ISMAEL
Um Romance da Condição Humana
Daniel Quinn
UM
1
A primeira vez que li o anúncio, engasguei, xinguei e atirei o jornal no chão. Como nem isso pareceu bastar, apanhei-o de novo, marchei até a cozinha e joguei-o no lixo. Já que estava lá, preparei uma pequena refeição matinal e deixei que o tempo me acalmasse. Comi e pensei em assuntos totalmente diversos. Isso aí. Depois tirei o jornal do lixo e o abri na seção de Classificados Pessoais, só para ver se o maldito continuava lá, do jeito que me lembrava dele. Continuava.
PROFESSOR procura aluno. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente.
Um desejo sincero de salvar o mundo! Gostei. Muito bonito. Um desejo sincero de salvar o mundo sim, era esplêndido. Antes do meio-dia, duzentos lunáticos, desmiolados, estúpidos, pirados, aloprados, perdidos e outros malucos e boçais sem dúvida estariam em fila no endereço indicado, dispostos a abrir mão de todos os seus bens terrenos pelo raro privilégio de sentar-se aos pés de algum guru iluminado, portador da novidade de que tudo se resolverá se virarmos para o lado e dermos um forte abraço em nosso vizinho.
Vocês devem estar se perguntando: por que esse homem está tão indignado, tão amargo? É uma pergunta justa. Na verdade, é a pergunta que eu fazia a mim mesmo.
A resposta remonta a uma época, há algumas décadas, em que eu enfiara na cabeça que tudo que mais queria no mundo era... encontrar um professor. Isso mesmo. Imaginava que queria um professor, que precisava de um profesor. Alguém que me mostrasse como fazer algo que se podia chamar de... salvar o mundo.
Idiota, não? Infantil, ingênio, simplório, imaturo... Ou simplesmente tolo. Sendo eu de uma normalidade tão patente em outros aspectos, são necessárias algumas explicações.
Aconteceu assim.
Durante a revolta juvenil dos anos 60 e 70, eu era velho o bastante para entender o que a garotada tinha em mente queriam virar o mundo de cabeça para baixo e jovem o bastante para acreditar que conseguiriam isso. É verdade. Todas as manhãs, ao abrir or olhos, esperava ver que a nova era começava, que o céu estava mais azul e a grama, mais verde. Esperava ouvir risos no ar e ver as pessoas dançando nas ruas. E não só a garotada: todo mundo! Não vou me desculpar por minha ingenuidade: basta ouvir as canções da época para saber que eu não era o único.
Daí, um dia, quando estava no meio da adolescência, acordei e compreendi que a nova era nunca começaria. A revolta não fora vencida simplesmente se reduzira a um modismo. Será que fui o único no mundo que ficou desiludido? Perplexo? Parecia que sim. Todos pareciam prontos a enterrar o caso com um sorriso cínico e dizer: "Bem, o que você esperava? Nunca passou e nunca passará disso. Ninguém está disposto a salvar o mundo porque ninguém dá a mínima para o mundo aquilo era apenas conversa de um bando de garotos malucos. Procurem um empregom juntem algum dinheiro, trabalhem até os sessenta anos, e então mudem-se para a Flórida e morram".
Eu não podia descartar a questão assim e, em minha inocência, achei que devia existir alguém no mundo com uma sabedoria oculta que dissipasse minha desilusão e perplexidade: um professor.
Mas é claro que não existia.
Eu não queria um guru, ou um mestre de kung-fu, ou um diretor espiritual. Não queria me tornar um mago, nem aprender a arte do arqueiro zen, nem meditar, nem harmonizar meus chacras, nem desvendar minhas antigas encarnações. Artes e disciplinhas desse tipo são fundamentalmente egoístas: todas têm a finalidade de beneficiar o discípulo, não o mundo. Eu buscava algo totalmente diferente, que não estava nas Páginas Amarelas nem em nenhum outro lugar.
Na Jornada para o Leste, de Hermann Hesse, nunca se descobre qual era a formidável sabedoria de Leo. Hesse não posia dos dizer o que ele próprio não sabia. Ele era como eu apenas desejava que houvesse alguém no mundo como Leo, alguém com um conhecimento secreto e uma sabedoria superior. Na verdade, é claro que não existe nenhum conhecimento secreto; ninguém conhece nada que não se encontre sobre uma prateleira da biblioteca pública. Mas eu não sabia disso então.
Sendo assim, procurei. Por mais idiota que pareça, procurei. Em comparação, buscar o Santo Graal teria sido mais sensato. Não falarei disso, é muito embaraçoso. Procurei até que recobrei a lucidez. Parei de dar uma de tolo, mas algo morreu dentro de mim algo de que sempre gostara, que admirara. No seu lugar, formou-se uma cicatriz: um ponto resistente, mas também doloroso.
E agora, anos após eu desistir da busca, eis que um charlatão punha um anúncio no jornal procurando exatamente o mesmo jovem sonhador que eu fora havia quinze anos.
Mas isso ainda não explica minha ira, não é?
Que tal esta analogia: você esteve apaixonado por alguém durante dez anos, por alguém que mal sabia da sua existência. Fez de tudo, tentou de tudo para que esse alguém entendesse que você era uma pessoa valiosa, estimável, digna de ser amada. Então, um dia você abre o jornal e seu olhar resvala pela coluna de Classificados Pessoais e dá com um anúncio desse alguém... buscando outro digno de ser amado e disposto a amar.
Sim, sei que não é exatamente igual. O professor desconhecido não tinha por que me procurar antes de anunciar que buscava um aluno. Por outro lado, se o professor fosse um charlatão, como eu supunha, por que eu desejaria que ele me procurasse?
Resolvi deixar pra lá. Estava sendo irracional. Acontece com as melhores famílias.
2
Mas é claro que eu tinha de ir lá. Precisava de certificar de que era apenar outro engodo. Entendem, não é? Trinta segundos bastariam, uma simples olhada, dez palavras que ele dissesse. Então eu saberia. Poderia voltar para casa e esquecer o assunto.
Ao chegar, fiquei surpreso por ver que se tratava de um prédio comercial daqueles bem comuns, cheio de assessores de imprensa ordinários, advogados, dentistas, agências de viagem, um quiroprático e um ou dois detetives paritculares. Esperava uma atmosfera um pouco mais misteriosa um prédio de tijolos com paredes revestidas de madeira, tetos altos e janelas vedadas, talvez. Procurei pela sala 105 e a encontrei aos fundos, onde a janela devia dar para o beco. A porta não informava nada, Empurrei-a e me vi numa sala grande e vazia. O espaço incomum fora criado derrubando-se as paredes interiores; ainda se viam as marcas no chão de madeira nua.
Tal foi minha primeira impressão: a de vazio. A segunda foi olfativa. O ambiente cheirava a circo ou melhor, aos animais de circo de modo inconfundível, mas não desagradável. Olhei em volta. A sala não estava totalmente vazia. Junto à parede esquerda havia uma pequena estante com trinta ou quarenta volumes, principalmente de história, pré-história e antropologia. Uma solitária cadeira estofada jazia no meio, virada para uma desolada parede branca à direita, parecendo esquecida lá pela firma de mudanças. Sem dúvida era reservada para o mestre, e os discípulos ficariam ajoelhados ou agachados sobre esteiras, formando um semicírculo a seus pés.
Mas onde estavam esses discípulos, que eu previra encontrar às centenas? Teriam vindo e depois sido conduzidos a algum lugar, tal como as crianças de Hamelin? A névoa uniforme de poeira que cobria o chão excluía essa fantasia.
Havia algo de incomum na sala, mas tive de olhar em volta mais uma vez para descobrir o que era. Na parede oposta à porta, duas altas janelas de batente permitiam a entrada de uma tênua luz vinda do beco. A parede da esquerda, geminada ao escritório vizinho, nada apresentava. A parede da direita era coberta por uma grande janela de vidro laminado, mas que seguramente não comunicava com o mundo exterior, pois por ali não passava luz nenhuma. Dava para uma outra sala, menos iluminada do que o aposento onde me encontrava. Tentei imaginar que objeto de devoção estaria exposto ali, a salvo do toque de mãos curiosas. Seria algum yeti ou pé-grande embalsamado, feito de pele de gato ou papel machê? Seria o corpo do tripulante de um óvni, abatido por um guarda nacional antes de transmitir sua mensagem estelar: "Somos todos irmãos. Sejam amáveis"?
Como a escuridão lhe servia de fundo, o vidro dessa janela era negro opaco, reflexivo. Não tentei ver além dele ao me aproximar: era eu o objeto de minha observação. Chegando perto, continuei a olhar o reflexo dos meus olhos por um momento. Depois, focalizando além do vidro, vi-me diante de outro par de olhos.
Recuei, sobressaltado. Então, compreendendo o que via, recuei outro passo, dessa vez com um pouco de medo.
A criatura do outro lado do vidro er aum gorila dos grandes. Dos grandes não diz nada, é claro. Ele era aterrorizantemente enorme, um rochedo, um bloco de Stonehenge. Só seu volume já era alarmante, apesar de não usá-lo de movo ameaçador. Ao contrário: estava placidamente recostado, mordiscando de leve um ramo delgado que segurava na mão esquerda como um cetro.
Eu não sabia o que dizer. Devem avaliar como esse fato me perturbou. Senti que devia falar, pedur desculpas, explicar minha presença, justificar a invasão, pedir o perdão da criatura. Senti que era uma afronta mirar seus olhos, mas estava paralisado, inerte. Não conseguia olhar para mais nada no mundo a não ser seu rosto. Era mais medonho do que todos os do reino animal por se assemelhar tanto ao nosso; porém, à sua maneira, era também mais nobre do que todos os ideais gregos de perfeição.
Nenhum obstáculo de fato nos separava. O painel de vidro se romperia como papel se ele o tocasse. Mas não parecia ter a menor intenção de fazê-lo. Continuou sentado, mirando meus olhos, mordiscando seu ramo e esperando. Não, não estava esperando. Estava simplesmente ali, estivera antes de minha chegada e estaria depois de minha partida. Eu tinha o pressentimento de que importava tanto para ele quanto uma nuvem passageira para um pastor que repousasse na encosta de uma colina.
O medo começou a diminuir, devolvendo-me a consciência de minha situação. Disse a mim mesmo que o professor obviamente não estava por ali, que não havia o que fazer, que o melhor era ir embora. Mas não queria partir com a sensação de que não realizara nada. Olhei em volta, pensando em deixar um bilhete, se encontrasse algo onde (e com que) escrever, mas não achei nada. Essa busca, movida pela idéia da comunicação escrita, trouxe à minha atenção algo que passara despercebido na sala atrás do vidro; era um cartaz ou pôster pendurado atrás do gorila, que dizia:
COM O FIM DA HUMANIDADE
HAVERÁ ESPERANÇA
PARA O GORILA?
O cartaz me fez parar ou melhor, o texto me fez parar. As palavras são minha profissão; apoderei0me daquelas e exigi que se explicassem, que deixassem de ser ambíguas. Implicariam que a esperança para os gorilas estava na extinção da raça humana ou em sua sobrevivência? Ambos os sentidos eram possíveis.
É claro, era um koan escrito para ser inexplicável. Desagradou-me por esse motivo, e também por outro: parecia que aquela magnífica criatura estava sendo mantida em cativeiro com o único intuito de servir como ilustração para aquele koan.
Você realmente precisa fazer algo a respeito, disse, zangado comigo. Depois acrescentei: Seria melhor que sentasse e ficasse tranqüilo.
Ouvi o eco dessa estranha advertência como o fragmento de uma música que não consegui identificar. Olhei para a cadeira e pensei: Seria melhor me sentar e ficar tranqüilo? Se fosse assim, por quê? A resposta não tardou: Porque, se ficar tranqüilo, será mais capaz de ouvir. Sim, pensei, isso é inegável.
Por nenhum motivo consciente, ergui os olhos e os dirigi para meu bestial companheiro da sala ao lado. Como todos sabem, os olhos falam. Um casal de estranhos pode, sem esforço, revelar seu mútuo interesse e atração por meio de um simples olhar. Os olhos dele falaram, e eu entendi. Minhas pernas viraram geléia e mal cinsegui chegar à cadera antes de desmoronar.
Que diferença faz? ele respondeu, também em silêncio. É assim, e nada mais precisa ser dito.
Mas você... explodi. Você é...
Percebi que, tendo chegado à palavra, e sem outra para pôr no lugar, não conseguia pornunciá-la.
Após um momento ele assentiu com um gesto de cabeça, como que reconhecendo minha dificuldade.
Sou o professor.
Por algum tempo, ficamos a nos olhar, e eu sentia a cabeça vazia como um celeiro abandonado.
Em seguida ele disse:
Precisa de tempo para se recompor?
Sim! exclamei, em voz alta pela primeira vez.
Virou a enorme cabeça de lado e me espiou curiosamente.
Ajudaria se ouvisse minha história?
Certamente que sim respondi. Mas antes, por gentileza, pode me dizer seu nome?
Encarou-me por algum tempo sem responder e (até onde eu percebia na época) sem expressão. Então prosseguiu, como se eu não tivesse dito nada.
Nasci em algum lugar nas florestas equatoriais da África Ocidental disse ele. Nunca tentei descobrir exatamente onde e não vejo motivo para tentar agora. Por acaso conhece os métodos de Frank e Osa Johnson?
Levantei os olhos, espantado.
Frank e Osa Johnson? Nunca ouvir falar.
Foram famosos colecionados de animais dos anos 30. O métido deles com os gorilas era assim: quando encontravam um bando, matavam as fêmeas e pegavam todos os filhotes à vista.
Que horror eu disse, sem pensar.
A criatura encolheu os ombros.
Não tenho nenhuma lembrança real do evento, apesar de lembrar de períodos anteriores. De qualquer modo, os Johnsons me venderam a um zoológico de alguma cidadezinha do Nordeste. Não sei qual, por ainda não tinha consciência de tais coisas. Lá cresci e vivi por muitos anos.
Fez uma pauxa e ficou algum tempo mordiscando distraidamente o ramo, como se reunisse seus pensamentos
3
Em tais lugares (prosseguiu ele enfim), por serem simplesmente trancafiados, os animais quase sempre são mais reflexivos do que seus primos nas florestas. Mesmo os mais obtusos não podem deixar de intuir que há algo de muito errado com aquele modo de existir. Quando digo que são mais reflexivos, não estou sugerindo que adquiriram o poder de raciociar. Mas o tigre que vemos perambulando nervosamente pela cela na verdade se dedica a algo que um humano reconheceria como um pensamento. E esse pensamento é uma pergunta: Por quê? "Por quê, por quê, por quê, por quê, por quê, por quê?", o tigre se pergunta hora após hora, dia após dia, ano após anos, ao repisar seu infindável trajeto atrás das barras da cela. Ele não pode analisar a pergunta nem ampliá-la. Se fosse possível perguntar à criatura: "Por que o quê?", ela não seria capaz de responder. No entando, a pergunta queima como chama inextinguível em sua mente, causando uma dor lacerante que só se aplaca quando a criatura entra numa letargia final, que os técnicos reconhecem como uma rejeição irreversível da vida. É claro, esse interrogar é algo que o tigre não faz em seu hábitat.
Não demorou para que eu também me pusesse a perguntar por quê. Sendo neurologicamente muito mais avançado que o tigre, era capaz de examinar o que a pergunta significava para mim, ao menos de modo rudimentar. Lembrava-me de um tipo diferente de vida, que era, para quem a vivera, interessante e agradável. Em comparação, a vida que eu levava era torturantemente monótona, e nunca agradável. Portanto, a pergunta era uma tentativa de desvendar por que a vida tinha que ser dividida assim: metate interessante e agradável, metade monótona e desagradável. Não tinha o conceito de cativeiro, não me ocorria que alguém estivesse me impedindo de ter uma vida interessante e agradável. Como minha pergunta permanecesse sem resposta, comecei a examinar as diferenças entre os dois estilos de vida. A diferença mais fundamental era que na África eu pertencera a uma família um tipo de família que a gente de sua cultura não conhece há milhares de anos. Se os gorilas fossem capazes de tal nível de expressão, diriam que a família é a mão e que eles são os dedos. Estão totalmente conscientes de ser uma família, mas muito pouco conscientes de ser indivíduos. No zoológico havia outros gorilas mas não havia família. Cinco dedos decepados não formam uma mão.
Examinei a questão de nossa alimentação. As crianças humanas sonham com uma terra em que as montanhas são feitas de sorvete, as árvores são feitas de pão-de-ló e as pedras são bombons. Para um gorila, a África é essa terra. Para onde quer quer se vire, há algo maravilhoso para comer. Nunca pensa: "Puxa, é melhor eu procurar comida". Há comida por toda parte e a apanhamos quase sem nos dar conta, como o ar que respiramos. Na verdade, não se pensa na alimentação como uma atividade distinta. Em vez disso, é como uma música deliciosa que forma o pano de fundo de todas as atividades que permeiam o dia. De fato, a alimentação se tornou alimentação para minha somente no zoológico, quando duas vezes ao dia grandes volumes de insossa forragem eram atirados em nossas jaulas.
Foi quebrando a cabeça com esses pequenos problemas que minha vida interior começou de modo quase imperceptível.
Embora eu naturalmente não soubesse, a Grande Depressão estava causando seus estragos em todos os aspectos da vida americana. Zoológicos por toda parte eram obrigados a economizar, reduzindo o número de animais e assim cortando despesas de todos os tipo. Muitos animais foram simplesmente abatidos, creio eu, pois não havia procura no setor privado pelos que não fossem fáceis de cuidar nem coloridos ou sensacionais. As exceções eram, é claro, os grandes felinos e os primates.
Para encurtar a história, fui vendido ao proprietário de um minizoológico ambulante com uma jaula vaga. Eu era um adolescente grande e impressionante e, sem dúvida, representava um seguro investimento a longo prazo.
Talvez você imagine que a vida numa jaula não seja diferente da vida em outra jaula, mas não é assim. Considere a questão do contato humano, por exemplo. No zoológico, todos os gorilas tinham consciência de nossos visitantes humanos. Eram uma curiosidade para nós, algo que valia a pena olhar, como pássaros ou esquilos ao redor de uma casa são de interesse para uma família humana. Era claro que aquelas estranhas criaturas estavam lá nos olhando, mas nunca nos ocorreu que viessem com um propósito definido. No minizôo, todavia, rapidamente obtive um verdadeiro entendimento desse fenômeno.
De fato, minha educação nesse ponto começou logo que me puseram em exposição. Um pequeno grupo se aproximou do meu vagão e, após um momento, começaram a falar comigo. Fiquei atônito. No zoológico, os visitantes falavam uns com os outros nunca conosco. "Quem sabe essa gente se confundiu", disse comigo. "Quem sabe pensam que sou um deles." Meu espanto e perplexidade cresceram quando, um após o outro, cada grupo que visitava meu vagão se comportava da mesma forma. Eu simplesmente não sabia o que achar daquilo.
Naquela noite, sem me dar conta do que fazia, tentei pela primeira vez comandar meus pensamentos para resolver um problema. Seria possível, perguntei-me, que minha mudança de loval tivese de alguma forma mudado a mim? Não me sentia em absoluto mudado, e certamente nada em meu aspecto parecia ter mudado. Talvez, pensei eu, a gente que me visitara naquele dia pertencesse a uma espécie diferente da gente que ia ao zoológico. Mas tal raciocínio não me convenceu: os dois grupos eram idênticos em todos os detalhes, com uma excessão: um grupo falava entre si, ao passo que o outro falava comigo. Até o som da conversa era o mesmo. Tinha de ser outra coisa.
Na noite seguinte, voltei a atacar o problema. Raciocinei da seguinte forma: se nada mudou em mim e nada mudou neles, então outra coisa deve ter mudado. Eu sou o mesmo e eles são os mesmos, logo alguma outra coisa não é a mesma. Analisando a quesrão dessa maneira, eu só via uma resposta: no zoológico houvera muitos gorilas, mas ali só havia um. Sentia o impacto disso, mas não conseguia imaginar por que os visitantes se comportariam de um modo da presença de muitos gorilas e de outro na presença de um só gorila.
No dia seguinte, tentei prestar mais atenção ao que meus visitantes diziam. Logo notei que, embora toda fala fosse diferente, havia um som que se repetia várias vezes, parecendo ter por finalidade chamar minha atenção. Claro que não podia aventurar um palpite quando ao significado; não tinha nada que servissse como pedra filosofal.
O vagão à minha direita era ocupado por uma chimpanzé com um bebê, e eu já notara que os visitantes falavam com ela assim como falavam comigo. Depois notei que os visitantes empregavam um som recorrente distinto para atrair sua atenção. No vagão dela, os visitantes chamavam: "Zsa-Zsa! Zsa-Zsa!". No meu vagão, eles chamavam: "Golias! Golias! Golias!".
Seguindo esses pequenos passos, logo compreendi que os sons, de algum modo misterioso, se ligavam diretamente a nós dois como indivíduos. Você, que tem um nome desde que nasceu e que provavelmente pensa que até um cachorro de estimação sabe que tem um nome (o que é falso), não pode imaginar a revolução perceptiva que representa a aquisição de um nome. Não seria exagero dizer que nasci de verdade naquele momento nasci como pessoa.
Da compreensão de que eu tinha um nome à compreensão de que tudo tinha m nome não foi grande salto. Você pode pensar que um animal enjaulado não tem muita oportunidade para aprender a linguagem de seus visitantes, mas não é assim. Minizôos ambulantes atraem famílias, e logo descobri que os pais incessantemente instruem seus filhos nas artes da linguagem: "Olha, Johnny, aquilo é um pato! Consegue dizer pato? P-a-a-t-o. Sabe como o pato fala? O pato fala assim, quac-quac".
Em poucos anos, eu era capaz de acompanhar a maioria das conversas ao alcance de meus ouvidos, mas descobri que a perplexidade caminha lado a lado com a compreensão. Sabia então que eu era um gorila e que Zsa-Zsa era uma chimpanzé. Também sabia que todos os habitantes dos vagões eram animais. Mas não conseguia perceber a constituição de um animal; nossos visitantes humanos claramente distinguiam entre si mesmos e os animais, mas eu era incapaz de imaginar por quê. Se eu entendia o que nos tornava animais (e achava que entendia), não conseguia entender o que não os tornava animais.
A natureza de nosso cativeiro já não era um mistério, pois a ouvira ser explicada para centenas de crianças. Todos os animais do minizôo ambulante tinha originalmente vivido em algum lugar chamado A Selva, que se estendia por todo o mundo (fosse lá o que "mundo" significasse). Havíamos sido levados da Selva e reunidos num lugar porque, devido a algum estranho motivo, as pessoas nos achavam interessantes. Mantinham-nos em jaulas porque éramos "selvagens" e "perigoros" termos que me confundiam porque, evidentemente, se referiam a qualidades que eu simbolizava. Quero dizer que, quando os pais queriam mostrar a ses filhos uma criatura particularmente selvagem e perigosa, apontavam para mim. É verdade que também apontavam para os grandes felinos, mas, como eu nunca vira um grande felino fora da jaula, aquilo não me iluminava.
Em geral, a vida no minizôo ambulante era um progresso em relação à vida no zoológico, por não ser tão opressiva e maçante. Não me ocorreu ficar ressentido com os guardas. Embora tivessem um âmbito de movimento maior, pareciam tão presos ao minizôo quando nós, e eu nem sequer suspeitava que vivessem uma existência totalmente diversa do lado de fora. Teria sido tão plausível que a lei de Boyle tivesse me ocorrido quanto a idéia de que fora injustamente privado de um direito nato, tal como o direito de viver como bem entendesse.
Devem ter se passado três ou quatro anos. Então, num dia chuvoso, quando o local estava deserto, recebi um visitante peculiar: um homem solitário, que me pareceu um ancião alquebrado, mas que, como soube mais tarde, tinha apenas quarenta e poucos anos. Até sua aproximação foi notável. Ficou parado na entrada do minizôo, olhou metodicamente um vagão de cada vez e depois dirigiu-se diretamente para o meu. Parou em frente à corda que se estendia a um metro e meio da jaula, plantou a ponta da bengala no chão diante de seus pés e mirou intensamente meus olhos. Por nunca ter ficado abalado com a atenção humana, placidamente retribuí seu olhar. Fiquei sentado e ele ficou em pé por vários minutos, ambos sem nos mexermos. Lembro-me de que senti uma admiração incomum por aquele homem, que suportava tão estoicamente o chuvisco que escorria pelo seu rosto e ensopava suas roupas.
Enfim ele se aprumou e acenou-me com a cabeça como se tivesse chegado a uma conclusão cuidadosamente estudada.
Você não é Golias disse ele.
Com isso, virou-se e voltou com passos firmes por onde viera, sem olhar para nenhum lado.
4
Fiquei estupefato, como você pode imaginar. Não sou Golias? O que queria dizer não ser Golias?
Não me ocorreu perguntar: "Bem, se não sou Golias, então quem sou eu?" Um humano faria essa pergunta, porque saberia que, não importava seu nome, seguramente era alguém. Eu não sabia. Ao contrário, parecia-me que, se não era Golias, então não deveria ser absolutamente ninguém.
Embora o estranho nunca houvesse posto os olhos em mim até aquele dia, não duvidei nem por um momento que ele falasse com autoridade inquestionável. Milhares de outros haviam me chamado pelo nome de Golias mesmo aqueles que, como os funcionários do zoológico, me conheciam bem , mas certamente aquela não era a questão, pois não esclarecia nada. O estranho não dissera: "Seu nome não é Golias". Ele dissera: "Você não é Golias". Fazia um mundo de diferença.
Senti-me como se (embora não pudesse expressá-lo dessa forma na época) minha necessidade de ter uma identidade tivesse sido um engano.
Deixei-me arrastar para um estado de letargia, nem consciente, nem inconsciente. Um funcionário trouxe a comida, mas a ignorei. Caiu a noite, mas não dormi. A chuva parou e o sol nasceu sem que eu notasse. Logo lá estavam os costumeiros grupos de visitantes, chamando: "Golias! Golias! Golias!", mas não prestei atenção.
Vários dias se passaram dessa maneira. Então, uma noite, depois que o minizôo havia fechado suas portas, bebi da minha vasilha e logo adormeci um poderoso sedativo fora adicionado à água. Ao amanhecer acordei numa jaula estranha. A princípio, por ser tão grande e ter formato tão estranho, nem a reconheci como uma jaula. De fato, era circular, vazada de todos os lados; como depois soube, um terraço circular fora adaptado para tal propósito. Exceto por uma casa branca perto dali, estava isolada no meio de um bonito parque que, segundo eu imaginava, devia se estender até os confins da Terra.
Não demorou para que eu concebesse uma explicação para essa estranha transferência. As pesoas visitavam o minizôo ambulante esperando, pelo menos em parte, ver um gorila chamado Golias; eu não imaginava de onde vinha essa expectativa, mas certamente deveriam tê-la. E, quando o proprietário do zoológio soube que de fato eu não era Golias, tornou-se impossível continuar exibindo-me como tal, e a única solução fora me dispensar. Não sabia se lamentava o fato ou não. Meu novo lar era muito mais agradável do que tudo que vira desde que deixara a África, mas sem o estímulo diário da multidão logo se tornaria até mais excruciantemente tedioso do que o zoológico, onde ao menos eu tivera a companhia de outros gorilas. Ainda ponderava essas questões quando, no meio na manhã, ergui os olhos e vi que não estava sozinho. Um homem se achava em pé logo depois das grades, uma silhueta negra que se recortava contra a distante casa banhada pelo sol. Aproximei-me com cautela e fiquei atônito ao reconhecê-lo.
Como que reencenando nosso encontro anterior, fitamos os olhos um do outro por vários minutos: eu, sentado no chão da jaula; ele, apoiado na bengala. Vi que, sexo e com roupas passadas, deixara de se ro velho por quem eu o tomara. Seu rosto era comprido, moreno e de ossos salientes, seus olhos ardiam com estranha intensidade e sua boca parecia fixa numa expressão de amargo bom humor. Por fim, fez um gesto afirmativo com a cabeça exatamente como antes e disse:
Sim, eu tinha razão. Você não é Golias. Você é Ismael.
Novamente, como se tudo que importasse tivesse sido finalmente acertado, ele se virou e foi embora.
E, novamente, fiquei estupefato mas desta vez com uma sensação de profundo alívio, pois eu fora salvo do vazio. Não só isso: o erro que me fizera viver como um impostor involuntário durante tantos anos foram enfim corrigido. Tornara-me uma pessoa por inteiro não de novo, mas pela primeira vez.
Consumia-me de curiosidade pelo meu salvador. Não pensei em associá-lo com minha transferência do zoológico para aquele encantador belvedere, pois ainda era incapaz da mais primitiva das falácias: post hoc, ergo propter hoc.* Ele me parecia um ser sobrenatural. Para uma mente preparada para a mitologia, ele era o princípio do que se chama de divino. Fizera duas breves aparições em minha vida e, nas duas vezes, com um simples enunciado, transformara-me. Tentei buscar o sentido subjacente a essas aparições, mas encontrei apenas perguntas. Aquele homem fora ao zoológico em busca de Golias ou de mim? Fora porque esperava que eu fosse Golias ou porque suspeitava que eu não fosse Golias? Como me encontrara tão prontamente em meu novo paradeiro? Eu não tinha medida do alcance da informação humana; se era de conhecimento comum que eu podia ser encontrado no zoológico (como parecia ser). Também seria de conhecimento público que agora eu podia ser encontrado lá? Apesar de todas as perguntas irrespondíveis, permanecia o fato esmagador de que aquela misteriosa criatura duas vezes me procurara para me tratar de um modo sem precedentes como uma pessoa. Eu tinha certeza de que, tendo finalmente resolvido a questão da minha identidade, ele desapareceria da minha vida para sempre: o que mais lhe restava fazer?
Sem dúvida você deve estar pensando que todas essas ansiosas conjeturas não passavam de fantasias. No entando, a verdade (como depois soube) não era menos fantástica.
Meu benfeitor era um rico comerciante judeu desta cidade, chamado Walter Sokolow. No dia em que me descobriu no minizôo, estivera caminhando sob a chuva tomado de uma depressão suicida que se abatera sobre ele quando soube, sem sombra de dúvida, que toda a sua família fora dizimada no holocausto nazista. Perambulou até chegar a um parque de diversões montado nos limites da cidade e entrou sem nada especial em mente. Devido à chuva, quase todas as tentas e brinquedos estavam fechados, dando ao lugar um ar de abandono que combinava com sua melancolia. Enfim chegou às jaulas dos animais, onde uma série de gravuras apelativas anunciava as principais atrações. Uma delas, mais apelativa do que as outras, retratava o gorila Golias brandindo o corpo ferido de um nativo africano como se este fosse uma arma. Walter Sokolow, talvez achando que um gorila chamado Golias fosse o símbolo adequado para o gigante nazista que então se dedicava a esmagar a raça de Davi, decidiu que teria prazer em contemplar tal monstro atrás das grades.
Entrou, aproximou-se de meu vagão mas, ao fitar meus olhos, logo percebeu que eu não tinha nenhuma relação com o monstro sedento de sangue que a gravura mostrava e, na verdade, nem como filisteu que torturava a sua raça. Percebeu que não sentia prazer nenhum ao me ver atrás das grades. Ao contrário, num gesto quixotesxo de culpa e desafio, decidiu resgatar-me de minha jaula e fazer de mim o pavoroso substituto da família que deixara de resgatar da jaula que se tornara a Europa. O dono do minizôo concordou com a venda; ficou até contente em deixar que o sr. Sokolow contratasse o encarregado que cuidara de mim desde a minha chegada. Era um homem realista: com a inevitável entrada da América na guerra, espetáculos itinerantes como o seu passariam a temporada hibernando ou simplesmente desapareceriam.
O sr. Sokolow esperou um dia para que eu me acostumasse ao novo ambiente e depois voltou para travar relações comigo. Pediu ao encarregado que lhe mostrasse como tudo era feito, do preparo da minha aliemntação à limpeza da jaula. Perguntou se ele me achava perigoso. O encarregado disse que eu era como uma peça de maquinaria pesada perigoso não por meu temperamento, mas apenas por meu tamanho e força.
Depois de uma hora, o sr. Sokolow mandou-o embora e encaramo-nos em longo silêncio, como nas duas vezes anteriores. Finalmente com relutância, como que vencendo uma temível barreira anterior , ele começou a falar comigo, não da maneira jocosa dos visitantes do minizôo, mas como alguém que se dirige ao vento ou às ondas que arrebentam na praia, proferindo o que deve ser dito, mas não ouvido por ninguém. Aos poucos, enquando desafogava suas dores e auto-recriminações, foi se esquecendo da necessidade de cautela. Passada uma hora, estava apoiado na jaula, segurando uma grade. Olhava para o chão, perdido em pensamentos, e aproveitei a oportunidade para expressar minha simpatia, inclinando-me e acariciando gentilmente as costas de sua mão. Ele saltou para trás, tomado de susto e horror; poré, ao indagar meus olhos, tranqüilizou-se de que meu gesto fora tão inocente quando parecera.
Alertado por essa experiência, começou a suspeitar de que eu possuía inteligência real, e alguns testes simples bastaram para convencê-lo. Tendo provado que eu entendia suas palavras, ele se apressou a concluir (como outros que mais tarde trabalharam com primatas) que eu deveria ser capaz de produzir algumas. Resumindo, decidiu ensinar-me a falar. Deixarei de lado os meses dolorosos e humilhates que se seguiram. Nenhum de nós entendia que a dificuldade era invencível, pois eu não tinha o aparelho fônico básico. Sem essa compreensão, prosseguimos o trabalho imaginando que um belo dia a aptidão se manifestaria em mim como num passe de mágica. Mas enfim chegou o momento em que eu não podia mais continuar e, na angústia de não ser capaz de lhe dizer isso, pensei com todo o poder mental que possuía. Ficou assombrado como eu, quando percebi que ele ouvira meu grito mental.
Não descrevei todos os passos de nosso progresso depois que atingimos a comunicação plena, já que não é difícil imaginá-los. Ao longo da década seguinte, ele me ensinou tudo o que sabia sobre o mundo, o universo e a história humana. Quando minhas perguntas ultrapassaram seu conhecimento, passamos a estudar juntos. E, quando meus estudos me levaram alé dos seus interesses, ele teve prazer em se tornar meu assistente de pesquisa, buscando livros e informações em lugares que, é claro, não me eram acessíveis.
Cuidar de minha educação proporcionou um novo e absorvente interesse ao meu benfeitor, que aos poucos deixou de se atormentar pelo remorso e recuperou-se de sua depressão. No início dos anos 60, eu era um hóspede que já não necessitava de muita atenção de seu anfitrião. O sr. Sokolow se permitiu reaparecer nos círculos sociais, e o resultado previsível foi que logo se viu nas mãos de uma mulher de quatenta anos que achou que podia transformá-lo num marido satisfatório. De fato, ele não era nem um pouco avesso ao casamento, mas por este cometeu um erro terrível: decidiu esconder de sua esposa nosso relacionamento especial. Não era uma decisão extraordinária naquele tempo, e eu não tinha muita experiência nessas questões para reconhecer que foi um erro.
Mudei-me de novo para o belvedere, logo que foi reformado de modo a comportar os hábitos civilizados que eu adquirira. Desde o início, todavia, a sra. Sokolow me achou um estranho e assustador bicho de estimação e começou uma campanha pela minha venda rápida ou transferência. Por sorte, meu benfeitor estava acostumado a fazer as coisas a seu modo, e deixou claro que não haveria súplica ou coerção que mudasse a situação por ele criada para mim.
Poucos meses após o casamento, ele foi a minha jaula me contar que sua esposa, tal qual a Sara de Abraão, em breve o presentearia com uma criança, fruto de sua maturidade.
Não previa nada semelhante quando o chamei de Ismael disse ele. Mas descanse, que não permitirei que ela o expulse de minha casa, como Sara expulsou seu homônimo da casa de Abraão.
Contudo, divertia-o dizer que, se nascesse um menino, seu nome seria Isaac. Mas acabou sendo uma menina e eles a chamaram de Raquel.
5
Nesse ponto, Ismael fechou os olhos e fez uma pausa tão longa que comecei a imaginar se não teria dormido. Mas enfim continuou.
Sabiamente ou não, meu benfeitor decidiu que eu seria o mentor da menina, e eu (sabiamente ou não) fiquei encantado com a chande agradá-lo dessa forma. Nos braços de seu pai, Raquela passava quase tanto tempo comigo quando com a mãe o que, naturalmente, não ajudou a melhorar meu conceito perante essa pessoa. Por ser capaz de me comunicar com a menina numa linguagem mais direta que a fala, conseguia acalmá-la e diverti-la quando os outros falhavam nisso, e um vínculo foi crescendo entre nós, comparável ao que existe entre gêmeos idênticos exceto por eu ser seu irmão, bicho de estimação, professor e babá, tudo ao mesmo tempo.
"A sra Solokow mal esperava pelo dia em que a Raquela começasse a ir à escola, pois seus novos interesses a afastariam de mim. Quando isso não ocorreu, ela renovou sua campanha pela minha remoção, temendo que minha presença interrompesse o crescimento social da menina. Seu crescimento social permaneceu ininterrupto, todavua, embora tenha pulado nada menos que três série no ginásio e um grau no colegial; obteve seu título de mestre em biologia antes de completar vinte anos. Mas, depois de tantos anos sendo frustrada numa questão que dizia respeito à administração de sua própria casa, a sra. Sokolow não precisou mais de nenhum motivo determinado para me desejar longe dali.
"Depois da morte do meu benfeitor, em 1985, a própria Raquel se tornou minha protetora. Permanecer no belvedere estava fora de questão. Usando fundos deixados para esse propósito no testamento do pai, Raquel transferiu-me para um retiro que fora preparado com antecedência."
Mais uma vez Isamel caiu em silêncio por vários minutos. Então continuou.
Nos anos que se seguiram, nada saiu conforme os planos ou as esperanças. Vi que não estava contente em me "retirar"; tendo passado a vida em retiro, eu desejava de algum modo avançar para o centro mesmo da cultura de minha nova protetora, e passei a esgotar sua paciência tentando um acordo fraternal depois do outro. Ao mesmo tempo, a sra. Sokolow não se contentava em deixar as coisas como estavam e convenceu um tribunal a cortar pela metade os fundos que haviam sido reservados para meu sustento vitalício.
"Somente em 1989 as coisas se esclareceram. Naquele ano, eu finalmente compreendi que minha vocação não realizada era ensinar e finalmente concebi um sistema que me permitiria existir em circunstâncias toleráveis nesta cidade."
Fez um gesto com a cabeça indicando que era o fim de sua história ou era até onde estava disposto a contar.
6
Há momento em que ter demais a dizer é tão emudecedor como ter de menos. Não me ocorria como responder de movo adequado ou polido a tal narrativa. Afinal fiz uma pergunta que parecia não ser nem mais nem menos vazia do que as outras dezenas que me ocorreram.
E tem tido muitos alunos?
Tive quatro, e fracassei com os quatro.
Por que fracassou?
Ele fechou os olhos e pensou um pouco.
Fracassei porque subestimei a dificuldade do que tentava ensinar e porque não entendia a mente dos alunos o suficiente.
Entendo disse eu. E o que você ensina?
Ismael selecionou um ramo novo da pilha à sua direita, examinou-o brevemente e começou a mordiscá-lo, olhando-me com languidar. Enfiz respondeu:
Baseando-se em minha história, que assunto diria que estou mais preparado para ensinar?
Olhei-o sem entender e respondi que não sabia.
Claro que sabe. Meu assunto é cativeiro.
Cativeiro?
Correto.
Fiquei quieto por um minuto, depois disse:
Estou tentando imaginar o que isso tem a ver com salvar o mundo.
Ismael pensou um pouco.
Dentre as pessoas de sua cultura, quais desejam destruir o mundo?
Quais desejam destruir o mundo? Até onde eu saiba, ninguém especificamente deseja destruir o mundo.
E no entanto o destroem, todos vocês. Cada um contribui diariamente para a destruição do mundo.
Sim, é verdade.
Por que não param?
Encolhi os ombros.
Francamente, não sabemos como.
São cativos de um sistema civilizacional que mais os menos os compele a prosseguir destruindo o mundo para continuarem vivendo.
Sim, é o que parece.
Portanto são cativos e tornaram o próprio mundo um cativeiro. É o que está em jogo, não é? O cativeiro de vocês e o cativeiro do mundo.
Sim, é verdade. Mas nunca pensei dessa maneira.
Você mesmo é um cativo a seu modo, não é?
Como assim?
Ismael sorriu, revelando uma grande massa de dentes brancos como o mármore. Até então eu não sabia que era capaz de sorrir.
Tenho a impressão de ser um cativo, mas não sei explicar por que tenho tal impressão disse eu.
Anos atrás (você devia ser criança na época, talvez não se lembre), muitos jovens deste país tiveram a mesma impressão. Fizeram um esforço ingênuo e desorganizado de escapar do cativeiro, mas acabaram fracassando, porque não foram capazes de encontrar as grades da jaula. Se você não descobre o que o está prendendo, a vontade de sair logo se torna confusa e ineficaz.
Sim, é essa a sensação que me causou disse eu, e Ismael assentiu. Mas, outra vez, como isso está relacionado com salvar o mundo?
O mundo não sobreviverá por muito tempo no cativeiro da humanidade. Isso precisa de explicação?
Não. Pelo menos, não para mim.
Acho que existem muitos entre vocês que gostariam de libertar o mundo do cativeiro.
Concordo.
O que os impede de fazê-lo?
Não sei.
Eis o que os impede: são incapazes de achar as grades da jaula.
Sim, entend disse eu. E o que faremos agora?
Ismael sorriu outra vez.
Já que lhe contei uma história que explica como vim parar aqui, talvez você possa fazer o mesmo.
O que quer dizer?
Quero dizer que talvez você possa me contar uma história que explique como você veio parar aqui.
Ah disse eu. Dê-me um momento.
Quantos quiser ele replicou gravemente.
7
Uma vez, quando estava na faculdade disse eu finalmente , escrevi um trabalho para um curso de filosofia. Não lembro bem qual era o tema, mas estava relacionado com epistemologia. A idéia do trabalho, grosso modo, era a seguinte: os nazistas não perderam a guerra. Eles a ganharam e se expandiram. Tomaram conta do mundo e eliminaram todos os judeus, os ciganos, os negros e os índios orientais e americanos. Depois dessa etapa, eles acabaram com os russos, os poloneses, os boêmios, os morávios, os búlgaros, os sérvios e os croatas todos os eslavos. Depois passaram para os polinésios, coreanos, chineses e japoneses todos os povos da Ásia. Isso levou muito, muito tempo, mas, quando terminaram, todos no mundo eram cem por centro arianos e todos eram muito, muito felizes.
"Naturalmente, os livros usados nas escolas não mais mencionavam nenhuma raça exceto a ariana, nenhuma língua exceto a alemã, nenhuma religião exceto o hitlerismo, nenhum sistema político exceto o nacional-socialismo. Não havia necessidade. Após algumas gerações assim, ninguém poderia ter escrito nada de diferente nos livros mesmo que quisesse, porque ninguém mais sabia algo diferente.
"Mas um dia dois jovens estudantes conversavam na Universidade de Nova Heidelberg, em Tóquio. Ambos eram bonitos no modo habitual dos arianos, mas um deles parecia vagamente preocupado e infeliz. Era o Kurt. Seu amigo perguntou:
"O que há, Kurt? Por que está sempre com a cara fechada?
"Kurt respondeu:
"Vou lhe dizer, Hans. Algo me preocupa profundamente.
"O amigo perguntou o quê.
"É o seguinte respondeu Kurt. Não consigo me livrar dessa sensação maluca de que estão contando alguma mentira para nós.
"E assim terminou o trabalho."
Ismael assentiu pensativamente.
E o que o seu professor achou?
Ele quis saber se eu tinha a mesma sensação maluca de Jurt. Quando disse que tinha, ele quis saber que mentira eu achava que estavam contando para nós. Eu disse: "Como posso saber? Minha situação não é melhor que a de Kurt". É claro, ele não achou que eu falasse sério. Pensou que fosse apenas um exercício de epistemologia.
E ainda imagina que estão lhe contando uma mentira?
Sim, mas não con tanta insistência.
Não? E por quê?
Porque descobri que, na prática, não faz diferença nenhuma. Se contam uma mentira para nós ou não, ainda temos de acordar e ir para o trabalho e pagar as contas e todo o resto.
A não ser, é claro, que todos comecem a desconfiar de que lhes contaram uma mentira e todos descubram que mentira é essa.
Como assim?
Se só você descobrisse qual é a mentira, então provavelmente teria razão: não faria grande diferença. Mas, se todos descobrissem qual é a mentira, podemos presumir que faria uma grande diferença.
É verdade.
Então é essa a esperança que devemos ter.
Já ia lhe perguntar o que queria dizer com aquilo, mas ele levantou sua coriácea mão negra e disse-me: "Amanhã".
8
Naquela noite, saí para um passeio. Andar só por andar é algo que raramente faço. Mas senti uma ansiedade inexplicável dentro do meu apartamento. Precisava falar com alguém, tranqüilizar-me. Ou talvez precisasse confessar meu pecado: mais uma vez estava tendo pensamentos impuros sobre a salvação do mundo. Ou não era nenhum desses motivos tinha medo de estar sonhando. De fato, considerando os acontecimentos do dia, era plausível que eu estivesse sonhando.
Às vezes vôo alto em meus sonhos e digo a minha mesmo: "Finalmente está acontecendo de verdade, não é só um sonho".
Seja como for, eu precisava falar com alguém e estava sozinho. É minha condição habitual por opção ou pelo menos é o que digo a mim mesmo. Meras camaradagens me deixam insatisfeitos, e pouca gente está disposta a aceitar o peso e o risco da amizade como a concebo.
As pessoas me acham um misantropo mal-humorado e respondo que devem ter razão. Discussões de qualquer tipo, sobre qualquer assunto, sempre me pareceram uma perda de tempo.
Na manhã seguinte, acordei e pensei: "No entando, pode ter sido um sonho. Pode-ser dormir num sonho e ter sonhos dentro de um sonho". Enquanto mecanicamente preparava o café da manhã, comia e lavava a louça, meu coração batia furiosamente. Parecia dizer: "Como pode fingir que não está apavorado?"
O tempo passava. Fui de carro ao centro. O prédio continuava lá. A sala no fim do corredor do térreo continuava lá, destrancada.
Quando abri a porta, o odor forte e animal de Ismael atingiu-me em cheio. Com as pernas bambas, andei até a cadeira e me sentei.
Ele me examinou gravemente por trás do vidro escuro, como que imaginando se eu era forte o bastante para suportar conversas sérias. Quando se decidiu, começou sem preâmbulo algum, e depois descobri que esse era seu estilo habitual.
*post hot, ergo propter hoc : "Depois disto, logo por causa disto". Fórmula da antiga escolástica, com a qual se desmascarava o erro de quem atribuía a causa de um efeito a um fato que não tinha com ele outra relação a não ser a precedência no tempo. (N. do E.)