On The Road Jack Kerouac
(Pé Na Estrada)
Parte Um
1
Encontrei Dean pela primeira vez não muito depois que minha mulher e eu nos separamos. Eu tinha acabado de me livrar de uma doença séria da qual nem vale a pena falar, a não ser que teve algo a ver com a separação desgraçada e com o meu sentimento de que tudo estava morto. Com a vinda de Dean Moriarty começa a parte da minha vida que pode se chamar de vida na estrada. Antes disso eu tinha sonhado muitas vezes em ir para o Oeste conhecer o país, mas eram apenas planos vagos e eu nunca dava partida. Dean é o cara perfeito para a estrada simplesmente porque nasceu na estrada quando seus pais estavam passando por Salt Lake City em 1926, a caminho de Los Angeles num calhambeque caindo aos pedaços. As primeiras notícias sobre ele chegaram através de Chad King, que havia me mostrado algumas cartas que ele escrevera num reformatório do Novo México. Fiquei ligadíssimo nas cartas por causa do jeito ingênuo e singelo que elas pediam a Chad para lhe ensinar tudo sobre Nietzsche e todas as demais maravilhas intelectuais que Chad conhecia. Certa vez Carlo e eu falamos a respeito das cartas e nos perguntamos se algum dia iríamos conhecer o estranho Dean Moriarty. Tudo isso foi há muito tempo, quando Dean não era do jeito que ele é hoje, quando era um delinqüente juvenil envolto em mistério. De repente, ficamos sabendo que Dean havia se mandado do reformatório e estava vindo para Nova York; soubemos também que ele tinha acabado de casar com uma garota chamada Marylou.
Um dia eu vagabundeava pelo campus quando Chad e Tim Gray me disseram que Dean estava hospedado numa daquelas espeluncas sem água quente no East Harlem, o Harlem espanhol. Tinha chegado a Nova York pela primeira vez na noite anterior, com sua gostosa gata linda Marylou; eles saltaram do ônibus Greyhound na rua 50 e dobraram a esquina procurando um lugar onde comer e deram de cara com a Hector's, e desde então a cafeteria Hector's se transformou num grande símbolo de Nova York para Dean. Eles gastaram dinheiro em bombas de creme e em belos bolos cristalizados enormes e deliciosos.
O tempo inteiro Dean estava dizendo para Marylou coisas do tipo: "Agora, garota, aqui estamos em Nova York, e mesmo que eu não tenha te contado tudo que se passava pela minha cabeça quando a gente atravessou o Missouri, principalmente na hora em que passamos pelo reformatório Booneville, que me lembrou do meu problema na prisão, temos mais é que deixar pra lá todos os detalhes ainda obscuros da nossa transa e, de uma ver por todas, começar a pensar em planos específicos de trabalho..." E assim por diante, do jeito que ele falava naquele tempo.
Fui à tal espelunca com a rapaziada e Dean abriu a porta de cueca. Marylou estava saltando do sofá, Dean tinha expulsado o ocupante do apartamento para a cozinha, provavelmente para que fizesse café, enquanto ele continuava se dedicando a questões amorosas, já que, para ele, o sexo era a primeira e única coisa sagrada e realmente importante na vida, ainda que, para sobreviver, ele tivesse que suar, blasfemar e tudo mais. Dava para sacar isso na maneira com que ele parava balançando a cabeça, sempre olhando para baixo, assentindo como um boxeador novato que recebe instruções, fazendo você pensar que ele estava escutando cada palavra, cuspindo milhões de "sins" e "claros" o tempo inteiro. A primeira impressão que tive de Dean foi a de um Gene Autry mais moço - esperto, esguio, olhos azuis, com um sotaque típico de Oklahoma -, um herói de suíças do lado nevado do Oeste. Na verdade ele andara trabalhando num rancho, o de Ed Wall, no Colorado, antes de casar com Marylou e se mandar para o Leste. Marylou era uma loira linda, com imensos cabelos encaracolados num mar de tranças douradas. E ela ficava ali sentada, na beira do sofá, com as mãos apoiadas sobre as coxas e seus olhos caipiras azuis-esfumaçados fixos numa expressão assustada porque, no fim das contas, ali estava ela num cinzento e diabólico apartamento de Nova York justamente como ouvira falar lá no Oeste, e ela ficava ali pregada, longilínea e magricela como uma daquelas mulheres surrealistas das pinturas de Modigliani num quarto sem graça. Só que além de gostosa, ela era profundamente estúpida e capaz de coisas horríveis. Aquela noite todos nós bebemos cerveja e jogamos braço-de-ferro e conversamos até o amanhecer e, de manhã, enquanto fumávamos baganas dos cinzeiros na luz cinzenta de um dia nublado, Dean se levantou nervosamente, caminhou em círculos, compenetrado, e decidiu que a melhor coisa a fazer era mandar Marylou preparar o café e varrer o chão: "é o seguinte, garota: temos mais é que entrar na dança ligeirinho, porque no que vacilou, a gente fica aí numa flutuante e nossos planos jamais se concretizarão." Aí, eu caí fora.
Durante a semana seguinte Dean tentou persuadir Chad King, insistindo para que ele o ensinasse a escrever de qualquer jeito. Chad disse que eu era escritor e que ele deveria me procurar se quisesse algum conselho. Neste meio tempo, já havia descolado um emprego num estacionamento, brigou com Marylou num apartamento em Hoboken - só Deus sabe como é que eles foram parar lá - e ela ficou tão furiosa e tão profundamente vingativa que o denunciou à polícia inventando uma acusação completamente falsa, confusa e histérica - e Dean teve que se mandar de Hoboken. Portanto, já não tinha onde viver. Foi direto a Paterson, Nova Jersey, onde eu estava morando com minha tia e certa noite, enquanto eu estudava, houve uma batida na porta, e lá esteve Dean, curvando-se cerimoniosamente, balançando a cabeça no hall escuro e dizendo: "A-lô! Tá se lembrado de mim - Dean Moriarty? Vim pedir pra que você me ensine a escrever."
"E onde anda Marylou?", perguntei, e Dean disse que ela aparentemente tinha juntado uns poucos dólares e se mandado para Denver - "a piranha!" E então saímos para tomar umas cervejas, já que não poderíamos conversar como queríamos na frente de minha tia, que estava sentada na sala lendo seu jornal. Ela deu uma única olhada para Dean e concluiu que ele era doido.
No bar eu disse: "Porra, cara, sei muito bem que você não me procurou só porque tá a fim de virar escritor, e afinal de contas, o que é que eu posso te dizer sobre isso a não ser que você tem que mergulhar nessa onda com a mesma energia que um viciado em droga?" E ele disse: "Sim, é claro, entendo exatamente o que você quer dizer e também já tinha pensado nesses problemas, mas o caso é que eu quero a realização de todos aqueles fatores que parecem depender da dicotomia de Schopenhauer para qualquer concretização íntima..." E assim por diante, coisas de que nada entendi e ele menos ainda. Naqueles dias ele realmente não sabia o que estava falando; para dizer a verdade, era apenas um jovem marginal deslumbrado com a maravilhosa possibilidade de se tornar um verdadeiro intelectual, e gostava de falar com sonoridade, usando, de modo confuso, as palavras que ouvira da boca de "verdadeiros intelectuais"; mas de qualquer maneira, ele não era tão ingênuo assim, sabe como é? E precisou de apenas alguns meses junto com Carlo Marx para ficar completamente por dentro da gíria e de todo o resto. Ainda assim, nós transávamos em outros níveis de loucura e concordei que ele ficasse na minha casa até arranjar um emprego e, mais tarde, combinamos que algum dia iríamos juntos para o Oeste. Era o inverno de 1947.
Certa noite, quando Dean jantava na minha casa - já estava trabalhando num estacionamento em Nova York -, ele se debruçou sobre meus ombros enquanto eu datilografava loucamente e disse: "Vamos lá, cara, as garotas não vão esperar. Vamos rápido."
Eu disse "Calma, homem, a gente cai fora assim que eu terminar este capítulo", e foi um dos melhores capítulos do livro. Então me vesti e fomos direto para Nova York encontrar umas garotas. Enquanto o ônibus rodava pelo insólito vazio fosforescente do túnel Lincoln, íamos enconstados um no outro, gritando e gesticulando e falando com enorme excitação, e eu comecei a ficar contagiado pela louca energia de Dean. Ele simplismente era um garotão apaixonado pela vida e, mesmo sendo um vigarista, trapaceava só porque tinha uma vontade enorme de viver e se envolver com pessoas que, de outra forma, não lhe dariam a mínima atenção. Ele estava me enrolando e eu sabia (casa, comida, roupa lavada, "como escrever" etc.), e ele sabia que eu sabia (essa, na verdade, seria a base do nosso relacionamento), mas eu não me importava e nós seguíamos juntos numa boa - sem frescuras, sem aporrinhações, andávamos saltitantes um em volta do outro, como novos amigos apaixonados. Comecei a aprender com ele tanto quanto ele provavelmente aprendeu comigo. Quanto ao meu trabalho ele dizia: "Vá em frente que tudo que você faz é bom demais." Enquanto eu redigia minhas estórias, ele observava por cima de meus ombros e berrava: "Uau, cara, tanta coisa pra fazer, tanta coisa pra escrever. Como ao menos começar a pôr tudo isso no papel sem desvios repressivos, sem se enrolar nessa inibições literárias e temores gramaticais..."
"É isso aí, homem, assim que se fala." E eu podia ver uma espécie de iluminação sagrada transpassando sua transpiração e suas visões, que ele tratava de descrever tão torrencialmente que as pessoas no ônibus se viravam para ver quem era aquele "maluco superligado". No Oeste, ele tinha passado um terço de sua vida nas mesas de bilhar, um terço na cadeia e um terço na biblioteca pública. Fora visto correndo com ansiedade por ruas geladas, com a cabeça descoberta, carregando livros em direção ao bilhar ou trepando em árvores para penetrar no sótão de seus camaradas, onde passava os dias lendo ou se escondendo da lei.
Fomos a Nova York - os detalhes, já esqueci, eram duas garotas negras -, mas não havia garotas lá; tínhamos marcado um encontro para jantar e elas não apareceram. Fomos até o estacionamento onde Dean tinha algumas coisas para fazer - mudar de roupa no barraco dos fundos e se ajeitar um pouco em frente a um espelho rachado, coisas assim, e logo caímos fora. E foi nessa noite que Dean conheceu Carlo Marx. Algo verdadeiramente extraordinário aconteceu quando Dean conheceu Carlo Marx. Duas cabeças iluminadas como eram, eles se ligaram no ato. Um par luminoso de olhos penetrantes relampejou ao cruzar com dois outros olhos penetrantes e luminosos - o santo vagabundo de mente reluzente e o angustiado poeta vagabundo de mente sombria que é Carlo Marx. Daquele momento em diante quase não vi mais Dean, e fiquei um pouco triste também.
As energias deles entraram em fusão, eu não passava de uma cópia malfeita, incapaz de acompanhar o ritmo deles. Se inicia então o louco redemoinho de tudo o que ainda estava por vir; e ele misturaria todos os meus amigos e o pouco que restava da minha família numa gigantesca nuvem de poeira pairando sobre a Noite Americana. Carlo falava a Dean sobre Old Bull Lee, Elmer Hassel e Jane; Lee no Texas plantando maconha, Hassel na ilha de Riker, Jane vagando pela Times Square em plena viagem de benzedrina, com sua bebezinha nos braços e acabando a viagem em Bellevue. E Dean falou pra Carlo sobre desconhecidos do Oeste como Tommy Snark, o craque manco das mesas de bilhar, viciado no baralho. Falou também sobre Roy Johnson, Bid Ed Dunkel, seu amigos de infância, seus companheiros da rua, suas inumeráveis garotas e orgias e fotos pornográficas, seus heróis, heroínas, aventuras. Eles percorriam as ruas juntos absorvendo tudo com aquele jeito que tinham nestes primeiros anos, e que mais tarde se tornaria mais amargurado, percepetivo e vazio. Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pop pode-se ver um brilho azul intenso até que todos caiam no "aaaaaaaaaaaaaah!" Como é mesmo que eles chamavam esses garotos na Alemanha de Goethe? Desejando ardorosamente aprender como escrever tão bem quanto Carlo, Dean, como é fácil imaginar, começou a envolvê-lo com aquela alma insinuante e amorosa que só mesmo um verdadeiro vagabundo poderia ter. "Carlo, agora deixe que eu fale, o que eu tenho a te dizer é o seguinte..." Não os vi por umas duas semanas durante as quais eles selaram sua amizade numa proporção tão intensa quanto ao seu diálogo diabólico que virava a noite e emendava o dia.
Chegou então a primavera, época ideal para cair na estrada, e todos neste bando disperso começaram a preparar-se para algum tipo de viagem. Eu estava ocupadíssimo com minha novela, mas quando ela já estava pela metade, depois de uma viagem ao Sul com minha tia para visitar meu irmão Rocco, senti que estava pronto para tomar o rumo do Oeste pela primeiríssima vez na vida.
Dean já tinha caído fora. Carlo e eu fomos levá-lo na estação de Greyhound, na rua 34. No andar superior havia um lugar onde se podia tirar umas fotos baratas. Carlo, sem óculos, lançou um olhar sinistro para a câmera. Dean posou de perfil e olhou para o lado com um ar acanhado. Tirei uma foto frontal que me fez ficar parecido com um italiano de trinta anos capaz de matar qualquer um que falasse mal de sua mãe. Esta foto Carlo e Dean cortaram cuidadosamente ao meio usando uma lâmina de barbear e cada um guardou metade na carteira. Para sua grande viagem de volta a Denver, Dean decidiu vestir um terno careta típico do Oeste; estava encerrada sua primeira tentativa de golpe em Nova York. Digo tentativa porque, na verdade, ele trabalhou como um cão naquele estacionamento. O mais fantástico garagista do mundo, capaz de dar marcha ré a sessenta por hora num corredor exíguo e estreito, parar rente à parede, saltar do carro, correr entre os pára-choques, pular para dentro de outro, manobrá-lo a oitenta por hora num espaço minúsculo, bater a porta com tanta força que o carro ainda balança enquanto ele sai voando em direção à cabina de controle como um atleta na pista, alcança um novo ticket para um recém-chegado e enquanto o motorista ainda está saindo do carro, pula literalmente sobre ele, liga o motor com a porta entreaberta, e sai cantando os pneus em direção ao lugar disponível mais próximo, manobra outra vez , trava bruscamente, salta fora, inicia nova corrida entre os pára-choques, trabalhando assim oito horas por noite sem parar, no rush dos fins de tarde ou nas horas de pique na saída dos teatros, vestindo calças velhas sujas de graxa, uma jaqueta rota forrada de pele e sapatos gastos com a sola decosturada. Mas agora, para a viagem de volta, ele comprou um terno novo, azul com listras rajadas, com colete e tudo - apenas 11 dólares na Terceira Avenida, e ainda um relógio e uma corrente para o relógio e uma máquina de escrever portátil com a qual pretendia começar a escrever numa pensão qualquer em Denver assim que arranjasse um emprego por lá. Fizemos uma refeição de despedida, feijão com salsichas no Riker's da Sétima Avenida, e logo depois Dean partiu num ônibus em cujo letreiro se lia "Chicago" e rodou através da escuridão. Lá se ia o nosso vaqueiro. Prometi partir na mesma direção assim que a primavera desabrochasse e os campos se cobrissem de flores.
E foi exatamente assim que toda minha experiência na estrada de fato começou, e as coisas que estavam por vir são fantásticas demais para não serem contadas.
Sim, e eu queria conhecer Dean mais intimamente não apenas porque eu era um escritor e precisava de novas experiências, ou porque minha vida de vagabundagem pelo campus tinha completado seu ciclo e já não significava mais nada, mas porque, de alguma forma, apesar da nossa profunda diferença de caráter, ele me fazia lembrar um irmão há muito esquecido; a simples visão de seu rosto ossudo e sofrido, de seu pescoço forte, musculoso e suado, evocava recordações da minha infância naqueles depósitos de lixo sombrios e nas margens e poças do rio Passaic em Paterson. Suas roupas de trabalho imundas lhe caíam tão graciosamente que nem mesmo um alfaiate da moda conseguiria cortá-las melhor - era preciso só arrebatá-las ao Alfaiate Orgânico da Felicidade Natural, como Dean o fizera em sua faina e sua fadiga. Na sua maneira vibrante de falar eu podia escutar novamente as vozes de velhos amigos e irmãos agrupados sob as pontes, ao redor das motocicletas, entre varais da vizinhança, nos sonolentos degraus do fim da tarde, quando garotos tocavam violão enquanto seus irmãos mais velhos trabalhavam nos moinhos. Todos os meus outros amigos íntimos eram "intelectuais" - Chad, o antropólogo nietzscheano, Carlo Marx e a sua amargurada conversa surrealista em voz baixa com os olhos arregalados, Old Bull Lee e sua crítica cáustica, corrosiva e arrastada contra tudo e contra todos - ou então eram criminosos foragidos como Elmer Hassel com aquele sarcasmo esmagador, que se repetia em Jane Lee, atirada em seu sofá oriental desprezando solenemente o New Yorker. Mas a inteligência de Dean era muito mais brilhante, formal e completa, sem nada daquela intelectualidade tediosa. E a "criminalidade" dele não era algo desprezível ou enfadonho, mas uma vibrante explosão de alegria americana, era o Oeste, o vento do oeste, um cântico às planícies, algo novo, há muito profetizado, vindo de longe (ele só roubava carros para passeios festivos). Além disso, todos os meus amigos nova-iorquinos estavam no maior baixo astral mergulhados naquele pesadelo sem nexo que é combater o sistema o tempo inteiro citando suas enfadonhas razões literárias, psicanalíticas e ou políticas, enquanto Dean se limitava a viver nessa mesma sociedade, faminto de pão e amor; e de qualquer maneira, ele estava cagando pra tudo isso, "desde que eu descole uma gata mansa e linda com aquele lugar delicioso entre as pernas, homem" ou "contanto que eu arranje o que comer, malandro, percebe? Estou com fome, morrendo de fome, vamos comer, agora, já!" - e lá íamos nós comer, no primeiro lugar que surgisse, como diz Eclesiastes: "Eis sua porção sob o sol."
Um parente do sol do Oeste, Dean. Mesmo que minha tia me avisasse que ele fatalmente me traria problemas, eu podia escutar um novo chamado e vislumbrar um horizonte mais amplo, e acreditei neles com todo o fervor da minha juventude, uns pequenos contratempos ou mesmo a eventual rejeição de Dean, que mais tarde me abandonaria em sarjetas famintas e camas enfermas, não me impediriam de partir. O que me importava? Eu era um jovem escritor e tudo o que desejava era cair fora.
Em algum lugar ao longo da estrada eu sabia que haveria garotas, visões e tudo mais; na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada.
2
Em julho de 1947, juntando uns 50 dólares da minha velha pensão de veterano, eu estava pronto para ir à Costa Oeste. meu amigo Remi Boncoeur havia escrito uma carta São Francisco dizendo que eu deveria embarcar com ele num navio para uma volta ao mundo. Ele jurava que conseguiria me arranjar um lugar na casa de máquinas. Respondo dizendo que já estaria satisfeito com um velho cargueiro qualquer, contanto que pudesse curtir algumas longas navegadas pelo Pacífico e voltar com grana suficiente para me sustentar na casa da minha tia enquanto terminasse meu livro. Ele disse que tinha uma cabana em Mill City e que lá eu teria todo o tempo do mundo para escrever enquanto a gente aguardasse a aporrinhação burocrática de antes da viagem. Ele estava morando com uma linda garota chamada Lee Ann; disse que ela era uma cozinheira maravilhosa e que tudo daria certo. Remi era um velho colega da escola preparatória, um francês criado em Paris e um cara realmente muito louco - nessa época eu não imaginava o quanto! Ele guardava então a minha chegada para dentro de uns dez dias. Minha tia estava inteiramente de acordo com minha viagem para o Oeste; ela achava que isso me faria bem, eu havia trabalhado duro durante o inverno e ficado demais dentro de casa; ela não reclamou nem mesmo quando eu lhe disse que teria que pegar umas caronas. Tudo o que ela esperava era que eu voltasse inteiro. E, assim, certa manhã, deixando meu grosso manuscrito incompleto sobre a escrivaninha e dobrando pela última vez meus confortáveis lençóis caseiros, parti com meu saco de viagem no qual poucas coisas fundamentais foram enfiadas, e caí fora em direção ao oceano Pacífico com 50 dólares no bolso.
Eu tinha ficado delirando em cima de mapas dos Estados Unidos durante meses, em Paterson, e até lendo livros sobre os pioneiros e esses nomes instigantes como Platte e Cimarron e tudo mais e, no mapa rodoviário, havia uma longa linha vermelha chamada Rota 6, que conduzia da ponta do cabo Cod direto a Ely, Nevada, e daí mergulhava em direção a Los Angeles. Simplismente vou ficar na 6 o tempo inteiro até Ely, disse a mim mesmo e confidencialmente dei a partida. Para pegar a Rota 6, eu deveria subir até Bear Mountain. Sonhando com as curtições de Chicago, Denver e finalmente de San Fran, peguei o metrô da Sétima Avenida até o fim da linha na rua 242, e lá tomei o tróleibus para Yonkers; do centro de Yonkers um novo tróleibus me conduziu até os limites da cidade, na margem leste do rio Hudson. Se você jogar uma rosa na misteriosa nascente do rio Hudson, nas Adirondacks, imagine que todos os lugares pelos quais ela viajará antes de desaparecer no mar para sempre - pense no sublime vale do Hudson! Meu polegar apontava montanha acima. Cinco caronas esparsas me conduziram à ambicionada ponta de Bear Mountain, onde a Rota 6 penetra em curva depois de deixar a Nova Inglaterra. Começou a chover torrencialmente assim que fui deixado ali. Era uma zona montanhosa. Atravessando o rio, a Rota 6 fazia um enorme retorno e desaparecia na imensidão. Não só não havia nenhum tráfego como também chovia a cântaros e eu não tinha onde me abrigar. Tive que correr para debaixo de alguns pinheiros para me cobrir, o que não chegou a ser uma idéia genial; comecei a chorar e a praguejar e a esmurrar a própria cabeça por ser tão estúpido. Estava a uns 60 quilômetros ao norte de Nova York e, durante todo o caminho, já estava indignado com o fato de, nesse meu primeiro grande dia, estar avançando apenas para o norte em vez de seguir para o Oeste dos meus sonhos. Agora, ali estava eu encalhado justamente no limite mais setentrional dessa jornada obsessiva. Corri uns 500 metros até um posto de gasolina abandonado, construído num elegante estilo inglês, e parei debaixo de um telhado gotejante. Muito acima da minha cabeça a hirsuta e imponente Bear Mountain enviava os trovões que gelavam minha alma. Tudo o que eu podia distinguir eram árvores nebulosas e a sombria vastidão se elevando aos céus. "Que porra estou fazendo aqui em cima?", xinguei, implorando por Chicago. "Justamente agora eles estão todos lá numa boa, curtindo os maiores baratos, e eu aqui, quando é que eu vou chegar lá?" - essas coisas. Milagrosamente um carro parou no posto abandonado; o homem e as duas mulheres que estavam nele queriam consultar um mapa. Aproximei-me no ato e gesticulei na chuva; eles se questionaram; claro que eu parecia um maníaco, com meu cabelo todo molhado e os sapatos encharcados. Meus sapatos, que perfeito idiota eu sou, eram umas alpargatas mexicanas de corda trançada, absolutamente impróprias para a cruel noite chuvosa da América, para a noite voraz da estrada. Eles me deixaram entrar e me levaram de volta para Newburgh, o que aceitei como uma alternativa melhor do que ficar a noite inteira preso na desoladora Bear Mountain. "Além disso", disse o homem, "praticamente não há tráfego pela 6. Se você realmente quer ir para Chicago, seria melhor sair pelo túnel Holland em Nova York, e seguir em direção a Pittsburgh", e eu sabia que ele estava certo. Era meu sonho se desmoronando, a idéia idiota de que seria simplismente maravilhoso seguir uma única e grande linha vermelha através da América, em vez de tentar várias estradas e rotas.
Em Newburgh tinha parado de chover. Caminhei até o rio, e tive que voltar para Nova York num ônibus junto com uma delegação de professores primários que retornavam de um fim de semana nas montanhas - blá, blá, blá, blá, blá, blá, e eu simplismente puto comigo mesmo, lamentando todo o dinheiro gasto e louco para pegar o rumo do Oeste, o que, na veradade, tinha tentado fazer durante o dia e a noite inteira, indo para cima e para baixo, para o norte e para o sul, como algo que não consegue dar a partida. Jurei que no dia seguinte estaria em Chicago, e tive certeza absoluta disso, já que decidi pegar um ônibus até lá mesmo que isso significasse gastar quase todo o meu dinheiro, mas eu estava pouco me lixando, contanto que estivesse em Chicago no dia seguinte.
3
Foi uma viagem ordinária com bebês chorões e sol escaldante, e caipiras embarcando cada vez que o ônibus parava em tudo quanto é cidade da Pensilvânia, até que atingimos as planícies de Ohio e então as rodas realmente rodaram, direto até Ashtabula e rasgando Indiana noite adentro. Cheguei em Chi no romper da aurora, arranjei um quarto na ACM e caí na cama com uns poucos trocados no bolso. Curti Chicago depois de um reconfortante dia de sono.
O vento vindo do lago Michigan, bop-jazz no Loop, longas caminhadas ao redor de South Halsted e North Clark e, na madrugada silenciosa, uma longa jornada pela selva de pedra, quando uma radiopatrulha me seguiu como se eu fosse suspeito. Nessa época, 1947, o bop enlouquecia a América. Os rapazes no Loop seguiam soprando, mas com um ar fatigado porque o bop estavam em algum ponto entre o período ornitológico de Charlie Parker e a nova era que se iniciara com Miles Davis. E enquanto eu sentava ali ouvindo aquele som noturno que o bop viera representar para todos nós, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes dentro dos limites de um único e imenso quintal. Na tarde seguinte, segui para o Oeste pela primeira vez na minha vida. Era um lindo dia ensolarado, perfeito para cair na estrada. Fugindo da impossível complexidade do tráfego de Chicago, peguei um ônibus até Joliet, Illinois, cruzei pela penitenciária de Joliet, escapei em direção à periferia da cidade depois de uma caminhada por suas minúsculas ruas frondosas em aprumei, deixando meu dedo apontar o caminho. De ônibus, todo o percurso de Nova York até Joliet, e eu tinha gasto mais da metade de minha grana.
A primeira carona foi num caminhão carregado de dinamite, com bandeira vermelha e tudo, uns 50 quilômetros pela esverdeada amplitude de Illinois, com o caminheiro apontando o lugar onde a Rota 6, onde a gente estava, se juntava com a Rota 66 antes de ambas mergulharem nas inimagináveis vastidões do Oeste. Por volta das três da tarde, depois de uma torta de maçã e um sorvete num bar de beira de estrada, uma mulher parou seu pequeno cupê para mim. Corri atrás do carro num frêmito de expectativa. Mas era só uma mulher de meia-idade que poderia ser minha mãe, e tudo o que ela queria era alguém para ajudá-la a dirigir até Iowa. Iowa! Era uma boa! Não ficava muito longe de Denver e assim que eu chegasse a Denver poderia descansar. Ela dirigiu as primeiras e poucas horas, chegando ao ponto de parar sei lá onde para visitarmos uma velha igreja qualquer como se fôssemos turistas, e só depois eu peguei a direção, e mesmo não sendo o melhor motorista do mundo, dirigi na boa cruzando o restante do Illinois até Davenport, Iowa, via Rock Island. E foi então que vislumbrei pela primeira vez meu querido rio Mississippi, raso sob a bruma do verão, quase seco, exalando o odor de sua fertilidade, que cheira como o próprio corpo vivo da América, que ele mesmo lava. Rock Islan, uns trilhos de trem, uns barracos, o insignificante centro da cidade e, do outro lado da ponte, Davenport, o mesmo astral, o mesmo cheiro de serragem sob o sol abafado do Meio Oeste. E então a mulher teve que seguir por outra estrada até sua cidade natal em Iowa e eu saltei fora.
O sol se punha, eu andava, tinha bebido umas cervejas geladas, ia em direção aos arrabaldes da cidade, foi uma longa caminhada. Os homens voltavam do trabalho para casa, usando chapéus de ferroviários, chapéus de baseball, todos os tipos de chapéus, como depois do expediente em qualquer cidade de qualquer lugar. Um deles me deu uma carona até o topo de uma colina e me deixou numa vasta encruzilhada, isolada na beira da pradaria. Era bonito lá! Os únicos carros que passavam eram carros de fazendeiros, eles me lançavam olhares desconfiados e zuniam no descampado, o gado ia para casa. Nem um só caminhão. Somente uns poucos carros, sibilantes. Um garotão passou com seu carango envenenado e cachecol esvoaçante. O sol se pôs por completo e lá estava eu, de pé, envolto pela escuridão purpúrea. Agora eu estava com medo. Não há luz alguma nos campos de Iowa, em um minuto eu nã seria visto por mais ninguém. Felizmente um sujeito que voltava a Davenport me deu uma carona até o centro da cidade. Só que lá estava eu, de volta ao ponto de partida.
Fui sentar na rodoviária e refletir Sobre a situação. Devorei outra torta de maçã e mais um sorvete - na verdade, foi praticamente só o que comi durante toda a viagem através do país, já que, além de deliciosa, é uma refeição nutritiva, claro. Decidi arriscar. Peguei um ônibus no centro de Davenport, depois de passar meia hora paquerando a garçonete no bar da rodoviária, e retornei aos limites da cidade, mas desta vez para a proximidade dos postos de gasolina. Aqui os grandes caminhões roncavam, vrumm, e em dois minutos um deles parou aos solavancos para me apanhar. Corri até lá exultante. E que caminhoneiro, cara! Um motorista enorme, maciço e robusto, com os olhos esbugalhados e uma voz rouca e arranhada, daqueles que davam as maiores porradas com a porta e pisava fundo fazendo aquela máquina rodar sem dar a menor bola para mim. Então pude descansar minha alma fatigada, já que um dos maiores tormentos de se viajar de carona é Ter de falar com incontáveis pessoas, distraí-las até que elas percebam que não cometeram um erro ao ter te apanhado, e isso resulta num esforço enorme se o percurso é longo e você não está a fim de dormir em hotéis. O cara simplesmente berrava, mais alto do que o ronco do motor, e tudo o que eu tinha a fazer era gritar uma resposta, e assim relaxamos. Ele deixou aquele monstrengo rolar até Iowa City sem esforço aparente, sempre berrando histórias engraçadíssimas, contando como burlava a lei em cada cidade que tinha limites de velocidade estritos, repetindo milhares de vezes: "Esses tiras de merda nunca conseguiram meter no meu rabo." Quando rodávamos pelas proximidades de Iowa City, Ele ligou a sinaleira e diminuiu a velocidade para que eu saltasse, o que fiz, carregando minha mochila e, ao perceber o sinal, o outro caminhão parou para me apanhar e assim num piscar de olhos lá estava eu de novo numa espaçosa cabina elevada, preparadíssimo para avançar centenas de quilômetros noite adentro, me sentindo esplendorosamente bem. E esse novo caminhoneiro era tão louco quanto o primeiro e gritava tanto quanto aquele, e tudo o que eu tinha a fazer era me aconchegar e deixar rolar. Agora sim podia ver a silhueta de Denver agigantando-se à minha frente como uma Terra Prometida, lá fora entre as estrelas, através das pradarias do Iowa e pelas planícies do Nebraska, e tive uma visão grandiosa de São Francisco mais adiante, jóias luzindo à noite. Ele fincou o pé na tábua contando histórias por algumas horas até que numa cidade do Iowa, onde anos mais tarde Dean e eu fomos detidos sob suspeita de estarmos dirigindo um Cadillac roubado, ele dormiu no assento por uns instantes. Eu também dormi, e dei uma pequena caminhada por entre solitárias paredes de tijolos iluminadas por uma única lâmpada, com a pradaria brotando ao final de cada estreita esquina e o milho exalando seu perfume como se fosse o orvalho da noite.
Ele acordou num sobressalto. Lá fomos nós e, uma hora depois, entre o milharal esverdeado, surgiu à nossa frente a névoa cinzenta que recobre Des Moines. Ali ele quis tomar seu café da manhã e diminuir o ritmo, então decidi entrar direto em Des Moines, que ficava a uns seis quilômetros, pegando uma carona com dois caras da universidade local e foi bem estranho sentar num carro confortável e novo em folha e ouví-los falar Sobre seus exames enquanto deslizávamos suavemente para dentro da cidade. Decidi dormir o dia inteiro. Fui à ACM batalhar um quarto, não havia nenhum, por instinto perambulei até os trilhos de trem - e há milhões em Des Moines -, acabei despencando numa velha pensão sombria e vulgar junto à oficina das locomotivas, e passei o dia inteiro dormindo numa grande cama branca, dura e limpa, com rachaduras sujas sulcadas na parede bem ao lado do meu travesseiro e as surradas cortinas amarelas emoldurando a enfumaçada paisagem ferroviária. Acordei com o sol rubro do fim de tarde; e foi um dos momentos mais impressionantes da minha vida; o mais bizarro, quando simplesmente já não sabia mais quem eu era - estava a milhares de quilômetros da minha casa, temeroso e desgastado pela viagem, num quarto de hotel barato nunca dantes avistado, ouvindo o silvo das locomotivas, e o ranger das velhas madeiras do hotel, e passos anônimos ressoando no andar de cima, e todos aqueles sons melancólicos, e por quinze misteriosos segundos realmente já não sabia quem eu era. Não me apavorei; simplesmente era como se eu fosse uma outra pessoa, um estranho a mim mesmo, e toda a minha existência apenas uma vida mal-assombrada, a vida vazia de um fantasma. Eu estava na metade da América, meio caminho andado entre o Leste da minha juventude e o Oeste do meu porvir e é provável que tenha sido exatamente por isso que tudo se passou assim ali, naquele entardecer dourado e insólito.
Mas já era tempo de parar com as lamentações e cair fora, então apanhei minha mochila, disse adeus ao velho recepcionista sentado ao lado de sua escarradeira, e fui comer. Devorei outra torta de maçã com sorvete - estavam ficando cada vez melhores à medida que eu avançava Iowa adentro, a torta crescia e o sorvete ficava ainda mais saboroso. Naquela tarde em Des Moines, para onde quer que eu olhasse via inúmeros bandos de garotas lindíssimas - elas voltavam para suas casas depois das aulas - agora eu não tinha tempo para pensamentos desse tipo mas jurei que cairia na farra assim que chegasse a Denver. Denver! Carlo Marx já estava lá, Dean também; e, claro, Chad King e Tim Gray, já que era a cidade natal deles; e também Matylou, e eu tinha ouvido falar de sua linda irmã loira: e as irmãs Bettencourt, duas garçonetes que Dead conhecia; e até Roland Major, um velho colega com o qual eu me correspondia nos tempos da universidade, andava por lá também. Eu aguardava por eles, transpirando alegria e expectativa. Por isso, passei direto por essas lindas gatinhas, as garotas mais gostosas do mundo moram em Des Moines.
Um cara com uma espécie de caixa de ferramentas sobre todas, um caminhão recheado com todos os tipos imagináveis de ferramentas, que ele dirigia ficando de pé como um leiteiro moderno, deu-me uma carona colina acima, onde peguei imediatamente outra carona de um fazendeiro e seu filho que iam para Adel, em Iowa. Nessa cidade, sob um olmo enorme nas proximidades de um posto de gasolina, fiz amizade com outro caminhoneiro, um nova-iorquino típico, um irlandês que havia passado a maior parte de sua vida profissional dirigindo um caminhão dos Correios e Telégrafos e que agora partia para uma vida nova ao lado de uma garota de Denver. Acho que ele estava fugindo de alguma coisa em Nova York, da lei provavelmente. Ele era o típico beberrão com o narigão vermelho, moço, uns 30 anos, e normalmente teria logo me enchido o saco caso eu já não estivesse preparado para qualquer espécie de amizade humana. Ele vestia um suéter surrado e calças largas e não possuía nada que lembrasse uma mochila - apenas uma pasta de dentes e uns lenços. Ele disse que a gente deveria pegar carona juntos. Eu teria dito não, já que ele parecia péssimo para a estrada. Mas como estávamos ali encalhados, pegamos carona com um homem taciturno até Stuart, Iowa, cidad na qual realmente atolamos. Paramos em frente à bilheteria da estação rodoviária, esperando pele tráfego que ia para o Oeste até o sol se pôr, umas boas cinco horas, matando o tempo, primeiro falando de nós mesmos, em seguida ele me contou umas sacanagens, depois ficamos apenas chutando seixos e dizendo todo tipo de bobagem. Enchemos o saco. Peguei umas moedas e comprei cerveja; fomos a um velho saloon em Stuart e bebemos algumas. Lá ele ficou tão bêbado quanto sempre ficava em sua caminhada noturna pela Nona Avenida, voltando par casa, e berrou alegremente ao meu ouvido os sonhos sórdidos de sua vida. Até que gostei dele; não porque era um cara legal, como provaria mais tarde, mas porque se entusiasmava com tudo. Retornamos à estrada em meio à escuridão, e logicamente poucos passaram e nenhum parou. Isso se prolongou até às três da manhã. Gastamos um tempo tentando dormir num banco duro e frio da estação ferroviária, mas o telégrafo tilintou loucamente a noite inteira e os enormes trens de carga fizeram ruídos estrondosos e a gente não conseguia relaxar. E o pior é que nem ao menos sabíamos saltar para dentro dos trens em movimento, nunca havíamos feito aquilo antes, também não conseguíamos imaginar se eles estavam indo para o Leste ou para o Oeste, nem tínhamos como descobrir, tampouco concluímos se seria melhor saltar num vagão aberto, num fechado ou num vagão refrigerado; portanto, descartamos esse plano. E assim, quando o ônibus para Omaha passou, pouco antes do amanhecer, entramos nele e nos misturamos aos passageiros adormecidos. Paguei minha passagem e a dele também. Chamava-se Eddie. De alguma forma, ele me fazia lembrar do sujeito que era casado com minha prima do Bronx. Acho que foi por isso que me liguei nele. Afinal, era como se eu estivesse junto com um velho amigo, um cara simpático e sorridente, com o qual eu poderia ficar dizendo bobagens por horas a fio.
Chegamos a Council Bluffs ao amanhecer; consegui abrir um olho. Durante o inverno inteiro, eu estivera lendo sobre as grandes festas que detinham vagões ali, antes de eles partirem em direção às trilhas de Oregon e de Santa Fé, isso no tempo dos pioneiros, é claro; porque agora a cidade não passava de um subúrbio elegante, com chalés engraçadinhos construídos em duas ou três variações do mesmo estilo alinhados sob o céu pálido de um amanhecer opaco. E então Omaha e aí, meu Deus, vi o primeiro cowboy da minha vida, silhuetado pelas paredes gélidas dos armazéns frigoríficos que vendem carne por atacado, com um chapéu descomunal e botas texanas e, se não fosse pelo traje, mais pareceria um típico picareta da Costa Leste recostado a um muro banhado pelo amanhecer. Saltamos do ônibus e deslizamos até o topo da colina, a extensa colina formada ao longo de milênios pelo poderoso rio Missouri, junto ao qual Omaha foi construída, e logo chegamos à zona rural, já com os dedões em prontidão. Pegamos uma carona curta com um fazendeiro rico, também descomunalmente enchapelado, e ele disse que o vale do Platte era tão soberbo Quando o vale do Nilo, no Egito, e assim que ele disse isso, avistei árvores exuberantes serpenteando ao longo do curso sinuoso do Platte, envoltas por esplêndidos campos verdejantes, e por pouco não acabei concordando com ele. Então, quando já estávamos em pé noutra encruzilhada solitária, e o céu começava a ficar nublado, outro cowboy, este com um metro e noventa de altura e com um chapéu bem mais modesto, se aproximou perguntando se um de nós sabia dirigir. Claro que Eddie sabia, e ele tinha carteira de motorista e eu não. O cowboy tinha dois carros e desejava levá-los de volta para Montana. A mulher o aguardava em Grand Island, e ele queria alguém que dirigisse um dos carros até lá, quando então ele assumiria o volante. Daí em diante eles iriam para o norte e esse seria o limite da nessa carona com ele. Mas eram uns bons 200 quilômetros para dentro do Nebraska e, lógico, embarcamos nessa. Eddie ia sozinho, o cowboy e eu o seguíamos, só que assim que saímos dos limites da cidade, Eddie enfiou o pé na tábua, 140 quilômetros por hora com um desembaraço fantástico. "Puta merda! O que esse cara tá fazendo?", gritou o cowboy, e saiu atrás dele, voando. Legal, de repente, era como se fosse uma corrida. Cheguei a pensar que Eddie estava a fim de dar o fora com o carro - e pelo que sei dele, era exatamente o que ele pretendia fazer. Mas o cowboy colou nele e tocou a mão na buzina. Eddie diminuiu um pouco. O cowboy buzinou novamente para que ele parasse no acostamento. "Porra, garoto, deste jeito você vai gastar os meus pneus. Será que não dá pra ir com mais calma?"
"É sério mesmo? Eu estava realmente a 140?", disse Eddie com cara de santo. "Nem percebi, essa estrada é tão suave..."
"Vê se vai mais devagar, senão a gente não chega inteiro em Grand Island."
"Pode crer." E reiniciamos a jornada. Eddie se acalmou e até deve ter ficado um pouco sonolento. E assim, rodamos uns 200 quilômetros através do Nebraska, sempre acompanhando o Platte tortuoso, com seus exuberantes campos gramados.
"Durante a depressão", me disse o cowboy, "eu costumava saltar nos trens de carga pelo menos uma vez por mês. Naquele tempo, havia centenas de homens no vagões abertos e até mesmo em cima dos vagões de carga, e não eram apenas os vagabundos não, havia gente de todo o tipo, estavam todos desempregados, iam de um lugar pro outro, a maioria sem rumo certo. Era assim por todo o Oeste. Naquela época, os guarda-freios nunca nos incomodavam. Não sei como é hoje. Nebraska, eta lugarzinho inútil! Na metade dos anos 30, isso aqui não passava de uma enorme nuvem de poeira, se estendendo tão longe quanto os olhos pudessem ver. Respirar era impossível. O chão era preto. Eu estava aqui naqueles dias mesquinhos. Por mim, poderiam devolver Nebraska pros índios. Odeio esse lugar mais do que qualquer outra região do mundo. Agora moro em Missoula. É o paraísto terrestre, vá lá e confira." Quando ele cansou de falar, adormeci - o papo dele até que era interessante.
Paramos na estrada para comer. O cowboy foi consertar um estepe e Eddie e eu sentamos numa espécie de bar-restaurante caseiro. Ouvi uma gargalhada espalhafatosa, a maior gargalhada do mundo, e aí entrou um típico habitante do Nebraska, um fazendeiro vestido de couro cru da cabeça aos pés, acompanhado pelo seu bando de rapazes; a zoeira que eles faziam ecoava pelas planícies, recobrindo por completo aquele mundo descolorido no qual eles viviam. Quando ele ria, todo mundo ria junto. Ele parecia não ter a menor preocupação na vida e tratava todo mundo com o maior respeito. Disse pra mim mesmo: "Uau, escuta só a risada desse cara!" O Oeste é isso aí, cara, olha eu aqui no Oeste. Os passos dele retumbavam pelo bar enquanto ele chamava por Maw; ela fazia a torta de cereja mais deliciosa do Nebraska, é claro que eu já havia devorado uma, depois de cobrí-la com uma montanha de sorvete. "Maw, me arranja o que comer antes que eu comece a devorar a mim mesmo cru ou alguma besteira semelhante." Ele se atirou num banco, às gargalhadas. "E cubra tudo com feijão, há, há, há!" Era o verdadeiro espírito do Oeste, sentado justamente ali ao meu lado. Oh, realmente eu desejaria conhecer sua vida nua e crua, descobrir o que ele estivera fazendo durante todos estes anos, além de gozar e gargalhar. Uau, que energia, disse com meus botões, e aí o cowboy voltou e nós nos mandamos para Grand Island.
Chegamos lá num piscar de olhos. Ele encontrou sua mulher e os dois se mandaram para o destino deles, onde quer que ele fosse, e Eddie e eu retomamos a estrada. Pegamos uma carona com dois garotões - uns vaqueiros, caipiras adolescentes dirigindo um calhambeque todo remendado - e eles nos deixaram mais adiante em algum lugar, sob uma garoa fina. Aí um velho que não disse uma palavra - e só Deus sabe por que ele nos apanhou - nos levou até Shelton. E ali Eddie prostrou-se na estrada, sem ânimo, em frente a um grupo de pequenos índios Omaha, mirrados, com os olhos fixos e vazios, acocorados, sem ter para onde ir ou o que fazer. Os trilhos de trem ficavam do outro lado da estrada junto a uma caixa d'água onde se lia "Shelton". "Puta que pariu", disse Eddie, surpreendido. "Já tive nesta merda de cidade antes. Foi há um tempão atrás, durante a guerra, era de noite, tarde da noite, todos dormiam; saí do trem para fumar e ali estávamos nós em meio a nada, na mais completa escuridão, e eu olhei para o alto e vi esse nome 'Shelton' escrito nessa caixa d'água aí. Íamos para o Pacífico, todo mundo roncava, aquele bando de bundas-moles, e nós paramos apenas por alguns instantes, para abastecer ou algo assim, e logo seguimos adiante. Puta merda, e agora aqui estou em Shelton outra vez. Odeio esse lugar desde sempre." E ali estávamos nós, encalhados em Shelton. De alguma forma como em Davenport, Iwoa, todos os carros que passavam eram carros de fazendeiros ou, de vez em Quando, um carro de turistas, o que é ainda pior, com velhos dirigindo e suas esposas consultando mapas e apontando pontos turísticos ou então recostadas em bancos reclináveis olhando para tudo com aquela cara de desconfiança.
A garoa aumentou e Eddie ficou gelado; ele vestia pouquíssima roupa. Catei uma camisa de flanela xadrez no fundo do meu saco de viagem e ela a vestiu. Ele se sentiu um pouco melhor. Eu já estava resfriado. Comprei umas pastilhas para a garganta numa minúscula loja indígena. Fui a um ínfimo posto de correio, de dois metros por quatro, e enviei um postal barato para minha tia. Retornamos à estrada opaca. Ali, bem na nossa frente, na caixa d'água estava escrito "Shelton". O ônibus para Rock Island passou zunindo por nós. Pudemos ver as caras dos passageiros do Pullman num relance súbito. O trem assobiou pelas planícies seguindo também na direção dos nossos desejos. Então, começou a chover mais forte.
Um sujeito alto e esguio, com um chapéu de porte médio, parou seu carro no lado oposto da estrada e caminhou em nossa direção; parecia o xerife. Silenciosamente preparamos nossas desculpas. Ele se aproximou vagarosamente. "Ei, rapazes, vocês estão indo para algum lugar específico ou estão apenas indo?" Não entendemos bem a pergunta. Era uma pergunta boa pra cacete.
"Por quê?"
"O negócio é o seguinte: tenho um pequeno parque de diversões a uns poucos quilômetros daqui e estou precisando de uns garotos que estejam a fim de trabalhar e ganhar um dinheiro fácil. Temos uma concessão para roleta e outra para o jogo de argolas - sabe como é, aquelas que você atira e ganha o objeto no qual ela se encaixa. Vocês estão dispostos a trabalhar para mim? Pago 30 por cento de cada bolada..."
"Mais cama e comida?"
"Cama sim, comida não. Vocês terão que comer na cidade. Vamos viajar um pouco por aí." Refletimos por uns instantes. "É uma boa oportunidade", falou e esperou paciente até recuperarmos nossas mentes. Estávamos um pouco intimidados, não sabíamos bem o que responder mas, para dizer a verdade, eu não estava nem um pouco a fim daquela história de parque de diversões. Estava era louco para chegar em Denver e encontrar a rapaziada.
"Disse: "Não sei não, cara. Estou a fim de cair fora o mais rápido possível e acho que não vai dar tempo." Eddie repetiu praticamente a mesma coisa, o velho gesticulou displicentemente, perambulou de volta para seu carro e se mandou. E foi isso aí. Nós rimos por uns instantes e ficamos imaginando como seria aquela transação. Tive visões de uma noite sombria e poeirenta se esparramando sobre as planícies e as caras das famílias do Nebraska desfilando à minha frente, com crianças rosadas olhando para tudo com espanto e admiração, e eu sei que me sentiria o maior calhorda do mundo se tivesse que lográ-los naqueles malditos caça-níqueis. Rodas-gigantes girando na escuridão da planície e, pelo amor de Deus, a música entristecia dos carrosséis ecoando pelas montanhas e eu ansioso para chegar logo ao meu destino, tendo de dormir numa cama de aniagem em algum vagão todo enfeitado.
Eddie acabou se revelando um companheiro um tanto descompromissado demais para a estrada. Uma geringonça antiga, engraçada, cruzou por nós. Era dirigida por um velho e feita numa espécie qualquer de metal que lembrava o alumínio, eu acho; mais parecia uma caixa metálica Sobre todas - era para ser um trailer não há dúvida; mas um trailer estranho e maluco feito em casa no Nebraska. Ia tão devagar que parou. Corremos até lá a mil por hora; o velho disse que só podia levar um de nós. Sem uma palavra Eddie se jogou para dentro da caixa metálica e sumiu lentamente de vista - e ainda por cima usando minha camisa de flanela xadrez. Porra, que dia de sorte, joguei um beijo de despedida para a camisa, de qualquer maneira ela só tinha valor sentimental. Voltei a esperar nesta cidade de merda que é Shelton por um longo, longo tempo, muitas horas mesmo, e eu temia que a noite chegasse repentinamente, mas, na verdade, apesar de já estar um pouco escuro, ainda era cedo. Denver, Denver, como, Quando, de que maneira eu finalmente chegaria a Denver. Já estava quase desistindo de ficar na estrada e planejando uma chegada ao café mais próximo Quando um carro quase novo, dirigido por um rapagão, parou para mim. Corri como um louco.
"Para onde você tá indo?"
"Para Denver."
"Bom, posso te levar uns 200 quilômetros."
"Grande, cara, grande. Você acaba de me salvar a vida."
"Eu também costumava pegar carona, por isso sempre dou uma força pra rapaziada que encara a estrada."
"Eu faria o mesmo, se tivesse carro."
E nós continuamos conversando, ele me falou sobre sua vida, que não era das mais interessantes, e eu adormeci um pouco, só acordando nos arredores de Gothenburg, onde ele me deixou.
5
A mais incrível carona da minha vida estava prestes a pintar; um caminhão, com uma plataforma de madeira atrás e cinco ao seis caras jogados em cima; os motoristas, dois garotos agricultores loiros do Minnesota, estavam recolhendo toda e qualquer alma solitária que encontrassem estrada afora - eles formavam a mais simpática, sorridente e jovial dupla caipira que se pode imaginar, os dois vestindo um macacão, uma camiseta e nada mais, ambos ágeis e com pulsos grossos e um amplo sorriso de "cuméquitá?" resplandecendo pra tudo e pra todos que cruzassem o caminho deles. Eu corri, perguntei: "Tem lugar pra mais um?" Eles disseram: "Claro, sobe, tem lugar pra todo mundo."
Eu ainda não estava na caçamba antes que o caminhão arrancasse zunindo, cambaleei, um caroneiro me agarrou, e eu me sentei. Alguém me passou uma garrafa com uma bebida forte como veneno, o último gole dela. Tomei um bom trago no ar selvagem, lírico e chuvoso do Nebraska. "Iuupii, lá vamos nós", gritou um garoto com um chapéu de baseball, e eles fizeram o caminhão disparar até uns 120 quilômetros por hora e ultrapassavam todo mundo na estrada. "A gente tá neste caminhão de merda desde Des Moines. Esses caras nunca param. Às vezes a gente tem que gritar durantes horas pra que eles nos deixem dar uma mijada. Se não, a gente é obrigado a mijar no vento e aí tem que se segurar, meu irmão, se segurar mesmo."
Olhei para a tripulação. Havia dois jovens lavradores do Dakota do Norte com bonés de baseball vermelhos - que é o chapéu-protótipo de todos os jovens agricultores do Dakota do Norte - e eles iam em direção às colheitas; o velho deles tinha deixado eles saírem para cair na estrada durante o verão inteiro. Havia dois garotos urbanos de Columbus, Ohio; jogavam futebol no time da escola, mascando chicletes, pestanejando, cantarolando com os cabelos ao vento, e eles disseram que estavam aproveitando o verão para viajar de carona pelos Estados Unidos. "A gente tá indo pra Los Angeles", berraram.
"O que é que vocês vão fazer lá?"
"Porra, a gente não tem a menor idéia. Que diferença faz?"
Havia ainda um sujeito alto e magro, com um olhar furtivo. "De onde você é?", perguntei. Eu estava deitado junto a ele na plataforma; não havia cercas de proteção nem nada, era impossível sentar sem ser cuspido pra fora. Ele se virou vagarosamente, abriu a boca e disse: "Mon-ta-na".
Finalmente ali estava também Mississippi Gene, e seu fardo. Mississippi Gene era um cara moreno e mirrado que saltava nos trens de carga por todos os cantos do país; um vagabundo de trinta anos mas com a aparência muito mais jovem - na verdade, era quase impossível dizer com certeza a idade que ele realmente tinha. Se sentava sobre as tábuas corridas da caçamba, as pernas cruzadas, com um olhar sereno e distante perdido na imensidão das planícies, sem dizer uma só palavra durante centenas de quilômetros até que, finalmente, em determinado momento, se viou pra mim e perguntou: "Pra onde você tá indo?"
"Denver", eu disse.
"Tenho uma irmã lá, mas já faz muitos anos que não vejo ela." Sua fala era pausada e melodiosa. Era um sujeito paciente. Seu fardo era um alto garoto loiro de 16 anos, igualmente envolto em trapos, quer dizer, ambos vestiam roupas surradas de andarilhos, escurecidas pela fuligem das locomotivas, pela imundície dos vagões de carga, por incontáveis noites sob as estrelas. O garoto loiro também era do tipo silencioso e parecia estar fugindo de alguma coisa, e a julgar pela maneira que umedecia os lábios, com um ar preocupado, sempre olhando pra frente, é provável que seu problema fosse com os homens da lei. Montana Slim falava com eles ocasionalmente, sempre com um sorriso insinuante e sarcástico. Eles não lhe davam bola. Slim era todo insinuações. Eu estava apreensivo com o seu largo sorriso calhorda, que ele escancarava à sua frente e deixava suspenso ali, como se fosse meio abobado.
"Cê tem algum dinheiro aí?"
"Porra, não tenho. Talvez só o suficiente prum trago de uísque até chegar a Denver. E você?"
"Sei onde conseguir."
"Onde?"
"Em qualquer lugar. Você pode atormentar uma pessoa até levá-la à loucura, não pode?"
"E, de repente, consegue."
"Não vacilo muito quando tou mesmo a fim de arranjar um troco. Rumo a Montana, pra ver o meu velho. Vou saltar desta barca em Cheyenne e dar um jeito de subir até lá. Estes dois tão indo pra Los Angeles."
"Sem escala?"
"É isso aí, direto e sem escalas. Se você tá a fim de ir pra LA acaba de conseguir uma carona."
Cogitei essa possibilidade. A idéia de voar através do Nebraska e do Wyoming noite adentro, amanhecer no ar abafado do deserto de Utah, ver as cores do dim de tarde se esparramando pelo parecidíssimo deserto de Nevada e chegar realmente a Los Angeles dentro de um espaço de tempo bastante previsível quase me fez mudar de planos. Mas eu tinha mais era que ir para Denver. Por isso, também teria de saltar em Cheyenne e dali pegar uma carona para o sul, uns 150 quilômetros mais ou menos.
Fiquei contente quando os dois colonos de Minnesota que eram donos do caminhão decidiram dar uma parada em North Platte para comer. Queria saber qual era a deles. Saltaram da cabina e sorriram para todos nós: "Hora de dar uma mijadinha", disse um. "Hora de comer", disse o outro. Só que eles eram os únicos na festa com dinheiro suficiente pra comprar comida. Todo mundo se arrastou atrás deles para dentro de um restaurante dirigido por um bando de mulheres e nos sentamos entre hambúrgueres e xícaras fumegantes de café enquanto eles devoraram enormes pratos feitos como se tivessem retomado à cozinha de sua mamãe. Eram irmãos, transportavam máquinas agrícolas de Los Angeles para Minnesota e faziam um bom dinheiro com isso. Aí, em sua viagem para a costa, quando estavam sem carga, davam carona a todos que iam encontrando pela estrada. Já tinham feito umas cinco viagens, era trabalho pesado. Mas eles gostavam de tudo, jamais desmanchavam aquele sorriso luminoso. Tentei puxar conversa, uma idéia estúpida de minha parte, querer fazer amizade com os capitães do nosso navio e as únicas respostas que recebi foram dois sorrisos ensolarados, adornados por largos dentes radiantes criados a milho.
Todos os seguiram ao restaurante, menos os dois jovens vagabundos, Gene e seu garoto. Quando retomamos, eles ainda estavam sentados no caminhão, solitários e soturnos. A noite estava caindo agora. Os dois garotos do caminhão fumavam; decidi aproveitar a chance para ir comprar uma garrafa de uísque e me manter aquecido no gélido e ventoso ar noturno. Eles sorriram quando lhes falei. "Continuem, não percam tempo."
"Na volta dou uns goles pra vocês", tranqüilizei-os.
"Oh, não. A gente não bebe jamais. Vai firme."
Montana Slim e os dois atletas escolares perambularam comido pelas ruas de North Platte até que encontrei um boteco qualquer. Eles contribuíram com um pouco, Slim outro pouco e eu pude comprar quase um litro. Homens altos e taciturnos nos observavam passar, plantados em frente a pequenos edifícios de fachada postiça; na rua principal se alinhavam uns chalés retilíneos e empertigados. Além de cada rua melancólica se descortinavam vistas imensas das planícies. Senti algo estranho no ar de North Platte, eu não sabia bem o que era. Em cinco minutos eu saberia. Voltamos para o caminhão e caímos fora. Escureceu num instante. Todos tomaram um trago e, de repente, olhei para os lados e os campos verdejantes das fazendas do Platte começaram a desaparecer, e no lugar deles surgiram planos e amplos desertos de areia e arbustos ressequidos se esparramando tão longe quanto seus olhos pudessem alcançar. Fiquei estarrecido.
"Que porra é essa, homem?", peguntei pro Slim.
"Este é o começo das pradarias, garoto. Me passa outro trago."
"Iuuupii", gritaram os colegiais. "Tchau, Columbus. O que o Sparkie e os garotos diriam se estivessem aqui. Uau!"
Os motoristas tinham se revezado, o irmão mais moço acelerava o caminhão até a velocidade máxima. A estrada mudou também: calombos na pista, acostamentos estreitos com valões de um metro e meio de fundura para ambos os lados e o caminhão corcoveando de um lado para outro da estrada - milagrosamente apenas quando não haviaa nenhum carro vindo na direção oposta - e eu pensei que iríamos acabar dando um salto mortal. Mas eles eram exímios motoristas. E como sabiam fazer aquele caminhão se aproveitar destes calombos do Nebraska - calombos que se prolongavam até o Colorado! Então percebi que finalmente eu já estava no Colorado, ainda não oficialmente, mas podia pressentir Denver a apenas algumas centenas de quilômetros a sudoeste dali. Gritei de tanta felicidade. A garrafa circulava. O céu se povoou de magníficas estrelas resplandescentes. As distantes colinas arenosas se obscureceram. Me sentia veloz como uma flecha, capaz de vencer todas as distâncias.
De repente Mississippi Gene se virou para mim do seu transe contemplativo de pernas cruzadas, moveu os lábios, se aproximou e disse: "Essas planícies me fazem lembrar o Texas."
"Você é do Texas?"
"Não senhor, sou de Green-vell, Muzzsippy." E foi bem assim que ele falou.
"E o menino, de onde é?"
"Ele se meteu em encrencas lá no Mississippi, então me ofereci para ajudar ele. Jamais rodou sozinho por aí. Tomo conta dele da melhor forma que posso. É apenas uma criança." Embora Gene fosse branco, havia algo da sabedoria de um velho negro experiente nele, e algo que lembrava demais Elmer Hassel, o viciado de Nova York, mas era como se fosse um Hassel das estradas de ferro, um épico Hassel andarilho, cruzando e tornando a cruzar a nação anualmente, curtindo o sul no inverno, imigrando para o norte no verão, apenas porque não havia nenhum lugar onde pudesse permanecer sem cair no tédio e também porque não havia lugar algum para ir senão todos os lugares, rodando sempre sob as estrelas, especialmente estrelas do Oeste.
"Estive em Ogden algumas vezes. Se você quiser ir até lá, tenho alguns amigos com que a gente pode se juntar."
"De Cheyenne, estou indo para Denver."
"Porra, segue direto de uma só vez. Não é todo dia que a gente pega uma carona como esta."
Ali estava mais uma proposta tentadora. O que havia de tão bom em Ogden? "O que é Ogden?", perguntei.
"É o lugar onde a maioria dos rapazes passam e sempre se encontram; você é capaz de achar qualquer um lá."
Na juventude eu estivera em alto mar em companhia de um sujeito alto e esquelético de Louisiana, chamado Big Slim Hazard, William Holmes Hazard, um vagabundo por opção. Quando criança tinha visto um vagabundo se aproximar para pedir um pedaço de torta à sua mãe, ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada, o garoto, ainda pequeno, perguntou: "Mãe, quem era esse homem?" "Ora, um vagabundo." "Mama, quando crescer também quer ser vagabundo." "Não diga bobagens, menino. Um Hazard nào nasceu para isso." Mas ele jamais esqueceu aquele dia, e quando cresceu, depois de jogar futebol durante uma curta temporada no LSU, se tornou, de fato, um vagabundo. Big Slim e eu passamos muitas noites contando histórias e cuspindo pedaços de tabaco mascado em sacos de papel. Havia reminiscências tão indubitáveis de Big Slim Hazard nos devaneios de Mississippi Gene que resolvi perguntar: "Nunca te aconteceu de cruzar com um cara chamado Big Slim Hazard por aí?"
E ele respondeu: "Aquele sujeito alto com uma risada sonora?"
"É, parece Ele. Nasceu em Ruston, Lousiana."
"É isso aí! Às vezes chamavam Ele de Lousiana Slim. Sim senhor, é claro que eu conheço o Big Slim"
"Ele trabalha nos poços de petróleo do Leste do Texas?"
"No Leste do Texas, está certo. E agora lida com gado em alguma fazenda por aí."
E era exatamente isso; mas eu ainda não conseguia acreditar que Gene realmente pudesse conhecer Slim, que durante ano eu estivera procurando. "E ele também já trabalhou nos rebocadores em Nova York?"
"Bem, sobre isso eu nada sei."
"Vai ver que você só conheceu Ele no Oeste."
"Certo! Na verdade, jamais estive em Nova York."
"Puxa vida, estou surpreso que você o conheça. Este país é enorme. No entanto, tinha certeza que você deveria conhecer ele."
"Acredite, conheço Big Slim bastante bem. Sempre generoso com sua grana, quando tem alguma. Quer dizer, um cara valente, também. Vi Slim desmontar um guarda nos arredores de Cheyenne, com um único soco." Isso soava a Big Slim; ele estava sempre cortando os ares com esse soco definitivo. Parecia Jack Dempsey, mas um Jack Dempsey jovem e alcoólatra.
"É demais!", gritei envolto pela brisa, e tomei outro trago e agora realmente estava me sentindo maravilhosamente bem. Cada gole era enxugado sob o vento esvoaçante de um caminhão sem capota, enxugado de seus efeitos maléficos enquanto o efeito bom afundava em meu estômago. "Cheyenne, lá vou eu", cantarolei. "Ei, Denver, te prepara pra receber este garoto."
Montana Slim se virou para mim, apontou para os meus sapatos e comentou: "Você não acha que isso aí dava um bom adubo?", sem um traço de riso, é claro, e a rapaziada ouviu e gargalhou. Eram os sapatos mais ridículos de toda a América. Trouxe-os comigo especificamente porque não queria que meus pés suassem na estrada abafada e, a não ser pela chuva em Bear Mountain, eles demonstraram ser os melhores sapatos possíveis para minha viagem. Assim, também ri com eles. O sapato já estava roto e desgastado, soltando tiras coloridas como um abacaxi maduro, desnudando meus dedos. Bem, bebemos mais um gole e gargalhamos. Como num sonho passamos por minúsculas cidades de beira de estrada cintilando na escuridão e por longas filas de mãos camponesas ociosas e cowboys noturnos. Eles nos observavam passar num rápido meneio de cabeça e nós os víamos comprimindo suas coxas através da escuridão espessa do outro lado da cidade - formávamos uma tripulação muito louca.
Muitos homens estavam na região naquela estação do ano - era a época das colheitas. Os garotos de Dakota ficaram irrequietos. "Acho que vamos saltar na próxima para mijar, parece que tem um monte de trabalho por aqui."
"O negócio é ir seguindo para o norte quando a colheita for acabando nesta região", aconselhou Montana Slim, "e continuar colhendo até chegar ao Canadá." Os garotos concordaram sem muito entusiasmo, não levaram muita fé nesse conselho.
Enquanto isso, o jovem fugitivo loiro sentava daquele mesmo jeito; vez por outra Gene abandonava seu transe budista por cima das evoaçantes planícies sombrias e sussurrava afetuosamente ao ouvido do garoto. O menino assentia. Gene estava cuidando de sua melancolia e de seus temores. Eu me perguntava onde é que eles iriam se meter e o que fariam. Não tinham nem cigarros. Eu esbanjava meu maço com eles. Estava apaixonado por eles. Eram agradáveis e encantadores. Jamais pediam, mas eu continuava oferecendo. Montana Slim tinha seus próprios cigarros mas nunca passava o maço. Zunimos através doutra cidade de beira de estrada, cruzamos por mais uma fila de homens altos e esguios vestindo jeans, agrupados sob a luz pálida como mariposas no deserto, e reingressamos na escuridão absoluta, e as estrelas sobre nossas cabeças eram puras e reluzentes por causa do ar progressivamente rarefeito à medida que nós elevávamos para o topo do platô do Oeste, quase meio metro por quilômetro - pelo menos é o que eles diziam - e em momento algum havia árvores escondendo as estrelas na linha do horizonte. E cheguei a ver uma vaca mal-humorada com a cara branca parada à beira da estrada enquanto deslizávamos para longe. Era como viajar de trem, de tão seguro e estável.
De vez em quando passávamos por uma cidade, reduzíamos a velocidade e Montana Slim dizia: "Ah, hora do pipi", mas os caras de Minnesota não paravam e nós cruzávamos direto. "Porra, tenho que mijar", disse Slim.
"Dá uma chegadinha ali no canto", sugeriu alguém.
"Bem, eu vou mesmo, disse ele e lentamente, enquanto nós todos observávamos, se dirigiu de cócoras para a parte de trás da caçamba equilibrando-se o melhor que podia, até que suas pernas bambolearam. Alguém bateu na janela da cabina pra chamar a atenção dos irmãos. Seus sorrisos amplos reluziram quando eles se viraram. E no instante em que Slim estava pronto para entrar em ação, cauteloso como tinha sido até então, eles começaram a ziguezaguear o caminhão a uns 120 quilômetros por hora. Ele caiu por um momento e nós vimos o esguicho de uma baleia dançar no ar, ele se esforçou e conseguiu se acocorar outra vez. Eles gingavam o caminhão. Brumm, lá se foi ele, caindo de lado e se molhando todo. Sob o ronco do motor podíamos ouvi-lo praguejar debilmente, como o lamento distante de um homem ao longe, através das colinas. "Merda... merda..." Ele nem perceberá que havíamos feito aquilo propositadamente; apenas se esforçava, com uma careta digna de Jó. Quando havia acabado, literalmente, estava totalmente molhado e tinha agora que traçar sua trêmula trajetória de retorno, com a cara mais lastimável do mundo, e todos gargalhando, incluindo os caras de Minnesota, na cabina, menos o tristonho garoto loiro. Estendi-lhe a garrafa, para que se refizesse.
"Que merda", disse, "eles estavam fazendo isso de propósito?"
"Certamente."
"Porra, eu nem imaginava. Em Nebraska não tive tanta dificuldade pra fazer a mesma coisa."
Subitamente chegamos à cidade de Ogallala, e aqui nossos camaradas da cabine gritaram: "Hora do pipi", repletos de imensa satisfação. Slim parou taciturnamente ao lado do caminhão, lamentando a oportunidade que havia perdido. Os dois garotos de Dakota deram adeus para todos e eu imaginei que eles começariam a colheita ali mesmo. Vimos eles desaparecerem dentro da noite, em direção às cabanas na periferia da cidade, onde luzes cintilavam e os vigilantes noturnos de jeans decidiam quem seria contratado. Eu tinha de comprar mais cigarros. Gene e o garoto loiro me seguiram para esticar as pernas. Me dirigi ao lugar mais inverossímil do mundo, uma espécie de bar solitário das planícies, construído para os garotos locais e meninas adolescentes. Eles estavam dançando, uns poucos, ao som de uma vitrola automática. Quando entramos houve um silêncio constrangedor. Gene e o Loiro apenas deram uma parada, sem olhar para ninguém; tudo o que desejavam eram cigarros. Mas havia também umas garotas bonitas por ali. E uma delas pôs os olhos no Loiro, ele nem notou, e se notasse não teria ligado, de tão triste e distante.
Comprei um maço para cada um deles, que me agradeceram. O caminhão estava pronto para partir. Era quase meia-noite agora, e estava frio. Gene, que já havia cruzado o país mais vezes do que poderia contar nos dedos dos pés e das mãos, explicou que o melhor que tínhamos a fazer era entrarmos, todos, debaixo de uma grande lona, caso contrário iríamos congelar. Assim, e ainda contando com o resto da garrafa, nos conservamos aquecidos enquanto o ar uivava cada vez mais gélido em nossos ouvidos. Quanto mais subíamos as High Plains, mais radiantes ficavam as estrelas. Agora já estávamos em Wyoming. Deitado de costas, eu olhava fixamente em direção ao esplêndido firmamento, me deliciando com aqueles momentos, e pensando o quão distante tinha ficado a desolada Bear Moutain, e excitadíssimo só de pensar no que me aguardava lá adiante, em Denver - o que quer que fosse. Mississippi Gene começou a cantarolar uma canção. Cantava com a voz calma e melodiosa, com um sotaque caipira, e era uma canção simples, apenas: "Tenho uma garota que vibra, ela é uma adolescente gostosa, a coisa mais vibrante que você já viu", repetindo esse refrão e misturando outras frases no meio, falando sobre o quão longe ele estivera, e como gostaria de voltar para ela, mas a tinha perdido para sempre.
Eu disse: "Gene, que canção maravilhosa."
"É a mais linda que conheço", ele respondeu, com um sorriso.
"Espero que você chegue onde pretende e seja feliz lá."
"De um jeito ou de outro, sempre acabo me dando bem."
Montana Slim estava adormecido. Acordou e me disse: "Ei, Moreno, que tal você e eu curtirmos Cheyenne juntos esta noite antes de você se mandar pra Denver?"
"Claro." Eu estava bêbado o suficiente para aceitar qualquer coisa.
Enquanto o caminhão penetrava nos subúrbios de Cheyenne, podíamos perceber as luzes avermelhadas das antenas da estação de rádio local, e repentinamente lá estávamos nós aos solavancos entre uma verdadeira multidão que se esparramava por ambos os lados da rua lotando as calçadas. "Raios, é o Festival do Oeste Selvagem", disse Slim. Multidões de executivos barrigudos com chapéus enormes e botas texanas, com suas pesadas esposas vestidas de cowboy percorriam as calçadas de madeira da velha Cheyenne, barulhentos e afobados. Lá longe reluzia a luz viscosa dos bulevares do centro novo de Cheyenne, mas a celebração concentrava-se na parte velha. Estouravam tiros de festim. Os saloons estavam abarrotados até a calçada. Eu estava surpreso, mas ao mesmo tempo percebia como aquilo turo era profundamente ridículo: na minha primeira investida no Oeste estava vendo a que mecanismos absurdos eles recorriam para manter viva sua orgulhosa tradição. Tivemos de saltar do caminhão e nos despedir de todos, os garotos de Minnesota não estavam interessados em curtir o ambiente. Foi triste vê-los partir; percebi que jamais voltaria a rever qualquer um deles, mas a estrada era assim mesmo. "Vocês vão ficar gelados até o cu esta noite", avisei, "e torrados, no deserto, amanhã à tarde."
"Pra mim tá tudo bem, contanto que a gente se livre desta noite gelada", disse Gene. E o caminhão arrancou, abrindo caminho entre a multidão, sem que ninguém prestasse atenção na excentricidade dos garotos debaixo da lona observando a cidade como se fossem bebês sob as cobertas. Observei-os desaparecer dentro da noite.
5
Montana Slim e eu começamos a percorrer os bares. Eu tinha uns sete dólares, cinco dos quais desperdicei estupidamente naquela noite. Primeiro circulamos entre todos aqueles turistas fantasiados de cowboy, fazendeiros e executivos de petróleo, pelos bares, pelas calçadas, pelos umbrais, e aí sacudi Slim por uns instantes, ele perambulava pela rua um pouco aturdido de tanto uísque e de tanta cerveja; era aquele tipo de bêbado cujos olhos ficam vidrados, e em instantes começa a contar histórias íntimas para alguém completamente desconhecido. Entrei num boteco que vendia chili e a garçonete era mexicana e gostosa. Comi e logo em seguida escrevi um bilhete amororo no verso da conta. O boteco estava às moscas, todos estavam bebendo em algum outro lugar. Eu disse para ela virar a nota. Ela leu e riu. Era um pequeno poema a respeito de como eu gostaria que ela viesse passar a noite comigo.
"Seria ótimo, chiquito. Mas tenho um encontro com meu namorado."
"Não dá pra dispensar ele?"
"Não, não posso", respondeu, entristecida, e eu adorei o jeito com que ela falou. "Outra hora qualquer eu apareço", e ela respondeu: "Quando quiser, garoto." Mesmo assim fiquei matando o tempo por ali, sorvendo outra xícara de café só para ficar olhando pra ela. Seu namorado entrou com ar rabugento e quis saber a que hora ela largaria o serviço. Ela começou a fazer tudo afobadamente para cerrar logo as portas. Tive de cair fora. Sorri para ela ao partir. Na rua, o ambiente continuava tão selvagem quanto sempre, com a diferença que aqueles gordos arrotadores estavam ficando ainda mais bêbados e barulhentos. Até que era engraçado. Havia uns caciques índios vagando por ali, com penteados enormes e um ar solene em rostos enrubescidos pela bebida. Vi Slim cambaleando ali pelas redondezas e me juntei a ele.
Ele disse: "Acabei de escrever um postal para o meu pai, em Montana. Será que você conseguiria encontra uma caixa postal onde enfiá-lo?" Era uma estranha solicitação; ele me entregou o postal e cambaleou entre as portas vaivém do saloon. Peguei o cartão, me dirigi à caixa postal e dei uma olhadela rápida: "Querido pai, quarta-feira estarei em casa. Tudo bem comigo e espero que com você também. Richard." Isso me deu uma nova impressão a seu respeito; que afetuoso e cortês ele era com seu velho! Voltei ao bar e o reencontrei. Arranjamos duas garotas, uma linda jovem loira e uma morena gorda. Elas eram burras e chatas, mas a gente queria faturar elas mesmo assim. Arrastamos as garotas a um nightclub insignificante que já estava fechando, e lá eu gastei nada mais nada menos do que dois dólares em uísque para elas e cerveja para nós. Eu estava ficando bêbado e nem ligava. Tudo estava bem. Todos meus anseios e intenções se dirigiam àquela pequena loira. Queria penetrá-la com toda minha energia. Eu a abracei e quis dizer isso a ela. O nightclub fechou e nós perambulamos por raquíticas ruas poeirentas. Olhei para o céu, puras e maravilhosas estrelas ainda estavam ali, cintilando. As garotas queriam ir até a rodoviária, e assim fomos nós todos, só que aparentemente elas pretendiam encontrar um marinheiro qualquer que estava lá esperando por elas; eu disse para a loira: "Qual é a tua?" Ela disse que queria ir para casa, no Colorado, bem no limite sul de Cheyenne. "Eu te levo de ônibus", falei.
"Não, o ônibus pára na estrada e eu tenho que caminhar sozinha por aquela pradaria de merda. Passei a tarde inteira olhando pra esta bosta e não estou a fim de caminhar por ela hoje à noite."
"Ei, escuta, a gente pode curtir uma bela caminhada entre as flores da pradaria."
"Não tem flor nenhuma lá", ela respondeu. "Quero mesmo é ir pra Nova York. Estou de saco cheio disto aqui. Nunca há lugar algum pra ir, a não ser Cheyenne e em Cheyenne não tem nada pra fazer."
"Também não há nada pra fazer em Nova York."
"Um cacete que não", disse ela, franzindo os lábios.
A rodoviária estava abarrotada. Gente de todo tipo estava esperando os ônibus ou simplesmente parados ali; havia vários índios que observavam tudo com olhares impassíveis. A garota desvencilhou-se da minha conversa fiada e se juntou ao marinheiro e à turma dele. Slim estava cochilando num banco, sentei ali. Os pisos das estações rodoviárias são exatamente iguais pelo país inteiro, sempre recobertos de baganas e catarros, e eles provocam uma melancolia profunda que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir. Por uns instantes não houve a diferença entre estar aqui ou em Newark, a não ser pela extraordinária imensidão lá de fora, que eu tanto amava. Lamentava a maneira com a qual eu tinha rompido a pureza de toda minha viagem, sem economizar nem um centavo, desperdiçando totalmente o tempo feito um bestalhão enrabichado por aquela garota estúpida e gastando minha grana toda. Isso me fez ficar furioso. Eu não dormia há tantas horas, cansei de me atormentar e de blasfemar e fui direto dormir, me ajeitando num banco com meu saco de lona como travesseiro e dormindo até as oito horas da manhã ao som de murmúrios oníricos e ruídos distantes da estação, entre centenas de pessoas passando.
Acordei com uma puta dor de cabeça. Slim tinha se mandado - para Montana, eu acho. Saí à rua. E ali, no ar azulado, vi ao longe, pela primeira vez, os enormes cumes nevados das Rocky Moutains. Respirei profundamente. Tinha de chegar a Denver de uma vez por todas. Mas primeiro tomei meu desjejum, bastante modesto: torradas, café e um ovo. O Festival do Velho Oeste ainda prosseguia; havia um rodeio, e a baderna e a agitação estavam para começar outra vez. Deixei tudo isso para trás. Queria encontrar a rapaziada em Denver. Cruzei uma passarela sobre a estrada de ferro, e cheguei a um monte de barracos onde duas estradas se bifurcavam, ambas conduzindo a Denver. Peguei a que ficava mais próxima das motanhas, assim poderia olhar para elas enquanto seguia meu rumo. Ganhei uma carona instantânea com um moço de Connecticut que viajava num calhambeque, pintando todo o país, ele era filho de um editor do Leste. Ele falava e falava; eu estava enjoado do trago e da altitude. Em determinado momento quase tive de pôr a cabeça para o lado de fora da janela. Mas quando ele me largou em Longmont, Colorado, eu já estava me sentindo bem melhor, começando até a lhe contar a respeito do espírito das minhas viagens. Ele me desejou boa sorte.
Era lindo em Longmont. Sob uma gigantesca árvore velha havia uma cama de grama verde que pertencia a um posto de gasolina. Peguntei ao servente se podia dormir ali, ele disse "claro que sim", então estiquei uma camisa de flanela, deitei minha cabeça sobre ela, com um cotovelo por cima e, por alguns instantes, com um olho espiando a neve no topo das montanhas rochosas sob o sol cálido, caí no sono por duas horas deliciosas. O único desconforto foi uma fortuita formida do Colorado. E aqui estou eu no Colorado! Eu me rejubilava o tempo inteiro. Maravilha! Estou conseguindo! E depois de umsono reconfortante repleto de sonhos recobertos por teias de aranha sobre minha vida passada no Leste, me levantei, me lavei no banheiro dos homens do posto de gasolina e me arranquei em largas passadas, renovado e em plena forma. Comprei um milkshake suculento e saboroso, num bar de beira de estrada, só pra jogar algo gelado no meu estômago aquecido e atormentado.
Casualmente, uma gostosíssima garota do Colorado bateu aquele shake para mim; ela era toda sorrisos também; eu me senti gratificado, aquilo me refez dos excessos da noite passada. Disse a mim mesmo: Uau! Denver deve ser ótima. Retornei àquela estrada calorenta e zarpei num carro novo em folha dirigido por um jovem executivo de Denver, um cara duns 35 anos. Ele ia a 120 por hora. Eu formigava inteiro; contava os minutos e subtraía os quilômetros. Justo em frente, atrás dos trigais esvoaçantes reluzindo sob as neves distantes do Estes, eu finalmente veria Denver. Eu me imaginei num bar qualquer da cidade, essa noite, com a turma inteira; aos olhos deles eu pareceria misterioso e maltrapilho, como um profeta que havia cruzado a terra inteira para trazer a palavra enigmática e a única palavra que eu teria a dizer era: "Uau!" O cara e eu mantivemos uma longa e ardente conversação a respeito dos nossos respectivos projetos de vida e antes que eu pudesse perceber, já estávamos passando pelos mercados que vendem frutas por atacado nos arredores de Denver; havia chaminés, fumaça, vias férreas; prédios avermelhados, de tijolos à vista, e os edifícios de concreto do centro da cidade, afastados e cinzentos; e aqui estava eu em Denver. Ele me deixou na rua Larimer. Eu me arrastei por ali com o maior e o mais malicioso sorriso de satisfação do mundo, perambulando entre velhos vagabundos e cowboys obsoletos da rua Larimer.
6
Naqueles dias eu não conhecia Dean tão bem quanto agora, por isso a primeira coisa que fiz foi procurar por Chad King. Telefonei para a casa dele, falei com sua mãe - ela disso: "Alô, Sal, o que é que você está fazendo em Denver?" Chad era um garoto magro e loiro com uma cara esquisita de bruxo-cientista que combinava com seu interesse em antropologia e índios pré-históricos. Seu nariz se projetava suave e quase docemente sob a chama dourada de seus cabelos; ele possuía a graça e a beleza de um desembaraçado habitante do Oeste, que joga um pouco de futebol e sempre dançou em motéis de beira de estrada. Quando ele falava, um trêmulo som metálico ecoava: "O lance que eu sempre gostei nos índios das planícies, Sal, é a maneira como eles ficavam terrivelmente envergonhados depois de ostentarem seus inúmeros escalpos. Na Vida no Oeste Selvagem, de Ruxton, há um índio que fica completamente vermelho de vergonha por possuir tantos escalpos e correr como um louco pelas planícies para escondido se vangloriar de suas proezas. Porra, isso me encanta."
A mãe de Chad o localizou na sonolenta tarde de Denver trabalhando sobre as cestas confeccionadas pelos índios, no museu local. Liguei, ele veio e me apanhou no seu velho Ford cupê, o mesmo que usava para viajar pelas montanhas, onde escavava à procura de objetos indígenas. Ele entrou na rodoviária vestindo jeans e com um sorriso de orelha a orelha. Eu estava sentado sobre meu saco de viagem, no chão, conversando justamente com o mesmo marinheiro que tinha estado comigo na rodoviária de Cheyenne, perguntando para ele o que havia acontecido com a loira. Ele estava de saco tão cheio que nem me respondeu. Chad e eu entramos em seu pequeno cupê e a primeira coisa que ele tinha a fazer era arranjar uns mapas na prefeitura. Depois, queria rever um velho professor e por aí afora, enquanto tudo o que eu desejava era beber umas cervejas. E, no fundo de minha mente, tinha um desejo ardoroso, saber por onde andava Dean e o que é que ele estava fazendo. Por alguma razão indefinida, Chad tinha decidido não ser mais amigo de Dean, e nem sequer sabia onde ele morava.
"Carlo Marx tá na cidade?"
"Tá, sim." Mas Chad também já não falava mais com ele. Este era o começo do afastamento de Chad King da nossa turma. Eu deveria tirar uma soneca na casa dele aquela tarde. Havia notícias de que Tim Gray tinha um apartamento só esperando por mim na avenida Colfax, e que Roland Major já estava lá aguardando que me juntasse a ele. Percebi uma espécie de conspiração no ar, e esta conspiração confrontava dois grupos da gang: Chad King e Tim Gray e Roland Major, junto com os Rawlins, dispostos a ignorar Dean Moriarty e Carlo Marx a maior parte do tempo. Eu estava estilhaçado bem no meio deste curioso confronto.
Era uma guerra com conotações sociais. Dean era filho de um bêbado, um dos vagabundos mais trôpegos da rua Larimer, e ele próprio, na verdade, tinha crescido na Larimer e imediações. Estava habituado a defender seu pai em juízo, depondo nos tribunais aos seis anos de idade para vê-lo em liberdade. Costumava esmolar em frente aos becos da Larimer e entregar sorrateiramente o dinheiro ao pai, que o aguardava entre garrafas quebradas esparramando ao lado de um velho companheiro. Então, quando cresceu, Dean começou a freqüentar os salões de bilhar de Glenarm; bateu o recorde de carros roubados em Denver e foi parar num reformatório. Sua especialidade era roubar carros, dar umas paqueradas nas garotas que saíam do colégio no fim da tarde, levar elas para as montanhas, faturá-las e voltar para dormir em alguma banheira disponível de um hotel qualquer da cidade. Seu pai, que fora um funileiro respeitado e trabalhador, tinha se transformado num alcoólatra de vinho, o que é ainda pior do que um alcoólatra de uísque, e se limitava a viajar nos trens de carga, indo para o Texas durante o inverno retornando a Denver no verão. Dean tinha irmãos pelo lado de sua mãe já falecida - ela morreu Quando ele era pequeno -, mas eles não gostavam dele. Seus únicos amigos eram os caras do bilhar. Dean, que possuía a energia vibrante de um nova espécie de santo americano, e Carlo, junto com toda a turma do bilhar, eram os monstros do underground daquela temporada em Denver e, sembolizando isso magnificamente bem, Carlo tinha apartamento num subsolo da rua Grant, onde nós nos encontramos e varamos noites até o amanhecer - Carlo, Dean, eu, Tom Snark, Ed Dunkel e Roy Johnson. Mais tarde, novas informações a respeito desses outros aí.
Em minha primeira tarde em Denver, dormi no quarto de Chad King enquanto sua mãe prosseguia com as tarefas domésticas lá embaixo e Chad trabalhava na biblioteca. Era uma tarde abafada das altas planícies, em julho. Eu não teria conseguido dormir se não fosse por uma invenção do pai de Chad. Ele era um homem bondoso e gentil, já com seus setenta anos, velho e frágil, magro e enrugado, sempre contando histórias também, a respeito de sua infância nas planícies do Dakota do Norte, no século passado, quando montava pôneis em pêlo e perseguia coiotes com um porrete por passatempo. Mais tarde, se tornou professor nas escolas rurais do enclave de Oklahoma e, finalmente, um homem de negócios com muitas propriedades em Denver. Possuía ainda se velho escritório em cima de uma garagem qualquer, ali pela redondeza - a escrivaninha de tampo móvel ainda estava lá, junto com incontáveis papéis empoeirados que registravam seu antigo entusiasmo e seu enriquecimento. Ele tinha incentado um tipo especial de ar condicionado. Instalou um ventilador comum no batente de uma janela e, de alguma forma, conduziu água fria através de uma serpentina bem em frente às lâminas giratórias. O resultado era perfeito - numa área de um metro ao redor do ventilador - a água se transformava em vapor neste dia pachorrento, enquanto que a parte térrea da casa continuava tão quente como sempre. Mas eu estava dormindo na cama de Chad, justamente embaixo do ventilador, com um grande busto de Goethe me observando, e caí no sono confortavelmente, para acordar apenas 20 minutos depois, morrendo de frio. Puxei um cobertor e ainda assim sentia frio. Até que ficou tão gelado que não pude mais dormir, então desci. O velho perguntou-me se sua invenção funcionava. Respondi que sem dúvida funcionava muito bem até demais. Gostei do velho. Ele era carregado de recordações. "Certa vez inventei um removedor de manchas que foi plagiado pelas grandes companhias do Leste. Há alguns anos que tento reaver a patente. Se ao menos eu tivesse dinheiro para contratar um advogado decente..." Mas era tarde demais para contratar um advogado decente; e ele permanecia ali sentado com o seu desalento. À noite, houve um jantar extraordinário, a mãe de Chad preparou carne de veado que o tio dele tinha caçado nas montanhas. Mas por onde andava Dean?
7
Os dez dias seguintes foram, como disse W.C.Fields, "repletos de perigo iminente" - e loucos. Fui morar com Roland Major no apartamento realmente luxuoso que pertencia aos pais de Tim Gray. Cada um tinha seu próprio quarto, e havia ainda uma kitchenette com comida na geladeira, e uma imensa sala de estar onde Major sentava com seu chambre de seda criando seus mais recentes contos hamingwayanos - um colérico, corado e robusto inimigo de tudo que, no entanto, possuía o sorriso mais charmoso e sincero do mundo quando a vida verdadeira se encontrava com ele suavemente durante a noite. E assim ele sentava-se à sua escrivaninha e eu saltitava ao redor, sobre o tapete grosso e fofo, vestindo somente minhas calças de algodão. Ele tinha acabado de escrever uma história sobre um cara que chega a Denver pela primeira vez. Seu nome é Phil. Seu companheiro de viagem é um sujeito calado e misterioso chamado Sam. Phil sai para curtir Denver e dá de cara com um bando de artistas pretensiosos. Retorna ao quarto de hotel. Diz lugubremente: "Sam, eles estão por aqui, também." E Sam está apenas olhando pela janela, com melancolia: "Sim", diz ele eu sei." A questão era que Sam não precisava sair à rua e olhar para saber disso. Artistas pretensiosos, pseudo-intelectuais e poseurs, estavam espalhados por toda a América, sugando seu sangue. Major e eu éramos grandes amigos; ele me julgava a coisa mais distante possível de um artista pretensioso. Major adorava bons vinhos, exatamente como Hemingway. Relembrava sua recente viagem à França: "Ah, Sal, se você pudesse sentar comigo em frente a uma garrafa gelada de Poignon Dix-neuf em pleno país basco, então você descobriria que existem outras coisas além de trens de carga."
"Eu sei disso. Mas o negócio é que eu amo os trens de carga, adoro o som de seus nomes: Missouri Pacific, Great Northern, Rock Island Line. Por Deus, Major, se eu pudesse te contar tudo que aconteceu comigo vindo de carona até aqui."
Os Rawlins moravam uns quarteirões mais adiante. Esta era uma família encantadora - a mãe relativamente jovem, proprietária de parte de um hotel decadente e mal-assombrado, com cinco filhos e duas filhas. O filho rebelde era Ray Rawlins, amigo de infância de Tim Gray. Ray veio me buscar estrepitosamente, e a simpatia foi mútua já no primeiro olhar. Caímos fora e bebemos pelos bares de Colfax. Uma das irmãs de Ray era uma loira linda chamada Babe - tenista, gatinha surfista do Oeste. Era a garota de Tim Gray. E Major, que estava apenas passando por Denver e fazendo isso em alto estilo naquele apartamento chique, estava saindo com Betty, a irmã de Tim Gray. Eu era o único cara sem garota. Perguntava a todo mundo: "Por onde anda Dean?" Eles me davam sorridentes respostas negativas.
Então, finalmente aconteceu. O telefone tocou, e era Carlo Marx. Deu o endereço de seu apartamento subterrâneo. Eu perguntei: "O que você está fazendo em Denver? Quer dizer, o que você está fazendo? O que está acontecendo?"
"Oh, espera só até eu te contar."
Voei ao seu encontro. Ele estava trabalhando à noite nas lojas de departamentos May; o louco do Ray Rawlins tinha ligado para lá, de um bar qualquer, fazendo os porteiros correrem atrás dele com a notícia de que alguém havia morrido. Carlo imediatamente pensou que quem tinha morrido era eu. Aí, Rawlins disse pelo telefone: "Sal tá em Denver", ditando meu endereço e o número do meu telefone.
"E Dean, onde é que tá?"
"Deixa eu te contar: Dean tá em Denver." E ele me disse que Dean estava transando com duas garotas ao mesmo tempo, elas eram Marylou, sua primeira esposa, que o aguardava num quarto de hotel, e Camille, que ficava esperando por ele num outro quarto de hotel. "Entre uma e outra ele corre ao meu encontro para tratarmos de negócios inacabados."
"E que negócios são esses?"
"Dean e eu embarcamos juntos numa viagem tremenda. Estamos tentando nos comunicar sobre absolutamente tudo que passar pela nossa cabeça com a mais completa sinceridade. Tivemos que tomar benzedrina. Sentamos sobre a cama, com as pernas cruzadas, frente a frente. Finalmente expliquei a Dean que ele é capaz de fazer tudo o que quiser, tornar-se prefeito de Denver, casar com uma milionária ou se transformar no maior poeta desde Rimbaud. Mas ele continua correndo pelas ruas pra curtir aquelas malucas corridas de autorama. Eu vou junto. Ele grita e pula, excitado. Você sabe, Sal, Dean é mesmo ligado nessas transações." Marx meditou sobre o assunto e disse no fundo da alma "Hmmm".
"E qual é o programa?", perguntei. A vida de Dean era repleta de programas.
"O programa é o seguinte: eu saí do trabalho faz meia hora. Neste exato instante Dean tá comendo Marylou no hotel, o que me dá tempo pra me vestir e me arrumar. Ele foge pontualmente de Marylou e corre até Camille - claro que nenhuma das duas nem sequer imagina o que está acontecendo - daí, dá uma trepada rápida com ela, o que me dá tempo pra chegar à uma e meia no nosso encontro. Então ele sai comigo - não sem antes ter que implorar para Camille, que já tá começando a me odiar - e a gente vem pra cá pra conversar até as seis horas da manhã. Geralmente ficamos até mais tarde, mas a coisa tá se tornando terrivelmente complicada, e ele está prensado pelo tempo. Às seis horas da manhã, retorna aos braços de Marylou - e amanhã ele vai passar o dia inteiro correndo em função dos papéis necessários pro divórcio deles. É só o que Marylou quer, mas enquanto a coisa não se concretiza, ela insiste em trepar. Ela diz que o ama - e Camille também."
Então Carlo me contou como Dean tinha conhecido Camille. Roy Johnson, o cara do bilhar, encontrou a garota numa bar e a levou prum hotel; com o orgulho embaralhando suas idéias, decidiu convidar a turma toda para aparecer e conhecê-la. Sentaram-se todos ao redor, conversando com Camille. Dean nada fez além de ficar olhando pela janela. Então, quando todos estavam indo embora, Dean simplesmente olhou para Camille, apontou pro seu próprio pulso e mostrou o número "quatro" com os dedos (querendo dizer que estaria de volta às quatro horas) e se mandou. Às três, a porta estava trancada para Roy Johnson. Às quatro foi aberta para Dean. Eu estava louco para encontrar logo esse maluco. Além do mais, ele tinha prometido me deixar bem encaminhado, sacava todas as garotas de Denver.
Carlo e eu percorremos ruelas na noite de Denver. O ar estava tão agradável, as estrelas tão lindas e as promessas de cada beco pavimentado tão grandiosas, que eu pensava tratar-se de um sonho. Chegamos à pensão onde Dean estava dando uns apertos na Camille. Era um velho prédio de tijolos à vista, circundado por garagens de madeira e velhas árvores fincadas atrás das cercas. Subimos escadas acarpetadas. Carlo bateu na porta, e então voou para se esconder, não queria que Camille o visse. Eu parei em frente à porta. Dean atendeu, nu em pêlo. Vi uma morena sobre a cama e uma linda coxa lustrosa recoberta por uma seda preta. Ela me olhou com serena perplexidade.
"Uau, Sa-a-al!", disse Dean. "Bem, agora - ah - humm - sim, é claro, quer dizer que você chegou - seu filho da puta, finalmente decidiu cair nesta velha estrada. Bem, agora, olha só - a gente tem que - sim, sim, imediatamente - nós devemos, nós realmente devemos... Oh, Camille." E ele se enroscou nela. "Aqui está Sal, meu velho companheiro de Nova Yor-r-k, esta é a primeira noite dele em Denver e é absolutamente necessário que eu dê uma saída com ele e lhe arranje uma garota."
"Mas a que horas você vai voltar?"
"Agora é (olhando pro seu relógio), exatamente, uma e quatorze. Eu devo estar de volta exatamente às três e quatorze em ponto, para nossa hora 'd' e delírio conjunto, delírio verdadeiramente encantador, querida, e aí, como você sabe, como eu já te contei e a gente concordou, eu tenho que visitar aquele advogado pilantra e consultar ele a respeito daqueles papéis - justamente no meio da noite, por mais estranho que possa parecer conforme já te expliquei minuciosamente" (isso era uma desculpa para encontrar-se com Carlo, que permanecia escondido). "Portanto, neste exato minuto, devo me vestir, enfiar as calças e cair na vida, quer dizer, na vida do mundo exterior, pelas ruas e o que mais acontecer. Como já estamos combinados, agora já é uma e quinze e o tempo está correndo, correndo."
"Tá legal, tudo bem, Dean, mas por favor volte às três."
"Exatamente como te garanti, querida, mas lembre-se que não é às três, mas três e quatorze. Estamos combinados na mais maravilhosa profundeza de nossas almas, querida?" E se jogou sobre ela, cobrindo-a de beijos várias vezes. Pendurado na parede havia um belo nu de Dean, com seu pau enorme e tudo, um desenho feito por Camille. Eu estava atônito. Tudo era tão louco.
Mergulhamos na noite; Carlo se juntou a nós num beco e penetramos na mais estranha, estreita e tortuosa ruela urbana que jamais vi, profundamente encravada no coração do bairro mexicano de Denver. Falávamos aos berros na quietude adormecida. "Sal", disse Dean, "tenho a garota perfeita esperando por você neste exato instante - se é que ela já saiu do trabalho" (olhando pro seu relógio). "Uma garçonete, Rita Bettencourt, boa menina, meio encucada por conta de algumas dificuldades sexuais que tentei dar um jeito mas acho que você saberá manejar melhor, seu grande filho da puta. Portanto, vamos logo lá, e porra!", disse ele, socando a palma da mão. "Fiquei de comer a irmã dela hoje à noite."
"O quê?", disse Carlo. "Pensei que a gente ia conversar."
"Vamos, vamos, mais tarde."
"Oh, essa depressão de Denver", suspirou Carlo aos céus.
"Ele não é o cara mais puro e singelo do mundo?",
disse Dean me esmurrando nas costelas. "Olha pra ele. Olha
só pra ele." E Carlo reinicou sua dança desengonçada
pelas ruas da vida, como eu já o tinha visto fazer tantas vezes
por todos os cantos de Nova York.
E tudo o que pude dizer foi: "Afinal de contas, o que é que a gente tá fazendo em Denver?"
"Amanhã, Sal, sei exatamente onde conseguir trabalho pra você", disse Dean mudando para um tom mais responsável. "Por isso, vou te ligar assim que Marylou me der uma folga, cruzar por aquele apartamento de vocês, dar um alô pro Major e te levar num tróleibus (merda, não tenho carro) até os mercados de Camargo, onde você começará a trabalhar direto e, já na sexta-feira, receber o cheque de pagamento. Nós estamos totalmente duros; faz semanas que não tenho tempo para trabalhar. Mas na noite de sexta-feira, sem dúvida alguma, nós três - o velho trio Carlo, Dean e Sal - vamos curtir as corridas de autorama e, para isso, posso conseguir carona com um cara que conheço e que mora no centro..." e mais e mais dentro da noite.
Chegamos à casa onde as irmãs garçonetes moravam. A que me cabia ainda estava trabalhando. A irmã que Dean queria estava lá. Sentamos no sofá dela. Eu tinha ficado de telefonar para Ray Rawlins por volta daquela hora. Liguei. Ele veio num instante. Chegando à porta, tirou a camisa e a camiseta e começou a abraçar Mary Bettencourt, da qual era absolutamente desconhecido. Garrafas rolavam pelo chão. De repente, eram três horas da manhã. Dean saiu voando pros seus momentos de delírio junto a Camille. Estaria de volta a tempo. A outra irmã desapareceu. Agora realmente precisávamos de um carro; e já estávamos fazendo barulho demais. Ray Rawlins telefonou prum amigo que tinha carro. Ele veio. Nós nos amontoamos na caranga; Carlo tentava conduzir sua conversação programada com Dean no banco de trás. Mas tudo era confuso demais. "Vamos todos pro meu apartamento", gritei. E fomos. No instante em que o carro estacionou ali na frente, saltei fora e plantei uma bananeira. Todas as minhas chaves caíram, jamais voltei a encontrá-las. Corremos aos gritos para dentro do prédio. Vestido em seu chambre de seda, Rolando Major lá estava parado na porta, barrando nossa entrada.
"Não vou permitir festinhas desse tipo no apartamento de Tim Gray!"
"O quê?", gritamos todos. Houve confusão. Rawlins rolava pela grama com uma das garçonetes. Major não iria nos deixar entrar mesmo. Prometemos telefonar para Tim Gray, para confirmar a festa e convidá-lo também. Mas em vez disso corremos de volta para os botecos do centro de Denver. De repente, me vi sozinho na rua, sem dinheiro nenhum. Meu último dólar se fora.
Caminhei oito quilômetros pela Colfax até minha confortável cama no apartamento. Major teve de me deixar entrar. Eu me perguntava se, neste instante, Carlo e Dean estariam dialogando, de coração a coração. Mais tarde eu teria a resposta. As noites de Denver são amenas, dormi feito um tronco.