Comunicação e Recepção.
Autores: Nilda Jacks (UFRGS) e Ana
Carolina D. Escosteguy (PUCRS)
Editora: Hacker Editores
São Paulo, 2005
As tradições
internacionais
Como acadêmicos,
nosso próprio desejo de
resistirmos aos atuais sistemas ideológicos pode produzir visões idealizadas
e inclusive utópicas das pessoas
que estudamos,
representando nossos desejos.
David Morley
Neste primeiro momento, como já foi dito, adotamos a classificação
proposta por Jensen e Rosengren (1990), pois, afora sua relativa consolidação
no debate internacional, no contexto latino-americano teve forte divulgação.
Além disso, permitirá ao final comentar o critério assumido para alcançar tal
classificação, em especial a perspectiva disciplinar. Vale lembrar, ainda, que
Jensen (2002) reapresentou as tradições de estudo das audiências em dois
grandes blocos: o quantitativo e o qualitativo, reunindo sob a mesma rubrica
várias vertentes. Por exemplo, os estudos sobre os efeitos, inclui da difusão
de inovações à teoria do cultivo, passando pelos usos e gratificações, contudo,
todas estão associadas às estratégias metodológicas quantitativas.
A. Pesquisa dos efeitos
O estudo dos
efeitos parece ter sido a questão geradora das primeiras pesquisas de
comunicação realizadas ainda na década de 1920, resultado da preocupação com os
novos meios que apareciam na cena moderna. De maneira genérica, a primeira
perspectiva que se preocupou com as conseqüências da industrialização da
cultura no que diz respeito à mídia e suas repercussões nos indivíduos e na
sociedade chama-se teoria dos efeitos, como é mundialmente conhecida.
No entanto, o
estudo dos efeitos da comunicação massiva extrapolou esse momento inicial,
ressurgindo ciclicamente até hoje (JENSEN, 2000). Aliás, esta renovação
permanente é a motivação mais candente da pesquisa em comunicação, emergindo a
cada novo meio introduzido na sociedade, o que levou Wolf (1994) a justificar
porque estes estudos perduram, embora
haja muitas evidências teóricas e empíricas de que possam estar historicamente
datados. Segundo o autor,
“toda a história da pesquisa em comunicação
tem sido determinada de várias maneiras pela oscilação entre uma atitude que
detecta nos meios uma fonte de perigosa influência social e a atitude que questiona /mitiga /relativiza este
poder reconstruindo a complexidade das relações em que os meios atuam” (WOLF,
1994: 9).
Esse
movimento pendular que, em certos períodos, trata a comunicação massiva sob a
suspeita de ter grande influência sobre a sociedade e a cultura, e que, em outros,
tal poder se vê relativizado, é conhecido respectivamente pelas denominações
genéricas de “teoria dos efeitos fortes” e “teoria dos efeitos fracos” (JENSEN
e ROSENGREN, 1990: 209), as quais acompanham uma mudança na noção de efeitos,
de uma visão restrita - efeitos diretos e específicos - a uma visão mais ampla-
efeitos indiretos e difusos. Muda também
a noção de receptor, que de passivo passa a ser visto como mais seletivo e
ativo. A nomenclatura sobre os efeitos desdobra-se ainda em efeitos de curto e
longo prazo, assim como efeitos limitados
e ilimitados (WOLF, 1994: 10; MATTERLART, 1999: 151), identificando o
desenvolvimento de vertentes diferentes dentro da pesquisa dos efeitos. Ademais
Jensen e Rosengren (1990: 209) chamam de
sub-especialidades da pesquisa dos efeitos as correntes surgidas mais
recentemente, que são reconhecidas pelos nomes de agenda-setting, espiral do silêncio, teoria dos gaps[1] , entre outras. Qualquer dessas perspectivas,
no entanto, fundamenta-se na idéia de que o
efeito é conseqüência do estímulo comunicativo, bem como o efeito se define na
sua relação com opiniões e atitudes, por isso, incide diretamente sobre a
conduta dos indivíduos.
Wolf (1994)
também atenta para esta renovação da pesquisa nos anos 70. Diz que se deve à reaparição
do enfoque em diferentes dimensões da influência dos meios - impacto sobre o
conhecimento ou sobre as representações da realidade social, entre outras
-, e também à tese do desenvolvimento a
longo prazo deste tipo de influência. Ele inclui entre as correntes surgidas
desse movimento a teoria do cultivo
(WOLF, 1994: 97), proposta pelo americano George Gerbner, a qual atribui aos meios de comunicação, em especial à
televisão, uma forte influência nos processos de socialização dos indivíduos e
grupos, através da construção de imagens e representações da realidade social.
Retomando o
primeiro enfoque, o dos efeitos fortes, nele encontra-se a teoria hipodérmica ou da agulha hipodérmica, embora
vários autores, conforme Wolf (1994), aleguem sua natureza não científica, pois está baseada em uma opinião generalizada e não
propriamente em um modelo teórico fundado em evidências obtidas mediante
pesquisa empírica[2].
A despeito das
divergências, sua menção tem lugar garantido nas narrativas sobre o campo da
comunicação, alcançando, em alguns casos, uma referência muito precisa. Em Conceitos-chave em estudos de
comunicação e cultura (O' SULLIVAN et ali,
2001), por exemplo, é descrita como um modelo mecânico e simplista de entender
a relação mídia-audiência, concebendo a mídia como um injetor de valores,
idéias e informações, realizado de modo direto e individual, em cada membro da
audiência, que seria passiva e atomizada. Ou seja, os efeitos dos meios de
comunicação aconteceriam de modo direto e não intermediado, atingindo mentes e
corações vazios, em uma clara concepção ligada ao modelo comportamental do
estímulo-resposta, filiado ao paradigma behaviorista então predominante que, segundo Alsina (1995: 36), teria sido fundado
por J. B. Watson em 1913.
Essa fase
dos ‘efeitos fortes’ tem sido comumente identificada com o trabalho de Harold
Lasswell, cientista político que estudou as estratégias de propaganda usadas
durante a Primeira Guerra Mundial[3], embora
seus estudos não sejam explicitamente condutistas[4] e se
encontrem na área da ciência política. Para Wolf (1994), a fórmula de Lasswell
corrobora a teoria da Agulha Hipodérmica, embora de maneira implícita, quando
define que os efeitos acontecem diretamente sobre o receptor.
Isto talvez se deva à utilização do
condutismo comparado por Lasswell, que afirmava que “os processos de
comunicação na sociedade humana, quando examinados detalhadamente, revelam
numerosas equivalências com as funções especializadas que se encontram no
organismo físico e nas sociedades animais inferiores” (Apud ALSINA, 1995: 36),
à facilidade de integração entre as teorias condutistas e as teorias da
sociedade de massa da época, a qual vivia sob forte impacto do pós-guerra, do
desenvolvimento da propaganda russa e alemã do entre- guerras e do efeito da
transmissão radiofônica de “A guerra dos Mundos”[5].
Assim,
a propaganda política, os meios de comunicação em rápido crescimento, a opinião
pública e as campanhas publicitárias eram as maiores preocupações desse tempo e
não por acaso os objetos de estudo de Lasswell, que também ficou conhecido pelo
uso da análise de conteúdo, técnica de
caráter quantitativo por ele desenvolvida para analisar a mensagem dos meios de
comunicação.
O
modelo teórico proposto por Lasswell, considerado um dos fundadores dos estudos
de comunicação, juntamente com Paul Lazarsfeld, Kurt Lewin e Carl Hovland, foi
publicado em 1948 no artigo “Estrutura e função da comunicação na sociedade”[6], onde demarcava os princípios que
regem o papel dos meios de massa: supervisão ou vigilância do contexto
social, correlação das diferentes partes da sociedade em resposta a este
contexto e transmissão da herança social de uma geração para outra. É por esta
razão que muitos autores, a partir da perspectiva da sociologia (RÜDIGER, 1998:
49; MATTELART, 1999:40) o definem como funcionalista, enquanto outros a partir
da psicologia, classificam -no como condutista (KLAPPER e MORAGAS apud ALSINA,
1995: 41-42).
Quanto
à comunicação propriamente dita, Lasswell a considerava como um ato, e não um
processo como entendem as perspectivas posteriores, que conteria as seguintes
questões: Quem? Diz o quê? Em que canal? Para quem? Com que efeito?[7], as quais
deveriam ser tratadas pela “análise do controle”, “análise do conteúdo”,
“análise dos meios”, “análise da audiência” e “análise dos efeitos”,
respectivamente. É preciso ressaltar que
Lasswell desconsidera
o dinamismo do processo comunicativo ao não interrelacionar os elementos acima,
dividindo-os em cinco parcelas desconectadas.
As
características desta proposta levam McQuail e Windahl (1996:13) a considerarem
apenas uma fórmula e não um modelo propriamente dito, embora outros autores, entre eles Alsina (1995: 33)
e Moragas (1990:40), elevem-na ao nível de um paradigma[8], porque
assentou as bases para os estudos da comunicação e para a “Communication
Research”, como é conhecida a tradição norte-americana.
No que
diz respeito aos aspectos referentes ao âmbito dos receptores, os autores são
unânimes em afirmar que, ao enfatizar os efeitos dos meios de comunicação, o
modelo é responsável pelo desenvolvimento posterior do campo, embora alvo de
muitas críticas. Nos termos de Lasswell, a comunicação é sempre pensada como
tendo um efeito sobre o receptor, que é alvo de sua influência e persuasão, o
que para os críticos traz como conseqüência que os efeitos identificados
analiticamente podem ser sempre
exagerados. O modelo também é criticado porque não considera o feedback[9], ou seja,
a retro-alimentação do processo comunicativo resultante da interação da audiência
com os meios, e porque toma uma fórmula da conversação interpessoal para
analisar processos tecnicamente mediados.
Apesar
de todas as críticas, este modelo funda a Communication
Research e sofre vários intentos de
aperfeiçoamento para aplicação no estudo dos efeitos dos meios de comunicação, corrente teórica
que com outras roupagens, como já comentado, sobrevive até hoje. Wolf (1994)
diz, inclusive, que a tradição norte-americana é responsável pelo desenvolvimento do campo, uma vez que
cunhou uma terminologia que organizou esta área de estudos, consolidou um
núcleo temático fundamental com a aparição de textos que o definiam e aderiu a
uma concepção estandartizada do processo comunicativo.
A Communication
Research é marcada também pela aparição imediata de um segundo modelo, The Mathematical Theory of Communication,
criado pelo matemático norte-americano Claude Shannon[10] e
apresentado no mesmo ano que o de
Lasswell. Agora, a questão central era de como enviar o máximo de
informação através de um dado canal e como avaliar a capacidade deste canal
para transmitir estas informações, com o mínimo de dispersão. O modelo
Shannon-Weaver descrevia o processo comunicacional linearmente, através de
cinco funções a serem realizadas durante seu percurso, incluindo uma disfunção,
o chamado ruído.
Assim, toda a
comunicação começaria por uma fonte de informação que produz uma mensagem, que
é transformada em sinais por um transmissor/codificador, seguindo por um canal
que levará a mensagem a um receptor, o qual decodifica os sinais recebidos,
finalmente chegando ao destinatário. A interferência do ruído produz uma
diferença entre a mensagem enviada e a recebida, considerada falha na
comunicação. Conceitos derivados destas etapas e funções, e muito usados para
pensar a transmissão de mensagens foram: informação, redundância, entropia, convenção,
código e feedback.
Apesar destes
novos elementos, segundo Fiske (1990:
30), o modelo apenas correspondia ao de Lasswell (que seria sua versão verbal),
o que pode ser entendido como uma
continuidade na concepção da comunicação como transmissão de mensagens,
onde trocando um dos elementos conseqüentemente o efeito seria outro. O foco,
portanto, está no efeito, que pode ser medido, e não no significado da mensagem
para o receptor. Mesmo criticando o modelo de Shannon e Weaver, Fiske (1990)
parece considerá-lo mais importante para
a teoria da comunicação do que o de Lasswell, tomando em conta os comentários e
o espaço que dispensa a um e outro em seu livro Introduction to Communication Studies (1990).
Da mesma forma
considera Alsina (1995:49), para quem, a despeito do mecanicismo do modelo,
exerceu muita influência nos estudos de audiência, uma vez que a preocupação
com os efeitos era a questão principal e também porque teve grande aplicabilidade.
Diferentemente,
Armand e Michèle Mattelart (1999: 57) designam este modelo como ligado à teoria
da informação e não à da comunicação, o
que permitiria pensá-lo a partir de outro estatuto, mais adequado aos problemas
técnicos da transmissão de mensagens, embora sua utilização tenha extrapolado
tais limites.
De toda forma,
vale lembrar, o que já foi dito no início, que a tradição dos estudos dos
efeitos é suficientemente ampla para abarcar distintas fases no seu
desenvolvimento. Depois da primeira etapa onde a mídia era pensada como
onipotente, passa-se a testar tal pressuposto, coletando-se evidências para a relativização de tais efeitos.
B. Usos e gratificações
Essa é
a segunda tradição identificada por Jensen e Rosengren (1990), os quais dizem
que se a pergunta-chave para o estudo dos efeitos, qualquer que seja o matiz, é
“o que os meios fazem com o indivíduo?”, nesta perspectiva, a pergunta feita é
“o que o indivíduo faz com os meios?[11]”. No entanto, tal vertente se desenvolveu em
parte respondendo à dos efeitos limitados (JENSEN, 2002)[12].
Entre
os trabalhos pioneiros da década de 40 está o de Herta Herzog, seguidora do
programa de pesquisa de Paul Lazarsfeld,
que investiga as gratificações
oferecidas pelo rádio, entre seus ouvintes. Foi constatado que mais do que
preencher o tempo, as ouvintes de rádio
usavam-no como fonte de aconselhamento e apoio, de modelagem de seu papel de
mãe e dona-de-casa, liberação de emoções etc. (McQUAIL, 1997: 70).
Jensen
e Rosengren (1990) identificam quatro fases no desenvolvimento da pesquisa dos
usos e gratificações, começando por 1) análises descritivas 2) esforços para
construir tipologias de variáveis centrais,
3) análise explicativa e 4) sistematização de teorias. Já, na visão de
McQuail e Windhal (1996: 133), a constituição dessa vertente se dá através de
duas fases, a “clássica” e a “moderna”.
O
período clássico teria sido desenvolvido durante os anos 40 pelo Bureau of
Applied Social Research (Nova York), fundado e dirigido por Paul Lazarsfeld, em
especial nos estudos que geraram tipologias das motivações de ouvintes de
rádio, como já foi assinalado. Desde o início, esta corrente enfatiza as atividades
interpretativas dos membros da
audiência, as quais processam diferentes necessidades, orientações e
características sociais e individuais. Contudo, J. Klapper ( apud McQUAIL e
WINDHAL, 1996: 133) descreve os primeiros estudos como de orientação
funcionalista e ainda sob a sombra dos estudos dos efeitos fortes.
O
período moderno[13], transcorrido entre os anos 60 e princípios
dos 70, caracterizou-se pela negação em identificar-se com a fase anterior,
reforçando a centralidade da audiência que responde sobre suas escolhas,
decisões e interpretações independentemente de qualquer consideração sobre
efeitos dos meios, tentando responder a pergunta: “o que as pessoas fazem com
os meios?”.
O
desenho destas pesquisas segue a seguinte linha de raciocínio: as necessidades
tem origens sociais e psicológicas, as
quais geram expectativas em relação aos meios de comunicação que conduzem a
diferentes padrões de exposição a eles, resultando em certas necessidades e
gratificações ou outras conseqüências não pretendidas (McQUAIL e WINDAHL,
1996:134). Em outras palavras poderia ser dito: os meios e conteúdos são,
geralmente, escolhidos em função de objetivos e satisfações específicos; os
membros da audiência são conscientes de necessidades relacionadas aos meios de
comunicação que surgem em circunstâncias sociais (compartilhadas) e pessoais
(individuais) específicas, manifestando-se em termos de motivações; a utilidade pessoal é mais
significativa nas escolhas da audiência do que fatores estéticos ou culturais;
os fatores mais relevantes na formação de audiências podem, em princípio, ser
medidos (McQUAIL, 1997:71).
Além
do pressuposto de que a audiência é ativa e faz escolhas motivadas pela
experiência anterior com os meios, o modelo ainda explora a idéia de que o uso
dos meios é apenas mais uma das necessidades satisfeitas no dia-a-dia.
O
modelo básico foi reelaborado tanto por Rosengren, Palgreen e Rayburn como
por McQuail (McQUAIL e WINDAHL, 1996: 135), que acrescentaram novos
elementos como: percepção das
necessidades como problemas a serem resolvidos (cuja motivação para o uso dos
meios é a consciência da possibilidade de uma solução) e confrontação entre
gratificações esperadas e obtidas
(considerando as crenças e valores no que se refere à tais
necessidades), no primeiro caso; diferenciação entre experiências
informacionais e culturais buscadas nos meios, entendendo cultura tanto como
textos, produtos e práticas, quanto como gostos e preferências que guiam as escolhas pessoais frente à oferta dos
meios, no segundo caso.
Em
termos tipológicos, uma série de estudos têm convergido na identificação de
três funções centrais da mídia: a procura de informação, diversão e manutenção
da identidade pessoal, nesse caso muitas vezes em sentido compensatório, ou
seja, para obter através dos meios o que não alcançam por outras vias. McQuail
(1997: 73) diz, entretanto, que tipologias sobre motivações geralmente falham
em encontrar padrões para seleção e uso reais dos meios, como também para uma
relação lógica e consistente entre seus fatores definidores (preferência-
escolha- avaliação).
Quanto
ao método adotado por esta perspectiva, autores como Fiske (1990: 151),
Mattelart (1999: 150), Jensen e Rosengren (1990: 220) discordam quando o
debatem, identificando desde a aplicação de um simples questionário de cunho
funcionalista até o trabalho etnográfico de
inspiração antropológica. Contudo, Jensen (2002) alerta que, apesar da utilização ocasional de metodologia qualitativa, tem se
consolidado as técnicas de survey[14] dentro desta tradição.
Por
outro lado, Jensen e Rosengren (1990) acrescentam que tem havido uma
discrepância no que diz respeito ao tratamento do conteúdo dos meios, pois, se
de um lado, há uma tendência para teorizar o conteúdo midiático em termos das
necessidades subjetivas e da percepção dos membros da audiência, de outro, há
de se estudar empiricamente os usos do conteúdo da mídia em termos objetivos,
tradicionalmente trabalhado pela análise de conteúdo.
Em
todo caso, McQuail e Windahl (1996: 141) acham que apesar de terem sido
originalmente desenhadas para entender o apelo de diferentes tipos de meios e
seus efeitos, as pesquisas sobre usos e gratificações
contribuíram significativamente para descrever
a audiência e seu comportamento, mesmo que com limitado sucesso. As
críticas recebidas concernem
ao seu caráter funcionalista, psicologista e individualista, útil para os propósitos
da mídia e insensível às determinações da estrutura social, pelo fato de
superestimar a racionalidade e a
atividade no comportamento da audiência.
Muitos
autores tentaram balancear estes pressupostos considerando que o uso dos meios
é o resultado de forças sociais, da biografia pessoal e de circunstâncias
imediatas, e que as causas da formação da audiência estão tanto no passado como
no presente e em pontos intermediários (McQUAIL, 1997: 74), o que aponta para
versões teóricas mais recentes, onde a própria perspectiva dos efeitos associa-se a dos usos, criando
uma nova denominação, “pesquisa dos usos e dos efeitos” como resultado da
dinâmica de seus desenvolvimentos.
Enfim, o que se observa é que a
tradição dos usos e gratificações tanto pode ser vista como alinhada aos
estudos dos efeitos, mesmo que fracos, quanto tensionando tal pressuposto, o
que pode ser identificado como condição preparatória para uma visão mais
mediada de comunicação.
C. Estudos literários
A
tradição literária desponta com um importante legado, em especial, sobre uma
determinada noção de ‘leitor’, que na área da comunicação trata, sobretudo, de
um olhar sobre a audiência inscrita no texto. A herança dos estudos literários
remonta à emergência das formas literárias na civilização ocidental, ocorrida
nos últimos 2500 anos, e está associada à exegese de textos com objetivos
cognitivos ou estéticos. Segundo Jensen e Rosengren (1990:211), regras de
interpretação tem sido uma força configuradora da vida social e cultural e com
a literatura tomando o vulto que tomou como forma de prazer individual e privado, a
crítica literária também foi redefinida.
Um de
seus papéis é enfatizar o intento de demonstrar que, e explicar como, a
literatura pode desenvolver a experiência estética, transcendendo tempo e
espaço. Este esforço, na opinião dos mesmos autores, resulta na ação normativa
de educar os leitores, pelo menos no limite, para que eles possam responder
apropriadamente à tradição literária, embora esta não seja uma tarefa empírica
da pesquisa literária[15] .
Jensen
e Rosengren (1990) chamam a atenção para
o fato desta tradição ter em comum com o estudo dos efeitos o mesmo
entendimento de que o significado é imanente à estrutura
da mensagem. Isto porque a crítica literária
vê a obra como uma configuração
governada por formas lingüísticas e estruturas retóricas dotadas de
regras próprias, as quais em seu conjunto definiriam um gênero, a partir de
critérios da estética e da hermenêutica. Por essa razão, em termos gerais, os estudos literários estariam mais próximos da pergunta feita pela
teoria dos efeitos do que da feita pelos
usos e gratificações, uma vez que ainda preocupam-se em saber o que a estrutura
dos textos literários faz com os leitores, e não o contrário[16]. Nesse
sentido, seria uma perspectiva de análise da recepção ativada pelo texto,
embora certas correntes tratem empiricamente do leitor.
Para a
análise literária tradicional, o próprio campo provê a interpretação de acordo
com a tradição literária onde se insere a obra em questão ou, alternativamente,
ela pode sugerir uma nova e mais “iluminada” leitura, muitas vezes, desde um
ponto de vista de um leitor pressuposto. Nessa perspectiva, o leitor é
freqüentemente um constructo crítico deduzido do discurso ou da tradição literária
e, excepcionalmente, quando ele é empírico, o foco recai mais nas leituras
individuais ou, mais comumente, nos significados literários dos aspectos
sociológicos ou psicológicos gerais, do que em receptores histórica e
demograficamente definidos. Com isto, o sistema social no qual a literatura é
produzida muitas vezes apresenta-se como uma estrutura abstrata da análise ou,
em outras, é como um pano de fundo histórico providenciado em uma seção
introdutória, como sugerem os autores em pauta.
Entre
as correntes que fazem parte dos estudos literários, onde outros autores
incluem também o leitor-modelo de Umberto Eco (SAINTOUT, 1998), e que têm
impacto sobre a problemática em questão, encontra-se
a estética da recepção identificada com a Escola de Constanza (Alemanha), em
especial com os estudos de Hans Robert Jauss, Wolfgang Iser e Hans Ulrich
Gumbrecht, os quais sofreram o influxo dos acontecimentos políticos e culturais
da década de 1960, período que caracterizou transformações que afetaram a vida
universitária e, por conseguinte, a pesquisa literária (ZILBERMAN, 1989:8).
Com
suas teses disseminadas e alargadas na década seguinte, a estética da recepção
é tributária de várias correntes e, impulsionadora de outras, com as quais
compartilha a idéia de que “a
literatura é um caso especial de comunicação”, o que pressupõe
a inclusão da perspectiva do produtor, do leitor e de sua interação mútua. Esta
posição enfrenta o impasse entre história e estética, em que a presença de uma
implicava na ausência da outra, como acontecia com a sociologia da literatura e
o método imanente, respectivamente, e seus desdobramentos (idem: 31).
Jauss,
um dos seus criadores, entre suas principais teses, postulava a de que o fato
primordial da história da literatura é a relação dialógica entre leitor e obra,
ou seja, o leitor de cada época é quem atualiza a historicidade da obra, a qual
de certa maneira pré-determina a recepção, oferecendo orientações a seu
destinatário, porque ela evoca o “horizonte de expectativas”[17] e as regras do jogo familiares ao leitor.
Cada leitor pode reagir individualmente a um texto, contudo, a recepção é um
fato social, uma medida comum localizada entre essas reações particulares
(idem: 34), portanto, nessa perspectiva, a inclusão do contexto passa a ser central.
A
corrente nomeada reader-response
criticism[18] é
contemporânea da estética da recepção e compartilha com ela algumas teses e
integrantes, como Iser, embora congregue uma gama mais díspar de pensadores
como os partidários da psicanálise e do pós-estruturalismo. Tem sua origem
associada ao new criticism[19], apesar de ser uma reação a ele no que tange ao desejo
de romper com análises imanentes do texto, como também o fez o
desconstrutivismo (ZILBERMAN, 1989:24). Seguindo
Jensen e Rosengren (1990), essa perspectiva tem em comum com a estética da recepção o fato de
não explorar empiricamente o contexto sociológico do processo de leitura em si,
no entanto, refere-se à aspectos mais estreitos da micro interação leitor-texto
no âmbito particular e individual. Para Zilberman (1989: 27) as condições para
analisar esta interação aparecem nos trabalhos de Louise Rosenblatt e Stanley
Fish, pois promovem a aparição do leitor real, colocado no centro do processo
de leitura, da produção de sentido e da experiência estética.
Certas
proposições de Fish tiveram influência importante nas pesquisas de comunicação
porque consideram o sentido e a experiência proporcionada no momento da relação
com o texto e não como efeito da obra, e porque não se restringem aos textos
literários. A adoção do conceito de “comunidades interpretativas”, proposto por
ele, também operou mudanças nas análises da comunicação porque remete ao
comportamento sociológico das audiências, embora no âmbito dos estudos
literários tenha sofrido muitas críticas.
Uma
terceira corrente, destacada pelos autores (JENSEN
e ROSENGREN, 1990: 212), é orientada teoricamente pela psicologia e pela
sociologia, estuda empiricamente a recepção literária, e seus resultados vem
sendo publicados em periódicos como Poetics
e SPIEL. Pode-se inferir, seguindo
Zilberman (1989: 16), que esta perspectiva associa-se de alguma forma a
pesquisas sociológicas desenvolvidas na Inglaterra no final dos anos 50, cuja
preocupação girava em torno do público leitor, das preferências das camadas
populares e da literatura de massa[20],
pesquisas essas que, embora associadas originalmente aos English Studies do entre-guerras, permitem estabelecer vínculos com
os estudos culturais, foco da próxima seção.
D. Estudos culturais
Constituídos
no final dos anos 1950 através das pesquisas[21] de
Richard Hoggart, Edward Palmer Thompson e Raymond
Williams, seus principais representantes, e incorporando mais tarde a
importante contribuição de Stuart Hall, os estudos culturais têm sua história
ligada ao Centre for Contemporary Cultural Studies – CCCS - fundado em 1964, na
Universidade de Birmingham/ Inglaterra.
Hoje, esta perspectiva teórica tem ramificações mundiais, que assumiram
seus próprios pressupostos, conforme a tradição cultural e teórica onde se inserem
regionalmente, levando Jensen e Rosengren (1990: 213)
a afirmarem que estudos culturais foram desenvolvidos em muitos países,
paralelamente e de forma independente aos cunhados pelos britânicos [22].
Não se
constituindo em uma disciplina, mas em um campo de cruzamentos de diversas
disciplinas, os estudos culturais permitem a combinação da pesquisa textual com
a social, na medida em que recuperam a acepção estruturalista sobre a relativa
autonomia das formas culturais, situando-as num
contexto de forças diversas, bem como do culturalismo, o valor da experiência
dos sujeitos para a mudança social. Recuperamos Bill Schwarz (apud ESCOSTEGUY,
2001:25) para sumarizar seus principais pressupostos:
“identificação explícita das culturas vividas
como um objeto distinto de estudo; o reconhecimento da autonomia e complexidade
das formas simbólicas em si mesmas; a crença de que as classes populares
possuíam suas próprias formas culturais, dignas do nome, recusando todas as
denúncias por parte da chamada alta cultura, do barbarismo das camadas sociais
mais baixas; e a insistência em que o estudo da cultura não poderia ser
confinado a uma disciplina única, mas era necessariamente inter, ou mesmo anti,
disciplinar”.
Nesse contexto, a comunicação de massa é vista como integrada às demais práticas da vida diária, sendo práticas entendidas como todas as atividades que dão sentido à vida social. Desse ponto de vista, portanto, a vida e as atividades sociais estão fundadas em e são dependentes de processos de produção de sentido. Para os estudos culturais, portanto, a pesquisa de comunicação não é a que focaliza estritamente os meios, mas a que se dá no espaço de um circuito composto pela produção, circulação e consumo da cultura midiática. Poderíamos resumir que os estudos culturais estão interessados nas relações entre textos, grupos sociais e contextos ou ainda, em termos mais genéricos, entre práticas simbólicas e estruturas de poder. Aos diferentes momentos do circuito mencionado correspondem diferentes problemáticas teóricas, bem como determinadas especificidades disciplinares, embora se reivindique romper com um foco parcelar e disciplinar (ver JOHNSON, 1999).
Esta
guinada no trato da cultura redefiniu-a como um processo global de produção de
sentido, substituindo o entendimento de uma produção canônica, tendo com isto
valorizado a cultura popular como um discurso social relevante. Com base nisto
e no circuito recém referido, as mensagens dos
meios de comunicação, por exemplo, são
tomadas como discursos estruturados, os quais
são relevantes para a audiência, de acordo com suas práticas sociais e
culturais. Com este enfoque, portanto, os estudos culturais atuam na esfera
teórica e política: na primeira, apostando no relativo poder das práticas
culturais na produção social do sentido e na segunda, como forma de resistência
semiótica que poderá criar novas estratégias políticas (JENSEN e ROSENGREN,
1990: 213). Embora a análise dos estudos culturais contemple a mensagem ou
discurso da comunicação, como na crítica literária, dá maior ênfase a seus usos
e à posição social ocupada pelos leitores/receptores, os quais só recentemente
(anos 80) foram estudados de maneira empírica. Até então eram apenas deduzidos
a partir do discurso dos meios, como constructos analíticos, embora o contexto
histórico e social sempre tenha sido referência
mais extensas
do que na análise literária.
O
ponto de partida para o deslocamento do foco do texto para a audiência é o
modelo analítico criado por Stuart Hall[23],
publicado originalmente em 1973. O ensaio “Codificação/Decodificação” trata o
processo de comunicação televisiva segundo quatro momentos distintos: produção, circulação, distribuição/consumo e
reprodução. Cada etapa possui suas próprias formas e condições de existência,
mas estão articuladas entre si e determinadas por relações de poderes
institucionais. No que tange à codificação especificamente, ou seja, um dos
momentos da produção, toma em consideração tanto a imagem que o meio faz do
receptor, quanto os códigos profissionais dos produtores. Quanto à
decodificação, ou seja, o momento do consumo/recepção, a análise proposta por
Hall contempla três estratégias básicas de leitura/recepção: dominante, quando o sentido da mensagem
é decodificado segundo as referências de sua construção; oposicional, quando o receptor entende a proposta dominante da
mensagem mas a interpreta seguindo uma estrutura de referência alternativa,
isto é, outra visão de mundo; negociada,
quando o sentido da mensagem entra “em negociação” com as condições
particulares dos receptores, compondo-se de um misto de lógicas contraditórias
que contém tanto os valores dominantes quanto argumentos de refutação[24]. Este
modelo foi experimentado empiricamente por David Morley em sua pesquisa “The
Nationwide Audience” (realizada entre 1975-79 e publicada em 1980). Posteriormente, Hall reavalia o modelo,
sobretudo, no que diz respeito ao âmbito da recepção, com base nas críticas que
o referido trabalho recebeu e no desenvolvimento do campo como um todo (ver
HALL, 2003 e ESCOSTEGUY, 2001: 66-70).
Segundo
Fiske (1990: 156), a trajetória de pesquisa na área fez surgir uma linha de
investigação denominada etnografia da audiência, desenvolvida para conhecer, na prática, as
conexões entre leitura e sociedade. Essa perspectiva é ensaiada ainda na década
de 80, colocando sob suspeita as teorias estruturalistas e semióticas a
respeito do poder do texto. A partir de então, um conjunto de pesquisas (entre
elas, HOBSON, 1982; RADWAY, 1984; MORLEY, 1986; GRAY, 1987 e 1992; DROTNER,
1998; TUFTE, 2000) começa a mostrar a importância do contexto da recepção, o
cenário doméstico e cotidiano, na construção do sentido das mensagens, embora
nem todas as mencionadas possam ser denominadas de etnografias de audiência.
De
qualquer modo, o importante é destacar que o desenvolvimento da pesquisa sobre
a recepção midiática no âmbito dos estudos culturais foi passando por diversos
momentos. Nesse itinerário, contribuíram para sua constituição o debate
feminista em torno da centralidade da categoria de gênero, a diminuição do
interesse em relação ao conteúdo propriamente dito dos programas e, por último,
a concentração no cotidiano onde se observa mais o papel dos meios na vida
cotidiana do que o sentido da vida cotidiana na recepção de um determinado
programa. Reside aí uma das motivações da crítica aos estudos culturais, na
medida em que o objeto central da pesquisa passou a ser uma análise centrada
nas culturas de determinadas comunidades, perdendo-se de vista o conteúdo dos
meios.
E. Análise da recepção
Em
termos teóricos amplos, essa vertente construiu-se a partir de vários campos de
saber que vão do interacionismo simbólico à
psicanálise, e mais especificamente, da estética da recepção aos usos e
gratificações, com o objetivo de superar os limites de cada uma destas
perspectivas, que no fundo são os limites nos modos de pesquisar tanto das ciências sociais como
das humanidades.
Tal
perspectiva, contudo, tem muitos pontos em comum com os estudos culturais - em
especial na vertente que se dedica ao
estudo das audiências[25]. Segundo
os autores (1990), neste caso, a análise da recepção pode ser considerada como
a perspectiva mais inclusiva, porque se utiliza de um grande número de técnicas
de pesquisa empírica para o estudo qualitativo da audiência, aproximando
ciências sociais e estudos literários. A análise da recepção comparte com os
estudos culturais a concepção sobre a mensagem dos meios, vendo-a como formas
culturais abertas à distintas decodificações, e sobre a audiência, definindo-a
como composta por agentes de produção de sentido.
Por
outro lado, tanto quanto a perspectiva dos usos e gratificações entende os
receptores como indivíduos ativos, os quais podem fazer muitas coisas com os
meios de comunicação - do simples consumo a um uso social mais relevante.
McQuail e Windahl (1996:145), entretanto, dizem que se diferencia daquela
perspectiva ao dar maior centralidade para a mensagem, relegar ao segundo plano
o sistema social, desconsiderar qualquer explicação causal dos fenômenos e
fazer uso de métodos de pesquisa predominantemente qualitativos e
interpretativos.
Para
Jensen e Rosengren (1990), a análise da recepção questiona tanto a validade da
análise interpretativa de conteúdo como fonte de conhecimento sobre usos e
efeitos dos conteúdos dos meios de comunicação, feita na área das humanidades, sobretudo, aquela originada nos estudos literários,
quanto a metodologia predominante na pesquisa empírica praticada nas ciências
sociais. Em outras palavras, a análise da recepção pode ser definida como
“análise da audiência – com - análise de conteúdo”, o que tem dupla natureza,
qualitativa e empírica.
Nestas
pesquisas são coletados dados sobre a audiência através de observação e
entrevistas em profundidade e aplicados métodos qualitativos de análise desses
dados e do conteúdo dos meios. O que caracteriza, entretanto, a análise da
recepção são os procedimentos comparativos entre o discurso
dos meios e o da audiência, e entre a estrutura do conteúdo e a
estrutura da resposta da audiência
em relação a este conteúdo (1990:218).
O
resultado dessa análise comparativa deve, segundo seus próprios autores, ser
interpretada à luz do sistema sócio- cultural que, por sua vez, deve ser tomado
como uma configuração histórica de práticas sociais, de contextos de uso e de
comunidades interpretativas, quando é utilizado este conceito.
Tal
perspectiva tem influenciado a dos usos e impacto dos meios de comunicação,
porque examina muito de perto o processo de recepção, tomando-o como foco
central, diferenciando-se por sua vez dos estudos culturais que, em algumas
versões, costumam enfocar
aspectos mais amplos do cotidiano, onde a relação com os meios de
comunicação é apenas mais uma das práticas.
Com a
apresentação dessa última tradição termina o relato de Jensen e Rosengren
(1990) sobre o que consideram as distintas abordagens existentes para
aproximar-se da recepção. A adoção do ponto de vista deles, em tal texto,
implica o reconhecimento de cinco tradições de pesquisa. Reforçamos isso, aqui,
porque em texto mais recente, Jensen (2000) não se refere a essa abordagem em
separado quando vai priorizar o critério de classificação segundo duas grandes
vertentes metodológicas: quantitativa e qualitativa.
Em termos
metodológicos, sem desconsiderar que são questões intimamente imbricadas com os
modelos teóricos, Jensen e Rosengren (1990) apontam algumas confluências e divergências entre as cinco tradições,
partindo da classificação geral dada por eles, qual seja, as de natureza
sociológica e as de natureza humanística.
No
escopo dos estudos de caráter sociológico, ou seja, o da pesquisa dos efeitos e
dos usos e gratificações, os recursos metodológicos e técnicos mais utilizados
têm sido, sobretudo, pesquisa experimental (laboratório, natural e de campo) e
“survey”. Em menor escala, a observação participante e entrevistas em
profundidade são também implementadas, mas a pesquisa dos efeitos tende a
preferir as técnicas mais estruturadas e padronizadas, ao passo que, a segunda
corrente – de natureza humanística - tende a optar pelas mais abertas. A
tendência mais recente é que ambas tratem o fenômeno de maneira mais holística[26], inserindo o uso dos meios e seus efeitos em
um amplo quadro interdisciplinar, combinando várias técnicas e estratégias em
um único estudo ou acompanhando por um longo período o fenômeno estudado[27] . Desenhos de pesquisa mais complexos têm o
objetivo de distinguir as determinações entre finalidade e causalidade e entre
determinações individuais e estruturais.
Quanto
à perspectiva dos estudos literários, os autores enfatizam que a principal característica
reside na concepção que a área tem sobre análise e interpretação, as quais não
recebem distinção metodológica. Em geral, é realizada uma
análise-com-interpretação baseada em uma variedade de métodos críticos
desenvolvidos pela lingüística, teorias literárias e retórica, com o objetivo
de substanciar uma ou mais possíveis e razoáveis leituras. Embora os autores
não mencionem, podemos localizar neste âmbito a incorporação da noção de
intertextualidade e suas repercussões nos estudos de comunicação, em especial
na abordagem da recepção (ver, por exemplo, o estudo pioneiro de Bennet e
Woolacoot, Bond and beyond: The political career of a popular hero,
Londres, Macmillan,1987). As ferramentas básicas para a tarefa de
análise-com-interpretação são a capacidade interpretativa do pesquisador e as
categorias de análise que brotam da obra examinada, cujo significado de cada
elemento é estabelecido com referência ao contexto da obra como um todo. Os
significados mais amplos devem ser buscados no contexto social dos fatos
históricos e/ou psicanalíticos, os quais podem oferecer indicadores para
entender autores, leitores ou origem dos temas literários. A área dos estudos
de cinema é o locus onde esta
abordagem mais prosperou.
Os
estudos culturais também fazem análise -com- interpretação, mas referindo-se principalmente aos fatores
extra-textuais, uma vez que consideram tanto os discursos literários quanto os
da mídia como inscritos nas amplas práticas culturais e sociais. As categorias
analíticas, portanto, são fundamentadas em teorias da estrutura social e da
subjetividade, mais que nas teorias literárias, mantendo-se a primazia da
função interpretativa do pesquisador, que deve
buscar nas formas culturais as bases para isto.
Estas
formas culturais – narrativas, grafites, formas de conversação diária etc-
tomadas como expressões populares, mantêm a identidade cultural e social de
grupos diferenciados, em alguns casos, podendo
assumir a noção de “comunidades interpretativas”. Por sua vez, estas comunidades
são constituídas e caracterizadas por gênero, etnicidade e subculturas que
acabam de alguma forma alimentando a mídia (1990: 222) e muitas vezes
desafiando sua construção da realidade, por isto o foco da análise deve recair
no discurso mais amplo da cultura do que propriamente no discurso da mídia ou
apenas do receptor empírico.
Quanto
à análise da recepção, combinando análise-com-interpretação (modelo originado
nos estudos literários) com a concepção de que cultura e comunicação são
discursos socialmente situados (vindas dos estudos culturais), desenvolve uma
leitura comparativa do discurso da mídia e da audiência para entender o
processo de recepção. Para capturar o discurso da audiência são utilizadas, em
geral, entrevistas em profundidade e observação participante, cujas evidências
são comparadas com a estrutura do conteúdo dos meios, podendo assim indicar como um gênero ou tema
particulares são assimilados por um grupo
específico.
O
problema desta perspectiva, como das demais originadas nas humanidades, é a
impossibilidade de generalização, problema inexistente nas que pertencem às
ciências sociais, porque trabalham, em
geral, com amostragens representativas a partir de populações bem definidas.
1. 1-
OUTRAS NARRATIVAS POSSÍVEIS
A sistematização
feita por Jensen e Rosengren (1990), apontando as cinco tradições acima
relatadas, é levada em consideração por Denis McQuail em seu livro Audience Analysis (1997:16), mas ele
propõe uma tipologia de pesquisa que considera mais econômica e que, obviamente,
apresenta pontos de discordância, entre
os quais, o pouco destaque dado à contribuição dos estudos literários.
Ele propõe uma
classificação que nomeia como estrutural,
comportamental e sócio-cultural, sendo que no primeiro tipo inserem-se as
pesquisas de mensuração da audiência, no segundo as que avaliam os efeitos e
usos dos meios e no terceiro as pesquisas realizadas pelos estudos culturais e
pela corrente da análise da Recepção[28]. As pesquisas de mensuração são as que servem
aos propósitos da indústria da comunicação e foram as que consolidaram este
campo de estudo, como comentado anteriormente.
Em termos
teóricos, segundo McQuail (p.17), a pesquisa estrutural é importante porque pode ajudar a mostrar a relação
entre o sistema dos meios e o uso individual desse sistema, considerando, é
claro, que as escolhas estão sempre limitadas à oferta dos meios. A ênfase,
portanto, está na determinação, em primeira instância, da estrutura social e
midiática (McQUAIL, 1997:66). No
primeiro caso trata-se do grau de educação, renda, gênero, local de residência,
posição no ciclo de vida dos receptores etc., e no segundo, da oferta de
canais, programação e conteúdo dos meios que estão disponíveis em dado local e
período.
Esse tipo de
pesquisa é fundamental quando interrelaciona opinião, atitude e comportamento com dados sobre padrão de
consumo de mídia e dados demográficos. Serve também para descrever, no decorrer
do tempo, o fluxo de determinada audiência entre vários canais e conteúdos,
além de ser usada, ainda, para construir tipologias de receptores de vários
meios, relacionando seu comportamento ao usá-los com características sociais
relevantes, além de medir o crédito e a satisfação em relação a esses meios.
As pesquisas de
tipo comportamental são tão antigas quanto
as de tipo estrutural e são aquelas que
se preocupam em avaliar os efeitos dos meios, pois consideram que a audiência
está “exposta” a eles. Como já foi visto, este tipo de pesquisa subsiste até
hoje, embora tenha superado o esquematismo inicial do modelo, que concebia o
processo de comunicação como uma via de mão única e a audiência como um alvo
facilmente atingido pela mídia. The Payne
Fund Studies (WOLF, 1994: 38; MATTELART, 1999: 52; McQUAIL, 1997:18),
realizado nos Estados Unidos em 1933, é
considerado o primeiro exemplo de estudo sobre os efeitos diretos, o qual
focava a influência do cinema sobre a juventude, explorando diferentes aspectos
desta influência.
Modelos
subseqüentes reagiram contra o dos efeitos diretos e se preocuparam mais com o
uso dos meios, concebendo a audiência como mais ou menos ativa e motivada a
usar/ consumir os meios de acordo com sua experiência e não como simples
vítimas deles. Por isso, as pesquisa focalizavam a origem, a natureza e o grau
dos motivos de tal e qual seleção de meios e conteúdos, além de darem
oportunidade para a audiência expor seu próprio comportamento.
A pesquisa de
usos e gratificações, segundo a classificação de McQuail (1997: 18), não é
estritamente uma pesquisa comportamental, porque enfatiza a origem social das gratificações e as
funções sociais mais amplas dos meios, como facilitar o contato e a interação
social ou reduzir a tensão e a ansiedade. Baseada
na sociologia funcionalista, que retrata os meios de comunicação como a serviço
das necessidades da sociedade, o ponto de partida da análise
concentra-se nas necessidades, motivos e circunstâncias individuais, como
relaxamento, informação, construção de identidade, ajustamento social etc.
(idem:70).
O terceiro tipo
de pesquisa, ou seja, a sócio-cultural,
como a anteriormente apresentada, também está na fronteira entre as humanidades
e as ciências sociais, e sua ênfase encontra-se no contexto particular dos
membros da audiência, ou seja, no lugar a partir do qual dão significado ao que
os meios transmitem (McQUAIL, 1997: 66). Aqui podem estar localizados tanto os
estudos culturais quanto a análise da recepção (segundo terminologia de JENSEN
e ROSENGREN, 1990), os quais enfatizam o uso dos meios num determinado contexto
sociocultural, bem como identificam o processo de produção de sentido entre
experiência da(s) audiência(s) e produtos culturais.
A ênfase da
perspectiva sócio-cultural é mostrar
as diferentes interpretações dadas por diferentes grupos e também as diferenças interpretativas entre emissores
e receptores. Na base destes pressupostos está a corrente dos estudos culturais
que ganhou força a partir dos anos 80 ao dedicar-se ao estudo da mídia, em
especial através do modelo de
codificação/decodificação, proposto por Stuart Hall ([1973] 2003), o qual axiomaticamente vê a mensagem
dos meios como polissêmicas e aberta à variadas interpretações, em um processo
contínuo.
Stuart Hall
chegou a este modelo desafiando alguns pressupostos do estruturalismo e da
semiologia, para os quais o significado pertenceria ao domínio do emissor ao
escolher entre um sentido denotativo ou conotativo da linguagem, sendo esta a provedora dos significados
socioculturalmente compartilhados. Para ele, os comunicadores codificam as
mensagens com propósitos ideológicos, manipulando os meios e a linguagem com
este fim. Assim, o processo de comunicação seria originado em uma instituição
midiática, a qual codificaria mensagens, de acordo com um padrão de
significados estabelecidos e reconhecidos como tal, em conformidade com um
gênero específico (notícias, telenovelas, entre outros), cuja gramática guiaria
a interpretação de uma audiência. Este conteúdo oferecido pelo meio seria
apropriado pelos grupos específicos da audiência nos termos de suas próprias
“estruturas de significado” (McQUAIL e WINDAHL, 1996:147).
De resto, McQuail concorda com as
considerações apresentadas por Jensen e Rosengren (1990), com exceção da distinção entre análise da recepção e
estudos culturais, pois para ele os primeiros não passam de um braço dos
últimos, e não de uma tradição independente, como também considera Gomes
(2003). Na verdade, quando mais tarde Jensen (2000) adota o critério do uso de
metodologia qualitativa ou quantitativa para categorizar as distintas
abordagens da audiência, essa corrente – análise da recepção – também
desaparece, no entanto, não é o caso da avaliação de 1990 quando a tipologia é
criada mediante a origem disciplinar – ciências sociais ou humanas, aqui
apresentada.
Por
sua vez, na tentativa de mapear a emergente perspectiva dos estudos
interpretativos da audiência, Robert White (1994) também raciocina em termos de
tradições disciplinares, identificando-as em quatro: tradição anglo-americana
dos estudos culturais críticos, tradição americana do interacionismo simbólico,
tradição dos estudos culturais consensuais e a mais recente tradição, a qual
tem interesse pela cultura popular, onde localiza as pesquisas
latino-americanas, assunto do próximo capítulo.
[1] Para detalhamento dessas perspectivas ver Wolf (1994:77) e Jensen (2000), em especial o capítulo 9 – Media effects – Quantitative traditions.
[2] Seguindo essa visão, os críticos mais contundentes dizem que esse é um modelo que jamais existiu ou que é uma "não-tradição" (CHAFFE e HOCHHEIMER apud WOLF, 1994: 33) nos estudos de comunicação.
[3] Lasswell publicou em 1927 o resultado desses estudos no livro Propaganda Technique in the World War, onde analisava os principais temas da propaganda norte-americana, francesa, inglesa e alemã.
[4] Aqui, o termo condutista assume o mesmo sentido que behaviorista: teoria psicológica sobre o comportamento humano, desenvolvida nos Estados Unidos, no início do século passado, fundada no princípio estímulo-resposta.
[5] Produzido, em 1938, por Orson Welles, tendo como base a obra de H.G. Wells.
[6] Publicado em português na coletânea organizada por Gabriel Cohn (1a edição 1971)
[7] Segundo McQuail e Windahl (1996:14), em 1958, Braddock, um dos pesquisadores que desenvolveu este modelo, acrescentou mais dois elementos: sob que aspecto? e com que propósito?.
[8] Para expandir a questão, ver Kuhn (1992).
[9] Conceito introduzido mais tarde pelo viés da Cibernética , segundo McQuail e Windahl (1996:18), através de Melvin DeFleur. Para maiores detalhes sobre o modelo cibernético e suas repercussões nas ciências sociais e nos estudos da linguagem, ver Fiske (1990:7-23).
[10] Claude Shannon e seu colaborador Warren Weaver trabalhavam para a Bell Telephone Laboratories no desenvolvimento de tecnologia específica para aumentar a eficiência dos canais de comunicação.
[11] Como veremos adiante pergunta feita pelos estudos qualitativos da audiência é “qual a relação que se estabelece entre o indivíduo e os meios?” (OROZCO, 1991:53).
[12] No Brasil, Itania Gomes (2003) referenda, de forma forte, essa posição.
[13] Marcado pela publicação da coletânea “The uses of mass communication”, organizado por J. G. Blumler e E. Katz, 1974.
[14] Levantamento quantitativo de dados, em geral através de questionários ou formulários. No Brasil chama-se enquete.
[15] Exceção feita aos trabalhos de I.A. Richards e seu grupo (Ver ZILBERMAN, 1989).
[16] No cenário brasileiro, Itania Gomes (2003)
desconsidera o aporte da análise literária apontada por Jensen e Rosengren
(1990) ao propor outra classificação para o estudo da relação entre audiência e
meios. No âmbito internacional, McQuail
(1997) também a considera irrelevante
para seus propósitos, ao contrário da argentina Saintout (1998) que dá grande
relevância à contribuição da tradição literária, seguindo parcialmente a
classificação de Jensen e Rosengren como os demais.
[17] Noção emprestada de Hans G. Gadamer.
[18] Segundo Zilberman (1989:24) o nome desta corrente ainda não tem tradução para o português.
[19] Segundo Culler (1999:119), o new criticism surgiu nos Estados Unidos, nos 30/40, “fazendo oposição à erudição histórica praticada nas universidades (...), tratava os poemas como objetos estéticos e não como documentos históricos e examinava as interações de seus traços verbais e as complicações decorrentes do sentido ao invés da intenções e circunstâncias históricas de seus autores”.
[20] Zilberman (1989) inclui na perspectiva sociológica as pesquisas realizadas na Escola de Bordéus, em especial os trabalhos de Robert Escarpit e seu grupo.
[21] Três textos são
fundantes dos estudos culturais: Hoggart, R. As utilizações da cultura – Aspectos da vida cultural da classe
trabalhadora. Vol I e II. Lisboa, Editora Presença, 1973; Williams, R. Cultura e sociedade, 1780-1950. São
Paulo, Nacional, 1969 e Thompson, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro, Paz e Terra,
1987 (2a ed.)
[22] Para um debate entre a matriz britânica e a versão latino-americana ver ESCOSTEGUY, 2001.
[23] Foi o diretor do CCCS de 1968 a 1979, substituindo Hoggart, seu fundador.
[24] Ver Hall (2003, p387-404).
[25] Por esta razão Itania Gomes (2003) acredita que esta não é uma tradição.
[26] Para uma visão mais ampla desta perspectiva ver Crema, 1989.
[27] Esta técnica é denominada painel.
[28] John Fiske (1990: 135-136) prefere classificar a teoria dos efeitos, a dos usos e gratificações e os estudos culturais como métodos empíricos.