PARLAMENTO E PARTIDOS

  O carácter, conteúdo e resultados das leis sempre correspondem aos interesses económicos dominantes da época dada, e mais específicamente aos interesses económicos definidos da classe dominante. Na época burguesa esta classe é a burguesia. O parlamento tem, por conseguinte, a tarefa de revisar as leis velhas de acordo coas necessidades da burguesia, ou de as ab-rogar em favor de novas leis adecuadas aos problemas do momento.

  Já no último periodo da época feudal tivo existência um tipo de parlamento: a convocaçom dos estados. Na luita cos estados --primeiro coa nobreza, mais tarde sobretudo co mundo da finança e do comércio a cuja ajuda material tivo que recorrer-- o príncipe tinha atraido ou seleiçoado representantes das diferentes ordes e ocupaçons, e os empraçara num órgao corporativo. Mas este órgao era só para expressar desejos, realizar sugerências, proporcionar opinons: esta junta dos estados nom era ela própria competente para dictar e promulgar leis. Co tempo, um segundo corpo juntara-se coa assemblea dos estados, procedendo mais do povo e inclusso eleita às vezes, de modo que delineou-se umha distinçom entre umha primeira e segunda cámara, a dos Senhores (Lords) e a dos Comuns. Mas as competências de ambas cámaras estavam ainda muito limitadas polo poder dos príncipes. Os verdadeiros parlamentos com pleno poder legislativo, prodedente da eleiçom aberta, constituiram em todas partes um dos logros da revoluçom burguesa.  

  Como sabemos, a classe burguesa representava o princípio do liberalismo na sua ideologia político-estatal, e o princípio da democracia na sua organizaçom político-estatal. Estava, entom, pola liberdade e a igualdade. Mas só pola liberdade tal como a via, ou seja, no que respeitava aos interesses da sua economia do benefício, e pola igualdade só em tanto que podia ser expressada em parágrafos sobre o papel, nom para ser confirmada e realizada através da igualdade das condiçons sociais. Nem em sonos se lhe ocurriu respeitar e levar à prática a liberdade e a igualdade em relaçom ao proletariado, e ainda menos deixar que o princípio da fraternidade adquirise qualquer peso para aquel.   

  Ao mesmo tempo, a sociedade burguesa nom é de nengum modo umha categoria monolítica. Mais  bem, contém muitas capas, grupos e categorias profissionais, e portanto muitos interesses económicos diferentes. O vendedor ao por maior tem interesses diferentes do minorista, o arrendador do arrendatário, o mercader do granjeiro, o comprador do vendedor. Mas todos os diferentes grupos e categorias querem e terám que ser tomados em conta na legislatura. Cada um tem maiores perspectivas de ser considerado quanto maior seja o total de representantes dos seus interesses no parlamento. Por este motivo toda capa ou grupo tenta captar tantos votos como seja possível para os seus candidatos nas eleiçons parlamentares. Para fazer a sua agitaçom vigorosa e duradeira, unem-se em associaçons eleitorais das quais os partidos emergem com organizaçons mais firmes e programas mais definitivos. Qualquer cousa que estes partidos se chamasem a sí mesmos, quaisquer programas apresentaram, por quaisquer altas e santas virtudes avogasem, quaisquer frases finas e consignas utilizaram --a sua luita, na medida em que pugnava pola influência política, estava sempre ligada a interesses económicos definidos--. Assí, o partido conservador, que queria a preservaçom (é dizer, a conservaçom) das velhas formas tradicionais de Estado, de distribuiçom do poder e de ideologia, constituia o ponto de reagrupamento para a casta feudal dos grandes fazendados. Os grandes industriais cum interesse no Estado nacional, que abraçavam o liberalismo da era capitalista, formavam o partido dos nacional-liberais. A pequena-burguesia, para a qual a liberdade de opinom e a igualdade ante a lei semelhavam logros dignos de esforço e polos que ser agradecido, encontrava-se nos partidos democráticos e radicais.    

  Ao princípio os obreiros nom tinham nengum partido próprio, porque nom tinham atisbado ainda que eram umha clase por si própria, cos seus próprios interesses e objectivos políticos. Por isso deixaram-se levar polos demócratas e liberais, ou incluso polos conservadores, e formaram o rebanho fiel de votantes dos partidos burgueses. E, inversamente, quando a consciência da classe obreira foi despertada dumha sacudida e consolidada, fôrom a formar os seus próprios partidos e enviar aos seus próprios representantes ao parlamento, coa missom de afiançar para a classe obreira tantas e tam amplas avantages como fosse possível durante a construiçom e completamento do Estado burguês. Assí, no Programa de Erfurt [11] do Partido Social-democrata, as múltiples reivindicaçons práticas do movimento estám assentadas junto à grande meta revolucionária final, reflectindo a sua vida parlamentar e orientaçom cara o presente imediato. Estas demandas nom tinham nada que ver co socialismo, mas derivavam-se principalmente dos programas burgueses; só que nunca fóram levadas a cabo polos partidos burgueses, nunca tinham sido seriamente desejadas de facto. Isto nom é negar que os representantes da social-democracia fixeram um difízil e sinceiro trabalho no parlamento. Mas a sua efectividade e éxito eram limitados. Porque o parlamento é um instrumento da política burguesa, ligado ao método burguês de fazer política, e é também burguês no seu efeito. Em derradeira análise, a verdadeira avantage do parlamentarismo corresponde (accrues to ##) à burguesia.  

  O método parlamentar burguês de comportar-se em política está estreitamente relacionado co método burguês de comportar-se em economia. O método é: comérciar e negociar. Assí como o burguês comércia e negócia mecadorias e valores na sua vida e ofício, no mercado e na feira, no banco e na bolsa de valores, tamém no parlamento comércia e negócia as sançons legislativas e meios legais para o dinheiro e os valores materiais negociados. No parlamento os representantes de cada partido tentam extraer tanto como seja possível da legislatura para os seus clientes, o seu grupo de interesse, a sua "firma". Eles tamém estám em constante comunicaçom coas suas associaçons de produtores, consórcios das associaçons patronais, associaçons de interesses especiais ou sindicatos, recebendo deles instruiçons, informaçom, regras de comportamento ou mandatos. Eles som os agentes, os delegados, e o negócio fai-se através dos discursos, os tratos, a disputa, as transacçons, a deceiçom, as manobras nas votaçons, os compromissos. O trabalho principal do parlamento, entom, nom é realizado nem sequer nas grandes negociaçons parlamentares, que som só umha espécie de espectáculo, senom nos comités que se reunem privadamente e sem a máscara da mentira convida.  

  No período pre-revolucionário, o parlamento tinha ademais a sua justificaçom para a classe obreira, em tanto que era o meio de afiançar para ela as tais avantages políticas e econômicas, assí como as relaçons de poder admitidas num momento dado. Mas esta justificaçom volveu-se nula e vácua no instante em que o proletariado ergueu-se como umha classe revolucionária e avanzou as suas demandas para tomar possuisom do Estado enteiro e do poder económico. Agora nom havia nengumha negociaçom mais, nengumha modificaçom com maiores ou menores avantages, nengum compromisso --agora é tudo ou nada--. O primeiro logro revolucionário do proletariado teria que ser, lógicamente, a aboliçom do parlamento. Mas nom puido cumprir com este logro, porque todavia estava el mesmo organizado em partidos, e estreitamente ligado assí às organizaçons dum carácter básicamente burguês e conseqüêntemente incapazes de transcender a natureza burguesa, isto é, a política, a economia, a orde estatal e a ideologia burguesas. Um partido necessita o parlamentarismo como um parlamento necesita partidos. O um condiciona o outro, num sustentamento e apoio mútuos. O mantenimento do partido significa o mantenimento do parlamento e com el o mantenimento do poder burguês.

  Seguindo o modelo do Estado burguês e das suas instituiçons, o partido organizou-se tamém sobre princípios centralistas autoritários. Todo movimento nel vai na forma de ordes do comité central acima à ampla base dos seus membros abaixo. Debaixo, a massa dos membros; acima, os grados de funcionários (officials) a nivel local, regional, nacional. Os chefes políticos (secretaries: secretarios políticos, ministros) do partido som os suboficiais (NCOs), os membros do parlamento (MPs), os funcionários (officers). Dam as ordes, definem os lemas, elaboram a política, som os mais altos dignatários. O aparelho do partido, na forma de oficinas, periódicos, fundos, mandatos, da-lhes poder para dictar normas para a massa dos membros, que nom podem evitar nada do último. Os funcionários (officials) do comité central som, por assí dizer, os ministros do partido; emitem decretos e instruiçons, interpretam as decisons dos congressos e das conferências do partido, determinam o uso do dinheiro, distribuem postos e oficinas de acordo coa sua política persoal. Certamente, supom-se que a conferência do partido é a corte suprema, mas a sua composiçom, sessom, toma de decisons e interpretaçom destas decisons estám completamente em maos dos mais elevados detentadores do poder no partido, e a obediência sonámbula (zombie-like) típica do centralismo ocupa-se dos necessários ecos de subordinaçom.  

  A conceiçom dum partido cum caracter revolucionário no sentido proletário é um sem-sentido. Só pode ter um caracter revolucionário no sentido burguês, e portanto só durante a transiçom entre o feudalismo e o capitalismo. Noutras palavras, em interesse da burguesia. Durante a transiçom entre o capitalismo e o socialismo tem que fracassar, tanto mais em proporçom a como de revolucionária tenha sido a sua expressom na teoria e na fraseologia. Quando a Guerra Mundial estalou em 1914, é dizer, quando a burguesia do mundo enteiro declarou a guerra ao proletariado do mundo enteiro, o Partido Social-demócrata devia ter contestado coa revoluçom do proletariado do mundo enteiro contra a burguesia do mundo enteiro. Mas falhou, despojou-se da máscara da revoluçom mundial, e seguiu a política burguesa de princípio a fim. O USP devia ter feito um chamamento à revoluçom quando o Tratado de Paz de Versalhes foi concluído. A sua natureza burguesa, sem embargo, forzou-no a umha orientaçom ocidental en lugar de a umha oriental; fixo agitaçom pola firma e o submetimento. Inclusso o KPD, tam hiper-radical como é a sua posse, em toda questom crítica está constrangido, polo seu carácter centralista-burguês autoritário, a server aos políticos burgueses tam pronto como chega o momento crítico (it comes to the crunch: umha situaçom decisiva, o momento da verdade). Senta-se no parlamento e leva a cabo a política burguesa: em 1920 no Ruhr negociou cos militares burgueses [12]; na acçom do Ruhr contra França luitou do lado de Stinnes por meio da resistência passiva; cae vítima do culto do nacionalismo burguês e confraterniza cos fascistas; mete-se nos governos burguesses co propósito de ajudar ulteriormente, desde alí, à política de Rússia de construiçom capitalista. Em todas partes, a política burguesa levada a cabo com meios típicamente burguesses. Quando o SPD di que nom quere umha revoluçom, hai umha certa lógica nisto porque, como partido, nunca pode levar a cabo umha revoluçom proletária. Mas quando o KPD di que quere a revoluçom, entom assume no seu programa muito mais do que é capaz de executar, se por ignoráncia do seu carácter burguês ou carente de demagógia fraudulenta.

  Cada organizaçom burguesa é básicamente unha organizaçom administrativa que require umha burocracia para funcionar. Assí é o partido, dependente da máquina administrativa proporcionada por umha direcçom profissional pagada. Os dirigentes som os funcionários administrativos (administrative officials) e, como tais, pertenencem a umha categoria burguesa. Os dirigentes, é dizer, funcionários, som pequeno-burgueses, nom proletários.  

  A maioria dos dirigentes de partidos e sindicatos fôrom umha vez obreiros, quiçais os mais firmes e revolucionários. Mas quando se fixerom funcionários, é dizer, dirigentes, agentes e negociantes, apreenderom a comerciar e a negociar, a manejar documentos e dinheiro em efectivo; encarregaram-se de mandatos, comerazom a operar dentro do grande organismo burguês coa ajuda do seu aparelho organizativo. A quem Deus da ofício, da tamém o entendimento.  Qualquer que é dirigente dumha organizaçom burguesa, incluindo os partidos e sindicatos, nom o é tanto pola força das suas qualificaçons intelectuais, da sua visom e excelência, da sua corage e carácter, senom que é dirigente pola força do aparelho organizativo, que está nas suas maos, à sua disposiçom, dotando-o de competência. El deve o seu papel dirigente à autoridade que xurde da posiçom que ocupa no mecanismo organizativo. Assí, a secretaria do partido obtém o seu poder da oficina na que todos os fios da administraçom convergem, começando no trabalho de imprensa do que só ela tem conhecimento exato; o editor obtém o seu do jornal, que tem baixo o seu poder intelectual e usa como o seu instrumento; o tesoureiro dos fundos que maneja; o membro do parlamento do mandato que lhe da una visom interior do aparelho de governo denegada para os mortais ordinários. Um funcionário (official) da direcçom central pode ser muito mais limitado e mediocre que um funcionário subalterno (under-official), e todavia a sua influência e poder som maiores, exatamente como um suboficial (NCO) pode ser mais inteligente que o Coronel ou General sem ter a grande autoridade destes funcionários (officers). Ebert [13] nom é certamente a mente mais capaz do seu partido, mas contudo o tem instalado na mais alta oficina que pode dar; nom é certamente tampouco a mente mais capaz do governo, mas por que ocupa esta posiçom? Nom com base nas suas qualificaçons persoais, senom como representante aleatório do seu partido, umha organizaçom centralista, autoritária, na que el tem trepado até o escalom mais elevado da escada. E por que a burguesia aguanta a este Ebert? Porque o método burguês da sua política o tem levado a esta posiçom, e porque el se comporta políticamente em tudo como avogado e conselheiro desta política burguesa. Um dirigente burguês nesta posiçom nom seria nem melhor nem pior do que el.   

  Aquí deve dizer-se algo acerca da direcçom em geral.   

  Nom cabe dúvida de que sempre haverá persoas que no seu conhecimento, experiências, habilidade, carácter, sejam superiores a outras, às que influenciarám, advertirám, estimularám na luita, farám avançar, dirigirám. E assí, sempre haverá dirigentes neste sentido. Algo bom, ademais, pois a destreça, a integridade de carácter e a habilidade deveriam dominar, nom a estupidez, a tosquedade e a debilidade. Qualquer que, no seu rejeitamento dos dirigentes profissionais pagos que conseguem a sua autoridade do aparelho organizativo, vai tam longe como para repudiar todas e cada umha das formas de direcçom sem a consideraçom de que a superioridade mental e de carácter é umha qualidade de direcçom que nom ha de ser repudiada, senom que ha de ser digna de bem-vida, sobrepassa a indicaçom e se convirte num demagogo. Isto vai tamém para aqueles que prorrompem em invectivas e raiva contra os intelectuais no movimento, ou --como tem acontecido-- inclusso contra o conhecimento. Naturalmente o conhecimento burguês é sempre suspeitosso e usualmente questionável, e os intelectuais burguesses som sempre umha abominaçom no movimento obreiro, do que abusam, ao que levam descaminhado e que bastante a miúdo traicionam à burguesia. Mas os logros da aprendizage burguesa podem ser re-lançados para a classe obreira e forjados em armas, exátamente como as máquinas capitalistas prestarám um dia serviços úteis para a classe obreira. E quando os intelectuais, em interesse do proletariado, atendem ao importante processo de assimilaçom científica e reelaboraçom (reworking) das obras intelectuais, merecem o reconhecimento e o agradecimento por isto, nom o abuso e a inculpaçom. Em conclussom, Marx, Bakunin, Rosa Luxemburg e outros foram intelectuais, cujas labores científicas houverom de render os mais valiossos serviços para a luita de libertaçom do proletariado.   

  Os dirigentes profissionais pagos das organizaçons burguesas merecem desconfiança e serám rejeitados como agentes do aparelho administrativo burguês. A sua actividade burguesa gera neles hábitos vitais burgueses e un estilo burguês de pensar e sentir (feeling, sentir ou perceber). Inevitávelmente assumem a típica ideologia de direcçom pequeno-burguesa dos apparatchiks do partido e do sindicato. A seguridade da sua designaçom, a enaltecida posiçom social, o seu salário pontualmente pago, a sua oficina com boa temperatura, a rutina rápidamente apreendida de levar os assuntos administrativos formais, engendram umha mentalidade que fai que nom haja forma de distinguir ao funcionário laboral (official) do funcionário de correos (official), fiscal, social ou estatal tanto no seu trabalho como no seu entorno doméstico. O funcionario (official) é para a gestom correcta dos asuntos, o coidado da orde, a descarga tranquila das obrigas; ódia as perturbaçons, a fricçom, os conflitos. Nada é tam repugnante para el como o caos, polo que se opóm a qualquer classe de desorde; combate a iniciativa e a independência das massas; teme a revoluçom.   

  Mas a revoluçom vem. Súbitamente está alí, levantando-se. Tudo se convulsiona, tudo se volve do revés. Os obreiros estám nas ruas, pressionando para a acçom. Ponhem-se em posiçom de derrubar à burguesia, destruir o Estado, tomar possuisom da economia. Entom um medo monstruosso apodera-se dos funcionários (officials). Pola graça divina a orde será transformada em desorde, a paz em desasosego, a gestom correcta dos assuntos em caos? Nada disso! Assí "Vorwarts" [14] o 8 de Novembro de 1918 advertia de "agitadores sem consciência" que "tinham fantasias de revoluçom"; assí a folha informativa dos sindicatos combatia aos "aventureiros irresponsáveis" e "golpistas"; assí o partido parlamentário enviou a Scheidemann [15] ainda no último momento ao Gabinete wilhelmita [16], para que "o maior infortúnio --a revoluçom-- poda ser evitada". E durante a revoluçom, ondequer que os obreiros quixerom passar à acçom, fôrom ávidamente respostados em todo momento polos funcionarios (officials) de partidos e sindicatos co chamado: "Nom a tanta violência! Nengum derramamento de sangue! Sede razonáveis! Deixade-nos negociar!".    

  Em tanto se recurriu às negociaçons, em vez de agarrar ao inimigo e faze-lo cair ao cham, a burguesia estava salvada. A negociaçom é, depóis de tudo, o seu método de comportar-se em política, e é no seu terreo de luita onde se encontra mais segura. Querer continuar a política proletária na casa da burguesia e cos seus métodos significa sentar-se à mesa dos capitalistas, comendo e bebendo com eles, e traicionando os interesses do proletariado. A traiçom às massas --desde o SPD ao mais extremo do KPD-- nom necessita xurdir da intençom de base; é simplesmente a conseqüência da natureza burguesa de todo partido e organizaçom sindical. Os dirigentes destes partidos e sindicatos, de facto, som espiritualmente parte da classe burguesa, físicamente parte da sociedade burguesa.

  Mas a sociedade burguesa está derrubando-se. Está caendo cada vez mais vítima da ruina e da decadência. A sua legislatura é ridícula e despreçada pola burguesia mesma. Promulgam-se leis sobre as taxas de interesse e a moeda, e a ninguém lhe importa em absoluto. Todo o que nom fai muito tempo era considerado como sagrado --a igreja, a moralidade, o matrimónio, a escola, a opinom pública-- é exposto, ensuciado, feito burla, distorsionado numha caricatura. Em tais tempos o partido tampouco pode seguir existindo durante mais; como um membro da sociedade burguesa afundira-se com ela. Só um curandeiro tentaria preservar a mao da morte quando o corpo jaze morrendo. De aí a cadea inacabável de escissons de partido, distúrbios, dissoluçons --nengum comité executivo, congresso de partido, Segunda ou Terceira Internacional, Kautsky ou Lenin podem parar agora o derrube dos partidos--. Agora chegou-lhes a hora aos partidos, igual que lhe tem chegado à sociedade burguesa. Manterám-se firmes todavia, como os grémios e as companhias da idade media o tenhem feito até hoje: como instituiçons sobrevivintes sem poder para transformar a história. Um partido como o SPD, que abandoou sem luita todas as conquistas do alçamento de Novembro, inclusso em parte fazendo o jogo à contra-revoluçom (play into the hands of the counter-revolution), coa que está envolto e sentado em governos, tem perdido toda justificaçom para a sua existência. E um partido como o KPD, que é só umha rama europea do Turkistám, e nom poderia manter-se durante um par de semanas pola sua própria força sem os ricos subsídios procedentes de Moscova, nunca tivo justificaçom para a sua existência. O proletariado trascenderá ambos os dous, sem ser turbado pola disciplina de partido e os berros dos apparatchiks, nem polas resoluçons e decisons congressuais. Na hora do derrube salvara-se a sí mesmo da asfíxia causada polo estrangulante poder de organizaçom burguês.

  Tomará a sua causa nas suas próprias maos.

 

 

Capítulo 4 do livro Da Revoluçom burguesa à Revoluçom proletária, 1924.

 

 

NOTAS:

 

[11] Adoptado em 1891. 

 

## Nota de traduçom: Accrue tamém tem o sentido literal de acrescentar, acumular. Um possível matiz da frase poderia ser, portanto, que a "verdadeira avantage do parlamentarismo" nom só "corresponde à burguesia", senom que ademais se incrementa, acumulativamente, co desenvolvimento histórico.   

 

[12] Depóis do golpe de Kapp (um golpe direitista contra o governo do SPD) em Abril de 1920, umha insurreiçom proletária estoupou no Ruhr e formouse um exército vermelho. O KPD defendeu o desarme dos obreiros e prestou o seu apoio à idea dumha coaliçom de governo SPD-USPD. Lenin somaria em breve o seu peso a tal curso.

 

[13] Dirigente do SPD originário da classe obreira e primeiro ministro em vários governos de Weimar. 

   

[14] "Vorwarts" era o nome do períodico diário do SPD. O 8 de Novembro de 1918 foi a véspera da revoluçom alemá. 

   

[15] Político dirigente do SPD; junto com Ebert anunciou a fundaçom da República alemá para conter a revoluçom de Novembro.    

 

[16] O último gabinete antes do derrocamento do Kaiser (Wilhelm) na revoluçom de Novembro de 1918.   

 

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