A RELEVÂNCIA DO HARDCORE NOS DIAS DE HOJE

 

Eu ainda me lembro com definitiva clareza os tempos que hardcore punk era uma coisa marginal e/ou incompreensível. E não digo isso como alguém que viveu o punk dos anos 80, mas como alguém que das gangues de punks sabe pouco mais do que histórias. Também presenciei algumas brigas e fugi vez ou outra dos lugares onde as bandas dos punks velhos estavam tocando, porque eu não conhecia todos os discos do Extreme Noise Terror. Já não era uma coisa tão violenta, de qualquer forma. As coisas estavam começando a mudar.

E hoje os shows que eu vejo são muitíssimo diferentes dos que eu via há 7 ou 8 anos atrás, é claro. Os shows de hoje são diferentes inclusive entre si. Mas entre 3 ou 4 bandas punks que juntam sua aparelhagem num boteco ou no dce de alguma universidade e as bandas que vendem centenas de ingressos antecipados e lotam casas de show, entre esses mundos existe em comum a evidência de que hardcore punk se popularizou, tornou-se degustável e tomou as mais diversas formas. Se isso é ou não uma ameaça ao status quo, ao capitalismo ou qualquer sistema ou forma de pensamento dominante, ou mesmo se isso é importante para alguma dessas tantas "cenas" é uma outra questão.

A principal aqui é que a sua mãe não acha mais tão estranho (embora ainda possa achar um pecado) alguém de roupa rasgada, tatuagens e toda a indumentária punk que quase não choca mais ninguém. Já é aceitável e, dentro de certas compreensões da musica punk, incentivado que seu filho tenha uma banda e faça rock. Punk rock.

Pode ser que até aqui eu tenha feito uma análise mais plástica e estética da coisa, mas essa passagem superficial serve apenas de introdução para o que eu acho mais importante pra responder a questão que me foi proposta: Qual a relevância do hardcore nos dias de hoje? Bom, eu entendo que a pergunta é qual a importância disso para o mundo fora do hardcore, mas antes é preciso entender que proporções os estilos de vida, de produção, de comunicação e relacionamento agregados a isso tomaram nas vidas particulares, e dentro de um todo que possa ser reconhecido como cena hardcore.

Nós vivemos num país pobre e a produção hardcore também é determinada pelas regras de uma economia pobre. O preço da produção, da gasolina do carro ou do ônibus que leva ao ensaio, ao aluguel do estúdio, o preço das cordas, dos instrumentos, até os custos do disco em si, são altos em relação ao que as pessoas ganham ou podem gastar, ainda que você seja punk o bastante pra considerar que hardcore é coisa de burguês. No fim, o preço dos cd’s e dos shows precisa ser barato, para que alguém possa consumir, e algumas vezes isso não é o bastante para cobrir os custos ou para manter as pessoas trabalhando dentro disso, com algumas exceções. Mas ainda sobre essas condições, o que se observa é uma superação das condições econômicas e um crescimento do consumo, da participação e da produção dentro do hardcore, ocorrendo inclusive um estranho processo onde as diferentes "cenas" se dividem e se unem a todo momento. Ninguém mais parece intimamente ligado (daí o fim das crews ou do sentimento de pertencer a uma cena), como ninguém está distante ou isolado de todo o resto.

O crescimento que nada contra a corrente é evidenciado pelo número de bandas que pululam por todos os cantos, os cd’s que você não sabe mais de onde vem, os shows que são marcados com meses de antecedência e muitas vezes, em muitas cidades, até dois ou três no mesmo dia, e as turnês de bandas nacionais e gringas começando a formar rastros pelas estradas esburacadas e concessionadas do país. Confesso que é um processo que eu não consigo entender... Mas parece que o hardcore é a nova onda do momento. Você pode pensar que as bandas agregadas a grandes gravadoras, com espaço em veículos da mídia de massa ou simplesmente com um bom trabalho e divulgação, anos de estrada e milhares de discos vendidos estão empurrando pra cima. Tudo isso pode ser. Mas eu penso que existe alguma coisa dentro da ética e do modo de viver o hardcore punk que é diferente dos outros estilos que também estiveram em voga e foram atrativos em outros tempos. Essa coisa talvez seja o diferencial quando o rock não for mais hardcore, se isso acontecer.

Um pouco disso está no próprio relacionamento entre as bandas e entre as pessoas envolvidas com isso. Não existe uma grande distância. Felizmente não existe. Você que sobe ao palco está o tempo todo em contato com as pessoas que pagaram pra te ver e as pessoas que não estão em bandas podem estar fazendo outras coisas, muitas outras coisas além de organizar o show. O hardcore punk envolve mais do que a produção da música e sua comercialização. Envolve a produção e a comercialização de muitas outras coisas (inclusive coisas que eu não sei porque diabos são vendidas nos shows) e a produção de nossa própria informação. Os fanzines, tomados de assalto pela agilidade da Internet, são sem dúvida uma prática importante nesse modo próprio de funcionar o hardcore punk. A possibilidade de qualquer pessoa documentar, comunicar, opinar em seu próprio fanzine/site/blog, a inexistência de uma mídia de massa monopolizando o que é ou não é legal. Afinal, quem realmente se guia pelas matérias de jornais sobre os jovens excêntricos do punk rock ou sobre as dicas da mtv? Eu acho que pouca gente, depois de ir em 2 ou 3 shows e saber que existem canais diretos de comunicação e que você pode conhecer um milhão de bandas mais legais e inclusive que é mais legal poder falar com elas.

Bom, aumentando o número de pessoas que vão aos shows e compram discos e fazem a economia punk girar (tanto melhor quanto menos esse dinheiro for pra fora), aumentam as possibilidades das pessoas produzirem coisas dentro disso. É certo que por inúmeras vezes a lógica é invertida e as pessoas passam a montar bandas e escrever músicas pelo fim de continuarem fazendo isso... e as letras de protestos soam todas iguais (e surpreendentemente piores que as das bandas de 20 anos atrás) e os sentimentos que antes eram espontaneamente vomitados se tornam plásticos e sem vida, dentro de um formato multicolorido com cheiro de shopping center.

Mas eu acredito na coisa sendo feito pela coisa. Eu li um texto do diretor da Trama, que definitivamente não é um selo punk rock, dizendo o seguinte: "Não havia uma gravadora no inicio dos tempos e um artista foi lá pedir emprego. Havia sim, desde sempre, artistas e ao redor deles foi criado um negócio. Toda vez que essa seta for invertida teremos problemas graves. Nossa atividade deve ser pautada pela música de verdade e não pelo marketing de mentira. Diante de tudo isso, só posso ver com alegria e entusiasmo a construção dessa nova indústria da música independente." Caralho, se o diretor de uma gravadora comercial, por mais alternativa que seja, disse isso, porque alguém precisa se maquiar pra subir no palco e tocar guitarras sem um puto de emoção, sabendo que isso não vai deixar ninguém milionário? Na boa, duas ou três bandas vão ganhar dinheiro com isso. Com sorte, o resto vai ganhar o bastante pra continuar fazendo. Então, tira a estrelinha ai de cima.

Indignações à parte (cada um ouve e faz o que quer) eu acredito em tudo o que pode ir junto com a correnteza que empurra a nossa música para um mar de pessoas loucas pra fugir do tédio e da rotina, de seus trabalhos e obrigações, das imposições da família e da feia estética burguesa. Acredito na base profunda que trabalha independente do que acontece ou vai acontecer com o hardcore punk da rádio, porque é a única coisa a se fazer, e que aproveita o momento para criar laços, uma comunidade, aprimorando os modos de se fazer uma coisa séria, firme, estruturada e economicamente viável. Eu acredito em todos os valores que estão intimamente ligando o hardcore como uma forma contra-cultural e política, valores que levam o Nofx a gravar um disco contra o governo dos Eua e a Epitaph a doar milhares de dólares para o Centro de Mídia Independente e outras organizações. Eu acredito na história do punk. Nas pessoas se organizando hoje em centros sociais, squats, coletivos, apoiando movimentos e indo a protestos. Eu vejo o que as bandas punks inspiraram nos países onde isso existe há mais tempo e vejo os alicerces se formando embaixo dos meus pés. Essa é a base que muda as nossas vidas, em primeiro lugar. E esta mudança é o que nos permite ter condições de atuar e interferir no mundo, junto com tantos outros movimentos e organizações populares.

Isso não vai parar.

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