"Os video-games, as telenovelas, o álcool do fim de semana, as luzes de néon, a carreira promissora já não podem mais nos ocultar a miséria que se espalha do amanhecer ao anoitecer; já não podem mais nos sedar. Inútil nos oferecerem o papel principal no espetáculo; sabemos que é uma jaula que serve de palco para a encenação."



Criando um Espaço Libertário em Florianópolis


Ao mesmo tempo que percebemos em Florianópolis, principalmente nos últimos anos, um crescimento do número de indivíduos apartidários e que de alguma forma compartilham uma visão e o desejo por formas de sociabilidade libertárias, que compartilham inquietações decorrentes da sociedade capitalista e autoritária em que vivemos, e que compartilham a vontade e a necessidade de agir e de ser de modo a transformar a realidade ao seu redor e consequentemente a sua própria realidade, percebemos também que esses indivíduos têm estado em grande medida desarticulados e isolados.

A ausência de um espaço ou processo aglutinador tem sido sentido por alguns ou vários desses indivíduos como o grande – ou pelo menos o primeiro – obstáculo a ser superado para a realização desse potencial "cultural libertário" que existe hoje em Florianópolis. Um espaço que possibilite a articulação das pessoas que compartilham esses desejos e inquietações; que dinamize idéias, pensamentos, a criatividade e a troca de experiência; e que estimule assim o desenvolvimento de questionamentos e de projetos coletivos que visem uma intervenção na vida cotidiana e na sociedade como um todo e que expressem a subjetividade, o desejo e a vontade de mudança desses indivíduos.

Mas não há como manter indeterminadamente o isolamento. Nossas órbitas se cruzam, e no momento em que a potencialidade atinge um certo grau, basta um acaso ou uma contingência para que o isolamento seja vencido e as coisas, ou melhor, as pessoas aconteçam. O momento chegou.

Quem somos? Somos alguns ou vários desses indivíduos que deram um passo para romper esse isolamento, descontinuidade e fortuidade de contatos. Somos indivíduos autônomos (isto é, não somos correia de transmissão de nenhum, partido, religião ou organização) que se identificam com princípios e ideais libertários, ou seja, não-hierárquicos, anti-autoritários e igualitaristas. Nos identificamos uns com os outros muito mais por esses princípios e ideais do que por rótulos políticos ou culturais. Rompemos nosso isolamento chamando reuniões para discutirmos uma forma de conseguir um espaço que possibilitasse de uma vez por todas que os indivíduos que compartilham esses princípios e ideais saiam da desarticulação e do isolamento, e ao mesmo tempo fosse difusor de toda e qualquer forma de cultura afim com esses ideais libertários.

O que pretendemos? Queremos criar um espaço libertário onde diferentes pessoas ou coletivos, com uma pluralidade de inquietações possam desenvolver suas idéias ou atividades, com respeito mútuo e horizontalidade; e buscar o desenvolvimento das relações humanas, com o fim de aperfeiçoá-las sem deixar de lado a autocrítica e os princípios fundamentais da igualdade, liberdade, solidariedade e fraternidade. Um espaço que definitivamente sirva ao enriquecimento dos indivíduos através do conhecimento que não se adquire nas instituições do Estado, mas sim através de espaços horizontais aonde exista verdadeiramente um ambiente sem hierarquias de saber ou competência, sem personalismos, ou frases e termos despojados de seu conteúdo. Definitivamente, um espaço de crescimento e apoio mútuo.

A princípio, as pessoas envolvidas até agora nessa idéia irão concretizar esse espaço através de uma casa alugada, por parecer a alternativa mais viável.

Temos em mente, além da utilização do espaço para reuniões, que ele seja um local para realização de oficinas, palestras, grupos de discussão, apresentações musicais, exposições, bibliotecas e tudo mais que a criatividade coletiva potencializada possa imaginar e realizar.

Como sustentar financeiramente o espaço? Em primeiro lugar, seja qual for o espaço, grande ou pequeno, ele deve manter sua autonomia econômica, a qual dependerá dos indivíduos envolvidos neste projeto. A autogestão só poderá se realizar com autonomia, partindo desde o indivíduo.

A solução que até agora nos parece a melhor para sustentar economicamente o espaço, é criar um fundo a partir de contribuições mensais feitas pelas pessoas envolvidas com o espaço e pessoas interessadas na sua manutenção. A experiência em outros países da América Latina e até mesmo a experiência do espaço Quilombo Cecília em Salvador mostram que esta é uma forma viável de financiamento. Além dessa contribuição mensal, a venda de materiais diversos (livros, artesanatos, música etc.) e a realização de oficinas e eventos com "bilheteria" contribuiriam também para as despesas na manutenção do espaço. Sendo que aqueles que pagam a contribuição mensal poderiam freqüentar todos os eventos gratuitamente, assim como aqueles que tenham uma participação ativa na manutenção e construção do espaço.

Chamamos todos os indivíduos que de uma forma ou de outra se identifiquem com esses desejos, princípios e ideais a participarem da construção, contribuírem e gozarem desse espaço. Um espaço que será de todos que queiram participar, um espaço autogestionário, sem hierarquia, donos, ou fins lucrativos. Um Ateneu? Um Centro Cultural? Um Centro Social? Talvez um pouco de cada ou talvez nada disso. As dinâmicas e os participantes irão dar os seus contornos.

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