OS SINDICATOS

  O que se tem dito sobre os partidos, os dirigentes de partido e as tácticas de partido, vale incluso mais para os sindicatos. De facto, mostram-nos a típica táctica de compromisso pequeno-burguesa tanto mais em que a sua própria existência representa um compromisso entre capital e trabalho. Os sindicatos nunca proclamaram que a eliminaçom do capitalismo fosse a sua meta e missom. Eles mesmos nunca se comprometeram de nengunha maneira prática para esta fim. Desde os seus inícios os sindicatos consideraram a existência do capitalismo como um feito dado. Aceitando este facto, tenhem-se empenhado e comprometido dentro do marco da orde económica capitalista para luitar por melhores salários e condiçons de trabalho para o proletariado. Nom, logo, para a aboliçom do sistema do salariado, nom para o rejeitamento fundamental da economia capitalista, nom para a luita contra a totalidade. Isso, diziam os sindicatos com lógica burguesa, é o assunto do partido político. Por conseguinte, eles declararam-se nom políticos; fixeram algo grande da sua neutralidade, e rejeitaram qualquer obriga de partido. O seu papel é o do compromisso, a mediaçom, a curaçom de síntomas, a prescripçom de paliativos. Desde o começo, a sua atitude básica ao completo nom era somentes nom política, senom tamém nom revolucionária. Eram reformistas, oportunistas, órgaos auxiliares de compromisso entre a burguesia e o proletariado.

  Os sindicatos cresceram das associaçons de trabalhadores a jornal dos velhos grémios artesáns. Estavam enchidos co espírito do moderno movimento obreiro quando o capitalismo, através da grande crise de 1860, estampou com particular aspereza na consciência do proletariado as trampas e horrores do seu sistema. Baixo esta pressom económica, que inchou em grande medida o movimento obreiro ao longo de Europa, o primeiro congresso sindical foi convocado por Schweitzer e Fritzche en 1868. Fritzche caracterizava mui acertadamente as organizaçons sindicais e os seus deveres quando explicava: "As folgas nom som meios para cambiar os fundamentos do modo capitalista de produçom; som, nom obstante, meios para levar mais aló a consciência de classe dos obreiros, quebrando a dominaçom policiaca e eliminando da sociedade de hoje os abusos sociais individuais de natureza opressiva, como a jornada de trabalho excessivamente longa e o trabalho o domingo". No seguinte período, a actividade dos sindicatos consistiu na agitaçom do proletariado, mobilizando-o cara a coordenaçom, ganhando-o para a idea da luita de classes, protegendo-o contra os peores rigores da exploraçom capitalista, e arrincando constantemente avantages momentáneas quando fosse possível da sempre cambiante situaçom entre trabalho e capital. O empresário, anteriormente o amo todo-poderoso da casa, pronto tivo o poder fortemente centralizado da organizaçom contra el. E a classe obreira, elevada na consciência do seu valor no processo de produçom pola acçom coordenada, e educada de folga a folga e de conflito a conflito no desenvolvimento da sua energia de luita, pronto constituiu-se num factor que o capitalismo tivo seriamente que ter em conta em todos os seus cálculos de benefício.   

  Nunca podemos pensar seriamente em negar o grande valor que os sindicatos tiveram para o proletariado como meios de luita na defesa dos interesses obreiros; nengum se atreverá empequenecer ou disputar os extraordinários serviços que os sindicatos tenhem realizado defendendo estes interesses. Mas todo isto som hoje, desgraciadamente, testimónios e pretensons de fama que pertencem ao pasado.   

  Na luita entre capital e trabalho os empresários, muito prontamente reconheceram o valor da organizaçom. Para ser capazes de confrontar-se coas coaliçons obreiras, uniram-se em poderosas associaçons, primeiro meiante categorias de ofício e ramas industriais. E --como tinham grandes recursos financeiros e a protecçom e o favor dos funcionários públicos (officials) do seu lado, souberam como influenciar a legislaçom e a jurisdicçom, e puideram aplicar os mais rigorosos métodos de terror, hostigamento e despreço a qualquer patrono que nom assumi-se os seus interesses de classe o bastante rápidamente e nom se tomasse, deste modo, o interesse requerido na associaçom-- as suas organizaçons fixeram-se cedo mais fortes, mais eficazes e mais poderosas que as dos obreiros. Os sindicatos viram-se empurrados da ofensiva à defensiva polas associaçons patronais. As luitas volveram-se mais violentas e encarnizadas, fôrom exitosas cada vez mais raramente, normalmente acabavam no esgotamento dos fundos centrais, e assí necessitavam pausas mais e mais prolongadas entre as luitas para repousar e recuperar-se. Finalmente, reconheceu-se que os questionáveis éxitos a meias saírom usualmente demasiado caros, que (no melhor  dos casos) os compromissos resultantes dos assaltos do combate poderiam ganhar-se com menos custes se a disposiçom a negociar se mostra-se claramente desde  o  começo.  Assi,  abordaram as luitas  ulteriores  com  demandas reduzidas, com disposiçom a negociar, coa intençom de fazer um trato. No lugar de luitar abertamente, cada parte tratou de vencer à outra maniobrando. O ofrecimento a negociar nom foi considerado durante mais como umha falta ou umha debilidade. Ajustavam-se ao compromisso. Como umha norma, o acordo --nom a vitória-- converteu-se na conclusom dos movimentos salariais ou dos conflitos sobre as horas. Assi, co tempo, sobreveu umha alteraçom de princípio a fim na táctica e no método de luita.

  Xurdiu a política de assinamento de contratos de trabalho (II). Com base em acordos e na conciliaçom, firmavam-se contratos nos que se regulavam as condiçons de trabalho por escrito. Os contratos obrigavam a toda a organizaçom de ambas partes na rama da indústria por um período de tempo mais longo ou mais curto. Na forma dum compromisso, representavam umha espécie de trégua até novo avisso. O patrono ganhava avantages significativas através da conclusom dos contratos de trabalho: poderia fazer cálculos comerciais mais exatos durante a duraçom do contrato; poderia demandar numha corte burguesa o cumprimento dos termos do contrato; poderia contar cumha certa estabilidade na sua gestom e taxa de ganho; e, sobretudo, poderia concentrar a sua força em maior paz durante anos, para situar muita mais pressom sobre a força de trabalho quando o seguinte contrato fosse a concluirse. Em contraste co patrono, o obreiro recebeu só as devantages do contrato de trabalho: limitado polo contrato durante longos períodos, era incapaz de dispór das oportunidades mais favoráveis que lhes xurdiam para melhorar a sua posiçom; a sua consciência de classe e vontade de luita adormeceram-se co tempo, e estava condicionado à inactividade; deste modo caeu mais e mais na atmósfera, fatal para a luita de classes, da "harmonia entre capital e trabalho" e da "comunidade de interesses entre o dador trabalho e o tomador de trabalho"; assí, sucumbiu completamente ao desesperançado oportunismo pequeno-burguês, que vive ao dia e fai que ainda as reformas mais práticas e "logros positivos" sejam mais duvidosos e carentes de valor quanto mais prosegue; e ao final convirte-se na vítima incauta da camarilha de funcionários (officials) e dirigentes, estreitos de mente, circunscritos e frequentemente sem escrúpulos, cujo principal interesse desde fai muito tempo nom é bem do obreiro senom o afiançamento das suas posiçons administrativas. De facto, mentres a política dos contratos de trabalho se volveu  predominante, a participaçom dos trabalhadores na vida dos sindicatos adormeceu-se mais; assistia-se escassamente às reunions, a participaçom nas eleiçons descendeu de forma marcada, as quotas tinham que ser recadadas case pola força, o terror nas fábricas acadou a sua medida mais elevada coa burocratizaçom do aparelho administrativo -ambos medios para manter a existência da organizaçom, que se tinha convertido num fim em si mesmo--. A introduçom de contratos nacionais para amplas categorias de trabalhadores provocou um incremento ainda maior no centralismo e no poder dos funcionários (officials) e, ao mesmo tempo, tamém umha sempre crescente escissom entre os dirigentes e as massas, umha maior alienaçom da organizaçom do seu carácter original como um meio de luita e do objectivo da luita, e umha degradaçom mais profunda dos obreiros em títeres insignificantes e sem vontade, só pagando quotas e executando instruiçons, em maos da burocracia da associaçom.

  Outro factor engadiu-se. Para encadear ao obreiro à organizaçom através de todos os seus interesses, que derivam da sua permanente situaçom próxima ao limite do sustento, os sindicatos desenvolveram um extensivo e complexo sistema de asseguramento, levando a cabo umha sorte de política social prática. Aparentemente para benefício do trabalhador, certamente às suas expensas. Hai seguro de enfermidade, de morte, de desemprego, de despraçamento e viage para um novo emprego; um completo aparelho de bem-estar social com pequenos emplastros e toda classe de paliativos para a miséria proletária. O trabalhador receve umha política de asseguramento trás outra política de asseguramento, paga prémio tras prémio, desenvolve um interesse na liquidez da tesoureiria do sindicato, e aguarda a oportunidade de chamar na sua ajuda. Em lugar de pensar acerca da grande luita, está perdido em cálculos sobre ínfimas cantidades de dinheiro. É fortalecido e mantido no seu modo de pensar pequeno-burguês; afunde-se, para perjuiço da sua emancipaçom como proletário, nos constrengimentos e estreituras de miras do conceito pequeno-burguês da vida, que nom pode dar nada sem perguntar que deve fazer a cámbio; acostuma-se a ver o valor da organizaçom nas fortuitas e mesquinhas avantages materiais do momento, en vez de manter as suas miras na grande meta, livremente arelada e pola que se luita abnegadamente --a libertaçom da sua classe--. Desta maneira, o carácter combativo de classe da organizaçom é sistemáticamente socavado, e a consciência de classe do proletariado irreparávelmente destruída ou devastada. Para remate, o pobre dianho carrega sobre as suas costas os custes dum sistema de benefícios e bem-estar sociais que, básicamente, o Estado deve desembolsar da riqueza do conjunto da sociedade, pousando a carga sobre o financeiramente débil.

  Deste modo os sindicatos chegaram, co tempo, a serem órgaos da charlataneria pequeno-burguesa, cujo valor para o obreiro reduziu-se de qualquer modo à nada, umha vez que baixo a pressom da devaluaçom do dinheiro e da miséria económica [17] a solvência de todos os fundos de bem-estar caeu a zero. Mas mais que isso: em lógica congruência coa sua tendência cara a comunidade de interesses estre capital e trabalho, os sindicatos desenvolveram-se como órgaos auxiliares dos interesses económicos capitalistas-burgueses, e assí da exploraçom e da obtençom de benefícios. Chegaram a ser os mais leais escudeiros da classe burguesa, as tropas protetoras mais fiáveis para as arcas capitalistas.

  Co estalido da guerra manifestaram-se em favor do dever da defesa nacional sem vacilar um momento, adoptaram a política burguesa de guerra, concederam a paz civil, subscreveram os préstamos de guerra, predicaram o imperativo da paciência, ajudaram a promulgar a lei do serviço auxiliar, e suprimiram frenéticamente cada movimento de sabotage ou revolta na indústria de armas e muniçons. Co estalido da revoluçom de Novembro protegeram ao governo do Kaiser, lançaram-se contra as massas revolucionárias, aliaram-se co grande capital numha associaçom de trabalho, deixaram-se subornar com oficinas, honores e ingressos na indústria e no Estado, machacaram todas as folgas e levantamentos em unidade coa policia e os militares, e assí, descarada e brutalmente, traicionaram os interesses vitais do proletariado ao seu inimigo jurado.

  Na construiçom do capitalismo depóis da guerra, no re-escravizamento das massas através do capital organizado em corporaçons (trusts) e conectado internacionalmente, na stinnes-izaçom da economia alemá, nas luitas na Alta Silesia [18] e no Ruhr, no cercenamento da jornada de oito horas, as ordes de desmobilizaçom, o aforro forçado (forced economy), a eliminaçom dos Conselhos Obreiros, dos Comités de Fábrica, das Comissons de Controlo, etc., durante o terror contra sindicalistas, unionistas [19], anarquistas --sempre e em todas partes estavam listos para ajudar ao lado do capital, como umha guarda pretoriana lista para a acçom mais baixa e vergonzosa--. Sempre contra os interesses do proletariado, contra o progresso da revoluçom, a libertaçom e a autonomia da classe obreira, eles usaram e usam com muito a maior parte de todos os aumentos de fundos para asegurar e proveer materialmente a sua existência como chefes e parásitos, que --como eles bem sabem-- sustem-se e cae junto coa existência da organizaçom sindical que tenhem falsificado dum arma para os obreiros num arma contra os obreiros.   

  Querer revolucionar esses sindicatos é umha empresa absurda, porque é totalmente impossível e dessesperada. Este "revolucionamento" ou resume-se num simples cámbio de persoal, nom cambiando absolutamente nada no sistema mas extendendo ao máximo o centro da infecçom, ou doutro modo deve consistir em separar-se do centralismo sindical, do assinamento de compromissos, do corpo de direcçom profissional, dos fundos de asseguramento, do espírito de compromisso... Logo, que se abandoou? Nada de nada!

  Mentres tanto os sindicatos existam, permanecerám sendo o que som: os mais genuinos e eficientes guardas brancos dos patronos, aos que o capital alemám deve maior gratitude que a todos os guardas de Noske e Hitler [20] postos juntos.

  Como instituiçons geralmente perjudiciais, contra-revolucionárias, inimigas dos trabalhadores, podem só ser destruídas, aniquiladas, exterminadas.

 

Cap. 5 do livro Da Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária, 1924.

 

NOTAS:

 

(II) Convénios e acordos laborais.

  

[17] Isto refire-se à crise de inflaçom de 1923.     

 

[18] Umha área dividida entre Alemanha e Polónia depóis da guerra, seguindo um plebiscito apoiado polos sindicatos. Os mineiros dessa área com consciência de classe luitaram contra a separaçom da Alemanha proletária.

    

[19] Unionistas* refire-se aquí às Unions Obreiras (Arbeiterunion) (AAUD e AAUD-E). Ver capítulo 7. 

  

[20] Isto refire-se às acçons contra-revolucionárias do jovem Hitler até 1923, quando se involucrou nas actividades de pequenas bandas armadas privadas nacionalistas, maiormente na Alemanha do Sur.     

 

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