A propósito do
Partido Comunista
I
Durante a Primeira Guerra Mundial, em todos os
países, pequenos grupos emergiram convencidos de que a revolução proletária
nasceria das dificuldades que o capitalismo então conhecia, e prontos a assumir-lhe
a direcção. Ele iriam tomar o nome de comunistas, - designação que não era
empregue desde 1848 - a fim de se demarcarem dos partidos socialistas
tradicionais. Entre esses grupos encontrava-se o partido bolchevique, cujo
centro estava então na Suíça. Todos se uniram no fim da guerra contra os
partidos socialistas que apoiavam a política beligerante dos governos
capitalistas e que representavam a fracção submetida da classe operária. Os
partidos comunistas aglomeraram assim os elementos mais jovens e mais
combativos da classe operária.
Contrariamente à teoria segundo a qual a revolução
não podia ter lugar senão num país capitalista próspero, os comunistas
declararam que o marasmo económico desencadearia a revolução e mobilizaria as
forças da classe operária.
Eles refutaram ainda o ponto de vista
social-democrata que queria que um parlamento escolhido por sufrágio universal
constituísse uma justa representação da sociedade e a base de um regime
socialista. Afirmaram, a partir de Marx e Engels, que a classe operária não
podia atingir o seu objectivo senão ocupando ela própria o poder e instaurando
a sua ditadura, recusando à classe capitalista toda a participação no governo.
Opostamente ao parlamentarismo, pediram a criação de
sovietes - ou conselhos operários - que se inspiravam no modelo russo.
Em Novembro de 1918, um poderoso movimento comunista
apareceu na Alemanha vencida. Composto por spartakistas e outros grupos que se
tinham constituído clandestinamente durante a guerra, foi esmagado no mês de
Janeiro seguinte pelas forças contra-revolucionárias do governo socialista
alemão. Assim eliminado o desenvolvimento de um partido comunista alemão,
poderoso e independente, animado do espirito dum proletariado avançado. Foi,
pois, ao Partido Comunista Russo que coube a tarefa de dirigir os grupos de
obediência comunista que formavam através do Mundo. A III Internacional,
dirigida a partir de Moscovo, reuniu todos esses grupos. A Rússia encontrou-se
assim no centro da revolução mundial, os interesses da União Soviética
tornaram-se os dos operários comunistas do mundo inteiro e as ideias do
bolchevismo russo foram retomados pelos partidos comunistas dos países
capitalistas.
A Rússia atacada pelos governos capitalistas da
Europa e da América, replicou-lhes chamando a classe operária ao combate em
nome da revolução mundial - uma revolução que deveria ter lugar de imediato, e
não num futuro longínquo. Se o proletariado não podia ser ganho para o
comunismo, era preciso pelo menos que ele se opusesse à política dos governos
capitalistas: os partidos comunistas entraram pois nos parlamentos e nos
sindicatos a fim de os transformar em órgãos de oposição.
O apelo à revolução mundial constitui o grande grito
de reunião. Ele foi ouvido em todos os cantos do mundo, na Europa, Ásia,
América por todos os povos oprimidos, e os trabalhadores sublevaram-se, guiados
pelo exemplo russo conscientes de que a guerra tinha abalado o capitalismo até
aos seus fundamentos e que as crises económicas apenas o podiam enfraquecer
ainda mais. Eles representavam apenas uma minoria, mas a massa dos
trabalhadores velava e prestava atenção, com simpatia, ao que se passava na
Rússia. Se ela hesitava ainda, é que os seus dirigentes falavam dos russos como
um povo atrasado, e que a imprensa capitalista denunciava as atrocidades do
regime soviético, cujo o afundamento rápido e inevitável predizia. Essas
colunas indicam até que ponto o exemplo russo foi receado e detestado nas
sociedades capitalistas.
Uma revolução comunista era possível fazer? A classe
operária podia tomar o poder e triunfar do capitalismo em Inglaterra, França e
América? Certamente que não, porque não era suficientemente poderosa. Somente a
Alemanha podia, na época, encarar uma tal possibilidade.
Que teria então sido possível fazer? A revolução
comunista, a vitória do proletariado, não pode realizar-se em alguns anos, mas
no final de um longo período de sublevações e lutas. A crise do capitalismo
durante a guerra não foi senão o ponto de partida desse período, e é então que
a tarefa do partido comunista seria de construir, passo a passo, a força da
classe operária. O caminho pode parecer longo mas não há outro.
Ora não era assim que os dirigentes bolcheviques
entendiam a revolução mundial. Queriam-na imediatamente. Porque o tinha sido
conseguido na Rússia não o poderia ser nos outros países? Os trabalhadores
estrangeiros apenas tinham que seguir o exemplo dos seus camaradas russos.
Ainda que a classe operária contasse pouco mais que um milhão de trabalhadores
numa produção de cem milhões de habitantes, cerca de dez mil revolucionários,
agrupados num partido poderosamente organizado, tinham sabido tomar o poder e
ganhar o apoio das massas defendendo um programa que servia os seus interesses.
Os bolcheviques calculavam que todos os partidos comunistas
existentes no mundo, que eram compostos por fracções mais conscientes,
avançadas e capazes da classe operária, dirigidos por homens inteligentes,
poderiam do mesmo modo chegar ao poder, se apenas a massa dos trabalhadores os
quisesse seguir. Os governos capitalistas não se apoiavam, eles também em
minorias?
Que o conjunto da classe operária decida apoiar o
Partido e votar por ele, e ele meterá mãos à obra. Porque ele representa a
primeira linha. A sua tarefa é atacar e abater os governos capitalistas,
substitui-los e aplicar, uma vez no poder, os ideais comunistas como a Rússia o
soube fazer.
Quanto à ditadura do proletariado, ela é
representada naturalmente pela ditadura do partido comunista, como é o caso da
Rússia.
Fazei como nós! Tal foi o conselho, o apelo, a
directiva do partido bolchevique a todos os partidos comunistas do Mundo
inteiro, palavra de ordem que se apoiava na teoria segundo a qual a situação
dos países capitalistas era a mesma que reinava na Rússia pré-revolucionária.
Ora não existia nenhum ponto comum. A Rússia encontrava-se nos princípios do
capitalismo, apenas no primeiro estádio da industrialização, enquanto que os
países capitalistas avançados estavam no fim da era do capitalismo industrial.
A Rússia devia elevar-se do estádio de barbárie primitiva até ao nível de
produção atingido pelos países desenvolvidos. Esse objectivo não podia ser
atingido senão por intermédio de um partido que dirigisse o povo e organizasse
um capitalismo de Estado. Pelo contrário, a América e a Europa deviam
converter-se a uma produção de tipo comunista, o que não pode ser obtido senão
através de um esforço colectivo do conjunto da classe operária unida.
A classe operária russa apenas constituía uma fraca
minoria na população que se compunha quase inteiramente de camponeses
primitivos. Em Inglaterra, Alemanha, França e América, o proletariado
representava mais de metade da população. Na Rússia somente existia um pequeno
número de capitalistas, sem grande poder ou influência. Em Inglaterra, Alemanha,
França e América a classe capitalista é mais forte que nunca.
Ao declarar que eles (isto é os partidos) eram
capazes de vencer a classe capitalista, os dirigentes do Partido Comunista
mostraram subestimar o poder do inimigo. Ao proporem a Rússia como modelo a
seguir, não somente pelo heroísmo e espirito combativo de que tinha dado
provas, mais ainda pelos seus métodos e objectivos, mostraram à luz do dia a
sua incapacidade de ver a diferença que existe entre o regime czarista russo e
a dominação capitalista dos países da Europa e América.
A classe capitalista que controla inteiramente a
economia e detém um poder financeiro e intelectual considerável não se deixará
destruir por uma minoria. Nenhum partido no Mundo é suficientemente poderoso
para a destruir. Somente a classe operária pode um dia esperar abatê-la.
Porque o capitalismo constitui antes de tudo uma
força económica, ele não pode ser abalado senão por uma outra potência
económica, no caso, a classe operária em acção.
Pode parecer utópico, à primeira vista, colocar a
esperança de uma revolução na unidade dos trabalhadores. As massas não têm uma
consciência de classe muito desenvolvida; elas ignoram tudo sobre a revolução
social; não se interessam muito pela revolução. Preocupam-se mais pelos seus interesses
pessoais que pela solidariedade de classe; estão submetidas e receosas, em
busca de prazeres fúteis. Existirá uma grande diferença entre essas massas
indiferentes e o povo russo, por exemplo? Poder-se-á apostar preferencialmente
num tal povo que numa minoria comunista entusiasta, enérgica, pronta ao
sacrifício e movida por uma forte consciência de classe? A questão não teria
interesse se se encarasse, como o faz o partido comunista, a possibilidade de
uma revolução para amanhã.
A verdadeira revolução proletária será determinada
pelo Mundo capitalista existente, a verdadeira revolução comunista virá da
consciência de classe do proletariado.
O proletariado da Europa e América possui certas
particularidades que fazem dele uma verdadeira força. Ele é o descendente de
uma classe média de artesãos e camponeses que durante séculos cultivaram os
seus próprios campos ou possuíram as próprias oficinas. Esses homens livres,
que não tinham que dar contas a ninguém, aprenderam a trabalhar por e para si
próprios, e adquiriram qualidades de independência e habilidade que os
operários modernos herdaram. Sob a férula do capitalismo, esses trabalhadores
conheceram posteriormente o reino da máquina, a disciplina do trabalho
colectivo. Depois de uma primeira fase de depressão, apreenderam, na luta
permanente, a solidariedade e a unidade de classe.
Esses novos ideais representam a base sobre a qual
se desenvolverá o poder da classe revolucionária. Centenas de milhões de
trabalhadores, tanto na Europa como na América, possuem essas qualidades. Que
eles tenham apenas começado a sua obra não significa que sejam incapazes da
realizar. Ninguém lhes pode dizer como agir; deverão encontrar a sua própria
via através de experiências que serão muitas vezes dolorosas. Eles possuem a
vontade e a capacidade de descobrir essa via e de construir a unidade de classe
em que surgirá uma humanidade nova.
Esses trabalhadores não constituem uma massa neutra
e indiferente da qual uma minoria revolucionária pode ignorar, quando procura
derrubar a minoria capitalista no poder. A revolução não se pode fazer sem eles
e, quando passarem à acção, mostrarão que não são daqueles que um partido pode
obrigar à obediência.
Evidentemente, o partido compõe-se, em geral, dos
melhores elementos classe que representa. Os seus chefes encarnam os grandes
objectivos; os seus nomes são admirados, detestados ou venerados conforme os
casos. Eles estão nas primeiras linhas, se bem que cada derrota lhes seja fatal
e signifiquem, por consequência, a morte do partido. Conscientes desse perigo,
os dirigentes secundários, os burocratas do partido, renunciam muitas vezes à
luta suprema. Pelo contrário, se a classe a operária pode so0frer reveses, ela
nunca será vencida. As suas forças são indomáveis, as suas raízes firmemente
ligadas à terra. Tal como a erva que se sega, ela cresce sempre mais
resistente. Depois de ter suportado um combate, os trabalhadores esgotados
podem renunciar por um tempo à luta, mas as suas forças nunca descressem. Pelo
contrário, se o partido os segue na sua retirada, ele nunca poderá
restabelecer-se porque será constrangido a repudiar os seus princípios. Num
processo de luta de classes, o partido e os seus dirigentes apenas têm forças
limitadas que esgotam inteiramente para o bem ou para o mal da causa que
defendem. As reservas da classe operária são ilimitadas.
A função dos partidos apenas pode ser temporária:
num primeiro tempo, indicam a via a seguir e exprimem os desejos das classes
que representam. Mas à medida que aumenta e se intensifica a luta de classes,
ver-se-ão progressivamente ultrapassados pelos objectivos mais radicais e
ideais mais elevados dos trabalhadores. Todo o partido que se esforça por
manter a classe a um nível inferior deve ser condenado. A teoria segundo a qual
o partido domina a classe e deve constantemente conservar essa posição
significa, na prática, a repressão e, em último lugar, a derrota da classe.
Mostraremos como esta teoria, aplicada pelo Partido
Comunista, apenas conheceu um sucesso efémero.
II
Os princípios que regem o Partido Comunista e lhe
determinam a prática são os seguintes: o Partido deve aceder à ditadura,
conquistar o poder, fazer a revolução e, tendo-o feito, libertar os
trabalhadores; quanto aos operários, a sua tarefa é de seguir e apoiar o
Partido afim de o conduzir à vitória.
O primeiro objectivo do Partido é, pois, de obter a
adesão massiça dos trabalhadores, e não fazer deles combatentes independentes,
capazes de encontrarem a sua via e de a prosseguir.
Para atingir este objectivo, o Partido recorre à
acção parlamentar. Depois de ter declarado que o parlamentarismo em nada podia
servir a revolução, faz dele o seu principal instrumento de combate. Assim
nasceu o "parlamentarismo revolucionário" que consiste em demostrar
ao parlamento a inutilidade do parlamentarismo. Na realidade, o partido
comunista desejaria simplesmente adquirir os votos dos trabalhadores que
estavam até aí fiéis ao partido socialista. Numerosos trabalhadores,
desiludidos pela política capitalista da social-democracia e partidários da
revolução foram assim conquistados pelos grandes discursos e as críticas
virulentas que o partido comunista pronunciava contra o capitalismo.
Acreditaram que o Partido lhes mostrava uma via nova e que apenas continuando a
votar e a seguir os seus dirigentes - que agora seriam melhores - acabariam por
ser libertados. Os célebres revolucionários que tinham fundado o Estado dos
trabalhadores na Rússia asseguraram-lhes que essa via era a boa.
O sindicalismo representa outro meio pelo qual o
partido comunista tentou reunir a massa dos trabalhadores. Aí, ainda, o
Partido, depois de ter denunciado a inutilidade dos sindicatos no processo
revolucionário, pediu aos seus membros para aderirem a eles afim de ganhar os
sindicatos para o comunismo. Não se tratava, de resto, de transformar os
sindicalizados em militantes revolucionários que possuiriam uma forte
consciência de classe, mas simplesmente substituir os velhos dirigentes
"corrompidos" pelos membros do partido comunista. Assim, o Partido
controlaria esta vasta máquina da classe dirigente que são os sindicatos e
tomaria a direcção dos poderosos exércitos dos sindicalizados. Os antigos
dirigentes não iriam, contudo, ceder, facilmente, os seus lugares: excluíram os
comunistas das suas organizações. Assim foram criados novos sindicatos
"vermelhos".
As greves são a escola do comunismo. Directamente
confrontados com o poder capitalista, os trabalhadores em greve compreendem o
poder da classe dirigente. Diante da união das forças do inimigo tomam
consciência que não poderão vencer senão solidários e unidos. O seu desejo de
compreender encontra-se aumentado, e o que aprenderem é sem dúvida a mais
importante lição: só o comunismo poderá liberta-los.
O partido comunista soube utilizar esta verdade para
as suas necessidades pessoais, cada vez que se encontrou implicado numa greve.
Para ele, importa tomar as rédeas das mãos dos dirigentes sindicais pouco
inclinados a se baterem realmente. Ele não hesitou em declarar que os
trabalhadores deviam dirigir-se a si próprios pois que, enquanto que
representante da classe operária, cabia-lhe a sua direcção. Ele reclamou em seu
beneficio todos os sucessos obtidos pela classe operária. Longe de procurar
educar as massas na sua acção revolucionária, apenas se preocupou em aumentar a
sua influência sobre elas.
A lição natural - "o comunismo é a salvação da
classe operária" - foi substituída por uma lição artificial - "o
partido comunista é o salvador". Depois de ter captado a energia dos
grevistas, através dos seus discursos revolucionários, o partido comunista
orientou essas formas em direcção aos seus próprios propósitos. Disso
resultaram querelas que, na maior parte das vezes, fizeram mal à causa dos
trabalhadores.
A luta contínua devia fazer-se contra o partido
social-democrata, cujos dirigentes foram denunciados nestes termos tão
saborosos como "cúmplices do capitalismo" e "traidores da classe
operária". Uma crítica séria, que teria demonstrado como a
social-democracia se afastou da luta de classes, teria aberto os olhos de
numerosos trabalhadores. Mas a decoração devia mudar subitamente, e os
comunistas ofereceram a esses "traidores" uma aliança na luta comum
contra o capitalismo. É o que se chamou pomposamente "a unidade
reencontrada da classe operária". Unidade que não podia ser outra coisa
senão a colaboração temporária de dois grupos rivais de dirigentes, cada um
procurando conservar, ou ganhar, partidários dóceis.
A classe operária não é a única a quem será feito o
apelo quando um partido deseja engrossar as suas fileiras. Todas as classes
exploradas que vivem em condições miseráveis sob os regimes capitalistas apenas
podem aclamar os novos e melhores patrões que lhes prometem a liberdade. O
partido comunista fez exactamente o que tinha feito, antes dele, o partido
socialista: dirigiu a sua propaganda a todos os infelizes.
A Rússia devia dar o exemplo. Embora ele fosse o
partido dos operários, o partido bolchevique não conquistou o poder senão
graças à sua aliança com os camponeses. Uma vez no poder, encontrou-se ameaçado
pelo espírito capitalista que sobrevivia entre os camponeses ricos, e fez apelo
aos camponeses pobres para que eles se unissem aos trabalhadores. No seguimento
disto os partidos comunistas da América e da Europa, imitando como sempre as
palavras de ordem russas, iam dirigir-se pelo seu lado aos operários e aos
camponeses pobres. Eles esqueceram que os camponeses pobres dos países
desenvolvidos permaneciam muito ligados à propriedade privada e que se pudessem
deixar-se seduzir por promessas, seriam aqueles aliados pouco seguros, prontos
a desertar desde que houvesse o mínimo de descontentamento.
Ao longo de todo o processo revolucionário, a classe
operária não poderá contar senão com as suas próprias forças. Acontecer-lhe-á
muitas vezes ser apoiada pelas outras classes exploradas da sociedade, mas
nunca essas classes terão uma função determinante porque elas não possuem este
poder inato que a solidariedade e o controlo da produção conferem à classe
operária. Mesmo na revolta, essas classes permanecerão inconstantes e pouco
seguras. O mais que se pode fazer é tentar impedir que elas se tornem
instrumentos nas mãos dos capitalistas. Ora isso não pode fazer-se com
promessas. Os partidos podem viver de promessas e de programas, mas as classes
sociais são movidas por paixões e por sentimentos bem mais profundos. Só a luta
corajosa dos trabalhadores contra o capitalismo pode despertar o seu respeito e
confiança, e só nessa altura elas podem ser atingidas.
O mesmo não se passa quando o partido comunista tem
em mente, unicamente, a conquista pessoal do poder. Todos os deserdados que
tiveram razões para se queixarem do regime capitalista tornar-se-ão excelentes
partidários desse partido. O seu desespero de não saberem como sair do seu
atoleiro, faz deles perfeitos adeptos de um Partido que promete libertá-los. Se
podem sublevar-se nos momentos de cólera, são incapazes de conduzir uma luta
contínua. O grave período de perturbações que afecta o Mundo desde há alguns
anos aumentou o número dos desempregados fazendo-os tomar consciência da
necessidade de uma revolução mundial imediata. Eles vieram engrossar as
fileiras do partido comunista que pensou poder apoiar-se neste exército para se
arrogar o poder supremo.
O partido comunista nada fez para aumentar as forças
da classe operária. Não ajudou os trabalhadores na procura da coerência, e da
unidade. Limitou-se a fazer deles partidários entusiastas mas cegos e, por
consequência, fanáticos; a fazer deles sujeitos obedientes do partido no poder.
O seu objectivo não foi forjar uma classe operária
poderosa, mas fortalecer as forças do partido. E isto porque em lugar de se
apoiar nas condições existentes nos países capitalistas desenvolvidos da Europa
e da América, inspirou-se no exemplo da Rússia primitiva.
Se um partido, desejoso de obter partidários, se
mostra impotente para despertar o espírito revolucionário daqueles a quem se
dirige, não hesitará, se for pouco preocupado com a natureza dos meios
empregues para alcançar os seus fins, em dirigir-se aos seus instintos
reaccionários. O nacionalismo é, sem dúvida, o sentimento mais forte que o
capitalismo pôde despertar e utilizar contra a revolução. Quando em 1923, as
tropas francesas invadiram a região do Reno e uma vaga de nacionalismo se
levantou em toda a Alemanha, o partido comunista não hesitou em jogar a cartada
chauvinista para tentar rivalizar com os partidos capitalistas. Chegou mesmo a
propor ao Reichstag que as forças armadas comunistas, os "guardas
vermelhos", se aliassem ao exército governamental alemão, o Reichweher. A
política internacional não foi estranha e esta atitude. A Rússia, que na época
era hostil aos governos ocidentais vitoriosos, procurava uma aliança com a
Alemanha. O Partido Comunista Alemão foi portanto constrangido a colocar-se ao
lado do seu próprio governo capitalista.
Tal foi a característica principal de todos os
partidos comunistas que foram filiados na III Internacional: dirigidos por
Moscovo, por chefes comunistas russos, foram instrumentos da política
estrangeira russa. A Rússia era a "pátria de todos os trabalhadores",
o centro da revolução comunista mundial. Os interesses da Rússia não podiam ser
outros que os de todos os trabalhadores comunistas através do Mundo. Os
dirigentes russos fizeram claramente saber que, cada vez que um governo capitalista
era aliado da Rússia, os trabalhadores desse país deviam apoiar o seu governo.
A luta de classes, entre capitalistas e trabalhadores devia dobrar-se às
necessidades temporárias da política externa russa.
Esta dependência material e espiritual face à Rússia
foi a verdadeira razão da fraqueza do partido comunista. Todas as ambiguidades
que se encontram na evolução do regime soviético reflectiram-se nas tomadas de
posição do partido comunista. Os dirigentes russos explicaram aos seus vassalos
que a construção de uma sociedade industrial submetidas às leis do capitalismo
de Estado equivalia a construir uma sociedade comunista. De tal modo que cada
nova fábrica ou central eléctrica é aclamada pela imprensa comunista como um
triunfo do Partido. A fim de incitar os russos à perseverança, os jornais
soviéticos espalharam o boato segundo o qual o capitalismo estava prestes a
sucumbir à revolução mundial e que, ciumento dos sucessos do comunismo, pensava
numa guerra contra a Rússia. Esses rumores foram retomados pelo conjunto da
imprensa comunista mundial, no mesmo momento em que a Rússia assinava tratados
comerciais com esses países capitalistas. Cada vez que a Rússia concluía uma
aliança com um governo capitalista ou se misturava em querelas diplomáticas, a
imprensa comunista assegurava uma capitulação do mundo capitalista diante do
comunismo(1). E essa imprensa nunca cessou de colocar os interesses do
"comunismo" russo antes dos do proletariado mundial.
A Rússia é o exemplo supremo; e, para seguir o
exemplo russo, o partido comunista deverá dominar a classe. Os dirigentes dos
Partido Comunista Russo dominam porque concentram todos os elementos do poder
nas suas mãos. O mesmo se passa com todos os dirigentes comunistas através do
mundo. Os membros do Partido deve ser disciplinados. Moscovo e o Komintern
(Comissão Executiva da III Internacional) representam os dirigentes supremos;
eles podem revogar e substituir, à sua vontade, os dirigentes comunistas de
outros países.
Não surpreende que os trabalhadores e os membros de
partidos comunistas de outros países emitam por vezes dúvidas sobre o bom
fundamento dos métodos russos. Contudo, toda a oposição foi sempre vencida e
excluída do Partido. Nenhuma opinião independente foi jamais autorizada: o
partido comunista exige obediência.
Depois da revolução, os russos constituíram um
"exército vermelho" para defender a sua liberdade ameaçada pelos
"exércitos brancos". Do mesmo modo o Partido Comunista Alemão
organizou, por sua vez, uma "guarda vermelha", batalhões de jovens
comunistas armados, para lutar contra os nacionalistas armados.
A "guarda vermelha" não era unicamente um
exército de trabalhadores que combatia o capitalismo; era também um exército
contra todos os adversários do partido comunista. Cada vez que trabalhadores
tomavam a palavra, numa reunião, para criticar a política do Partido, eram
imediatamente reduzidos ao silêncio pelos guardas vermelhos a um sinal dos
dirigentes. Os métodos utilizados para com os camaradas contestatários não
servia para os esclarecer mas para lhes partir a cabeça. Os elementos mais
jovens e mais combativos foram assim transformados em rufias em vez de
verdadeiros comunistas. Esses jovens guardas vermelhos, que nada aprenderam
senão a atacar os inimigos dos seus dirigentes, por sua vez, mudaram de cor: e
tornaram-se perfeitos nacionalistas.
Aureolado pela glória da revolução russa, o partido
comunista soube, através dos seus brilhantes discursos, reunir, sob a sua
bandeira, os mais ardentes jovens trabalhadores. O seu entusiasmo foi posto ao
serviço de disputas artificiais e cisões políticas inúteis; a revolução perdeu
muito aí. Os melhores elementos, desiludidos com a política do Partido,
tentaram encontrar uma outra via, fundando grupos separados.
Se se olhar para o passado, pode-se dizer que a
Primeira Guerra Mundial, ao exacerbar a opressão do regime capitalista,
despertou o espirito revolucionário dos trabalhadores de todos os países. O
mais fraco dos governos, a Rússia bárbara, caiu ao primeiro golpe. Como um
brilhante meteoro, a revolução russa iluminou a terra. Mas os trabalhadores
tinham necessidade de uma outra revolução. Depois de os ter enchido de
esperança e energia, a perturbadora luz da revolução russa cegou os
trabalhadores, de tal modo que eles deixaram de ver a estrada a seguir.
Necessitam hoje de tomar forças e desviar os seus olhos para a aurora da sua
própria revolução.
O partido comunista, quanto a ele, não se poderá
restabelecer. A Rússia fez a paz com as nações capitalistas e toma lugar entre
elas com o seu próprio sistema económico. O partido comunista, intrinsecamente
ligado à Rússia. está condenado a viver de simulacros de combate. Os grupos de
oposição separaram-se explicando a degenerescência do partido comunista pelos
erros de táctica e pela culpa de certos dirigentes, a fim de não incriminarem
os princípios comunistas. Em vão, porque a derrota do partido comunista está
inscrita nos seus próprios princípios.
Anton Pannekoek sob o
pseudónimo de J. Harper I.C.C. Vol. I. n.º 7 - Junho de 1936
NOTAS:
(1) Cf.
os jornais maoístas depois da visita de Nixon a Pequim. (N.T.F.)