O Mais Fraco

...é horrível você perceber que não pode fazer nada além do que está fazendo...

Sei que estou sendo pouco (ou nada) original, mas uma entrevista pode ser um meio mais direto e fácil de se trocar informações e mostrar as pretensões e desejos das pessoas entrevistadas.

Sempre achei engraçado em entrevistas para zines, que mesmo sendo o entrevistado amigo (íntimo ou não) do entrevistador, as entrevistas sempre me passaram algo frio e não-pessoal.

Tentarei fazer o máximo possível para não ser frio e não-pessoal, ao mesmo tempo que não seja pessoal demais (pois senão ninguém, exceto eu, entenderá a entrevista).

Qualquer interesse, dúvida, discordância, concordância, desejo, ódio, paixão, etc, os endereços para contato estarão no fim de cada entrevista.

A minha idéia, até agora pouco, era entrevistar algumas bandas para saber mais sobre elas, musicalmente/ideológicamente. Mas mesmo que eu entreviste a banda, sempre terá aquele membro que não dará as suas opiniões com o mesmo entusiasmo, ou mesmo nem a dará, deixando assim, a banda com opiniões de uma única pessoa (o que é muito perigoso). Portanto, resolvi entrevistar algumas pessoas, que eu acho que têm coisas interessantes a nos dizer.

Os textos espalhados pelo zine são alguns meus e outros roubados de diversos lugares. Mas isso não tem muita importância.

Alguns textos foram roubados de conversas reais com pessoas reais, mas não se preocupe! Seu nome foi ocultado e as suas falas foram cuidadosamente retiradas do texto.

Agradeço ao bakunito pelo seu texto e à letícia pela tradução.

O nome "o mais fraco" vem de alguns momentos que me senti impotente e incapaz de realizar coisas que queria e de consertar erros que cometi ou que outros cometeram. É muito difícil lidar com o peso nas costas que carregamos, mesmo sabendo que não somos os culpados por isso tudo. *talvez tenha algo a ver com the weakerthans, que é uma banda muito foda*
Um beijão para todos/as.

Luther B.

Toda vez que eu tento escrever alguma coisa, sai algo do tipo: "liberte-se das garras opressoras", "questione-se". É... é muito dificil escrever algo que fique realmente sincero com o que você está sentindo a respeito de alguma coisa. Dessa vez eu vou tentar diferente. Vou tentar escrever sobre o que eu quero escrever agora.

Escrever sobre perdas, decepção e vontade de viver.

Nossas vidas são baseadas em alguns momentos felizes. São esses momentos que fazem as nossas merdas de vidas valerem a pena. São desses momentos que você lembra quando dá um sorriso (ou quando algum vento ou cheiro ou qualquer outra coisa te fazem se sentir por um breve momento em outra época e em outro lugar) e não daqueles momentos chatos, entediantes, e inúteis na hora do trabalho, na escola, na hora do almoço com a família, etc e etc.

Bem. Se nós vivemos para ter algumas situações interessantes, e admitimos que todas as outras são chatas e irrelevantes, por que não as jogamos fora de uma vez?

Por que a gente não passa a tarde numa praia, lendo algum livro muito foda, ou ouvindo algo que nos deixe muito animados ou passeamos com aquela(s) pessoa(s) que gostamos? Bem, você, meu caro cidadão responsável e ativo, provavelmente está falando: "e quem você pensa que irá fazer os trabalhos pra sociedade se manter em pé?". Respondo-vos com todo o prazer: NINGUÉM! Eu espero...

Lembre-se de uma coisa: fomos nós os criadores disso tudo. O ser humano criou a escola, o dinheiro, deus, o trabalho, a família, etc... fomos nós que fizemos isso tudo e agora somos escravos das nossas próprias criações!

Bem, você pode estar se auto-afirmando: "eu não sou escravo de nada!" Então me responda uma coisa. Por que você não tira um ou dois meses de folga do trabalho e não vai pra algum lugar diferente? Ou melhor, por que você não abandona tudo isso de uma vez por todas??? "como eu vou sobreviver então? Como eu vou comprar as coisas que eu preciso pra viver??" bem, talvez você não tenha entendido o que eu disse até agora. Talvez eu esteja falando de liberdade e você de responsabilidades e compromissos ( = conveniência).

Ah. Mas tambem eu peco em dizer que o ser humano criou isso tudo. Eu não criei nada disso, e nem você! Não fomos nós que levantamos isso, apenas não deixamos isso cair, e é ai que nós cagamos com tudo.
Por que ninguém se perguntou: pra que dinheiro? Catequese, banco, carros etc e etc e etc...?


A rotina é tão esmagadora que ninguém tem tempo para isso!!! Experimente. Ande na rua um dia apenas observando, sente-se um dia em algum lugar movimentado. Olhe os rostos dos mort@s-viv@s, loucos/as, preocupados/as, andando de um lado para o outro, mesmo sem sabarem ou entenderem o por quê. Eles/as trabalham para alguem que não sabe nem o seu nome...

Experimente não dormir um dia.

Quando acordamos sentimos e esperamos que coisas boas vão nos acontecer, pois ontem já passou e agora chegou a hora de sermos retribuidos pelos nossos esforços. Mas ao chegar a noite, o mesmo sentimento de derrota e de impotência volta a nós. Não se iluda. Todos os dias serão iguais se não começarmos a mudar os nosso hábitos e se não pararmos de esperar que algo bom venha a acontecer.

A esperança é inevitável. Todos queremos que algo bom aconteça, a não ser que você seja O Estrangeiro.

Nós caimos na nossa própria cilada quando temos apenas esperança. Não se esqueça que você é quem faz a sua historia. Espere algo. Mas se for pra esperar de alguem, que seja de você.

Esperamos tudo.

Um emprego bom, um dia de sol, esperamos que a conta de luz seja baixa, que o próximo telefonema seja da pessoa amada, etc.

Bem, só não use isso como desculpa para se dizer mais um sem-esperança. Você não pediu pra nascer, mas agora não tem mais volta, e é melhor começar a fazer alguma coisa.

... padrões, criados para numerar, para controlar, para produzir padrões. O comércio cria padrões para enriquecer seus bolsos e para enriquecer o ego de quem está nos padrões...

o diferente é assustador. Amedronta, afasta, desafia, muda (ou pelo menos é isso que queremos), mas talvez o diferente falso, o diferente não-natural, o diferente que DESEJA ser diferente mas não o é, cria outros padrões, o diferente que não difere do outro diferente, que não difere do outro diferente que no final acaba sendo IGUAL a todos os outros "diferentes" que acabam criando padrões, criados para numerar, para controlar, para produzir padrões...

Me sinto triste toda vez que reparo ao meu redor as diferenças sociais entre as pessoas. Talvez você já tenha percebido isto também. Acontece sempre! Analise isso durante a viagem de ônibus que você faz todos os dias. Ou você nunca viu garotos/as de camisas brancas e pastas azuis e outros/as com cestos preenchidos de balas e desesperanças?

Algumas mulheres levando seus filhos para as escolas com grades, que protegem-nos dos filhos das outras mulheres (que cheiram a perfume barato) que estão indo para a casa dessas mulheres, ricas e podres, para arrumar o quarto dos filhos que estão na escola, enquanto os seus estão em algum ônibus com uma cesta repleta de balas e desesperanças e impedidos de viver por algumas grades. Não as grades do colégio, mas grades transparentes que sabotam seus desejos e necessidades.

No meio disso tudo eu me sinto triste e desesperado por dentro, mesmo que às vezes eu me mostre feliz por fora. E me pergunto sempre as mesmas coisas: "por que alguns tem acesso e outros não?", "por que tem q ser assim?", "por que não podemos fazer diferente?".

Lembre-se do dia mais importante da sua vida, o dia que você descobriu pela primeira vez o amor ou a musica ou a aventura... quando milhares de novas portas se abriram e derepente tudo era possível.

Por que todos os dias não podem ser como esse?

Bem, por um motivo, nós não vivemos exatamente numa sociedade feita para nos ajudar a discernir e a ir atrás do que os nossos corações desejam, não é mesmo? O que quer seja que a retórica sobre "liberdade e a busca da felicidade" possa sugerir, nossa sociedade esta absurdamente repleta de distrações e restrições. Estamos tão ocupados na luta para sobreviver, que é dificil até mesmo lembrarmos dos nossos sonhos. Cada um de nós se sente tão impotente que é igualmente difícil manter em mente que esse mundo no qual vivemos é o resultado direto dos nossos próprios esforços: foi o nosso trabalho que o fez desse jeito. Nossa espécie tem transformado completamente o planeta. Será que esse é o melhor de todos os mundos que poderíamos construir?

Se não, por que não paramos de construí-lo e inventamos novas formas de viver e trabalhar juntos? Assim poderíamos criar um mundo novo e melhor, que seria muito mais prazeiroso para todos nós! Por qual outro motivo deveriamos trabalhar, se não por prazer e felicidade?

Alguma vez você já fez amor e se sentiu tão bem, quase como se parecesse perigoso? Estar apaixonado significa realmente querer viver num mundo diferente: um mundo mais excitante, mais bonito, mais alegre; um mundo feliz. Um mundo onde tudo importa e nada jamais é obsoleto. Não deveriamos construir esse mundo aqui e agora?

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NA TERRA DA APARÊNCIA

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"Em terra de morto, a desgraça é estar vivo."
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Anotações de um Antropólogo de Outra Galáxia em sua Pesquisa de Campo na Terra

Na sociedade do espetáculo, onde cada um é ator e atriz do seu próprio drama, e ao mesmo tempo todos os outros desempenham um papel demarcado no cenário do espetáculo que representa a - se coloca como a - vida de cada um, quebrar esse papel demarcado no espetáculo que representa a vida do outro é romper com a ordem, e acima de tudo, perturbar a ordem espetacular que se coloca como a vida do outro, isto é, perturbar o outro. É um ato análogo à sabotagem da dinâmica produção-circulação de mercadorias na sociedade capitalista, quer dizer, a sabotagem da realização da mais-valia, do logro fundamental que reproduz que alguns tenham muito e outros tão pouco.

Quanto mais alguém constrói sua vida (na verdade a substitui), isto é, suas relações, no mundo da APARÊNCIA, no mundo do espetáculo, mais essa pessoa define essas relações como um necessário "matar ou morrer", um duelo onde quem saca primeiro passa sem feridas ao próximo ato. Quem no tempo exato rompe com seu papel demarcado numa relação espetacular recíproca, ganha o duelo, perturba a ordem do outro, sai ganhando (no sentido utilitarista-individualista da palavra). Essa é sem dúvida uma explicação para a angústia existencial e a busca neurótica por mudanças espetaculares na sua vida cotidiana que aqueles que constróem suas vidas no mundo da aparência normalmente apresentam: no domínio da aparência não é possível realização, somente aproveitamento e fuga.

Aquele que não tem consciência de que está desempenhando um papel na montagem teatral da vida do outro, só o perceberá quando for morto nesse duelo ao qual ele entrou de gaiato, sem ser avisado e sem sequer ter conhecimento da sua existência. Esses são aqueles que buscam a real experiência de vida, não a aparência e o estepe do espetáculo, e nas suas relações pessoais cotidianas acabam sendo um personagem no espetáculo que representa a vida do outro. E como todo personagem, pode sair de cena assim que o roteirista o queira. Nesse caso não se trata de ter sido pego de surpresa pela quebra de papel efetuada pelo outro - uma vez que para aqueles que buscam a experiência real e vivida, e não a aparência, os outros não estão a desempenhar um papel, pois eles rejeitam a substituição da sua vida real (ou de sua tentativa) pela segurança degradante do espetáculo. Trata-se simplesmente de ter sido pego de surpresa pela descoberta de que o que se esperava ou se achava que fosse o SER, era apenas o APARECER; o outro não passava na verdade de aparência, e a relação entre os dois, dessa forma, era um espetáculo conduzido por um só roteirista.

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"Aqueles que querem fazer do Mundo o seu pequeno mundo, tornam o seu Mundo pequeno."
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A Aparência Oculta do Fascismo

O fascismo, bem descrito já como sendo a "política como arte", isto é, a realização máxima da APARÊNCIA através da linguagem e dos símbolos de forma a ocultar o SER - a realidade contraditória e conflituosa da sociedade de classes capitalista - normalmente é visto em germe dentro das atuais sociedades democráticas capitalistas (SDC) através de atos xenófobos, nacionalistas, racistas e outros explicitamente autoritários. A linguagem fascista oculta os conflitos de classe, faz da nação uma abstração concreta (capaz de massacrar milhões), é pura estética e nenhum conteúdo real, factual... os desfiles, as paradas, fazem parte do espetáculo, da construção de uma APARÊNCIA.

Ora, se "fascismo" e "realização máxima da aparência" são termos intercambiáveis , as SDC são a OCULTAÇÃO do fascismo. Bem dito, a ocultação do fascismo no interior da sociedade. Se o fascismo é a realização máxima da aparência, as SDC são a OCULTAÇÃO máxima da máxima realização da APARÊNCIA na sociedade.

As atitudes que caracterizam o fascismo presente nas SDC não são as da extrema-direita ou de grupos que portam símbolos nazistas ou nacionalistas (essas caracterizam o fascismo como seu deu na década de 30). A atomização e o individualismo levados a cabo nas SDC - típicos de um liberalismo econômico numa sociedade de controle - ao mesmo tempo que seguem a lógica-modelo da troca mercantil entre indivíduos-entidades estranhos entre si e fora de comunidade, maximizam a realização da aparência nas relações interpessoais na medida que esse individualismo/atomização - que significa a própria inexistência de vínculo real, comunitário/solidário, não-espetacular, entre os indivíduos - aumenta.

Se no fascismo stricto sensu os desfiles, paradas, discursos dos Führer e toda propaganda ideológica, ao mesmo tempo que realizavam maximamente a APARÊNCIA a denunciava aos olhares críticos, já o fascismo lato sensu, aquele das SDC, perpassa os indivíduos e suas relações pessoais, é a máxima realização da APARÊNCIA nas relações entre os indivíduos. Se o primeiro engloba a sociedade, o segundo a atravessa. Se o primeiro está relacionado aos macropoderes, o segundo está relacionado aos micropoderes.

Não é portanto à toa que a sensação de falta de liberdade, de sufocamento, impotência, solidão, ausência, nas SDC possa ultrapassar a das fascistas propriamente ditas.

O indivíduo das SDC que consegue discernir o que sente e porque sente, logo percebe que sua sensação de não-liberdade ou de sufocamento não é conseqüência (ou talvez apenas bastante indiretamente e não unicamente) de um Estado opressor (pleonasmo) ou de um Partido ou política. Sua opressão tem origem nas pessoas à sua volta, nos indivíduos como ele; não da ordem de uma autoridade, mas da ausência de vínculo real, dos desejos, das hierarquias que perpassam esses desejos e comportamentos dos indivíduos em geral.

O poder está mais difuso que nunca na atual sociedade. Vivemos num fascismo sem barras, não conseguimos ver as grades e lutar contra elas sem nos isolarmos, nos neurotizarmos e nos atomizarmos mais ainda (se não se consegue, como na maioria das vezes, substituir a APARÊNCIA das relações interpessoais por relações verdadeiras). Pior, os agentes do fascismo não são mais o Führer, os soldados da SS, os corpos policiais, os magistrados, os produtores culturais e nem sequer os skinheads. Eles são nossos amigos, companheiros e amantes.

A vida cotidiana nas atuais sociedades democráticas capitalistas é a vida como simulação. As SDC se caracterizam pelo domínio da máxima APARÊNCIA na vida cotidiana, o espetáculo do dia-a-dia: a política do fascismo como rotina, como modo e modelo de interação pessoal. E aquilo que está em todas as partes não pode ser reconhecido. Quando o fascismo desce e se instala na vida cotidiana ele se torna invisível, inquestionado, estruturante: a normalidade.

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"A condição de quem vive no futuro, é estar sozinho no presente."
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Eu Não Posso Te Ajudar

A versão cotidiana do paradoxo do soldado condecorado por matar homens e condenado por amar um existente na sociedade fundamentada na neurose, está na recusa incondicional de se dar o amor a quem ao seu lado o necessita, a quem lhe ama (ausência de reciprocidade), fazendo assim a vida desse negado muitas vezes um vazio ou um inferno, ao mesmo tempo que se dispensa a maior quantidade de (pseudos) cuidados a essa pessoa, criando uma nuvem de APARÊNCIA que esconde a profunda indiferença e insensibilidade.

O coração arrítmico sofre. O amor que poderia lhe colocar em compasso é categoricamente e incondicionalmente negado. A frase é fria e seca: "Eu não posso te ajudar". No momento seguinte a mesma voz oferece chás e remédios para o coração arrítmico.

Na sociedade fundada na neurose, a sociedade do espetáculo, é mais fácil encontrar um amigo que lhe ajude a morrer do que a viver.

@ amig@ médic@, enfermeir@ ou farmacêutic@ lhe receitará o remédio e a dose fatal que põem fim às tuas agonias nesse mundo, se pedires; solidário que se mostra à tua condição. Mas não lhe dará o amor que regaria a tua vida.


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"Se eu não posso sair do meu quarto, é melhor que ele não tenha janelas."
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Textos e frases redigidos por bakunito no dia 26/06/2001.

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não estou bem-humorado esses últimos tempos. Ah, deixa pra lá vai. vamos falar de coisas boas e agradáveis. Os sonhos são sempre bonitos e felizes, porque a realidade é sempre feia e triste. Ah, eu não tô mal porque algo me aconteceu,

são coisas que acumulam. Eu fico muito triste com esse estilo de vida que todo mundo leva. Isso realmente me deixa deprimido sabe. Sei lá. Poderiamos estar vivendo num mundo gostoso e divertido. Somos nós que fazemos o mundo acontecer.
Porra! Esse é o melhor que a gente pode fazer? Que merda...
Essa é a melhor vida que a gente pode viver?
Sério...
Na visão classe média: colégio; vestibular; faculdade; emprego; família; casa própria; enfarto; cemitério com flores.
na visão de classe baixa: sem colégio; sem vestibular; sem faculdade; sem emprego; sem merda nenhuma; morte sozinha.
na visão oprimida: esperança; revolta; decepção; depressão; culpa e fim.
na visão opressora: conveniências; acessos; equipamentos; consumo e deu também.
é tudo uma bosta. não importa qual lado.
porra.
essas são as melhores vidas que a gente pode viver?
meu... sério.
isso não é uma brincadeira ou algo pra se conversar durante uma noite.
isso não é sobre política, isso é sobre as nossa vidas.
horrível... HORRÍVEL...
bem, nós somos apenas indivíduos. Eu não posso fazer nada a mais do que eu estou fazendo e isso é um lixo porque eu me sinto o mais fraco.
eu me sinto incapaz, impotente e impedido. eu nao sou livre lembra?
eu queria fazer muita coisa e não posso. eu queria consertar muitas (mesmo não sendo o responsável pelos estragos), mas não posso também.
Bem, isso é horrível.
É horrível você perceber que não pode fazer nada além do que está fazendo. Mas também seria horrível poder fazer mais do que teus limites permitem.
Eu nem quero ter esse poder.
Mas assim, eu te amo.
o amor é algo ainda realmente revolucionário. porque só nós podemos controlar ele! ninguém mais pode!
a partir do momento de que você se livrou de todo o conhecimento que a sua família/escola/igreja te deu(deram), você está livre pra amar.
mas eu quero mais. MUITO MAIS.



Internacional Situacionista
Questionário paródico publicado no # 9 de Internacional Situacionista (9-VIII-64). Publicado no # 8 do fanzine Amano (Agosto-97) em espanhol. Publicado na internet pelo Archivo Situacionista Hispano. Traduzido de espanhol para português pelos editores desta página. (www.geocities.com/autonomiabvr)

1. O que quer dizer a palavra "situacionista"?

Define uma atividade que pretende fazer as situações, não as examina em função de uma valor explicativo ou qualquer outro. Isto em todos os níveis da prática social e da história individual. Nós substituímos a passividade existencial pela construção dos momentos da vida, a dúvida pela afirmação lúdica. Até o presente os filósofos e os artistas não fizeram mais que interpretar as situações; trata-se agora de transformá-las. Posto que o homem é o produto das situações que atravessa, convém criar situações humanas. Mesmo que o indivíduo esteja definido pela situação, tem o poder de criar as situações dignas de seu desejo. Desta perspectiva devem fundir-se e realizar-se a poesia (a comunicação como realização de uma linguagem em situação), a apropriação da natureza, a libertação social completa. Nossos tempos substituirão a fronteira fixa das situações-limite, que a fenomenologia se contentou em descrever, pela criação prática das situações; deslocarão permanentemente esta fronteira com o movimento histórico de nossa realização. Nós queremos uma fenomenopráxis. Não duvidamos que este será o motivo fundamental do movimento de libertação possível em nosso tempo. O que se deve por em situação? Em diferentes níveis, pode-se tratar deste planeta, ou da época (uma civilização, no sentido de Buckhardt, por exemplo), ou um momento da vida individual. Allez, a música! Os valores da cultura passada, as esperanças de realizar a razão na história, não tem uma continuação possível. Só lhes fica a decomposição. O termo situacionista, no sentido da Internacional Situacionista, é exatamente o contrário do que se chama agora em português um "situacionista", isto é, um partidário da situação existente, por conseguinte, em Portugal, do salazarismo.

2. A internacional situacionista é um movimento político?

As palavras "movimento político" escondem hoje a atividade especializada de chefes de grupos e partidos, que se baseiam sobre a passividade organizada de seus militantes a força opressiva de seu futuro poder. A I.S. não tem nada a ver com o poder hierárquico, sob qualquer forma que se apresente. não é por conseguinte nem um movimento político, nem uma sociologia da mistificação política. A I.S. se propõe ser a mais alta expressão da consciência revolucionária internacional, esforçando-se em elucidar e coordenar os gestos de negação e os sinais de criatividade que definem os novos contornos do proletariado, a vontade irredutível de emancipação. Encarnada na espontaneidade das massas uma atividade tal é incontestavelmente política, a menos que se questione a qualidade dos agitadores mesmos. Do mesmo modo que as correntes radicais aparecidas no Japão (a ala extremista do movimento Zengakuren), o Congo, na clandestinidade espanhola, a I.S. contribui com um apoio crítico e por conseguinte procura ajudar praticamente. Mas contra todos os "programas transitórios" da política especializada, a I.S. se remete a uma revolução permanente da vida quotidiana.

3. A internacional situacionista é um movimento artístico?

Uma grande parte da crítica situacionista da sociedade de consumo consiste em mostrar até que ponto os artistas contemporâneos, ao abandonarem a riqueza do excesso contido para explorá-la, durante o período de 1920-25, se condenaram em sua maior parte a fazer uma arte autoreferencial. Os movimentos artísticos não são, depois de então, nada mais que ecos imaginários de uma explosão que nunca ocorreu, que ameaçou e ameaça ainda as estruturas da sociedade. A consciência de tal abandono e de suas implicações contraditórias (a vida e a vontade de um retorno a violência inicial) fez da I.S. o único movimento que pode, englobando a sobrevivência da arte na arte de viver, responder ao projeto do artista autêntico. Somos artistas só porque já não somos mais artistas: vimos realizar a arte.

4. A internacional situacionista é uma manifestação niilista?

A I.S. nega o papel, que é tudo o que se está disposto a ser concedido a ela, no espetáculo da decomposição. A superação do niilismo passa pela decomposição do espetáculo; a I.S. trata de agir neste sentido. Tudo o que se elabora e se constrói fora de tal perspectiva não tem necessidade da I.S. para destruir a si mesmo; mas também é certo que, na sociedade de consumo, os terrenos vazios do solapamento espontâneo oferecem aos novos valores um campo de experimentação onde a I.S. não pode introduzir-se. Não podemos construir a não ser sobre as ruínas do espetáculo. Em todos os lugares a previsão, perfeitamente fundada, de uma destruição total, obriga a não construir nada sobre a luz da totalidade.

5. As posições situacionistas são utópicas?

A realidade rebaixa a utopia. Entre a riqueza das possibilidades técnicas atuais e a pobreza de seu uso pelos dirigentes da ordem global não pode haver nada mais que uma ponte imaginária. Queremos por a organização material a disposição da criatividade de todos, como as massas se tratam de fazer por todos os lugares no momento da revolução. É um problema de coordenação ou de tática, como se quiser. Tudo o que nós propomos é realizável: seja imediatamente, seja a curto prazo, desde o momento em que se comecem a por em prática nossos métodos de investigação, de atividade.

6. Vocês julgam necessário se chamarem assim, "situacionistas"?

Na ordem existente, onde as coisas ocupam o lugar dos homens, todo nome está comprometido. Sem dúvida, este que escolhemos leva em si mesmo sua própria crítica, enquanto se opõe àquele outro de "situacionismo" que outros nos aplicaram, que desaparecerá no momento em que cada um de nós seja situacionista em todos os lugares e não haja mais proletários lutando pelo fim do proletariado. Num sentido imediato se trata também de um nome irônico, que tem o mérito de abrir uma brecha entre a antiga incoerência e a nova exigência. O que mantém a inteligência extraviada desde faz alguns anos é precisamente essa brecha.

7. Qual é a originalidade dos situacionistas, como grupo delimitado?

Nos parece que existem três pontos principais que justificam a importância que nos atribuímos como grupo organizado de teóricos e experimentadores. Em primeiro lugar, nós fazemos, pela primeira vez, uma nova crítica, coerente, da sociedade que se desenvolve atualmente, do ponto de vista revolucionário; esta crítica está profundamente ancorada na cultura e na arte deste tempo quanto a sua elucidação (evidentemente, este trabalho está longe de estar completo). Em segundo lugar, praticamos a ruptura completa e definitiva com tudo aquilo que nos abriga e acorrenta. Isto é preciso em uma época em que as diversas espécies de resignação estão sutilmente imbricadas e são solidárias. Em terceiro lugar, inauguramos um novo estilo de relações com nossos "partidários"; nós negamos absolutamente o discipulado, nada nos interessa a não ser a participação no mais plena; e em lutar em um mundo de pessoas autônomas.

8. Por que vocês não falam sobre o passado da I.S.?

Se falou bastante freqüentemente, por parte dos possuidores especializados do pensamento moderno, em liquidação sobre isso, mas foi escrito muito pouco. Num sentido mais geral, é devido a nós negarmos o termo "situacionismo", que seria a única categoria suscetível de nos introduzir no espetáculo reinante, de nos integrar sob a forma de doutrina coagulada contra nós mesmos, sob a forma de ideologia no sentido de Marx. ë normal que o espetáculo que nós negamos nos negue. Se fala com gosto dos situacionistas como indivíduos, para tentar separá-los da contestação do conjunto, sem a qual por outro lado não seriam uns indivíduos tão "interessantes". Fala-se dos situacionistas na medida em que deixam de sê-lo (as variedades rivais de "nashismo", em vários países, tem unicamente em comum o pretender manter uma relação qualquer com a I.S.). Os cães de quintal do espetáculo retomam sem especificá-los fragmentos da teoria situacionista para lança-los contra nós. Eles se inspiram, como é normal, na luta pela sobrevivência do espetáculo. Necessitam então ocultar a fonte, ou seja, a coerência de tais idéias e não só por vaidade de plagiário. Ademais os intelectuais vacilantes não ousam falar abertamente da I.S. porque o falar implica uma tomada de partido mínima: dizer claramente o que se nega em contrapartida do que se defende. Muitos crêem bem injustamente que aparentar se manter na ignorância poderá libertá-los de sua responsabilidade para mais tarde.

9. O que vocês contribuem para o movimento revolucionário?

Por desgraça não existe tal movimento. A sociedade contêm certamente as contradições, e muda. O que retorna, de uma forma sempre nova, faz possível e necessária uma atividade revolucionária que atualmente não existe, em nenhum lugar ainda, sob a forma de movimento organizado. Por conseguinte não se pode "apoiar" um movimento tal, a não ser construi-lo: defini-lo e ao mesmo tempo experimentá-lo. Dizer que não existe um movimento revolucionário é o primeiro gesto, indispensável, em favor de tal movimento. O resto é reexplorar o desejo do passado.

10. Vocês são marxistas?

Bem entendido que Marx disse: "eu não sou marxista".

11. Existe alguma relação entre as teorias de vocês e suas vidas reais?

Nossas teorias não são outra coisa que a teoria de nossa vida real e da possível experimentação ou estimativa dentro dela. Por parcelar que sejam, com relação a nova ordem, os campos de atividade disponíveis. Não nos orientamos pelo medo. tratamos o inimigo como inimigo, este é o primeiro passo que recomendamos a todo o mundo, como aprendizagem acelerada do pensamento. Em todos os lugares sustentamos incondicionalmente todas as formas de liberdade dos costumes, tudo o que a canalha burguesa ou burocrática chama libertinagem. Está evidentemente excluído que nós preparamos a revolução da vida quotidiana mediante o ascetismo.

12. O situacionistas são a vanguarda da sociedade dos ociosos?

A sociedade dos ociosos é uma aparência que recobre um certo tipo de produção-consumo do espaço-tempo social. Se o tempo de trabalho produtivo propriamente dito se reduz, o exército de reserva da vida industrial trabalhará no consumo. Todo o mundo é sucessivamente operário e matéria-prima na indústria das férias, dos prazeres, do espetáculo. O trabalho existente é o alfa e o ômega da vida existente. A organização do consumo, junto a organização dos prazeres, deve equilibrar exatamente a organização do trabalho. O "tempo livre" é uma medida irônica no esquema de um tempo pré-fabricado. Rigorosamente, este trabalho não poderá dar mais que esse ócio tanto para a elite ociosa - de fato, cada vez mais, semiociosa - como para as massas que ascendem aos prazeres momentâneos. Nenhuma barreira de chumbo pode isolar, por pouco que seja o tempo, nem o tempo completo de um fragmento da sociedade, da radioatividade que difunde o trabalho alienado; é o que determina que a forma da totalidade dos produtos e da vida social seja esta e não outro.

13. Quem financia vocês?

Não tivemos nunca outra finança, e de uma forma extremamente precária, que nosso próprio emprego na economia cultural da época. Este emprego está submetido a uma contradição. Temos suficientes capacidades criativas para ter um "sucesso" quase seguro; mas temos uma exigência tão rigorosa de independência e de perfeita coerência entre nosso projeto e cada uma de nossas realizações presentes (por exemplo, nossa definição de uma produção artística intisituacionista) que somos quase totalmente inaceitáveis para a organização dominante da cultura, inclusive em suas manifestações mais secundárias. O estado de nossos recursos parte desta componente. Ver, a este propósito, o que escrevemos no nº 8 da revista "Internacional Situacionista" (1964) sobre "os capitais que não faltaram jamais às empresas nazistas" e a nossas condições inversas (última imagem desta revista).

14. Quantos vocês são?

Um pouco mais que o núcleo inicial de guerrilha em Sierra Maestra mas com menos armas. Um pouco menos que os delegados que estiveram em Londres em 1864 para fundar a Associação Internacional dos Trabalhadores, mas com um programa mais coerente. Tão firmes como os gregos da Termópilas mas com um porvir mais belo.

15. Que valor vocês atribuem a um questionário como este?

O questionário se manifesta como uma forma de diálogo fáctico que converge hoje obsessivamente todas as psicotécnicas do espetáculo (a passividade regozijadamente assumida sob um disfarce grosseiro de "participação", de atividade). Mas nós podemos sustentar, a partir de uma interrogação incoerente, reificada, as posições exatas. De fato estas posições não são respostas, no sentido de que elas não revertem sobre as perguntas, mas no sentido de que as subvertem. São respostas tais que conseguem transformar as questões de tal modo que o verdadeiro diálogo poderia começar após estas respostas. No presente questionário, todas as perguntas estão falseadas - e entretanto nossas respostas são verdadeiras.

Internacional Situacionista, 1964


Rodrigo: é um straightedge, tão romântico quanto anarquista (?), residente da cidade de curitiba e vocalista da banda Colligere. Mora na tão querida Comuna e nas horas vagas escreve "quiproquós do cotidiano e tentativas de análise" no zine A Vida Simples.

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1. primeiro, gostaria q você se apresentasse de uma melhor maneira (pelo menos melhor que a minha!)e que falasse suas expectativas com essa entrevista.

R.Bem, meu nome é esse mesmo e eu faço essas coisas mesmo. Apenas não acho que eu seja nem tão romântico, nem tão anarquista. Não sei o que esperar da entrevista, mas qualquer oportunidade de mostrar as coisas que estamos fazendo por aqui e expor algumas idéias é excitante.

2. diga-me, ro, quais são as suas pretensões de vida (política, sexual, afetiva, musical etc..)?

R.Eu pretendo tocar muito e em muitos lugares com minha banda e continuar escrevendo e participando de shows. Nos últimos dias eu parei de trabalhar e agora estou com o dia todo, praticamente todos os dias para fazer essas coisas que eu gosto; espero que isso dure e eu não precise voltar a trabalhar tão cedo, mas... enfim. Quanto a minha sexualidade isso é problema meu e de quem for corajoso/a o bastante pra se aproximar.

3. você acha que dentro da cena punk/hardcore (onde as pessoas teriam, por afinidade ideólogica, uma visão mais ampla de liberdade e respeito) a questão dos direitos animais está sendo esquecida? você nao acha que esta acontecendo de pessoas apenas "apoiarem" essa causa por aceitação no grupo? até onde uma pessoa precisa ser atuante pra ter moral no meio? Por que tanta gente fica dando desculpas pra não tornarem-se vegetarianas e vegans?

R.O punk/hardcore no Brasil já é algo bastante grande, então depende de que cena você está focando. A maior parte dos punk rockers realmente ignora ou ridiculariza a questão, mas a cena straight edge por aqui sempre foi bastante envolvida com a questão da liberação animal, até o ponto das pessoas seguirem determinada dieta alimentar talvez mais por aceitação ou status (porque comer carne seria muito precário) do que por qualquer convicção ética.

Eu já defendi o veganismo com unhas e dentes, mas agora minha posição é outra. De certa forma, ainda estou reconstruindo meus conceitos, mas posso dizer que começo a levar em consideração o quanto muitas vezes o veganismo foi a opção mais cara, menos saudável e menos humana na minha vida. Considero ainda uma crueldade o modo como os animais são tratados, não apenas para alimentação como no propósito de vestir ou divertir. Mas a exploração me parece hoje, ainda mais, extremamente relacionada com o modo de produção que temos servido e as formas de relação humana que tem perpetuado a miséria e o sofrimento para nós todos. Ter consciência daquilo que você come e consome é importantíssimo. A partir dai, procurar negar o maior número de coisas que tragam sofrimento para as espécies é uma demonstração de compaixão e inteligência. Mas julgar que O Veganismo vai fazer de você uma pessoa mais pura e livre de crueldade é, no mínimo, uma aproximação maldita da moral cristã e isto deve ir pro lixo. Eu nunca fui vegan, neste sentido.

4. uma vez eu te disse que sempre depois de uma conversa com você, eu tinha vontade de não ir pra cidade, e sim pra uma praia ou pelo menos fazer algo não-entediante. diz pra gente: como você acha que o tédio destrói nossas vidas?

R.Caramba! Agora sim é que vão me chamar de hippie!! Mas, bem, eu acho que... você está puxando muito meu saco e isto pode ficar chato... Eu acho óbvio que o tédio é nocivo à nossa saúde física e mental; nos faz sentir vazios, insatisfeitos. Funciona mais ou menos assim, eu acho: você tem um trabalho chato a semana toda, ou se vê pressionado a estudar e ser alguém, ou tem pouco dinheiro e não tem outra escolha além de vender sua força pelo mínimo, ou então é um jovem rico que não tem muito o que se preocupar. De qualquer modo, boa parte do seu tempo é gasto ou com atividades penosas, indesejáveis ou com as recompensas monótonas que esta sociedade nos dá (televisão, video-game, shoppings, etc), atividades que, notem, nos vem quase sempre mediante um custo. Toda nossa vida, a vida de todos, gira em torno do Capital. Dinheiro. Qualquer coisa que você faça... e se for começar com o discurso de que todo mundo precisa do dinheiro e bla, bla, bla é melhor parar por aqui.

Eu não acho que precisamos de todas as merdas que estão por aí, sendo inventadas e reinventadas a cada minuto para fazer a economia girar. Tampouco acho que precisamos passar toda nossa vida correndo atrás de uma abstração chamada dinheiro. Mas é o que fazemos o tempo todo. Isto não tem dado sentido à nossas vidas, não tem nos feito melhores e a prova disso está nos anti-depressivos e nas igrejas que pipocam por todos os lados. Nossa sociedade é halopática, você entende? Busca afastar os seus males remediando, sem olhar para as causas de suas dores e frustrações. Vida é atividade. Vida é aquilo que você faz. Então, eu acho que se nós passamos muito tempo fazendo alguma coisa chata, que não nos dá prazer, nossa vida é uma merda e ponto final. Você pode esperar pra ver se vai ter uma recompensa depois da morte... ou procurar maneiras de transformar sua vida agora.

5. seria a libertinagem e o não-ciúme melhores formas de relacionamento? Se todos queremos prazer e o amor, por que somos tao egoístas com eles?

R.A melhor relação é aquela que você se sente bem, não importa a forma, as regras ou o nome que você dá pra isso. Para algumas pessoas e em algumas circunstâncias é saudável manter um compromisso de fidelidade, está ok. Se as pessoas envolvidas acreditam que podem manter isso e que precisam desse compromisso. Monogamia tem muito a ver com o desejo de construir algo com uma pessoa, de dispender energia para um projeto que você não quer ver sendo abortado por outras relações. Monogamia é também como uma ferramenta de segurança mas, ao mesmo tempo, pressupõe insegurança. Geralmente somos mais necessitados de carinho e atenção únicas quanto menos somos independentes e fortes. Tememos ficar sozinhos, então prendemos as pessoas perto da gente. É mais ou menos assim que eu penso hoje.

6. o que você acha sobre a cena punk/hardcore/straightedge no geral? você olha a cena como uma ferramenta e um espaço para certos fins, ou acha que a cena por si própria é o fim(a causa)?

R. Eu não penso quase nada a respeito disso e o pouco que penso prefiro guardar pra mim mesmo, porque não é importante. Tudo bem, o meio punk nos tirou do lugar comum e nos pôs nesse lugar, cercados por todas essas idéias malucas sobre mudar o mundo e a nós mesmos, mas e agora? Estamos crescendo e aprendendo que isto não vai salvar nossas vidas. O punk é extremamente limitado, isto porque ele ainda funciona como uma válvula de escape. Assim ele nunca poderá se realizar. Qual o princípio ético do punk? Faça você mesmo, certo? Isto é, o controle da realidade. Usando de redundância, controlar suas ações é relacionar-se realmente com a realidade. Quando vivermos isso plenamente o punk desaparece, porque não vai ser necessário classificar ou distinguir um aspecto da sua vida de todo o resto.

7. quais são os objetivos musicais e ideólogicos do colligere (pergunta pra TODOS os integrantes) ???

R.No começo eu participava da construção das músicas, mas o BC foi complicando demais as coisas e achei melhor deixar tudo com eles. Minha única preocupação continua sendo aprender a cantar e não fuder minha garganta.

8. trabalho é ,ao meu ver, um dos mecanismos mais fortes de dominação,
obediência, exploração, alienação. se você concordar (ah! concorda sim neh?) comente sobre isso! (desculpe a pergunta comum, mas eu nao vou divulgar esse zine apenas pra quem já ta cansado de saber dessas coisas...)

R.Acho que já falei um pouco disso na questão 4. Mas o tema pode se estender muito mais... É importante ter consciência de quais são as bases da nossa sociedade. O pensamento que está fundamentado hoje é o do "sempre foi assim", mas a verdade é que tudo o que existe foi construído de alguma maneira, de acordo com determinadas condições materiais. A forma capitalista, de apropriação do trabalho, é um grande caminho percorrido pela humanidade, é histórico. Mas a história não parou. O que vai acontecer amanhã depende dos nossos desejos e da nossa força de atuar. Se estamos insatisfeitos com essa forma, com vendermos nosso tempo, nossas vidas, porque continuarmos? Por que não buscar outras formas de se relacionar e construir coisas, de trabalhar e dividir? O lucro e a exploração não são verdades naturais e irão cair se os prejudicados e explorados assim quiserem. Quem trabalha? Quem gera lucro? Quem manda? A liberdade verdadeira está na posse dos meios de produção e de todos os momentos de nossa atividade.

9. o que você pensa sobre estilo?

R. Eu penso que é uma boa forma de vender coisas as pessoas que não encontram muito sentido em sua existência; pessoas que tem, por exemplo, trabalhos ridículos durante toda a semana e se fantasiam de alguma coisa em ocasiões especiais, ou então aqueles que por não precisar se preocupar com sua sobrevivência acabam fugindo para tendências e bizarrices para não morrer de tédio. Na minha opinião isto não dá sentido à vida de ninguém, absolutamente. Principalmente porque a maioria das coisas que é vendida com a estampa de "inovador" ou de "estilo" são apenas representações de uma vida que não existe de verdade. É isso o que as pessoas fazem a maior parte do tempo: substituem suas frustrações por imagens da vida que eles não tem, mas gostariam de ter.

Mas, eu preciso admitir, o modo como você se veste é uma forma de comunicação, de qualquer maneira. Ninguém escapa da triste armadilha de se disfarçar de alguma coisa ou procurar algo que represente sua personalidade. O problema é quando isto representa algo que você NÃO é.

Estou aqui falando de estilo como se isto estivesse apenas relacionado ao vestir, mas é claro que há outras formas. O estilo literário, por exemplo, ou o estilo de música. Mas no fundo acho que o comentário acima também calha nestas e em outras modalidades, no sentido em que se busca pertencer a um estilo para ter uma identidade ou reconhecimento.

Bom, eu acho que você tem que fazer a coisa do seu jeito, não importa de onde isso veio nem pra onde vai. O ser humano aprende por imitação, então é legal juntar o maior número de coisas que você gosta e incorporar a sua personalidade. Seja fiel a você mesmo. Seja verdadeiramente livre para roubar, criar e destruir. E se alguém fizer algum comentário maldoso sobre o seu jeito, não importa, isto não é nada.

10. olha rô, muito obrigado pela participação. desculpa se eu nao consegui fugir das perguntas rotineiras. agora escreva (ou não)algo que você queria ter respondido, mas que eu nao perguntei por falta de criatividade! ah deixe o seu endereço pra contato (e o do colligere também).

R.Obrigado pela entrevista, Marcos. O endereço é caixa postal 1860. cep 80011-970. Curitiba-PR. e-mail: [email protected]


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Havia uma pequena criança com uma adorável vida. Um maldito homem roubou-a da criança e trancou-a em uma uma cela dentro de uma enorme torre. Na cela haviam barras que separavam a vida desacordada da criança e o mundo, portanto ela começou a bater nas barras com a esperança de que sua vida acordasse e fugisse... ela bateu tanto que um dia a sua vida acordou, ergueu-se e com uma força absurda jogou-se contra as barras provocando o mais belo e ensurdecedor barulho já ouvido. O esforço foi inútil, porém foi a mais sincera tentativa de viver. Mas isso não foi o suficiente...

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Conheça um pouco da organização política da bichice no mundo

A ascenção da burguesia ao poder, no século passado, provocou uma reestruturação da sociedade e a organização da família teve uma atenção especial. As relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas pecado pela igreja e crime pela burguesia. Na inglaterra e em varios países do mundo as pessoas eram presas e condenadas pelo ato de sodomia (prática do sexo anal). Ainda hoje existem países que condenam as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. A medicina se apropriou da sexualidade. Foi criado o termo "homossexual" com uma conotação de patologia, desvio do que consideravam normal. Nas Ordenações e Leis do Reino de Portugal, em 1825, que valiam para o Brasil, o pecado de sodomia levava as pessoas para a fogueira, sendo que perdiam todos os bens, confiscados para a Coroa. Os descendentes também perdiam seus direitos.

Precursores

Em 1810 o Código Napoleônico, na França, havia despenalizado atos sexuais entre homens. Em 1871, com a vitória alemã na guerra contra a França, e a proclamação do Segundo Império, o artigo 143, do código prussiano, se transformou no novo código penal do Estado Alemão, no qual o artigo 175 condenava atos homossexuais.

A formação do Estado Nação Alemão no ano de 1860 propiciou a primeira geração de ativistas gueis. A visão biomédica da homossexualidade, como enfermidade mental e delinquência, começou a refletir em alguns estados europeus. A burguesia havia chegado ao poder e estabelecido outros parâmetros de moral e condutas sociais.

A primeira iniciativa que temos conhecimento para combater o preconceito contra homossexuais surgiu da iniciativa de um médico alemão residente na Hungria, Karl Maria Benkert, que escreveu sob o pseudônimo de Kertbeny para o ministro da justiça prussiano solicitando que fosse efetuada uma reforma nas leis referente à homossexualidade.

Surgimento das organizações

O Comitê Científico surgiu na Alemanha em 1897, por iniciativa de Magnus Hirschfeld, com o objetivo de abolir o artigo 175, que condenava os homossexuais. Lançaram um abaixo assinado com mais de 6.000 assinaturas, apoiado pelo Partido Social Democrata Alemão, incluindo as de Albert Einstein, Thomas Mann, Emílio Zola e Léon Tolstoy.

Também no final do século passado, ainda na Alemanha, o médico guei Karl Ulrichs, que deu origem ao termo uranista (hoje em desuso) lutava pela causa.

Na Inglaterra, Havelock Ellis e Edward Carpenter, com idéias socialistas, manifestavam-se contra o preconceito. Ellis foi um dos poucos que falou sobre lesbianismo.

Hirschfeld fundou em 1919 em Berlim o Instituto de Ciência Sexual. Organizou o 1o Congresso Internacional para a reforma sexual.

A revolução russa de 1917

Com a revolução russa foram conquistados vários direitos, como o direito ao aborto, liberação sexual, prostituição, divórcio, tendo abolidas as leis contra homossexuais.

Com Stalin no poder, surge uma nova visão sobre a sociedade, como a "proteção da família". Todos os direitos antes conquistados foram perdidos. Para Stalin, a homossexualidade era a "decadência da burguesia". Defendia a "decência proletária". Em 1934 começou uma campanha contra homossexuais, prisões em massa em Moscou, Odessa, Leningrado e Khrakov. Artistas e intelectuais eram assassinados Ou mandados para a Sibéria. Stalin elabora uma lei anti-homossexual com o apoio de Máximo Gorki.

Berlim era a capital guei mundial. A cidade tinha vários locais frequentados por homossexuais, uma vida cultural agitada, com muitos cabarés. O filme "Bent" retrata essa época.

Os nazistas chegam ao poder. Em 1933 foi destruído o Instituto Hirschfeld. Foram queimados mais de 10.000 livros Hirschfeld foi exilado na França, onde morreu.

Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas utilizaram o art. 175 para condenar os homossexuais e entregá-los à Gestapo. Estima-se que de 50 a 80 mil homossexuais foram enviados para os campos de concentração. Os homossexuais recolhidos nos campos de concentração eram identificados por um triângulo rosa preso no ombro (vindo daí um símbolo do movimento guei).
Durante a 2a Guerra Mundial não houve movimentação.

Retomada

A retomada da luta contra o preconceito aos homossexuais começou nos Estados Unidos, com várias organizações. A principal foi a "Associação Mattachine", que tinha uma atuação moderada. Outras surgiram com propostas políticas diferentes como "One Inc." e "As Filhas de Lilith", exclusivamente lésbica. Na França, "Arcádia" na Dinamarca, "Foubundet 48" na Holanda, o "COC", que existe até hoje.

Em 1966 o movimento começou a ter uma nova postura, se convencendo que deveria ir para as ruas. Entendeu que justificar a homossexualidade como "normal" não era a melhor estratégia. Houve um desfile de automóveis em Los Angeles, contra a exclusão dos homossexuais nas forças armadas. Em 1969 havia 150 grupos nos EUA. Com o maio de 68 na França, um novo momento de afirmação dos direitos da liberação sexual era a tônica.

Nos EUA e Inglaterra foi fundada a Frente de Liberação Gay. Em 1968 Stonewall, bar de Nova Iorque frequentado por homossexuais, sofria constantes ataques da polícia. Houve uma revolta generalizada. Foi um marco para a luta dos homossexuais no mundo todo. As palavras de ordem eram: "poder gay", "eu gosto de rapazes", "assuma-se", e "vá para a rua". Outro símbolo guei surge aí: o arco-íris, que representa, com suas cores, a diversidade.

Em 1984, grupos gays e lésbicos americanos participaram da convenção do Partido Democrata requerendo medidas reformistas, como a possibilidade de serviços sociais para jovens gays e a elaboração de uma lei federal de direitos civis para gays e lésbicas.

O movimento se dividiu entre radicais e moderados, uns querendo apenas lutar por direitos civis e outros contestavam a sociedade como um todo. Nos dias de hoje não é diferente, uns lutando para ser assimilados, querendo ser iguais oas héteros, e outros contestando a sociedade. No Brasil, surgiu o grupo Somos de afirmação homossexual em São Paulo, no ano de 1978. Também nesta época veio o jornal Lampião de Esquina, no Rio de Janeiro, que trouxe a discussão da homossexualidade de uma forma maravilhosamente bichesca. Em 1980 surgiu o Grupo Gay da Bahia. Hoje no Brasil tem mais de 50 grupos. O nuances surgiu em Porto Alegre, em 1991.

O filme "O Einstein do Sexo" do diretor alemão Rosa Von Praumheim aborda a história do sexólogo Magnus Hirschfeld, e de quebra, a do movimento gay. Estreando em circuito comercial em São Paulo, já rodou nos rolos do Mix Brasil de 99. Vamos torcer, que vai valer a pena.

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Em terra de morto, a desgraça é estar vivo.

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