O Mais
Fraco

...é horrível você perceber que
não pode fazer nada além do que está fazendo...
Sei que estou sendo pouco (ou
nada) original, mas uma entrevista pode ser um meio mais direto e
fácil de se trocar informações e mostrar as pretensões e
desejos das pessoas entrevistadas.
Sempre achei engraçado em entrevistas para zines, que mesmo
sendo o entrevistado amigo (íntimo ou não) do entrevistador, as
entrevistas sempre me passaram algo frio e não-pessoal.
Tentarei fazer o máximo possível para não ser frio e
não-pessoal, ao mesmo tempo que não seja pessoal demais (pois
senão ninguém, exceto eu, entenderá a entrevista).
Qualquer interesse, dúvida, discordância, concordância,
desejo, ódio, paixão, etc, os endereços para contato estarão
no fim de cada entrevista.
A minha idéia, até agora pouco, era entrevistar algumas bandas
para saber mais sobre elas, musicalmente/ideológicamente. Mas
mesmo que eu entreviste a banda, sempre terá aquele membro que
não dará as suas opiniões com o mesmo entusiasmo, ou mesmo nem
a dará, deixando assim, a banda com opiniões de uma única
pessoa (o que é muito perigoso). Portanto, resolvi entrevistar
algumas pessoas, que eu acho que têm coisas interessantes a nos
dizer.
Os textos espalhados pelo zine são alguns meus e outros roubados
de diversos lugares. Mas isso não tem muita importância.
Alguns textos foram roubados de conversas reais com pessoas
reais, mas não se preocupe! Seu nome foi ocultado e as suas
falas foram cuidadosamente retiradas do texto.
Agradeço ao bakunito pelo seu texto e à letícia pela
tradução.
O nome "o mais fraco" vem de alguns momentos que me
senti impotente e incapaz de realizar coisas que queria e de
consertar erros que cometi ou que outros cometeram. É muito
difícil lidar com o peso nas costas que carregamos, mesmo
sabendo que não somos os culpados por isso tudo. *talvez tenha
algo a ver com the weakerthans, que é uma banda muito foda*
Um beijão para todos/as.
Luther B.

Toda vez que eu tento escrever
alguma coisa, sai algo do tipo: "liberte-se das garras
opressoras", "questione-se". É... é muito
dificil escrever algo que fique realmente sincero com o que você
está sentindo a respeito de alguma coisa. Dessa vez eu vou
tentar diferente. Vou tentar escrever sobre o que eu quero
escrever agora.
Escrever sobre perdas, decepção e vontade de viver.
Nossas vidas são
baseadas em alguns momentos felizes. São esses momentos que
fazem as nossas merdas de vidas valerem a pena. São desses
momentos que você lembra quando dá um sorriso (ou quando algum
vento ou cheiro ou qualquer outra coisa te fazem se sentir por um
breve momento em outra época e em outro lugar) e não daqueles
momentos chatos, entediantes, e inúteis na hora do trabalho, na
escola, na hora do almoço com a família, etc e etc.
Bem. Se nós vivemos para ter algumas situações interessantes,
e admitimos que todas as outras são chatas e irrelevantes, por
que não as jogamos fora de uma vez?
Por que a gente não passa a tarde numa praia, lendo algum livro
muito foda, ou ouvindo algo que nos deixe muito animados ou
passeamos com aquela(s) pessoa(s) que gostamos? Bem, você, meu
caro cidadão responsável e ativo, provavelmente está falando:
"e quem você pensa que irá fazer os trabalhos pra
sociedade se manter em pé?". Respondo-vos com todo o
prazer: NINGUÉM! Eu espero...
Lembre-se de uma coisa: fomos nós os criadores disso tudo. O ser
humano criou a escola, o dinheiro, deus, o trabalho, a família,
etc... fomos nós que fizemos isso tudo e agora somos escravos
das nossas próprias criações!
Bem, você pode estar se auto-afirmando: "eu não sou
escravo de nada!" Então me responda uma coisa. Por que
você não tira um ou dois meses de folga do trabalho e não vai
pra algum lugar diferente? Ou melhor, por que você não abandona
tudo isso de uma vez por todas??? "como eu vou sobreviver
então? Como eu vou comprar as coisas que eu preciso pra
viver??" bem, talvez você não tenha entendido o que eu
disse até agora. Talvez eu esteja falando de liberdade e você
de responsabilidades e compromissos ( = conveniência).
Ah. Mas tambem eu peco em dizer que o ser humano criou isso tudo.
Eu não criei nada disso, e nem você! Não fomos nós que
levantamos isso, apenas não deixamos isso cair, e é ai que nós
cagamos com tudo.
Por que ninguém se perguntou: pra que dinheiro? Catequese,
banco, carros etc e etc e etc...?
A rotina é tão esmagadora que ninguém tem tempo para isso!!!
Experimente. Ande na rua um dia apenas observando, sente-se um
dia em algum lugar movimentado. Olhe os rostos dos mort@s-viv@s,
loucos/as, preocupados/as, andando de um lado para o outro, mesmo
sem sabarem ou entenderem o por quê. Eles/as trabalham para
alguem que não sabe nem o seu nome...
Experimente não dormir um dia.
Quando acordamos sentimos e esperamos que coisas boas vão nos
acontecer, pois ontem já passou e agora chegou a hora de sermos
retribuidos pelos nossos esforços. Mas ao chegar a noite, o
mesmo sentimento de derrota e de impotência volta a nós. Não
se iluda. Todos os dias serão iguais se não começarmos a mudar
os nosso hábitos e se não pararmos de esperar que algo bom
venha a acontecer.
A esperança é inevitável. Todos queremos que algo bom
aconteça, a não ser que você seja O Estrangeiro.
Nós caimos na nossa própria cilada quando temos apenas
esperança. Não se esqueça que você é quem faz a sua
historia. Espere algo. Mas se for pra esperar de alguem, que seja
de você.
Esperamos tudo.
Um emprego bom, um dia de sol, esperamos que a conta de luz seja
baixa, que o próximo telefonema seja da pessoa amada, etc.
Bem, só não use isso como desculpa para se dizer mais um
sem-esperança. Você não pediu pra nascer, mas agora não tem
mais volta, e é melhor começar a fazer alguma coisa.

... padrões, criados para
numerar, para controlar, para produzir padrões. O comércio cria
padrões para enriquecer seus bolsos e para enriquecer o ego de
quem está nos padrões...
o diferente é assustador. Amedronta, afasta, desafia, muda (ou
pelo menos é isso que queremos), mas talvez o diferente falso, o
diferente não-natural, o diferente que DESEJA ser diferente mas
não o é, cria outros padrões, o diferente que não difere do
outro diferente, que não difere do outro diferente que no final
acaba sendo IGUAL a todos os outros "diferentes" que
acabam criando padrões, criados para numerar, para controlar,
para produzir padrões...

Me sinto triste toda vez que
reparo ao meu redor as diferenças sociais entre as pessoas.
Talvez você já tenha percebido isto também. Acontece sempre!
Analise isso durante a viagem de ônibus que você faz todos os
dias. Ou você nunca viu garotos/as de camisas brancas e pastas
azuis e outros/as com cestos preenchidos de balas e
desesperanças?
Algumas mulheres levando seus filhos para as escolas com grades,
que protegem-nos dos filhos das outras mulheres (que cheiram a
perfume barato) que estão indo para a casa dessas mulheres,
ricas e podres, para arrumar o quarto dos filhos que estão na
escola, enquanto os seus estão em algum ônibus com uma cesta
repleta de balas e desesperanças e impedidos de viver por
algumas grades. Não as grades do colégio, mas grades
transparentes que sabotam seus desejos e necessidades.
No meio disso tudo eu me sinto triste e desesperado por dentro,
mesmo que às vezes eu me mostre feliz por fora. E me pergunto
sempre as mesmas coisas: "por que alguns tem acesso e outros
não?", "por que tem q ser assim?", "por que
não podemos fazer diferente?".

Lembre-se do dia mais importante
da sua vida, o dia que você descobriu pela primeira vez o amor
ou a musica ou a aventura... quando milhares de novas portas se
abriram e derepente tudo era possível.
Por que todos os dias não podem ser como esse?
Bem, por um motivo, nós não vivemos exatamente numa sociedade
feita para nos ajudar a discernir e a ir atrás do que os nossos
corações desejam, não é mesmo? O que quer seja que a
retórica sobre "liberdade e a busca da felicidade"
possa sugerir, nossa sociedade esta absurdamente repleta de
distrações e restrições. Estamos tão ocupados na luta para
sobreviver, que é dificil até mesmo lembrarmos dos nossos
sonhos. Cada um de nós se sente tão impotente que é igualmente
difícil manter em mente que esse mundo no qual vivemos é o
resultado direto dos nossos próprios esforços: foi o nosso
trabalho que o fez desse jeito. Nossa espécie tem transformado
completamente o planeta. Será que esse é o melhor de todos os
mundos que poderíamos construir?
Se não, por que não paramos de construí-lo e inventamos novas
formas de viver e trabalhar juntos? Assim poderíamos criar um
mundo novo e melhor, que seria muito mais prazeiroso para todos
nós! Por qual outro motivo deveriamos trabalhar, se não por
prazer e felicidade?

Alguma vez você já fez amor e se sentiu tão bem, quase como se parecesse perigoso? Estar apaixonado significa realmente querer viver num mundo diferente: um mundo mais excitante, mais bonito, mais alegre; um mundo feliz. Um mundo onde tudo importa e nada jamais é obsoleto. Não deveriamos construir esse mundo aqui e agora?
---
NA TERRA DA
APARÊNCIA
***
"Em terra de morto, a desgraça é estar vivo."
***
Anotações de um Antropólogo de Outra Galáxia em sua
Pesquisa de Campo na Terra
Na sociedade do espetáculo, onde
cada um é ator e atriz do seu próprio drama, e ao mesmo tempo
todos os outros desempenham um papel demarcado no cenário do
espetáculo que representa a - se coloca como a - vida de cada
um, quebrar esse papel demarcado no espetáculo que representa a
vida do outro é romper com a ordem, e acima de tudo, perturbar a
ordem espetacular que se coloca como a vida do outro, isto é,
perturbar o outro. É um ato análogo à sabotagem da dinâmica
produção-circulação de mercadorias na sociedade capitalista,
quer dizer, a sabotagem da realização da mais-valia, do logro
fundamental que reproduz que alguns tenham muito e outros tão
pouco.
Quanto mais alguém constrói sua vida (na verdade a substitui),
isto é, suas relações, no mundo da APARÊNCIA, no mundo do
espetáculo, mais essa pessoa define essas relações como um
necessário "matar ou morrer", um duelo onde quem saca
primeiro passa sem feridas ao próximo ato. Quem no tempo exato
rompe com seu papel demarcado numa relação espetacular
recíproca, ganha o duelo, perturba a ordem do outro, sai
ganhando (no sentido utilitarista-individualista da palavra).
Essa é sem dúvida uma explicação para a angústia existencial
e a busca neurótica por mudanças espetaculares na sua vida
cotidiana que aqueles que constróem suas vidas no mundo da
aparência normalmente apresentam: no domínio da aparência não
é possível realização, somente aproveitamento e fuga.
Aquele que não tem consciência de que está desempenhando um
papel na montagem teatral da vida do outro, só o perceberá
quando for morto nesse duelo ao qual ele entrou de gaiato, sem
ser avisado e sem sequer ter conhecimento da sua existência.
Esses são aqueles que buscam a real experiência de vida, não a
aparência e o estepe do espetáculo, e nas suas relações
pessoais cotidianas acabam sendo um personagem no espetáculo que
representa a vida do outro. E como todo personagem, pode sair de
cena assim que o roteirista o queira. Nesse caso não se trata de
ter sido pego de surpresa pela quebra de papel efetuada pelo
outro - uma vez que para aqueles que buscam a experiência real e
vivida, e não a aparência, os outros não estão a desempenhar
um papel, pois eles rejeitam a substituição da sua vida real
(ou de sua tentativa) pela segurança degradante do espetáculo.
Trata-se simplesmente de ter sido pego de surpresa pela
descoberta de que o que se esperava ou se achava que fosse o SER,
era apenas o APARECER; o outro não passava na verdade de
aparência, e a relação entre os dois, dessa forma, era um
espetáculo conduzido por um só roteirista.
***
"Aqueles que querem fazer do Mundo o seu pequeno mundo,
tornam o seu Mundo pequeno."
***
A Aparência Oculta do Fascismo
O fascismo, bem descrito já como
sendo a "política como arte", isto é, a realização
máxima da APARÊNCIA através da linguagem e dos símbolos de
forma a ocultar o SER - a realidade contraditória e conflituosa
da sociedade de classes capitalista - normalmente é visto em
germe dentro das atuais sociedades democráticas capitalistas
(SDC) através de atos xenófobos, nacionalistas, racistas e
outros explicitamente autoritários. A linguagem fascista oculta
os conflitos de classe, faz da nação uma abstração concreta
(capaz de massacrar milhões), é pura estética e nenhum
conteúdo real, factual... os desfiles, as paradas, fazem parte
do espetáculo, da construção de uma APARÊNCIA.
Ora, se "fascismo" e "realização máxima da
aparência" são termos intercambiáveis , as SDC são a
OCULTAÇÃO do fascismo. Bem dito, a ocultação do fascismo no
interior da sociedade. Se o fascismo é a realização máxima da
aparência, as SDC são a OCULTAÇÃO máxima da máxima
realização da APARÊNCIA na sociedade.
As atitudes que caracterizam o fascismo presente nas SDC não
são as da extrema-direita ou de grupos que portam símbolos
nazistas ou nacionalistas (essas caracterizam o fascismo como seu
deu na década de 30). A atomização e o individualismo levados
a cabo nas SDC - típicos de um liberalismo econômico numa
sociedade de controle - ao mesmo tempo que seguem a
lógica-modelo da troca mercantil entre indivíduos-entidades
estranhos entre si e fora de comunidade, maximizam a realização
da aparência nas relações interpessoais na medida que esse
individualismo/atomização - que significa a própria
inexistência de vínculo real, comunitário/solidário,
não-espetacular, entre os indivíduos - aumenta.
Se no fascismo stricto sensu os desfiles, paradas, discursos dos
Führer e toda propaganda ideológica, ao mesmo tempo que
realizavam maximamente a APARÊNCIA a denunciava aos olhares
críticos, já o fascismo lato sensu, aquele das SDC, perpassa os
indivíduos e suas relações pessoais, é a máxima realização
da APARÊNCIA nas relações entre os indivíduos. Se o primeiro
engloba a sociedade, o segundo a atravessa. Se o primeiro está
relacionado aos macropoderes, o segundo está relacionado aos
micropoderes.
Não é portanto à toa que a sensação de falta de liberdade,
de sufocamento, impotência, solidão, ausência, nas SDC possa
ultrapassar a das fascistas propriamente ditas.
O indivíduo das SDC que consegue discernir o que sente e porque
sente, logo percebe que sua sensação de não-liberdade ou de
sufocamento não é conseqüência (ou talvez apenas bastante
indiretamente e não unicamente) de um Estado opressor
(pleonasmo) ou de um Partido ou política. Sua opressão tem
origem nas pessoas à sua volta, nos indivíduos como ele; não
da ordem de uma autoridade, mas da ausência de vínculo real,
dos desejos, das hierarquias que perpassam esses desejos e
comportamentos dos indivíduos em geral.
O poder está mais difuso que nunca na atual sociedade. Vivemos
num fascismo sem barras, não conseguimos ver as grades e lutar
contra elas sem nos isolarmos, nos neurotizarmos e nos
atomizarmos mais ainda (se não se consegue, como na maioria das
vezes, substituir a APARÊNCIA das relações interpessoais por
relações verdadeiras). Pior, os agentes do fascismo não são
mais o Führer, os soldados da SS, os corpos policiais, os
magistrados, os produtores culturais e nem sequer os skinheads.
Eles são nossos amigos, companheiros e amantes.
A vida cotidiana nas atuais sociedades democráticas capitalistas
é a vida como simulação. As SDC se caracterizam pelo domínio
da máxima APARÊNCIA na vida cotidiana, o espetáculo do
dia-a-dia: a política do fascismo como rotina, como modo e
modelo de interação pessoal. E aquilo que está em todas as
partes não pode ser reconhecido. Quando o fascismo desce e se
instala na vida cotidiana ele se torna invisível, inquestionado,
estruturante: a normalidade.
***
"A condição de quem vive no futuro, é estar sozinho no
presente."
***
Eu Não Posso Te Ajudar
A versão cotidiana do paradoxo do
soldado condecorado por matar homens e condenado por amar um
existente na sociedade fundamentada na neurose, está na recusa
incondicional de se dar o amor a quem ao seu lado o necessita, a
quem lhe ama (ausência de reciprocidade), fazendo assim a vida
desse negado muitas vezes um vazio ou um inferno, ao mesmo tempo
que se dispensa a maior quantidade de (pseudos) cuidados a essa
pessoa, criando uma nuvem de APARÊNCIA que esconde a profunda
indiferença e insensibilidade.
O coração arrítmico sofre. O amor que poderia lhe colocar em
compasso é categoricamente e incondicionalmente negado. A frase
é fria e seca: "Eu não posso te ajudar". No momento
seguinte a mesma voz oferece chás e remédios para o coração
arrítmico.
Na sociedade fundada na neurose, a sociedade do espetáculo, é
mais fácil encontrar um amigo que lhe ajude a morrer do que a
viver.
@ amig@ médic@, enfermeir@ ou farmacêutic@ lhe receitará o
remédio e a dose fatal que põem fim às tuas agonias nesse
mundo, se pedires; solidário que se mostra à tua condição.
Mas não lhe dará o amor que regaria a tua vida.
***
"Se eu não posso sair do meu quarto, é melhor que ele não
tenha janelas."
***
Textos e frases redigidos por bakunito no dia 26/06/2001.
---
não estou
bem-humorado esses últimos tempos. Ah, deixa pra lá vai. vamos
falar de coisas boas e agradáveis. Os sonhos são sempre bonitos
e felizes, porque a realidade é sempre feia e triste. Ah, eu
não tô mal porque algo me aconteceu,
são coisas que acumulam. Eu fico muito triste com esse estilo de
vida que todo mundo leva. Isso realmente me deixa deprimido sabe.
Sei lá. Poderiamos estar vivendo num mundo gostoso e divertido.
Somos nós que fazemos o mundo acontecer.
Porra! Esse é o melhor que a gente pode fazer? Que merda...
Essa é a melhor vida que a gente pode viver?
Sério...
Na visão classe média: colégio; vestibular; faculdade;
emprego; família; casa própria; enfarto; cemitério com flores.
na visão de classe baixa: sem colégio; sem vestibular; sem
faculdade; sem emprego; sem merda nenhuma; morte sozinha.
na visão oprimida: esperança; revolta; decepção; depressão;
culpa e fim.
na visão opressora: conveniências; acessos; equipamentos;
consumo e deu também.
é tudo uma bosta. não importa qual lado.
porra.
essas são as melhores vidas que a gente pode viver?
meu... sério.
isso não é uma brincadeira ou algo pra se conversar durante uma
noite.
isso não é sobre política, isso é sobre as nossa vidas.
horrível... HORRÍVEL...
bem, nós somos apenas indivíduos. Eu não posso fazer nada a
mais do que eu estou fazendo e isso é um lixo porque eu me sinto
o mais fraco.
eu me sinto incapaz, impotente e impedido. eu nao sou livre
lembra?
eu queria fazer muita coisa e não posso. eu queria consertar
muitas (mesmo não sendo o responsável pelos estragos), mas não
posso também.
Bem, isso é horrível.
É horrível você perceber que não pode fazer nada além do que
está fazendo. Mas também seria horrível poder fazer mais do
que teus limites permitem.
Eu nem quero ter esse poder.
Mas assim, eu te amo.
o amor é algo ainda realmente revolucionário. porque só nós
podemos controlar ele! ninguém mais pode!
a partir do momento de que você se livrou de todo o conhecimento
que a sua família/escola/igreja te deu(deram), você está livre
pra amar.
mas eu quero mais. MUITO MAIS.

Internacional Situacionista
Questionário paródico publicado no # 9 de Internacional
Situacionista (9-VIII-64). Publicado no # 8 do fanzine Amano
(Agosto-97) em espanhol. Publicado na internet pelo Archivo
Situacionista Hispano. Traduzido de espanhol para português
pelos editores desta página. (www.geocities.com/autonomiabvr)
1. O que quer dizer a palavra
"situacionista"?
Define uma atividade que pretende
fazer as situações, não as examina em função de uma valor
explicativo ou qualquer outro. Isto em todos os níveis da
prática social e da história individual. Nós substituímos a
passividade existencial pela construção dos momentos da vida, a
dúvida pela afirmação lúdica. Até o presente os filósofos e
os artistas não fizeram mais que interpretar as situações;
trata-se agora de transformá-las. Posto que o homem é o produto
das situações que atravessa, convém criar situações humanas.
Mesmo que o indivíduo esteja definido pela situação, tem o
poder de criar as situações dignas de seu desejo. Desta
perspectiva devem fundir-se e realizar-se a poesia (a
comunicação como realização de uma linguagem em situação),
a apropriação da natureza, a libertação social completa.
Nossos tempos substituirão a fronteira fixa das
situações-limite, que a fenomenologia se contentou em
descrever, pela criação prática das situações; deslocarão
permanentemente esta fronteira com o movimento histórico de
nossa realização. Nós queremos uma fenomenopráxis. Não
duvidamos que este será o motivo fundamental do movimento de
libertação possível em nosso tempo. O que se deve por em
situação? Em diferentes níveis, pode-se tratar deste planeta,
ou da época (uma civilização, no sentido de Buckhardt, por
exemplo), ou um momento da vida individual. Allez, a música! Os
valores da cultura passada, as esperanças de realizar a razão
na história, não tem uma continuação possível. Só lhes fica
a decomposição. O termo situacionista, no sentido da
Internacional Situacionista, é exatamente o contrário do que se
chama agora em português um "situacionista", isto é,
um partidário da situação existente, por conseguinte, em
Portugal, do salazarismo.
2. A internacional situacionista é um movimento político?
As palavras "movimento
político" escondem hoje a atividade especializada de chefes
de grupos e partidos, que se baseiam sobre a passividade
organizada de seus militantes a força opressiva de seu futuro
poder. A I.S. não tem nada a ver com o poder hierárquico, sob
qualquer forma que se apresente. não é por conseguinte nem um
movimento político, nem uma sociologia da mistificação
política. A I.S. se propõe ser a mais alta expressão da
consciência revolucionária internacional, esforçando-se em
elucidar e coordenar os gestos de negação e os sinais de
criatividade que definem os novos contornos do proletariado, a
vontade irredutível de emancipação. Encarnada na
espontaneidade das massas uma atividade tal é incontestavelmente
política, a menos que se questione a qualidade dos agitadores
mesmos. Do mesmo modo que as correntes radicais aparecidas no
Japão (a ala extremista do movimento Zengakuren), o Congo, na
clandestinidade espanhola, a I.S. contribui com um apoio crítico
e por conseguinte procura ajudar praticamente. Mas contra todos
os "programas transitórios" da política
especializada, a I.S. se remete a uma revolução permanente da
vida quotidiana.
3. A internacional situacionista é um movimento artístico?
Uma grande parte da crítica
situacionista da sociedade de consumo consiste em mostrar até
que ponto os artistas contemporâneos, ao abandonarem a riqueza
do excesso contido para explorá-la, durante o período de
1920-25, se condenaram em sua maior parte a fazer uma arte
autoreferencial. Os movimentos artísticos não são, depois de
então, nada mais que ecos imaginários de uma explosão que
nunca ocorreu, que ameaçou e ameaça ainda as estruturas da
sociedade. A consciência de tal abandono e de suas implicações
contraditórias (a vida e a vontade de um retorno a violência
inicial) fez da I.S. o único movimento que pode, englobando a
sobrevivência da arte na arte de viver, responder ao projeto do
artista autêntico. Somos artistas só porque já não somos mais
artistas: vimos realizar a arte.
4. A internacional situacionista é uma manifestação
niilista?
A I.S. nega o papel, que é tudo o
que se está disposto a ser concedido a ela, no espetáculo da
decomposição. A superação do niilismo passa pela
decomposição do espetáculo; a I.S. trata de agir neste
sentido. Tudo o que se elabora e se constrói fora de tal
perspectiva não tem necessidade da I.S. para destruir a si
mesmo; mas também é certo que, na sociedade de consumo, os
terrenos vazios do solapamento espontâneo oferecem aos novos
valores um campo de experimentação onde a I.S. não pode
introduzir-se. Não podemos construir a não ser sobre as ruínas
do espetáculo. Em todos os lugares a previsão, perfeitamente
fundada, de uma destruição total, obriga a não construir nada
sobre a luz da totalidade.
5. As posições situacionistas são utópicas?
A realidade rebaixa a utopia. Entre a
riqueza das possibilidades técnicas atuais e a pobreza de seu
uso pelos dirigentes da ordem global não pode haver nada mais
que uma ponte imaginária. Queremos por a organização material
a disposição da criatividade de todos, como as massas se tratam
de fazer por todos os lugares no momento da revolução. É um
problema de coordenação ou de tática, como se quiser. Tudo o
que nós propomos é realizável: seja imediatamente, seja a
curto prazo, desde o momento em que se comecem a por em prática
nossos métodos de investigação, de atividade.
6. Vocês julgam necessário se chamarem assim,
"situacionistas"?
Na ordem existente, onde as coisas
ocupam o lugar dos homens, todo nome está comprometido. Sem
dúvida, este que escolhemos leva em si mesmo sua própria
crítica, enquanto se opõe àquele outro de
"situacionismo" que outros nos aplicaram, que
desaparecerá no momento em que cada um de nós seja
situacionista em todos os lugares e não haja mais proletários
lutando pelo fim do proletariado. Num sentido imediato se trata
também de um nome irônico, que tem o mérito de abrir uma
brecha entre a antiga incoerência e a nova exigência. O que
mantém a inteligência extraviada desde faz alguns anos é
precisamente essa brecha.
7. Qual é a originalidade dos situacionistas, como grupo
delimitado?
Nos parece que existem três pontos
principais que justificam a importância que nos atribuímos como
grupo organizado de teóricos e experimentadores. Em primeiro
lugar, nós fazemos, pela primeira vez, uma nova crítica,
coerente, da sociedade que se desenvolve atualmente, do ponto de
vista revolucionário; esta crítica está profundamente ancorada
na cultura e na arte deste tempo quanto a sua elucidação
(evidentemente, este trabalho está longe de estar completo). Em
segundo lugar, praticamos a ruptura completa e definitiva com
tudo aquilo que nos abriga e acorrenta. Isto é preciso em uma
época em que as diversas espécies de resignação estão
sutilmente imbricadas e são solidárias. Em terceiro lugar,
inauguramos um novo estilo de relações com nossos
"partidários"; nós negamos absolutamente o
discipulado, nada nos interessa a não ser a participação no
mais plena; e em lutar em um mundo de pessoas autônomas.
8. Por que vocês não falam sobre o passado da I.S.?
Se falou bastante freqüentemente,
por parte dos possuidores especializados do pensamento moderno,
em liquidação sobre isso, mas foi escrito muito pouco. Num
sentido mais geral, é devido a nós negarmos o termo
"situacionismo", que seria a única categoria
suscetível de nos introduzir no espetáculo reinante, de nos
integrar sob a forma de doutrina coagulada contra nós mesmos,
sob a forma de ideologia no sentido de Marx. ë normal que o
espetáculo que nós negamos nos negue. Se fala com gosto dos
situacionistas como indivíduos, para tentar separá-los da
contestação do conjunto, sem a qual por outro lado não seriam
uns indivíduos tão "interessantes". Fala-se dos
situacionistas na medida em que deixam de sê-lo (as variedades
rivais de "nashismo", em vários países, tem
unicamente em comum o pretender manter uma relação qualquer com
a I.S.). Os cães de quintal do espetáculo retomam sem
especificá-los fragmentos da teoria situacionista para
lança-los contra nós. Eles se inspiram, como é normal, na luta
pela sobrevivência do espetáculo. Necessitam então ocultar a
fonte, ou seja, a coerência de tais idéias e não só por
vaidade de plagiário. Ademais os intelectuais vacilantes não
ousam falar abertamente da I.S. porque o falar implica uma tomada
de partido mínima: dizer claramente o que se nega em
contrapartida do que se defende. Muitos crêem bem injustamente
que aparentar se manter na ignorância poderá libertá-los de
sua responsabilidade para mais tarde.
9. O que vocês contribuem para o movimento revolucionário?
Por desgraça não existe tal
movimento. A sociedade contêm certamente as contradições, e
muda. O que retorna, de uma forma sempre nova, faz possível e
necessária uma atividade revolucionária que atualmente não
existe, em nenhum lugar ainda, sob a forma de movimento
organizado. Por conseguinte não se pode "apoiar" um
movimento tal, a não ser construi-lo: defini-lo e ao mesmo tempo
experimentá-lo. Dizer que não existe um movimento
revolucionário é o primeiro gesto, indispensável, em favor de
tal movimento. O resto é reexplorar o desejo do passado.
10. Vocês são marxistas?
Bem entendido que Marx disse:
"eu não sou marxista".
11. Existe alguma relação entre as teorias de vocês e suas
vidas reais?
Nossas teorias não são outra coisa
que a teoria de nossa vida real e da possível experimentação
ou estimativa dentro dela. Por parcelar que sejam, com relação
a nova ordem, os campos de atividade disponíveis. Não nos
orientamos pelo medo. tratamos o inimigo como inimigo, este é o
primeiro passo que recomendamos a todo o mundo, como aprendizagem
acelerada do pensamento. Em todos os lugares sustentamos
incondicionalmente todas as formas de liberdade dos costumes,
tudo o que a canalha burguesa ou burocrática chama libertinagem.
Está evidentemente excluído que nós preparamos a revolução
da vida quotidiana mediante o ascetismo.
12. O situacionistas são a vanguarda da sociedade dos
ociosos?
A sociedade dos ociosos é uma
aparência que recobre um certo tipo de produção-consumo do
espaço-tempo social. Se o tempo de trabalho produtivo
propriamente dito se reduz, o exército de reserva da vida
industrial trabalhará no consumo. Todo o mundo é sucessivamente
operário e matéria-prima na indústria das férias, dos
prazeres, do espetáculo. O trabalho existente é o alfa e o
ômega da vida existente. A organização do consumo, junto a
organização dos prazeres, deve equilibrar exatamente a
organização do trabalho. O "tempo livre" é uma
medida irônica no esquema de um tempo pré-fabricado.
Rigorosamente, este trabalho não poderá dar mais que esse ócio
tanto para a elite ociosa - de fato, cada vez mais, semiociosa -
como para as massas que ascendem aos prazeres momentâneos.
Nenhuma barreira de chumbo pode isolar, por pouco que seja o
tempo, nem o tempo completo de um fragmento da sociedade, da
radioatividade que difunde o trabalho alienado; é o que
determina que a forma da totalidade dos produtos e da vida social
seja esta e não outro.
13. Quem financia vocês?
Não tivemos nunca outra finança, e
de uma forma extremamente precária, que nosso próprio emprego
na economia cultural da época. Este emprego está submetido a
uma contradição. Temos suficientes capacidades criativas para
ter um "sucesso" quase seguro; mas temos uma exigência
tão rigorosa de independência e de perfeita coerência entre
nosso projeto e cada uma de nossas realizações presentes (por
exemplo, nossa definição de uma produção artística
intisituacionista) que somos quase totalmente inaceitáveis para
a organização dominante da cultura, inclusive em suas
manifestações mais secundárias. O estado de nossos recursos
parte desta componente. Ver, a este propósito, o que escrevemos
no nº 8 da revista "Internacional Situacionista"
(1964) sobre "os capitais que não faltaram jamais às
empresas nazistas" e a nossas condições inversas (última
imagem desta revista).
14. Quantos vocês são?
Um pouco mais que o núcleo inicial
de guerrilha em Sierra Maestra mas com menos armas. Um pouco
menos que os delegados que estiveram em Londres em 1864 para
fundar a Associação Internacional dos Trabalhadores, mas com um
programa mais coerente. Tão firmes como os gregos da Termópilas
mas com um porvir mais belo.
15. Que valor vocês atribuem a um questionário como este?
O questionário se manifesta como uma
forma de diálogo fáctico que converge hoje obsessivamente todas
as psicotécnicas do espetáculo (a passividade regozijadamente
assumida sob um disfarce grosseiro de "participação",
de atividade). Mas nós podemos sustentar, a partir de uma
interrogação incoerente, reificada, as posições exatas. De
fato estas posições não são respostas, no sentido de que elas
não revertem sobre as perguntas, mas no sentido de que as
subvertem. São respostas tais que conseguem transformar as
questões de tal modo que o verdadeiro diálogo poderia começar
após estas respostas. No presente questionário, todas as
perguntas estão falseadas - e entretanto nossas respostas são
verdadeiras.

Internacional
Situacionista, 1964
Rodrigo: é um straightedge, tão romântico quanto anarquista (?), residente da cidade de curitiba e vocalista da banda Colligere. Mora na tão querida Comuna e nas horas vagas escreve "quiproquós do cotidiano e tentativas de análise" no zine A Vida Simples.
*****
1. primeiro, gostaria q você se apresentasse de uma melhor maneira (pelo menos melhor que a minha!)e que falasse suas expectativas com essa entrevista.
R.Bem, meu nome é esse mesmo e eu faço essas coisas mesmo. Apenas não acho que eu seja nem tão romântico, nem tão anarquista. Não sei o que esperar da entrevista, mas qualquer oportunidade de mostrar as coisas que estamos fazendo por aqui e expor algumas idéias é excitante.
2. diga-me, ro, quais são as suas pretensões de vida (política, sexual, afetiva, musical etc..)?
R.Eu pretendo tocar muito e em muitos lugares com minha banda e continuar escrevendo e participando de shows. Nos últimos dias eu parei de trabalhar e agora estou com o dia todo, praticamente todos os dias para fazer essas coisas que eu gosto; espero que isso dure e eu não precise voltar a trabalhar tão cedo, mas... enfim. Quanto a minha sexualidade isso é problema meu e de quem for corajoso/a o bastante pra se aproximar.
3. você acha que dentro da cena punk/hardcore (onde as pessoas teriam, por afinidade ideólogica, uma visão mais ampla de liberdade e respeito) a questão dos direitos animais está sendo esquecida? você nao acha que esta acontecendo de pessoas apenas "apoiarem" essa causa por aceitação no grupo? até onde uma pessoa precisa ser atuante pra ter moral no meio? Por que tanta gente fica dando desculpas pra não tornarem-se vegetarianas e vegans?
R.O punk/hardcore no Brasil já é
algo bastante grande, então depende de que cena você está
focando. A maior parte dos punk rockers realmente ignora ou
ridiculariza a questão, mas a cena straight edge por aqui sempre
foi bastante envolvida com a questão da liberação animal, até
o ponto das pessoas seguirem determinada dieta alimentar talvez
mais por aceitação ou status (porque comer carne seria muito
precário) do que por qualquer convicção ética.
Eu já defendi o veganismo com unhas e dentes, mas agora minha
posição é outra. De certa forma, ainda estou reconstruindo
meus conceitos, mas posso dizer que começo a levar em
consideração o quanto muitas vezes o veganismo foi a opção
mais cara, menos saudável e menos humana na minha vida.
Considero ainda uma crueldade o modo como os animais são
tratados, não apenas para alimentação como no propósito de
vestir ou divertir. Mas a exploração me parece hoje, ainda
mais, extremamente relacionada com o modo de produção que temos
servido e as formas de relação humana que tem perpetuado a
miséria e o sofrimento para nós todos. Ter consciência daquilo
que você come e consome é importantíssimo. A partir dai,
procurar negar o maior número de coisas que tragam sofrimento
para as espécies é uma demonstração de compaixão e
inteligência. Mas julgar que O Veganismo vai fazer de você uma
pessoa mais pura e livre de crueldade é, no mínimo, uma
aproximação maldita da moral cristã e isto deve ir pro lixo.
Eu nunca fui vegan, neste sentido.
4. uma vez eu te disse que sempre depois de uma conversa com você, eu tinha vontade de não ir pra cidade, e sim pra uma praia ou pelo menos fazer algo não-entediante. diz pra gente: como você acha que o tédio destrói nossas vidas?
R.Caramba! Agora sim é que vão
me chamar de hippie!! Mas, bem, eu acho que... você está
puxando muito meu saco e isto pode ficar chato... Eu acho óbvio
que o tédio é nocivo à nossa saúde física e mental; nos faz
sentir vazios, insatisfeitos. Funciona mais ou menos assim, eu
acho: você tem um trabalho chato a semana toda, ou se vê
pressionado a estudar e ser alguém, ou tem pouco dinheiro e não
tem outra escolha além de vender sua força pelo mínimo, ou
então é um jovem rico que não tem muito o que se preocupar. De
qualquer modo, boa parte do seu tempo é gasto ou com atividades
penosas, indesejáveis ou com as recompensas monótonas que esta
sociedade nos dá (televisão, video-game, shoppings, etc),
atividades que, notem, nos vem quase sempre mediante um custo.
Toda nossa vida, a vida de todos, gira em torno do Capital.
Dinheiro. Qualquer coisa que você faça... e se for começar com
o discurso de que todo mundo precisa do dinheiro e bla, bla, bla
é melhor parar por aqui.
Eu não acho que precisamos de todas as merdas que estão por
aí, sendo inventadas e reinventadas a cada minuto para fazer a
economia girar. Tampouco acho que precisamos passar toda nossa
vida correndo atrás de uma abstração chamada dinheiro. Mas é
o que fazemos o tempo todo. Isto não tem dado sentido à nossas
vidas, não tem nos feito melhores e a prova disso está nos
anti-depressivos e nas igrejas que pipocam por todos os lados.
Nossa sociedade é halopática, você entende? Busca afastar os
seus males remediando, sem olhar para as causas de suas dores e
frustrações. Vida é atividade. Vida é aquilo que você faz.
Então, eu acho que se nós passamos muito tempo fazendo alguma
coisa chata, que não nos dá prazer, nossa vida é uma merda e
ponto final. Você pode esperar pra ver se vai ter uma recompensa
depois da morte... ou procurar maneiras de transformar sua vida
agora.
5. seria a libertinagem e o não-ciúme melhores formas de relacionamento? Se todos queremos prazer e o amor, por que somos tao egoístas com eles?
R.A melhor relação é aquela que você se sente bem, não importa a forma, as regras ou o nome que você dá pra isso. Para algumas pessoas e em algumas circunstâncias é saudável manter um compromisso de fidelidade, está ok. Se as pessoas envolvidas acreditam que podem manter isso e que precisam desse compromisso. Monogamia tem muito a ver com o desejo de construir algo com uma pessoa, de dispender energia para um projeto que você não quer ver sendo abortado por outras relações. Monogamia é também como uma ferramenta de segurança mas, ao mesmo tempo, pressupõe insegurança. Geralmente somos mais necessitados de carinho e atenção únicas quanto menos somos independentes e fortes. Tememos ficar sozinhos, então prendemos as pessoas perto da gente. É mais ou menos assim que eu penso hoje.
6. o que você acha sobre a cena punk/hardcore/straightedge no geral? você olha a cena como uma ferramenta e um espaço para certos fins, ou acha que a cena por si própria é o fim(a causa)?
R. Eu não penso quase nada a respeito disso e o pouco que penso prefiro guardar pra mim mesmo, porque não é importante. Tudo bem, o meio punk nos tirou do lugar comum e nos pôs nesse lugar, cercados por todas essas idéias malucas sobre mudar o mundo e a nós mesmos, mas e agora? Estamos crescendo e aprendendo que isto não vai salvar nossas vidas. O punk é extremamente limitado, isto porque ele ainda funciona como uma válvula de escape. Assim ele nunca poderá se realizar. Qual o princípio ético do punk? Faça você mesmo, certo? Isto é, o controle da realidade. Usando de redundância, controlar suas ações é relacionar-se realmente com a realidade. Quando vivermos isso plenamente o punk desaparece, porque não vai ser necessário classificar ou distinguir um aspecto da sua vida de todo o resto.
7. quais são os objetivos musicais e ideólogicos do colligere (pergunta pra TODOS os integrantes) ???
R.No começo eu participava da construção das músicas, mas o BC foi complicando demais as coisas e achei melhor deixar tudo com eles. Minha única preocupação continua sendo aprender a cantar e não fuder minha garganta.
8. trabalho é ,ao meu ver, um dos mecanismos mais fortes
de dominação,
obediência, exploração, alienação. se você concordar (ah!
concorda sim neh?) comente sobre isso! (desculpe a pergunta
comum, mas eu nao vou divulgar esse zine apenas pra quem já ta
cansado de saber dessas coisas...)
R.Acho que já falei um pouco disso na questão 4. Mas o tema pode se estender muito mais... É importante ter consciência de quais são as bases da nossa sociedade. O pensamento que está fundamentado hoje é o do "sempre foi assim", mas a verdade é que tudo o que existe foi construído de alguma maneira, de acordo com determinadas condições materiais. A forma capitalista, de apropriação do trabalho, é um grande caminho percorrido pela humanidade, é histórico. Mas a história não parou. O que vai acontecer amanhã depende dos nossos desejos e da nossa força de atuar. Se estamos insatisfeitos com essa forma, com vendermos nosso tempo, nossas vidas, porque continuarmos? Por que não buscar outras formas de se relacionar e construir coisas, de trabalhar e dividir? O lucro e a exploração não são verdades naturais e irão cair se os prejudicados e explorados assim quiserem. Quem trabalha? Quem gera lucro? Quem manda? A liberdade verdadeira está na posse dos meios de produção e de todos os momentos de nossa atividade.
9. o que você pensa sobre estilo?
R. Eu penso que é uma boa forma
de vender coisas as pessoas que não encontram muito sentido em
sua existência; pessoas que tem, por exemplo, trabalhos
ridículos durante toda a semana e se fantasiam de alguma coisa
em ocasiões especiais, ou então aqueles que por não precisar
se preocupar com sua sobrevivência acabam fugindo para
tendências e bizarrices para não morrer de tédio. Na minha
opinião isto não dá sentido à vida de ninguém,
absolutamente. Principalmente porque a maioria das coisas que é
vendida com a estampa de "inovador" ou de
"estilo" são apenas representações de uma vida que
não existe de verdade. É isso o que as pessoas fazem a maior
parte do tempo: substituem suas frustrações por imagens da vida
que eles não tem, mas gostariam de ter.
Mas, eu preciso admitir, o modo como você se veste é uma forma
de comunicação, de qualquer maneira. Ninguém escapa da triste
armadilha de se disfarçar de alguma coisa ou procurar algo que
represente sua personalidade. O problema é quando isto
representa algo que você NÃO é.
Estou aqui falando de estilo como se isto estivesse apenas
relacionado ao vestir, mas é claro que há outras formas. O
estilo literário, por exemplo, ou o estilo de música. Mas no
fundo acho que o comentário acima também calha nestas e em
outras modalidades, no sentido em que se busca pertencer a um
estilo para ter uma identidade ou reconhecimento.
Bom, eu acho que você tem que fazer a coisa do seu jeito, não
importa de onde isso veio nem pra onde vai. O ser humano aprende
por imitação, então é legal juntar o maior número de coisas
que você gosta e incorporar a sua personalidade. Seja fiel a
você mesmo. Seja verdadeiramente livre para roubar, criar e
destruir. E se alguém fizer algum comentário maldoso sobre o
seu jeito, não importa, isto não é nada.
10. olha rô, muito obrigado pela participação. desculpa se eu nao consegui fugir das perguntas rotineiras. agora escreva (ou não)algo que você queria ter respondido, mas que eu nao perguntei por falta de criatividade! ah deixe o seu endereço pra contato (e o do colligere também).
R.Obrigado pela entrevista,
Marcos. O endereço é caixa postal 1860. cep 80011-970.
Curitiba-PR. e-mail: [email protected]
****
Havia uma pequena criança com uma adorável vida. Um maldito homem roubou-a da criança e trancou-a em uma uma cela dentro de uma enorme torre. Na cela haviam barras que separavam a vida desacordada da criança e o mundo, portanto ela começou a bater nas barras com a esperança de que sua vida acordasse e fugisse... ela bateu tanto que um dia a sua vida acordou, ergueu-se e com uma força absurda jogou-se contra as barras provocando o mais belo e ensurdecedor barulho já ouvido. O esforço foi inútil, porém foi a mais sincera tentativa de viver. Mas isso não foi o suficiente...
****
Conheça um pouco da organização política da bichice no mundo
A ascenção da burguesia ao poder, no século passado, provocou uma reestruturação da sociedade e a organização da família teve uma atenção especial. As relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas pecado pela igreja e crime pela burguesia. Na inglaterra e em varios países do mundo as pessoas eram presas e condenadas pelo ato de sodomia (prática do sexo anal). Ainda hoje existem países que condenam as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo. A medicina se apropriou da sexualidade. Foi criado o termo "homossexual" com uma conotação de patologia, desvio do que consideravam normal. Nas Ordenações e Leis do Reino de Portugal, em 1825, que valiam para o Brasil, o pecado de sodomia levava as pessoas para a fogueira, sendo que perdiam todos os bens, confiscados para a Coroa. Os descendentes também perdiam seus direitos.
Precursores
Em 1810 o Código Napoleônico, na
França, havia despenalizado atos sexuais entre homens. Em 1871,
com a vitória alemã na guerra contra a França, e a
proclamação do Segundo Império, o artigo 143, do código
prussiano, se transformou no novo código penal do Estado
Alemão, no qual o artigo 175 condenava atos homossexuais.
A formação do Estado Nação Alemão no ano de 1860 propiciou a
primeira geração de ativistas gueis. A visão biomédica da
homossexualidade, como enfermidade mental e delinquência,
começou a refletir em alguns estados europeus. A burguesia havia
chegado ao poder e estabelecido outros parâmetros de moral e
condutas sociais.
A primeira iniciativa que temos conhecimento para combater o
preconceito contra homossexuais surgiu da iniciativa de um
médico alemão residente na Hungria, Karl Maria Benkert, que
escreveu sob o pseudônimo de Kertbeny para o ministro da
justiça prussiano solicitando que fosse efetuada uma reforma nas
leis referente à homossexualidade.
Surgimento das organizações
O Comitê Científico surgiu na
Alemanha em 1897, por iniciativa de Magnus Hirschfeld, com o
objetivo de abolir o artigo 175, que condenava os homossexuais.
Lançaram um abaixo assinado com mais de 6.000 assinaturas,
apoiado pelo Partido Social Democrata Alemão, incluindo as de
Albert Einstein, Thomas Mann, Emílio Zola e Léon Tolstoy.
Também no final do século passado, ainda na Alemanha, o médico
guei Karl Ulrichs, que deu origem ao termo uranista (hoje em
desuso) lutava pela causa.
Na Inglaterra, Havelock Ellis e Edward Carpenter, com idéias
socialistas, manifestavam-se contra o preconceito. Ellis foi um
dos poucos que falou sobre lesbianismo.
Hirschfeld fundou em 1919 em Berlim o Instituto de Ciência
Sexual. Organizou o 1o Congresso Internacional para a reforma
sexual.
A revolução russa de 1917
Com a revolução russa foram
conquistados vários direitos, como o direito ao aborto,
liberação sexual, prostituição, divórcio, tendo abolidas as
leis contra homossexuais.
Com Stalin no poder, surge uma nova visão sobre a sociedade,
como a "proteção da família". Todos os direitos
antes conquistados foram perdidos. Para Stalin, a
homossexualidade era a "decadência da burguesia".
Defendia a "decência proletária". Em 1934 começou
uma campanha contra homossexuais, prisões em massa em Moscou,
Odessa, Leningrado e Khrakov. Artistas e intelectuais eram
assassinados Ou mandados para a Sibéria. Stalin elabora uma lei
anti-homossexual com o apoio de Máximo Gorki.
Berlim era a capital guei mundial. A cidade tinha vários locais
frequentados por homossexuais, uma vida cultural agitada, com
muitos cabarés. O filme "Bent" retrata essa época.
Os nazistas chegam ao poder. Em 1933 foi destruído o Instituto
Hirschfeld. Foram queimados mais de 10.000 livros Hirschfeld foi
exilado na França, onde morreu.
Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas utilizaram o art. 175 para
condenar os homossexuais e entregá-los à Gestapo. Estima-se que
de 50 a 80 mil homossexuais foram enviados para os campos de
concentração. Os homossexuais recolhidos nos campos de
concentração eram identificados por um triângulo rosa preso no
ombro (vindo daí um símbolo do movimento guei).
Durante a 2a Guerra Mundial não houve movimentação.
Retomada
A retomada da luta
contra o preconceito aos homossexuais começou nos Estados
Unidos, com várias organizações. A principal foi a
"Associação Mattachine", que tinha uma atuação
moderada. Outras surgiram com propostas políticas diferentes
como "One Inc." e "As Filhas de Lilith",
exclusivamente lésbica. Na França, "Arcádia" na
Dinamarca, "Foubundet 48" na Holanda, o
"COC", que existe até hoje.
Em 1966 o movimento começou a ter uma nova postura, se
convencendo que deveria ir para as ruas. Entendeu que justificar
a homossexualidade como "normal" não era a melhor
estratégia. Houve um desfile de automóveis em Los Angeles,
contra a exclusão dos homossexuais nas forças armadas. Em 1969
havia 150 grupos nos EUA. Com o maio de 68 na França, um novo
momento de afirmação dos direitos da liberação sexual era a
tônica.
Nos EUA e Inglaterra foi fundada a Frente de Liberação Gay. Em
1968 Stonewall, bar de Nova Iorque frequentado por homossexuais,
sofria constantes ataques da polícia. Houve uma revolta
generalizada. Foi um marco para a luta dos homossexuais no mundo
todo. As palavras de ordem eram: "poder gay", "eu
gosto de rapazes", "assuma-se", e "vá para a
rua". Outro símbolo guei surge aí: o arco-íris, que
representa, com suas cores, a diversidade.
Em 1984, grupos gays e lésbicos americanos participaram da
convenção do Partido Democrata requerendo medidas reformistas,
como a possibilidade de serviços sociais para jovens gays e a
elaboração de uma lei federal de direitos civis para gays e
lésbicas.
O movimento se dividiu entre radicais e moderados, uns querendo
apenas lutar por direitos civis e outros contestavam a sociedade
como um todo. Nos dias de hoje não é diferente, uns lutando
para ser assimilados, querendo ser iguais oas héteros, e outros
contestando a sociedade. No Brasil, surgiu o grupo Somos de
afirmação homossexual em São Paulo, no ano de 1978. Também
nesta época veio o jornal Lampião de Esquina, no Rio de
Janeiro, que trouxe a discussão da homossexualidade de uma forma
maravilhosamente bichesca. Em 1980 surgiu o Grupo Gay da Bahia.
Hoje no Brasil tem mais de 50 grupos. O nuances surgiu em Porto
Alegre, em 1991.
O filme "O Einstein do Sexo" do diretor alemão Rosa
Von Praumheim aborda a história do sexólogo Magnus Hirschfeld,
e de quebra, a do movimento gay. Estreando em circuito comercial
em São Paulo, já rodou nos rolos do Mix Brasil de 99. Vamos
torcer, que vai valer a pena.

***
Em terra de morto, a desgraça é estar vivo.
***