Sobre a questom sindical
Discussom do
relatório de Zinoviev
III Congresso da Internacional
Comunista
Bergmann (1):
Camaradas: onte, no seu
relatório, o camarada Zinoviev insistiu no facto de que a questom da atitude face
os sindicatos tem umha importância preponderante para o desenvolvimento e para
o sucesso da revoluçom. Sabemos que a conquista do poder político deve
acompanhar à do poder econômico e, na realidade, nom se trata somentes da
adquisiçom do poder político e econômico; devemos, desde agora, compenetrar-nos
de que coa conquista do poder nada se fai se nom se criam as condiçons prévias
para estar à altura de consolidar e conservar esse poder. Tal é o problema para
o qual devemos encontrar umha soluçom. Na fase de corrida da revoluçom à escala
dos diferentes Estados, certas regions chegaram já várias vezes a tomar o
poder. em certos paises; mas, em graos diversos, essas revoluçons nom
conseguiram consolidar e edificar esse poder conquistado. E, como na maioria
dos casos, zoçobrou-se, como em 1918 aquando da erupçom da revoluçom alemá,
porque nom se conseguiu, umha vez conquistado o poder político, consolidar o
poder económico. Camaradas, é preciso investigar as dimensons desta causa. Os
comunistas devem examinar o que fazer para eliminar esses erros e encontrar o
meio para quem tais reveses nom se reproduzam num futuro. Nom podemos e nom
devemos ater-nos, nos países capitalistas altamente desenvolvidos, às
possibilidades ocasionais e ceder à ilusom de que tudo irá bem. Devemos, na
medida em que isso for possível no interior da sociedade capitalista, procurar
concrretamente criar órgaos que podam xurdir no momento oportunoem que fossem
chamados a cumprir as suas tarefas. No seu relatório de onte, o camarada
Heckert analisou as tarefas que se punham aos velhos sindicatos e mostrou-nos como
tentarám realizá-las no interior da sociedade capitalista. Tamén o camarada
Zinoviev esboçou-nos clara e nitidamente o papel dos sindicatos na revoluçom e
como devem ajudar despóis a edificar e consolidar o poder económico.
Quando consideramos as funçons
e a estrutura dos sindicatos no periodo capitalista, vemos, sobretudo nos
países capitalistas altamente desenvolvidos, que o seu papel era o de melhorar
a vida da classe operária dentro da sociedade capitalista. Essa tarefa que os
sindicatos tiveram já nom se póm hoje. Quanto a esse assunto nom hai entre nós
nengumha diferéncia de opinions. Nom obstante, vemos ainda muitos sindicatos
procurarem cumprir as suas velhas tarefas. que eram justas e boas no periodo
pre-revolucionário, mas que nom podem ser resoltas quando já se está em plena
acçom. Estes sindicatos tornaram-se a segunda arma do Estado capitalista.
O camarada Zinoviev dixo-nos
onte que actualmente os Estados capitalistas mantinham a sujeiçom da classe
operária nom só pola espada, senom tamén pola mentira. E esse aparelho, esse
aparelho de Estado da mentira, que mantém ainda perduravelmente a classe
operária na opressom está hoje constituído polos velhos sindicatos.
Assi, tornarom-se hoje, como
vemos principalmente na Alemanha, um instrumento directo, um bastiom do Estado
capitalista.
Camaradas, hai quem acredita
que se pode no momento actual conquistar essas organizaçons, transformá-las em
instrumentos da revoluçom. Quanto a isso, a opiniom do KAPD --e nom só a sua
opiniom, como é evidente aqui-- diverge da da maioria dos partidos da
Internacional Comunista. Dizia que o KAPD nom é o único a defender esse ponto
de vista: os «shop stewards» na Inglaterra, os IWW nos Estados Unidos, as
organizaçons sindicalistas na França, Espanha e Itália, mostram-nos que tamém
pensam assi: co auxílio dos sindicatos contra-revolucionários, empreendendo a
sua conquista, nom se pode revolucionarizar às massas operárias; nom podem ser
transformados em instrumentos da revoluçom. Vemos esse processo desenvolver-se
e perfazer-se na Alemanha de modo absolutamente claro. Os camaradas do VKPD (2)
mantinham até agora o seu ponto de vista da conquista dos sindicatos. Onte
ouvimos dizer por primeira vez, nos discursos dos camaradas Zinoviev e Heckert,
que é preciso destruir os sindicatos, mesmo que isso nom tenha sido dito
explícitamente. Se se fala assi desse problema, se se fala da destruiçom dos
sindicatos, pode ser provável encontrar aquí possibilidades de uniom entre nós
e a maioria. Estamos fundamentalmente convencidos de que é preciso que nos
libertemos dos velhos sindicatos. Nom porque tivessemos umha sede de
destruiçom, mas porque viamos que essas organizaçons tornaram-se realmente, no
pior sentido do termo, órgaos do Estado capitalista para repremer a revoluçom.
Quando em 1918, coa derrota do exército alemám, parecia chegar a hora da
conquista do poder, foram os sindicatos alemáns, os seus órgaos dirigentes,
que, do começo à fim da guerra, tinham pregado e posto em acçom a política
liquidacionista; foram os sindicatos que, no instante em que tinhamos o poder
político nas maos, deram vida ao Estado inanimado; co auxílio da camarilha dos
oficiais, foram os chefes dos sindicatos, Noske e outros, que reuniram os
bandos dispersos da burguesia e constituíram assi um obstáculo à revoluçom na
Alemanha.
Hoje ainda, toda a linha dos
velhos sindicatos está nessa posiçom. Camaradas, procura-se substituir a luita
aberta das massas operárias por umha apariência de combate. Assi, em 1918, os
trabalhadores alemáns, tomando como modelo a revoluçom russa, criaram os
conselhos operários; a idea dos conselhos afirmava-se cada vez mais nas massas
proletárias alemás e nom se deixava enterrar nem oprimir; entom, isto é, até
Abril/Maio de 1919, os sindicatos praticaram a política do cata-vento. Desde o
princípio tinham combatido vivamente a idea dos conselhos operários, reprimiram-na
do modo mais brutal, coa força das baionetas. Mas, de seguida, essa idea
emergeu de novo. Foi entom, co auxílio desses satélites sindicais do Estado,
que se criou a lei sobre os conselhos que devia, aparentemente, assegurar às
massas operárias a influência sobre a produçom, consumo e sobre todo o
movimento económico em geral. Nessa altura, grandes massas operárias
deixaram-se iludir; acreditavam verdadeiramente que essa lei lhes facultaria
umha influência sobre o desenvolvimento ulterior. Mas, a pouco e pouco,
compreendeu-se que essa lei foi tam sutilmente forjada que significava, no peor
sentido do termo, o amordaçamento da revoluçom. Vemos hoje as massas operárias
que se tinham dantes lançado sobre esse anzol, libertar-se completamente del
agora.
Nom se deve entender com isso
que todos os trabalhadores já compreenderam esse engano patente. Mas vemos hoje
amplas capas de trabalhadores revolucionários colocarem-se vigorosamente em
luita contra essa lei aparentemente revolucionária, na realidade reaccionária.
Os conselhos que fóram entom eleitos e formados nom som instrumentos da
revoluçom das massas, senom somentes instrumento da reacçom, no peor sentido da
palavra. Constatamo-lo logo de que hai qualquer luita, grande ou pequena.
Apenas um exemplo: quando, em Março deste ano, na Alemanha Central, a luita
começou nas fábricas Leuna (3), a fe nesses conselhos tinha de tal modo
declinado que a primeira acçom dos 25.000 operários de Leuna consistiu em depôr
o conselho legal e eleger, no seu lugar, um comité de acçom revolucionária.
Heckert:
É um absurdo!
Bergmann:
Entom, camarada
Heckert, conhezo melhor do que ti os acontecimentos de Leuna, e sei como se
desenrolarom. Foram um camarada do VKPD e um camarada do KAPD que revogaram o
conselho depóis dum combate, e, na terça de manha (4), foi eleito um comité de
acçom revolucionária na empresa polos trabalhadores. Acontece o mesmo em todas
partes onde os trabalhadores marcham para o combate.
Camaradas, devemos agora
examinar com coidado se esse desenvolvimento pode e deve continuar. Se vemos
que os trabalhadores nom podem ter confiança nestes conselhos criados pola lei
de conselhos, devemos entom esforçar-nos por reagrupar doutro modo aos
trabalhadores; devemos dar-lhes outros conselhos que, depóis quando triunfe a
revoluçom, terám efectivamente a confiança das amplas massas, do proletariado
industrial. Como é que isso se pode produzir? Será ou nom possível no interior
dos velhos sindicatos que nos mostraram, pola sua acçom, que se tinham
transformado numha parte e, verdadeiramente, numha parte mui forte do Estado
capitalista? Vemos por todas partes, nom só na Alemanha, que os sindicatos se
desenvolveram neste sentido. Vemo-lo na América, cos grandes sindicatos de
Gomper; vemo-lo bastante recentemente na Inglaterra no decorrer das últimas
semanas (5), na Itália quando das grandes folgas que foram derrotadas co
auxílio do partido socialista reaccionário. Assi, vemos, por todas partes, os
velhos sindicatos e os velhos partidos social-demócratas darem-se as maos.
Trabalham, de maos dadas, para aplainar as contradiçons de classe; enquanto que
nós, enquanto comunistas, temos a funçom --que devemos cumprir-- de fazer
ressaltar com mais acuidade as contradiçons de classe.
Os velhos sindicatos, na sua
constituçom e pola sua estrutura, eram órgaos que trabalhavam no interior da
sociedade capitalista e que se lhe adaptaram. A iniciativa, a vontade de
indivíduos ou de fortes minorias nom podia sobreviver nesses sindicatos. Era
impossível que fortes minorias abrisem caminho contra a vontade dos chefes
através das finas malhas dos estatutos e dos parágrafos próprios a cada
federaçom sindical. Vemos, por todas partes, que se violentou mesmo à grande
maioria dos membros activos organizados nos sindicatos; estes tenhem ainda hoje
que se curvar, contra a sua vontade, perante a ditadura dos chefes porque estes
tenhem firmemente entre as suas maos os fios da organizaçom, a totalidade do
seu aparelho financeiro. É a razom pola que essas grandes massas de militantes
nom podem de nengum modo afirmar-se num sentido revolucionário, som condeados à
inactividade e serám assi forçados a trabalhar, contra a sua vontade, na
manutençom dos sindicatos capitalistas actuais. Estamos conscientes de que é
impossível revolucionar esses sindicatos. Tentativas nesse sentido já foram
muitas vezes empreendidas. A mais expressiva, nesse sentido, desenvolve-se
nesse momento na Alemanha. Os camaradas do VKPD esforçam-se em revolucionar os
sindicatos, criando neles células comunistas, que devem contudo conduzir de
maneira lógica a umha descomposiçom e umha ruína dos sindicatos.
Querendo, pode-se desmentir
isto, mas sempre que se empreendeu a constituiçom de células, vemos que o que
se empreendeu na realidade é a própria destruiçom dos sindicatos centrais (6).
Vemos que, em todas partes, pola fundaçom das células, nom se afectou o
carácter dos sindicatos, nom se rompeu o encanto que os chefes exercem sobre os
militantes sindicais de base. Vemos, polo contrario, que, enquanto as massas
estám organizativamente ligadas a esses dirigentes, inclinam-se mais perante as
ordes dos seus chefes sindicais do que perante as consignas dos partidos
comunistas. Na Alemanha Central assistimos a exemplos típicos: grandes massas
de membros do VKPD nom seguiram as consignas de luita do seu partido porque
eram, ao mesmo tempo, membros dos sindicatos e seguiram as ordes anti-folga.
Acontece o mesmo por todas partes onde se olhar. Os sindicatos --dizia onte o
camarada Zinoviev-- devem ser órgaos que devem proceder à construiçom da
sociedade futura, que devem ter, tanto quanto possível, umha grande influência
aquando da construiçom da sociedade comunista.
Ao considerarmos o pasado dos
sindicatos, as tarefas que tiveram outrora, e a sua luita actual pola
revoluçom, vemos o contrário daquilo para que devem ser utilizados desde hoje.
Já durante a guerra apareceu umha forte aversom de grande parte dos
trabalhadores polos sindicatos; ainda mais, desertaram em massa. No início da
revoluçom, nas primeiras semanas, acreditamos que a questom sindical nom seria
a mais escaldante. Aquando da formaçom da Liga Espartaco ela nom foi resolta
como o deve ser hoje (7). Acreditávamos entom (e nom éramos os únicos a pensar assi
--outros, entre os quais os camaradas russsos, iludiram-se tamém quanto ao
andamento da revoluçom) que a vaga revolucionária seria mais rápida, que o
andamento da revoluçom na Alemanha e nos demais países teria um ritmo mais rápido
e que a questom sindical nom teria o papel que efectivamente tivo na revoluçom.
Já durante a guerra, como já dixem, grandes fracçons de obreiros tinham-se
desligado dos sindicatos porque a traiçom dos sindicatos, já efectiva antes da
guerra, ressaltava entom de forma ainda mais nítida. Daí, desde os primeiros
messes da revoluçom, a consigna da Liga Espartaco às massas operárias: fóra dos
sindicatos! (8). Essa consigna encontrou um poderoso eco principalmente nas
massas operárias do Ruhr; aí a patranha tinha-se mostrado de modo tam evidente
que umha grande parte dos mineiros captou essa consigna e fundou as suas
próprias organizaçons, organizaçons de fábrica (9). Posteriormente, após a
morte dos melhores dirigentes proletários da revoluçom, tais como Rosa
Luxembourg, Liebknecht, Leo Jogisches e milhares e milhares de anónimos do
proletariado, Levi e a sua camarilha tomaram a direcçom. Essa consigna foi
entom transformada, virada do revés, porque se temia o combate, porque se
queria evitar o combate contra a reacçom da burocracia sindical. Lançaram-se
consignas de entrar nos sindicatos, de os revolucionar do interior, de os
conquistar.
Ao logo da revoluçom
constituiram-se células que, quando se mostraram, formam muito depressa levadas
a compreender que os sindicatos, considerando todos os seus elementos, nom
podiam continuar um todo, mas que se expulsava das federaçons alemás nom só
membros de células, senom até núcleos enteiros da organizaçom. Temos hoje
sítios em que todos os membros que pertenciam a essas células foram expulsos.
Mais ainda: organizaçons enteiras, solidamente unidas, foram-no tamém. Assi, o
que na realidade se fixo foi umha destruiçom dos sindicatos. Quando, por um
lado, a velha burocracia sindical afirma o que eu digo aquí, isto é, que os
sindicatos som destruidos e dispersos por esse género de actividade, os
camaradas do VKPD afirmam entom que nom é o caso, que construem células co
perspectiva do mantenimento dos sindicatos. Acreditam que se pode animar de
espírito revolucionário os sindicatos que se tornaram os sólidos bastions da
reacçom.
Camaradas, já se dixo onte que
a opressom da classe operária é realizada graças à espada e ao revólver e
graças à mentira, isto é, por um lado o exército, por outro a burocracia
sindical; vimos igualmente --e quanto a isto nom pode haver divergência de
opinions-- que nom se pode animar o exército permanente dum espírito comunista.
Assi como nom se pode fazer do exército permanente umha arma da revoluçom, nom
se pode fazer dos órgaos da mentira --os sindicatos-- instrumento da revoluçom.
Vemos as cousas desenvolverem-se deste modo em todas partes; por todas partes a
marcha prossegue deste modo, e por isso a consigna dos comunistas nom deve ser:
conquista dos sindicatos, senom: destruiçom dos sindicatos e, ao mesmo tempo,
construiçom de novas organizaçons.
Camaradas, devemos reconhecer
e mostrar desde hoje, fazendo um esboço rigoroso, as formas de que o
proletariado necessita para manter e consolidar o seu poder depóis de ter
conquistado a vitória. Para isso é necessário, antes de tudo, nos países
altamente desenvolvidos de Europa ocidental, que levemos desde hoje e o mais
amplamente possível às massas proletárias a criar órgaos que mais tarde dirixam
a produçom. Heckert dixo aquí onte: as células que devem recobrir as fábricas
devem desenvolver-se fora das fábricas, em organizaçons de indústria; esse
objectivo esboçado, é verdade, da maneira mais rigorosa, é a fim perseguida em
primeiro lugar polas unions de diferentes tendências que nasceram ao longo da
revoluçom na Alemanha (10).
A velha uniom operária de
mineiros, à qual fazia alusom hai pouco, mostra na sua natureza e em toda a sua
tendência umha direcçom diferente da dos velhos órgaos do período anterior. Ela
encontra-se em luita renhida coa reacçom, com Amsterdam, e mostra que ela cria
órgaos que som chamados a apoderar-se da produçom. No momento actual, é verdade
que esses órgaos nom som irrepreensíveis, mas tornam-se, no decorrer da
revoluçom, cada vez mais sólidos. Nessas unions de mineiros considera-se ainda,
por exemplo, os conselhos legais como instrumentos revolucionários (11). Mas a
organizaçom de fábrica dos mineiros compreenderá tamém que essa lei sobre os
conselhos de fábrica significa o meio mais seguro de os enganar.
A Uniom Operária Geral da
Alemanha (AAUD), que desde a sua orige trabalha em íntima ligaçom co KAPD,
explicou e reconheceu que os sindicatos seguem hoje um caminho distinto, que
devem ser construidos doutro modo, que devem luitar e combater com outros
meios. A Uniom Operária Geral rejeita consequentemente os meios de luita que
forma dantes adoptados polos sindicatos. No ponto dos seus estatutos relativo à
adesom à organizaçom de fábrica, encontra-se, em primeiro lugar, como condiçom
prévia a exigência de que os membros sejam partidários da ditadura do
proletariado. Nesses estatutos indica-se depóis que os membros devem recusar a
velha arma enferrujada do domínio político: a participaçom nas eleiçons para o
parlamento. Ela cria nas suas fileiras, a partir da sua organizaçom na fábrica,
os conselhos que devem ser os órgaos que, no momento da luita, exercerám o
poder e por detrás dos quais estarám as massas proletárias.
Esses conselhos, camaradas,
nom som conselhos no estilo dos conselhos falsificados que vimos nascer na Alemanha
de inícios de 1919, depóis da revoluçom. Nom som conselhos legalizados polo
Estado capitalista, eleitos na base da lei dos conselhos de fábrica e a ela
limitados; nom som conselhos que, em conformidade com essa lei, tenham que
velar polo aumento da produçom nas empresas, ou para que a calma e a orde
reinem na fábrica; mas som conselhos que estam nas próprias massas operárias,
que trabalham eles mesmos na banca e no torno, que combatem na primeira fila
dos trabalhadores, na luita quotidiana na fábrica, que expressam a vontade dos
camaradas activos na empresa. Som conselhos que adquirem raízes nas massas, que
lhes mostram o caminho da luita. Esses conselhos, esses órgaos, tornam-se os
órgaos que terám realmente por detrás deles às massas operárias.
É preciso criar a condiçom
prévia para que nom se reproduza umha vez mais a situaçom que vimos na Alemanha
em 1918, quando as massas operárias e os soldados criaram conselhos. Nessa
altura, o proletariado nom compreendeu a idea dos conselhos, nom sabia nada deles
para além de alguns ecos chegados da Rússia. E se hoje, na época revolucionária
em que nos encontramos, ainda preparamos os conselhos, se nom mostramos às
massas, na prática, o caminho que devem seguer, existe entom um perigo iminente
de que, na altura da próxima onda revolucionária, o proletariado ser de novo
atraido, de que o proletariado veja de novo que carecemos dos órgaos
necessários para a consolidaçom da vitória. É esta a razom pola que, camaradas,
estamos obrigados a criar em todas partes esses órgaos. Nom é só na Alemanha
onde vemos produzir-se assi o desenvolvimento; vemo-lo tamém nos diferentes
países capitalistas altamente desenvolvidos. Na Inglaterra, vemos neste momento
os «shop stewards» conduzir a luita de modo encarniçado contra as «trade
unions» inglesas. Vemos que a sua influência é, no momento actual,
numericamente fraca, porque esta uniom, esta organizaçom de trabalhadores, nom
tem que luitar somentes contra a burocracia sindical, senom tamém contra toda a
força guvernamental. Porque os sindictos da velha escola tornaram-se em
quase todos os países órgaos do governo, gozam amplamente da sua protecçom.
Depóis das luitas da Alemanha Central, vemos que nas fábricas gigantes os
operários som obrigados a entrar nas velhas organizaçons sindicais; o
empresário exerce umha presom sobre os sindicatos quando eles querem tornar-se
activos no seo da empresa. Vemos, pois, as cousas desenvolverem-se em todas
partes nessa via. Quando os camaradas afirmam que será possível conquistar os
sindicatos desde dentro, insuflar-lhes um espírito comunista, é umha heresia
perante a qual nom podemos ceder. Acreditamos, e vemos essa crença confirmada
pola prática, que essas cousas nom som possíveis. Devemos criar desde já órgaos
que podam empreender o combate contra os bastions que apoiam o Estado
capitalista.
Camaradas, o movimento
operário internacional, o movimento comunista internacional deveria ter
principalmente isso em vista. Deverá, se nom quixer cometer um erro, se vê
claramente como as cousas se desenvolvem, optar por esta via se algumha vez for
possível manter o poder conquistado nos países capitalistas. Vemos que a tarefa
dos velhos sindicatos consiste ainda hoje em camuflar as contradiçons que
xurdem, aplaina-las, mentir aos trabalhadores, engana-los. Temos tanto mais a
tarefa de mostrar, na prática, aos trabalhadores que é possível criar agora os
órgaos práticos que mostram às massas operárias o outro caminho, que mostram o
que significa o sistema de conselhos, qual a sua tarefa, como devem ser feitos.
Isso nom poder ser realizado no interior dos velhos sindicatos.
Os sindicatos, como nós os
vemos, som estruturados em organizaçons de fábrica nas empresas, na fonte da
produçom, onde as massas operárias se encontram reunidas, onde formam um grande
todo; lá, cada trabalhador tem maiores possibilidades de ser integrado na base
do próprio trabalho, na constituiçom das organizaçons de trabalhadores, de tal
modo que tem interesse no desenvolvimento de conjunto, no conjunto do próprio
trabalho. Camaradas, isso nom pode acontecer se criamos sindicatos nos quais
hai umha ditadura central de acima para abaixo. Polo contrário, é preciso que a
vontade das massas operárias industriais altamente desenvolvidas chegue a
repercutir-se de abaixo para acima. É na própria fábrica na que está a fonte
desta força. É alí, no processo de produçom, onde devemos elevar e formar o
operário apra que el mesmo se transforme num instrumento da revoluçom. Nestas
condiçons, o centralismo de cúpula nom pode ser o princípio de construiçom dos
sindicatos; o desenvolvimento deve seguer um curso contrário. Nós enquadramos o
conjunto dos trabalhadores nas organizaçons de fábrica. Nas fábricas os
trabalhadores elegem os seus conselhos, os órgaos que representam os seus
interesses.
O camarada Heckert dizia ontem
que nós, o Partido Comunista Operário, recusamos a intervir nas questons da
luita quotidiana, que temos sempre somentes o grande objectivo em vista, de maneira
precipitada. Nós vemos a tarefa, enquanto comunistas, nom de lançar as consignas
da luita quotidiana entre as massas operárias, senom que essas consignas devem
ser postas polas massas operárias nas fábricas. Temos sempre que indicar que a
soluçom dessas questons quotidianas nom melhorará a sua situaçom e que em
nengum caso poderá conduzir à queda da sociedade capitalista. Enquanto
comunistas, temos a tarefa de pôr sempre perante os olhos das grandes massas o
grande objectivo, o derrube do capitalismo e a construiçom da sociedade
comunista. Como comunistas, temos a tarefa de participar nesse combate diário,
de marchar à cabeça dessas luitas. Assi, camaradas, nom rejeitamos o combate
quotidiano, colocamo-nos à frente das massas, mostramos-lhes sempre o caminho,
o grande objectivo do comunismo.
Tal é a tarefa do partido
comunista, das organizaçons comunistas, nestas organizaçons operárias.
Sabemos, contudo, que essas
organizaçons económicas podem facilmente cair no oportunismo; vemos em todas
partes o perigo de que nom reconhezam o objectivo. Nom o vemos somentes nos
sindicatos alemáns, senom tamém nos sindicatos que já se desligaram das
federaçons centrais e luitam com meios revolucionários. Vimo-lo na Itália
aquando da ocupaçom de fábricas e, em parte, nos IWW que rejeitam
fundamentalmente a luita política. Vemos, por todas partes, essas organizaçons estiaram
por causa disso. É tarefa dos comunistas infundir nesses organismos um espírito
revolucionário, o espírito do comunismo, para que nom caiam na via do
oportunismo. Por isso, participamos em todas estas luitas; onde quer que elas
se produzam, os comunistas tenhem o dever e a responsabilidade de colocar-se à
frente do combate. Camaradas, se fundamos estas organizaçons de fábrica nom
devemos esquecer antes de mais de reuni-las num grande todo, num bloco que se
constitue numha totalidade decidida. Umha vez unificadas essas organizaçons
através do país, por localidades e por distritos, vemos entom a base do sistema
dos conselhos desenvolver-se no interior da sociedade capitalista, e torna-se
possível obter nos seus traços fundamentais o sistema dos conselhos e
familiarizar à classe operária, na acçom, com esta idea. Se empreendemos a
luita desse modo, se formamos e aperfeizoamos assi a classe operária para que
ela se transforme no órgao da demoliçom do Estado capitalista, entom, camaradas,
temos criada a condiçom prévia na sociedade capitalista. Entom, no dia da
revoluçom, nom estaremos realmente de maos vazias, teremos familiarizado a
classe operária coa idea que a ela devemos levar a todo o custo. Devemos
acelerar o desenvolvimento dessas organizaçons, ajuda-las na sua edificaçom e
infundir-lhes o espírito comunista.
Schulz:
Qual é a percentage de Dittman
(12) que está trás desses raciocinios?
Bergmann:
Nom sei, camarada Schulz, como
pode comparar isto com Dittman. Quando vemos organizaçons dos diferentes países
hoje reunidos no congresso internacional dos sindicatos vermelhos (13),
penetradas da mesma idea: forçar a revoluçom no mundo, infundir nas massas o
espírito revolucionário, destruir a sociedade capitalista, entom devemos
encontrar os meios para unir o máximo possível essas massas numha linha
fundamental unitária, e de tal modo que seja deixada umha maior marge de
manobra a cada país, de acordo coa sua estrutura diferente. O movimento nom é
idéntico em todos os países. Neles nom se constatam nem as mesmas tendências,
nem as mesmas possibilidades de desenvolvimento. Vemos que os IWW americanos
encontram-se nos velhos sindicatos; é possível que, talvez, nom podam agir
doutro modo, hoje, na américa; se entram nos sindicatos, tenhem ao mesmo tempo
umha organizaçom paralela, que é a espinha dorsal do seu movimento.
As cousas nom se apresentam do
mesmo modo, hoje, na Alemanha. Se hoje os camaradas do VKPD reconhecesem --e
quanto a nós deveriam reconhece-lo-- que a conquista dos sindicatos é absurda,
que nom se deve conquistá-los, entom seria preciso reconhecer a necessidade de
encontrar outras vias. Se 3 milhons ou 2 milhons e meio de membros de
sindicatos decidiram hoje a ligaçom com Moscova, coa Internacional Sindical
Vermelha, isso nada significa para nós se nom nos libertamos ao mesmo tempo do
domínio dos seus chefes. Essa declaraçom programática, essa simpatia por
Moscova, nom significa absolutamente nada. Se nom se tenta hoje afastá-los dos
velhos sindictos, verá-se aos membros que se decidiram por Moscova --na
verdade, por meio de boletíns de voto ou de maos erguidas-- seguir o apelo dos
seus bonzos sindicais e dos seus chefes no dia do combate. É o que vemos,
camarada Heckert, em Chemnitz onde ti vives, e se pensas doutro modo, prova-o.
Camaradas, as cousas desenvolvem-se rápidamente. Se somos conscientes de que a
revoluçom se desenvolve, devemos empreender sem reservas a acçom. No caso
contrário, a revoluçom surpreenderá-nos. A simples declaraçom dumha parte dos
membros dos sindicatos pola ligaçom a Moscova nom é para nós umha prova de que
as massas fôrom revolucionarizadas pola táctica de células. Devem dar-nos ainda
outras provas.
A revolucionarizaçom dos
sindicatos nos países em que se tornaram os firmes suportes do capitalismo é
hoje um absurdo. É um falso ponto de partida julgar que isso pode cumprir-se.
Os 9 a 10 milhons de sindicalizados alemáns poderiam, se fossem
revolucionários, se constituisem o órgao da revoluçom, tomar efectivamente o
poder hoje; poderiam, se os tivessemos do nosso lado, aproveitar-se da
situaçom, qualquer dia e a qualquer hora, para destruir a sociedade capitalista
na Alemanha; atiçar aí a revoluçom e com isso impulsar a revoluçom mundial.
Vemos falhar em todos lados a esses órgaos, e tenhem que falhar; e é por causa
disso que em interesse e em serviço à revoluçom, devemos reclamar, exigir a sua
destruiçom. Assi como se tivo que destruir, esmagar aos partidos políticos do
período pre-revolucionário, tamém se devem destruir os órgaos da organizaçom
económica, os sindicatos, antes de chegar à vitória da revoluçom.
Camaradas, se a destruiçom dos
sindicatos, se a luita nos sindicatos dos países capitalistas altamente
desenvolvidos nom se mostrou até agora suficientemente violenta, se hoje, da
nossa parte, a tónica nom é aí suficientemente posta, é porque o início da
revoluçom tomou um carácter mais político que económico. Vemos, no momento
actual, que a questom económica está colocada talvez um pouco mais no primeiro
plano; que a base económica da luita xurde de modo mais agudo, e por isso, a
destruiçom e a descomposiçom aflora cada vez mais à superfície dos sindicatos.
Na Inglaterra e na Alemanha, se bem que os burócratas sindicais estejam
cobertos polo menos de tantos pecados como os partidos políticos do período
pre-revolucionário, vemos que a descomposiçom dos sindicatos nom progressou tam
depressa porque a exigência da sua destruiçom nom tinha sido afirmada de modo
tam forte. Camaradas, nom quero afirmar com isso que a partir de entom as
organizaçons políticas tenham cumprido as suas tarefas. Nom quereria que assi
fosse entendido. Mas vemos, por todas partes, como dizia hai pouco, que a
questom económica atingiu um grau mais elevado, que se coloca no primeiro
plano. Os sindicatos da época pre-revolucionária nom podem resolver as tarefas
da revoluçom, de onde a sua destruiçom.
Camaradas, encontramo-nos, no
que se refere à questom sindical, em contradiçom aberta coa maioria dos
camaradas aquí presentes ou representados. Se chegamos a esta conceiçom, se nos
agarramos fortemente a esta idea, nom é porque ela seja umha idea nossa, sem
nengumha base, senom porque, através da marcha da revoluçom na Alemanha e tamém
noutros países --na Inglaterra actualmente-- vimos que devemos criar, desde já,
órgaos qu serám chamados a apoderar-se da produçom. Encontramo-nos neste
terreo: ao serviço da revoluçom, para o seu desenvolvimento contínuo; e devemos
ater-nos a el, devemos perseverar neste ponto de vista se nom queremos que a revoluçom
retroceda nestes países. A partir da situaçom económica de dados países,
reconhecemos as cousas tal e como se desenvolvem; dela tiramos conclusons, e é
em conformidade com elas que agimos. Se vemos a situaçom de modo tam preciso,
se a reconhecemos e nos organizados deste modo, poderemos prestar realmente
serviços revolucionários, criar realmente os órgaos que no dia da revoluçom
serám os bastions sobre os quais poderá ser erigida a ditadura do proletariado;
nom é deixando subsistir as velhas organizaçons contra-revolucionárias e
procurando descompó-las, desde dentro, senom criando novos órgaos de destruiçom
do capitalismo e, ao mesmo tempo, de edificaçom do comunismo, que a vitória da
revoluçom será assegurada.
Notas:
(1) Pseudónimo de Meyer,
operário metalúrgico de Leipzig. Foi membro da Liga Espartaco durante a guerra.
(2) Partido Comunista Unificado
da Alemanha, fundado a fins de 1920.
(3) Durante a "Acçom de
Março" de 1921. As fábricas Leuna eram fábricas químicas ultramodernas na
Alemanha Central (posteriormente chamada Alemanha do Leste).
(4) O 24 de Março de 1921. O
presidente do novo conselho era Peter Utzelmann, membro do KAPD. Os operários
de Leuna nom passaram à ofensiva, mas apesar de tudo construiram durante a
folga um comboio blindado. Utzelmann e os outros kapedistas opunham-se à
tentativa de desencadear umha insurreiçom com base nos acontecimentos da
Alemanha Central, porque julgavam esse movimento demasiado fraco. Criticaram à
direcçom do KAPD por ter-se deixado embarcar numha empresa absurda que o VKPD,
numha acçom esquerdista, tinha desencadeado em funçom dos interesses do governo
bolchevique russo. Utzelmann tinha assi umha posiçom análoga à de Otto Rühle.
(5) Folga dos mineiros na
Primaveira de 1921.
(6) Assi, em Halle, onde os
comunistas do VKPD tinham tomado a direcçom dos sindicatos da cidade, a
direcçom nacional dos sindicatos enviou para alí funcionários que liquidaram os
sindicatos existentes e fundaram um novo às suas ordes.
(7) Na conferência do 18 de
Outubro de 1918 a Liga Espartaco nom examinou o problema dos sindicatos,
considerando-o como secundário. O mesmo aconteceu no congresso de fundaçom do
KPD. Bergmann emprega "Liga Espartaco" em vez de KPD (o KAPD opunha
muitas vezes o termo "comunista" ao termo "espartaquista").
(8) De facto, era a consigna
própria da esquerda (a maioria) do KPD. Mas foi efectivamente retomada e
aplicada por vezes pola Central do partido, incluindo Levi, até Maio de 1919.
(9) A Uniom Geral dos Mineiros,
formada por nom sindicalizados e pola quase totalidade dos antigos membros dos
sindicatos de mineiros do Ruhr. É a primeira AAU (Uniom Operária Geral)
importante (Abril/Maio de 1919). Esta organizaçom foi depressa destruida
enteiramente pola policia. Os mineiros repartiram-se depóis entre os
sindicalistas revolucionários, os unionistas (AAUD) e os sindicatos. No
congresso de fundaçom da FAUD (Uniom de Obreiros Livres da Alemanha)
anarco-sindicalista, um delegado dos mineiros do Ruhr assegurou que no ano
seguinte 200.000 mineiros estariam organizados na FAUD, mas na condiçom de se
abandonar o termo "sindicalista", porque, dizia el, "numha certa
medida os sindicalistas (revolucionários) nom som suficientemente
revolucionários aos olhos dos mineiros".
(10) As AAU e a FAUD (coas suas
diversas tendências).
(11) Alusom à "tendência
Gelsenkirchen" da FAUD, agrupando cerca de 100.000 operários do Ruhr (na
maioria mineiros). Esta organizaçom tornará-se depóis o sindicato do VKPD
(baixo o nome de Uniom dos Trabalhadores Manuais e Intelectuais de Alemanha).
Em 1924, a III Internacional fará-a dissolverse nos ADGB (os sindicatos
social-demócratas).
(12) USPD de direita.
(13) "Profintern",
criada no III congresso. Visava criar umha organizaçom sindical internacional,
paralela ao Comintern. A AAUD assistiu ao congresso de fundaçom, mas nom
permaneceu como membro, porque o Profintern continuava a exigir o trabalho
dentro dos sindicatos reaccionários e nom rejeitava o reformismo.