Paul Mattick
O marxismo e a nova física
(1960)
De «Comunismo anti-bolchevique», Merlin Press, 1978. Traduzido do original em inglês.
O conflito entre o Leste e o Oeste, ainda que involucra diferentes ideologias, tem pouco que ver com conceptos diferentes da realidade física. As ideologias difirem por que difirem os interesses materiais e sociais; a «realidade física» é, por outro lado, completamente a mesma para todos os combatintes. Contudo, em ambos campos a luita ideológica é levada às ciências naturais -no Leste, na forma dumha defesa de retaguarda do materialismo dialéctico; no Oeste, na asserçom de que o materialismo dialéctico é «a verdadeira raiz do conflito entre Leste e Oeste, porque el é a base da crença fanática dos marxistas de que o mundo está destinado a caer nas suas maos espontánea e inevitávelmente» (1).
Ambas partes insistem, por suposto, em que as suas interpretaçons científicas do mundo externo estám livres de toda carga ideológica. Mentres que para os científicos e filósofos do Leste o conjunto da física moderna semelha verificar o materialismo dialéctico, para aqueles do Oeste o marxismo aparece completamente antiqüado, devido a que a idea do determinismo tem desaparecido. O mesmo termo «materialismo» é rejeitado como pertencente ao século passado. Durante a vida de Marx, sinala-se, «nada se sabia da física relativista e atómica de hoje; a matéria era, nessa época, o que os nossos sentidos transmitiam; a mediçom física tratava coas propriedades das cousas perceptíveis polos sentidos» (2), o que nom é já acertado.
Marx, por suposto, tinha só a ciência natural do seu período à sua disposiçom; mas os cámbios na ciência desde entom nom afetam às suas teorias. Marx nom acunhou o termo materialismo dialéctico, senom que usou a palavra material para designar as condiçons básicas e primárias de toda a existência humana. A dialéctica de Hegel constituira meramente o ponto de partida da crítica de Marx da sociedade capitalista. Esta fora importante para Marx a causa do «enorme sentido histórico sobre o que fora fundada», e porque «dissolve todas as concepçons dumha verdade final, absoluta, e dum estado final, absoluto, da humanidade correspondente a aquela» (3).
O materialismo que Marx encontrara nom era histórico, e a dialéctica entom em voga nom era materialista. Ponhendo a Feuerbach contra Hegel e a Hegel contra Feuerbach, Marx desenvolveu o seu próprio concepto de desenvolvimento social, para o qual Friedrich Engels acunhou o termo materialismo histórico. Esta concepçom materialista da história nom provinha do «determinismo físico derivado da mecánica newtoniana» (4); ao contrário, desenvolveu-se, por meio da dialéctica, em oposiçom directa ao materialismo baseado na mecánica newtoniana. Excluiu a idea de que a história humana fosse determinada por «leis naturais» situadas por acima, tanto mecánicas como dialécticas. Ainda que reconhecendo as interrelaçons entre os homes, a sociedade e a natureza, consistia, primeiro de tudo, numha teoria dos homes e da sociedade.
Embora, desafortunadamente, o persuasivo poder do materialismo histórico ou dialéctico -como veu a ser conhecido- foi o suficientemente grande para arrebatar incluso a Engels, que falou da sua validez universal. Mentres alguns críticos tolerantes encontraram isto simplesmente entretido (5), os que tinham menos boa disposiçom usaram este excesso de zelo como escusa para rejeitar o conjunto do marxismo justamente como umha raridade do misticismo alemám. Mas, namentres, a noçom da «universalidade» do processo dialéctico nom é defendível, nem é essencial para o marxismo, o qual nom perde nada da sua força omitindo-a. Marx, de qualquer modo, nom se preocupou da «dialéctica da natureza». Nom obstante, nom som as ideas de Marx, senom o «marxismo», como ideologia do ascendente movimiento obreiro europeu e dos autoproclamados Estados «socialistas» do bloco de poder oriental, o que nutre ao anti-marxismo ocidental. E é por esta razom que a luita entre o Leste «marxista» e o Oeste «anti-marxista», ainda que real, nom nos di nada sobre a validez ou invalidez do marxismo para a nossa época.
O marxismo como ideologia
O mundo pre-capitalista estava agitado pola questom da primacia do espírito ou da natureza. «Aqueles que afirmavam a primacia do espírito sobre a natureza compreendiam o campo do idealismo. Os outros, que consideravam a natureza como primária, pertenciam às diversas escolas do materialismo» (6). Em oposiçom tanto às condiçons como às ideologias religiosas do passado feudal, a classe meia revolucionária era materialista. Considerava a natureza como a realidade objetivamente dada, e o home como determinado por leis naturais. As ciências naturais tinham que explicar a sua vida e acçons e, coa funçom do seu cerebro, as suas sensaçons e consciência. Libertada das superstiçons religiosas, a ciência dedicou-se ao descubrimento das leis naturais, e a mecánica newtoniana serveu como base para a crescente convicçom de que todos os fenómenos naturais seguiam regras causais definidas.
O materialismo da classe meia radical perdeu a sua urgência ideológica co establecimento da burguesia como classe dominante. A emancipaçom da ciência natural da teologia nom podía extender-se à emancipaçom da sociedade da religiom. Como Napoleom o expressou: «Em quanto a mim me concerne, a religiom nom é o mistério da criaçom senom o mistério da sociedade. A religiom vincula a idea da igualdade co céu e impede assi a massacre do rico polo pobre. A sociedade depende da desigualdade de ingressos, e a desigualdade de ingressos da existência da religiom.» (7). A coexistência de ciência e religiom no difízil mundo burguês encontrou suporte ideológico nas interpretaçons idealistas dos resultados posteriores do desenvolvimento científico.
Os materialistas temporáns, ou os filósofos naturalistas (Francis Bacon e Thomas Hobbes), estavam convencidos de que através da experiência dos sentidos, e através das actividades intelectuais derivadas dela, seria possível conquistar um conhecimento absolutamente válido do mundo externo. Este optimismo esvaeceu-se com John Locke, que considerou este conhecimento limitado pola mesma intervençom das ideas. El somentes o pensou válido na medida em que as ideas estavam efectivamente em conformidade coas cousas. Apesar das sensaçons e as ideas relacionadas co mundo externo, este mesmo mundo nom podia ser realmente conhecido. Immanuel Kant aceitou a proposiçom de que as realidades últimas (a cousa em-si) nom som cognoscíveis, e que o conhecimento empírico restringe-se às formas subjetivas nas que o home fai-se consciente do mundo objetivo. Fora por esta razom que el considerara a necessidade de conceptos apriorísticos, os quais traeriam orde à experiência e fariam-na inteligível. Os conceptos de tempo, espaço e causalidade eram invençons da mente humana e, ainda que nom verificáveis empíricamente, eram nom obstante necessários para a ciência, a filosofia e a actividade humana efetiva. Na sua estrutura essencial, o mundo era, entom, o produto da idea. E justo como a teoria materialista do conhecimento se convertira para muitos materialistas na teoria materialista da realidade, assí para muitos idealistas a teoria idealista do conhecimento convertira-se na teoria idealista da realidade.
Numha tentativa de levar a representaçom materialista do mundo objetivo ao processo de conhecimento mesmo, Ernst Mach opuxo-se tanto ao novo idealismo como ao velho materialismo. El insistiu em «que nós nom podemos construir as propriedades da natureza com a ajuda de suposiçons autoevidentes, senom que estas suposiçons devem ser tomadas da experiência» (8). Mas, umha vez que todo conhecimento procede das sensaçons e nom pode ir além das sensaçons, este nom pode fazer declaraçons sobre a realidade objetiva; pode meramente encher os ocos da experiência meiante as ideas que a experiência sugire. Ainda que el se opuxera ao ponto de vista kantiano, tamém rejeitou o materialismo mecanicista e considerou o seu mundo objetivo de matéria, espaço, tempo e causalidade como concepçons artificais. O empirismo crítico de Mach apoiou, ainda que nom intencionadamente, umha tendência idealista ascendente na filosofia da ciência.
O «revisionismo» marxista, é dizer, o desenvolvimento exitoso de organizaçons obreiras dentro dos limites do capitalismo e a esperança, relacionada com aquilo, dumha transiçom puramente evolutiva do capitalismo ao socialismo, conduziu à perda dum ateismo militante mais temporám e a umha aceitaçom ambígüa da tendência idealista ascendente na forma do neo-kantismo. Os socialistas radicais começaram a defender o velho materialismo da burguesia revolucionária contra o novo idealismo da classe capitalista establecida e os seus aderentes no movimento obreiro. Para os socialistas russos isto pareceu de particular importáncia, dado que o movimento russo, ainda à beira da revoluçom burguesa, empreendera as suas luitas ideológicas em grande medida cos argumentos da burguesia revolucionária ocidental. A intelligentsia, amplamente procedente da classe meia, formara a ponta de lança do movimento e estava inclinada de modo completamente natural a adoptar o materialismo da classe meia ocidental para os seus próprios propósitos, isto é, para a tarefa de oposiçom à ideologia religiosa que dava suporte ao feudalismo zarista.
Devido a que, para Ernst Mach, a ciência tinha a sua orige nas necessidades da vida, as suas ideas tiveram umha certa atracçom para os socialistas. Alguns revolucionários russos, Bogdanov em particular, tentaram combina-las co marxismo. Eles ganharam algumha influência no Partido Socialista de Rússia e Lenin dispuxo-se a destruir esta influência co seu livro Materialismo e empiriocriticismo. O elemento subjetivo na teoria do conhecimento de Mach convirte-se, na mente de Lenin, numha aberraçom idealista e umha tentativa deliberada para reavivar o obscurantismo religioso. Era a insistência de Mach sobre o carácter derivado, abstracto, do concepto de matéria o que perturbava a Lenin particularmente, porque para el, como para os materialistas temporáns, o conhecimento era somentes o que reflicte a verdade objetiva; ou seja, a verdade sobre a matéria. El pensou que a reduçom da realidade objetiva à matéria era necessário para o reconhecimento incondicional da existência material da natureza fóra da mente.
A existência independente do mundo exterior nom era negada por Mach. El meramente apontava que o nosso conhecimento a este respeito está limitado porque se limita à experiência sensível. Mas Lenin encontrava «incondicionalmente certo que a toda teoria científica corresponde ali umha verdade objetiva, algo absolutamente assi na natureza» (9). Para el, o materialismo dialéctico tinha jà descuberto o que a natureza é e fai, se nom todavia completamente, em qualquer caso aproximadamente. «Do ponto de vista do moderno materialismo, ou marxismo -escreveu- os limites relativos da nossa aproximaçom a conhecimento da verdade absoluta objetiva estám históricamente condicionados; mas a existência desta verdade é incondicionada, tanto como o facto de que estamos continuamente aproximando-nos a ela.» (10). Co descubrimento da substáncia e o movimento do universo, todo o que quedava por fazer era proceder, em cada campo separado do conhecimento, de acordo cos princípios establecidos para a natureza como um todo. Um podia, entom, nom falhar em ter umha prática científica conforme coa realidade objetiva, justo como esta última estava destinada a mostrar-se em cada verdadeiro esforço científico. A dificuldade com isto é, claro, que é impossível aplicar o critério da prática à teoria do universo, por nom falar do facto de que ninguém conhece o que é a natureza como um todo.
Era deste modo como Lenin extendia o materialismo histórico ao materialismo dialéctico. A natureza tinha tido umha história e o seu padrom dialéctico de desenvolvimento fora progressivo, no sentido de que se tinha desenvolvido a partir do inorgánico, através do orgánico, a mente e a consciência. «A matéria nom é um produto da mente -escrevia Lenin- senom que a mente mesma é só o produto mais elevado da matéria» (11). O mundo era umha «massa material eternamente em movimento e desenvolvimento que reflicte umha consciência humana progressiva» (12). A história humana é um produto da história universal. Em certo sentido, isto é certo e se segue da admissom da existência do mundo exterior independente da existência humana. E está claro que a consciência pressupóm a existência do cerebro.
Mas é tamém certo, como Marx sinalava, que «a questom de se ao pensamento humano se lhe pode atribuir umha verdade objetiva nom é umha questom da teoria, senom umha questom prática. Na prática os homes devem provar a verdade, é dizer, a realidade e o poder, a terrenalidade do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou irrealidade do pensamento isolada da prática é umha questom puramente escolástica.» (13). As teorias atomistas dos antigos gregos, por exemplo, nom estavam baseadas em factos experimentais, senom que eram parte dumha filosofia cósmica especulativa e foram opostas e vencidas por outras escolas filosóficas sobre bases puramente filosóficas. Isto já nom pode repetir-se, pois a teoria atómica de hoje está baseada no experimento e no tratamento matemático, numha prática científica em resumo, capaz de verificar a validez da teoria. Nom foi a mera especulaçom, senom o trabalho de químicos e físicos, o que conduziu da teoria atómica à nuclear, à nova física e à nova filosofia associada a ela. Todo conhecimento real do mundo externo é o produto da actividade teórica e prática dos homes no mundo actual. Mas este conhecimento produzido polos homes nom pode nunca ser mais que um conhecimento produzido polos homes; nom é a verdade absoluta, é somentes a verdade sobre essa parte do universo actualmente acessível aos homes, sobre a que eles podem trabalhar e verificar as suas teorias. E como o seu conhecimento acumula-se co desenvolvimento histórico, leva à contínua modificaçom do conhecimento por meio do conhecimento adicional e, às vezes, a descartar teorias, feitas supérfluas polas teorias que fam referência aos novos descubrimentos.
O declínio do movimento obreiro ocidental radical, e o éxito do bolchevismo russo, troujeram com isso umha identificaçom quase completa da versom específicamente leninista do marxismo co marxismo propriamente dito. Devido a que a Revoluçom russa fora simultáneamente umha revoluçom "burguesa" e umha revoluçom "proletária" -no sentido de que as pre-condiçons para o socialismo estavam ausentes, mentres que o capitalismo liberal já nom era possível- ela conduzira a umha forma de capitalismo de Estado que podia ser designada como «socialismo» somentes porque era algo distinto do capitalismo da propriedade privada. Mas as funçons atribuidas à empresa privada e à competiçom eram agora as funçons do Estado bolchevique. Apropriando-se de parte do produto social e distribuindo os recursos produtivos para a construiçom dum aparelho produtivo mais amplo e umha produtividade mais elevada, os governantes bolcheviques convertiram-se em gestores do trabalho e do capital.
Mentres a «tranquilidade mental» capitalista e o necessário consentimento dos obreiros require algumha forma de acordo geral sobre a indispensabilidade do capital e da iniciativa privada, a nova situaçom russa precisava dumha ideologia diferente que puidesse fazer aparecer os interesses dos gestores e dos geridos como se fossem idénticos. O marxismo podia, dalgum modo, satisfazer esta necessidade, porque fora formulado durante a fase do capitalismo liberal. Pois já nom havia na Rússia capitalistas alguns no sentido tradicional; e no que respeita ao governo, este caracterizava-se a si mesmo como o executivo da dominaçom da classe obreira.
Mas dado que só os miseráveis estám inclinados a crer numha participaçom igual dumha situaçom miserável, a 'elite' bolchevique encontrou cedo que as diferenciaçons dos ingressos, servindo como incentivos para o maior esforço individual, podiam tornar-se numha bendiçom para todos. Co propósito de melhorar a vida de todos a longo praço, era necessário melhorar imediatamente a de alguns. Assi, umha nova classe veu à existência, baseada no controlo do aparelho estatal e nos meios de produçom nacionalizados. Para acelerar os desenvolvimentos produtivos, tanto os incentivos «positivos» de poder e ingresso como os incentivos «negativos» de trabalho forçado e terrorismo foram repetidamente melhorados. Contudo, quanto mais divergiam os interesses dos gestores e dos geriros, mais insistentemente a ideologia proclamava a sua identidade.
Baixo condiçons sociais relativamente estáveis, o controlo ideológico pode ser suficiente para assegurar o status quo social. Baixo tais condiçons, designadas como umha sociedade «livre» ou «democrática», a luita polas ideas acompanha aos conflitos sociais, e a sua estrutura de classe é simultaneamente negada e admitida. Tanto a existência como a nom existência de relaçons de classe, por exemplo, som incorporadas em conceptos tais como a «mobilidade social» e a «igualdade de oportunidades». O socialismo eliminaria estas ambigüidades, pois se nom hai classes nom hai modo de mover-se dumha classe a outra, e se nom hai privilégios, nom hai igualdade de oportunidades da que tomar parte. A sociedade russa, mentres esteja a sustentar a umha minoria privilegiada, aderirá-se necessariamente ao concepto de «igualdade de oportunidades», mas nom pode admitir a existência de relaçons de classe sem destruir a sua etiqueta socialista.
Incluso se, sem medo do utopismo, o socialismo marxiano nunca se fixo explícito, umha cousa estava clara ainda assi: o socialismo implica umha sociedade sem classes, nom explotadora, e nom meramente umha relaçom de classe modificada num capitalismo modificado. Na Rússia, a ideologia somentes pode reivindicar a ausência de relaçons de classe. Contudo, os governados nom podem evitar ser conscientes das condiçons existentes e da ausência de afinidade coa ideologia que prescreve o Estado. Esta ideologia nom pode server como um substituto do controlo físico directo, senom que é um aspecto do mesmo -um instrumento do poder policial-. A ausência obrigada de conflitos sociais nom encontra suporte, mas simplesmente expressom, na aparente unanimidade de ideas.
Foi em nome do marxismo e do socialismo que os bolcheviques chegaram ao poder, e no seu nome destruiram a todos os seus inimigos. Ainda as suas luitas internas por posiçons e influência dentro da jerarquia controladora deve expressar-se em termos marxianos -ou como umha aderência ou umha desviaçom sustentada da «ortodoxia», umha vez establecida-. A total desvinculaçom do socialismo marxiano respeito das condiçons russas fai impossível qualquer questionamento ou discussom séria da teoria marxiana. O «marxismo» dogmatizado de Lenin deve ser aceitado como um artigo de fé. Só deste modo pode ajustar-se às condiçons russas. E nom é só a utilizaçom por Lenin do materialismo da classe meia em defesa do «marxismo» o que indica o carácter semi-burguês, semi-proletário do bolchevismo e da própria Revoluçom russa. É tamém o concepto capitalista de Estado bolchevique do «socialismo», a atitude autoritária cara a organizaçom e a espontaneidade, o obsoleto e irrealizável princípio da autodeterminaçom nacional e, finalmente, a convicçom de Lenin de que só a intelligentsia da classe meia é capaz de desenvolver umha consciência revolucionária e está deste modo destinada a dirigir às massas. A combinaçom de materialismo burguês e marxismo revolucionário que caracterizou a temporá filosofia bolchevique reaparece co bolchevismo vitorioso como combinaçom de prática neo-capitalista e ideologia socialista (14).
Ciência e sociedade
«Na produçom social -escrevia Marx, ressumindo o seu materialismo- os homes entram em relaçons definidas que som indispensáveis e independentes da sua vontade; estas relaçons de produçom correspondem a umha fase definida do desenvolvimento das suas forças materiais de produçom. A soma total destas relaçons de produçom constitue a estrutura económica da sociedade -o fundamento real, sobre o qual se alçam as superestruturas legal e política e ao que correspondem formas definidas de consciência social-. O modo de produçom da vida material determina o carácter geral dos processos sociais, políticos e espirituais da vida. Nom é a consciência dos homes a que determina a sua existência, senom, polo contrário, a sua existência social determina a sua consciência." (15)
Marx nom se preocupou da dialéctica ou de qualquer outra lei absoluta da natureza, porque para el «a natureza fixada em isolamento dos homes, nom é nada para os homes» (16). El trata coa sociedade como um «agregado das relaçons nas que os produtores vivem com respeito à natureza e a si mesmos» (17). Ainda que a natureza existe independentemente dos homes, existe efetivamente para os homes somentes entanto pode ser sentida e compreendida. O processo de trabalho nas suas diversas formas, incluindo o trabalho científico, é a interacçom e o metabolismo entre os homes e a natureza; este domina, explota e altera a natureza, incluindo a natureza do home e a da sociedade. As «leis da natureza» nom se refirem à «realidade última», senom que som descripçons do comportamento e regularidades da natureza tal e como som percebidas polos homes. As percepçons cambiam co cámbio do conhecimento e co desenvolvimento social que afecta ao estado do conhecimento. Os conceptos da realidade física nom se refirem só à natureza e aos homes, senom tamém, indirectamente, à estrutura da sociedade e ao cámbio social e, por conseguinte, histórico. Ainda que relaçons sociais específicas, circunstritas a formas específicas da produçom social, podam encontrar reflexo ideológico na ciência e afetar às suas actividades em certa medida, a ciência, como o processo de produçom mesmo, é o resultado de todo o desenvolvimento social prévio e, a este respeito, é independente de qualquer estrutura social particular. Os conceptos da realidade física podem ser compartidos por sociedades estruturalmente diferentes. E justo como diferentes tecnologias podem evoluir dentro dumha estrutura social particular como, por exemplo, a actualmente denominada segunda revoluçom industrial, do mesmo modo um concepto da realidade física pode ser reempraçado por outro sem afetar às relaçons sociais existentes. Contudo, estes novos conceptos som ainda históricos em comparaçom cos conceptos mais temporáns da realidade física, associados com prévios e diferentes modos de produçom e relaçons sociais.
A ciência no sentido moderno, desenvolve-se simultaneamente coa indústria e o capitalismo modernos. A rapidez do desenvolvimento científico vai paralela ao inexorável revolucionamento do processo produtivo por meio da acumulaçom competitiva de capital. Hai umha evidente conexom entre a ciência, a sua aplicaçom tecnológica e as relaçons sociais predominantes. Ainda que a ciência moderna nom é só quantitativamente, mas tamém qualitativamente, diferente da ciência rudimentar do passado, é apesar disso continuaçom sua. Igualmente, a ciência e a tecnologia do hipotético futuro socialista -nom importa como cámbie- pode basear-se únicamente em todo o desenvolvimento científico e social prévio. Nom hai umha «ciência burguesa» para ser reempraçada por umha «ciência proletária». Contra o que se dirige a crítica marxista da ciência é a interpretaçom ideológica e a utilizaçom prática da ciência cum determinado carácter de classe, onde quer e sempre que viole as necessidades e o bem-estar da humanidade.
Ainda que a ciência se esforça na direcçom de algumha hipotética objetividade ideal, a aplicaçom da ciência está guiada por outras consideraçons. Como a utilizaçom de outros recursos produtivos e humanos, está subordinada aos requerimentos das relaçons de classe que convirtem o processo de produçom social em formaçom de capital. A utilizaçom da ciência para a prevalência dos princípios do benefício e do poder pode nom afetar à objetividade científica interna, mas afeta à direcçom da exploraçom científica. Devido a que nom hai «fim» para a ciência, e porque os seus campos de exploraçom som ilimitados, a ciência pode eleger concentrar-se sobre um ou outro. A énfase sobre um campo específico e umha direcçom particular depende das necessidades, estrutura e superestrutura dumha sociedade particular. Nos séculos dezaseis e dezasete havia umha conexom evidente entre a concentraçom na astronomia e o desenvolvimento do comércio mundial. Hai umha conexom evidente entre a énfase presente na física atómica e as actuais luitas militares imperialistas.
Nos valores marxistas, o home é a medida de todas as cousas e a ciência deve ser ciência para os homes. Como o socialismo implica o crescimento ulterior das forças sociais de produçom, tamém implica o da ciência. Pretende acrescentar ao princípio da objetividade científica o princípio da responsabilidade social. E justo como rejeita a acumulaçom fetichista de capital, tamém rejeita a «ciência pola ciência». Esta atitude fetichista para coa ciência, supostamente baseada numha inata necessidade humana de investigar a realidade última, realmente é só outra expressom da carência de socialidade da sociedade de classes e da feroz competiçom entre os científicos mesmos. A irresponsável, irracional e contra-producente falta de consideraçom pola humanidade por parte de muitos científicos hoje, que defendem o seu trabalho em nome da ciência ainda quando nom tem a miúdo mais propósitos que os destrutivos, é possível só numha sociedade que é capaz de subordinar a ciência às necessidades específicas da classe dominante. A humanizaçom da ciência pressupóm, nom obstante, a humanizaçom da sociedade. A ciência e o seu desenvolvimento é, deste modo, um problema social.
Materialismo e determinismo
O marxismo, nom sendo umha teoria do materialismo físico e nom estando ligado ao determinismo newtoniano, nom é afetado pola nova física e microfísica. É mais, Marx nom tinha modo de rejeitar nem desejo de rejeitar a física do século dezanove. O que distinguia o seu materialismo histórico do materialismo da classe meia era o seu rejeitamento da confrontaçom directa entre o home individual e a realidade exterior, formulada por esse último, e a sua incapacidade para ver a sociedade e o trabalho social como um aspecto indivisível do conjunto da realidade. O que unia o marxismo co materialismo da classe meia era a convicçom de que hai um mundo exterior independente dos homes e que a ciência contribue ao conhecimento desta realidade objetiva.
Mentres os marxistas aceitam a énfase positivista na experiência, rejeitam a noçom de que as sensaçons som a única fonte da experiência -noçom que conduzira a alguns à esterilidade autocontraditoria do solipsismo e a outros ao idealismo e à justificaçom indirecta de crenças religiosas-. Ainda que as percepçons sensoriais som percepçons dos indivíduos, os homes tenhem extendido o alcanço e amplificado os poderes dos seus sentidos em qualidade tanto como em quantidade. Mais ainda, o «conhecimento dum mundo exterior ordenado, no que podemos actuar racionalmente, deriva-se quase por enteiro da sociedade. Os fragmentos descubertos nas percepçons dos sentidos nom criariam, por si mesmos, nengum padrom mais que dentro do padrom cujos contornos nos tem ensinado a sociedade. De facto, o que nós percebemos cos nossos órgaos dos sentidos está condicionado muito amplamente pola nossa educaçom -meiante a qual os nossos velhos e os nossos próximos tenhem-nos ensinado a observar.» (18)
O concepto de matéria implica agora algo diferente do que hai cem anos. Mentres para Lenin, e o materialismo da classe meia antes de el, a matéria, composta de átomos, era a mesmíssima substáncia da natureza, e para Mach os átomos eram um artifício mental nom susceptível de experiência sensível, a matéria é agora considerada como algo «intermédio», porque a matéria tal e como está dada através dos nossos sentidos aparece como um fenómeno secundário, criado pola interacçom dos nossos órgaos dos sentidos com processos cuja natureza pode ser descuberta só indirectamente, através das interpretaçons teóricas das relaçons observadas experimentalmente; em outras palavras, «a través do esforço mental» (19).
A matéria fora umha vez concebida como consistente em átomos indivisíveis. Este concepto perdeu a sua validez polas recentemente descubertas propriedades da matéria tais como a radioactividade. Encontrou-se que «as partículas materiais som capazes de desaparecer ocasionando radiaçom, ainda que a radiaçom é capaz de condensar-se em matéria e de criar particulas» (20). Einstein formulou a transformaçom da massa em energia e, agora, quando se usa o termo matéria, inclue todos os fenómenos físicos de que os homes som conscientes. Tenhem sido inventados métodos experimentais que registram os efeitos dos átomos e das partículas elementares das que estám compostos. Estas partículas elementares podem considerar-se as últimas unidades de matéria -«precisamente aquelas unidades nas que a matéria se descompóm baixo o impacto de forças externas. Este estado de cousas pode ressumir-se assi: todas as partículas elementares estám feitas da mesma substáncia -a saber, a energia... A matéria existe porque a energia assume a forma de partículas elementares.» (21)
Estes descubrimentos nom negam a existência objetiva da realidade física, nem a sua manifestaçom em cousas que, se considera, constituem matéria. O que seja que a ciência poda revelar como propriedades da natureza, e seja a matéria considerada «real» ou «irreal», como um fenómeno «primário» ou «secundário», ela existe por direito próprio e sem ela nengum inmaterialista estaria ali para negar a sua existência. O mundo material é o mundo do home, totalmente independente do facto -falando científica ou filosóficamente- de que o velho concepto de matéria seja insuficiente para dar conta da realidade física.
A equivalência de massa e energia, de luz e matéria, extendeu a dualidade onda-corpúsculo -primeiro descuberta na luz- a toda a matéria. Como a luz, as partículas materiais podem ser representadas como corpúsculos ou como ondas, e ambas representaçons som necessárias para explicar as suas propriedades. De acordo coa teoría do quantum de Max Planck, a radiaçom nom é contínua mas, como a matéria, pode ser tratada em unidades individuais. A emissom e absorçom destas unidades involucra o princípio de probabilidade. A aplicaçom da mecánica quántica aos problemas da estrutura atómica por Niels Bohr e Werner Heisenberg levou ao princípio de incertidume, de indeterminaçom, e ao concepto de complementariedade. De acordo com este último, a descripçom dos micro-objectos, tais como electrons, require tanto do modelo de onda como do de corpúculo; ainda que recíprocamente excluintes, tamém se complementam entre si. O princípio de incertidume refire-se à impossibilidade de afirmar com certeza tanto a posiçom como o o momento dumha partícula de modo simultáneo.
Devido a que na sua totalidade os processos elementares constituem a realidade física, o carácter indeterminista, estatístico, probabilista da física quántica conduz a umha negaçom da causalidade. Nom todos os científicos estám, nom obstante, dispostos a reconhecer a acausalidade como um aspecto fundamental da natureza. Para Einstein, a teoria quántica em todas as suas implicaçons semelhava só umha improvisaçom temporal -umha expressom da nossa ignoráncia-. Max Plank sostivo que a hipótese quántica encontaria finalmente a sua expressom exata em certas equaçons que seriam umha fórmula mais exata da lei da causalidade. E Heisenberg especula sobre se a acausalidade é só umha conseqüência da separaçom entre o observador e o observado e nom é aplicável ao universo como um todo.
Ainda quando isto poda ser, o problema somentes pode ser resolto, acaso por completo, polo trabalho científico posterior. Mentres alguns científicos sostenhem que detrás das leis estatísticas da física quántica escondem-se, mas som discerníveis, parámetros que obedecem as leis da física clássica, outros pensam que a causalidade nos fenómenos macroscópicos está ela mesma baseada em leis de probabilidade. Mentres para alguns a causalidade governou umha vez absolutamente, agora a casualidade governa absolutamente para outros. O marxismo, que nom pensa em absolutos, aceita o estado da física polo que é, convencido de que, como qualquer outro estado prévio, tamém é transitório e nom é o ponto final do conhecimento físico.
A mecánica newtoniana funcionava bem sobre a escala macroscópica e humana dos fenómenos. O conhecimento conquistado sobre a realidade objetiva através dos nossos órgaos dos sentidos e instrumentos científicos nom afecta perceptívelmente à própria realidade externa. Em microfísica, sem embargo, a interacçom entre o observado e o observador afecta aos fenómenos observados. As impresons sensoriais e os instrumentos implicam umha transferência de energia (protons) que forma parte integrante do comportamento dos objectos atómicos baixo observaçom. Esta situaçom ineludível, deplorada por alguns como a fronteira delimitada a todo entendimento da realidade objetiva, induz a outros a declarar «que a ciência situa-se entre o home e a natureza», e ainda que os acontecimentos no mundo da natureza nom dependam das nossas observaçons deles, nom obstante «na ciência nom estamos a tratar coa natureza mesma, senom coa ciência da natureza -isto é, coa natureza que tem sido pensadaa e descrita polo home» (22).
Mentres este aspecto da física quántica é utilizado, demasiado a miúdo, como um argumento contra o materialismo filosófico e como umha evidência em favor do idealismo, em certo modo, e expressado de forma diferente, concorda em lugar disso bastante bem co marxismo. O que se situa entre o home e a natureza tamém conecta aos homes e a natureza. O marxismo, para o qual o conhecimento da realidade objetiva implica a interrelaçom indivisível entre o home, a sociedade e a natureza, nom se preocupa dumha «realidade objetiva» aparte da reconhecível polos homes. Dado que nom deveria haver nengum caminho à objetividade «absoluta», esse grado de objetividade atingível é a realidade objetiva para os homes. O reconhecimento de que a natureza, e a natureza revelada pola ciência, poderiam nom ser a mesma, compele-nos simplesmente ao maior grao possível de objetividade, deixando aparte por completo a questom de se conduzirá ou nom a um entendimento da «realidade última».
A microfísica é um dos esforços humanos e, ainda que conduza a novos conceptos da realidade física, nom altera a situaçom humana no mundo macroscópico. A dualidade «entre leis estatísticas e dinámicas está em última instáncia associada à dualidade entre macrocosmos e microcosmos, e isto devemos considera-lo como um facto comprovado meiante o experimento. Sejam satisfatórios ou nom, os factos nom podem ser criados polas teorias, e nom hai mais alternativa que conceder às leis dinámicas os seus lugares sinalados, igual que às leis estatísticas, no conjunto do sistema das teorias físicas.» (23). Espaço, tempo, causalidade, derivam da experiência, seguem a ser guias seguras para a maioria das actividades humanas, de modo completamente independente das teorias relativistas e atomistas da realidade que passem por acima ou por debaixo. É totalmente certo que a mecánica clássica «seguirá sendo o instrumento mais apropriado para resolver certas questons, questons que para nós som da maior importáncia, dado que se refirem à nossa escala de magnitude» (24).
Nada se altera nesta situaçom se a interpretaçom determinista da mecánica clássica é considerada tamém como umha falácia (25). Posto que a causalidade e o determinismo nom se refirem à natureza na sua totalidade, senom à nossa interrelaçom coa natureza através da qual descubrimos normas e regularidades que nos permitem esperar -e, deste modo, predizer- acontecimentos naturais cum grado de probabilidade perto da certeza. Ainda que o precoz ideal dum conhecimento absolutamente certo do mundo externo esvaeceu-se na mesma busca da objetividade científica, as «leis naturais» que permitem a predictibilidade retenhem a sua validez «absoluta» na escala humana da experiência. E mentres o entendimento dos processos atómicos implica probabilidade e estatísticas, a utilizaçom deste conhecimento conduz a actividades predizíveis, como se se baseasem em relaçons causa-efeito. Do mesmo modo, «as noçons da física clássica proporcionam umha fundamentaçom apriorística para as investigaçons da física quántica, dado que somentes podemos levar a cabo experimentos no campo atómico coa ajuda dos conceptos da física clássica.» (26)
Devido a que o indeterminismo governa a física quántica, e a determinaçom está descartada «ainda na ciência clássica mais simple, a da mecánica», Max Born encontra «simplesmente fantástico aplicar a idea do determinismo aos acontecimentos históricos» (27). Contudo, o materialismo histórico, em tanto que reivindica capacidades predictivas, nom reclama que estas capacidades se derivem de, ou sejam análogas a, os processos naturais, senom que estám baseadas em «leis sociais» de desenvolvimento fortificadas pola evidência histórica. Para rejeitar o «determinismo social» é necessário demonstrar a sua impossibilidade na sociedade e na história, nom por analogia cos processos físicos. Fazendo isto último, Born fai exatamente -só que seguindo o outro caminho- o que os pseudo-marxistas estavam a fazer quando decifraram «leis sociais» de desenvolvimento dentro da natureza. Se umha analogia é má, o mesmo é a outra.
A sociedade nom se desenvolve e funciona por casualidade, senom através das respostas humanas a necessidades definidas. O home deve comer para viver, e se deve trabalhar para comer, o trabalho mesmo conduz a um comportamento regulado por parte do home e em conexom coa sua obediência de, e coa sua luita contra, os fenómenos naturais e as suas regularidades. Quando os homes trabalham em grupos e sociedades, novas necessidades e novos regulamentos emergem do processo de trabalho social. Co incremento da produtividade, desenvolvem-se ali relaçons sociais de classe e regulamentos sociais baseados nelas. Co crescimento ulterior das forças produtivas da sociedade, a determinaçom do comportamento humano pola necessidade externa diminue, mentres que a determinaçom polos ordenamentos sociais incrementa-se. A determinaçom é amplamente um produto social; é o desenvolvimento social mesmo o que leva -co reconhecimento dos requerimentos materiais e sociais da produçom e a reproduçom- à predictibilidade.
A causa do carácter socialmente produzido da determinaçom social, Marx nom é nem um determinista nem um indeterminista no sentido usual destes termos. «Na sua opiniom, a história é o produto da acçom humana, ainda quando os homes sejam os produtos da história. As condiçons históricas determinam o modo em que o home fai subsequentemente a história, mas estas condiçons históricas som elas mesmas o resultado de acçons humanas... O ponto de partida básico nunca é a história, senom o home, a sua situaçom e as suas respostas.» (28)
Na história conhecida, as etapas da existência humana e social som reconhecíveis através dos cámbios nas ferramentas, nas formas de produçom e nas relaçons sociais, que alteram a produtividade do trabalho. Onde a produçom social se estanca, a sociedade estanca-se; onde a produtividade do trabalho desenvolve-se lentamente, o cámbio social é tamém retardado. Mas todo desenvolvimento prévio é o resultado do progresso realizado na esfera da produçom e somentes é razonável esperar que o futuro tamém dependa disto.
Isto indica pouco a respeito da transformaçom efetiva do capitalismo ao socialismo antecipada por Marx. Meramente prediz que o socialismo é o próximo paso no desenvolvimento das forças sociais de produçom, que incluem a ciência e a consciência social. Toda estrutura de classes, de acordo com Marx, tanto fomenta como retarda o desenvolvimento geral da produçom social. O fomenta em contraste coas relaçons sociais de produçom previamente existentes; o retarda tentando fazer permanentes as relaçons sociais existentes. Relaçons sociais de classe determinadas estám circunscritas a níveis determinados das forças sociais de produçom em expansom -nom obstante a sobreposiçom de velhas e novas formas de relaçons sociais e modos de produçom-. Na nossa época, é a relaçom capital-trabalho, a base de todos os antagonismos sociais, a que trava o desenvolvimento social ulterior. Mas tal desenvolvimento require da aboliçom dos antagonismos sociais. E dado que só aqueles capazes de basear as suas expetativas numha sociedade sem classes vam provavelmente a esforçar-se pola sua realizaçom, Marx veu na classe obreira e nas suas necessidades a força da emancipaçom humana.
Ainda que Marx estava convencido da inevitável fim do capitalismo, nom se confiou a respeito do momento da sua morte. Isto dependia da luita de classes efetiva e era certo só sobre a assunçom dumha continuaçom do curso prévio do desenvolvimento social. Os acontecimentos futuros podem únicamente basear-se no conhecimento presente e as prediçons som possíveis só sobre a assunçom de que o padrom conhecido do desenvolvimento passado se manterá tamém para o futuro. Pode que nom; contudo, todo conhecimento justifica algumhas expetativas e permite acçons que decidirám elas mesmas se as expetativas estavam justificadas ou nom. Quando Marx falou da fim do capitalismo, tamém pensou nos elementos dumha nova sociedade já presentes e despregando-se nas «entranhas do velho». O capitalismo nom tinha futuro porque a sua transformaçom era já um fenómeno observável. No entanto se desenvolvese, ampliaria todas as suas contradiçons, de modo que a sua expansom era ao mesmo tempo a sua decadência, quando se considera desde um ponto de vista revolucionário em lugar de um ponto de vista conservador.
A guerra ideológica
Dado que nom hai conexom entre marxismo e determinismo ou indeterminismo físicos, tampouco hai conexom real entre a guerra fria e os diferentes conceptos da realidade física no Leste e no Oeste. De facto, qual possível conexom poderia haver entre a indeterminaçom da física nuclear e os problemas sociais que cercam o mundo e causam os seus movimentos políticos? Estas luitas sociais estavam perturbando o mundo antes da emergência da nova física e nom podem ser amainadas nem pola ciência nem pola filosofia. As relaçons políticas entre Leste e Oeste nom melhorarám simplesmente porque os físicos se abstenham de interpretaçons ideológicas do seu trabalho. Este trabalho, e a sua aplicaçom prática, é a mesma no Leste e no Oeste. Onde hai desacordo, este carece de importáncia, é dizer, nas especulaçons acerca do que revelará o conhecimento físico do futuro. Alguns científicos orientais nom se molestam em bordar o seu trabalho com interpretaçons filosóficas; outros tentam encaixa-lo no esquema do materialismo dialéctico, de modo que nom viole a ideologia prescrita polo Estado na que eles podem efectivamente crer, justo como os científicos ocidentais aceitam quase geralmente as ideologias dominantes na sua própria sociedade.
Em qualquer caso, a realidade é sempre mais forte que a ideologia, como se demonstra pola recurrente necessidade de incorporar os novos achados da ciência e os avanços da tecnologia nas ideologias prevalecentes. Houvo um tempo no que os materialistas dialécticos russos denunciaram a teoria da relatividade de Einstein como obscurantismo burguês, somentes, e mais bem depressa, para vir a celebra-la como ainda outra manifestaçom do materialismo dialéctico. O espaço-tempo, a mecánica de ondas, a estrutura da matéria, em resumo, o conjunto da física moderna tem sido tornada em outras tantas revelaçons da dialéctica da natureza e da sua substáncia material. O princípio de «complementariedade», é dizer, o abandono da image conceptualmente unitária dos fenómenos atómicos, tem sido interpretada como ainda outro exemplo do desenvolvimento dialéctico por meio da contradiçom e reconciliaçom, isto é, como umha luita entre tese e antítese, produzindo a síntese.
Ate agora, porém, a «síntese» é só filosóficamente antecipada polos materialistas dialécticos para satisfazer o critério leninista da verdade objetiva absoluta. Alguns científicos orientais (nom todos) reivindicam simplesmente que os fenómenos observados na microfísica som completamente objetivos com respeito tanto à onda como à partícula, mentres que para alguns científicos ocidentais (nom todos) estas som em parte subjetivas, a causa da interacçom perturbadora e alteradora entre o observador e o observado, e porque a onda tem o carácter dumha onda de probabilidade e nom é considerada como umha entidade objetiva. Por suposto, os físicos russos admitem que a pura objetividade dos micro-objetos é só parcialmente reconhecível, mas acreditam que, em princípio, será possível establecer a sua plena objetividade encontrando caminhos e meios para descontar a influência do observador e os seus instrumentos sobre os micro-objetos observados. A aplicaçom da energia atómica aparece para eles como umha prova do carácter objetivo dos fenómenos atómicos.
Para os físicos ocidentais, todo o que importa na actualiade é a teoria quántica no seu estado presente e os problemas que ocasiona. Isto, por suposto, é tamém certo para os científicos russos. E pode dumha vez admitir-se que a sua busca dumha objetividade absoluta, seja ou nom realizável, semelha umha melhor hipótese de trabalho que a resignaçom subjetivista a um assumido limite absoluto do entendimento da realidade objetiva por parte de alguns físicos ocidentais. Nom obstante, a energia atómica tem sido aplicada a ambos lados das «barricadas»; a verdade pragmática da teoria atómica tem-se revelado completamente aparte do materialismo dialéctico e do idealismo burguês.
A causa de que Lenin insistira na objetividade e validez universal da causalidade, e devido a que o leninismo é a ideologia dominante, esta nom pode ser negada muito bem polos físicos russos. Nom hai tampouco nengumha necessidade real de faze-lo, pois de acordo co materialismo dialéctico a causalidade nom exclue, senom que implica a casualidade. A indeterminaçom na física quántica, ainda que reconhecida, é explicada como provocada polas técnicas experimentais e nom por umha lei fundamental da natureza. As diferências entre os físicos orientais e occidentais podem entom ressumir-se como diferências relativas nom ao seu trabalho, mas às expetativas adicionais por parte dos físicos orientais de que o seu trabalho virá a verificar as assunçons do materialismo dialéctico.
Estas assunçons, porém, nom se refirem à vitória do socialismo sobre o capitalismo, senom meramente ao restablecimento da causalidade para o conjunto da natureza e à reaceitaçom do concepto de matéria, no seu sentido presente, como a soa base de todos os fenómenos existentes incluindo a mente humana. Por suposto, em certo sentido, tais expetativas podem ser consideradas como umha expressom dum optimismo geral associado co ascenso, éxito e esperado triunfo do bolchevismo e a sua concomitante ideológica, o leninismo. Contudo, é difízil ver como o materialismo dialéctico na física poderia determinar as decisons políticas da gente dum modo ou de outro, ou poderia ser considerado um instrumento da luita de classes.
As ideologias som armas, mas na era da bomba atómica já nom som armas decisivas ou incluso muito importantes. Tam pouco como as naçons ocidentais confiam na «racionalidade» e a «naturalidade» das suas relaçons socio-económicas, justo igual de pouco os «marxistas» orientais ponhem a sua confiança no curso dialéctico da histórica -por nom falar do da natureza- como o meio para a vitória final. Ambas partes confiam, primeiro de tudo, no seu poder material. Isto só pode ser de utilidade, claro, quando o poder material encontre suporte ideológico, por cuja razom prósperos ideólogos de ambos campos encontram-se nos listons de ingressos confortáveis. Mas a sua avaliaçom profissional da importáncia e poder das ideologias é só umha sobrevaloraçom da sua própria importáncia.
Notas:
(1) Max Born, O concepto da realidade na física. Boletim dos Científicos Atómicos, Chicago, 1958. Vol. XIV, nº 8, p. 320.
(2) Ibid., p. 319.
(3) F. Engels, Ludwig Feuerbach, Nova Yorke, 1945, p.22.
(4) M. Born, O concepto da realidade na física, p. 320.
(5) B. Croce, Lebendiges und Totes in Hegels Philosophie, Heidelberg, 1909.
(6) F. Engels, Ludwig Feuerbach, p. 31.
(7) Alphonse Aulard, Histoire Politique de la Révolution Française; Origines et Développement de la Démocratie et de la République (1789-1804), Paris, 1901, p. 734.
(8) E. Mach, A ciência da mecánica, Londres, 1942, p. 27.
(9) Materialismo e empiriocriticismo, Nova Yorke, 1927, p. 107.
(10) Ibid., p.107.
(11) Ibid., p.63.
(12) Ibid., p.109.
(13) As Teses sobre Feuerbach de Marx, em F. Engels, Ludwig Feuerbach, p. 73.
(14) Umha crítica mais extensa das ideas científicas e filosóficas de Lenin encontrará-se em Marxismo e filosofia, por Karl Korsch, e em Lenin como filósofo, por Anton Pannekoek.
(15) Critica da Economia Política, Chicago, 1904, p. 11.
(16) Manuscritos económicos e filosóficos de 1844, Moscova, p. 169.
(17) O Capital, Chicago, Vol. III, p. 952.
(18) V.G. Childe, Sociedade e conhecimento, Nova Yorke, 1956, p. 97.
(19) M. Born, O concepto da realidade na física, p.319.
(20) L. d. Broglie, Física e microfísica, Nova Yorke, 1960, p. 68.
(21) W. Heisenberg, De Platom a Max Planck. Atlantic Monthly, Boston, Novembro de 1959, p. 113.
(22) W. Heisenberg, De Platom a Max Planck, p. 112.
(23) M. Planck, Um estudo da teoria física, Nova Yorke, 1960, p. 64.
(24) E. Borel, Espaço & Tempo, Nova Yorke, 1960, p. 182.
(25) Ver: M. Born, Voraussagbarkeit in der klassischen Mechanik. Physikalische Blatter, 1959, Heft 8.
(26) W. Heisenberg, De Platom a Max Planck, p. 112.
(27) O concepto da realidade na física, p. 320.
(28) A. G. Meyer, Marxismo: A unidade da teoria e da prática, Cambridge, 1954, p. 10.