Otto
Rühle e o Movimento Obreiro Alemám
I
A actividade de Otto Rühle no movimento obreiro alemám estava vinculada
à actividade de pequenas minorias restritas dentro e fóra das organizaçons
obreiras oficiais. Os grupos aos que directamente se aderiu nom tiveram em
nengum momento umha importáncia real. E, ainda dentro destes grupos, el
mantinha umha posiçom peculiar; nunca se identificaria com nengumha
organizaçom. Nunca perdeu a perspectiva dos interesses gerais da classe
obreira, nom importa por qual estratégia política específica avoga-se num
momento particular. Nom podia considerar as organizaçons como fins em si
mesmas, senom simplesmente como medios para o establecimento de verdadeiras (real) relaçons sociais e para o
desenvolvimento mais pleno do indivíduo. Se, devido a esta ampla visom da vida,
foi às vezes suspeitoso de apostasia, contudo el morreu como vivira --um socialista no verdadeiro sentido da
palavra--.
Hoje, todo programa e denominaçom tenhem perdido o seu significado; os
socialistas falam em termos capitalistas, os capitalistas em termos
socialistas, e todo o mundo crê em qualquer cousa e em nada. Esta situaçom é
simplesmente o ponto culminante (climax)
dum longo desenvolvimento que fora iniciado polo próprio movimento obreiro.
Agora está do todo claro que só aqueles no movimento obreiro tradicional que se
opuxeram às suas organizaçons nom democráticas e às suas tácticas podem
propriamente ser chamados socialistas. Os dirigentes obreiros de onte e hoje
nom representavam nem representam um movimento dos obreiros, senom só um movimento capitalista de obreiros. Só
permanecendo fóra do movimento obreiro tem sido possível trabalhar cara cámbios
sociais decisivos. O facto de que, ainda dentro das organizaçons obreiras
dominantes, Rühle permanecera sendo um estrano, testemunha pola sua sinceridade
e integridade. Todo o seu pensamento estava, nom obstante, determinado polo
movimento ao que se opunha, e é necessário analisar as suas características
para entender ao home mesmo.
O movimento obreiro oficial nom funcionava de acordo coa sua ideologia
original nem cos seus auténticos interesses imediatos. Durante um tempo serviu
como um instrumento de dominaçom (control)
das classes dominantes. Perdendo primeiro a sua independência, estava presto a
perder a sua mesma existência. Os interesses criados baixo o capitalismo só
podem ser mantidos meiante a acumulaçom de poder. O processo de concentraçom de
capital e poder político obriga a qualquer movimento socialmente importante a
tentar ou bem destruir o capitalismo, ou bem servi-lo conseqüentemente. O velho
movimento obreiro nom podia fazer isto último, e nom estava disposto nem era
capaz de fazer o anterior. Satisfeito de ser um monopólio entre outros, foi
varrido a um lado polo desenvolvimento capitalista cara o domínio monopolista (monopolistic control) dos
monopólios.
Essencialmente, a história do velho movimento obreiro é a história do
mercado capitalista abordada dum ponto de vita "proletário". As
chamadas leis do mercado seriam utilizadas
em favor da mercadoria, a força de
trabalho. As acçons colectivas deviam conduzir aos salários mais altos
possíveis. O "poder económico" ganhado deste modo, seria assegurado
por meio de reformas sociais. Para lograr os maiores benefícios possíveis, os
capitalistas incrementaram o controlo organizado sobre o mercado. Mas esta
oposiçom entre capital e trabalho tamém expressava umha identidade de
interesses. Ambas partes fomentaram a reorganizaçom monopolista da sociedade
capitalista, ainda que, seguramente, trás as suas actividades conscientemente
dirigidas nom houvera, ao fim e ao cabo, nada mais que a necessidade expansiva
do capital mesmo. As suas políticas e aspiraçons, a pesar do muito que se
basearam em consideraçons reais de factos e necessidades especiais, estavám
todavia determinadas polo carácter fetichista do seu sistema de produçom.
Aparte do fetichismo da mercadoria,
qualquer importáncia que as leis do mercado puidesem ter no que respeita às
fortunas e perdas especiais, e a pesar de que puideram ser manipuladas por um
ou outro grupo de interesse, baixo nengumha circunstáncia podem ser utilizadas
em favor da classe obreira no seu conjunto. Nom é o mercado o que controla à
gente e determina as relaçons sociais predominantes, senom mais bem o facto de
que um grupo separado na sociedade possua ou domine os meios de produçom e os
instrumentos de opressom. As situaçons do mercado, quaisquer podam ser, sempre
favorecem ao capital. E se nom o fam assí serám alteradas, postas a um lado ou
suplementadas com poderes mais directos, mais potentes e básicos, inerentes à
propriedade ou domínio dos meios de produçom.
Para superar o capitalismo som necessárias acçons fóra das relaçons de mercado capital-trabalho, acçons que suprimam
tanto o mercado como as relaçons de classe. Restrigido a acçons dentro da
armazom do capitalismo, o velho movimento obreiro luitava desde o seu mesmo
princípio em condiçons desiguais. Estava
circunscrito a destruir-se a si mesmo ou a ser destruído desde fóra.
Destinado a ser fragmentado internamente pola sua própria oposiçom
revolucionária, que daria lugar a novas organizaçons, ou condeado a ser
destruído pola transformaçom capitalista dumha economia de mercado a una economia de mercado controlada e as alteraçons políticas que a acompanham.
Efectivamente, aconteceu o último, posto que a oposiçom revolucionária dentro
do movimento obreiro fracassou no seu desenvolvimento. Tinha umha voz, mas
nengum poder e nengum futuro imediato, mentres a classe obreira se tinha
passado justo meio século entrincheirando ao seu inimigo capitalista e
construindo umha enorme prisom para si própria baixo a forma do movimento do
trabalho (labour movement, movimento
obreiro; lit. movimento do trabalho;
N.T.). É portanto, todavia, necessário singularizar a homes como Otto Rühle
para descrever a oposiçom revolucionária moderna, ainda que tal singularizaçom
seja totalmente contrária ao seu próprio ponto de vista e às necessidades dos
obreiros, que deven apreender a pensar em termos de classes mais que em termos
de personalidades revolucionárias.
II
A I Guerra Mundial e a reacçom positiva do movimento obreiro ante a
matança surpreenderam só a aqueles que nom entendiam a sociedade capitalista
nem ao próspero movimento obreiro dentro dos seus confins. Mas só uns poucos o
entenderam efectivamente (actually).
Do mesmo modo que a oposiçom de pre-guerra dentro do movimento obreiro pode ser
focada através das mençons aos produtos literários e científicos duns quantos
indivíduos, entre os quais Rühle deve contar-se, assí a "oposiçom
obreira" à guerra pode tamém ser expressada em nomes como Liebknecht,
Luxemburg, Mehring, Rühle e outros. É bastante revelador que a atitude
anti-belicista, para ser completamente eficaz, tinha primeiro que encontrar a
autorizaçom parlamentar. Tinha que ser dramatizada no cenário dumha instituiçom
burguesa, indicando deste modo as suas limitaçons desde o princípio mesmo. De
facto, serviu só como umha precursora do movimento pacifista liberal-burguês
que finalmente tivo éxito em pôr fim à guerra sem perturbar o status quo capitalista. Se, no início, a
maioria dos obreiros estavam detrás da maioria belicista, nom menos estavam
detrás da actividade anti-belicista da sua burguesia, que acabou na República
de Weimar. As consignas anti-belicistas, ainda que erguidas por
revolucionários, proporcionaram simplesmente um distintivo particular da
política burguesa, e terminaram onde começaram --no parlamento
democrático-burguês--.
A verdadeira oposiçom à guerra e ao imperialismo manifestou-se em
deserçons do exército e da fábrica, e no reconhecimento progressivo por parte
de muitos obreiros de que a sua luita contra a guerra e a exploraçom deve
incluir a luita contra o velho movimento obreiro e todas as suas conceiçons
--fala em favor de Rühle que o seu própriio nome desaparecera rápidamente do
registro de honor da oposiçom à guerra--. Está claro, por suposto, que
Liebknecht e Luxemburg só fóram comemorados nos começos da II Guerra Mundial
porque morreram muito antes de que o mundo em guerra tivese volto à
"normalidade" e necessitara de novo heroes obreiros mortos para
apoiar aos dirigentes obreiros vivos, que levavam a cabo umha política
"realista" de reformas ou serviam à política estrangeira da Rússia
bolchevique.
A I Guerra Mundial revelou, mais que nengumha outra cousa, que o
movimento obreiro era parte e parcela da sociedade burguesa. As diversas
organizaçons de cada naçom demonstraram que nom tinham nem a intençom nem os
meios para combater o capitalismo --que únicamente estavam interessadas em
assegurar a sua própria existência dentro da estrutura capitalista--. Na
Alemanha isto era especialmente evidente, porque dentro do movimento
internacional as organizaçons alemás eram as mais grandes e as mais unificadas.
Para proseguer co que fora edificado desde as leis anti-socialistas de Bismark,
a oposiçom minoritária dentro do partido socialista despregou um
auto-refrenamento numha magnitude desconhecida noutros países. Mas, entom, a
oposiçom rusa exilada tinha menos que perder, além do qual tinha-se escindido
dos reformistas e colaboracionistas de classes umha década antes da erupçom da
guerra. E é bastante difícil ver nos submissos argumentos pacifistas do Partido
Laborista Independente qualquer oposiçom efectiva ao social-patriotismo que
tinha saturado o movimento obreiro británico. Mas da Esquerda alemá esperava-se
mais que de qualquer outro grupo dentro da Internacional, e o seu comportamento
no estalido da guerra foi, por conseguinte, particularmente deceiçoante. Aparte
das condiçons psicológicas dos indivíduos, este comportamento era o produto do fetichismo da organizaçom que prevalecia
no movimento.
Este fetichismo exigia disciplina e adesom estrita às fórmulas
democráticas --a minoria deve submeter-se
à vontade da maioria--. E ainda que está claro que baixo condiçons
capitalistas estas fórmulas democráticas soamentes escondem o seu contrário, a
oposiçom nom alcançou a perceber que a
democracia dentro do movimento obreiro nom diferia da democracia burguesa em
geral. Umha minoria possuia e dominava as organizaçons justo como a minoria
capitalista possue e domina os meios de produçom e o aparelho do Estado. Em
ambos casos, as minorias, em virtude desta dominaçom, determinam o
comportamento das maiorias. Mas meiante a força dos procedementos tradicionais,
em nome da disciplina e da unidade, incomodada e em contra do seu melhor
conhecimento, a minoria anti-belicista apoiou o chauvinismo social-democrático.
Só houvo um home no Reichstag alemám de Agosto de 1914 --Fritz Kunert-- que nom
foi capaz de votar polos créditos de guerra, mas que tampouco foi capaz de
votar contra eles e, assí, para satisfazer a sua consciência, abstivo-se na
votaçom.
Na primaveira de 1915, Liebknecht e Rühle foram os primeiros em votar
contra a concesom de créditos de guerra ao governo. Quedaram-se totalmente sos
durante tempo, e encontraram novos companheiros só na medida em que as
probabilidades dumha paz vitoriosa desapareceram co estancamento militar.
Depóis de 1916, a atitude radical anti-belicista foi apoiada, e pronto
absorvida, por um movimento burguês em busca dumha paz negociada, um movimento
que, finalmente, ia herdar o inventário da bancarrota do imperialismo
alemán.
Como violadores da disciplina, Liebknecht e Rühle foram expulsos da fracçom
social-demócrata do Reichstag. Junto com Rosa Luxemburg, Franz Mehring e
outros, mais ou menos esquecidos agora, eles organizaram o grupo Internacional, publicando umha revista
do mesmo intítulado para elevar a idea do internacionalismo no mundo em guerra.
Em 1916 organizaram a Spartakusbund
(Liga Espartaco), que cooperou com outras formaçons da ala esquerda como a Internationale Sozialist (Socialistas
Internacionales) com Julian Borchardt como o seu porta-voz, e co grupo ao redor
de Johann Knief e do jornal radical de Bremem, Arbeiterpolitik (Política Obreira). Em retrospectiva, parece que o
último grupo nomeado era o mais avançado, isto é, avançado no distanciamento
das tradiçons social-demócratas e avançado cara umha nova aproximaçom à luita
de classe proletária. Quanto se aderia todavia a Spartakusbund ao fetiche da
organizaçom e da unidade que governava ao movimento obreiro alemám, veu a
luz na sua atitude vacilante cara as primeiras tentativas de reorientaçom do
movimento socialista internacional em Zimmerwald e Kienthal (III).
Os espartaquistas nom estavam a favor dum ruptura clara co velho movimento
obreiro na direcçom do exemplo bolchevique mais precoz. Esperavam ainda ganhar
ao partido para a sua própria posiçom, e evitavam coidadosamente as políticas
irreconciliáveis. Em Abril de 1917, a Spartakusbund
fusionou-se cos Socialistas Independentes
(Unabhèngige Sozialdemokratische Partei Deutschlands), que formavam o centro do
velho movimento obreiro, mas que nom queriam encobrer mais o chauvinismo da ala
maioritária conservadora do partido social-demócrata. Relativamente
independente, ainda que todavia dentro do Partido Socialista Independente
(USPD), a Spartakusbund deixou esta
organizaçom só a finais do ano 1918.
III
Dentro da Spartakusbund, Otto
Rühle comparteu a posiçom de Liebknecht e Rosa Luxemburg, que tinha sido
atacada polos bolcheviques como incoerente. E era incoerente, mas polas razons
pertinentes. A primeira vista, a principal razom semelhava basear-se na ilusom
de que o Partido Social-demócrata poderia ser reformado. Co cámbio das
circunstáncias, esperava-se que as massas deixaram de seguer aos seus
dirigentes conservadores e apoiasem à ala esquerda do partido. E ainda que tais
ilusons existiam, em primeiro lugar no que respeita ao velho partido, e mais
tarde respeito dos Socialistas Independentes, nom explicam de tudo a vacilaçom
dos dirigentes espartaquistas a adoptar as sendas do bolchevismo.
Efectivamente, os espartaquistas afrontavam um dilema, nom importa em que
direcçom olhasem. Ao nom tentar --no momento correcto-- romper resoltamente coa
social-democracia, perderam a sua oportunidade de formar umha forte organizaçom
capaz de jogar um papel decisivo nos esperados alçamentos sociais. Contudo, em
vista da situaçom real em Alemanha, em vista da história do movimento obreiro
alemám, era bastante difícil crer na possibilidade da rápida formaçom dum contra-partido às organizaçons obreiras
dominantes. Por suposto, poderia ter sido possível formar um partido à maneira
leninista, um partido de revolucionários profissionais, dispostos a usurpar o
poder, se for necessário, contra a vontade da maioria da classe obreira. Mas
isto era precisamente ao que a gente ao redor de Rosa Luxemburguo nom aspirava.
Ao longo dos anos da sua oposiçom ao reformismo e o revisionismo, nunca
acurtaram a sua distáncia da "Esquerda" rusa, da conceiçom de Lenin
da organizaçom e da revoluçom. Em agudas controvérsias, Rosa Luxemburg sinalara
que as conceiçons de Lenin eram dumha natureza jacobina e inaplicáveis em
Europa Ocidental, onde estava à orde do dia nom umha revoluçom burguesa senom
umha revoluçom proletária. Ainda que ela, tamém, falava da ditadura do
proletariado, esta significava para ela, a diferência de Lenin, "a maneira na que a democracia é empregada,
nom na sua aboliçom --será a obra da classe, e nom dumha pequena minoria em
nome da classe--".
Tal e como Liebknecht, Luxemburg e Rühle saudaram de modo entusiasta o
derrocamento do zarismo, eles nom perderam as suas capacidades críticas, nem
esqueceram o carácter do partido bolchevique, nem as limitaçons históricas da
Revoluçom rusa. Mas sem entrar a considerar as realidades imediatas e o
resultado último desta revoluçom, tivo que ser apoiada como primeira ruptura na
falange imperialista e como a precursora da esperada Revoluçom alemá. Disto
último apareceram muitos sinais em folgas, distúrbios pola fame, motíns e todo
tipo de formas de resistência passiva. Mas a crescente oposiçom à guerra e à
ditadura de Ludendorff nom encontraram expressom organizativa numha magnitude
importante. Em lugar de girar à esquerda, as massas seguiram às suas velhas
organizaçons, que se alineavam coa burguesia liberal. Os levantamentos na
Armada alemá e, finalmente, a rebeliom de Novembro, mantiveram-se no espírito
da social-democracia, é dizer, no
espírito da burguesia alemá derrotada.
A Revoluçom alemá parecia ser mais importante do que realmente era. O
entusiasmo espontáneo dos obreiros era mais pola finalizaçom da guerra que pola
transformaçom das relaçons sociais existentes. As suas reivindicaçons,
expressadas através dos conselhos de obreiros e soldados, nom trascendiam as
possibilidades da sociedade burguesa. Incluso a minoria revolucionária, e
particularmente a Spartakusbund,
fracassaram no desenvolvimento dum programa revolucionário congruente (consistent). As sus reivindicaçons
económicas e políticas eram dumha natureza
dupla; foram elaboradas para server como reivindicaçons sobre as que chegar
a acordos coa burguesia e os seus aliados social-demócratas, e como consignas
dumha revoluçom que suprimiria a sociedade burguesa e os seus defensores.
Por suposto, dentro do océano de mediocridade que era a Revoluçom alemá
havia correntes revolucionárias que aqueceram os coraçons dos radicais, e os
induciram a empreender acçons que históricamente estavam totalmente fóra de
lugar. Os éxitos parciais, devido ao aturdimento temporal das classes
dominantes e à passividade geral das amplas massas --exaustas como estavam por
quatro anos de fame e guerra-- nutriram a esperança de que a Revoluçom poderia
acabar numha sociedade socialista. Só que ninguém sabia realmente como seria a
sociedade socialista, nem que passos se deviam dar para dar-lhe existência.
"Todo o poder aos conselhos de
obreiros e soldados", ainda que umha consigna atractiva, deixava
todavia todas as questons essenciais abertas. As luitas revolucionárias que
seguiram a Novembro de 1918 nom estavam, assí, determinadas polos planos
conscientemente preparados da minoria revolucionária, senom que foram
empurradas polo progressivo desenvolvimento da contra-revoluçom, que era
apoiada pola maioria da populaçom. O facto era que as amplas massas alemás,
dentro e fóra do movimento obreiro, nom olhavam cara o establecimento dumha
nova sociedade, senom, à inversa, cara a restauraçom do capitalismo liberal sem
os seus maus aspectos, as suas desigualdades políticas, o seu militarismo e
imperialismo. Desejavam simplesmente o completamento das reformas começadas
antes da guerra, que estavam desenhadas para conduzir a um sistema capitalista
benévolo.
A ambigüidade que caracterizava à política da Spartakusbund era em
grande medida o resultado do conservadurismo das massas. Os dirigentes
espartaquistas estavam listos, por umha parte, para seguer o curso claramente
revolucionário desejado pola chamada 'ultra-esquerda', e, por outra parte,
estavam seguros de que tal política nom poderia ter éxito em vista da atitude
predominante nas massas e da situaçom internacional.
O efeito da Revoluçom rusa na Alemanha apenas tinha sido perceptível.
Nem havia razom para esperar que um giro radical na Alemanha tivese repercusons
em França, Inglaterra e América. Se fora difízil para os Aliados intervir
decisivamente em Rússia, teriam menores dificultades em aprastar um alçamento
comunista alemám. Emergendo da vitória da guerra, o capitalismo destas naçons
fortalecera-se enormemente; nom havia indicativo real de que as suas massas
patrióticas recusasem luitar contra umha Alemanha revolucionária mais débil. De
qualquer modo, aparte de tais consideraçons, havia escassas razons para crer
que as massas alemás, comprometidas en livrar-se das suas armas, reassumiriam a
guerra contra o capitalismo estrangeiro para libertar-se do seu próprio. A
política aparentemente mais "realista" para abordar a situaçom
internacional, e que cedo seria proposta por Wolfheim e Lauffenberg baixo o
nome de nacional-bolchevismo, nom era
ainda realista em vista das relaçons de poder reais depóis da guerra. O plano
para retomar a guerra contra o capitalismo aliado coa ajuda de Rússia nom tinha
em consideraçom que os bolcheviques nem estavam listos nem tinham a capacidade
para participar em tal aventura. Por suposto, ainda que os bolcheviques nom
eram contrários a que Alemanha ou qualquer outra naçom cria-se dificultades aos
imperialistas vitoriosos, nom alentavam a idea dumha nova guerra a grande
escala para continuar a "revoluçom mundial". Eles desejavam apoio
para o seu próprio régime, cuja permanência era ainda questionada polos
bolcheviques mesmos, mas nom estavam interessados em apoiar revoluçons noutros
países por meios militares. Tanto seguer um curso nacionalista, independente da
questom das alianças, como unir Alemanha umha vez mais para umha guerra de
"libertaçom" da opressom estrangeira, estava fóra de questom, pola
razom de que estas capas sociais que os "revolucionários nacionais"
teriam que ganhar para a sua causa eram precisamente o povo que rematara coa
guerra antes da derrota completa dos exércitos alemáns, co propósito de previr
um espalhamento ulterior do bolchevismo. Incapazes
de converter-se nos amos do capitalismo internacional, preferiram manter-se
como os seus melhores servidores. Contudo, nom havia maneira de tratar as
questons internas alemás que nom involucrase umha política estrangeira
definida. Deste modo, a revoluçom alemá radical foi derrotada por si própria e
polo capitalismo mundial incluso antes de que puidera erguer-se.
A necessidade de considerar seriamente as relaçons internacionais nunca
xurdira, nom obstante, para a Esquerda alemá. Esta era quiçais a indicaçom mais
clara da sua insignificáncia. Nem a questom do que fazer co poder político,
umha vez fose apressado, foi formulada concretamente. Ninguém parecia crer que
estas questons tivesem que ser respostadas. Liebknecht e Luxemburg estavam seguros
de que o proletariado alemám se enfentava a um longo período de luitas de
classes sem nengum sinal de umha vitória pronta. Quixeram fazer o melhor para
el, sugerindo um retorno ao trabalho parlamentar e sindical. Sem embargo, nas
suas actividades prévias tinham já sobrepassado os limites da política
burguesa; já nom podiam voltar às prisons da tradiçom. Tinham reunido ao seu
arredor ao elemento mais radical do proletariado alemám, que estava determinado
a considerar qualquer contenda como a luita
final contra o capital. Estes obreiros interpretavam a Revoluçom rusa de
acordo coas suas próprias necessidades e mentalidade; preocuparam-se menos
polas dificultades que espreitavam no futuro que de destruir o mais pronto
possível as forças do pasado. Só havia dous caminhos abertos aos
revolucionários: ou afundir-se coas forças cuja causa de aí em adiante estava
perdida, ou volver ao redil da democracia burguesa e realizar trabalho social
para as classes dominantes. Para o auténtico (real) revolucionário havia, por suposto, só um caminho: cair cos obreiros combatintes. Por isso
Eugen Levine falava do revolucionário como de "umha persoa morta em licença" (furlong: licença militar, N.T.), e por isso Rosa Luxemburg e
Liebknecht fóram para a morte quase como sonâmbulos. É um simples acidente que
Otto Rühle e muitos outros da Esquerda resolta permanecesem com vida.
IV
O facto de que a burguesia internacional puidera concluir a sua guerra
sem mais do que a perda temporal do negócio russo, determinou toda a história
de pos-guerra até a II Guerra Mundial. Em retrospectiva, as luitas do
proletariado alemám de 1919 a 1923 parecem fricçons menores que acompanhavam ao
processo de reorganizaçom capitalista que seguiu à crise da guerra. Mas sempre
tem sido umha tendência considerar os subprodutos de cámbios violentos na
estrutura capitalista como expresons da vontade revolucionária do proletariado.
Os optimistas radicais, sem embargo, estavam simplesmente assobiando na escuridade. A escuridade é real, é certo, e o ruído é
alentador, mas a essa hora tardia já nom hai necessidade de toma-lo em sério.
Tam impressionante como puidese ser o registro de Otto Rühle como
revolucionário prático, tam excitante como é lembrar as acçons proletárias em
Dresde, em Saxónia, na Alemanha --os mitins, as demonstraçons, as folgas, as
luitas nas ruas, as aquecidas discusons: as esperanças, os medos e os
desacordos, o amargor da derrota e a dor da prisom e da morte-- todavia nom
podem tirar-se mais que leiçons negativas de todas estas tentativas. Toda a
energia e todo o entusiasmo nom fôrom suficientes para provocar um cámbio
social nem para alterar a mentalidade contemporánea. A leiçom apreendida era a
de como nom proceder. O modo de realizar
as necessidades revolucionárias do proletariado nom foi descoberto.
Os emotivos alçamentos proporcionaram um incentivo sem fim à
investigaçom. A revoluçom, que durante tanto tinha sido simples teoria e umha
vaga esperança, aparecera por um momento como umha possibilidade prática. A
oportunidade perdera-se, sem dúvida, mas retornaria para ser melhor utilizada a
próxima vez. Se nom as persoas, ao menos os "tempos" eram
revolucionários, e as condiçons de crise predominantes revolucionariam, mais
cedo ou mais tarde, as mentes dos obreiros. Se as acçons tinham chegado á sua
fim polos pelotons de execuçom da policia social-demócrata, se a iniciativa dos
obreiros fora destruída umha vez mais através da castraçom dos seus conselhos
pola via da legalizaçom, se os seus dirigentes actuaram de novo nom coa classe
senom "em nome da classe" nas diversas instituiçons capitalistas
--nom obstante, a guerra tinha revelado qque as contradiçons capitalistas
fundamentais nom podiam ser resoltas, e que as condiçons de crise eram agora as
condiçons normais do capitalismo--. Novas acçons revolucionárias eram
probáveis, e encontrariam aos revolucionários melhor preparados.
Ainda que as revoluçons em Alemanha, Austria e Hungria tinham
fracassado, todavia havia a Revoluçom rusa para recordar ao mundo a realidade
das exigências proletárias. Todas as discusons circulavam ao redor desta
revoluçom, e de maneira correcta, pois esta revoluçom vinha a determinar o
curso futuro da Esquerda alemá. Em Decembro de 1918 formou-se o Partido
Comunista de Alemanha (KPD). Depóis do assassinato de Liebknecht e Luxemburg,
era dirigido por Paul Levi e Karl Radek. Esta nova direcçom foi de seguida
atacada por umha oposiçom de esquerda dentro do partido, à qual Rühle
pertencia, devido à sua tendência a avogar por um retorno às actividades parlamentares.
Na fundaçom do partido, os seus elementos radicais tiveram éxito em dar-lhe um
carácter anti-parlamentar e um amplo controlo democrático, a diferência do tipo
leninista de organizaçom. Tamém fora adoptada umha política anti-sindical.
Liebknecht e Luxemburg subordinaram as suas próprias perspectivas divergentes
às da maioria radical, mas nom assí Levi e Radek. Já no verao de 1919 deixaram
claro que escindiriam o partido para participar nas eleiçons parlamentares.
Simultáneamente, empezaron a fazer propaganda por um retorno ao trabalho
sindical, a pesar do facto de que o partido estava já comprometido na formaçom
de novas organizaçons já nom baseadas nos ofícios ou incluso nas indústrias,
senom nas fábricas. Estas organizaçons de
fábrica (Betrieforganisations) associaram-se numha organizaçom de classe, a
Uniom Geral Obreira de Alemanha
(Allgemeine Arbeiter Uniom Deutschlands).
No Congresso de Heidelberg en Outubro de 1919 todos os delegados que
discordaram co novo comité central e mantiveram a posiçom tomada na fundaçom do
Partido Comunista foram expulsos. O Fevreiro seguinte, o comité central decidiu
livrar-se de todos os distritos controlados pola oposiçom de esquerda. A
"oposiçom" tinha ao Buró de Amsterdam da Internacional Comunista do
seu lado, o qual conduziu à disoluçom desse buró pola Internacional co
propósito de apoiar o bloco de Levi-Radek. E, finalmente, em Abril de 1920, a
ala esquerda fundou o Partido Comunista Obreiro de Alemanha (KAPD,
Kommunistische Arbeiter Partei Deutschlands). Ao longo deste periodo Otto Rühle
estivo ao lado da oposiçom de esquerda.
O KAPD todavia nom compreendia efectivamente (realise) que a sua luita contra os grupos ao redor de Levi e Radek
era a reasunçom da velha luita da Esquerda alemá contra o bolchevismo, e, num
sentido amplo, contra a nova estrutura do capitalismo mundial que tomava corpo
progressivamente. Decidiu-se assí entrar na Internacional Comunista. O KAPD parecia ser mais bolchevique que os
bolcheviques. De todos os grupos revolucionários, por exemplo, foi o mais
insistente sobre a ajuda directa aos bolcheviques durante a guerra
russo-polaca. Mas a Internacional Comunista nom necessitava tomar novamente
umha decisom contra a 'ultra-esquerda'; os seus dirigentes tinham tomado a sua
decissom vinte anos antes. Nom obstante, o comité executivo da Internacional
Comunista tentou manter o contacto co KAPD, nom só devido a que todavia
continha a maioria do velho Partido Comunista, senom tamém porque ambos, Levi e
Radek, ainda que faziam o trabalho dos bolcheviques na Alemanha, tinham sido os
discípulos mais íntimos nom de Lenin senom de Rosa Luxemburg. No II Congresso
Mundial da III Internacional em 1920, os bolcheviques rusos estavam já em
posiçom de dictar a política da Internacional. Otto Rühle, que assistia ao
congresso, reconheceu a impossibilidade de alterar esta situaçom e a
necessidade imediata de combater a Internacional bolchevique em interesse da
revoluçom proletária.
O KAPD enviou umha nova comissom a Moscova, só para volver cos mesmos resultados.
Estes resumiam-se na Carta Aberta a Lenin
de Herman Gorter, que contestava ao Comunismo
de Esquerda, umha enfermidade infantil, de Lenin. As acçons da
Internacional contra a 'ultra-esquerda' fôrom primeiro tentativas abertas de
intervir e controlar todas as distintas seiçons nacionais. A pressom sobre o
KAPD para que volvera ao parlamentarismo e ao sindicalismo incrementou-se
constantemente, mas o KAPD separou-se da Internacional depóis do seu III
Congresso.
V
No II Congresso Mundial os dirigentes bolcheviques, para assegurar o
controlo sobre a Internacional, propuxeram vinte e umha condiçons de admisom na
Internacional Comunista. Dado que dominavam o Congresso, nom tiveram
dificultade em conseguir que estas condiçons fossem adoptadas. Ao momento a
luita sobre questons de organizaçom que, vinte anos antes, tinha causado
controvérsias entre Luxemburg e Lenin, foi retomada abertamente. Trás das
debatidas questons organizativas estavam, por suposto, as diferências
fundamentais entre a revoluçom bolchevique e as necessidades do proletariado
ocidental.
Para Otto Rühle, estas vinte e umha condiçons eram suficientes para
destruir as suas derradeiras ilusons sobre o régime bolchevique. Estas
condiçons dotavam ao executivo da Internacional, isto é, aos dirigentes do
partido russo, de completo controlo e autoridade sobre todas as seiçons
nacionais. Em opinom de Lenin, nom era possível realizar a ditadura a umha
escala internacional "sem um partido
estritamente centralizado, disciplinado, capaz de dirigir e gerir cara ramo,
cada esfera, cada variante do trabalho político e cultural". A Rühle
pareceu-lhe ao princípio que trás da atitude autocrática de Lenin havia
simplesmente a arrogáncia do vencedor que tenta impôr ao mundo os métodos de
luita e o tipo de organizaçom que proporcionara o poder aos bolcheviques. Esta
atitude, que insistia em aplicar a experiência russa a Europa ocidental, onde
prevaleciam condiçons completamente diferentes, parecia um erro, umha
equivocaçom política, umha falta de entendimento das peculiaridades do
capitalismo ocidental e o resultado da preocupaçom fanática de Lenin cos
problemas russos. A política de Lenin semelhava estar determinada polo atraso
do desenvolvimento capitalista russo, e, ainda que tivo que ser combatida em
Europa ocidental dado que tendia a apoiar a restauraçom capitalista, nom se lhe
podia chamar umha força contra-revolucionária franca. Esta perspectiva
benevolente cara a revoluçom bolchevique seria cedo destruída polas actividades
ulteriores dos mesmos bolcheviques.
Os bolcheviques fôrom de
"erros" pequenos a "erros" sempre maiores. Ainda que o
Partido Comunista Alemám, que estava afiliado à III Internacional, cresceu com
afiançamento, particularmente depóis da sua unificaçom cos Socialistas Independentes,
a classe proletária, já à defensiva, perdia umha posiçom trás outra frente às
forças da reacçom capitalista. Competindo co Partido Social-demócrata, que
representava a partes da classe meia e à chamada aristocracia obreira
tradeunionista, o Partido Comunista nom podia ajudar ao desenvolvimento mentres
estas capas sociais se empobreciam na depressom permanente em que o capitalismo
alemám se encontrava. Co crescimento seguro do desemprego, tamém se incrementou
o descontento co status quo e cos seus
defensores mais leais, os social-demócratas alemáns.
Só se popularizou o lado heróico da Revoluçom russa, o carácter
quotidiano do régime bolchevique ocultou-se tanto polos seus amigos como polos
seus inimigos. Pois, nesta época, o capitalismo de Estado que se estava a
despregar em Rússia era ainda tam estrano para a burguesia, adoctrinada na
ideologia do laissez-faire, como o
era o próprio socialismo. E o socialismo era concebido, pola maioria dos
socialistas, como um tipo de domínio estatal (state control) da industria e dos recursos naturais. A Revoluçom
russa convertiu-se num mito poderosso e hábilmente fomentado, aceitado polas
seiçons empobrecidas do poletariado alemám para compensar a sua miséria cada
vez maior. O mito foi sustido polos reaccionários para aumentar o ódio dos seus
seguidores polos obreiros alemáns e por todas as tendências revolucionárias em
geral.
Contra o mito, contra o poderosso aparelho de propaganda da
Internacional Comunista que edificara o mito, que estava acompanhado e apoiado
por umha ofensiva geral do capital contra o trabalho em todo o mundo --contra
todo isto, a razom nom podia prevalecer--.
Todos os grupos radicais à esqueda do Partido Comunista fôrom do estancamento à
desintegraçom. Nom ajudou o que estes grupos tiveram a política correcta e o
Partido Comunista a política "equivocada", posto que aquí nom estavam
implicadas questons de estratégia revolucionária. O que estava sucedendo era
que o capitalismo mundial estava passando por um processo de estabilizaçom, e estava
livrando-se dos elementos proletários perturbadores que, baixo condiçons
críticas de guerra e de colapso militar, tinham tentado afirmar-se
políticamente.
Russia, que de todas as naçons era a maior em necessidade de
estabilizaçom, foi o primeiro país em destruir o seu movimento obreiro pola via
da ditadura de partido bolchevique. Baixo as condiçons do imperialismo, sem
embargo, a estabilizaçom interna é possível só meiante políticas exteriores de
poder (power-politics, diplomácia
respaldada pola força). O carácter da política estrangeira de Russia baixo os
bolcheviques estava determinado polas peculiaridades da situaçom europea de
pos-guerrra. O moderno imperialismo já nom se contenta simplesmente com
auto-afirmar-se por meio da pressom militar e a guerra actual. A "quinta
columna" é a arma reconhecida de todas as naçons. Contudo, a virtude
imperialista de hoje era todavia umha pura necessidade para os bolcheviques,
que estavam tentando suster-se a si próprios num mundo de competiçom imperialista.
Nom havia nada contraditório na política bolchevique de apropriar-se de todo o
poder dos obreiros russos e, ao mesmo tempo, tentar edificar fortes
organizaçons obreiras noutras naçons. Justamente como estas organizaçons tinham
que ser flexíveis para mover-se de acordo coas necessidades políticas
cambiantes de Rússia, o seu controlo desde acima tinha assí que ser
rígido.
Por suposto, os bolcheviques nom consideraram as diversas seiçons da sua
Internacional como simples legions estrangeiras ao serviço da "pátria dos
trabalhadores". Criam que o que ajudava a Rússia tamém servia ao progresso
noutras partes. Criam, correctamente, que a Revoluçom russa tinha iniciado um
movimento geral e de amplitude mundial do capitalismo monopolista ao
capitalismo de Estado, e mantiveram que este novo estado de cousas era um passo
na direcçom ao socialismo. Com outras palavras, se nom na sua táctica, entom na
sua teoria, eles eram todavia social-demócratas e, do seu ponto de vista, os
dirigentes social-demócratas eram realmente traidores à sua própria causa
quando ajudavam a preservar o capitalismo de laissez-faire do onte. Contra a
social-democracia, eles viam-se como os verdadeiros revolucionários; contra a
'ultra-esquerda' viam-se como os realistas, os verdadeiros representantes do
socialismo científico.
Mas o que pensavam de si próprios e o que eram realmente som duas cousas
diferentes. Em tanto que continuavam mal-interpretando a sua missom histórica,
estavam contínuamente frustrando a sua própria causa; em tanto que estavam
forçados a cumprir coas necessidades objectivas da sua revoluçom,
convertiram-se na maior força
contra-revolucionária do capitalismo moderno. Luitando como verdadeiros
social-demócratas polo predomínio no movimento socialista mundial,
identificando os interesses estreitamente nacionalistas da Rússia capitalista
de Estado cos interesses do proletariado mundial, e tentando manter a todo o
custe a posiçom de poder que ganharam em 1917, estavam simplesmente preparando
o seu próprio afundimento, que se dramatizou em numerossas disputas
fraccionais, alcançou o seu apogeu (climax)
nos juiços de Moscova e acabou na Rússia estalinista de hoje --umha naçom
imperialista entre outras--.
Em vista deste desenvolvimento, e mais importante que a crítica
implacável de Otto Rühle das políticas efectivas dos bolcheviques na Alemanha e
ao longo do mundo, era o seu precoz reconhecimento da importáncia histórica
real do movimento bolchevique, é dizer, da social-democracia militante. O que
um movimento social-demócrata conservador era capaz de fazer e de nom fazer
tinham-no revelado muito claramente os partidos de Alemanha, França e
Inglaterra. Os bolcheviques mostraram o que teriam feito de ter sido todavia um
movimento subversivo. Teriam tentado organizar o capitalismo desorganizado e
reempraçar aos empresários individuais por burócratas. Nom tinham outros
planos, e inclusso estes eram só extensons do processo de cartelizaçom,
trustificaçom e centralizaçom a que estava procedendo-se em todo o mundo
capitalista. Em Europa ocidental, sem embargo, os partidos socialistas nom
podiam actuar já de modo bolchevique, posto que a sua burguesia estava agora
mesmo instituindo este tipo de "socializaçom" por próprio acordo.
Todo o que os socialistas podiam fazer era tender-lhes a mao, ou seja, crescer
progressivamente dentro da emergente "sociedade socialista".
O significado do bolchevismo revelara-se completamente soamentes coa
emergência do fascismo. Para combater a este último era necessário, em palavras
de Otto Rühle, reconhecer que "a
luita contra o fascismo começa coa luita contra o bolchevismo". À luz
do presente, os grupos de 'ultra-esquerda' em Alemanha e Holanda devem
considerar-se as primeiras organizaçons
anti-fascistas, anticipando na sua luita contra os partidos comunistas a
necessidade futura da classe obreira de combater a forma fascista do
capitalismo. Os primeiros teóricos do anti-fascismo encontraram-se entre os
porta-vozes das sectas radicais: Gorter e Pannekoek em Holanda; Rühle,
Pfempfert, Broh e Fraenkel em Alemanha; e podem ser considerados como tais pola
sua luita contra o conceito de governo de partido (party-rule) e de domínio
estatal (state-control), polas suas tentativas de actualizar os conceitos do
movimento conselhista cara a determinaçom directa (direct determination) do seu
destino, e polo seu sustenimento da luita da Esquerda alemá tanto contra a
social-democracia como contra a sua rama leninista.
Pouco antes da sua morte, Rühle, fazendo recapitulaçom das suas
conclusons ao respeito do bolchevismo, nom vacilou em situar a Rússia como a
primeira entre os Estados totalitários. "Serviu como modelo para outras ditaduras capitalistas. As divergências
ideológicas nom diferênciam realmente sistemas socio-económicos. A aboliçom da
propriedade privada dos meios de produçom (combinada com), o domínio (control) dos obreiros sobre os produtos do seu
trabalho e a fim do sistema salarial", estas duas condiçons, sem
embargo, estám incumplidas em Rússia do mesmo modo que nos Estados
fascistas.
Para clarificar o carácter
fascista do sistema russo, Rühle volveu-se umha vez mais cara o Comunismo de esquerda, umha enfermidade
infantil de Lenin, posto que "de
todas as manifestaçons programáticas do bolchevismo, esta era a mais reveladora
do seu verdadeiro (real) carácter".
Quando em 1933 Hitler suprimiu toda a literatura socialista na Alemanha,
contava Rühle, ao folheto de Lenin lhe foi permitida a publicaçom e a
distribuiçom. Na sua obra, Lenin insiste em que o partido deve ser umha espécie
de académia militar de revolucionários profissionais. O seus requerimentos
principais eram a autoridade incondicional do lider, o rígido centralismo, a
disciplina de ferro, a conformidade, militáncia e sacrifício da personalidade
para os interesses do partido --e Lenin desenvolvera efectivamente umha elite
de intelectuais, um centro que, quando fosse arrojado na revoluçom, haveria de
tomar a direcçom e assumir o poder--. "Nom
tem utilidade tentar", dizia Rühle, "determinar lógica e abstractamente se este tipo de preparaçom para a
revoluçom é correcta ou incorrecta... Primeiro devem formular-se outras
questons; que tipo de revoluçom está em preparaçom? E qual era a meta da
revoluçom?". El respostou mostrando que o partido de Lenin actuava
dentro da revoluçom burguesa tardia
de Rússia para derrocar o régime feudal do zarismo. O que poderia considerar-se
como umha soluçom para os problemas revolucionários numha revoluçom burguesa nom pode, sem embargo, considerar-se ao mesmo
tempo como umha soluçom para a revoluçom
proletária. As diferências estruturais decisivas entre a sociedade
capitalista e a sociedade socialista excluem tal atitude. De acordo co método
revolucionário de Lenin, os dirigentes aparecem como a cabeça das massas.
"Esta distinçom entre a cabeça e o
corpo", sinalou Rühle, "entre
os intelectuais e os obreiros, entre oficiais e soldados rasos, corresponde à
dualidade da sociedade de classes. Umha classe é educada para governar; a outra
para ser governada. A organizaçom de Lenin é só umha réplica da sociedade
burguesa. A sua revoluçom está objectivamente determinada polas forças que
criam umha orde social que incorpora estas relaçons de classe, sem ter em conta
as metas subjectivas que acompanham este processo."
Seguramente, quem queira ter umha orde burguesa encontrará no divórcio
do dirigente e as massas, a vanguarda e a classe obreira, a preparaçom
estratégica correcta para a revoluçom. Em quanto à aspiraçom de dirigir a
revoluçom burguesa em Rússia o partido de Lenin era altamente apropriado. Sem
embargo, quando a Revoluçom russa mostrou
os seus rasgos proletários, os métodos tácticos e estratégicos de Lenin
deixaram de ser válidos. O seu éxito nom se devia à sua vanguarda, senom ao
movimento dos soviets que nom tinha
sido incorporado em absoluto aos seus planos revolucionários. E quando Lenin,
depóis de que a revoluçom triunfante tivese sido realizada polos soviets, prescidiu deste movimento,
tamém prescindiu de todo o que era proletário
na revoluçom. O carácter burguês da
revoluçom fixo-se patente de novo, e co tempo encontrou a sua culminaçom (completion) "natural" no
estalinismo.
Lenin, dizia Rühle, pensava segundo normas rígidas, mecánicas, a pesar
da sua preocupaçom pola dialéctica marxiana. Só havia um partido para el --o
seu próprio--; só umha revoluçom --a russa--; só um método --o bolchevique--.
"A aplicaçom monótona dumha fórmula
umha vez descoberta move num cículo egocéntrico imperturbável polo tempo e as
circunstáncias, graos de desenvolvimento, padrons culturais, ideas e homes. Em
Lenin via à luz com grande claridade a dominaçom da idade da maquinária na
política; el era o "técnico", o "inventor" da revoluçom.
Todas as características fundamentais do fascismo estavam na sua doctrina, na
sua estratégia, no sua "planificaçom social" e na sua arte de tratar
coas persoas... Nunca apreendeu a conhecer os pre-requisitos para a libertaçom
dos obreiros; nom se preocupava da falsa consciência das massas e da sua
auto-alienaçom humana. Todo o problema era para el nem mais nem menos que um
problema de poder". O bolchevismo como representante dumha política
militante de poder nom difire das formas tradicionais de mando. O mando serve
como o grande exemplo de organizaçom. O bolchevismo é umha ditadura, umha
doctrina nacionalista, um sistema autoritário cumha estrutura social
capitalista. A sua "planificaçom" concerne a questons
técnico-organizativas, nom socio-económicas. É revolucionário só dentro do
marco do desenvolvimento capitalista, establecendo nom o socialismo senom o
capitalismo de Estado. Representa a fase actual do capitalismo e nom um
primeiro passo cara umha nova sociedade.
VI
Os soviets rusos e os conselhos de obreiros e soldados alemáns
representavam o elemento proletário nas revoluçons rusa e alemá. Em ambas
naçons estes movimentos foram pronto suprimidos por meios militares e
judiciais. O que permaneceu dos soviets russos depóis do firme
entrincheiramento da ditadura do partido bolchevique fora simplesmente a versom
russa da posterior frente obreira nazi. O movimento de conselhos alemám,
legalizado, convertiu-se num apêndice do sindicalismo e cedo num instrumento da
dominaçom capitalista. Incluso os conselhos de 1918, formados espontáneamente,
estavam --na sua maioria-- longe de ser revolucionarios. A sua forma de organizaçom, baseada nas
necessidades da classe e nom nos diversos interesses especiais resultantes da
divisom capitalista do trabalho, era todo o que era radical neles. Mas quaisquer que fossem as suas limitaçons, deve
dizer-se que nom havia nada mais em que basear as esperanças revolucionárias.
Ainda que freqüêntemente se volveram contra a Esquerda, todavia se esperava que
as necessidades objectivas deste movimento o levasem inevitávelmente ao
conflito cos poderes tradicionais. Esta
forma de organizaçom devia ser preservada no seu carácter original e construída
na preparaçom para as luitas vindeiras.
Pensando em termos dumha continuaçom da Revoluçom alemá, a
'ultra-esquerda' estava comprometida numha luita até o final contra os
sindicatos e contra os partidos parlamentares existentes; em resumo, contra
todas as formas de oportunismo e de compromisso [entre as classes]. Pensando em
termos da probabilidade dumha co-existência cos velhos poderes capitalistas, os
bolcheviques russos nom podiam concebir umha política sem compromissos. Os argumentos
de Lenin em defesa da posiçom bolchevique respeito dos sindicatos, o
parlamentarismo e o oportunismo em geral elevavam as necessidades particulares
do bolchevismo a falsos princípios revolucionários. Isto nom faria ainda por
mostrar o carácter ilógico dos argumentos bolcheviques, pois tam ilógicos como
eram os argumentos dum ponto de vista revolucionário, emanavam de forma lógica
do peculiar papel dos bolcheviques dentro da emancipaçom capitalista russa e da
política internacional bolchevique que defendia os interesses nacionais de
Rússia.
Que os princípios de Lenin eram falsos dum ponto de vista proletário,
tanto em Rússia como em Europa occidental, o demonstrara Otto Rühle nos
diversos folhetos e numerossos artigos
no periódico da Uniom Geral Obreira e
na revista de esquerda de Franz Pfempert, Die
Aktion (A acçom). Expuso a estratagema implícita em dar-lhes a estes
princípios umha apariência lógica, engano que consistia em citar umha
experiência específica dum periodo dado baixo circunstáncias particulares para
deduzir dela conclusons de aplicaçom imediata e geral. Porque os sindicatos
tinham sido umha vez de algum valor, porque o parlamento tinha servido umha vez
às necessidades da propaganda revolucionária, porque ocasionalmente o oportunismo
tinha produzido certos benefícios para os obreiros, eles seguiam sendo para
Lenin os meios mais importantes da política proletária de todos os tempos e
baixo quaisquer circunstáncias. E por se todo isto nom convencera ao
adversário, Lenin era aficionado a sinalar que, fossem ou nom fossem estas as
políticas e organizaçons correctas, era um facto que os obreiros se aderiam a
elas e que o revolucionário deve estar sempre onde estám as massas.
Esta estratégia emanava do modo de Lenin de abordar a política. Parecia
que nunca entraria na sua mente que as massas tamém estavam nas fábricas e que
as organizaçons revolucionárias de fábrica nom podiam perder contacto coas
massas incluso se o tentavam. Parecia que nunca se lhe ocorrera que, coa mesma
lógica que devia manter aos revolucionários nas organizaçons reaccionárias,
podia demandar a sua presência na igreja, nas organizaçons fascistas, ou onde
queira que puideram encontrar-se as massas. Isto último, de seguro se lhe
ocorreria, faria xurdir a necessidade de unir-se abertamente coas forças da
reacçom, tal como acontenceu posteriormente baixo o régime estalinista.
Para Lenin estava claro que para os propósitos do bolchevismo as Organizaçons de Conselhos eram as menos
adecuadas. Nom só hai pouco espaço nas organizaçons
de fábrica para revolucionários profissionais, senom que a experiência
russa mostrara como de difízil era "manejar" um movimento de soviets.
Em qualquer caso, os bolcheviques nom tinham intençom de esperar por
oportunidades de intervençom revolucionária nos processos políticos; estavam
activamente comprometidos na política quotidiana e interessados em resultados
imediatos ao seu favor. Para influenciar ao movimento obreiro ocidental com
vistas em controla-lo no futuro, era muito mais fázil para eles entrar dentro
das organizaçons existentes e tratar com elas. Nas disputas competitivas
empreendidas entre estas organizaçons e dentro delas eles viram umha ocasiom
para ganhar de forma rápida umha posiçom na que establecer-se. Que se tenta-se
construir enteiramente novas organizaçons opostas a todas as existentes teria
só resultados tardios --se é que algum--. Estando no poder em Rússia, os
bolcheviques já nom podiam entregar-se a políticas a longo praço; para manter o
seu poder tinham que percorrer todas as avenidas da política, nom só as
revolucionárias. Deve dizer-se, nom obstante, que aparte de que estivessem
forçados a actuar assí, os bolcheviques estavam mais que dispostos a participar
nos muitos jogos políticos que acompanham ao processo de exploraçom
capitalista. Para poder participar necessitavam sindicatos, parlamentos e
partidos e tamém defensores capitalistas, que fixeram do oportunismo tanto umha
necessidade como um prazer.
Já nom hai necessidade de apontar às muitas "más acçons" do
bolchevismo na Alemanha e ao longo do mundo. Na teoria e na prática, o régime
estalinista manifesta-se como um poder capitalista, imperialista, oponhendo-se
nom só à revoluçom proletária, senom incluso às reformas fascistas do
capitalismo. E actualmente favorece o mantenimento da democracia burguesa co
propósito de utilizar mais plenamente a sua própria estrutura fascista. Justo
como Alemanha estava mui pouco interessada no espalhamento do fascismo por
acima das suas fronteiras e das fronteiras dos seus aliados, dado que nom tinha
intençom de fortalecer aos seus competidores imperialistas, assí a preocupaçom
de Rússia por salvaguardar a democracia em todas partes salva dentro dela o seu
próprio território. A sua amizade coa democracia burguesa é umha amizade
verdadeira; o fascismo nom é um artigo para a exportaçom, posto que cessa de
ser umha avantage tam pronto como se geraliza. A pesar do pacto Stalin-Hitler,
nom hai maiores "anti-fascistas" que os bolcheviques em nome do seu
próprio fascismo natal. Só em tanto seja alcançada a sua expansom imperialista,
se hai algumha, serám culpáveis de apoio consciente à tendência fascista
geral.
Esta tendência fascista geral nom provém do bolchevismo, senom que o
incorpora. Provém das leis peculiares de desenvolvimento da economia
capitalista. Se Rússia finalmente se convirte num membro "decente" da
família de naçons capitalistas, as "indecências" da sua mocidade
fascista serám tomadas nuns tremestres por um pasado revolucionário. A oposiçom
ao estalinismo, sem embargo, a menos que inclua a oposiçom ao leninismo e ao
bolchevismo de 1917, nom é nengumha oposiçom senom só umha disputa entre
competidores políticos. Mentres que o mito
do bolchevismo é todavia defendido contra a realidade estalinista, Otto
Rühle trabalha em amossar que o estalinismo de hoje é simplesmente o leninismo
de onte, que ainda é de importáncia contemporánea, e tanto mais quando podam
efectuar-se tentativas de recuperar o
pasado bolchevique nos alçamentos sociais do futuro. Toda a história do
bolchevismo poderia ser anticipada por Rühle e o movimento de 'ultra-esquerda',
devido ao seu cedo reconhecimento do verdadeiro conteúdo da revoluçom
bolchevique e do verdadeiro carácter do velho movimento social-demócrata.
Depóis de 1920 todas as actividades do bolchevismo só poderiam ser perjudiciais
para os obreiros de todo o mundo. Nom eram possíveis acçons comuns coas suas
distintas organizaçons durante mais tempo, nem se tentava nengumha.
VII
Junto cos grupos de 'ultra-esquerda' em Dresde, Frankfurt do Main, e
outros lugares, Otto Rühle foi um passo por diante do anti-bolchevismo do KAPD
e os seus aderentes na AAUD. Pensava que a história dos partidos
social-demócratas e das práticas dos partidos bolcheviques demonstrava
suficientemente que era inútil tentar reempraçar os partidos reaccionários com
partidos revolucionários, pola razom de que a mesma forma-partido de organizaçom
tinha-se volto inútil e incluso perigosa. Já em 1920 proclamava que "a revoluçom nom é um assunto de partido",
e demandava a destruiçom de todos os partidos em favor do movimento de
conselhos. Trabalhando principalmente dentro da Uniom Geral Obreira, agitou
contra a necessidade dum partido político especial até que esta organizaçom se
dividiu em duas. Umha seiçom, a Uniom Geral
Obreira - Organizaçom unitária (Allgemeine Arbeiter Union -
Einheitsorganisation), compartia as perspectivas de Rühle; a outra permanecia
como a "organizaçom económica" do KAPD. A organizaçom representada
por Rühle inclinou-se cara os movimentos sindicalista e anarquista sem, nom
obstante, abandoar a sua compreensom marxiana do mundo (Marxian Weltanschauung, Cosmovisom marxiana). A outra seiçom
[AAUD-KAPD] considerava-se a si própria como a herdeira de todo o que tinha
sido revolucionário no movimento marxiano do pasado. Tentou criar umha IV
Internacional, mas só tivo éxito efectuando umha estreita cooperaçom com grupos
similares nuns quantos países europeus.
Em opinom de Rühle, umha revoluçom proletária só era possível coa
participaçom consciente e activa das amplas massas proletárias. Isto presupunha
novamente umha forma de organizaçom
que nom puidera ser controlada desde acima, senom que estivesse determinada
pola vontade dos seus membros. A organizaçom
de fábrica e a estrutura da Uniom Geral Obreira previriam, pensava
el, um divórcio entre os interesses da organizaçom e os interesses da classe;
previriam a emergência dumha poderossa burocracia que se servira da organizaçom
em lugar de servi-la. Preparariam, por último, aos obreiros para tomar as indústrias
e geri-las de acordo coas suas próprias necessidades e, deste modo, previriam o
xurdimento de novos estados de exploraçom.
O KAPD compartia estas ideas gerais e as suas próprias organizaçons de
fábrica eram difízilmente discerníveis das que concordavam com Rühle. Mas o
partido mantinha que, nesta fase do desenvolvimento, a organizaçom de fábrica soa nom podia garantir umha política
revolucionária nitidamente definida. Todo tipo de persoas entraria nestas
organizaçons, nom haveria método para umha seleiçom apropriada, e trabalhadores
políticamente subdesenvolvidos poderiam determinar o carácter das organizaçons,
que nom seriam assí capazes de cumprir cos requerimentos revolucionários
actuais. Este ponto quedara bem demonstrado polo carácter relativamente
atrasado do movimento de conselhos de 1918. O KAPD sustinha que os
revolucionários com adestramento marxiano, com consciência de classe, ainda que
pertenceram a organizaçons de fábrica deviam, ao mesmo tempo, associar-se num
partido separado para salvaguardar e desenvolver a teoria revolucionária e, por
assí dizer, vigiar as organizaçons de fábrica para impedir que se
descaminhasem.
O KAPD veu na posiçom de Rühle um tipo de deceiçom que buscava refúgio
numha nova forma de utopismo. Mantivo
que Rühle simplesmente geralizava as experiências dos velhos partidos e
insistia em que o carácter revolucionário
da sua organizaçom era o resultado da sua própria
forma partido. Rejeitava os princípios centralistas do leninismo, mas
insistia sobre conservar pequeno o partido, de modo que estaria livre de todo
oportunismo. Havia outros argumentos que apoiavam a idea do partido. Alguns
referidos a problemas internacionais, alguns vinculados às questons da
ilegalidade, mas todos os argumentos fracassavam em convencer a Rühle e aos
seus seguidores. Eles viam no partido a perpetuaçom do princípio lider-massas,
a contradiçom entre partido e classe, e temiam umha repetiçom do bolchevismo na
Esquerda alemá.
Nengum dos dous grupos poderia
demonstrar a sua teoria. A história passou-nos a ambos por alto; estavam
discutindo no valeiro. Nem o KAPD nem as duas AAUD superaram a sua condiçom (status of being) de sectas de
'ultra-esquerda'. Os seus problemas internos volveram-se totalmente artificiais, posto que, efectivamente (actually), nom havia diferência entre o
KAPD e a AAUD. A pesar das suas teorias, os seguidores de Rühle nom funcionavam
tampouco nas fábricas. Ambas Unions entregavam-se às mesmas actividades. Por
isso todas as divergências teóricas nom tinham umha significaçom prática.
Estas organizaçons --os remanentes da tentativa proletária de jogar um
papel nos alçamentos de 1918-- tentavam aplicar as suas experiências num
desenvolvimento que se movia consistentemente na direcçom oposta de aquela na que estas experiências se originaram. Únicamente
o Partido Comunista, em virtude do controlo russo, poderia crescer realmente
dentro desta tendência cara o fascismo. Mas representando ao fascismo
russo, nom ao fascismo alemám, tamém tinha que sucumbir ante o emergente
movimento Nazi que, reconhecendo e aceitando as tendências capitalistas
predominantes, herdou finalmente o velho movimento obreiro na sua integridade.
Depóis de 1923 o movimento alemám de 'ultra-esquerda' deixou de ser um
factor político sério no movimento obreiro alemám. A sua última tentativa de
forçar a tendência ao desenvolvimento na sua direcçom dissipou-se na efêmera
actividade de Março de 1921(VI) baixo a popular direcçom de Max
Hoelz. Os seus membros mais militantes, sendo forçados à ilegalidade,
introduziram métodos de conspiraçom e expropriaçom no movimento, acelerando em
conseqüência a sua desintegraçom. Ainda que organizativamente os grupos de
'ultra-esquerda' continuaram existindo até o início da ditadura de Hitler, as
suas funçons estavam restringidas às de clubs de discussom que tentavam
entender os seus próprios fracassos e o da Revoluçom alemá.
VIII
O declive do movimento de 'ultra-esquerda', os cámbios na Rússia e na
composiçom dos partidos bolcheviques, o ascenso do fascismo em Itália e
Alemanha, restauraram a velha relaçom entre a economia e a política que fora
perturbada durante, e brevemente depóis, da I Guerra Mundial. Em todo o mundo o
capitalismo estava agora suficientemente estabilizado para determinar a tendência
política principal. O fascismo e o bolchevismo, produtos de condiçons críticas,
eram --como a crise mesma-- tamém
meios para umha nova prosperidade, para umha nova expansom do capital e a
reassunçom das luitas competitivas imperialistas. Mas justo como umha crise superior aparece como a crise final para
aqueles que mais sofrem, assí os cámbios políticos que a acompanhavam apareciam
como expressons do derrube do capitalismo. Mas a grande brecha entre a
apariência e a realidade transforma, mais cedo ou mais tarde, um optimismo
exagerado num pessimismo exagerado no que respeita às possibilidades
revolucionárias. Dous caminhos, logo, permanecem abertos para o revolucionário:
pode capitular aos processos políticos
dominantes, ou pode retirar-se a umha
vida de contemplaçom e esperar o giro dos acontecimentos.
Até o colapso final do movimento obreiro alemám, a retirada da
'ultra-esquerda' parecia ser um retorno
ao trabalho teórico. As organizaçons
existiam na forma de publicaçons semanais e mensuais, folhetos e livros. As publicaçons afiançavam às organizaçons e as
organizaçons as publicaçons. Mentres as
organizaçons de massas serviam a pequenas minorias capitalistas, a massa dos
obreiros estava representada por indivíduos. A contradiçom entre as teorias
da 'ultra-esquerda' e as condiçons prevalecentes volveu-se insuportável. Quanto mais pensava um em termos
colectivos, mais isolado se encontrava. O capitalismo, na sua forma
fascista, aparecia como o único colectivismo real, e o anti-fascismo como umha
volta a um individualismo burguês prematuro. A mediocridade do home
capitalista, e portanto o revolucionário baixo condiçons capitalistas, fixo-se
dolorosamente evidente dentro das pequenas organizaçons em estancamento. Mais e
mais gente, partindo da premissa de que as "condiçons objectivas"
estavam maduras para a revoluçom, explicava a sua ausência com tais
"factores subjectivos" como a falta de consciência de classe e a
falta de entendimento e carácter por parte dos obreiros. Estas mesmas carências,
nom obstante, tinham de novo que explicar-se por "condiçons
objectivas", posto que as limitaçons do proletariado resultavam
induvitávelmente da sua posiçom específica dentro das relaçons sociais do
capitalismo. A necessidade da restricçom
da actividade ao trabalho educativo convertiu-se numha virtude: o
desenvolvimento da consciência de classe dos obreiros era considerado como a
mais essencial das tarefas revolucionárias. Mas a velha crença
social-demócrata de que "o conhecimento é poder" já nom convencia por
mais tempo, posto que nom hai relaçom directa entre o conhecimento e a sua
aplicaçom.
O derrube do capitalismo do laissez-faire
e a crescente dominaçom centralista (centralist control) sobre massas sempre
maiores através da produçom e a guerra capitalistas, incrementaram o interesse
intelectual nos campos antes descoidados da psicologia
e da sociologia. Estes ramos da
"ciência" burguesa serviam para explicar o desconcerto dessa parte da
burguesia que tinha sido despraçada por competidores mais poderossos, e dessa
parte da pequena-burguesia reduzida aos níveis proletários de existência
durante a depressom. Nas suas fases prematuras, o processo de concentraçom
capitalista da riqueza e o poder fora acompanhado polo crescimento absoluto das
capas burguesas da sociedade. Depóis da guerra a situaçom cambiou; a depressom
europea golpeu tanto à burguesia como ao proletariado, e geralmente destruiu a
confiança no sistema e nos indivíduos mesmos. A psicologia e a sociologia, sem
embargo, nom eram só expresons do desconcerto e a insegurança burgueses senom
que, simultáneamente, serviam à necessidade dumha determinaçom mais directa do comportamento das massas e da dominaçom
ideológica (ideological control)
da que tinha sido necessária baixo condiçons menos centralistas. Aqueles que
perderam poder nas luitas políticas que acompanhavam à concentraçom de capital,
assí como aqueles que ganhavam poder, ofreziam explicaçons psicológicas e
sociológicas para os seus completos fracassos e os seus éxitos. O que para umha
era a "violaçom das massas", para a outra era umha visom recém
adquirida --para ser sistematizada e incorporada na ciência da exploraçom e da
dominaçom-- dos procesos sociais.
Baixo a divisom capitalista do trabalho, o mantenimento e a extensom das
ideologias predominantes é a ocupaçom das capas intelectuais da burguesia e da
pequena-burguesia. Esta divisom do trabalho está, por suposto, mais determinada
polas condiçons de classe existentes que polas necessidades produtivas da
complexa sociedade. O que sabemos,
sabemo-lo por meio da produçom capitalista de conhecimento. Mas, como nom
hai outra, a aproximaçom proletária a todo o que é produzido pola ciência e a
pseudo-ciência burguesas deve ser sempre crítica. Fazer que este conhecimento
sirva a outros propostos que os capitalistas significa purifica-lo de todos os
elementos no seu interior que estejam relacionados coa estrutura de classe
capitalista. Seria falso, senom impossível, rejeitar a venda ao por maior de
todo o que é produzido pola ciência burguesa. Contudo, só pode ser abordado
escépticamente. A crítica proletária --de
novo a causa da divisom capitalista do trabalho-- é bastante limitada. Só
tem verdadeira (real) importáncia
onde o conhecimento burguês trata de relaçons
sociais. Aquí as suas teorias podem verificar-se no que respeita à sua
validez e à sua significaçom para as distintas classes e para a sociedade em
conjunto. Xurde, entom, coa moda da psicologia e a sociologia, a necessidade de
examinar os novos descobrimentos nestes campos do ponto de vista crítico da
supressom das classes.
Era inevitável que a moda da psicologia penetra-se no movimento obreiro.
Mas a completa decadência deste movimento revelou-se, umha vez mais, pola sua
tentativa de utilizar as novas teorias da psicologia e a sociologia burguesas
para umha investigaçom crítica das suas próprias teorias, em lugar de usar a
teoria marxiana para criticar a nova pseudo-ciência burguesa. Trás desta
atitude estava a desconfiança crescente no marxismo devido aos fracassos das
revoluçons alemá e russa. Trás ela tamém estava a incapacidade para ir além de Marx num sentido marxiano, umha incapacidade que vinha à
luz claramente polo facto de que todo o que parecia novo na sociologia burguesa
tinha sido tomado em primeiro lugar de Marx. Desgraciadamente do nosso ponto de
vista, Otto Rühle fora um dos primeiros em vestir as ideas mais populares de
Marx coa nova linguage da sociologia e a psicologia burguesas. Nas suas maos a
conceiçom materialista da história convertia-se agora em "sociologia"
quando tratava da sociedade, e em "psicologia" quando tratava do
indivíduo. Os princípios desta teoria serviriam tanto à análise da sociedade
como à análise das complexidades psicológicas dos seus indivíduos. Na sua
biografia de Marx, Rühle aplicava o seu novo conceito psico-sociológico do
marxismo, que únicamente poderia ajudar a apoiar a tendência cara a
incorporaçom dum marxismo castrado dentro da ideologia capitalista.
Este tipo de "materialismo histórico", que buscava as razons
dos "complexos de inferioridade e de
superioridade" nos domínios intermináveis da biologia, a antropologia,
a sociologia, a economia e assí em adiante, para descobrer um tipo de "equilibrio de poder dos complexos por meio
de compensaçons" que poderia considerar-se como o ajuste apropriado
entre o indivíduo e a sociedade, este tipo de marxismo nom podia server a
nengumha das necessidades práticas dos obreiros, nem poderia ajudar na sua
educaçom. Esta parte da actividade de Rühle, se um a evalua positiva ou
negativamente, tem pouco, senom nada, que ver cos problemas que acossavam ao
proletariado alemám. Por conseguinte, é desnecessário tratar aquí da obra
psicológica de Rühle. O mencionamos, nom obstante, pola dupla razom de que pode
server como umha ilustraçom adicional da desesperaçom geral do revolucionário
no periodo da contra-revoluçom, e como umha manifestaçom engadida da
sinceridade do revolucionário, Rühle, dentro das condiçons de desesperaçom.
Pois nesta fase da sua actividade literária, como em qualquer outra que tratara
com questons pedagógico-psicológicas, histórico-culturais ou
económico-políticas, tamém se pronuncia claramente contra as condiçons inumanas
do capitalismo, contra as possíveis novas formas de escravitude física e
mental, e por umha sociedade que se adecue a umha humanidade livre.
IX
O triunfo do fascismo alemám acabou co longo periodo de desalento
revolucionário, desilusom e desesperança. Todo se volveu extremadamente claro
de seguida; o futuro imediato estava perfilado em toda a sua brutalidade. O
movimento obreiro demonstrara por última vez que a crítica dirigida contra el
polos revolucionários estava mais que justificada. A luita da 'ultra-esquerda'
contra o movimento obreiro oficial demonstrou ter sido a única luita coerente
contra o capitalismo que se empreendia desde fazia muito tempo.
O triunfo do fascismo alemám, que nom era um fenómeno isolado, senom que
estava intimamente relacionado co prévio desenvolvimento de todo o mundo
capitalista, nom causou, senom que simplesmente ajudou a iniciar, um novo conflito
mundial dos poderes imperialistas. Os dias de 1914 retornaram. Mas nom para
Alemanha. Os dirigentes obreiros alemáns estavam privados da "perícia na
mudança" ("moving
experience") de declarar-se, umha vez mais, os mais auténticos filhos
da pátria. Organizar-se para a guerra significava instituir o totalitarismo, e
isto significava que muitos interesses especiais tinham que ser eliminados, o
qual, baixo as condiçons da República de Weimar e dentro do marco do
imperialismo mundial, só era possível pola via das luitas internas. A
"resistência" do movimento obreiro alemám ao fascismo, indiferente
nos inícios, nom deve, sem embargo, ser confundida coa resistência à guerra. No
caso da social-democracia e dos sindicatos nom era umha resistência, senom
simplesmente umha abdicaçom acompanhada por protestas verbais para salvar a
cara. E incluso isto veu só como conseqüência da negativa de Hitler de
incorporar estas instituiçons, na sua forma tradicional e cos seus dirigentes
"experimentados", ao esquema fascista das cousas. Tampouco foi a
resistência por parte do Partido Comunista umha resistência à guerra e ao
fascismo como tais, senom só em tanto que estavam directamente contra Rússia.
Se às organizaçons obreiras oficiais na Alemanha se lhes impedia pôr-se ao lado
da sua burguesia, noutras naçons fixeram-no sem deliberaçom e sem luita.
Por segunda vez na sua vida, o exilado Otto Rühle tivo que dedicir por que lado tomar parte na nova batalha
mundial. Esta vez parecia algo mais difízil, porque o consistente totalitarismo
de Hitler estava desenhado para impedir umha repetiçom dos dias vacilantes do
liberalismo durante a última guerra mundial. Esta situaçom permitiu que a II
Guerra Mundial fosse mascarada como umha luita entre a democracia e o fascismo,
e proporcionou aos social-chauvinistas melhores excussas. Os dirigentes
obreiros exilados, ao passo das organizaçons obreiras dos seus países
adoptivos, podiam todavia apontar às diferências políticas entre as duas formas
do sistema capitalista, ainda que fossem incapazes de negar a natureza
capitalista das suas novas pátrias. A teoria
do mal menor serviu para fazer plausível a razom pola que as democracias
deveriam defender-se contra a maior extensom do fascismo. Rühle, sem embargo,
mantivo a sua velha posiçom de 1914. Para el o inimigo "ainda estava em casa", tanto nas democracias como nos Estados fascistas.
O proletariado nom podia, ou mais bem nom deveria, estar ao lado de qualquer
deles, senom opôr-se a ambos com igual veemência. Rühle sinalava que todos os argumentos
políticos, ideológicos, raciais e psicológicos, ofrezidos em defesa dumha
posiçom a favor da guerra, nom podiam encobrer realmente a razom capitalista da
guerra: a luita por benefícios entre os
competidores imperialistas. Em cartas e artigos reiterou todas as
implicaçons das leis do desenvolvimento capitalista tal como as establecera
Marx, para combater o sem-sentido do "anti-fascismo" popular que só
podia acelerar o processo de fascistizaçom do capitalismo mundial.
Para Rühle o fascismo e o
capitalismo de Estado nom eram as invençons de políticos viciosos, senom o
resultado do processo capitalista de concentraçom e centralizaçom no que a
acumulaçom de capital se manifesta. A relaçom de classe na produçom
capitalista é acossada por múltiples contradiçons insolúveis. A contradiçom
principal, observava Rühle, descansa no facto de que a acumulaçom de capital
significa tamém a tendência a um descenso da taxa de ganho. Esta tendência pode
ser combatida só meiante umha acumulaçom mais rápida de capital --o que implica
um incremento da exploraçom--. Mas, a pesar do facto de que a exploraçom se
incremente em relaçom à taxa de acumulaçom necessária para evitar as crises e
as depressons, os benefícios continuam mostrando umha tendência à caida.
Durante as depressons o capital reorganiza-se para permitir um novo periodo de
expansom do capital. Se, nacionalmente, a crise implica a destruiçom do capital
mais débil e da concentraçom de capital polos meios de negócio ordinários,
internacionalmente a reorganizaçom demanda finalmente a guerra. Isto significa
a destruiçom das naçons capitalistas mais débiles em favor dos imperialismos
vitoriosos, para produzir umha nova expansom do capital e a sua concentraçom e
centralizaçom mais ampla. Cada crise
capitalista --nesta fase da acumulaçom do capital-- envolve ao mundo; do mesmo modo que cada guerra é de seguida umha
guerra mundial. Nom as naçons particulares, senom o conjunto do capitalismo
mundial é o responsável da guerra e da crise. Este, observava Rühle, é o inimigo
e está em todas partes.
É seguro que Rühle nom duvidava que o totalitarismo era peor para os
obreiros que a democracia burguesa. Combatera contra o totalitarismo russo
desde os seus inícios. Estivera combatendo ao fascismo alemám, mas nom poderia
luitar em nome da democracia burguesa porque sabia que as peculiares leis do desenvolvimento da produçom capitalista
transformariam, mais cedo ou mais tarde, a democracia burguesa em fascismo e capitalismo de Estado. Combater
o totalitarismo significa opór-se ao capitalismo baixo todas as suas
formas. O "capitalismo privado", escrevia, "e com el a democracia, que está tentando salva-lo, estám obsoletos e
seguem o caminho de todas as cousas mortais. O capitalismo de Estado --e com el
o fascismo, que pavimenta o caminho para el--, estám a crescer e adquirindo
poder. O velho foi-se para sempre, e nengum exorcismo funciona contra o novo.
Nom importa como duramente podamos tentar reviver a democracia, todos os
esforços serám inúteis. Todas as esperanças numha vitória da democracia sobre o
fascismo som grosseiras ilusons, toda crença no retorno da democracia como
forma de governo capitalista tenhem únicamente o valor da traiçom astuta e do
auto-engano covarde... É o infortúnio do proletariado que as suas obsoletas
organizaçons, baseadas numha táctica oportunista, o deixem indefeso frente ao
assalto do fascismo. Tem perdido assí a sua própria posiçom política no corpo
político actual, e deixado de ser um factor histórico-criativo na época
presente. Tem sido varrido ao estercoleiro da história, e apodrecerá ao lado da
democracia tanto como ao lado do fascismo, posto que a democracia de hoje será
o fascismo de manhá."
X
Ainda que Otto Rühle afrontou a II Guerra Mundial dum modo tam
intransigente como tinha afrontado a primeira, a sua atitude respeito do
movimento obreiro era diferente da de 1914. Esta vez nom poderia ajudar a que
fose certo que "nengumha esperança
poderia brotar dos restos misseráveis do velho movimento nas naçons todavia
democráticas para o alçamento final do proletariado e a sua libertaçom
histórica. Ainda menos poderia esperar-se que brotara dos fragmentos raidos
daquelas tradiçons de partido que foram espalhadas e divulgadas na emigraçom
mundial, nem das noçons estereotipadas das revoluçons pasadas, sem ter em conta
se um cre nas bendiçons da violência ou na transiçom pacífica".
Todavia nom olhava desesperadamente ao futuro. Sentia-se seguro de que novos
apremios e novos impulsos animarám às massas e as forçarám a fazer a sua
própria história.
As razons desta confiança eram as mesmas que aquelas que convenceram a
Rühle da inevitabilidade do desenvolvimento capitalista cara o fascismo e o
capitalismo de Estado. Estavam baseadas nas contradiçons insolúveis inerentes
ao modo capitalista de produçom. Assí como a reorganizaçom do capital durante a
crise é simultáneamente umha preparaçom de crises maiores, assí a guerra só
pode engendrar guerras mais grandes e mais devastadoras. A anarquia capitalista
só pode volver-se mais caótica, nom importa quanto podam tentar ponher orde
nela os seus defensores. Partes sempre maiores do mundo capitalista serám
destruídas para que os grupos capitalistas mais fortes podam continuar
acumulando. As misérias das massas do mundo amontoaram-se até que se alcance um
ponto de ruptura e novas sublevaçons sociais destruam o assassino sistema de
produçom capitalista.
Rühle era tam pouco capaz como qualquer outro na sua época de formular
meiante que meios específicos seria vencido (overcome) o fascismo. Mas via acertado que as mecánicas e dinámicas
da revoluçom sufririam cámbios fundamentais. Na auto-expropriaçom e
proletarizaçom da burguesia pola II Guerra Mundial, na superaçom do
nacionalismo meiante a aboliçom dos pequenos Estados, na política capitalista
de Estado baseada em federaçons de Estados, el via nom só o aspecto
imediatamente negativo, senom tamém os aspectos positivos que proporcionavam
novos pontos de partida para as acçons anti-capitalistas. Até o dia da sua
morte tivo a certeza de que o conceito de classe estava ligado a extender-se
até que fomenta-se um interesse maioritário no socialismo. Buscava que a luita
de classe se transforma-se dumha categoria ideológico-abstracta
numha categoria económica-positiva-prática.
E preveu o alçamento de novos Conselhos
Obreiros dentro do despregue da democracia obreira como umha reacçom ao
terror burocrático. Para el, o movimento
obreiro nom estava morto, senom que tinha ainda que nascer nas luitas sociais
do futuro.
Se Rühle, finalmente, nom tinha nada mais que ofrezer que a
"esperança" de que o futuro resolverá os problemas que o velho
movimento obreiro fracassou em resolver, esta esperança nom brotava da fe,
senom do conhecimento, conhecimento que consistia no reconhecimento das
tendências sociais actuais. Nom proporcionava umha clave acerca de como lograr
a necessária transformaçom social. Reivindicava, nom obstante, a dissociaçom das actividades inútiles e das
organizaçons sem esperança. Reivindicava o reconhecimento das razons que
conduziram à desintegraçom do velho movimento obreiro e umha busca dos
elementos que apontavam às limitaçons dos sistemas totalitários predominantes.
Exigia umha distinçom mais marcada entre ideologia e realidade para descobrer
nesta última os factores que escapavam ao controlo dos organizadores
totalitários. Se se necessita pouco ou muito para transformar a sociedade
sempre se descobre únicamente depóis desse facto. Mas o equilibrio da balança
da sociedade é delicado, e é particularmente sensível na actualidade. As formas mais poderossas de controlo sobre
as persoas som realmente débiles quando se comparam coas tremendas contradiçons
que desgarram o mundo actual. Otto Rühle tinha razom em sinalar que as
actividades que inclinarám finalmente a balança da sociedade em favor do
socialismo nom serám descobertas através dos meios e métodos vinculados às
actividades prévias e às organizaçons tradicionais. Devem ser descobertos dentro das relaçons sociais cambiantes que
estám todavia determinadas pola contradiçom entre as relaçons capitalistas de produçom e a direcçom na que se estam a
mover as forças produtivas da
sociedade. Descobrer essas relaçons,
isto é, reconhecer a revoluçom vindeira
nas realidades de hoje, será a ocupaçom daqueles que continuem no espírito de
Otto Rühle.
Paul Mattick - Boston 1960