A REVOLUÇOM PROLETÁRIA*
A revoluçom de Novembro de 1918 foi o último vástago da revoluçom burguesa de 1848. Levou a cumprimento a república democrático-liberal que a determinaçom e o poder da burguesia alemá desse tempo --na luita contra a propriedade feudal e o poder principesco-- nom fora capaz de lograr. Co propósito de salvar a sua nave do afundimento (em extremo perigo devido à Guerra Mundial), a burguesia tirou pola borda sem ceremónias o último baluarte feudal, monárquico e absolutista, que levava arrastrando ao seu arredor durante setenta anos, e que agora ameazava seriamente com volver-se fatal para ela. Com isso, criava-se umha base para o entendimento e a negociaçom cos poderes capitalistas do ocidente europeu, em particular cos Estados democrático-republicanos vitoriosos de França e América. Dando-se umha constituiçom liberal, e tomando nas suas próprias maos o governo, a burguesia fixo possível e logrou a sua nova estrutura.
Como é admitido, a sua redençom no que se refire ao concepto de Estado nacional capitalista veu demasiado tarde. A burguesia alemá, quando ainda estava agregando os toques finais ao seu Estado capitalista-burguês e vendo finalmente coroada com éxito a obra de realizaçom dumha república democrática independente, tivo neste mesmo momento que renunciar à sua independência económica e deixar que os Estados vitoriosos lhe dictasem o grao da sua liberdade política. Essa é a tragédia da oportunidade perdida e da corage tardia.
O proletariado alemám tentou, em certa medida, empurrar a revoluçom mais longe. De Liebknecht a Holz [27] tensou cada nervo em numerosos, vigorosos, e de facto, heróicos alçamentos para realizar umha revoluçom social fóra da revoluçom burguesa, para derrocar à burguesia e establecer o socialismo. A multitude de combatintes nom careceu de determinaçom e de dedicaçom. Centos de milheiros tenhem sido assassinhados, outros centos de milheiros arrojados em prissons ou penitenciarias, ainda mais tenhem ido ao exílio, buscados, perseguidos, conduzidos à clandestinidade e arruinados. Mas todas as luitas, todo o heroismo, todos os sacrifícios nom conduziram à meta. Para o proletariado alemám a revoluçom está, por agora, perdida.
Foi derrotado a causa de que, baixo a direcçom de seu aparelho partidário e sindical, a maior parte do proletariado alemám refrenou aos seus irmaos de classe combatintes --de facto, apunhalou-nos polas costas--. Enganados pola sua ideologia pequeno-burguesa, prisioneiros das suas organizaçons contra-revolucionárias, confundidos pola sua táctica oportunista, traicionados pola sua direcçom egoista e demagógica, eles mesmos tinham que converter-se em traidores, sabotadores e inimigos da libertaçom e elevaçom da sua classe. Que a burguesia mira-se por ela mesma, e recurrise à sua habilidade e violência para salvar a sua pel, é óbvio, pois era um assunto de necessidade na luita entre as classes. Mas que o proletariado alemám, que estava em possuisom das organizaçons mais fortes, que se enorgulhecia de ser o mais avançado do mundo, e que tinha já experimentado físicamente por espaço de quatro anos precisamente as terríveis consequências da política capitalista-burguesa, atravessando um mar de sangue e bágoas; que este proletariado, na hora da revoluçom, nom soubesse fazer outra cousa, nem fosse capaz de fazer nada melhor, que salvar umha vez mais à burguesia do seu país --esta burguesia sem pararelo em brutalidade e audácia, incorregível e carente de cultura--, isto é umha profunda vengonza e umha triste acusaçom. Umha acusaçom que, incluso quando nom completamente justificada, semelharia bastante entendível se fossem milheiros desmoralizados e desesperados os se botasem nos seus braços: Nom se lhe pode ajudar a esta naçom de servos!
E todavia este povo nom merece o nosso despreço senom a nossa ajuda, tanto na sua falta de valor como na sua falta de entendimento. Depóis de tudo, el mesmo é a vítima dumha servidume de séculos, a partires da qual todo o livre e independente era machacado e destroçado, e dumha única e grosseira fraude que os dirigentes cometeram contra el umha e outra vez. Deve passar agora pola terrível escola da fame e a escravitude, e se, baixo a pressom do poder multiplicado de exploraçom do capital mundial, terá que espremer as últimas pingas de sangue das suas veas, todos os maus instintos e vícios da criatura martirizada serám expulsados tamém. Deste modo, a escola da miséria convertirá-se tamém na escola da inspiraçom e do despertar político.
O proletariado alemám deve, finalmente, compreender que a revoluçom proletária nom tem nada que fazer com partidos e sindicatos, senom que deve ser a obra do conjunto da classe proletária.
O proletariado alemám deve, finalmente, pôr-se a agrupar esta classe proletária nos lugares da sua servidume para a tarefa da revoluçom, adestrando-a, organizando-a, ponhendo-a em marcha e dirigindo-a na luita.
O proletariado alemám deve, finalmente, decidir-se a soltar-se do cabresto dos seus dirigentes e tomar nas suas maos a obra da sua libertaçom, para completa-la coas suas próprias energias e métodos, pola sua própria iniciativa e baixo a sua própria direcçom.
A história mundial deixa-nos tempo até que todas as forças estejam maduras para a tarefa que se nos pôm. Os parlamentos estám convertindo-se cada vez mais em ornamentos valeiros; os partidos estám desmoronando-se, destruindo-se entre si e perdendo a sua credibilidade política; os sindicatos estám convertindo-se em escombros. A completa quebra do seu sistema organizativo e político é inevitável.
Os estratos proletário e pequeno-burguês reconhecem, em número crescente, que se converteram em vítimas da decrépita economia de partido, se nom vítimas das estafas do partido político e do sindicato e, como todavia creem profundamente na rectitude e futuro da idea socialista, estám girando cara movimentos que os conducem ao caminho ajardinado dumha libertaçom sem luita, a um paraíso para o qual nom necessitam nada: à antroposofia de Rudolf Steiner, ao movimento sem pátria e sem dinheiro de Silvio Osell, às cooperativas de trabalho que expurgam as ideas dos conselhos, ao nacional-socialismo de Adolf Hitler, à banda de rebeldes que se negam a toda organizaçom, aos sérios buscadores da Bíblia (VII) que esperam polo seu pastel no céu. Estám todos descaminhados: o seu caminho está cheo de decepçom, acaba em nada.
Alí permanece só e únicamente a luita de classes, desenvolvendo-se sobre a base económica mais ampla, libertando todas as energias proletárias e avançando cara a revoluçom social, que conduz às metas socialistas. A luita de classes, na que o proletariado é ao mesmo tempo massa e dirigente, exército e estado maior, braço e cerebro, movimento e idea, impulso e consumaçom.
O caminho da luita de classes é um momento da história mundial. Enlaça o pasado feudal através e além do presente capitalista, co futuro socialista. Deixa atrás toda exploraçom e dominaçom. Conduz à liberdade.
Seguide-nos por neste caminho, camaradas!
Temos um mundo por ganhar!
Notas:
* Capítulo noveno de Da Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária (1924). Traduzido do inglês.
[27] Revolucionário alemám; organizou milícias obreiras no Ruhr em 1920 e na Alemanha Central em 1921. Membro do KAPD.
(VII) Rühle refire-se à multiplicidade das seitas "salvacionistas" produzidas polo capitalismo neste período de crise. É de notar retrospectivamente que nom todas estas tendências provaram ser tam históricamente ridículas e irrelevantes como aquí se sugere. (Nota da ediçom portuguesa).