O SISTEMA DOS CONSELHOS *
A organizaçom de fábrica
(Betriebsorganisation) e a Uniom Obreira (Arbeiterunion) sustenhem-se e
rigem-se polo princípio do Sistema de Conselhos.
O Sistema de Conselhos é a organizaçom do
proletariado que corresponde à natureza da luita de classes, assí como à
sociedade comunista posterior. Se Marx dixo que a classe obreira nom podia
simplesmente apropriar-se da máquina guvernamental do Estado capitalista, senom
que devia encontrar a sua própria forma para levar a cabo a sua tarefa
revolucionária, este problema resolve-se coa organizaçom dos conselhos.
A idea dos conselhos nasceu na Comuna de
París. Os combatintes na Comuna reconheceram que era necessário destruir
resoltamente a máquina burocrática-militar em lugar de transferi-la dumhas maos
a outras, se queriam alcançar umha "auténtica revoluçom popular".
Reempraçaram a esmagada maquinária estatal cumha instituiçom dum carácter
fundamentalmente diferente: a Comuna. "A Comuna", escreveu Marx,
"nom seria umha corporaçom parlamentar, senom umha corporaçom de trabalho,
executiva e legislativa ao mesmo tempo". "Em lugar de decidir umha
vez cada 3 ou 6 anos que membro da classe dominante vai a representar ou pisotear
ao povo no parlamento, o direito geral ao voto servirá-lhe ao povo constituído
em Comunas como o direito individual ao voto lhe serve a um patrono qualquer
para localizar obreiros, capatazes e contáveis no seu negócio" [25]. O
primeiro decreto da Comuna foi a supressom do exército regular e o seu
reempraço polo povo armado. Logo a policia, a ferramenta do governo estatal,
fóra de seguida despojada dos seus atributos políticos e convertida no
instrumento responsável, revocável em qualquer momento, da Comuna. Igualmente,
os funcionários (officials) dos demais departamentos da administraçom. Dos
membros da Comuna para abaixo, o serviço público houvo de ser exercido pola
paga dos obreiros. Os títulos adquiridos e os privilégios dos altos dignatários
estatais desapareceram com esses mesmos altos dignatários. Os funcionários
judiciais (officials) perderam a sua aparente independência; de aquí em adiante
seriam eleitos, responsáveis e revocáveis. O efeito da completa elegibilidade e
revocabilidade de todos os cargos oficiais sem exceiçom, quando for convinte; a
reduçom dos seus salários ao nível da paga obreira usual; as mais simples e
óbvias medidas democráticas; ligariam os interesses dos obreiros cos da maioria
dos camponeses e serviriam, ao mesmo tempo, como umha ponte que enlaça
capitalismo e socialismo.
As medidas tomadas polos combatintes da
Comuna nom podiam ser mais que tal elo, dado que a sua re-organizaçom política
do Estado carecia da base económica apropriada.
Na revoluçom russa o elo convertiu-se
propriamente numha estructura coerente. Tam cedo como em 1905, em Petersburgo,
Moscova, etc., cobrou existência a instituiçom dos Conselhos Obreiros, ainda
que pronto tivo que deixar passo à reacçom. Mas a sua image quedara impressa
nos obreiros, e na revoluçom de Março de 1917 a massa dos obreiros russos
retomou outra vez imediatamente a formaçom de conselhos, nom por falta doutras
formas de organizaçom, senom porque a revoluçom tinha despertado neles a
necessidade activa dum amalgamamento como classe. Radek escreveu, nesse tempo,
em observaçom deste fenómeno:
"O partido sempre pode apelar
únicamente ao obreiro mais experimentado e lúcido. Isto mostra um extenso
caminho, amplos horizontes, pressupóm um certo nível de consciência proletária.
O sindicato apela às necessidades mais directas da massa, mas a organiza por
ocupaçons, no melhor dos casos por ramas industrais, nom como classe. No
período de desenvolvimento pacífico só as filas ao frente do proletariado som
conscientes da sua classe. A revoluçom consiste, sem embargo, em que as capas
mais amplas do proletariado, incluso aquelas que até agora tenhem visto a
política com hostilidade, sejam tambaleadas do seu repouso e prendidas por um
fermento profundo. Erguem-se, querem actuar; diversos partidos burgueses e
socialistas, diferentes nos objectivos dos seus esforços e no caminho que
querem tomar, giram-se cara elas. A classe obreira sinte instintivamente que
pode triunfar como classe. Busca organizar-se como classe. E este sentimento,
de que só pode conquistar como classe, de que os esforços dos seus oponentes
que se agrupam ao redor dum só partido nom podem ser vitoriossos, é tam grande
que, com cada extensom da liberdade de agitaçom para as consignas do partido,
incluso as seiçons mais avançadas do proletariado, cujos esforços vam mais
longe do que os desejos momentáneos da sua classe, submetem-se à organizaçom de
classe nos dias decisivos. Fam-no a partir dumha visom mais clara da natureza
da revoluçom proletária. Na época pacífica do movimento, a vanguarda proletária
fixa-se objectivos políticos estreitamente limitados, para cuja consecuçom a
força do conjunto da classe nom é absolutamente necessária. A revoluçom situa a
questom da conquista do poder na orde do dia. Para isso, as energias da
vanguarda nom som adequadas. Os Conselhos Obreiros convirtem-se deste modo no
cham sobre o qual a classe obreira se une."
Os revolucionários russos, os obreiros e os
pequenos camponeses, conquistaram o poder económico e político coa ajuda dos
conselhos. Tomaron o poder só para si mesmos, já nom compartindo-o com qualquer
resto da burguesia. Dividiram Rússia em distritos, nos quais os soviets eram
eleitos polos obreiros e os camponeses pobres, primeiro para as áreas locais,
logo para os distritos; os Soviets de Distrito elegiam um Soviet Central para o
conjunto do Estado, e o Comité Executivo emanava do Congresso destes Soviets.
Todos os membros dos soviets municipais, de distrito e central, justamente como
todos os funcionários e empregados, eram eleitos soamente sobre umha base a
curto praço; sempre continuavam dependendo do seu eleitorado e eram resposáveis
ante eles.
Nos Conselhos Obreiros, os obreros tinham
encontrado a sua organizaçom, a sua amalgamaçom a escala de classe e a
expressom da sua vontade, a sua forma e a sua essência. Tanto para a revoluçom
como para a sociedade socialista.
Através do establecimento dos Conselhos
Obreiros, ainda quando nom podíam ser mantidos na sua forma revolucionária e
feitos eficazes para as tarefas do socialismo, a revoluçom rusa tem dado aos
obreiros do mundo o ejemplo de como a revoluçom --como um fenómeno proletário--
será levada a cabo.
Com este ejemplo ante si, o proletariado
pode preparar a revoluçom mundial. O proletariado mundial, para transportar-se
eles mesmos --e soamente eles-- ao poder económico e político em todas partes
onde a revoluçom proletária está empezando a desenvolver-se, antes, durante e
depóis das luitas terám que criar Conselhos Obreiros nas municipalidades, os
distritos, as províncias, as áreas do país, e as naçons.
Quando o alçamento alemám de Novembro
estalou, de repente, no centro de todas as reivindicaçons e consignas
revolucionárias, estava o lema: "Todo o poder para os Conselhos!". E
simultáneamente, todos a umha, xurdiram os conselhos de obreiros e soldados.
Eram certamente incompletos, e a miúdo inadecuados --o obreiro alemám
confirmava aquí tamém a velha leiçom de que o alemám nom tem grande atitude
para a revoluçom--, mas nom estavam tam mal, tam extraviados e desunidos, como
tenhem propagado a crítica dos partidos e a hostilidade dos
contra-revolucionários. Como queira que o grosso dos seus erros puidese ser,
representavam um novo princípio --o princípio da revoluçom proletária, o
princípio da construiçom socialista--. Nisso reside a sua importáncia, o seu
valor histórico-mundial. E nisso tem que basear-se o devido respeito.
Mas o SPD, cómplices de reacçom e aliados da
burguesia (à qual houvo de resgatar mais recentemente coa sua política de
colaboraçom de entre os perigos da guerra), cairam raivossos sobre os Conselhos
Obreiros. Insultaram-nos e calumniaram-nos, nunca cansos de desacredita-los
meiante falsas e esageradas insinuaçons e acusaçons, e os sabotaram fazendo a
existência dos Conselhos Obreiros dependente das eleiçons parlamentares. Quando
estas, como resultado da participaçom de elementos burgueses totalmente
indignos de confiança ou directamente opostos à revoluçom, giraram dum modo
mais ou menos reaccionário, deixaram que o poder dos conselhos, ganhado na
revoluçom, fosse conferido por decissons de maioria e as autoridades
burocráticas à Assemblea Nacional. Onde os obreiros revolucionários resistiram
este procedimento traicioneiro e malévolo, os guardas de Noske interviram
suprimindo-os coa força das armas, em luitas às vezes encarnizadas (Bremen,
Braunschweig, Leipzig, Turinga, o Ruhr) e ponhendo fim violentamente aos
conselhos.
Se estes conselhos nom tiveram sido flores
da revoluçom prontamente abertas, que cairam inesperadamente no regazo dos
obreiros alemans, mas que eram básicamente alheas à sua ideologia política e o
seguiram sendo; se mais bem madurasem orgánicamente na consciência gerada
através da luita proletária, e tivesem sido formas firmemente enraizadas nos
lugares de trabalho, com cuja funçom e modo de funcionamento a massa se tivese
familiarizado, nunca terian sido tam rápidamente borrados do mapa e feitos
novamente desaparecer da image da revoluçom alemá. Assí, o proletário alemám
deixou que o único ganho que obtivera dos dias de Novembro, e desde a qual
poderia ter desenvolvido o princípio da sua revoluçom, da revoluçom proletária,
fosse rápidamente arrebatado de novo, e arrastrou-se cara atrás como um bo
cordeiro do partido e do sindicato adentro do redil dos grandes regimentos
hierárquicos. Com isso, a revoluçom estaba perdida para el.
A luita pola Organizaçom de Conselhos mostra
três fases. A primera é a luita pola conquista do poder. Aquí a organizaçom dos
conselhos é a libertaçom progressiva das cadeas do capitalismo: sobretudo e
tamém das cadeas do mundo intelectual burguês. Na sua formaçom está envolto o
desenvolvimento progressivo da auto-consciência do proletariado; a vontade de
convertir a consciência de classe proletária em realidade e dar-lhe tamém umha
expressom vissível. A força coa que se luita por esta Organizaçom de Conselhos
é directamente o termómetro que indica como de amplamente o proletariado se tem
compreendido a si mesmo como classe e se propóm prevalecer. Ao mesmo tempo, é
tamém claro que o simples facto de que os Conselhos Obreiros sejam mencionados
nom demonstra que sejam expressons da nova organizaçom, da organizaçom
proletária. Ocorrerá no curso do desenvolvimento que conselhos genuinos
degenerem outra vez, que coalhem numha nova burocracia. Entom a luita contra
eles terá que ser assumida tam cruelmente como contra as organizaçons
capitalistas. Mas o desenvolvimento nom se deterá ainda, e o proletariado nom
pode e nom descansará até que tenha alcançado a sua ditadura de classe.
Com ela começa a segunda fase da organizaçom
dos conselhos. Na luita pola sociedade comunista e, por conseguinte, pola
sociedade sem classes, nom hai compromisso de nengum tipo entre capital e
trabalho; a derrota incondicional da classe exploradora é o pre-requisito para
o desenvolvimento da classe proletária como a portadora da nova sociedade. A
fase da ditadura, cuja duraçom depende da conduta e vitalidade dos velhos
poderes, fai possível a transiçom. A classe proletária exerce umha ditadura na
que controla todas as instituiçons políticas e económicas da sociedade
exclusivamente nos seus interesses. O instrumento para isto som os conselhos.
Só assí fai-se possível a construiçom da comunidade comunista.
Esta é a terceira fase do sistema dos
conselhos. A espada é cambiada pola espátula. A economia orienta-se e
organiza-se em orientaçom a novos aspectos. A legislaçom expressa as
necessidades económicas e sociais na sua forma obrigatória geral. A posta em
prática e validaçom das novas leis convirte-se na labor dos que as fam: o
[poder] legislativo e o executivo coindidem. O corpo legislativo e o
administrativo formam umha unidade, em nome e em interesse da sociedade no seu
conjunto. O órgao desta actividade de construiçom perfeizoada e a longa escala
será o Sistema de Conselhos.
O sistema dos conselhos é à vez algo
negativo e algo positivo. Negativo porque destrue e bota a um lado o velho
sistema organizativo burocrático-centralista, o Estado capitalista, a economia
do benefício, a ideologia burguesa; e positivo porque cria e forma o marco da
nova orde social, a economia comunal, a federaçom de forças proletárias para a
nova construiçom cultural, e a ideologia socialista. O seu elemento é social,
nom individual; a sua mentalidade o sentido de comunidade, nom o egoísmo; o seu
princípio o interesse geral, nom o bem-estar individual; o seu marco de
referência a sociedade, nom a classe possuidora; a sua meta o comunismo, nom o
capitalismo. A atitude social básica dos conselhos, e a sua orientaçom à
essência e conteúdo da idea socialista, xurdem necessáriamente, como algo
natural: a apertura completa ao público e o controlo sem travas de todas as
funçons oficiais e directivas, a eliminaçom radical de toda burocracia e
direcçom profissional, a alteraçom completa do sistema de voto (assembleas,
direito a revocaçom, mandato imperativo, etc.) despraçando a ênfase principal
de todas as decissons importantes à vontade das massas, a construiçom da
educaçom sobre o fundamento da produçom social, o enteiro revolucionamento da ideologia
na direcçom do princípio socialista.
A organizaçom dos conselhos tamém implica,
sobretudo, umha nova táctica.
Polas revoluçons burguesas luitava-se na
rua, nas barricadas, com armas militares e exércitos. Mas os exércitos e a força
militar som meios burguesses, incluso quando som formados polos obreiros. O
exército é realmente formado por proletários incluso no período burguês. Ainda
um Exército Vermelho é basicamente umha organizaçom de combate burguesa,
estruturada de modo centralista, autoritária. Alí requirese dos dirigentes um
poder ilimitado de mando, e das tropas a obediência incondicional. A disciplina
é produzida pola força: uns quantos devem dominar sobre muitos. Umha revoluçom
realizada com militares, com exércitos, significaria que os proletários estavam
buscando superar à burguesia com meios burguesses. Se fosse possível, os
parlamentários tamém estariam no certo quando tomam o parlamento por um meio
revolucionário. Nengumha confiança no parlamento, nengumha confiança no
exército.
Em qualquer caso, nós nom estamos reunindo
em absoluto um exército burguês. Para começar, nom temos armas. Umhas quantas
ametralhadoras dispersam a todos os heroes armados com fuziles e pistolas. É
especialmente absurdo tentar, cos nossos recursos humanos, pór em pé um
exército burguês que, com firme centralismo, adormeza às tropas na obediência
escravizadora. Para tal luita, os revolucionários som demassiado independentes
e ilustrados. Os camaradas nom se submeterám mais baixo a disciplina cega, som
persoas livres --daquí, nom obstante, que nom sejam tam úteis e eficazes como
um exército--. No terreo de combate burguês, a burguesia é superior a nos,
tanto nos assuntos militares como na mesa de negociaçom e no parlamento. Disto
apreendemos que nom devemos ir ao terreo de combate da burguesia, senom que
devemos forçar à burguesia a vir ao nosso terreo de combate: a fábrica.
Nós temos entendido que a revoluçom
proletária é, em primeiro lugar, um assunto económico. O obreiro situado na
ideologia de partido pensa primeiro na conquista do poder político. Isto é
equivocado. A conquista do poder político nom tem como resultado directo que o
poder económico tamém caia em maos do vencedor. As leiçons de 1918 o tenhem
demonstrado. Por outro lado, tampouco a conquista do poder fai que o poder
político caia dumha soa vez, como umha fruta madura no regazo. A causa destas
superstiçons, os sindicalistas italiáns tiveram que pagar um alto custe [26].
Nós devemos sempre quedar-nos co facto de que os poderes político e estatal som
meios para assegurar interesses económicos; o exército, a justiça, a
constituiçom, a igreja, as escolas --todos servem para afiançar o capital e o
benefício--. A superestrutura política é o segundo, a economia o primeiro. A luita deve empreender-se a partir da base
económica. Nom hai nengumha receita particular para isto. Mas os
revolucionários devem tomar primeiro possuisom das fábricas e das suas funçons.
Controlo, participaçom nos cálculos e na direcçom, direito de co-determinaçom,
apropriaçom das fábricas, som o acorde coa situaçom, fases que poderiam quiçais
suceder-se rápidamente em tempos revolucionários. Em relaçom com isto, os
aparelhos da administraçom estatal e local, de justiça, policia, exércitos,
escola, etc., nom devem ser sacudidos tanto meiante o assalto desde fóra ante o
qual, dado que é experimentado como alheo e hostil por estes aparelhos
usualmente se oponhem com resistência unitária; mais bem deve fazer-se meiante
a luita incesante e feroz dentro, que brotará da crescente luita interna e se
nutrirá de ela. Esta luita interna só se empreenderá se os conselhos tenhem
existência. Eles som o fermento que engendra continuamente os levantamentos e
conflitos dentro, que os impulsa mais longe, que os agita constantemente até
que se produz o estalido aberto da luita.
Ao seu lado podem estar todavia luitas nas
ruas, massas armadas podem bater e contender polo predomínio de acordo coas
leis e regras da guerra burguesa --nom serám as luitas decisivas--. A énfase
principal da decissom estará nas luitas nas fábricas. Aquí as massas estám no
seu campo de batalha; aquí sabem melhor que é o que tenhem que fazer; aquí
estám no seu elemento. E aquí, ao final, as batalhas de rua e de barricada
tamém encontram umha e outra vez o suporte requerido. Únicamente aquí jaze a
garantia da vitória. Mas só quando as Organizaçons de Conselhos som à vez
formaçons económicas e políticas, nom unilateralmente políticas como o partido,
nom unilateralmente económicas como os sindicatos (anarcosindicalistas
incluídos), nom adulteradas, perigossas para o público, substitutos
contra-revolucionários como os conselhos de trabalho legais, cos que a
camarilha de Scheidemann coronou a bancarrota da revoluçom de Novembro.
A representaçom mais elevada dos interesses
dos obreiros revolucionários é o Congresso dos Conselhos. Deve emerger das
organizaçons de fábrica, ser a expressom funcional, organizativa e activa, da
vontade dos obreiros. É um sem-sentido pensar que poderia establecer-se por
meio dum partido ou dum sindicato. Entom existiria únicamente sempre como umha
sucursal partidista ou um apêndize sindical. Se o KPD fai propaganda polo
Congresso dos Conselhos sem a intençom de renunciar à sua própria existência
imediatamente na juntança do Congresso, todo o seu trabalho de propaganda
equivale a umha estafa. Só busca obter co Congresso dos Conselhos um
instrumento efectivo em maos dos dirigentes do partido para controlar aos
obreiros, e para perpetuar a sua influência mais aló da vitalidade do partido.
Em Moscova vemos como o Congresso dos Conselhos, pola graça do partido, se tem
volto um monicreque nas maos todo-poderosas daqueles que possuem o poder no
partido, ascendidos para converter-se em dignatários estatais. Nisso consiste a
condea da revoluçom russa, que hai tempo --finalmente, nom por esse motivo--
cessou de ser um assunto proletário.
O partido deve dar-se por terminado coa
constituiçom do Congresso de Conselhos. Igualmente o sindicato. Si, incluso a
Uniom Obreira (Arbeiterunion), que está estruturada sobre o princípio dos
conselhos e encarna a propaganda pola idea dos conselhos convertida em carne e
sangue, tem cumprido com isso a sua tarefa. Onde um Congreso de Conselhos
devera acontecer junto ao parlamento antes da fim do período
capitalista-burguês --o qual, por suposto, únicamente poderia ser umha
prefiguraçom do auténtico Congresso dos Conselhos--, neste caso as Unions
Obreiras (referimo-nos explícitamente à Uniom de Trabalhadores Manuais e
Intelectuais, fundada polo KPD; à Uniom Obreira (AAUD) do KAPD; à Uniom dos
Obreiros Livres (FAUD) dos sindicalistas, e à Uniom Geral Obreira-Organizaçom
Unitária (AAUD-E), como as mais conseqüentes e unificadas na sua constituiçom
organizativa e programática) som quiçais concebíveis como fracçons neste
Congresso de Conselhos. Nom obstante, na medida em que influenciam e determinam
a efectividade do Congresso através da sua actividade, em que a sua natureza
redunda dentro da natureza do Congresso, som causa da sua própria fim e
convirtem a sua existência em supérflua. Polo momento, as Unions Obreiras
estám, por assí dizer, guardando-lhe o sítio ao Sistema de Conselhos. No
próprio sistema dos conselhos está o cumprimento dos ideais organizativos,
técnico-administrativos e de transformaçom social da época socialista. Co Sistema de
Conselhos o socialismo sustem-se em pé ou desmorona-se (With the councils'
system socialism stands or falls).
Cap. 8 do
livro Da Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária, 1924.
Notas:
* Da
Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária foi escrito por Otto Rühle em
1924, quando era membro da Uniom Geral
Obreira - Organizaçom Unitária (AAUD-E).
O texto que aquí
apresentamos tem por base a traduçom inglesa de 1974, publicada por Socialist Reproduction em cooperaçom com
Revolutionary Perspectives e
realizada a partir do texto alemám publicado em 1970 polo Instituto para a Praxis e a Teoria do Comunismo de Conselhos
(Institut fur Praxis und Theorie des Ratekomminismus) de Berlím.
Esta traduçom
galego-portuguesa, assí como a versom da inglesa que toma como base, tenhem
equiparado as referências à AAUD-E, pois na inglesa inicial utilizam-se tanto
AAU como AAU-E. Tamém se indicam, onde se considerou relevante, os conceitos
alemáns para designar as organizaçons de
fábrica (Betriefsorganisation) e a Uniom
Obreira (Arbeiterunion), co objecto de remarcar que som conceitos e
estruturas distintas, ainda que interrelacionados. De facto, esta indicaçom
serve para remarcar tamém a diferência essencial e a oposiçom entre uniom
obreira e sindicato, que tenhem tanto em alemam como em inglês umha etimologia
diferente: no primeiro Gewerkschaft,
sinónimo do inglês trade union (lit. uniom de ofícios). A uniom obreira é a uniom "dos que trabalham" para a luita
revolucionária, o sindicato é umha
uniom "dos que compartem a mesma
profissom ou ofício" para os seus interesses laborais. O conteúdo da
uniom é, portanto, radicalmente distinto, ainda que ambas incluam a luita polos interesses laborais.
Hai outros conceitos importantes a
considerar: o conceito Council's System
ou Soviet System e o conceito Council's Organisation nom tenhem umha
traduçom exata por umha questom idiomática. Por isso traduzimo-los,
respeitivamente, como Sistema de
Conselhos ou Sistema de Soviets,
e como Organizaçom de Conselhos. Em
realidade, o significado nom queda assí bem definido de tudo, porque Council ou Conselho nom é um calificativo,
senom um termo constitutivo que forma
umha unidade co outro (system, sistema), de tal modo que indica
nom umha forma, senom um conteúdo. O mesmo acontece cos originais alemans, que
seriam respeitivamente Ratesystem e Rateorganisation, e nos que a unidade
está mais marcada gráficamente.
Deste modo, Sistema de Conselhos nom significa um simples conjunto
interrelacionado de conselhos particulares,
senom que define um sistema no que a forma
conselho, coa sua estrutura, modo de funcionamento, características, etc.,
é o conteúdo essencial que determina
a todas as formas particulares incluidas no sistema: todas as formas organizativas necessárias para a luita de classe
revolucionária estám integradas tamém no Sistema de Conselhos. De aí que, o
segundo conceito, Organizaçons de
Conselhos, nom signifique necessáriamente umha espécie de embrions dos conselhos como tais, senom
que se refire às formas organizativas que
compartem as características essenciais dos conselhos, as formas de
organizaçom que, sem ser conselhos, som parte necessária da sua formaçom,
desenvolvimento e defesa como órgaos da ditadura do proletariado (organizaçons
de conselhos).
Para entender no plano concreto o Sistema de Conselhos e a Organizaçom de Conselhos (ou tamém Organizaçom Conselhista, mas entendendo
que nom se trata dumha definiçom ideológica) é necessário lêr com atençom aos
capítulos sobre o Sistema de Conselhos
e as Organizaçons de Fábrica.
Destacar, tamém, que a traduçom das linhas
de orientaçom da AAUD-E (ver capítulo das organizaçons de fábrica) foi
contrastada e corrigida co original alemám, e se subsanaram um erro importante
e certos de matizes da traduçom inglesa.
[25] Karl Marx, A guerra
civil em França, capítulo 3.
[26] Isto refire-se à derrota do proletariado italiano que
seguiu às ocupaçons de fábricas de 1919-1920.