). El movimiento consejista ante la guerra y revolución españolas...» (Adrede ediciones, 1999). Umha traduçom ao português pode encontrar-se em:

 

         http://www.geocities.com/Paris/Rue/5214/anarq_rev_espanhola.htm.

 

  Para acabar, damos os nossos agradecimentos pola informaçom histórica sobre o texto e polas versons alemá e inglesa, ao arquivo digital do comunismo de conselhos Kurasje (www.kurasje.org), dedicado à publicaçom de textos em alemám, inglês e holandês.

 

 

 

Notas:

    

* Esta refutaçom «tacticista» encontra-se desenvolvida na Resposta de Herman Gorter ao Esquerdismo de Lenin, que pode encontrar-se em espanhol na página de ediciones espartaco internacional, no livro descargável «La izquierda comunista germano-holandesa contra Lenin». Por entom, os comunistas de conselhos estavam em boa parte vinculados ao KAPD (Partido Obreiro Comunista de Alemanha) fundado em 1920, e consideravam que as diferências cos bolcheviques eram questons tácticas baseadas na confusom das condiçons orientais e ocidentais da luita de classes. Somentes a partir da expulsom da III Internacional, da derrota da revoluçom alemá e do curso da política bolchevique na Rússia e no mundo entre 1921 e 1924, ira-se produzindo a virage da fracçom conselhista «kapedista» cara as posiçons anti-bolcheviques radicais, as quais já se vinham sustendo por parte da tendência «unitária» desde 1921 (ver nota 2). As «Teses» constituirom assi, posteriormente, um passo adiante na unificaçom dos comunistas revolucionários frente ao bolchevismo.

 

 

** A tendência «unitária» abogava pola supressom do partido político e o pleno desenvolvimento das Unions Obreiras alemás como organizaçons unitárias económicas e políticas à vez, considerando que nas condiçons revolucionárias a luita económica transformava-se directamente em política e vice-versa, e que os partidos políticos, inclusive o KAPD (ver nota anterior), representavam umha contradiçom co livre desenvolvimento da actividade proletária de massas. Otto Rühle, um dos seus maiores e primeiros representantes, dizia já em 1920, depois da sua viage a Rússia como delegado do KAPD ao II Congresso da III Internacional, que «Os obreiros russos estám incluso mais explotados que os obreiros alemáns», e em 1921 denunciava abertamente que: «Rússia tem a burocracia do Comissariado, que governa. Nom tem um Sistema de Conselhos. Os Soviets som eleitos de acordo com listas de candidatos propostos polo Partido; existem baixo o terror do régime e, deste modo, nom som Conselhos num sentido revolucionário. Som conselhos 'de exposiçom', umha deceiçom política. Todo o poder em Rússia reside na burocracia, o inimigo mortal do Sistema de Conselhos.

 

  Mas a autonomia proletária e a economia socialista requirem o Sistema de Conselhos; neste tudo se produz segundo a necessidade, e todos tomam parte na administraçom. O Partido impide que Rússia logre um Sistema de Conselhos, e sem conselhos nom hai construiçom socialista, nom hai comunismo. A ditadura do partido é um despotismo dos comissários, é capitalismo de Estado..

 

  «...A ditadura zarista era a dumha classe sobre todas as demais classes, a dos bolcheviques é a do 5% dumha classe sobre as outras classes e sobre o 95% da sua própria classe.»

 

Questons Fundamentais de Organizaçom», publicado em Die Aktion, nº 37, 1921.)

 

 

 

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TESES SOBRE O BOLCHEVISMO

 

Helmut Wagner

 

(1933)

 

 

 

I. A SIGNIFICAÇOM DO BOLCHEVISMO.  

 

1. Na economia e no Estado soviéticos, o bolchevismo tem criado para si próprio um campo pechado de praxis social. Na III Internacional, tem organizado um instrumento para controlar e influenciar o movimento obreiro a nível dos roteiros internacionais. As suas directivas em matéria de princípios e táctica som elaboradas como «leninismo». Xurde a questom: É a teoria bolchevique, como di Stalin, o marxismo da época do imperialismo e a revoluçom social? É, segundo isso, o eixo do movimento revolucionário do proletariado a umha escala internacional? 

 

2. O bolchevismo obtivo a sua reputaçom internacional no movimento de classe proletário, primeiro pola sua sólida luita revolucionária contra a guerra mundial de 1914-18 e, segundo, pola Revoluçom russa de 1917. A sua importáncia histórico-mundial descansa no facto de que, baixo a sólida direcçom de Lenin, reconheceu os problemas da Revoluçom russa e, ao mesmo tempo, criou no Partido bolchevique o instrumento meiante o qual aqueles problemas poderiam ser resoltos práticamente. A adaptaçom do bolchevismo aos problemas alçados pola Revoluçom russa foi produzida por 20 anos de desenvolvimento esmerado e consistente coa ajuda do discernimento nas questons de classe fundamentais involucradas. 

 

3. A questom de se este exitoso domínio das suas tarefas intitula ao bolchevismo para a direcçom, na teoria, na táctica e na organizaçom, da revoluçom proletária internacional, envolve, por um lado, um exame das bases sociais e pre-condiçons da Revoluçom russa, e, polo outro, dos problemas da revoluçom proletária nos grandes países capitalistas. 

 

 

 

II.  AS PRE-CONDIÇONS DA REVOLUÇOM RUSSA. 

 

4. A sociedade russa estava decisivamente condicionada pola sua posiçom entre Europa e Ásia. Mentres a mais progressiva força económica e a mais forte posiçom internacional de Europa ocidental destruiram na Rússia, antes da fim da Idade Media, os primeiros começos dum desenvolvimento comercial capitalista, a superioridade política do despotismo oriental criara os alicerces para o aparelho estatal absolutista do Império russo. Rússia ocupava assi nom só geográfica, mas tamém económica e políticamente, umha posiçom intermédia entre os dous continentes, combinando os seus diferentes sistemas sociais e políticos ao seu próprio jeito peculiar. 

 

5. Esta posiçom internacionalmente ambígua de Rússia tem influido, decisivamente, nom só no seu remoto passado, mas tamém nos problemas da sua revoluçom durante as primeiras duas décadas do século XX. O sistema capitalista criou, na era da ascensom imperialista, dous centros, recíprocamente opostos mas íntimamente entrelaçados: na área fortemente industrializada da Europa ocidental e Norte-américa, o centro capitalista altamente desenvolvido do avanço imperialista activo; nas regions agrícolas da Àsia oriental, o centro colonial da passiva pilhage imperialista. A ameaça de classe ao sistema imperialista xurde, deste modo, de ambos estes centros: a revoluçom proletária internacional encontra o seu pivote nos países capitalistas de Europa e América, a revoluçom agrária nacional nos países camponeses de Ásia oriental. Na Rússia, que estava no ponto de divisom entre as esferas de influência dos dous centros imperialistas, as duas tendências revolucionárias misturaram-se. 

 

6. A economia russa era umha combinaçom da produçom agrária antiquada, característica de Ásia, e da economia industrial moderna, característica de Europa. A servidume em diversas formas sobrevivia, na prática, para umha enorme maioria dos camposeses russos. Os pequenos princípios da agricultura capitalista foram assi impedidos no seu desenvolvimento. Causaram meramente a quebra da aldea russa, o seu empobrecimento indescriptível, deixando mentres ao camponês encadeado a umha terra que já nom podia alimenta-lo. A agricultura russa, abrangindo quatro-quintos da populaçom russa e mais da metade da produçom total, era até 1917 umha economia feudal salpicada de elementos capitalistas. A indústria russa fora implantada no país polo régime zarista, que queria ser independente dos países estrangeiros, especialmente na produçom de subministros militares. Dado que, sem embargo, Rússia carecia da base dum sistema bem desenvolvido de ofícios manuais e dos rudimentos para a construiçom dumha classe de «trabalhadores livres», este capitalismo de Estado, ainda que nascido como produçom em massa, nom criara umha classe obreira assalariada. Era um sistema de servidume capitalista, e conservou fortes pegadas desta peculiaridade até 1917, em rasgos tais como o modo de pago do salário, o alojamento dos trabalhadores, a legislaçom social, etc.. Os obreiros russos estavam, por conseguinte, nom só técnicamente atrasados, mas tamém eram em grande medida iletrados e, numha parte ampla, estavam directa ou indirectamente ligados à aldea. Em muitos ramos da indústria a força de trabalho estava formada principalmente por obreiros camponeses temporeiros, que nom tinham nengumha conexom permanente coa cidade. 

  A indústria russa era, até 1917, um sistema de produçom capitalista intercalada com elementos feudais. A agricultura feudal e a indústria capitalista estavam, deste modo, mutuamente interpenetradas nos seus elementos básicos, e tinham-se combinado num sistema que nom podia nem ser governado polos princípios de economia feudais, nem proporcionar os alicerces para um desenvolvimento orgánico dos seus elementos capitalistas. 

 

7. A tarefa económica da Revoluçom russa era, em primeiro lugar, botar a um lado o dissimulado feudalismo agrário e a sua explotaçom continuada dos camponeses como servos, junto coa industrializaçom do agro, colocando-o no plano da moderna produçom de mercadorias; em segundo lugar, fazer possível a criaçom irrestrita dumha classe de verdadeiros «trabalhadores livres», libertando o desenvolvimento industrial de todas as suas travas feudais. Essencialmente, as tarefas da revoluçom burguesa. 

 

8. Fora sobre este fundamento que emergera o Estado do absolutismo zarista. A existência deste Estado dependia dum equilíbrio entre as duas classes possuidoras, nengumha das quais era capaz de dominar sobre a outra. Se o capitalismo fornecia a columna vertebral desse Estado, o seu sustem político proporcionava-o a nobreza feudal. A "Constituiçom", o "direito ao voto" e o sistema de "auto-governo" nom podiam ocultar a impotência política de todas as classes no Estado zarista que, baixo as condiçons do atraso económico do país, produziram um método de governo que era umha mistura de absolutismo europeu e despotismo oriental. 

 

9. Políticamente, as tarefas que confrontava a Revoluçom russa eram: a destruiçom do absolutismo, a aboliçom da nobreza feudal como primeiro estado e a criaçom dumha constituiçom política e um aparelho administrativo que assegurassem, políticamente, o cumprimento da tarefa económica da Revoluçom. As tarefas políticas da Revoluçom russa estavam, por conseguinte, completamente de acordo cos seus pressupostos económicos, as tarefas da revoluçom burguesa. 

 

 

 

III.  OS AGRUPAMENTOS DE CLASSE NA REVOLUÇOM RUSSA. 

 

10. Devido à peculiar combinaçom social de elementos feudais e capitalistas, a Revoluçom russa enfrentava tamém tarefas combinadas e complicadas. Diferia na sua essência tam fundamentalmente da revoluçom burguesa clássica, como se di que a sociedade do absolutismo russo de princípios do século XX diferia da sociedade do absolutismo francês do século XVII. 

 

11. Esta diferência, que correspondia aos fundamentos económicos dissimilares, encontrava a sua mais clara expressom política na atitude das diversas classes da Rússia face o zarismo e a revoluçom. Do ponto de vista dos seus interesses económicos, todas estas classes estavam fundamentalmente em oposiçom ao zarismo. Na prática política, sem embargo, esta oposiçom diferia nom só em grao, mas tamém era completamente diferente no seu objetivo e meta. 

 

12. A nobreza feudal luitava, fundamentalmente, somentes para extender a sua influência sobre o Estado absolutista, desejando mante-lo intacto para a salvaguarda dos seus privilégios.  

 

13. A burguesia, numéricamente débil, políticamente dependente e directamente ligada ao zarismo através das subvençons estatais, realizava numerosas mudanças na sua orientaçom política. O movimento decembrista de 1825 fora o seu único ataque revolucionário ao Estado absolutista. Na época do movimento terrorista dos Narodniki nos 70 e 80, eles apoiaram o movimento revolucionário passivamente, co propósito de fortalecer a pressom sobre o zarismo. Tamém tentaram utilizar, como meios de pressom, os movimentos folguísticos revolucionários até as luitas de Outubro de 1905. O seu objetivo nom era já o derrocamento, senom a reforma do zarismo. No periodo parlamentar de 1906 à primavera de 1917, entraram numha fase de cooperaçom co zarismo. Finalmente, a burguesia russa, fugindo das consequências das luitas revolucionárias das massas proletárias e camponesas, chegou à rendiçom incondicional à reacçom zarista no periodo do golpe de Kornilov, que fora desenhado para reestablecer o anterior poder do Zar. Tornara-se contra-revolucionária ainda antes de que as tarefas da sua própria revoluçom se cumprissem. A primeira característica de classe da Revoluçom russa é, portanto, o facto de que, como revoluçom burguesa, tivera que ser levada adiante nom só sem a burguesia, mas directamente contra ela. Xurdira assi umha alteraçom fundamental de todo o seu carácter político. 

 

14. Em conformidade coa sua maioria esmagadora, os camponeses convertiram-se no grupo social que, polo menos passivamente, determinava a Revoluçom russa. Mentres o campesinado capitalista medio e superior, numéricamente menos importante, representava umha política liberal, pequeno-burguesa, os pequenos camponeses esfameados e escravizados, numéricamente predominantes, estavam forçados polas necessidades elementares a recorrer à expropriaçom violenta das grandes fazendas. Incapazes de perseguer umha política de classe própria, os elementos camponeses russos achavam-se compelidos a seguer a direcçom de outras classes. Até Fevreiro de 1917 tinham sido, a nível de conjunto e apesar de revoltas esporádicas, a base firme do zarismo. Como resultado da sua imobilidade e atraso massivos afundira-se a revoluçom de 1905. Em 1917 eram decisivos para acabar co zarismo, que os tinha organizado em grandes unidades sociais no exército, no qual eles mutilaram passivamente a estrategia da guerra. Por meio das suas primitivas, mas irresistíveis, revoltas nas aldeas durante o subseguinte curso da Revoluçom, suprimindo assi as grandes fazendas, criaram as condiçons necessárias para a vitória da revoluçom bolchevique que, durante os anos da guerra civil, fora capaz de manter-se somentes por razom da sua ajuda activa adicional. 

 

15. Apesar do seu atraso, o proletariado russo possuia umha grande força combativa, devido à escola implacável da opressom zarista e a capitalista combinadas. Entregou-se com enorme tenacidade nas acçons da revoluçom burguesa russa e convertiu-se no seu intrumento mais aguçado e fiável. Como cada umha das suas acçons, através da colisom co zarismo, convertia-se numha acçom revolucionária, el desenvolveu umha consciência de classe primitiva que, nas luitas de 1917, especialmente na apropriaçom espontánea das empresas dominantes, elevou-se à altura da vontade comunista subjetiva.

 

16. A intelectualidade pequeno-burguesa jogou um papel distinto na Revoluçom russa. Intoleravelmente restringidas nos assuntos materiais e culturais, obstaculizadas no progresso profissional, instruidas nas ideas mais avançadas de Europa ocidental, as melhores forças da intelectualidade russa estavam à vanguarda do movimento revolucionário, e meiante a sua direcçom imprimiram-lhe um selo pequeno-burguês, jacobino. O movimento social-demócrata russo, no seu elemento dirigente de revolucionários profissionais, constitue primariamente um partido da pequena-burguesia revolucionária. 

 

17. Para a soluçom de classe dos problemas apresentados pola Revoluçom russa xurdiu ali umha peculiar combinaçom de forças. As enormes massas camponesas formavam o seu alicerce passivo; as massas proletárias, numéricamente débiles mas revolucionariamente fortes, representavam o seu instrumento de combate; o pequeno elemento de intelectuais revolucionários emergia como a mente retora da Revoluçom.

 

18. Este triángulo de classe era um desenvolvimento necessário da sociedade zarista, que estava dominada políticamente polo Estado absolutista, autonomizado, baseado nas classes possuidoras desprovistas de direitos: a nobreza feudal e a burguesia. Os peculiares problemas, implícitos no cumprimento da revoluçom burguesa sem a burguesia e contra ela, cresceram a partir da necessidade, para o derrocamento do zarismo, de mobilizar ao proletariado e ao campesinado na luita polos seus próprios interesses e, por conseguinte, de destruir nom só o zarismo senom as formas existentes de explotaçom feudal e capitalista. Numéricamente, os camponeses teriam sido capazes de manejar o assunto sos, mas nom estavam políticamente em posiçom de faze-lo enquanto eram incapazes de fazer efectivos (actualize) os seus intereses de classe exceito subordinando-se eles mesmos à direcçom de algum outro elemento de classe que, em certa medida, determinasse em que grao os interesses de classe do campesinado se levavam adiante. Os obreiros russos desenvolveram, em 1917, os começos dumha política de classe comunista e independente, mas careciam dos pressupostos sociais para a sua vitória, que entanto vitória da revoluçom proletária teria que ter sido, tamém, umha vitória sobre o campesinado. Isto era impossível para o proletariado russo que, nos seus diversos estratos, nom contava mais que dez milhons. De acordo com isto, eles tinham que subordinar-se, justamente como os camponeses, à direcçom dum grupo de intelectuais nom organicamente ligados aos seus interesses. 

 

19. A criaçom da direcçom organizada da Revoluçom russa e o desenvolvimento dumha táctica apropriada é o mérito dos bolcheviques. Eles lograram a tarefa, aparentemente sem esperança, de criar a aliança contraditória entre as massas camponesas que luitam pola propriedade privada e o proletariado que luita polo comunismo, fazendo assi possível a revoluçom baixo estas difíceis condiçons e assegurando o seu éxito ao manter junta esta contraditoria combinaçom obreiro-camponesa cos laços de ferro da sua ditadura de partido. Os bolcheviques constituem o partido dirigente da intelectualidade pequeno-burguesa revolucionária de Rússia; eles cumprirom a tarefa histórica da Revoluçom russa, a conformaçom da história apoiados no campesinado --revolucionário no sentido burguês-- combiinado coa classe obreira --revolucionária no sentido proletário--.&nnbsp;

 

 

 

IV.  A ESSÊNCIA DO BOLCHEVISMO. 

 

20. O bolchevismo tem todas as características fundamentais da política revolucionária burguesa, intensificadas polo discernimento (tomado do marxismo) das leis do movimiento das classes sociais. A frase de Lenín, «o social-demócrata revolucionário é o jacobino ligado às massas», é mais que umha comparaçom externa. É, mais bem, umha expressom da afinidade interna, técnico-política, co movimento da pequena-burguesia revolucionária da Revoluçom francesa. 

 

21. O princípio básico da política bolchevique -a conquista e o exercício do poder pola organizaçom- é jacobino. A linha de orientaçom da grande perspectiva política e da sua realizaçom, através da táctica da organizaçom bolchevique de luitar polo poder, é jacobina; a mobilizaçom de todos os meios e forças da sociedade aptos para o derrocamento do oponente absolutista, combinada coa aplicaçom de todos os métodos que prometiam éxito; o ziguezagueo e o compromisso com qualquer força social que poda usar-se, ainda quando durante o tempo mais breve e no sector menos importante da luita. A idea fundamental da organizaçom bolchevique, finalmente, é jacobina: a criaçom dumha organizaçom estrita de revolucionários profissionais que é, e seguirá a ser, a ferramenta flexível e militarmente disciplinada dumha omnipotente cúpula dirigente. 

 

22. Teóricamente, o bolchevismo nom tem desenvolvido em modo algum umha estrutura de pensamento própria que puidesse considerar-se um sistema pechado. Em lugar disso, tomou o método marxista de aproximar-se às classes e adaptou-no à situaçom revolucionária russa, é dizer, cambiou o seu conteúdo básico mantendo, namentres, os seus conceitos. 

 

23. O único logro ideológico do bolchevismo é a conexom da sua própria teoria política como um todo co materialismo filosófico. Como protagonista radical da revoluçom burguesa, cae na ideologia filosófica radical da revoluçom burguesa e fai dela o dogma da sua própria visom da sociedade humana. Esta fixaçom no materialismo filosófico é acompanhada dum contínuo recair no idealismo filosófico que considera em última instáncia a praxis política como umha emanaçom da acçom de dirigentes. (A traiçom do reformismo; o idolatramento de Lenin e Stalin.) 

 

24. A organizaçom do bolchevismo xurdiu dos círculos social-demócratas de revolucionários intelectuais e desenvolveu-se através de luitas fraccionais, escisons e derrotas, como umha organizaçom de dirigentes, coas posiçons dominantes em maos de intelectuais pequeno-burgueses. O seu crescimento ulterior formou-na, favorecido pola situaçom continuamente ilegal, como umha organizaçom de carácter militar, baseada em revolucionários profissionais. Somentes através dum instrumento tam rigoroso de direcçom podia levar-se adiante a táctica bolchevique, e cumprir-se a tarefa histórica da intelectualidade revolucionária de Rússia. 

 

25. A táctica bolchevique, ao serviço da prossecuçom da conquista do poder pola organizaçom, revelou -especialmente até Outubro de 1917- umha poderosa solidez interna. As suas contínuas fluctuaçons exteriores eram, essencialmente, só adaptaçons temporais às situaçons e relaçons de forças cambiantes entre as classes. De acordo co princípio de absoluta subordinaçom das massas à fim, sem qualquer consideraçom acerca do efeito ideológico sobre as classes que dirigia, a táctica foi revisada incluso em questons aparentemente fundamentais. Era a tarefa dos funcionários fazer cada umha destas manobras entendíveis para as «massas». Por outro lado, toda agitaçom ideológica entre as massas, ainda quando fundamentalmente em contradiçom co programa do partido, foi utilizada. Isso podia fazer-se porque o único problema era a captaçom incondicional das massas para a sua política. Tinha que fazer-se porque estas massas, obreiras e camponesas, tinham interesses contraditórios e umha consciência completamente diferente. Nom obstante, precisamente por esta razom o método táctico do bolchevismo revela a sua conexom coa política revolucionária burguesa; é, de facto, o método dessa política o que o bolchevismo efectiva. 

 

 

 

V. OS CRITÉRIOS DA POLÍTICA BOLCHEVIQUE. 

 

26. A meta que constituiu o ponto de partida do bolchevismo é o derrocamento do sistema zarista. Enquanto um ataque ao absolutismo, é dum carácter revolucionário-burguês. A esta meta está subordinada a luita em torno à linha táctica dentro da social-democracia russa. Nesta luita, o bolchevismo desenvolve os seus métodos e consignas. 

 

27. Era a tarefa histórica do bolchevismo soldar juntos, meiante a sua táctica de direcçom, a rebeliom do proletariado e do campesinado, que estavam em planos sociais completamente distintos, para a fim da acçom comum contra o Estado feudal. Tinha que combinar a revolta camponesa (a acçom da revoluçom burguesa nos começos do desenvolvimento da sociedade burguesa) coa revolta proletária (a acçom da revoluçom proletária no final do desenvolvimento da sociedade burguesa) numha acçom unificada. Foi capaz de logra-lo somentes por causa do facto de que despregou umha grande estratégia, na que forom utilizados os mais diversos movimentos e tendências de classe. 

 

28. Esta estratégia de utilizaçom empeza coa vontade de capitalizar as mais pequenas divisons e rupturas no campo oponhente. Assi, Lenin falou umha vez dos proprietários liberais como «os nossos aliados do manhá», mentres que noutra ocasiom saíra em apoio dos sacerdotes que se volviam contra o governo devido ao seu descuido material. Tamém estava disposto a apoiar às sectas religiosas perseguidas polo zarismo. 

 

29. A claridade da táctica de Lenin revela-se, nom obstante, no facto de que, sobretudo como resultado das experiências de 1905, plantejou a questom dos «aliados da revoluçom» na linha correcta, na que se volveu mais agudamente contra todos os compromissos cos grupos capitalistas dominantes e restringiu a política do «aliado» e dos compromissos aos elementos pequeno-burgueses e pequeno-camponeses, é dizer, a aqueles sos elementos que, históricamente, podiam ser mobilizados para a revoluçom burguesa na Rússia. 

 

30. A base de classe dual da política bolchevique expressa-se amplamente na consigna táctica da «ditadura democrática dos obreiros e os camponeses», que em 1905 convertiu-se na linha guia geral da política bolchevique e que ainda arrastrava a idea ilusória dalgumha sorte de parlamentarismo sem a burguesia. Mais tarde, foi reempraçada pola consigna dumha «aliança de classes entre obreiros e camponeses». Detrás desta fórmula nom se ocultava nada mais que a necessidade de pôr em movimento a ambas classes para a política bolchevique de tomar o poder. 

 

31. As respeitivas consignas, baixo as quais estas duas classes, cruciais para a Revoluçom russa, deviam ser mobilizadas a partir dos seus interesses económicos contraditórios, estavam subordinadas sem consideraçom ao único propósito de explotar as forças destas classes. Para mobilizar ao campesinado, os bolcheviques, tam cedo como em 1905, acunharam a consigna da «expropriaçom radical dos proprietários da terra polos camponeses». Esta consigna podia ser  considerada, do ponto de vista dos camponeses, como umha invitaçom a dividir as grandes fazendas entre os pequenos camponeses. Quando os mencheviques sinalaram o contido reaccionário das consignas agrárias bolcheviques, Lenin informou-lhes que os bolcheviques nom tinham decidido o que haveria de fazer-se coas fazendas expropriadas. Regular este assunto seria funçom da política social-demócrata quando a situaçom xurdisse. A reivindicaçom da expropriaçom das grandes fazendas polos camponeses era, assi, dum carácter demagógico, mas tocava aos camponeses no ponto crucial dos seus interesses. De jeito similar, os bolcheviques tinham tamém deixado cair consignas entre os obreiros, por ejemplo a dos soviets. O determinante para a sua táctica era, simplesmente, o éxito momentáneo dumha consigna, que nom era, em modo algum, considerada como umha obriga de princípios por parte do partido a respeito das massas, mas como o meio propagandístico dumha política que tinha por conteúdo último a conquista do poder pola organizaçom. 

 

32. No periodo de 1906 a 1914, o bolchevismo desenvolveu, em combinaçom do trabalho legal e o ilegal, a táctica do «parlamentarismo revolucionário». Esta táctica correspondia à situaçom da revoluçom burguesa em Rússia. Com ajuda desta táctica, tivo éxito em incorporar a guerrilha entre os obreiros e o zarismo, e entre os camponeses e o zarismo, dentro da grande linha de preparaçom da revoluçom burguesa baixo as condiçons russas. Sobretudo dado que cada passo na actividade parlamentar por parte da social-democracia russa carregava, a consequência da política dictatorial zarista, um carácter revolucionário-burguês. Na sua táctica de «parlamentarismo revolucionário» os bolcheviques tenhem continuado a política de mobilizaçom das duas classes cruciais da Revoluçom russa na situaçom cambiada entre a Revoluçom de 1905 e a Guerra Mundial, e tenhem utilizado a Duma como Tribuna da sua propaganda entre os obreiros e os camponeses. 

 

 

 

VI. O BOLCHEVISMO E A CLASSE OBREIRA. 

 

33. O bolchevismo tem resolto os problemas históricos da revoluçom burguesa na Rússia capitalista-feudal coa ajuda do proletariado como o instrumento activo, combatinte. Tem-se apropriado tamém da teoria revolucionária da classe obreira e tem transformado essa teoria para adequa-la aos seus propósitos. O «marxismo-leninismo» nom é marxismo, senom um encubrimento, com terminologia marxista adaptada às necessidades da revoluçom burguesa na Rússia, do conteúdo social da Revoluçom russa. Apesar de ser um meio para compreender a estrutura e as tendências das classes de Rússia, esta teoria convirte-se, em maos do bolchevismo, ao mesmo tempo num meio objetivo para velar o conteúdo de classe efectivo da revoluçom bolchevique. Detrás dos conceitos e consignas marxistas está oculto o conteúdo dumha revoluçom burguesa que tinha que ser levada a cabo, baixo a direcçom da intelectualidade pequeno-burguesa revolucionária, pola base unitária do proletariado orientado num sentido socialista e o campesinado ligado à propriedade privada, contra o absolutismo dos Zares, a nobreza proprietária e a burguesia. 

 

34. A reclamaçom da direcçom absoluta por parte da intelectualidade revolucionária, pequeno-burguesa e jacobina, está oculta detrás da conceiçom bolchevique do papel do Partido na classe obreira. A intelectualidade pequeno-burguesa podia expandir a sua organizaçom como um arma revolucionária activa somentes a condiçom de atrair e utilizar as forças proletárias. O seu partido é denominado, portanto, o partido do jacobinismo proletário. A subordinaçom da classe obreira combatinte à direcçom pequeno-burguesa era justificada polo bolchevismo coa teoría da «vanguarda» do proletariado, que el desenvolveu na sua praxis até o princípio: o Partido encarna à classe. O Partido, portanto, nom é um instrumento dos trabalhadores, senom os trabalhadores o instrumento do Partido. 

 

35. A necessidade de basear a política bolchevique nas duas classes mais baixas da sociedade russa, transcreve-a o bolchevismo na fórmula dumha «aliança de classes entre o proletariado e o campesinado», umha aliança na que interesses de classe lógicamente antagónicos som conscientemente alineados.

 

36. A reivindicaçom da direcçom incondicional do campesinado é disfraçada polo bolchevismo coa fórmula da «hegemonia dos proletários na revoluçom». Dado que o proletariado, pola sua parte, é dominado polo partido bolchevique, a «hegemonia dos proletários» significa a hegemonia do partido bolchevique e a sua reivindicaçom de dominar ambas classes da Revoluçom russa.  

 

37. A pretensom bolchevique de apropriar-se do poder apoiando-se nas duas classes encontra a sua expressom mais elevada no conceito bolchevique da «ditadura do proletariado». Em conjunçom co conceito do Partido como a organizaçom dirigente absoluta da classe, a fórmula da ditadura proletária significa, desde o começo, a fórmula do domínio da organizaçom bolchevique-jacobina. O seu conteúdo de classe é, além disso, completamente suprimido através da definiçom bolchevique da dictadura do proletariado como a «aliança de classes entre o proletariado e o campesinado baixo a hegemonia dos proletários» (Stalin e o programa da Comintern.) O princípio marxista da dictadura da classe obreira é tornado polo bolchevismo no princípio da dominaçom polo partido jacobino sobre as duas classes opostas nos seus interesses. 

 

38. O carácter burguês da revoluçom bolchevique é sublinhado polos próprios bolcheviques na sua consigna relançada da «revoluçom popular» („Volksrevolution“), é dizer, a luita comum das diferentes classes dum povo numha revoluçom. Essa é a consigna típica de cualquer revoluçom burguesa que, detrás da direcçom burguesa, arrastra à acçom a massas de camponeses pequeno-burgueses e de proletários para os seus próprios objetivos de classe. 

 

39. Em vista da luita da organizaçom polo poder sobre as classes revolucionárias, qualquer atitude democrática do bolchevismo convirte-se num mero movimento táctico. Isto tem-se demonstrado por  acima de tudo na questom da democracia obreira nos Conselhos. Em primeiro lugar, a consigna leninista de Março de 1917 sustém: «Todo o poder para os soviets», o aspecto de duas classes típico da Revoluçom russa, posto que os Conselhos eram «conselhos de obreiros, de camponeses e de soldados (é dizer, outra vez de camponeses)». Ademais, a consigna era meramente táctica. Fora erigida por Lenin na revoluçom de Fevreiro porque semelhava assegurar a transiçom «pacífica» do domínio da coaliçom social-revolucionária menchevique ao domínio dos bolcheviques, através do crescimento da sua influência nos Conselhos. Quando, depois da derrota da demonstraçom de Julho, a influência dos bolcheviques sobre os Conselhos declinou, Lenin abandonou temporalmente a consigna dos conselhos e demandou a organizaçom doutros órgaos de insurreiçom polo partido bolchevique. Foi só quando, como resultado do golpe de Kornilov, a influência dos bolcheviques cresceu fortemente de novo nos Conselhos, que o partido de Lenin retomou a consigna dos Conselhos. Dado que os bolcheviques consideravam os Conselhos preponderantemente como órgaos de insurreiçom, em lugar de como órgaos de auto-administraçom da classe proletária, deixavam claro por completo que para eles os Conselhos eram somentes umha ferramenta, com ajuda da qual o seu partido poderia tomar el mesmo o poder. Práticamente, o bolchevismo tem demonstrado isso em geral nom só coa organizaçom do Estado soviético depois da conquista do poder, mas tamém no caso especial da repressom sanguenta da rebeliom de Kronstadt. As reivindicaçons camponesas-capitalistas desta insurreiçom foram cumpridas pola política da NEP; as suas reivindicaçons democráticas proletárias, sem embargo, foram sufocadas com arroios de sangue obreira. 

 

40. A luita em torno ao conteúdo dos Conselhos russos conduziu, já em 1920, à formaçom dumha genuina -ainda que em conjunto todavia débil- corrente comunista no partido russo. A Oposiçom Obreira (Utyanikov) representava a idea da execuçom da democracia conselhista para a classe obreira. Como cada umha das outras oposiçons posteriores sérias desta orientaçom, foi erradicada meiante o encarceramento, o exílio e a execuçom militar, mas a sua plataforma permanece como o ponto de partida histórico para um movimento autónomo (selbständigen), comunista-proletário, contra o régime bolchevique. 

 

41. A atitude dos bolcheviques a respeito da questom sindical está igualmente determinada polo ponto de vista do mando e direcçom dos obreiros polo partido bolchevique. Na Rússia, os bolcheviques tenhem despojado completamente os sindicatos do seu carácter de organizaçons obreiras, através da sua estatizaçom e militarizaçom práticas como através do carácter compulsório imposto despois da conquista do poder. Noutros países se tenhem, a fim de contas, confessado defensores das organizaçons sindicais reformistas e burocráticas, e em lugar de defender o esmagamento de tais organizaçons, os bolcheviques tenhem promovido a «conquista» do seu aparelho. Eles eram os mais amargos oponhentes da idea das organizaçons de fábrica revolucionárias (revolutionären Betriebsorganisationen), porque estas encarnavam a democracia proletária. Os bolcheviques luitavam pola conquista ou renovaçom das organizaçons da burocracia centralista, que eles pensavam governar desde os seus próprios postos de mando. 

 

42. Como movimento de dirigentes da ditadura jacobina, o bolchevismo em todas as suas fases tem combatido consistentemente a idea da autodeterminaçom da classe obreira e demandado a subordinaçom do proletariado à organizaçom burocratizada. Nas dicussons que tiveram lugar antes da guerra sobre a questom da organizaçom, dentro da II Internacional, Lenin fora um veemente e rencoroso oponhente da comunista Rosa Luxemburg e apoiara-se, expressamente, no centrista Kautsky, cuja linha de traiçom de classe, durante e depois da guerra, desmascarou-se por completo. O bolchevismo tem demonstrado, incluso entom, tanto como durante todo o tempo subseguinte, que nom só nom tem entendimento algum da questom do desenvolvimento da consciência e das organizaçons de classe do proletariado, senom que tamém combate por todos os meios todas as tentantivas teóricas e práticas de desenvolver organizaçons e políticas de classe reais.

   

 

 

VII.  A REVOLUÇOM BOLCHEVIQUE. 

 

43. O bolchevismo chamou à revoluçom de Fevreiro a revoluçom burguesa, e à de Outubro a revoluçom proletária, para poder fazer passar o seu régime posterior como dominaçom da classe proletária e a sua política económica como socialismo. A absurdidez desta divisom da revoluçom de 1917 fai-se clara a partir da soa consideraçom de que, nesse caso, um desenvolvimento de sete messes teria sido suficiente para criar os pressupostos económicos e sociais da revoluçom proletária num país que tinha justamente entrado no processo da sua revoluçom burguesa, é dizer, seria simplemente saltar toda umha fase de desenvolvimento económico e social que requeriria, quando menos, décadas. Em realidade, a revoluçom de 1917 é um processo de transformaçom sucessiva (Umschichtungsprozeß) totalmente unitário e social, que no seu curso mais exterior começa co derrumbe do zarismo e que alcança o seu apogeu na vitoriosa insurreiçom armada dos bolcheviques o 7 de Novembro. Este violento processo de transformaçom sucessiva é o da revoluçom burguesa de Rússia baixo as peculiares condiçons russas, criadas históricamente. 

 

44. Neste processo, o partido da intelectualidade jacobina revolucionária tomou o poder sobre as duas ondas sociais do alçamento de massas, a camponesa e a proletária, e estableceu em lugar do triángulo de poder estourado, zarismo-nobreza feudal-burguesia, o novo triángulo governante, bolchevismo-campesinado-classe obreira. Assi como o aparelho estatal do zarismo governava sobre as duas classes possuidoras tornando-se independente, assi o novo aparelho estatal bolchevique começou el mesmo a tornar-se independente da sua dupla base de classe. Rússia passou das condiçons do absolutismo zarista às do absolutismo bolchevique

 

45. A política dos próprios bolcheviques alcança, no periodo da revoluçom, o seu nível mais alto na recuperaçom e dominaçom das forças de classe da revoluçom. Chega à culminaçom da sua táctica revolucionária na preparaçom e execuçom da insurreiçom armada. A questom do alçamento violento convertiu-se para os bolcheviques na questom dumha acçom militar exata, fixada até na data e planificada, cuja cabeça -assi como força impulsora e decisiva- é o partido bolchevique coas suas formaçons militares. A conceiçom, preparaçom e execuçom da insurreiçom armada polos bolcheviques leva o cunho evidente da política da conspiraçom jacobina (por outro lado, na Revoluçom russa a única possível), é dizer, da insurreiçom baixo as peculiares condiçons da execuçom da revoluçom burguesa contra a burguesia. 

 

46. O carácter interno da revoluçom bolchevique como umha revoluçom burguesa revela-se nas próprias consignas económicas desta revoluçom. Para as massas camponesas, os bolcheviques representavam, do jeito mais radical, a reivindicaçom da expropiaçom violenta dos bens e terras dos fazendeiros meiante a acçom espontánea do pequeno campesinado desejoso de terras. Eles expressaram perfeitamente na sua prática e consignas agrárias (Paz e Terra) os interesses dos camponeses sobre a protecçom da pequena propriedade privada -os quais luitam, portanto, numha linha capitalista- e foram assi, na questom agrária, os campions implacáveis dos interesses do pequeno capitalista, e nom, portanto, dos interesses proletários-socialistas contra a grande propriedade feudal e capitalista.

 

47. As reivindicaçons económicas da revoluçom bolchevique nom estavam enchidas, nem no que respeita aos obreiros, dum conteúdo socialista. Lenin rejeitara em várias ocasions com especial agudeza a acusaçom menchevique de que o bolchevismo representava umha política utópica de socializaçom da produçom num país que ainda nom estava maduro para isso. Os bolcheviques aclararam que, na revoluçom, nom se tratava em absoluto dumha questom de socializaçom da produçom, mas de controlo da produçom polos trabalhadores. A consigna do controlo da produçom serviu à tentativa de manter o capitalismo como força da organizaçom técnica e económica da produçom, mas privando-o do seu carácter de explotaçom. O carácter burguês da revoluçom bolchevique e da auto-restriçom bolchevique deste carácter económico burguês -em contraposiçom à confirmaçom bolchevique dos resultados do derrocamento de 1917-, nom poderia mostrar-se mais claramente que nesta consigna do controlo da produçom.

 

48. A força elementar do avanço dos obreiros, por um lado, e a sabotage dos patrons destronados polo outro, impulsaram, mentres tanto, mais alá a política industrial do bolchevismo, até a apropriaçom das empresas industriais pola nova burocracia estatal. Lenin descrevera a economia estatal, ao princípio estrangulada durante todo o periodo do comunismo de guerra pola sobre-organizaçom (Glavkismo), como capitalismo de Estado. A denominaçom da economia estatal bolchevique como socialista é o produto da era estalinista. 

 

49. O propio Lenin nom tinha, contudo, outra conceiçom fundamental da socializaçom da produçom que a dumha economia estatal dirigida burocráticamente. Para el, a economia de guerra alemá e o serviço postal eram modelos de organizaçom socialista da produçom, é dizer, organizaçom económica directamente burocrática e centralista, dirigida de acima a abaixo. El veu somentes o lado técnico, nom o lado proletário e social, do problema da socializaçom. Lenin apoiou-se igualmente, e com el o bolchevismo em geral, nos conceitos da socializaçom propostos polo centrista Hilferding, que no seu «Capital financeiro» tinha esboçado um quadro idealizado dum capitalismo completamente organizado. O problema real da socializaçom da produçom, é dizer, de apropriar-se das empresas e da organizaçom da economia através da classe obreira e dos seus órgaos de classe, os Conselhos económicos, o bolchevismo passou-no totalmente por alto. E tinha que ser passado por alto porque a idea marxista da associaçom de produtores livres e iguais é directamente oposta, em essência, ao domínio dumha organizaçom jacobina, e porque Rússia nom possue as condiçons sociais e económicas necessárias para o socialismo. O conceito da socializaçom dos bolcheviques nom é, por conseguinete, nada mais que umha economia capitalista apropriada polo Estado e dirigida, desde fóra e desde acima, pola sua burocracia. O socialismo bolchevique é capitalismo organizado polo Estado. 

 

 

 

VIII.  O INTERNACIONALISMO DOS BOLCHEVIQUES E A «QUESTOM NACIONAL». 

 

50. Durante a Guerra Mundial, os bolcheviques representaram um ponto de vista coerentemente internacional baixo a consigna «Converter a guerra imperialista em guerra civil» e comportavam-se, aparentemente, como marxistas coerentes. Mas o seu internacionalismo revolucionário estava tam determinado pola sua táctica na luita pola Revoluçom russa, como o estivo mais tarde o seu giro cara a política da NEP na própria Rússia. O apelo ao proletariado internacional era só um aspecto dumha política a grande escala, para o reforço internacional da revoluçom russa. O outro aspecto era a política e a propaganda da «autodeterminaçom nacional» dos povos, na que a perspectiva de classe era abandonada, ainda mais enteiramente que no conceito de «revoluçom popular», em favor dum apelo geral a todas as classes de certos povos. 

 

51. Este «internacionalismo de duas classes» dos bolcheviques, coas suas duas faces, originara-se a partir da situaçom internacional de Rússia e da da sua revoluçom. Rússia está entre os dous centros do sistema mundial imperialista, geográfica e sociológicamente. Em Rússia -a interseiçom da tendência imperialista activa e a tendência colonial passiva do capital mundial- este sistema desmoronou-se. As classes reaccionárias de Rússia provaram ser incapazes de junta-las de novo, como tenhem demonstrado a sua decisiva derrota no golpe de Kornilov -e mais tarde na guerra civil-. O único perigo auténtico, que ameaçava a revoluçom russa, era o da intervençom dos poderes imperialistas. Só a invasom militar por parte do capital imperialista poderia fazer cair ao bolchevismo e restaurar o zarismo -construido no sistema mundial de explotaçoom imperialista ao mesmo tempo como umha ferramenta e como um material-. O problema da defesa activa do bolchevismo contra o imperialismo mundial consistia, portanto, em contraatacar nos centros imperialistas de poder. Isto produziu-se através da política internacional de dupla face do bolchevismo. 

 

52. Co olhar na revoluçom proletária mundial, o bolchevismo, para conectar ao proletariado internacional coa sua revoluçom, propagou um ataque ao centro do imperialismo mundial nos países capitalistas altamente desenvolvidos. Coa política do «direito à autodeterminaçom das naçons», o bolchevismo propagou um ataque por parte dos povos camponeses oprimidos do lonjano Oriente ao centro colonial do imperialismo mundial. Cumha política internacional bilateral, orientada por grandes perspectivas, o bolchevismo tentou prolongar o braço proletário e o braço camponês da sua revoluçom na área internacional do capitalismo mundial. 

 

53. A posiçom do bolchevismo na «questom nacional» é prática; portanto, nom só umha conveniência da revoluçom burguesa no seu próprio país, a qual queria golpear ao zarismo coa ajuda dos instintos nacionais das capas camponesas e das nacionalidades, oprimidas de diversos modos, do Império Russo. Este é, ao mesmo tempo, o internacionalismo camponês dumha revoluçom burguesa que foi levada a cabo na era do imperialismo mundial, e que só podia manter-se fóra das malhas da rede internacional imperialista e altamente capitalista coa ajuda dumha contra-política orientada e activada internacionalmente. 

 

54. Como ferramentas da direcçom bolchevique desta política, de reforço internacional da revoluçom burguesa levada a cabo em solo nacional russo, o bolchevismo tentou criar duas organizaçons internacionais: a III Internacional para utilizar aos trabalhadores dos países capitalistas altamente desenvolvidos, e a Internacional Camponesa, como umha organizaçom para a utilizaçom bolchevique dos camponeses orientais asiáticos. Como clave final desta dupla política de classe apareceu a idea da revoluçom mundial, na que o proletariado internacional europeu e americano, e a revoluçom camponesa nacional -principalmente asiático-oriental- deviam ser remachados numha nova unidade internacional da política mundial bolchevique, baixo a estrita direcçom de Moscova. Assi, o conceito de «revoluçom mundial» tinha para os bolcheviques um conteúdo de classe totalmente diferente. Já nom tem nada em comum coa idea da revoluçom proletária internacional

 

55. A política internacional do bolchevismo conduziu-no, portanto, a repetir a Revoluçom russa a umha escala mundial, meiante a utilizaçom simultánea das revoluçons proletária e burguesa-camponesa, e a fazer da Direcçom do partido bolchevique de Rússia a comandante dum sistema mundial bolchevique que acoplaria os interesses proletários-comunistas e camponeses-capitalistas. Esta política foi positiva na medida em que tem protegido ao Estado bolchevique da invasom imperialista meiante a continua inquietaçom dos Estados capitalistas e, desde modo, tem-lhe proporcionado tempo para construir-se a si mesmo gradualmente dentro do sistema imperialista mundial, outra vez meiante os métodos capitalistas de relaçons comerciais, acordos económicos e pactos militares de nom-agressom. Isto tem dado a Rússia a oportunidade para umha edificaçom e extensom nacionais sem obstáculos da sua própria posiçom interna. A política de dous frentes do bolchevismo foi negativa enquanto, em ambos aspectos, a tentativa de trasladar as políticas bolcheviques activas à escala internacional fracassou. Co golpe da derrota da política bolchevique na China, o experimento da Internacional Camponesa tem quebrado por completo. A III Internacional, depois do lamentável desmoronamento do Partido Comunista de Alemanha, nom é já um factor na política mundial bolchevique. A tentativa gigantesca de trasplantar a política bolchevique russa à escala mundial tem fracassado históricamente. A restricçom nacional-russa do bolchevismo é tamém umha demonstraçom disso. Contudo, o experimento bolchevique na política de poder internacional tem deixado tempo e espaço para a retirada do bolchevismo à sua posiçom nacional-russa e para a conversom aos métodos imperialistas-capitalistas de política internacional. Teóricamente, esta retirada encontra a sua expressom na fórmula «socialismo num só país», eliminando assi a ligaçom internacional do conceito de «socialismo» depois de que a praxis económica russa lhe tenha, já, furtado o seu conteúdo de classe proletário e o tenha convertido num disfraz de tendências capitalistas de Estado, que se encontram igualmente no reformismo e nos movimentos do fascismo pequeno-burguês. 

 

56. É, de facto, inessencial, depois de dispôr dos resultados práticos de 15 anos de política do Estado bolchevique e da Internacional bolchevique, se Lenin tinha ou nom, no momento da fundaçom da Comintern e previamente, umha idea diferente da efectividade desta Internacional bolchevique. Na prática, o bolchevismo co seu conceito do «direito à autodeterminaçom das naçons» tem desenvolvido as tendências a umha política de poder bolchevique mundial. Tamém tem contribuido, através da Comintern, decisivamente ao resultado de que o proletariado europeu tenha sido incapaz de elevar-se à altura da percepçom profunda (einsicht), comunista revolucionária, e no seu lugar tenha permanecido trancado no lodo de conceitos reformistas, reavivados polo bolchevismo e decorados com frases revolucionárias. Assi aconteceu que o conceito da «Pátria russa» se tem convertido na pedra angular do conjunto da política dos partidos bolcheviques, mentres que para o comunismo proletário a classe obreira internacional está no centro de toda orientaçom internacional. 

 

 

 

IX.  O BOLCHEVISMO ESTATIZADO E A COMINTERN. 

 

57. O establecimento do Estado soviético foi o establecimiento da dominaçom do partido do maquiavelismo bolchevique. A base sociológica do poder estatal bolchevique, autonomizado por acima das classes e coa nova capa social da burocracia bolchevique, estava composta polo proletariado e o campesinado russos. O proletariado, encadeado polos métodos da afiliaçom compulsória aos sindicatos e polo terrorismo da Checa, formou a base da economia estatal bolchevique dirigida burocráticamente. O campesinado escondeu, e esconde ainda hoje nas suas filas, as tendências capitalistas-privadas da economia soviética. O Estado soviético estava, entre as duas tendências, sendo botado continuamente para atrás e para diante na sua política interior. Tentou domina-las através de métodos violentos, tais como a política do plano quinzenal e a colectivizaçom forçosa. Na prática, nom obstante, somentes tem incrementado as dificultades económicas, chegando ao perigo dumha explosom das contradiçons económicas a causa do intolerável sobre-tensionamento das forças dos obreiros e os camponeses. O experimento da economia estatal planificada burocráticamente do bolchevismo nom pode, em modo algum, qualificar-se finalmente como exitoso. Os grandes cataclismos internacionais que ameaçam Rússia haverám de incrementar as contradiçons do seu sistema económico até faze-las intoleráveis e podem acelerar enormemente o derrube do -até agora- gigantesco experimento económico. 

 

58. O carácter interno da economia russa está determinado polas seguintes circunstáncias: Basea-se no fundamento da produçom de mercadorias. É gerida segundo o ponto de vista da rendabilidade capitalista. Mostra um sistema de remuneraçom e de emulaçom decididamente capitalista. Tem levado os refinamentos da racionalizaçom capitalista até o extremo. A economia bolchevique é produçom estatal com métodos capitalistas. 

 

59. Esta produçom estatal produz, junto coa produçom, plusvalia, a qual lhes é espremida ao máximo aos trabalhadores. O Estado russo nom revela, certamente, classe do povo algumha que, individual e directamente, sejam os beneficiários da produçom de plusvalor; mas esta embolsa-se este plusvalor através do aparelho parasitário burocrático em conjunto. Além de para a sua própria conservaçom, bastante custosa, a produçom de plusvalia serve para a expansom da produçom, o suporte da classe camponesa e como meio de pago para as obrigas estrangeiras do Estado. De modo que, ademais da capa económicamente parasitária da burocracia dominante, os camponeses russos, como capa enteira e parte diferenciada do capital internacional, som os beneficiários do plusvalor gerado polos obreiros russos. A economia estatal russa é, por conseguinte, umha produçom de benefício e umha economia explotadora. É capitalismo de Estado baixo as condiçons históricamente únicas do régime bolchevique e representa, portanto, um tipo diferente e mais avançado da produçom capitalista, como ham de mostrar os países mais grandes e avançados

 

60. Este facto do capitalismo de Estado bolchevique situa o problema da libertaçom do proletariado russo novamente na agenda. A nova revoluçom proletária na Rússia contra a burocracia bolchevique e o seu Estado, assi como contra o campesinado capitalista que tem sido fortalecido políticamente nas colectividades, pode somentes ter lugar em conexom cumha nova revoluçom proletária nos grandes Estados capitalistas. Isto é tam inevitável como aquela, especialmente dado que o periodo do capitalismo de Estado bolchevique e a sua forte política de industrializaçom tem melhorado muito as suas perspectivas.

 

61. A política exterior da Uniom Soviética tem-se subordinado ao ponto de vista de proteger a posiçom de poder do partido bolchevique, e do aparelho estatal controlado por el. Económicamente, o governo russo luita por apoio para a sua construçom industrial, que foi impulsada cara adiante cos mais grandes esforços. O isolamento da economia da Rússia soviética gerou umha vigorosa política de supressom da autarquia compulsória, mentres mantinha o controlo do monopólio comercial exterior. Tratados comerciais e de abastecimento, acordos concessionários, assi como acordos de crédito voluminosos, reestableceram o vínculo da economia estatal russa coa produçom mundial capitalista e os seus mercados, nos quais Rússia entrou em parte como umha consumidora cortejada e em parte como um competidor sensível. Por outro lado, a política de conexom económica co capital mundial compeleu ao governo soviético a procurar relaçons amizosas e pacíficas cos poderes capitalistas. Os princípios dumha política mundial bolchevique, ainda propagados, estavam subordinados de modo oportunista ao nu tratado comercial. A política exterior enteira do governo russo obtivo o carácter dumha diplomácia típicamente capitalista e, finalmente, cindiu definitivamente, no campo internacional, a teoria bolchevique da sua praxis.

 

62. No centro de propaganda exterior da Comintern, o bolchevismo estableceu a tese do «cerco imperialista da Uniom Soviética», ainda que tal frase nom harmonizava no mais mínimo coas complicadas linhas de conflitos de interesses imperialistas e os seus agrupamentos continuamente cambiantes. Tentou mobilizar ao proletariado internacional para a sua política exterior e, através dumha política dos Partidos Comunistas, em parte parlamentária e em parte golpista, criar inquedança desde dentro nos Estados e, deste jeito, fortalecer a posiçom diplomática e económica da Uniom Soviética. 

 

63. Os antagonismos entre a Uniom Soviética e os poderes imperialistas levaram à contra-propaganda ideológica da Comintern baixo as consignas: «Ameaça de guerra contra a U.R.S.S.», «Protegede a Uniom Soviética». Deste modo, com estas oposiçons, os trabalhadores eram apresentados umha e outra vez como os únicos determinantes na política mundial por antonomasia; lhes era apartada a mirada da realidade efectiva dos factos da política exterior. Os aderentes dos partidos comunistas foram convertidos, por acima de tudo, em cegos e oportunistas defensores da Uniom Soviética e foram chamados a engano acerca do facto de que, a Uniom Soviética, tornara-se fazia muito tempo num factor igual da política mundial imperialista. 

 

64. A declaraçom contínua do grito de alarma, acerca dumha guerra iminente dos poderes imperialistas combinados contra a U.R.S.S., serviu na política interior para justificar a militarizaçom intensificada do trabalho e a crescente pressom sobre o proletariado russo. Ao mesmo tempo, nom obstante, a Uniom Soviética tinha -e tem- o maior interesse em evitar qualquer conflito militar com outros Estados. A existência do governo bolchevique depende internamente, em grande medida, de evitar quaisquer convulsons na esfera da política exterior, tanto bélicas como revolucionárias. Por conseguinte, a Comintern tem mantido na prática, em contradicçom flagrante coa sua velha teoria e propaganda, umha política de sabotage de todo verdadeiro desenvolvimento proletário revolucionário, e nos partidos comunistas espalha bastante abertamente a conceiçom de que a edificaçom da Uniom Soviética deve ser afiançada primeiro, antes de que a revoluçom proletária na Europa poda ser empurrada mais alá. Por outro lado, o governo russo tem, certamente, empregado fortes gestos contra os poderes imperialistas por motivos de prestígio, mas na prática sempre capitulou ante eles. A «venda» da via férrea manchu ao imperialismo japonês é um exemplo da capitulaçom irresistível da U.R.S.S. ao oponente imperialista. O reconhecimento, fáctico e às pressas, da Uniom Soviética por parte dos Estados Unidos de América nesse mesmo momento, é, à inversa, umha prova de que os poderes imperialistas tamém sabem evaluar positivamente o factor da Uniom Soviética dentro de marco da sua política de interesses contrária. Mas, sobretudo, a Uniom Soviética tem documentado a sua associaçom co capitalismo iniciando e extendendo relaçons económicas particularmente firmes co fascismo italiam e coa Alemanha de Hitler. A Uniom Soviética aparece como um apoio económico fiável, e com isso tamém como um apoio político, dos mais reaccionários Estados das ditaduras fascistas em Europa. 

 

65. A política de entendimento incondicional da U.R.S.S. cos Estados capitalistas e imperialistas nom tem só razons económicas. Tampouco é meramente umha expressom de inferioridade militar. A «política de paz» da Uniom Soviética está, mais bem, totalmente garantida decisivamente pola situaçom interna do bolchevismo. A sua própria existência como um poder estatal autonomizado depende do seu éxito em manter um equilíbrio entre a classe obreira dominada e o campesinado. Apesar do avanço realizado na industrializaçom do país, a posiçom do campesinado russo é ainda extremadamente forte. Primeiro, nas suas maos está todavia em grande medida, apesar de todas as políticas repressivas desde acima, a decisom sobre a alimentaçom do país. Em segundo lugar, a colectivizaçom tem fortalecido nom só o poder económico, mas tamém o poder político do campesinado, que como antes está ainda luitando por interesses capitalistas privados. Pois a «colectivizaçom» na Rússia significa umha uniom colectiva de camponeses proprietários privados co mantenimento dos métodos capitalistas de contabilidade e distribuiçom. Em terceiro lugar, finalmente, umha guerra e o armamento de massas do campesinado formaria as condiçons para umha renovada e violenta revolta camponesa contra o sistema bolchevique; justo como, polo outro lado, umha revoluçom do proletariado europeu faria tamém provável umha rebeliom aberta dos obreiros russos. Sobre estas bases, a política de entendimento entre o governo soviético e os poderes imperialistas é umha necessidade vital para o absolutismo bolchevique. 

 

66. A própria Comintern tem-se convertido numha ferramenta para a manipulaçom da classe obreira internacional para os objetivos oportunistas da glorificaçom nacional e a política de segurança internacional do Estado russo. Erguera-se, nas suas partes de fóra de Rússia, da unificaçom dos quadros revolucionários do proletariado europeu. Utilizando a autoridade da revoluçom bolchevique, o princípio organizativo e a táctica do bolchevismo foram impostos pola Comintern coa máxima brutalidade e sem consideraçom das divisons imediatas. O Comité Executivo (E.C.C.I.) -outra ferramenta de direcçom da burocracia governamental de Rússia- fora convertido no comandante absoluto de todos os partidos comunistas e a sua política foi completamente cindida dos interesses revolucionários efectivos da classe obreira internacional. As frases e resoluçons revolucionárias servirom de coberta para a política contra-revolucionária da Comintern e os seus partidos, que à maneira bolchevique se tenhem convertido em partidos da traiçom à classe obreira e da demagogia irrestrita, como se convertiram os partidos social-demócratas. Assi como o reformismo pereceu, no sentido histórico, coa fusom do seu aparelho co capitalismo, assi a Comintern naufraga pola ligaçom do seu aparelho à política capitalista da Uniom Soviética. 

 

 

X. O BOLCHEVISMO E A CLASSE OBREIRA INTERNACIONAL. 

 

67. O bolchevismo, nos princípios, a táctica e a organizaçom, é um movimento e um método da revoluçom burguesa num país predominantemente camponês. Levou ao proletariado -orientado num sentido socialista- e ao campesinado -orientado num sentido capitalista- a um alçamento revolucionário baixo a direcçom ditatorial da intelectualidade jacobina, contra o Estado absolutista, o feudalismo e a burguesia, co propósito de esmagar o absolutismo capitalista-feudal e, cumha grande estratégia de utilizaçom, acoplou juntos os interesses de classe opostos de proletários e camponeses com ajuda do discernimento de classe das leis do desenvolvimento social. 

 

68. O bolchevismo é, por conseguinte, nom só inservível como critério (Richtpunkt) para a política revolucionária do proletariado internacional, senom que é um dos seus mais duros e perigosos impedimentos. A luita contra a ideologia bolchevique, contra as práticas bolcheviques e, portanto, contra todos os grupos políticos que buscam ancora-las de novo no proletariado, é umha das primeiras tarefas na luita pola re-orientaçom revolucionária da classe obreira. A política proletária somentes pode ser desenvolvida partindo do terreo da classe proletária e cos métodos e as formas de organizaçom apropriados para isso.

 

 

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