APRESENTAÇÃO
Penny Rimbaud, cujo nome verdadeiro é Jeremy John Ratter, foi idealizador, baterista e letrista da grupo inglês Crass, formado em 1977 e extinto em 1984. Seria realmente muito pouco chamar o Crass de uma banda de rock, uma vez que o próprio grupo afirmava estar preocupado com idéias não com rocknroll. Suas atividades iam muito além de uma música estranha e original. Ao longo desses anos, além de viverem em comunidade e chegarem a fazer no melhor estilo faça você mesmo desde a capa de seus discos manualmente até o pão que eles comiam, além de criarem um selo independente e próprio que lançou outros grupos underground, eles se envolveram com diversos tipos de atividades subversivas: ocupações de diversos tipos, protestos, sabotagens, pichações, arrecadação de fundos para abrir centros anarquistas, e uma quantidade de atividades que levariam algumas páginas para descrever. A influência e a importância desse grupo nos anos 80 fez com que, no seu catálogo, a distribuidora de material anarquista americana AK Press afirmasse que o Crass "quase sozinho trouxe de volta à vida o moribundo movimento pacifista e anarquista". Se pode parecer um exagero em relação ao mundo, no entanto não o é em relação à Inglaterra. As idéias e o espírito contido nas suas letras sem dúvida também acrescentaram ao anarquismo, não apenas como panfletos, mas como reflexão. Um melhor exemplo da arte como resistência, como revolta, como destruição e construção, como inspiração. Exemplo da prática anarquista sem a ambigüidade burguesa de uma vida pública e uma vida privada. Nesse texto Rimbaud conta a história da morte de um amigo deles, acontecimento marcante na (pré) história desse grupo de pessoas.
O ÚLTIMO DOS HIPPIES: UM ROMANCE HISTÉRICO
Nesta cela que é nossa, não há nenhuma piedade,
nenhum amanhecer na planície fria que é nossa alma,
nenhum acenar a um horizonte morno.
Toda a beleza nos ilude e nós esperamos.
' Nenhuma resposta é em si mesma uma resposta. '
Provérbio oriental.
No dia 3 de setembro de 1975, Phil Russell, aliás Phil Hope, aliás Wally Hope, aliás Wally, sufocou até a morte no próprio vômito;
Amora-preta, pudim, bílis, que corre da sua boca entreaberta sobre os delicados traços do tapete ornamental.
Ele morreu um homem assustado, fraco e cansado; seis meses antes ele era determinado, feliz, e excepcionalmente saudável; só levou aquele pequeno período de tempo para o Departamento de Saúde do Governo da Sua Majestade reduzir Phil a um cadáver coberto de vômito.
"No primeiro sonho que me lembro eu estava segurando a mão de um homem mais velho, examinando um vale bonito e calmo - de repente uma raposa saiu do mato seguida por cães de caça e fortes cavalos montados por caçadores com casacos vermelhos.
O homem apontou para o vale e disse, 'Lá, meu filho, é onde você está liderando. ' Eu logo o descobri, eu sou a raposa "!
Phil Russell, 1974.
A morte de Phil marcou, para nós, o fim de uma era. Junto com ele morreu o último grão de confiança que nós, ingenuamente, tínhamos tido no 'sistema', as últimas sementes de esperança que, se nós vivêssemos uma vida decente baseada em respeito no lugar do abuso, nosso exemplo poderia ser seguido por aqueles na autoridade.
Claro que era um sonho, mas a realidade é baseada em mil sonhos do passado; foi tão tolo querermos acrescentar o nosso para o futuro?
* * *
Se o poder do protesto tinha encolhido, o poder do rock não demonstrava ter esse coração lânguido. Pelo meio dos anos sessenta, o rocknroll dominava e nenhuma conferência de partido iria derrubá-lo. A juventude tinha achado sua voz e exigia cada vez mais que essa voz fosse ouvida.
Alto, dentro daquela voz, havia uma que prometia um mundo novo, novas cores, dimensões novas, tempo novo, e espaço novo. Karma imediato, e tudo por conta do ácido.
" Meu conselho para as pessoas hoje é o seguinte: Se você leva o jogo da vida a sério, se você leva seu sistema nervoso a sério, se você leva seus órgãos sensoriais a sério, se você leva o processo de energia a sério, você deve se ligar, pirar, e cair fora ".
Profeta do ácido, Timothy Leary.
A sociedade ficou chocada. Pais desesperados afastavam-se da sua ninhada que caía no mundo da fantasia. Relatos histéricos de que o ácido causava de tudo, de azia até o colapso total da sociedade decente, aparecia quase que diariamente na imprensa. Sociólogos inventaram a 'geração vácuo', e quando o estranho cabeludo lançou um sinal V a eles, captaram tudo errado como sempre; aquilo era realmente um sinal de paz, mas, acabou significando também caia fora[fuck off]. No canto cinzento tínhamos a sociedade normal, e no canto arco-íris o sexo e drogas e rocknroll, pelo menos assim era como a mídia via. O símbolo da CND foi adotado como um emblema pelas legiões sempre crescentes de fãs de rock cuja mensagem de amor e paz se alastrou, como uma pradaria em fogo, pelo mundo inteiro. A mídia, na sua desesperada necessidade de rotular e assim conter qualquer coisa que ameace exceder seu controle, nomeou este fenômeno de 'Hippy', e o sistema, do qual a mídia é o instrumento número um na luta contra a mudança, começou de forma transparente, mas todavia de modo efetivo, a desacreditar esta nova visão.
* * *
Pelo fim dos anos sessenta, a sociedade conservadora estava começando a se sentir ameaçada pela sua juventude; ela não queria suas cinzentas cidades pintadas de arco-íris, a revolução psicodélica estava parecendo um pouco real demais e tinha que ser freada.
Livros foram proibidos, livrarias fecharam. Escritórios e centros sociais foram destruídos e os arquivos removidos, sem dúvida para alimentar os computadores da policia. Jornais e revistas alternativas desmoronaram debaixo do peso da pressão oficial; galerias e cinemas tiveram apresentações inteiras confiscadas. Artistas, escritores, músicos, e incontáveis hippies não identificados foram levados aos tribunais para responder a acusações forjadas de corrupção, obscenidade, abuso de droga, e qualquer coisa que pudesse silenciar suas vozes; mas nada poderia fazê-lo, tudo aquilo tinha significado muito.
Com a opressão se tornando cada vez mais pesada, o funcionário público 'bobby' ficou conhecido como o inimigo público 'piggy'[porco]; a guerra tinha sido declarada à geração da paz , mas o amor não ia ceder sem lutar.
* * *
"Nós somos uma geração de obscenidades. A maioria dos oprimidos neste país não são os negros, não são os pobres, mas a classe média. Eles não têm nada contra o que se revoltar e lutar. Nós teremos que inventar novas leis para quebrar... a primeira parte do programa de yippy é matar seus pais... até você estar preparado para matar seus pais você não está pronto para mudar este país. Nossos pais são nossos primeiros opressores ".
Jerry Rubin, líder do Yippies (os hippies militantes), falando na Universidade do Estado de Kent, E.U.A..
Um mês após a fala de Rubin, a universidade estava em alvoroço. Os estudantes, a maioria brancos e de classe média, a fim de mostrar objeção contra o modo que o campus e o país estavam sendo dirigidos, organizaram inumeráveis manifestações e trouxeram abaixo parte da universidade. As autoridades chamaram o exército para 'restabelecer a paz, coisa que eles fizeram na verdadeira moda do exército matando a tiros quatro estudantes.
"Depois que o tiroteio parou, eu ouvi gritos e virei e vi um sujeito ajoelhado, segurando a cabeça de uma garota nas mãos dele. O sujeito estava gritando, grunindo, chorando, histericamente. Esses porcos nojentos, eles atiraram em você".
Um estudante de Kent depois dos tiroteios.
O sistema chegou em primeiro. O que Rubin não tinha contado, embora o passado deveria ter sido uma lição para ele, era que os pais estariam mais preparados para matar suas crianças do que para aceitar mudanças.
"Mãe: Qualquer um que apareça nas ruas de uma cidade como Kent de cabelo comprido, roupas sujas, ou descalço merece levar um tiro.
Pergunta: Cabelo comprido é uma justificativa para atirar em alguém?
Mãe: Sim. Nós temos que limpar esta nação, e nós começaremos pelos cabeludos.
Pergunta: Você permitiria que um de seus filhos levasse um tiro simplesmente por ele estar descalço?
Mãe: Sim."
Uma mãe falando depois das mortes em Kent.
Os dias de poder da flor terminaram; os porcos estavam a pastar nos prados.
"Eu estou muito orgulhoso de ser chamado de porco. Isso representa orgulho, integridade, e coragem ".
Ronald Reagan
Ao final dos anos sessenta, em todo o ocidente, o 'povo' tinha retornado às ruas. O sonho estava se misturando com o pesadelo. Na França, o governo foi quase subvertido por estudantes anarquistas; na Holanda, o Provos ridicularizou a política convencional; na Alemanha, Baader-Meinhof se vingou num estado ainda dirigido por velhos nazistas; na América, a paz se tornou um assunto mais importante do que a guerra; na Irlanda do Norte, os católicos demonstraram uma necessidade por direitos civis; na Inglaterra, faculdades e universidades foram ocupadas, embaixadas enfrentaram tormentas. Pessoas pediam em todos os lugares uma vida sem medo, um mundo sem guerra e exigiam uma liberdade das autoridades que durante anos elas não haviam admitido como algo quase inexistente. O sistema, durante um tempo longo demais, tinha levado tudo da sua maneira. Entre as próprias pessoas, porém, uma hostilidade existente há muito estava ficando evidente os interesses conflitantes do anarquismo e socialismo.
Discordâncias aparte, o movimento para mudança continuou. Anarquista, socialista, ativista, pacifista, classe trabalhadora, classe média, negro, branco pelo menos uma coisa uniu a todos, uma causa comum, um fator universal, uma bandeira compartilhada o bom e velho rocknroll.
No fim dos anos sessenta, Woodstock na América, e Glastonbury na Inglaterra, criaram uma tradição do rock que agora se tornou uma parte do nosso modo de vida o festival livre. Música livre, espaço livre, mente livre; pelo menos assim, como o era uma vez, é como o conto de fadas começa.
Muitos dos confrontos entre as autoridades e os movimentos dos jovens no fim dos anos sessenta e no início dos anos setenta era, falando em termos gerais, de uma natureza política, plataformas de esquerda em função de descontentamento social mais do que demandas anárquicas individuais pelo direito de viver as suas próprias vidas. Os festivais livres eram celebrações anarquistas de liberdade, ao invés de manifestações socialistas contra opressão e, como tal, apresentaram às autoridades um problema novo como parar as pessoas de se divertirem? A resposta deles era previsível espanque-os.
O parque de Windsor é um dos muitos jardins da Sua Majestade. Quando os hippies decidiram que era um local ideal para um festival livre, ela não achou graça. O primeiro Windsor Free foi um acontecimento razoavelmente calmo, quieto, e as autoridades mantiveram pouco conhecimento sobre ele. No ano seguinte as coisas foram diferentes e os convidados não desejados da Rainha foram removidos violentamente pela polícia, e os corgis reais ficaram, sem dúvida, perfeitamente aliviados, livres uma vez mais para vagar imperturbados. À frente das forças que se confrontavam naquele ano, diferentemente vestido em nada, além de um par de calças jeans desbotadas e uma reluzente camisa bordada, blasonada com a simples mensagem 'Esperança'[Hope], estava um Phil Russell. Ele dançou entre as filas de policiais perguntando, "Que tipo de cavalheiros são vocês?" ou tirando sarro, "Que homens gentis e amáveis vocês são". Os garotos de farda provavelmente eram homens, mas eles não eram amáveis nem gentis. Phil veio de longe do distúrbio de Windsor; ele odiova violência e estava mal pelo que tinha visto. Amor? Paz? Esperança? Foi logo após este fato que nós nos encontramos pela primeira vez.
Por muitos anos nós tínhamos mantido uma casa aberta, tínhamos o espaço e sentíamos que deveríamos compartilhá-lo. Nós queríamos um lugar onde as pessoas pudessem se reunir para trabalhar e viver em uma atmosfera criativa em lugar de um sufocante e sob olhares ambiente familiar, no qual todos nós estivemos expostos. Era inevitável que alguém como Phil fosse consequentemente passar pelo nosso caminho.
Phil Hope era um guerreiro hippy sorridente e bronzeado. Os olhos dele eram da cor dos céus azuis que ele amou, o seu cabelo nitidamente cortado era o ouro do sol que ele adorou. Ele era orgulhoso e correto, anárquico e selvagem, pensativo e poético. As idéias dele eram uma mistura estranha dos pensamentos das pessoas que ele admirava e das pessoas com quem ele havia convivido. Os árabes dançarinos. Os camponeses cipriotas. Os nobres masais. Os silenciosos e tristes índios norte-americanos, para os quais ele sentia uma verdadeira proximidade de espírito.
Phil viajou o mundo e conheceu pensadores parecidos com ele em todo lugar que ele parou, mas sempre ele retornava à Inglaterra. Talvez tenha sido esse seu amor pelo passado mítico, Rei Arthur e seus Cavaleiros, que o trazia de volta, ou talvez ele sentisse como nós, que a verdadeira mudança só pode ser efetuada no lugar que você mais compreende o lar.
Phil poderia falar e falar e falar. A metade do que ele falava parecia pura fantasia, a outra metade pura poesia. Ele tinha o dom de um tipo estranho de magia. Um dia em nosso jardim, era verão cedo, ele suplicou por um nevasca, flocos brancos enormes caíram entre as margaridas no gramado. Outro vez ele criou um céu de multi-arco-íris; era como se ele tivesse picado um arco-íris e tivesse lançado pedaços no ar que se penduraram fortuitamente em estranhas formas. Olhando de novo para isso agora, parece inacreditável, mas, do mesmo modo, eu posso me lembrar ambas ocasiões vividamente.
No nosso primeiro encontro ele descreveu Windsor Free; nós sempre havíamos evitado festivais, portanto nosso conhecimento deles era muito limitado. Phil esboçou as histórias e então detalhou as suas idéias para o futuro. Ele procedeu a desdobrar o que era, para nós, um plano absurdo. Ele queria reivindicar Stonehenge de volta (um lugar que ele considerava sagrado para as pessoas e roubado pelo governo) e fazê-lo um local para festivais livres, música livre, espaço livre, mente livre; pelo menos, como o felizes para sempre, é como os contos de fadas são contados.
É triste que nenhuma dessa 'liberdade' fosse visível quando nós tentamos tocar no Festival de Stonehenge dez anos depois. Desde a morte de Phil, tinha sido um sonho um dia tocarmos no festival como um tipo de memória a ele. Em 1980 nós tivemos a banda e a oportunidade para isto.
Nossa presença em Stonehenge atraiu várias centenas de punks para os quais a cena de festivais era uma novidade, eles, em troca, atraíram interesse de várias facções para os quais o punk era igualmente novo. A atmosfera parecia calma, e quando o crepúsculo caiu milhares das pessoas se juntaram ao redor do palco para escutar a música da noite. De repente, sem motivo aparente, um grupo de bikers atacou violentamente o palco dizendo que eles não iriam tolerar punks no festival deles. O que se seguiu foi uma das experiências mais violentas e assustadoras de nossas vidas. Bikers armados com garrafas, correntes e porretes, ficavam de olho em volta do local atacando perversamente qualquer punk que eles vissem. Não havia onde se esconder, nenhum lugar para fugir; durante toda a noite nós tentamos nos proteger e a outros punks aterrorizados pela violência demente deles. Havia gritos de terror assim que pessoas eram arrastadas para a escuridão para serem dadas lições de paz e amor; não havia esperança em salvar alguém, porque, na escuridão da noite, era impossível serem achados. Enquanto isso, o encontro predominantemente hippy, perdido no suave obscuro da sua estonteante realidade, permaneceu inconsciente de nosso destino.
Semanas depois um informativo hippy defendia os bikers dizendo que eles eram um grupo anarquista que tinha entendido mal nossas propostas um mal entendido! Alguns anarquistas!
Se Phil e os primeiros festivais de Stonehenge foram nossos primeiros flertes com a verdadeira cultura hippy, este provavelmente foi nosso último.
Hippies cheios de sonho era um fenômeno do início dos anos setenta, almas perdidas cujos cérebros foram governados mais por narcóticos e ácidos que por bom senso. Eles geralmente eram enfadonhos, fofocando sobre como as coisas iriam ser de um jeito tão realístico como a neve descrevendo como ela sobreviverá ao sol do verão. Por todas as suas estranhas idéias, Phil parecia diferente. As drogas, para ele, não eram algo para conseguir uma fuga, mas uma comunhão com uma realidade de cor e esperança que ele ativamente trouxe de volta ao mundo de opacidade e desespero. Ele usava drogas cuidadosamente e criativamente, não para 'fuga', mas para ajudar a perceber 'uns meios de fuga'.
Em muitos aspectos nós nunca poderíamos ter sido descritos como hippies. Depois da quantia habitual de experimentação, nós tínhamos rejeitado o uso de drogas porque sentíamos que elas confundiam o pensamento e geralmente interferiam nos relacionamentos ao invés de contribuírem a eles.
Nós tínhamos aberto nossa casa num período em que muitos outros estavam fazendo o mesmo. O denominado movimento de comunas era o resultado natural de pessoas como nós desejando criar vidas de cooperação, entendimento, e compartilhamento. A moradia individual é uma das causas mais óbvias para a enorme escassez de casas, a vida comunal é uma prática solução para o problema. Se pudéssemos aprender a compartilhar nossas casas, talvez nós pudéssemos aprender a compartilhar nosso mundo, e esse é o primeiro passo na direção de um estado de sanidade.
A casa nunca foi um lugar para as pessoas caírem fora (fugirem), nós queríamos algum lugar onde as pessoas pudessem cair dentro e perceberem que determinando seus próprios tempos e espaços elas poderiam criar suas próprias propostas e razões e, mais importante, as suas próprias vidas. Nós quisemos oferecer um lugar onde as pessoas pudessem ser algo que o sistema nunca lhes permitira ser elas mesmas. Em muitos aspectos éramos mais próximos da tradição anarquista do que da hippy, mas, inevitavelmente, havia uma interação.
Nós compartilhávamos o desgosto de Phil com a sociedade conservadora, uma sociedade que dá mais valor à propriedade que às pessoas, que respeita a riqueza mais do que produz sabedoria. Nós apoiávamos a visão dele de um mundo onde as pessoas tomassem do estado o que o estado tinha roubado das pessoas. Squatting [ocupação] como uma proposta política tem suas raízes neste modo de pensar. Por que devemos pagar pelo que é legalmente nosso? De quem é este mundo?
Talvez ocupar Stonehenge não fosse uma idéia tão ruim.
* * *
Phil sempre voltava à casa com planos novos. O seu entusiasmo era infeccioso e finalmente nós concordamos em lhe ajudar a organizar o primeiro Festival de Stonehenge, Solstício de Verão, junho de 1974.
"Rei Arthur então chamou com uma voz alta, 'Onde aqui antes de nós o cão de caça pagão, que matou nossos antepassados, agora marchamos nós até eles... e enquanto nós vamos até eles, eu mesmo à frente de toda a luta que eu começarei.'"
'Brut' Layamon
Pelo começo de 1974 tínhamos imprimido milhares de folhetos e cartazes para o festival e Phil tinha enviado centenas de convites para celebridades variadas tais como o Papa, o Duque de Edinburgh, os Beatles, os British Airways air hostesses, e os Hippies of Katmandu. Desnecessário dizer que não muitos convidados apareceram na data designada, mas Phil estava contente que uma quantidade variada de poucas centenas de hippies haviam aparecido.
Durante nove semanas, Phil e aqueles que se prepararam para desafiar o verão cada vez mais úmido, se juntaram em resistência no velho monumento de pedra, assistidos, em uma crescente confusão, pelos seus guardiães.
Fumaça de lenha dragada no úmido ar noturno, fumaça cinzenta contra pedras cinzentas. Chamas saltitantes iluminavam os contadores de histórias que se sentavam, esguichos de arco-íris na paisagem clara, revelando contos de como é que este fogo foi acendido neste lugar, dessa vez, fora da terra.
"Nossa geração é o melhor movimento de massa da história experimentando qualquer coisa em nossa procura por amor e paz. Conhecimento, pontapés, religião, vida, verdade, até mesmo se nos conduz a nossa morte, pelo menos nós estamos todos tentando juntos. Nosso templo é o som, nós lutamos em nossas batalhas com música, tambores como trovão, címbalos como raio, mesas de equipamento eletrônico como projéteis nucleares de som. Temos guitarras em vez de metralhadoras ".
Phil Russell, 1974.
A revolução do rocknroll, diariamente, a conversa rolou, a chuva caiu e se este ano só havia um toca fitas velho e danificado para atirar os sons, ano que vem seria melhor.
Consequentemente, o Departamento do Meio Ambiente, mantenedores dos guardiães do velho monumento de pedras, advertiram os 'Wallies do Stonehenge' para se retirarem da propriedade governamental. Os vários habitantes da fortaleza haviam acordado que, se as autoridades interviessem, eles só responderiam pelo nome de Wally; nome originado de um cachorro que foi perdido e muito procurado após o festival da ilha de Wight muitos anos atrás. As cômicas intimações contra Phil Wally, Sid Wally, Chris Wally, etc. foram importantes na construção da cena para o julgamento absurdo que se seguiu nos Altos Tribunais de Londres.
Sindicâncias do governo são usadas freqüentemente para levar o público a pensar que algo positivo está sendo feito sobre situações onde o sistema foi visto andando fora da linha. Estes gestos simbólicos permitem às autoridades cometerem crimes cruéis contra as pessoas sem que sofram nenhuma ameaça real de represália. A tática foi empregada em casos de violações do exército e da polícia em Belfast, Brixton, etc.; violações ambientais como vazamentos de radiação letais de estações de energia como Windscale em Cumbria; ordens de compra compulsórias, roubo oficial, em terras para autoestradas, aeroportos e mais usinas nucleares, todas as quais são mais prováveis de serem parte de planos governamentais para o evento da guerra nuclear do que ser para a conveniência do público; outros enganos como corrupção de funcionários governamentais, o mau-trato de presos em prisões e casas mentais, violência de professores em escolas, sempre que, de fato, as autoridades precisem de um cobertura para as suas atividades.
Os governantes sabem muito bem que eles e as autoridades para quem eles têm dado poder, diariamente cometem crimes contra o público, e a menos que eles sejam expostos por este mesmo público, que com justiça poderia temer pelo seu próprio bem-estar, nada é feito.
Em casos onde o público se dá conta do comportamento indesculpável das autoridades, o governo inicia seu próprio inquérito para 'investigar' o assunto. Algo 'aparece' sendo feito e a violenta e crédula maioria silenciosa fica satisfeita que a justiça esteja feita. O fato cru porém, é que o governo não terá feito nada além de ter produzido e imprimido alguns Documentos Brancos que dificilmente alguém lerá e que ninguém tomará conhecimento. Enquanto isso os crimes oficiais continuam, sem obstáculos.
* * *
Wally Hope veio de Windsor machucado e deprimido. Uma vez mais ele havia dançado entre os garotos de azul* em uma vã tentativa para acalmá-los com o seu humor e o seu amor ele havia sido espancado pelo seu empenho.
"Eu vi a polícia arrastando para fora um menino jovem, socando-o e chutando-o. Eu vi uma mulher grávida ser chutada na barriga, e um pequeno menino sendo batido na face. Em toda parte a polícia estava simplesmente batendo nas pessoas. Eu me dirigi até um policial que há pouco tinha arrancado com um soco um dente de uma mulher e o perguntei por que ele tinha feito isto. Ele me xingou e mandou eu ir embora se não eu teria o mesmo. Mais tarde, eu fui".
Observador desconhecido de Windsor.
Fleet Street amou isto, não tinha havido nenhum assassinato, estupro, guerra, ou 'desastre natural' propriamente desagradável, assim os Wallies, com o seu líder Phil Wally Hope, se tornaram as estrelas disponíveis da semana. Os heróis sorridentes apareceram diariamente nas páginas dos jornais, fazendo sinais de paz e pregando o poder do amor, próximo aos peitos e bundas daquele dia; uma velha mensagem em um novo cenário.
Tendo perdido o caso e sendo ordenado a desocupar imediatamente o local, Wally Hope alegremente deixou a sala do tribunal para encarar os repórteres a sua espera anunciando, "Nós ganhamos, nós ganhamos. Todo mundo nos ama, nós ganhamos ". Todo mundo estava, se não apaixonado, certamente confuso por Wally e sua afirmação. Todos iguais, por um dia ou dois, os Wallies foram uma boa cópia. De certo modo eles tinham ganho, eles tinham se mudado, mas há sempre o ano que vem e uma tradição tinha nascido. De certo modo eles tinham ganho, mas o sistema não gosta de ser feito de bobo; a tradição tinha agora se tornado um dos únicos grandes festivais livres anuais. Assim, de certo modo eles tinham ganho, mas Wally Hope tinha empurrado um espinho no lado do sistema e o sistema não ia lhe deixar escapar novamente com ele.
De Stonehenge os Wallies em retirada se mudaram para Windsor. Neste ano o festival atraiu o maior número de pessoas de todos. Dezenas de milhares de pessoas vieram assegurar que a Sua Majestade Real permanecesse sem meditar, e ela em troca estava esperando no disfarce de uma volumosa presença da polícia. Tensão entre as duas facções existiu desde o começo e consequentemente as coisas explodiram quando a polícia organizou um ataque maligno de manhã cedo aos sonolentos participantes do festival. Centenas de pessoas foram feridas enquanto a polícia batia fortuitamente e brutalmente em qualquer um azarado bastante para estar no caminho deles. As pessoas foram arrastadas das suas barracas para serem tratadas em um café da manhã de botas e abuso. Hippies protestando foram retirados da espera de Black Marias para serem insultados, intimidados, espancados e incriminados.
As mídia alegou estar chocada e o governo ordenou um inquérito público, nenhum dos quais fez muito para melhorar a condição das centenas de pessoas feridas.
* * *
Wally Hope, após a festa, tinha acabado. Pouco a pouco, nós estávamos aprendendo. Os dias de poder da flor tinham acabado, os porcos estavam a pastar nos prados. Nossos pais, ou pelo menos seus servidores públicos, são nossos primeiros opressores. As margaridas estavam sendo comidas. O pesadelo estava se tornando realidade.
"Onde estão hoje as muitas tribos poderosas de nosso povo? Elas têm desaparecido antes da cobiça e opressão do Homem Branco, como neve antes do sol de verão".
Chefe indígena.
As coisas não parecem mudar muito. Nós deveríamos ter sabido. Pouco a pouco, estávamos aprendendo.
No inverno daquele ano Wally começou a trabalhar no segundo Festival de Stonehenge; cartazes, folhetos, convites. Dessa vez ele teve o questionável sucesso do primeiro festival para mostrar, dessa forma o trabalho foi mais fácil. O boca a boca sempre foi uma ferramenta poderosa do underground, e logo as pessoas estavam falando sobre como elas iriam contribuir para fazê-lo dar certo.
Wally gastou muito dos primeiros dois meses de 1975 entregando folhetos em e ao redor de Londres. Vestido no seu uniforme de combate, uma estranha mistura de roupa de exército médio-oriental e tartanas escocesas, e dirigindo o seu carro listado de arco-íris acabado com uma tenda indígena inteira uma grande barraca de multi-suportes amarrada ao teto ele era um chamativa e colorida visão, uma visão que aqueles mais cinzentos do que ele, em aparência e pensamento, certamente não esqueceriam. Em maio, ele deixou nossa casa para ir para Cornwall; tínhamos feito tudo que podíamos para preparar o festival, e Wally quis descansar na sua tenda indígena até o seu início. O dia da sua partida foi brilhante; nos sentamos no jardim bebendo chá, com Wally glorificando o sol dourado, fazendo serenata para nós, tudo isso com uma performance selvagem nos seus tambores tribais. Ele era saudável, feliz, e confiante que dessa vez ele ganharia novamente.
Tão logo o carro colorido de arco-íris se afastou de nossa casa, Wally se inclinou através da janela e deixou sair um grito enorme, algo entre um grito de guerra indígena e as palavras liberdade e paz, ele estava muito longe para ser ouvido direito.
A próxima vez que nós o vimos, aproximadamente um mês depois, ele tinha perdido muito peso, a pele dele estava branca e desagradavelmente inchada, ele estava fraco, nervoso, e quase incapaz de falar. Se sentou com a cabeça projetada no tórax, a língua correndo pelos lábios como se estivesse procurando a face ao qual havia pertencido um dia. Os olhos cheios de lágrima tinham afundado, entorpecidos e mortos, dentro do crânio, como alguma máscara estranha de Dia das Bruxas. As mãos dele tremiam constantemente do mesmo modo que fazem as de homens velhos num dia frio de inverno. O sol o qual ele adorava tinha escurecido para ele, ele estava impossibilitado de agüentar sua luz ou seu calor. De vez em quando ele produzia olhares aflitos, involuntários, ao redor do jardim cercado, no qual nós nos sentávamos. Ocasionalmente nossos olhos seguiriam os dele e sempre eles se encontraram com outros olhos mais sinistros vigiando-nos através das linhas perfeitas dos nítidos gramados verdes cortados. Wally Hope foi um prisioneiro em um dos Hospitais Psiquiátricos da Sua Majestade, um homem sem futuro além do deles. Dessa vez, ele não estava ganhando.
Poucos dias após Wally ter nos deixado ele foi preso pela posse de três tabletes de ácido. A polícia montou uma busca na casa onde ele havia parado para dormir dizendo que eles estavam procurando um desertor do exército. Então aconteceu que enquanto eles estavam procurando o desertor eles decidiram, sem nenhuma razão, olhar o bolso do casaco de Wally. Claro que eles não tinham notado o carro colorido de arco-íris do lado de fora, nem sabiam eles do fato que o dono daquele casaco era o gozador hippy anarquista que tinha feito de idiota os tribunais somente um ano antes, ou que ele era o mesmo caráter colorido que tinha estado entregando folhetos sobre Stonehenge 2 nas ruas de Londres só alguns dias atrás. A polícia não nota coisas assim; afinal de contas, o trabalho dela é pegar fictícios desertores de exército.
Considerando que a maioria das pessoas receberia uma grande sacudida do meganha e uma pequena multa, foi negada fiança a Wally e ele foi mantido em prisão preventiva. Lhe foi negado o uso de telefone ou papel e caneta, assim ele não teve como deixar as pessoas no lado de fora saberem o que tinha acontecido com ele. As pessoas da casa em que ele foi preso não fizeram nada para ajudá-lo, presumivelmente porque elas temeram tratamento semelhante das autoridades. Ele estava só e terrivelmente mal preparado para o que ia lhe acontecer.
Depois de vários dias na prisão, ele apareceu para a revista vestindo pijamas e reclamando que a roupa da prisão, a qual ele era obrigado a usar, estava lhe dando alergia. Ao invés de sugerir o simples remédio de permitir que ele usasse as suas próprias roupas, o carcereiro, claramente um perito em assuntos médicos, lhe enviou ao médico da prisão o qual, na sua infinita sabedoria, não teve nenhuma dificuldade em diagnosticar o problema como esquizofrenia.
"Só porque eles dizem que você é paranóico, não significa que você não esteja sendo seguido ".
Desconhecido sábio hippy.
Desde o início dos tempos, a doença mental tem sido uma poderosa arma política contra aqueles que buscam, ou operam uma mudança social. Muitas definições de loucura são falsas invenções pelas quais se torna possível que aqueles na autoridade possam descartar aqueles que ousam questionar a realidade deles. Termos como esquizofrenia, neurótico e paranóico, significam pouco mais do que qualquer indivíduo particular, ou não tão particular, escolhe como significado para eles. Não há nenhuma prova física para quaisquer destes estados; as definições variam de psiquiatra para psiquiatra e dependendo do que é considerado indesejável ou subversivo, são totalmente diferentes de um país para outro. Por causa destes diferentes padrões, as chances de ser diagnosticado esquizofrênico na América são muito mais altas do que na Inglaterra, o que levou um psiquiatra a sugerir que a melhor cura para muitos pacientes mentais americanos seria pegar um vôo para a Inglaterra. O rótulo de doença mental é um método de lidar com indivíduos, de parentes mal-quistos a críticos sociais, que, por não aceitarem as condições que lhes são impostas por estranhos, são vistos como transtorno e encrenqueiros.
Os trabalhos de psicólogos, notadamente Freud, Jung, e a escola de pervertidos que seguem suas lições, têm, por isolar 'estados mentais' e definir alguns deles como estados de loucura, excluído todos os tipos de possíveis desenvolvimentos do modo no qual nós vemos, ou poderíamos ver, nossa realidade. Permitindo as pessoas aprender das suas experiências denominadas de loucura em lugar de as castigar por isto, novos caminhos radicais de pensamento poderiam ser percebidos, perspectivas novas criadas, e horizontes novos alcançados. De que modo mais a mente humana tem crescido e se desenvolvido? Quase todos o principais avanços na sociedade foram feitos por pessoas que são criticadas, ridicularizadas, e freqüentemente castigadas na sua própria época, sendo somente homenageadas como grandes pensadores anos após suas mortes. Tão logo a saúde mental e física se torna cada vez mais controlável com drogas e cirurgia, chegamos cada vez mais perto de um mundo de quase talhados e quimicamente processados Sr. e Sra. Normal cuja única pretensão na vida é servir acefalamente o sistema; o progresso cessará e os fodedores de mentes terão ganho as suas batalhas contra o espírito humano.
Uma vez rotulado de 'louco', um paciente pode ser sujeitado a uma grande gama de terríveis torturas educadamente designadas pelo Serviço de Saúde Nacional como curas. Eles são amarrados em cintos e arreios, camisas de força, assim os seus corpos são feridos e os seus espíritos espancados. São presos em celas acusticamente isoladas de forma que o som da própria batida dos seus corações e o cheiro das suas próprias fezes os transformam em animais passivos. São forçados a tomar remédios que os tornam robôs-zumbis. Um efeito colateral comum do tratamento longo com estas drogas é o severo inchamento da língua; a única cura efetiva é a cirurgia a língua é cortada fora qual modo melhor para silenciar o profeta? Lhes são dados choques elétricos na cabeça que causam desorientação e perda de memória. A terapia TEC, terapia de eletroconvulsão, é uma idéia adotada dos matadouros, onde antes de ter as gargantas cortadas, os porcos são atordoados com uma forma idêntica de tratamento; TEC é uma forma primitiva de castigo que tem mais a ver com as tradições dos caçadores de bruxa do que com as tradições da ciência. A última 'cura', tour de force da profissão psiquiátrica, é a lobotomia. Vítimas desta obscena brincadeira têm facas aderidas nas cabeças que são balançadas fortuitamente, de modo que aquela parte do cérebro é reduzida à carne moída.
Cirurgiões que executam esta operação não têm nenhuma idéia precisa do que eles estão fazendo; o cérebro é um objeto inacreditavelmente delicado sobre o qual muito pouco é conhecido, contudo estes açougueiros se sentem qualificados para cutucar facas na cabeça das pessoas na convicção de estarem executando serviços científicos. Freqüentemente os pacientes que passam por este tratamento morrem dele; os que não morrem nunca poderão esperar se recuperar do estado de estupidez que foi deliberadamente imposto neles.
São executadas experiências asquerosas diariamente em animais e humanos em nome do avanço médico; não há nenhum modo de dizer quais terríveis novas formas de tratamento estão neste momento sendo inventadas para nós nos milhares de laboratórios em todo país. Na Alemanha Nazista, os presos dos campos da morte eram usados como 'porcos da índia' para testar novos produtos por companhias farmacêuticas. Hoje em dia as companhias, algumas das quais são as mesmas, usam presos em prisões e hospitais para o mesmo propósito.
Os pacientes mentais estão constantemente sujeitos à ignorância do estado e do público em geral e, como tal, são talvez as pessoas mais oprimidas no mundo. Em todas as sociedades há milhares e milhares de pessoas presas em asilos por fazerem nada mais do que questionar valores impostos; dissidentes excluídos pelo rótulo de louco e silenciados, freqüentemente para sempre, pela cura.
Foi prescrito a Wally doses massivas de uma droga chamada Largactil a qual ele era fisicamente e às vezes violentamente forçado a tomar. Drogas como Largactil são largamente usadas não somente em hospitais mentais, mas também em prisões onde oficialmente seu uso não é permitido. O tratamento de esquizofrenia do médico da prisão reduziu Wally a um estado de desamparo, e até a época em que ele foi levado novamente aos tribunais, ele estava tão fisicamente e mentalmente confinado nas drogas induzidas e na camisa de força que ele era totalmente incapaz de compreender o que estava acontecendo, sem poder oferecer qualquer tipo de defesa para si próprio.
Quando finalmente tivemos notícias de Wally, uma carta quase incompreensível que parecia como se tivesse sido escrita por uma criança de cinco anos, ele havia sido levado da prisão pelos tribunais, onde ele foi separado sob o Ato de Saúde Mental de 1959, e submetido, por um tempo indefinido, a um hospital mental.
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A separação, ou hospitalização compulsória, é um método pelo qual as autoridades podem encarcerar qualquer um que dois médicos estejam preparados para diagnosticar como louco. Não é difícil, naturalmente, achar médicos dispostos, já que hospitais-prisão são crivados com perigosos mercenários que, depois de ter afundado no fundo da sua profissão, estão dispostos a obrigar.
Uma vez separado, o paciente perde todos os direitos humanos 'normais', pode ser tratado de qualquer forma que os médicos achem adequado e, porque uma apelação contra a decisão do tribunal é quase impossível, não permanece nenhuma chance de liberação até a cura ser certificada por esses mesmos médicos.
Recentemente a Inglaterra foi forçada pelo Tribunal Europeu de Direitos Humanos a permitir aos pacientes, prisioneiros, o direito para apelar contra a hospitalização compulsória. Embora isto possa parecer ser uma melhoria em relação a como era na época de Wally, os pacientes ainda têm que esperar seis meses antes que a apelação seja ouvida, tempo no qual, como no caso de Wally, eles estão sujeitos a serem tão incapacitados pelo tratamento recebido, que o procedimento de apelação seria impossível de ser levado adiante por eles.
A separação permite ao estado tirar qualquer um das ruas e os encarcerar, indefinidamente, sem que qualquer crime tenha sido cometido; isto habilita o estado, dentro dos códigos de lei, a torturar e mutilar prisioneiros sem sofrer nenhum medo de exposição.
A hospitalização compulsória é a última arma de nosso estado opressivo, uma lembrança horrenda da falta de escrúpulos até a qual o sistema descerá a fim de controlar o indivíduo. Considerando que a bomba é uma ameaça comunal, a separação viola conceitos de direitos humanos em sua ameaça direta à liberdade pessoal de pensamento e ação.
Quando ouvimos falar do destino de Wally, estávamos convencidos que a experiência o destruiria; alguns de nós, realmente, estavam convencidos que as autoridades pretendiam destrui-lo. Inevitavelmente, nós fomos assegurados por conhecidos liberais de que estávamos apenas sendo paranóicos sobre as intenções do estado; esses mesmos liberais dizem o mesmo sobre qualquer um dos horrores da moderna sociedade tecnológica, da bomba a sistemas de computador, os quais eles têm medo de confrontar, assim como esta sociedade e eles mesmos. Paranóia ou não, nós fizemos esforços, primeiro legalmente, depois ilegalmente, para garantir a liberação de Wally. Todas as nossas tentativas falharam.
Passamos dias no telefone contatando pessoas que achávamos que poderiam nos ajudar ou nos aconselhar. A ajuda mais útil e compassiva veio de organizações como Liberação ou BIT, grupos subterrâneos, alguns dos quais ainda existem hoje em dia ajudando pessoas com todos os tipos de problemas, de sem-tetos a presos. Críticos da geração hippy fariam bem em lembrar que a maioria dessas organizações, e livrarias alternativas, editoras, lojas de comida, cafés, casas de apresentações, etc., ainda funcionam, para o benefício de todos nós, através daqueles mesmos hippies; talvez estejam velhas, mas, por causa dos enormes esforços que muitos deles fizeram para dar à esperança uma chance, não estão caducas.
Achamos que a apelação era tão boa quanto impossível e percebemos que, de qualquer forma, seguir 'procedimentos normais' poderia levar meses, e até lá nós achávamos que seria muito tarde. Contratamos um advogado para agir do lado de Wally, mas o hospital o impossibilitou de contactar Wally; cartas nunca chegaram e chamadas de telefone provaram-se inúteis. O paciente sempre estava descansando e as mensagens eram retransmitidas incorretamente para ele.
Quando tentamos visitar Wally no hospital, fomos informados que ninguém além dos parentes próximos dele poderiam o ver. O pai dele tinha morrido e a mãe dele e a irmã, nenhuma das quais teria qualquer coisa a ver com ele, estavam no estrangeiro. Jogando com a chance de que os funcionários do hospital soubessem pouco sobre a família dele, um de nós, se dizendo irmã de Wally, finalmente ganhou acesso ao hospital. O propósito da visita, aparte de simplesmente querer ver Wally, era planejar um jeito de seqüestrá-lo de forma que ele pudesse ser levado a algum lugar onde ele pudesse se recuperar da sua provação.
Em nossa segunda visita, dois de nós puderam o ver sem despertar suspeita. Esperávamos finalizar o plano do seqüestro, porém o encontramos em um estado tão ruim que nos fez concluir que poderia causar-lhe algum dano ter que lidar com os tipos de movimentos que tínhamos planejado.
O que nenhum de nós percebeu na ocasião, era que o seu estado era resultado direto do tratamento que lhe estava sendo dado, ao invés de ser sintoma de enfermidade mental. As tristes semi-pessoas que se arrastam e que podem ser vistas pelas grades de qualquer hospital mental estão assim não por causa da enfermidade que elas supostamente têm, mas por causa das curas a que elas estão sendo sujeitadas. O estereótipo social do tolo de capa de chuva cinza é uma desfiguração insípida mais digna de um filme B do que de uma sociedade civilizada. Esse estereótipo é forçado, cirurgicamente ou quimicamente, por um sistema de desprezo sobre o paciente, cuja aparência retardada e sem vida é usada, por este mesmo sistema, para provar a sua enfermidade.
Desde sua entrada no hospital, Wally estava recebendo pílulas para curar sua doença e injeções para contra-atacar os efeitos colaterais das pílulas. Naturalmente, ele escondia as pílulas em baixo de sua língua e as cuspia depois. As injeções eram inevitáveis, os enfermeiros do hospital eram na maioria homens consideravelmente mais fortes que Wally, assim, recusas educadas não eram muito usadas, mas em todo caso, como elas eram para curar os efeitos colaterais, elas no fundo não importavam. O que nem ele nem nós soubemos era que o pessoal do hospital havia mentido deliberadamente a ele sobre qual remédio era aquele. O resultado era que as injeções, de uma droga chamada Modecate, a qual ele estava recebendo doses volumosas acima das recomendadas pelos fabricantes, estava criando sérios efeitos colaterais que não estavam sendo tratados. Deveria ter sido óbvio para o pessoal do hospital que algo estava errado, eles devem ter percebido que Wally estava cuspindo as pílulas, mas isso, afinal de contas, era parte da 'cura' deles ele estava sendo transformado em um retardado sem mente.
Enquanto isso, Stonehenge 2 aconteceu. Neste ano milhares de pessoas apareceram e durante mais de duas semanas as autoridades não puderam parar as festividades. Fogueiras, barracas e tendas indígenas, barracas de comida livre, palcos e bandas, música, e magia. Bandeiras agitaram e pipas planaram. Crianças desnudas brincaram nos bosques, miniaturas de Robin Hoods celebrando sua pobreza material. Grupos de cachorros latindo roubavam excitadamente pedaços de pau das incontáveis pilhas de lenha, e depois deitavam e rolavam sobre ela, como trouxas de pele. Dois gentis cavalos foram amarrados a uma árvore e assistiram caladamente as festividades através de uma luz salpicada que dançava em seus corpos. Velhos homens barbudos se agacharam em tocos de árvore murmurando orações para os seus deuses pessoais. Grupos pequenos de pessoas sopravam o fogo sobre os quais caçarolas borbulhavam e o pão assava, uma mistura muito rica de cheiros se misturando pelo ar morno. Grupos de pessoas musculosas surgiram à procura de madeira e água, sempre acompanhadas por uma fila de crianças rindo e imitando. Em todos os lugares havia canto e dança. Flautas indígenas teciam estranhos padrões de som ao redor da canção dos pássaros sempre presentes. A batida de tambores ecoava o baque oco de machado em madeira. Velhos amigos encontraram novos, corpos enlaçados, mãos tocadas, mentes expandidas e, em um ponto minúsculo em nossa terra, amor e paz tinham se tornado uma realidade. Apenas dez milhas abaixo na estrada, Wally Hope, o homem cuja visão e o duro trabalho tinham feito aquela realidade possível, estava sendo enchido de venenos na escuridão de uma cela de hospital.
Alguns dias após a última pessoa ter deixado o local do festival, Wally era, sem advertência, liberado. Os homens cinzentos tinham mantido o sorridente, bronzeado, guerreiro hippy, longe do seu festival e agora, tendo efetuado a cura deles, lançaram destroços nervosos algaraviando sobre as suas ruas cinzentas.
Wally levou dois dias para dirigir o seu carro colorido de arco-íris do hospital para nossa casa. Setenta milhas em dois dias, dois dias de terror. Ele se encontrava incapaz de dirigir durante qualquer tempo que fosse e teve que parar por horas a fio para recuperar a sua confiança. Ninguém soube da sua libertação, e talvez para restabelecer algum tipo de dignidade, ele estava determinado a fazê-lo sozinho. Quando ele chegou finalmente à nossa casa ele estava em pior estado do que quando nós tínhamos o visto no hospital; ele mal era capaz de caminhar e até mesmo as mais simples tarefas eram impossíveis para ele. Afinal, é difícil acreditar que ele pôde dirigir essas setenta milhas. Esta pálida sombra da pessoa que tínhamos uma dia conhecido agora achava agoniante se sentar ao sol, a sua face e mãos inchariam deformando-se. O sol que ele adorou era agora toda a escuridão para ele. À noite ele iria deitar na sua cama e chorar; quietos, soluços desesperados que iriam até o amanhecer, quando ele iria finalmente dormir. Nada parecia ajudar o seu estado patético. Tentamos lhe ensinar a caminhar corretamente de novo, mas ele era incapaz de se coordenar, e o seu braço esquerdo balançaria para frente com a sua perna esquerda, a sua direita com a sua direita. Às vezes nós éramos capazes de rir, mas o riso sempre levava a lágrimas. Não podíamos entender e estávamos com medo.
Finalmente, em desespero, levamos Wally para um médico amigo que diagnosticou o seu estado como sendo dyskinesia crônica, uma doença causada por overdoses de Modecate e drogas semelhantes. Wally tinha sido transformado em um repolho, e pior, um incurável.
Pouco a pouco, a percepção de que ele havia sido sentenciado a viver em um meio-mundo de idiotice induzida pela droga, construiu seu espaço no que foi deixado do cérebro de Wally. No dia três de setembro de 1975, incapaz de enfrentar outro dia, esperando talvez que a morte pudesse oferecer mais a ele do que o foi deixado em vida, Wally Hope tomou uma overdose de pílulas para dormir e sufocou até a morte no vômito que elas induziram.
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No tempo relativamente pequeno que possuímos nesta terra provavelmente temos contato com milhares de pessoas com quem compartilhamos pouco mais do que meios sorrisos e conversas educadas. Temos sorte se entre esses milhares de rostos um verdadeiramente nos responde com mais que formalidades previsíveis. Verdadeiros amigos são raros, verdadeira compreensão entre pessoas é difícil alcançar e quando é alcançada é a mais preciosa de todas as experiências humanas.
Eu tive sorte nisso, eu sou uma parte de um grupo de pessoas que considero como amigos e com quem eu posso compartilhar uma sensação de realidade e trabalho a partir de uma visão compartilhada do futuro. Eu conheci muitas pessoas cujo único propósito, por causa do seu próprio cinismo e falta de objetivo, parece ser evitar que pessoas como nós expressem nosso próprio sentido de nossa própria vida; Vejo pessoas como essas, como as sombras escuras que fizeram nosso mundo tão incolor.
Wally era um gênio. Eu não posso pretender ter gostado dele completamente, ele era de longe muito exigente para se gostar, mas eu o amei. Ele era o caráter mais colorido que eu encontrei, uma pessoa que teve um sentido fundo de destino, e nenhum medo de procurá-lo. Se os amigos são raros, pessoas como Wally realmente são muito muito raras. Eu não suponho que eu vá conhecer alguém como ele novamente; ele era um mágico, místico, visionário que demonstrou mais para mim sobre o significado da vida que todos os cinzentos ninguéns que sempre existiram poderiam esperar conseguir. Wally era um indivíduo, pura energia, uma grande luz de prata que lustrou a escuridão, que por ser amável, gentil e amoroso, foi visto, por essas pessoas cinzentas, como uma ameaça, uma ameaça que eles sentiam que deveria ser destruída.
Wally não era louco, não um doido, não um maluco, ele era um ser humano que não quis aceitar o mundo cinzento que nos é dito como sendo tudo que nós deveríamos esperar em vida. Ele quis mais e teve a intenção de conseguir isto. Ele não via por quê nós deveríamos ter que viver como inimigos um do outro. Ele acreditava, como fazem muitos anarquistas, que as pessoas são basicamente amáveis e boas e que são as restrições e limitações que são forçadas sobre elas, às vezes violentamente, por sistemas desprezadores, que criam o mau.
"O que é o mau senão o bom torturado por sua própria fome e sede "?
Phil Russell, 1974.
Wally Hope teve a força e a coragem das suas próprias convicções, mas como nós, era terrivelmente mal informado sobre os funcionamentos do estado. Ele exigiu o direito de viver a sua própria vida e conheceu a resistência selvagem. Ele foi morto por um sistema que acredita que tem a razão. É este sistema e centenas como ele, que oprimem milhões de pessoas pelo mundo. Opressão de esquerda na Polônia, ou opressão direitista na Irlanda do Norte, qual é a diferença?
As prisões e hospitais mentais do mundo estão cheios de pessoas que nada fazem além de discordar das normas aceitas do estado no qual elas vivem. Dissidentes russos são heróis americanos, dissidentes americanos são os heróis russos; a caldeira simplesmente fica mais escura. Para derrotar o opressor, temos que aprender seus modos, caso contrário estamos condenados, como Wally, a sermos silenciados por seu punho.
Wally buscou paz e criatividade como uma alternativa para a guerra e destruição. Ele era um anarquista, um pacifista e, acima de tudo, um individualista, mas por causa das vezes na qual ele viveu ingenuamente, e por ter morrido inocentemente, ele foi rotulado um 'hippy'.
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No tribunal do juiz investigador de morte suspeita, o policial responsável pela investigação da morte de Wally despediu-se com uma sentença sarcástica, "Ele pensava que era o Jesus Cristo, não?" Wally certamente não se pensava desse modo, mas julgando pela maneira que o estado lidou com ele, eles sim, pensavam. O mesmo inspetor disse ter entrevistado, completamente, todo o mundo que teve contato com Wally da época da sua prisão até sua morte. Embora tivéssemos visitado Wally duas vezes no hospital e ele tivesse ficado depois conosco durante mais ou menos duas semanas, este guardião da lei não tinha entrado nenhuma vez em contato conosco. As poucas testemunhas chamadas, obviamente tinham sido selecionadas cuidadosamente para construírem a linha oficial. Entre elas estava um dos médicos que tinha sido responsável pelo tratamento de Wally. Ao longo da sua declaração ele contou mentira atrás de mentira e então, em lugar de ser sujeitado ao possível embaraço de um interrogatório, foi recordado pelo juiz que ele não deveria perder o seu trem sinal com a cabeça e piscadinha.
O tribunal passou um veredicto de suicídio sem nenhuma referência ao tratamento apavorante que tinha sido a causa direta do suicídio. Nós ruidosamente protestamos do fundo da sala do tribunal os homens cinzentos simplesmente receberam nossas objeções com sorrisos de escárnio.
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A morte de Wally e o modo fraudulento que as autoridades lideram com ela, nos levou a passar o próximo ano fazendo nossas próprias investigações sobre o que tinha exatamente acontecido desde que ele nos deixou naquele dia quente em maio. Nossos inquéritos nos convenceram que o que tinha acontecido não havia sido um acidente. O estado tinha pretendido destruir o espírito de Wally, se não sua vida, porque ele era uma ameaça, uma ameaça destemida que eles esperavam poder destruir sem muito risco de problemas.
A história era uma rede de pesadelo de decepção, corrupção, e crueldade. Wally tinha sido tratado com completo desprezo pela polícia que o prendeu, pelos tribunais que o condenaram, e pela prisão e pelo hospital que o mantiveram prisioneiro. Nossos inquéritos nos conduziram para longe do caso de Wally; como tínhamos tentado chegar à verdade em todas as situações, fomos apresentados a inumeráveis novos cursos e direções a seguir. Fomos puxados cada vez mais profundamente em um mundo de mentiras, violência, cobiça e medo. Nenhum de nós estava preparado para o que descobrimos; o mundo começou a parecer como um lugar muito pequeno e escuro.
Achamos evidências de encobrimentos de assassinato, de polícia envolvida com gangues, de apreensão e encarceramento indevidos com acusações forjadas e falsa evidência. Nós aprendemos sobre o horroroso abuso, físico e mental, de prisioneiros em presídios e hospitais mentais; médicos que conscientemente prescreviam quantidades para envenenar, que eram incapazes de ver os danos infligidos, por cortesia dos funcionários da Sua Majestade, no corpo de um preso guardas e policiais que interrogam são instruídos para que batam debaixo da cabeça, onde as feridas não serão vistas pelos parentes na visita. Nós aprendemos sobre guardas que, dia após dia, jogavam os presos um contra o outro e conseguiam bons negócios em troca de materiais e favores sexuais. Nós aprendemos sobre enfermeiras em hospitais mentais que deliberadamente administravam as drogas erradas para pacientes só para ver o que acontecia; que, a pontapés, amarravam os pacientes às camas e então os atormentavam. A linha oficial de que o propósito das prisões é 'reformar' e de que hospitais mentais é curar, é uma total decepção o propósito é castigar; cru, cruel, e simples castigo.
Além do mundo de polícia, tribunais, prisões, e asilos, nós enfrentamos o talvez até mesmo mais adoecedor mundo exterior. Dentro deste mundo pessoas respeitáveis, inteligentes e seguras, trabalham diariamente para manter a mentira. Elas sabem sobre o abuso e crueldade, elas sabem sobre a desonestidade e corrupção, elas sabem sobre a completa falsidade da realidade na qual elas vivem, mas elas não ousam se voltar contra isto porque, tendo investido tanto das suas vidas nisto, elas estariam se voltando contra elas mesmas, assim elas permanecem caladas a silenciosa, violenta, maioria.
Embaixo das superfícies brilhantes do cabelo nitidamente penteado e das meias perfeitas, de carros polidos e dos fogões ariados, do pub da sexta-feira e da ocasional igreja no domingo, da família bem planejada e melhor planejado futuro, da riqueza e segurança, do poder e glória, estão os verdadeiros fascistas. Eles sabem, mas eles permanecem calados.
"Primeiro eles vieram aos judeus e eu não disse nada - porque eu não era um judeu. Então eles vieram aos comunistas e eu não disse nada - porque eu não era um comunista. Então eles vieram aos sindicalistas e eu não disse nada - porque eu não era um sindicalista. Então eles vieram a mim - e não havia mais ninguém para dizer nada por mim ".
Pastor Niemoeller, vítima do Nazismo.
Elas permanecem caladas quando as janelas da casa do outro lado da rua são quebradas e as paredes emplastradas com abuso racista. Caladas quando elas ouvem os passos à noite e a batida de portas e o soluço dos que estão do lado de dentro. Agora, talvez, um sussurro, o sussurro mais quieto, "Eles são os judeus você sabe" - ou Católicos, Índios Ocidentais, Paquistaneses, Índios, Árabes, Chineses, Irlandeses, Ciganos, Homossexuais, Aleijados, ou qualquer grupo minoritário, em qualquer sociedade, em qualquer lugar elas só sussurram uma vez isto antes do calor da colcha importada que cai, acalmar a culpabilidade quase acidental delas. Caladas novamente quando elas os ouvem serem levados para a escuridão. Caladas, quando através da névoa fria de manhã, elas ouvem os caminhões de gado rolarem. E quando elas ouvem falar das covas, das prateleiras, dos fornos, dos milhares mortos e dos milhares que morrem elas permanecem caladas. Contra todas evidências, contra tudo aquilo que elas sabem, elas permanecem caladas, porque a convenção decreta que elas devem permanecer assim. Silêncio, segurança, complacência, e convenção as raízes do fascismo. O silêncio delas é a parte delas na violência, uma voz enorme e poderosa, voz silenciosa de aprovação a voz do fascismo.
Não é a Frente Nacional ou o Movimento Britânico que representa a ameaça direitista; eles, como o dinossauro, são tudo corpo e nenhum cérebro e por causa disso se tornarão extintos. É no público em geral, na sua vontade de se curvar à autoridade, que posa a ameaça do verdadeiro fascismo. Fascismo está tão nos corações das pessoas como nas mentes dos seus líderes potenciais.
As vozes do silêncio, às vezes, quase fizeram nossas investigações impossíveis. A maioria respeitável estava muito preocupada com sua própria segurança para querer arriscar aborrecer as autoridades nos contando o que elas sabiam. Elas sabiam e nós sabíamos que elas sabiam, mas isso não fez diferença elas permaneceram caladas.
Do enorme arquivo de documentação que nosso inquérito produziu, nós compilamos um livro longo da vida e morte de Wally Hope. Durante os inquéritos recebemos ameaças de morte de várias fontes e fomos visitados várias vezes pela polícia que nos deixou sabendo que eles sabiam o que nós sabíamos e que eles queriam que nós... permanecêssemos em silêncio.
Nos sentíamos sós e vulneráveis. Finalmente nossos nervos se fizeram ouvir e numa manhã de primavera, um ano e meio após a morte de Wally, lançamos o livro e quase toda a documentação sobre uma fogueira e assistimos as chamas saltarem ao perfeito céu azul. Phil Russell estava morto.
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Como quase toda a documentação que tínhamos de Phil foi queimada, este artigo foi escrito em grande parte de memória. Como resultado, alguns dos detalhes exatos, períodos exatos de tempo, etc., podem estar ligeiramente incorretos. O resto da história é verdadeira e precisa.
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Ao longo do era hippy, nós tínhamos defendido a causa da paz, alguns de nós estiveram nas primeiras marchas da CND e, com tristeza, assistido o movimento ser corroído pela ambição política. Ao longo do período cair fora e fora polícia nós nos agarramos na convicção de que a mudança real só poderia ocorrer pelo exemplo pessoal, por causa disto nós rejeitamos muito da cultura hippy, notadamente a ênfase nas drogas, como sendo nada mais que escapismo. É triste que muitos punks pareçam estar recorrendo aos mesmos meios de fuga enquanto na sua hipocrisia cega eles acusam os hippies de nunca terem feito nada nem irão estes novos profetas do impraticável.
Esperávamos que através de uma demonstração prática de paz e amor, poderíamos pintar o mundo cinzento em cores novas; é estranho que ele tenha levado um homem chamado Hope [Esperança], o único hippy verdadeiro' com quem nós diretamente nos envolvemos criativamente, para mostrar para a gente que aquela particular forma de esperança era um sonho. As experiências para as quais nossa curta amizade conduziram nos fizeram perceber que era tempo para repensar o modo pelo qual nós deveríamos procurar nossa visão de paz. A morte de Wally nos mostrou que para isso não poderíamos nos dar ao luxo de sentar e deixar acontecer novamente. Em parte, sua morte era nossa responsabilidade e embora nós tivéssemos feito tudo o que podíamos, não era o bastante.
O desejo por mudança tinha que vir junto com o desejo para trabalhar por isto, se foi valoroso se opor ao sistema, era valoroso se opor totalmente. Não era mais bom o bastante pegar o que nós quiséssemos e rejeitarmos o resto, era tempo de voltar às ruas e atacar, voltar e compartilhar nossas experiências e aprender com as de outros.
Um ano depois da morte de Wally, os Pistols lançaram Anarquia no Reino Unido, talvez eles na verdade não estivessem falando sério, mas para nós era um grito de guerra. Quando Rotten proclamou que não havia nenhum futuro, nós vimos isto como um desafio à nossa criatividade sabíamos que havia um futuro se estivéssemos preparados para batalhar para tanto.
É o nosso mundo, é nosso e foi roubado de nós. Nós partimos atrás para pedi-lo de volta, somente por volta desta época eles não nos chamaram de hippies, eles nos chamaram de punks.
Penny Rimbaud, Londres, Jan/Mar., 1982.
Tradução: Leo