Partido e Classe
No momento atual, em que a crença no partido
tornou-se um freio para a capacidade de acão da classe operária, criar um novo
partido só pode ter como finalidade dirigir e dominar o proletariado. Faz-se
necessário distinguir: a) o partido é uma organização construída em torno de
certas idéias políticas; b) a classe é um agrupamento baseado em interesses
materiais comuns. Pertencer a um partido significa ligar-se a um grupo de
pessoas que mantém pontos de vista semelhantes nas questões políticas. O
pertencimento à mesma classe é determinado pela função desempenhada na
produção, função que cria e desenvolve a consciência dos interesses comuns. Mais
do que nunca, a classe operária somente poderá afirmar-se e vencer com a
condição de assumir o seu próprio destino.
Durante o período do desenvolvimento dos partidos
operários, difundiu-se a ilusão de que esses partidos poderiam englobar todos
os trabalhadores, seja como militantes ou como simpatizantes. Acreditava-se
estar superando a diferença entre classe e partido. Mas o partido continuou
sendo uma minoria e, além disso, começou a ser alvo das críticas de outros
grupos operários, conheceu várias rupturas, enquanto seu caráter experimentava
freqüentes mudanças e seu programa era revisado ou interpretado em um sentido
diverso.
Os programas dos partidos operários apresentavam a
revolução social como o resultado final da luta de classes. A vitória dos operários
sobre o capital significaria a criação de uma sociedade livre e igualitária,
socialista ou comunista. Mas, enquanto durasse o capitalismo, a luta não podia
superar o marco das necessidades imediatas e da defesa do nível de vida. O
parlamento era o lugar no qual se enfrentavam as diferentes classes sociais:
grandes e pequenos capitalistas, latidundiárlos, camponeses, artesãos,
operários, cujos interesses específicos eram defendidos por seus deputados.
Todos lutavam para aumentar sua parte no produto social. Assim, a função do
partido operário consistia em atuar no parlamento de modo a representar os
interesses dos trabalhadores, que, em troca, forneciam-lhe os votos necessários
para aumentar sua influência política.
Quando um partido operário tem muitos deputados,
alia-se com outros partidos contra as formações políticas mais reacionárias,
para formar uma maioria parlamentar. Uma vez instalados, os representantes se
tornam incapazes de atuar em defesa dos reais interesses dos trabalhadores. Na
prática, a maioria parlamentar continua pertencendo às classes exploradoras. Os
eventuais ministros - socialistas ou comunistas, tanto faz - inclinam-se diante
dos interesses do capital: propõem medidas para satisfazer as reinvindicações
imediatas dos trabalhadores e pressionam os demais partidos para que as façam
adotar, convertendo-se em mediadores que se dedicam a convencer os
trabalhadores de que tais pequenas reformas são conquistas importantíssimas,
desviando-os da luta de classes.
Os partidos operários só tem um objetivo: tomar o
poder e exercê-lo. Não contribuem para a emancipação do proletariado, pois sua
meta é governá-lo. Mas apresentam seu domínio como se fosse a autêntica
emancipação do proletariado. Tais partidos são aparelhos que lutam pelo poder
e, após enquadrar os militantes na linha justa, utilizam todos os meios,
visando à constante expansão de sua esfera de influência.
O partido operário de tipo leninista tem como
fundamento a idéia de que a classe operária necessita de um grupo de dirigentes
capazes de expropriar os capitalistas em seu nome e em seu lugar, e , portanto,
de constituir um novo governo. Isto é, a convicção de que a classe operária é
incapaz de fazer a revolução. Segundo esta concepção, os chefes criam a
sociedade comunista por decreto.
Lênin (Que Fazer? -1902), inspirando-se em Kautsky,
propõe a criação de um partido de vanguarda, formado por "revolucionários
profissionais" e rigidamente centralizado, sob a direção dos intelectuais.
A divisão do trabalho, tão eficaz e racional na organização capitalista da
produção, tem sido o modelo da concepção leninista da organização
revolucionária, que subordina os operários aos intelectuais, atribuindo a estes
a função dirigente. O resultado é que, logo após a revolução, a "eficacia"
do partido leninista, que até então se limitara a aparelhar as organizações de
massas, se extende e se afirma como "ditadura do proletariado". Uma
nova classe dominante, os tecnoburocratas ou gestores, assume o poder em nome
do proletariado e mantém, no essencial, as relações de produção/exploração
capitalistas, mudando apenas sua forma superestrutural ou jurídico-política: o
capitalismo de mercado se transforma em capitalismo de estado.
A expressão "partido revolucionário" é,
pois, uma contradição nos seus termos. Um partido seria revolucionário se o
termo revolução significasse troca de governo ou, no máximo, tomada do poder
por uma nova classe exploradora e opressora.
A alternativa é: a) as massas trabalhadoras, sem
deixar o terreno livre aos partidos, continuam a sua luta: organizam-se
autonomamente, nas fábricas e oficinas, para destruir o poder do capital e
formam os conselhos operários - entrando, inevitavelmente, em conflito com o
'partido revoluclonário', que considera a ação direta do proletariado um fator
de desordem. Ou então, b) as massas trabalhadoras se adaptam à doutrina do
partido, entregam-lhe a direcão da luta, seguem obedientemente suas palavras de
ordem e, por fim, convencidas de que o novo governo abolirá as relações de
produção capitalistas, voltam à passividade. Abandonando a iniciativa ao
partido, os trabalhadores permitem que o inimigo de classe mobilize todas as
suas forcas (econômica, política, Ideológica e militar) e derrube o novo
governo ou o adapte a seus interesses, transformando-o em instrumento de
conservação das relações de produção capitalistas.
Todas as vezes em que as massas trabalhadoras, após
derrubar um governo, aceitaram ser novamente governadas, por mais
revolucionário que se pretendesse o partido ao qual entregaram o poder, o que
aconteceu foi a substituição de uma classe dominante por outra. Assim ocorreu
com a revolução russa, quando o partido bolchevique apoderou-se dos sovietes e,
através de um golpe de mão, tomou o poder e implantou o capitalismo de estado.
É cada vez mais evidente que qualquer suposta
vanguarda que pretenda, de acordo com seu programa, dirigir ou impor-se às
massas, por meio de um 'partido revolucionário', se revela na prática, um fator
reacionário, em razão de suas concepções.
Anton Pannekoek, março de 1936