Davos, 2001, Suíça. Uma cidade sitiada, transformada em fortaleza para proteger os participantes do Fórum Econômico Mundial de manifestantes. Entre os helicópteros, os rolos de arame farpado e as metralhadoras, raios laser escrevem: "mantenham o diálogo". Sobre esta clemência dos que estão no poder para que os manifestantes deixem a ação direta e sentem para conversar, supõe-se já de ante-mão que a ação direta é realmente a tática efetiva. Sobre este tema se relacionam os três textos que seguem.
Pego nas redes da decepção: os anarquistas e a mídia
de Killing King Acabus
Uma vez que a presente ordem social existe, será impossível evitar a interação com as várias facetas da estrutura de poder. Aqueles(as) de nós que se autodenominam anarquistas precisam escolher tornar essas interações claramente antagonistas e conflitantes, refletindo nosso desejo de destruir completamente a estrutura de poder. Tal escolha requer conhecimento do inimigo. Quase tod@s @s anarquistas reconhecem que o estado e o capital são facetas da estrutura de poder e possuem algum entendimento mínimo de como estas funcionam como tais. Cada vez mais anarquistas estão reconhecendo que a tecnologia e a ideologia são também parte de uma rede de poder. Se pensaria que por isso eles(as) tirariam a devida conclusão de que o sistema tecnológico para a disseminação da ideologia, a mídia (eu uso a palavra mídia para me referir especificamente a este sistema na sua totalidade, não para me referir a específicas ferramentas com as quais ele costuma desempenhar sua função, uma vez que algumas destas ferramentas podem ser usadas de maneira diferente, mesmo contra esta função), é uma parte inerente da estrutura de poder e, portanto, um inimigo de toda rebelião e de toda tentativa de criar uma vida livre. Mesmo em face da intensa concentração da mídia nas mãos de pouquíssimas mega-corporações (um fato que deveria revelar algo da sua natureza), existem ainda alguns anarquistas que desejam diretamente, e de uma forma não conflitual, interagir com ela numa tentativa de comunicar idéias anarquistas no terreno da mesma. Isto mostra uma falta de entendimento de como a mídia funciona.
A mídia desempenha um papel específico na estrutura de poder, um papel que, em um estado democrático, se torna não somente essencial, mas também central ao funcionamento do poder. Mas antes de continuar, é necessário confrontar as ilusões que muitos têm sobre a democracia. Enquanto é verdade que a democracia pode somente significar um processo decisório que oferece a todos os envolvidos uma palavra ou um voto em cada decisão (o porquê disto ser incompatível com a anarquia é um assunto a ser melhor tratado em outro momento por questões de breviedade), na era presente, a democracia é também e principalmente um sistema de estado e poder social que mantém a paz social através da permissão do mais largo espectro possível de opiniões. O estado democrático é capaz de permitir tal grande espectro de opinião exatamente porque opiniões são basicamente sem substância. Opiniões são idéias que foram esvaziadas de toda vitalidade. Separadas da vida, e de qualquer base projetual, elas se tornam falação inofensiva que por fim fortalece o estado democrático por fazê-lo parecer tolerante e aberto se comparado aos estados feudais ou ditatoriais.
A partir disso, a função política da mídia deveria ser óbvia. Ela é o mediador e processador da opinião democrática. Ela devora as complexidades da vida e da interação social, das relações internacionais e da insurgência, do colapso cultural e da necessidade econômica... a totalidade da realidade no presente, e as mistura formando um pasta entre seus dentes, então as digere e as caga... bosta. Todas as complexidades, toda a vitalidade, toda ligação com a vida real foi secada, e somos deixados a decidir se essa massa de informação marrom é boa ou não. A realidade de onde esta bosta foi produzida está tão distante que nós "sabemos" que não podemos influenciá-la diretamente, então ao invés disso compramos a lógica binária do estado democrático, discute no bar sobre a merda da bosta e vota naqueles políticos em que a besteira exala o aroma mais doce. Ser a favor ou contra esta guerra, aquela lei, qualquer que seja o candidato, a política ou programa, não é ameaça alguma ao poder. O propósito da mídia é justamente promover o pensamento pré-digerido que nos mantém passivos em face de uma realidade distante, sempre prontos para escolher entre as opções oferecidas pelo estado democrático, opções que terminam todas sujeitando ao poder do estado e do capital aquele que escolhe.
A mídia possui uma outra função essencial. Ela é a criadora de imagens para consumo. Ela cria celebridades e personalidades para as pessoas procurarem e viverem através delas de modo vicário. Ela cria imagens de papéis para as pessoas imitarem de modo a inventarem sua "identidade". Ela cria imagens de eventos separados da vida e recolocados acima dela. É através dessas imagens, ingeridas acriticamente, que as pessoas vêem e interpretam o mundo, formulando suas opiniões desta sua irrealidade virtual. Na medida que a mídia é bem sucedida, o resultado é uma população passiva, previsível, consumindo o lixo servido pela ordem social.
Escolhendo o caminho de passar idéias através da mídia se está escolhendo alimentar o monstro mastigador com essas idéias, para oferecer a alguém esta coisa vazia de vida. Para anarquistas isto não faz sentido. É impossível para a mídia retratar o anarquismo como uma praxis em vida ou a anarquistas como indivíduos complexos e multi-dimensionais. Não é portanto possível expressar idéias anarquistas de uma forma conveniente, que valha a pena, através deste fórum. As idéias serão mastigadas e defecadas como uma opinião entre muitas, uma bosta a mais da qual o odor o público pode discutir. Os indivíduos que vivem são mastigados e defecados na forma de imagens – de esquisitos, de pensadores intelectuais, de desordeiros de rua – mas essencialmente como imagens e não seres que agem e vivem. A mídia é parte da estrutura de poder, e, como tal, é nossa inimiga. Não há como jogarmos o jogo dela e ganharmos.
Um notório exemplo de como esse processo funciona pode ser visto na matéria sobre anarquistas que apareceu no 60 Minutes(1) logo após as manifestações contra a OMC em Seattle. Esta colagem de doze minutos de entrevistas e imagens foi provavelmente o melhor que os anarquistas poderiam esperar da cooperação com a mídia. E do início ao fim a mídia levou a cabo sua tarefa. De mais de duas horas de entrevistas e várias horas de gravações dos eventos de Seattle, o editor do programa selecionou o que eles (ou seus patrões) queriam usar para compor esta breve matéria. Usando o título "Os Novos Anarquistas", estes experts em mediação já fizeram uma separação entre os espectadores e estas novas "celebridades", esta "nova" subcultura. Os especialistas em construção de imagens entrevistaram um ao qual eles chamaram de "guia filosófico" separadamente dos outros anarquistas; o entrevistador e este o qual a mídia atribuiu um papel de guia sentaram cara-a-cara como iguais. Os outros anarquistas foram entrevistados como um grupo, alguns deles sentados no chão, o ângulo da câmera dando a impressão que todos estavam sentados mais abaixo que o entrevistador. Um espectador que não tivesse muito conhecimento ficaria com a impressão que estes "novos anarquistas" são seguidores de um líder, mesmo se este é apenas chamado de "guia filosófico". Muito claramente o entrevistador direcionava o que era dito com suas perguntas – afinal de contas esta é sua especialidade. Por permitir a entrevista transcorrer de modo normal, estes anarquistas jogaram exatamente o jogo nas mãos da mídia. Por responder as perguntas, eles enfraqueceram seus argumentos, caíram em clichês tais como a velha e obtusa visão sobre a destruição de propriedade não ser violência e ajudaram a futuramente marginalizar e espectacularizar eles mesmos. Eu não vi ainda um retrato da mídia destes "novos anarquistas", dos "anarquistas de Eugene" (um termo que os anarquistas em Eugene fariam bem em destruir o quanto antes), ou qualquer termo que um determinado jornalista, entrevistador ou apresentador escolhe para usar que não fosse manipulativo – porque é assim que a mídia funciona.
Na esteira das manifestações em Seattle, tem sido dada muita atenção aos anarquistas na mídia, particularmente enfocando a questão da destruição de propriedade. Muita coisa perturbadora mas que não surpreende tem aparecido disto. Alguns anarquistas têm começado a se preocupar com a sua imagem na mídia. Deste modo existem aqueles(as) anarquistas que condenam a destruição de propriedade porque ela dará aos anarquistas uma imagem pública ruim. Mas estes(as) são tão ridícul@s que me perturbam menos do que aqueles(as) que publicamente insistem que "destruição de propriedade não é violência". Usando este argumento que aparece freqüentemente na mídia, @s anarquistas estão deixando-se levar pelos valores desta sociedade; eles estão medindo suas palavras para encaixá-las no ponto de vista do diálogo democrático. Este ponto de vista procura forçar a ação revolucionária a se enquadrar na equação moral de violência/não-violência. Para anarquistas que determinam suas ações por eles mesmos, em seus próprios termos, tais equações são inúteis; elas não possuem significado. Central para a ação anarquista no presente é a necessidade de destruir o estado, o capital e todas as instituições de poder e autoridade de modo a criar a possibilidade para cada indivíduo se realizar completamente como quiser. Tal destruição completa – destruição de um mundo – abarcando a civilização – será violenta. Não há sentido em a negar ou fazer apologia a ela por isso. O que cada um de nós faz para alcançar isto é determinado por cada indivíduo em termos de seus desejos, sonhos, capacidades e circunstâncias – em termos da vida que ele está buscando criar para si próprio. Ela não possui relação com nenhum tipo de moralidade. Portanto, como anarquistas, não há porque lidar com questões tais como: "A destruição de propriedade é violência ou não?", "É isto um ato de auto-defesa ou um ataque ofensivo?". Não temos motivos para ligarmos para isso. Nosso desejo é atacar e destruir todas estruturas de poder e isto determina nossas ações. Estas outras questões são baseadas nas normas morais hipócritas do poder que não serve a outro intento além de colocar pesadas correntes em nossa capacidade de agir. Então para que nos serve falar à mídia sobre estas questões nos seus termos, usando sua linha de como falar destes problemas e seguindo seu protocólo? De fato, para que nos serve falar à mídia de qualquer forma?
Lhe dando com a mídia no seu terreno, se escolhe abandonar suas próprias ações nos seus próprios termos. Como o episódio do 60 Minutes tornou tão claro, tratar com a mídia no seu terreno é aceitar a delegação. Se modifica suas próprias idéias aos mestres da "comunicação" para que sejam mastigadas em mais opiniões no mercado ideológico. Se entrega a realidade de sua vida a estes experts separadamente para serem transformadas em imagens de 60 segundos de eventos isolados. Se modifica a atividade de comunicação para aqueles cuja especialidade é a "comunicação" de mão única de não-eventos e não-idéias desvitalizados, pré-digeridos que criam consenso social. E então se reclama de como se foi mal representado na mídia. Por que se escolheu ser representado afinal de contas? A escolha de aceitar a representação da mídia não é menos uma aceitação da delegação do que o voto ou a direção. A rejeição da delegação, tão central a um(a) anarquista e a uma perspectiva insurrecional, inclui a recusa de lhe dar com a mídia nos termos dela.
Se considerarmos a auto-determinação e auto-atividade como bases fundamentais para a prática anarquista, o caminho para comunicarmos nossas idéias é claramente criar nossos próprios meios de comunicação. Grafiti, posters, comunicados, jornais, revistas e rádios piratas podem todos serem usados para expressar idéias anarquistas sem pô-las através dos mecanismos de mastigação da mídia. Estes meios de comunicação auto-determinados podem ser distinguidos da mídia por não serem tentativas de mediar opiniões e imagens enquanto clamam objetividade e servem um pasto pré-digerido para uma audiência passiva; eles são verdadeiras tentativas por parte dos anarquistas de expressarem suas idéias não somente em palavras mas também no método através do qual se expressam. É claro que esses métodos, os quais podemos tomar em nossas próprias mãos, não alcançarão nem proximamente o número de pessoas que um grande jornal, revista ou programa de TV atingem. Mas tais considerações poderiam apenas serem significantes para aqueles(as) que querem evangelizar, para aqueles(as) que vêem a anarquia como um sistema de crença para o qual devemos converter as pessoas se houver algum dia a revolução. Para parafrasear alguns camaradas italianos: se alguém não tem mercadorias para vender, para que servem sinais de neón? E na era do reinado do capital, evangelização – mesmo a evangelização anarquista – é marketing ideológico. Para aqueles(as) cujo interesse é criar suas vidas da sua maneira e destruir a sociedade que impede isso, tal marketing é inútil.
Infelizmente, desde as ações anti-OMC em Seattle, a mídia tem chacoteado o pedaço anarquista, e tem havido anarquistas dispostos a dá-los o que eles querem. Indubitavelmente, a mídia continuará a caçar anarquistas por tanto tempo quanto a anarquia seja um item mercantilizável. É portanto necessário que nós anarquistas reconheçamos que a mídia é parte da estrutura de poder do mesmo modo que o estado, o capital, a religião, a lei... Em outras palavras, a mídia é nosso inimigo e nós devemos tratá-la como tal. Neste sentido, a ação de três italianos anarquistas – Arturo, Luca e Drew – tornam-se exemplares. Quando um jornalista invadiu o funeral de um companheiro deles à procura de um suculento bocado de notícias, eles bateram nele.
tradução: Luther Blisset
A acção directa não pode ser televisionada
O facto de o Banco Mundial querer diálogo é um indicador do nosso sucesso nas ruas. Estão desesperados à espera que prefiramos o diálogo à acção directa, porque eles sabem que o diálogo com eles seria ineficaz e eles nunca concederiam as nossas exigências. Podem ouvir-nos, responder educadamente, até fazer pequenos ajustes, mas no final vão todos para o seu condominio fechado e tomam um martini. É por isso que querem canalizar a força da nossa acção directa para os pedidos, petições e tentativas de manipular os média. O primeiro passo neste processo é definir quem deve ser representado; deixer-nos lutar entre nós para ver quem tem melhor acesso aos média. Até a BBC reconheceu o recrudescimento recente da Acção Directa como táctica, num artigo acerca de Praga e dos bloqueios de Setembro; claro, que pensam, que isto é uma coisa má. Os nossos inimigos reconhecem o poder da nossa acção directa e estão a tomar medidas. O facto de implorarem diálogo reflecte o seu medo e consequentemente o nosso poder. As esmolas que nos são dadas para nos seduzir e nos fazer divergir dos objectivos devem ser recusadas. Compromissos com qualquer instituição transcendente (o Estado, a OMC, O Banco Mundial, o FMI, o Partido, etc...) é sempre uma forma de entregar do nosso poder às instituições que supostamente queremos destruir; este tipo de compromisso resulta na perda efectiva do nosso poder, afecta o facto de podermos tomar decisões e realizar acções quando queremos. Por isso, os compromissos apenas tornam o estado e o capital mais fortes.
Estes jogos de imagens são sinais de fumo para nos iludir no mundo dos média, um local onde as ideias passam a opiniões e são produzidas e reproduzidas infindavelmente sem que nada seja efectivamente feito. O mundo dos média é um local onde os pensamentos se tornam inoperantes; o pensamento está divorciado da acção quando se torna apenas uma escolha de posição. Diferir a acção numa tentativa que tal representação leve a uma mudança nas políticas do Banco Mundial e no FMI, por exemplo, é desistir da nossa capacidade de agir onde e quando é necessário: deixar a decisão para outros e entregar o nosso próprio poder. Se alguém se opõe ao capitalismo como um todo então tal táctica é um absurdo. O Banco Mundial e o FMI não irão desmantelar-se a eles próprios. O mundo dos média é especialista na manipulação, intoxica-nos até ficarmos satisfeitos em entregarmos os assuntos nas mãos dos outros. Entretanto, perdemos a nossa arma maia eficaz, a nossa capacidade de agir. Ao agir criamos relações sociais; na prática a multidão em luta auto-organiza-se. Mas a organização coloca sempre o perigo de limitar o nosso poder activo.
Na internet e em muitas publicações algumas pessoas começaram a apelar aos apoiantes da "acção directa" que desistam da confrontação. Isto indica o que será, talvez, o maior perigo para a continuação da luta anticapitalista, o perigo colocado pelos de dentro "do movimento" que esperam uma oportunidade para o representar num diálogo com as instituições do capital e o estado, os que querem compromissos, acabarem com o "impasse", realizarem petições para obter esmolas. Estes trabalham habitualmente dentro de várias organizações permanentes que cresceram dentro do movimento cujo primeiro objectivo é os média. Mas o trabalho destas organizações ambiciona atingir a "opinião pública" e ter um lugar na mesa do poder, e envolve um processo complexo de promover a imagem da multidão que se levanta contra as instituições do capital. Nas suas cabeças, acreditam que "apenas o que aparece nos média existe", enquanto se movimentam freneticamente entre uma e outra entrevista, até que no final estão mais interessados no que aparece na TV do que acontece nas ruas, nos bosques, na noite. Isto envolve dois passos. Primeiro, tais organizações tentam organizar e disciplinar a multidão de indivíduos activos envolvidos na luta. Segundo, tentam conseguir a sua representação perante os média.
O primeiro passo implica tomar uma multidão, um indisciplinado conglomerado de indíviduos e grupos com diferentes desejos, e moldá-los o melhor possível numa massa de corpos disciplinados. Mais ainda, isto significa separar a decisão da necessidade do seu momento e criar regras de comportamento que estão acima de todos os participantes. Isto até já significou impedir fisicamente pessoas de realizar acções e entregá-las à polícia. Os organizadores estão dispostos a sacrificar os mais activos de forma a conseguirem um lugar na mesa do poder. Esta tentativa de conter a acção é, normalmente, parcialmente conseguida e as organizações mediaticas juntam-nos todos na sua fábrica de imagens de forma a produzir material para construir uma representação "adequada", desfazendo-se dos detalhes que não estão conformes os seus gostos. Tornam-se em porta-vozes, que se oferecem sofregamente aos média em pequenos pedaços facilmente digeriveis. Os especialistas falam pelo movimento, falando da sua imagem, sempre esperando por uma fatia maior da noite numa tarte de meia hora. Mas os que querem lutar no campo da imagem, baseiam as suas decisões estratégicas numa noção idealizada de discurso político. De facto, esta noção de discursos político não é diferente da estória que os média e a democracia contam acerca de si próprios. Será que os organizadores são assim tão naïves?
Claro, que contrariamente à noção dominante de discurso político, a qual os organizadores subscrevem, não há lugar político aberto para a troca e participação; o que temos é um aparato espectacular de imagens que produzem e regulam a "opinião pública". A opinião pública não é uma coisa que aparece no público em geral e que depois é reproduzida pelos média, como simples relato da disposição do público. Uma opinião é produzida pelos próprios média; é simplificada, separada de toda a vida e ligação com qualquer desejo que é reproduzida um milhão de vezes pelos média. A opinião pública é oferecida ao consumidor passivo como mais uma mercadoria, como uma escolha simples: é a favor da globalização ou do proteccionismo nacional? É a favor da redução da dívida do terceiro mundo ou devem eles pagar tudo o que devem? Não é necessário pensar; acabamos por escolher o que mais convém ou pelo menos esperam que o façamos. As opiniões são ideias massificadas e não oferecem esperança de comunicar os nosso desejos de um mundo qualitativamente diferente. Será que os organizadores são assim tão naïves? A questão que os organizadores mediaticos nos pôem constantemente é: deveremos seguir os conselhos Tony Blair e da liderança do Banco Mundial e aderir a um diálogo com o poder? Deveremos esquecer os nosso poderes activos e deslocar a luta da acção directa para a luta pela imagem? A nossa força reside no uso criativo dos nossos poderes activos de ataque; a sua força é o seu controlo sobre as tecnologias da reprodução de imagem, os média. Se queremos derrotar a ordem vigente, não podemos ganhar lutando na TV.
Pontos de discussão acerca de organização para evitar a derrota através do compromisso:
1. Quanto menor o nível de organização que funcione melhor; vejam o caso do Earth Liberation Front.
2. A autonomia durante a acção é a única forma de manter a força de ataque. A decisão deve estar sempre nas mãos dos que estão a realizar a acção.
3. Comunicação, solidariedade crítica e revolucionária e ajuda mútua é a melhor forma de os grupos se ligarem nas suas lutas; grandes e permanentes organizações enterram e destroem os poderes individuais activos dos seus membros.
4. Comprometimento com imposição de decisões é sempre uma derrota: permanecemos sempre em conflito permanente com as instituições do capital e dos estado.
www.geocities.com/kk_abacus
Hot Tide Discussion Bulletin No.2
Retirado de www.azine.org
A rebeldia é dos corpos
Luther Blisset
As manifestações em Seattle, em Praga, entre outras, conseguiram, além de impedir certos encontros dos "donos do mundo", exercer considerável pressão sobre os dirigentes mundiais, que agora ao menos estão mais preocupados com a maquiagem de suas políticas.
É fato, como já diziam os velhos anarquistas, que a "agitação popular" é capaz e é verdadeiramente o único meio eficaz de pressionar os governantes, dirigentes, patrões, legisladores e juízes, de modo a trazer transformações e/ou benefícios econômicos e sociais para as camadas mais pobres e exploradas ou para todos de uma forma geral (como políticas extremamente ofensivas ao ecossistema). Um exemplo claro e recente foi a (quase) insurreição que ocorreu na Bolívia devido ao aumento da tarifa de água, que conseguiu fazer com que o governo/FMI voltassem atrás na nova taxação.
Como afirmam os anarquistas há mais de um século apoiados pela história, mesmo as reformas, os avanços sociais, são sempre conseguidos devido à ação das massas, nas ruas, pela pressão pela revolta, ao contrário do que os "socialistas" parlamentaristas induzem a pensar. A própria reforma agrária impulsionada pela ação direta dos sem terra no Brasil demonstra isso.
No entanto, neste fim de século XX, tem-se muitas vezes a impressão de que para que uma manifestação popular tenha força e capacidade de mudança, ela deve alcançar a mídia, principalmente a TV. A relevância e a força parece que é dada cada vez mais pela mídia. O poder da mídia chegou ao ponto da sua representação ocupar o lugar da percepção direta e descentralizada dos fatos e acontecimentos pelas pessoas. A importância dada à apresentação na mídia de uma manifestação (e de como ela é apresentada) encontra fundamento também no entendimento de que os grandes mídias possuem um poder para moldar a opinião, a ação e a moral pública nem um pouco desprezível. Tem-se assim que pessoas e grupos que procuram agir e se manifestar de modo a trazer algum tipo de transformação social cada vez mais se submetem aos ditames da sociedade do espetáculo, isto é, baseiam sua ação ou dão grande consideração para a formulação do seu agir a parâmetros como: repercussão na mídia, e qual imagem a mídia poderá passar (se a mídia considerará moral ou não e até que ponto ela poderá apresentar esta ação de acordo com seus interesses e sua moral). Se existe possibilidade de uma transformação radical sem se romper com esta lógica da sociedade do espetáculo, na qual as próprias pessoas e grupos que buscam no mínimo democratizar o poder, concedem este poder de moldar suas ações às grandes corporações de entretenimento, é uma questão que não será discutida aqui.
A questão que se coloca é porquê sempre foi necessária a "agitação das massas" para que os donos do poder cedam, para que sintam alguma ameaça? Em outras palavras: o que na "agitação das massas" traz um medo ao status quo causando-lhe uma pressão que a expressão verbal, entre outras, não causa?
A resposta a esta pergunta pode nos ajudar a responder porque 5.000 indivíduos de grupos de afinidade tomando determinada forma de ação causaram maior impacto e provavelmente maior pressão ao status quo do que 60.000 sindicalistas e ONGs em marchas, palestras e discursos em Seattle.
Foucault salientava que a disciplina que mantém e define um determinado ordenamento social é uma técnica de operação sobre os corpos de modo a obter um resultado concreto. A disciplina dos corpos exprime a estabilidade de um sistema. Uma sala de aula só "funciona" porque os corpos dos alunos, isto é, os alunos, estão disciplinados a se disporem de uma determinada maneira. E assim é em todos os espaço-tempos na sociedade, de um teatro, passando por um exército, um show de rock ou a locomoção pelas ruas.
A indisciplina do corpo em um determinado espaço-tempo ordenado sob uma disciplina específica, pode levar o sujeito muitas vezes à prisão ou ao hospício. O ‘delito’ e a ‘loucura’ são algumas das criações que a nossa sociedade reservou para os corpos indisciplinados.
Manifestantes que transformam seus corpos em catapultas que atiram pedras ou em barreiras num espaço que exige uma outra disciplina (ou uma disciplina) quebrando a rotina e a tranqüilidade dos que dirigem e comandam a economia e a política, demonstram (pelo menos em certo período e espaço) a ausência daquilo que mantém as coisas em ordem e o capitalismo em vigor: a disciplina. As ruas não são o local determinado no capitalismo para corpos atirarem pedras e nem serem barricadas (e não são o local para enfrentamentos econômicos e políticos, as mesas de "negociações" e o parlamento são os espaços na nossa sociedade para isso). O sinal dado aos homens no poder por esta organizada indisciplina em massa, a "agitação das massas", é de que as pessoas começam a não se posicionarem nos lugares estabelecidos e a não se comportarem mais de modo estabelecido e necessário para a continuidade do sistema, por motivo de um desejo, aspiração ou reivindicação. O sinal dado pela indisciplina em massa direcionada, que enfrenta o delito e a loucura (a marginalidade) assusta e pressiona muito mais os que estão no poder do que outras formas de manifestação por ser já um rompimento com a disciplina do sistema, antecipando a imagem de um rompimento total.
50.000 disciplinados manifestantes podem por isso terem menos peso em uma pressão e medo aos dirigentes do que 5.000 indisciplinados e desobedientes. 700.000 vozes gritando nas ruas pode ser pouco como instrumento de força, amedrontamento e pressão aos que estão no poder. Se estes que estão no poder continuam com a convicção de que eles não são capazes de romper com a disciplina da democracia burguesa-liberal. 500 bem organizados indisciplinados já podem ser uma amostra de que a disciplina das massas começa a ser quebrada e o jogo começa a ser de fato, de alma e de corpo, questionado.
Um experiente capitalista disse durante as manifestações na reunião da OMC em Seattle.."nós estamos realmente assustados com essas pessoas. Elas parecem não ter medo da autoridade..."
Notas
O 60 Minutes é um programa jornalístico tradicional da TV norte-americana e é apresentado no Brasil pelo canal de TV a cabo GNT.