A Gestão Operária
I
Segundo a teoria
socialista, o desenvolvimento do capitalismo provoca a polarização da sociedade
numa pequena minoria de possuidores de capital e numa vasta maioria de
assalariados e, consequentemente, o gradual desaparecimento das classes médias
- artesãos independentes, pequenos camponeeses, pequenos comerciantes, todos
proprietários. No contexto da sociedade industria moderna, esta crescente
concentração da propriedade dos meios de produção e da riqueza social
apresenta-se como uma espécie de reincarnação do sistema feudal. Devido ao
facto de possuírem e gerirem os recursos produtivos e, portanto, assumirem a
direcção dos negócios, um pequeno numero de homens dispõe soberanamente da
sorte da sociedade. É claro que as decisões que tomam são simultaneamente
ditadas pelo poder impessoal do mercado e pelas necessidades imperiosas da
acumulação do capital, mas não deixa de ser verdade que o privilegio de fazerem
face a estas reacções irreprimíveis da economia lhes pertence única e
exclusivamente.
Com base nas relações
capital trabalho, que caracterizam a ordem estabelecida, os produtores estão
privados de toda a autoridade directa sobre a produção e sobre os produtos do
seu trabalho. É evidente que as lutas a cabo com vista a uma melhoria da
situação, ao modificarem a relação salário-lucro e por isso, o curso ou o ritmo
da expansão do capital, podem permitir-lhes em determinados momentos o
exercício de um poder indirecto. Mas, regra geral, é o capitalista que
determina as condições de produção e os trabalhadores têm que se inclinar
perante elas para assegurarem a sua subsistência, em virtude de apenas
possuírem a venda da sua força de trabalho como meio de existência. É claro que
o operário é "livre" de não consentir na sua própria exploração, mas
isso só significa que é livre de morrer de fome, eis tudo. E isto já se sabia
muito tempo antes do aparecimento do movimento socialista. Desde 1767 que Simon
Linguet constatava ser o trabalho assalariado uma forma de escravatura ou pior
ainda. "É a impossibilidade de poderem viver de outro modo - escrevia ele
- que obriga os nossos trabalhadores a cavvarem a terra da qual não comerão os
frutos e os nossos pedreiros a erguerem edifícios onde jamais habitarão. É a
miséria que os arrasta até aos mercados onde aguardam senhores dispostos à
graça de os comprarem. É ela que os ajoelha junto dos ricos para obterem a
permissão de os enriquecerem"(1). A propósito de "operário
manual" Linguet exclamava: "Qual o ganho efectivo que a supressão da
escravatura lhe trouxe? (...) É livre! - dizeis vós. Mas é essa a sua
infelicidade! (...) O escravo era precioso ao seu senhor em razão do dinheiro
que lhe custara. Mas o operário nada ao rico voluptuoso que o ocupa"(2). E
conclui, ainda a propósito dos mesmos operários: "Estes, diz-se, não
possuem dono. Ora isto é um simples abuso de palavras. O que quer isto dizer?
Que têm um dono e o mais imperioso de todos: a necessidade. Esta obriga-os à
mais cruel dependência"(3).
Dois séculos após estas
linhas terem sido escritas nada do essencial mudou. Se os trabalhadores dos
países avançados são obrigados a suportar as leis do capital e a obedecer aos
capitalistas, não é de modo algum por devoção mas tão só por serem
assalariados; não dispondo de meios de produção, continuam a formar uma classe
dirigida, incapaz de forjar o seu próprio destino.
Desde sempre os socialistas
perfilharam como objectivo a alcançar a abolição do salariato e portanto o fim
do capitalismo. O movimento operário nascido no decurso da segunda metade do
último século incumbiu-se de realizar esta transformação social por intermédio
da socialização dos meios de produção. Tratava-se de substituir um modo de
produção baseado na procura do lucro por um outro que tendesse a satisfazer as
necessidades e aspirações dos produtores associados. À economia do mercado
sucederia assim uma economia planificada. A partir de então a existência dos
homens e o desenvolvimento da sociedade deixariam de ser regidos pela expansão
e contracção do capital, elevado à categoria de fetiche, mas pelas decisões
colectivas dos produtores, tomadas com conhecimento de causa, no quadro duma
sociedade sem classes.
Produto da sociedade
burguesa, o movimento operário encontrava-se fatalmente submetido às vicissitudes
do desenvolvimento capitalista. Consequentemente, os seus traços distintivos
variam em função da conjuntura e das suas flutuações. Quando numa determinada
época, em certa região, esta conjuntura não é favorável à aparição de uma
consciência de classe, o movimento ou não se desenvolve ou desaparece mesmo
completamente. Em tempo de prosperidade tende a transformar-se e acaba por
passar das posições revolucionárias ao reformismo. Em tempo de crise social
corre o risco de ser aniquilado pela repressão que as classes dirigentes lançam
contra ele.
As organizações operárias
constituem parte integrantes da estrutura geral da sociedade. É-lhes portanto
impossível ser anti-capitalista de um modo sistemático e intransigente, salvo
no plano ideológico. Só mostrando-se oportunistas poderão vir a adquirir uma
importância real no seio do sistema capitalista, quer dizer, aproveitando-se de
certos processos sociais para realizarem os seus objectivos próprios mas até
hoje limitados.
A formação, necessariamente
lenta, de poderosas organizações, que reuniriam os elementos revolucionários,
com vista a uma intervenção no momento propício, parece de excluir. Só as
organizações que de modo algum procuram transformar as relações fundamentais
têm a possibilidade de crescer e prosperar. Se alguma vez se apoiaram, no
começo, numa ideologia revolucionária, o seu desenvolvimento provoca entre essa
ideologia e a função que elas realmente desempenham um afastamento crescente.
Opostas ao statu quo mas organizadas no seio dele,
estas formações estão, ao fim e ao cabo, condenadas a deixarem-se integrar no
sistema capitalista na própria proporção do seu sucesso.
No fim do século, as
organizações tradicionais - partidos e sindicatos operários - tinham abandonado
a via revolucionária. Apenas uma pequena corrente de esquerda se mantinha no
seu seio ligada às posições radicais. Lenine e Rosa Luxemburgo lançaram-se num
combate doutrinal contra o evolucionismo reformista e oportunista, daí em
diante característico das organizações existentes, e por um retorno à prática
revolucionária. Enquanto o primeiro pretendia alcançar esse resultado por meio
de um partido de tipo novo, estritamente submetido a um Comité Central, Rosa
Luxemburgo punha a tónica na autodeterminação do proletariado, quer em geral quer
no interior das organizações socialistas, e atribuía como condição primeira
para esse retorno a eliminação da burocracia e a intervenção directa da base.
Como os partidos existentes
haviam feito do marxismo a sua ideologia, algumas das tendências opostas à sua
política tomaram igualmente posição contra as versões reformistas e
revisionistas das teorias de Marx. Georges Sorel(4) e os seus sindicatos
revolucionários, pelo seu lado, diziam-se convencidos não só da capacidade de
emancipação do proletariado sem o auxilio da "intelligentsia", mas
ainda preconizavam que aquele se devia desembaraçar dos elementos
pequeno-burgueses que habitualmente dirigiam as organizações operárias. Os
sindicalistas revolucionários opunham-se ao parlamentarismo e, segundo Georges
Sorel, a entrada dos socialistas no governo em nada viria modificar a condição
dos trabalhadores. Estes só conquistariam a liberdade agindo por e para si
mesmos. A indústria capitalista, afirmava Sorel, organizara já o proletariado
no seu conjunto, tudo quanto faltava era abolir o Estado e a propriedade
privada. E para isso ser-lhe-ia necessário possuir a certeza, em todo o caso
intuitiva, de que a revolução e o socialismo seriam o termo inevitável de todas
as lutas, muito mais do que um conhecimento pretensamente científico das leis
fatais do movimento social. Nesta perspectiva a greve aparecia como o grande
meio de aprendizagem. E aumentando as greves em número, em amplitude e tempo,
abrir-se-ia então a possibilidade de uma greve
geral, isto é, de uma revolução social eminente.
Em muitos aspectos o
sindicalismo revolucionário francês e as tendências a que deu origem, o socialismo de guilda em Inglaterra e
os Industrial Workerers of the World nos
Estados Unidos, constituíram reacções à burocratização cada vez maior do
movimento socialista assim como à sua política de colaboração de classes.
Igualmente os sindicatos se viam atacados devido à sua estrutura centralista e
à propriedade atribuída às reivindicações corporativas em detrimento dos
interesses de classe do proletariado. Mas todas as organizações - reformistas
ou revolucionárias, centralistas ou federalistas - se inclinavam para
considerarem o respectivo desenvolvimento e actividades do dia-a-dia como
factores essenciais da transformação social. Quanto à social-democracia, via a
progressiva realização do socialismo no crescimento dos efectivos e do aparelho
do partido, nos progressos eleitorais e numa maior participação na vida
pública. Por seu lado, os I.W.W. eram de opinião que o desenvolvimento da sua
organização e a passagem ao estádio de "grande sindicato único"(One
Big Union) significariam ipso facto "a
formação da sociedade nova no seio da antiga"(5).
Todavia aquando da primeira
revolução do séc. XX, foi a massa de trabalhadores não organizada que
determinou o carácter do movimento e engendrou a sua própria forma de
organização: os conselhos operários. Os conselhos russos, ou sovietes, da
revolução de 1905 surgiram no contexto de uma vaga de greves espontâneas,
quando a necessidade impôs a constituição de comités encarregados de
coordenarem a acção e capazes de representarem os grevistas junto do patronato
e autoridades czaristas. Tratava-se de greves espontâneas no sentido em que,
longe de haverem rebentado sob a ordem de formações políticas ou sindicatos,
foram desencadeadas por operários não organizados que apenas possuíam o local
de trabalho como base de organização possível. Nesse tempo os partidos
políticos não exerciam, na verdade, uma influência digna deste nome sobre a
massa dos trabalhadores russos e os sindicatos apenas existiam em estado
embrionário. Trotsky deixou-nos esta excelente definição do Soviete de 1905:
"O Conselho dos Deputados Operários foi criado para responder a uma
necessidade objectiva, suscitada pela conjuntura da época: faltava uma
organização que usufruísse de uma autoridade indiscutível, livre de qualquer
tradição, que agrupasse imediatamente as multidões disseminadas e desprovidas
de qualquer ligação. Esta organização tinha que ser um complemento para todas
as correntes revolucionárias no interior do proletariado; teria de ser capaz de
iniciativa e vigilância eficazes. O essencial, enfim, era poder faze-la actuar
em menos de vinte e quatro horas"(6). E Trotsky faria mais tarde esta
distinção: enquanto os partidos revolucionários são "formações no interior do proletariado" o
"Soviete torna-se imediatamente a própria organização do proletariado"(7).
É claro que a revolução de
1905 foi na sua essência uma revolução burguesa: usufruiu do apoio das classes
médias liberais que procuravam a queda do absolutismo czarista e contavam com
uma assembleia constituinte que fizesse evoluir a Rússia no sentido do ideal
que perfilhavam: as condições predominantes nos países mais desenvolvidos. Na
medida em que os operários em greve se preocupavam com política, adoptaram em
grande parte o programa da burguesia liberal. Tal era igualmente o caso de
todas as organizações socialistas que admitiam a necessidade de uma revolução
burguesa como condição obrigatória para a formação de um movimento operário
vigoroso e uma revolução proletária que se desenvolveria mais tarde, quando a
situação estivesse suficientemente apta para isso.
O esmagamento da revolução
russa provocou a liquidação do sistema dos sovietes, mas este viria a
reaparecer, mais poderoso do que nunca, aquando da revolução de 1917.
Organismos análogos aos sovietes russos e inesperados no seu exemplo surgiram
"espontaneamente" no momento da revolução alemã em 1918 e igualmente
- embora com menor amplitude - durante as graves convulsões sociais que então
sacudiram a Inglaterra, a França, a Itália e a Hungria. Viu-se assim aparecer
uma forma de organização capaz de dirigir e coordenar a acção autónoma das
massas, quer com objectivos restritos quer com fins revolucionários. Consoante as
suas opções, os novos organismos ora agiam de fora, ao lado, ou ainda contra as
formações tradicionais. O que é importante acentuar é que o sistema de
conselhos demonstrou que as actividades espontâneas das massas não estão
fatalmente condenadas a soçobrar na incoerência mas podem, em caso de vitória,
conduzir a um tipo de organização estruturada, mesmo que provisória.
A revolução russa de 1905
comunicou um novo vigor às oposições de esquerda que se manifestavam no seio
dos partidos socialistas do Ocidente, que viriam no entanto a acentuar mais o
caracter espontâneo das greves de massa do que a forma de organização
escolhida. Aparecendo a revolução como uma possibilidade real, foi a atracção
reformista que sofreu um primeiro golpe. No que diz respeito ao Ocidente, a
Esquerda afirmava que daí em diante a revolução seria puramente proletária e
nunca mais democrática burguesa. Contudo, mesmo segundo esta óptica, não se
chegou ao ponto de concluir da experiência russa e dos seus ensinamentos
positivos a necessidade de uma renúncia aos métodos parlamentares, tanto do
agrado dos partidos reunidos na Segunda Internacional.
II
A perspectiva de um
renascimento da prática revolucionária no Ocidente não deveria no entanto
tardar a mostrar-se ilusória. Os "revisionistas" não eram os únicos a
professar, segundo a fórmula do seu chefe de fila, Bernstein, que "o
movimento é tudo, o objectivo nada". Igualmente os chamados marxistas
ortodoxos julgavam que a revolução social não era desejável nem necessária. Embora
se afirmassem fiéis ao velho ideal - a abolição do salariato - pretendiam porém
realizá-lo pouco a pouco, fazendo uso dos meios legais que as instituições
democráticas lhes ofereciam. No final de tudo, quando a massa dos eleitores se
houvesse pronunciado a favor de um governo socialista, bastariam alguns
decretos vindos de cima para instaurar a nova sociedade. Enquanto o aguardavam,
a acção sindical e a legislação social permitiam também ao principio da
concorrência generalizada que regia da parte que lhes cabia no progresso.
Os sofrimentos e as
misérias inerentes ao capitalismo do "laissez-faire"
não provocaram somente a criação de um movimento socialista, mas levaram também
os trabalhadores a tentar uma melhoria de vida por meios não políticos. Entre
estes últimos figuravam, além das diversas formações sindicais, as cooperativas
operárias através das quais se esperava - mas em vão - escapar não só à
condição assalariada como também ao princípio da concorrência generalizada que
regia a sociedade burguesa. Este movimento originou-se a partir de pequenas
colectividades comunistas surgidas em França, Inglaterra e América e que se
inspiravam nas ideias dos socialistas utópicos, Owen e Fourier especialmente.
As cooperativas de produção
eram associações fundadas sobre o principio da adesão voluntária e gestão
autónoma. Algumas delas constituíram-se fora do movimento operário, outras em
ligação com ele. Após a colocação em comum dos recursos, os seus membros
estavam automaticamente - pensava-se - à altura de se regerem por si próprios e
produzirem sem intervenção de capitalistas. O que simplesmente significava uma
abstracção das condições gerais e das tendências evolutivas da sociedade
capitalista, a quais logo de inicio viriam a conferir àquelas organizações um
mero papel marginal. Na verdade, o desenvolvimento capitalista tem por base a
concentração e a centralização do capital sob o estimulo da concorrência: os
capitais mais importantes devoram os mais pequenos. Assim, as sociedades
cooperativas apenas se poderiam constituir nas pequenas indústrias, que não
necessitavam de grande capital. E acentuando-se o domínio do capitalismo sem
cessar sobre todos os sectores da indústria, estas cooperativas em breve vieram
a perder toda a capacidade de enfrentar a concorrência, e desapareceram do
circuito de produção. As cooperativas de consumo tiveram mais êxito e algumas
de entre elas absorveram mesmo cooperativas de produção com vista ao seu
aprovisionamento. De qualquer modo não se podem considerar como ensaios de
gestão operária, mesmo nos casos em que a sua criação correspondeu ao
coroamento de aspirações da classe trabalhadora. Quando muito, vieram permitir
alguma influencia sobre a maneira de dispor dos salários - visto que os
trabalhadores correm o perigo de serem roubados duas vezes no local de produção
e no local de consumo. Os custos de circulação das mercadorias representam
falsos-custos Inevitáveis da produção e estão na origem da divisão dos
capitalistas em comerciantes e empresários. Uns e outros procuram realizar um
máximo de lucro na sua própria esfera de acção e existe confronto de interesses
entre ambos os grupos. Os empresários não vêem portanto nenhum inconveniente na
existência de cooperativas de consumo. Em geral esforçam-se mesmo por porem
termo à separação entre capital produtivo e capital comercial, pela combinação
das respectivas funções no seio de sociedades encarregadas de operações de
produção e venda.
Finalmente absorvido pelo
sistema, o movimento cooperativo constituiu em larga medida um elemento do
desenvolvimento capitalista. Os próprios economistas burgueses viram nele um
factor de conservação social, dado que encorajava a poupança junto das
categorias mais pobres da população, estimulava a actividade pela criação de
estabelecimentos de crédito mútuo, melhorava os rendimentos agrícolas graças à
produção cooperativa e à organização das vendas e levava ainda a classe
operária a interessar-se pela esfera do consumo, em detrimento da produção. Na
sua qualidade de instituições funcionando segundo as normas capitalistas, as
cooperativas operárias conheceram um verdadeiro desenvolvimento e acabaram por
se tornar numa forma de empresa como as outras, baseadas na exploração da
mão-de-obra e opondo-se aos trabalhadores quando estes se punham em greve a fim
de obterem melhoria de salários e condições de trabalho. Contrariamente ao
cepticismo, ou mesmo à oposição categórica, tomada primeiramente face às
cooperativas de consumo o movimento operário reformista concedeu-lhe de seguida
um decidido apoio que apenas era mais uma manifestação do seu carácter cada vez
mais «capitalista». Na Rússia, no entanto, a rede muito espalhada destas
cooperativas viria a fornecer aos bolcheviques um sistema de distribuição que
não tardariam em converter em administração estatal.
De certo modo, a divisão do
movimento «colectivista» em cooperativas de consumo e cooperativas de produção
reflectia o antagonismo existente entre o sindicalismo revolucionário e os
partidos socialistas. As primeiras reuniam todas as classes sociais e visavam
todo o género de clientela. Tão pouco hesitavam em pronunciar-se por uma
centralização à escala nacional ou mesmo internacional. Em contrapartida, as
segundas possuíam um mercado tão restrito como a sua produção e não se podiam
integrar, com vista à formação de unidades mais importantes, sem perderem as
possibilidades de autogestão que constituíam afinal a sua razão de ser.
Sindicalistas
revolucionários e socialistas diferiam antes de mais pela ideia que tinham
respectivamente do controle exercido pelos operários sobre a produção e sobre o
produto do seu trabalho. Na medida em que os socialistas ainda se preocupavam
com este problema, resolviam-no a seu modo, dando prioridade ao conceito de
nacionalização, segundo o qual o Estado, promovido a gerente dos recursos produtivos,
ficaria encarregado da organização da vida económica no seu conjunto, quer no
plano da produção quer no da distribuição. Seria somente num estado de
desenvolvimento mais avançado que este sistema daria lugar ao desaparecimento
do Estado e à livre associação dos produtores socializados.
Quanto aos sindicalistas
revolucionários. temiam que o Estado, possuindo então o domínio sobre tudo, se
viesse a perpetuar e a impedir a livre disposição dos trabalhadores. Essa a
razão porque pretendiam uma sociedade em que cada sector da indústria fosse
gerido por aqueles que nele trabalhassem. Todas estas associações de produção
unir-se-iam para a formação de federações nacionais cujos organismos, longe de
serem dotados de prerrogativas governamentais, só cumpririam funções
estatísticas e administrativas. Nesta base, um sistema de produção e
distribuição autenticamente colectivista poderia finalmente desenvolver-se. O
sindicalismo revolucionário adquiriu importância em Espanha, na Itália e na
França. Igualmente influiu em todos os países capitalistas por vezes assumiu
uma forma modificada, como já o observamos a propósito dos I.W.W~ e do Guild Socialism. Por pôr a tónica na
acção directa e numa actividade decididamente militante, o sindicalismo
revolucionário separava-se do socialismo parlamentarista e do sindicalismo
tradicional no que dizia respeito não só ao objectivo final mas também à luta
de classe quotidiana.
Ainda que a questão do
objectivo final não tivesse um interesse imediato, não deixava porém de influenciar
o comportamento das partes em questão. A rápida burocratização dos partidos
socialistas e dos sindicatos, ambos centralizados, viria a privar cada vez mais
os operários da sua capacidade de iniciativa e a submete-los a dirigentes
beneficiando da condições de vida e trabalho totalmente diferentes. Ao mesmo
tempo que os sindicatos rompiam os seus laços de outrora com o movimento
socialista, degeneravam em business unionism, em «sindicalismo de regateio»,
assumindo daí em diante as únicas funções de negociadores de convenções
colectivas e, se possível, a de monopolizadores de contrato. Quanto ao
sindicalismo revolucionário, se sofreu uma burocratização infinitamente menor,
não foi só devido ao facto de ser o mais fraco numericamente entre as duas
correntes que constituíam o movimento operário, mas porque o princípio da
autogestão operária não deixou igualmente à influir nos seus métodos de luta
quotidiana.
Dado que num sistema
capitalista os trabalhadores estão; por definição, privados de todo o poder
efectivo no seio da sociedade, falar de gestão operária num tal contexto apenas
pode significar uma coisa: que as organizações operárias sejam dirigidas pelos
próprios operários. Ora, depreende-se da integração destas organizações no
sistema, tornadas «propriedade» de uma burocracia e grande meio da sua
existência e reprodução, que a única forma concebível de gestão operária
directa desaparece. É claro que isso não vem impedir os operários de se
continuarem a bater pelo aumento de salários, pela redução do horário de
trabalho e pela melhoria das condições em que este se realiza. Mas esta luta em
nada altera a facto de os operários não possuírem a menor possibilidade de
dirigirem as suas próprias organizações. É portanto abusivo pretender que estas
lutas sejam uma forma de gestão operária, na medida em que não tendem para a
autodeterminação da classe trabalhadora mas tão só procuram aligeirar a sua
situação no contexto do capitalismo. E este desanuviamento tem como condição
obrigatória uma elevação da produtividade do trabalho, a qual deve ser mais
rápida do que o ritmo de aumento dos níveis de vida operários.
Os capitalistas continuam a
exercer uma autoridade total quer sobre as condições de trabalho quer sobre a
parte da produção geradora de mais-valia. Quando os operários alcançam uma
diminuição do horário de trabalho, de modo algum estão a reduzir a quantidade
de sobretrabalho açambarcado pelos capitalistas. Na verdade, o capitalistas
dispõe de dois métodos para extrair sobretrabalho: ou alargando a duração do trabalho,
ou encurtando, graças às inovações em matéria de técnica ou organização de
trabalho, o tempo exigido para a produção do equivalente da massa salarial.
Como é imprescindível que o capital ofereça uma determinada taxa de lucro, os
capitalistas pararão a produção a partir do momento em que esta taxa ameace
decrescer. Estreitamente submetidos à necessidade de acumular capital, vêem-se
simultaneamente constrangidos a agir de um modo tal que permita aos operários
produzirem a soma de sobretrabalho indispensável à alimentação do processo de acumulação. O capitalista tenta obter o máximo de
lucro, mas, por diversas razões, entre as quais a resistência oferecida pelos trabalhadores à exploração suscitada
pela procura de um lucro óptimo, corre o perigo de só extrair o mínimo. Porém,
enquanto se situar no terreno do capitalismo, a resistência operaria não pode
esperar resultados melhores do que estes. Se os operários acabaram por perder
toda a autoridade no seio das suas organizações, a causa disso foi, é evidente,
a sua complacência face ao sistema capitalista. Organizados ou não, os
trabalhadores tomaram partido pela economia de mercado que se revelava capaz de
Ihes melhorar a condição e ainda prometia à medida que progredisse. Numa
situação não revolucionária deste género, os partidos socialistas reformistas e
os sindicatos de estrutura centralizada constituíam
o tipo de organização eficaz. E, por outro lado, a burguesia lúcida via no businesse unionism o meio ideal de fazer
reinar a paz social graças à conclusão de convenções colectivas. Deixando face
directamente operários, os capitalistas tinham daí em diante pela frente os
seus representantes, cuja existência estava
ligada à das relações capital-trabalho, Ou seja, à perpetuação da ordem
capitalista...
Paul Mattick (1969)