A Questão Econômica

Eric Vilain

 

Introdução

 

Engels declarou em 1890 que Marx e ele próprio tinham sido obrigados a insistir na gestão da análise econômica porque naquele tempo era uma nova ótica e que era necessário ressaltar este "princípio essencial".

"Marx e eu próprio, parcialmente, devemos assumir a responsabilidade pelo fato de, às vezes, os jovens darem maior peso do que se deve dar ao lado econômico. Diante de nossos adversários, foi-nos necessário ressaltar o princípio essencial por eles negado e então nós nem sempre achávamos o tempo, o lugar e a ocasião para dar seus lugares aos outros fatores que participavam da acão." (Engels, Cara a Joseph Bloch, 21-09-1890)

Trata-se menos de demonstrar que, a priori, todas as proposições do marxismo são falsas do que tentar determinar em que o método de análise marxista constitui, ainda que parcialmente, um instrumento utilizável para os militantes revolucionários.

Tentativas foram feitas, no passado, para efetuar uma "síntese" entre marxismo e anarquismo. Estas tentativas estavam destinadas ao fracasso.

Trata-se aqui, sobretudo, de desmistificar o marxismo como "doutrina científica" aos olhos dos libertários e demonstrar que nem tudo deve ser rejeitado simplesmente porque o que faz oposição irredutível entre marxismo e anarquismo (proibindo qualquer síntese) é perfeitamente delimitado e observável e que, para todo o resto, há muitas proposições que são perfeitamente assimiláveis pelo anarquismo, seja simplesmente porque elas já estava presentes no pensamento de nosso movimento antes de Marx exprimí-los ou reformulá-los, seja porque consistem uma conquista do pensamento universal, da mesma maneira que a lei da relatividade ou a teoria dos quantas (que não foram formuladas por anarquistas como todos sabem).

É próprio de um pensamento vivo poder se integrar ou rejeitar - de modo razoável - novas idéias. O pensamento morto rejeita toda idéia que não surja de autores patenteados, e acava por girar em círculo.

Nas filigranas do presente estudo encontrar-se-á pois, a seguinte interrogação: aqueles que recusam o marxismo pelas más razões aceitam o anarquismo pelas boas?

 

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  2. MAS O QUE É MATERIALISMO DIALÉTICO?

 

No Anti-Dühring Engels diz em substância:

 

1o O Materialismo

O conceito de matéria no século XVIII está ligado ao de "sensação". A matéria é a causa da sensação. Na sensação o homem é passivo, ele recebe as impressões do mundo exterior. Segundo Marx, o materialismo do passado concebe a realidade sob a forma de um objeto ou de uma intuição, não como uma atividade sensitiva humana. Em Teses Sobre Feuerbach, Marx declara que o grau mais elevado atingido pelo materialismo intuitivo, que não concebe a sensibilidade como atividade prática, é a intuição dos indivíduos singulares na sociedade burguesa.

Para Marx, a matéria deve ser pensada como um mecanismo, uma matéria-prima que dá a ocasião de agir.

Os antigos gregos pensavam que o conhecimento era o resultado de uma contemplação passiva. Marx sustenta que nós somos sempre ativos. Alteramos constantemente o que percebemos. Um objeto não é reconhecido pela recepção de uma impressão passiva. Só podemos conhecê-lo se agirmos sobre ele. Assim, a substância de toda verdade é prática. Visto que alteramos o objeto agindo sobre ele, a verdade cessa de ser estática e torna-se qualquer coisa que muda e que se desenvolve continuamente(1).

Engels tinha uma concepção muito mais "redutiva" sobre a natureza da matéria e sobre o caráter pragmático da verdade que o aproxima do materialismo ortodoxo. Em uma introdução de 1892 de Socialisme Utopique, Socialisme Scientifique, a parte reservada à ação está reduzida ao papel convencional de controle científico: "Demonstra-se o pudim comendo-o". Nesta introdução de 1892 não há sinal da doutrina segundo a qual os objetos sensíveis sejam em grande parte o produto de nossa atividade. Mas não há nenhuma indicação que Engels tenha consciência de estar em desacordo com Marx.

Aplicado à economia, à história e às ciências sociais em geral, o materialismo implica que, na base de todas as ações humanas, se encontrem causalidades que têm suas raízes nos fatos reais - materiais - da sociedade, no caso presente, principalmente nos fatos econômicos, e não nas idéias, nas convicções ou até mesmo na vontade dos homens: "Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência" (A Ideologia Alemã).

A partir de tal concepção chega-se rapidamente à idéia do determinismo na história, idéia segundo a qual as ações dos grupos sociais estão inscritas em uma ordem fixada de antemão por leis, as quais não é possível evitar. Marx afagará esta idéia durante um certo tempo, como Proudhon, mas não a manterá.

Na realidade, o materialismo não implica determinismo. É verdade que em O Capital o sujeito social está um pouco dissolvido para fazer aparecer este sujeito anônimo e impessoal que é o capital. Mas em suas obras históricas, onde emprega um outro mérito de abordagem - justamente o método dialético - Marx mostrará que as razões que fazem agir a classe social em certos períodos não derivam necessariamente das relações econômicas e do papel que elas assumem nas relações de produção.

É Bukharin que, mais tarde, em 1921, "interpretará" Marx ao afirmar que existe uma relação de determinação necessária entre o nível de desenvolvimento das forças produtivas e o nível da luta de classes (Teoria do materialismo histórico). Se o que Bukharin diz fosse verdade, levando-se em conta o nível de desenvolvimento das forças produtivas na Rússia, seria preciso concluir que o proletariado russo em 1917 não se revoltou ou que não ocorreu uma revolução proletária...

Realmente, Marx evita reduzir a totalidade social às suas contradições econômicas (2). Pensamos, como Pierre Ansart, que o "reconhecimento da pluralidade das determinações nào é, em Marx, uma concessão à complexidade de experiência, mas sim, seu método explícito em suas análises empíricas" (Marx et l'Anarchisme).

2o A dialética na história

Para Marx, a realidade última é a matéria. Ele pensa que o mundo se desenvolve de acordo com uma lei lógica, o que o leva a pensar que o resultado de um conflito social, de uma mutação, só possa ser a instauração de um sistema mais evoluido. É nisso que seu materialismo é dialético, porque compreende os fenômenos sociais não de um ponto de vista estático, mas em sua evolução, em seu movimento contraditório.

As contradições da sociedade, resolvendo-se por uma sucessão de sinteses que constituem progressos históricos em relação às situações anteriores, e o proletariado sendo a última classe social da história cuja emancipação corresponderá à emancipação de toda a humanidade, resulta em que chegará um momento onde não haverá mais antagonismos, evolução, síntese, história.

É somente em uma nova ordem das coisas, onde não haverá mais classes, inexistindo conseqüentemente antagonismos de classes, que as evoluções sociais cessarão de ser revoluções políticas. Até lá, às vésperas de cada remanejamento geral da sociedade, a última palavra da ciência social será sempre: "o combate ou a morte; a luta sanguinária ou o nada. É assim que a questão é invencivelmente apresentada" (George Sand, citado por Marx em Miséria da Filosofia).

Proudhon, na mesma ordem de idéias, dizia que existiam "contradições antagônicas", irredutíveis, no seio do capitalismo, e contradições "não antagônicas" no socialismo, mas que sempre haveria contradições sem o que não haveria mais sociedade (3).

O pensamento de Marx e de Engels estava marcado pelo optimismo filosófico do séxulo XIX. Mas não é somente um problema teórico. Os comunistas sempre afirmam que os conflitos entre comunismo e capitalismo, apesar das vitórias parciais do segundo, devem necessariamente levar à instauração do comunismo. Mas por falta de uma visão verdadeiramente científica da história, eles não vêem que podemos também chegar a uma regressão histórica.

A noção de síntese que resulta em um progresso histórico por várias vezes foi negada pela história. Para citar apenas o exemplo de Roma, a decadência do império e as invasões bárbaras que a acompanharam não resultaram em um modo de produção mais evoluído.

Pode-se, entretanto, encontrar no próprio Marx, senão uma refutação, pelo menos elementos de refutação às interpretações, cristalizadas de suas idéias. Com efeito, se no prefácio de Introdução à Crítica da Economia Política ele diz:

"Nunca uma sociedade expira antes do desenvolvimento de todas as forças produtivas que ela é capaz de conter", e acrescenta em seguida: "... Nunca relações superiores de produção posicionam-se antes que as condições materiais de sua existência tenham surgido no próprio seio da velha sociedade."

Significa claramente que relações de produção superiores não aparecem sistematicamente em conseqüência do declínio de uma sociedade moribunda. Marx simplesmente não teve ocasião ou necessidade de tratar do problema das sociedades declinantes sem "posteridade". Entretanto, se é inexato imputar a Marx uma estreiteza de visão que não é sua, é preciso reconhecer que para justificar as nuanças que se pode emitir concernindo as interpretações dominantes do marxismo, é preciso "solicitar" os textos. Desmentido pelo passado, o "otimismo histórico" de Marx no que se refere às evoluções futuras da história, é o da burguesia européia de seu tempo, no momento em que se abria então o mercado mundial. Este "otimismo histórico", que explode no Manifesto Comunista, terá mais impacto do que as poucas reservas que se pode encontrar na Introdução à Crítica da Economia Política, em A Ideologia Alemã Ou alhures (4).

As críticas de Bakunin permanecem pois, perfeitamente justificadas, em particular naquele trecho onde ele dá ao mesmo tempo uma magistral demonstração de dialética materialista: "O estado político de cada país (...) é sempre o produto e a expressão fiel de sua situação econômica; para mudar o primeiro é preciso somente transformar esta última. Todo o segredo das evoluções históricas, segundo o Sr. Marx, está aí. Ele não leva em conta nenhum outro elemento da história, tais como a reação, no entanto evidente, das instituições políticas, jurídicas e religiosas sobre a situação econômica. Ele diz: A miséria produz escravidão política: o Estado. Mas Ele não permite inverter esta frase e dizer: A escravidão política, o Estado, reproduz por sua vez e mantém a miséria como uma condição de sua existência..."

Aplicado a si próprio, o materialismo dialético é um método de investigação e de interpretação dos fenômenos sociais ligados aos progressos e às transformações do pensamento científico do início do século XIX, à aceleração das evoluções sociais e históricas e às mutações econômicas e políticas.

O materialismo dialético é o produto de seu tempo, é o resultado de uma evolução histórica na qual inúmeros pensadores preparam o terreno desde o século XVIII. Em uma época onde as mutações nas condições materiais de vida eram tão perceptíveis, era difícil conceber que não se constitui um método de análise tomando por ponto de partida e dinâmica da evolução. Eis porque é tão absurdo dizer que se Marx tivesse vindo ao mundo dois séculos mais cedo, isto teria evitado inúmeras infelicidades para a humanidade (5), ou imaginar que se Marx não tivesse nascido, a dialética materialista não teria existido.

 

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  2. OS ACASOS DE UM MÉTODO

 

Evocamos os dois postulados sobre os quais repousa todo o edifício marxista. Nós nos interessamos pelo método de investigação empregado por Marx, mas anteriormente faremos um desvio por Proudhon.

Em uma obra datada de 1850, Le Système des Contradictions Economiques, Proudhon desenvolve um certo número de idéias que seguirão seu caminho:

Há conformidade dos fenômenos econômicos com as leis do pensamento. Resulta daí que o capitalismo é um conjunto inteligível do qual se pode desvelar a estrutura interna a fim de compreender sua verdadeira natureza.

É difícil compreender hoje o verdadeiro alcance destes dois postulados. Eles constituem uma verdadeira revolução no pensamento da época. Mas Proudhon emitirá um outro postulado metodológico que terá um destino curioso.

O estudo do sistema sócio-econômico impõe recorrer a um novo método. Na realidade, estudando a "sociedade econômica", termo que designa não as relações econômicas mas as relações sociais, Proudhon fará, na realidade, a análise do sistema das contradições sociais. Pode-se com justa razão considerar Proudhon como o fundador da sociologia moderna.

Marx censura ao Système des Contradictions Economiques de abandonar o único método possível, o estudo do movimento histórico das relações de produção. Ora, trata-se para Proudhon de um propósito deliberado. Ele quer mostrar que as categorias da economia estão em relação de contradição, deixando na indefinição sua dimensão histórica, sua evolução, para só levar em consideração suas relações em sua contemporaneidade.

As relações de produção não são categorias imutáveis. Um lembrete poderá ser feito na exposição em relação à questão da evolução particular de uma categoria, mas sem modificar o plano de conjunto.

Proudhon chega à conclusão de que, para a clareza da exposição, seria necessário criar um conceito de "capitalismo puro", quer dizer, todas as características reunidas constituiríam um modelo ideal, adequado e límpido - o que nunca se encontra na realidade - a fim de colocar em evidência os mecanismos de seu funcionamento. Ele vai então analisar o sistema não do ponto de vista da sucessão histórica, mas da sucessão das categorias lógicas que o constituem, pois "na prática, todas estas coisas são inseparáveis e simultâneas".

Entretanto, o projeto de extrair a lógica da economia política não leva substituir pelo real uma longomaquia abstrata. É verdade que nem todas as fórmulas de Proudhon são claras, algumas análises são deficientes, algumas proposições são desajeitadas e, isoladas de seu contexto (exercício no qual Marx era mestre), elas sugerem uma leitura idealista da realidade social. Mas é a respeito das contradições reais do capitalismo de seu tempo que trata Proudhon.

Às censuras de idealismo formuladas por Marx, ele pode responder com razão: "Eu disse alguma vez que os princípios não são a representação intelectual mas sim a causa geradora dos fatos?"

É verdade que uma ambigüidade de Le Systéme des Contradictions Economiques reside no fato de Proudhon procurar, por um lado revelar os mecanismos do capitalismo, por outro, descobrir os processos, no seio do sistema, que anunciam as formas de uma sociedade desalienada. Não que estes processos possam ser criados arbitrariamente, o que é próprio dos socialistas utópicos que ignoram as realidades econômicas e fundam a nova sociedade sobre bons sentimentos ou ideais.

"O erro do socialismo foi, até aqui, o de perpetuar o delírio religioso lançando-se em um futuro fantástico ao invés de compreender a realidade que o esmaga" (Le Système des Contradictions Economiques, t. I).

A abordagem proudhoniana da sociedade capitalista é muito menos econômica que sociológica. Sob a aparência da economia ele estuda a realidade da relação social. Se a fórmula simplificadora, "a propriedade é o roubo", atropela as análises complexas sobre a formação do capital, não é somente uma noção polêmica, ela designa sobretudo a relação real entre duas classes antagônicas.

Marx retomará o projeto proudhoniano de repensar socialmente as contradições da economia política. Evocará os "trabalhos tão profundos de Proudhon". O Premier Mémoire de Proudhon aparecer-lhe-á como um manifesto revolucionário de proletariado, mas também como um exame "absoluto ao mesmo tempo que científico" da economia política. (A Sagrada Família).

"Proudhon pôs fim, de uma vez por todas, a esta inconsciência. Ela levou a sério a aparência humana das relações econômicas, e a opôs claramente à sua realidade não humana (ibid)."

Proudhon havia mostrado o caráter conflitual e contraditório das relações sociais no seio do capitalismo. Sua formação hegeliana levava Marx a pensar dialeticamente e a descobrir a dinâmica nas contradições. A obra de Proudhon fornecia uma crítica concreta da dialética especulativa pois as contradições analisadas inscrevem-se na prática social, na realidade da sociedade burguesia.

Entretanto, existiam divergências entre os dois homens, bem observadas por Proudhon, das quais Marx não tinha consciência. Marx não dá atenção aos trechos de Proudhon Sobre a anarquia. Uma crítica comum do "comunismo vulgar" impede Marx de ver os trechos onde Proudhon expõe sua crítica da "comunidade" e anuncia sua teoria da "associação econômica", noções que, por evoluções sucessivas, acabarão por se colocar em termos de partido ou sindicato.

Estas oposições doutrinárias devem provocar a ruptura em 1846 e suscitar a redação de Miséria da Filosofia em resposta a Le Système des Contradictions Economiques.

Como inicialmente Marx havia negligenciado as oposições que o separavam de Proudhon, negligenciará desta vez os pontos que o aproximavam dele. "Estes extremos contraditórios", diz Pierre Ansart em Marx et l'Anarchisme, "só são inteligíveis se se faz aparecer, para além das fórmulas da polêmica, um conjunto de teorias comuns no seio das quais as divergências serão particularmente agudas."

É interessante confrontar Le Système des Contradictions Economiques não com a obra que lhe responde, Miséria da Filosofia mas com O Capital. O livro de Proudhon aparece desde então como um momento importante na evolução do pensamento de Marx, ocasião de uma formulação metodológica, descoberta de uma tentativa que fornecerá um modelo à redação de O Capital.

Em Miséria da Filosofia, Marx censura Proudhon pelo abandono da análise histórica e sua escolha por uma sucessão abstrata dizendo respeito ao domínio da razão pura. Segundo Marx, a alternativa coloca-se em termos de método histórico ou de logomaquia. Proudhon abre uma outra via, a da análise estrutural das contradições encaradas em seu funcionamento real, o método indutivo-dedutivo, que Kropotkin qualifica, em La Science Moderne et l'Anarchisme, de "único método científico" (6).

É precisamente este método que retomará Marx em O Capital, eliminando as ambigüidades do vocabulário proudhoniano. Ele renunciará a tudo que tinha declarado em A Ideologia Alemã e em Miséria da Filosofia, para substituir a análise dialética pelo modelo proudhoniano. Se não é ao nível do conteúdo das análises que os dois autores se opõem fundamentalmente, é difícil negar que O Capital, excluindo as indignações morais e as reflexões filosóficas próprias a Proudhon, opõe a uma metodologia freqüentemente aproximativa, a rigor de análise. Os principais conceitos expostos por Proudhon em Le Système des Contradictions Economiques serão objeto de uma reflexão crítica que conduzirão a novas análises que Proudhon não havia observado. A distinção operada em O Capital entre trabalho e força de trabalho constitui uma contribuição essencial de Marx. O mesmo ocorre quanto à avaliação do trabalho e tempo de trabalho e o cálculo do lucro em termos de apropriação do sobre-trabalho.

Proudhon e Marx enfim não dão a mesma importância aos conflitos inerentes ao capitalismo. Para Proudhon, as lutas econômicas tais como as greves, reconhecidas como o "único meio" de defesa dos operários, são mais ações de desespero do que lutas eficazes adaptadas às necessidades. Cessando seu trabalho, os operários delegam a seus empregadores o cuidade de resolver as dificuldades. O aumento dos salários, além do mais, intervém em um sistema cujas leis inerentes anulam seus efeitos. As lutas econômicas não participam da dinâmica do sistema. É perda de tempo esperar uma transformação da condição operária.

Marx considerava que as lutas econômicas, se não podem modificar sensivelmente o sistema, intervêm em dois pontos importantes que Proudhon não tinha visto: a fixação da jornada de trabalho e a manutenção do salário ao preço normal.

 

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  2. A RESPEITO DE ALGUMAS ABERRAÇÕES

Marx emprega, de fato, sucessivamente, diversos métodos complementares mas diferenciados. O Capital é essencialmente analítico e estuda a relação social entre o detentor dos meios de produção e o proletário, cindindo a sociedade em duas classes rivais. Seus trabalhos históricos consideram uma situação a um momento dado, estudando a relação das forças presentes e fazendo aparecer diversas classes sociais das quais algumas representam um papel político maior se bem que elas praticamente não aparecem na crítica econômica.

Porque a infra-estrutura econômica não é única a determinar a ação dos grupos sociais; porque as ilusões, as crenças, os medos representam um papel é que o método analítico, válido ao nível econômico, dá lugar ao método dialético, que apreende os atores sociais em sua especificidade.

A verdadeira dialética marxista é talvez aquela que une esses dois métodos de investigação, um analisando o sistema capitalista em seus mecanismos, o outro descrevendo os atores da história real na abundância de suas determinações, e que considera estas determinações em seu movimento.

Se tivéssemos atingido um conhecimento científico da evolução das ciências sociais, se o marxismo fosse uma ciência exata, não seriam mais as classes sociais que seriam os atores da história, mas os chefes políticos detentores desta ciência, o que Althusser explica dizendo que a prática dos dirigentes marxistas "não é mais espontânea, mais organizada Sobre a base da teoria científica do materialismo histórico" (Pour Marx, Althusser). Um dirigente marxista é, em certo aspecto, um condensado de materialismo histórico.

Quando Lukács, em História e Consciência de Classe, explica que o materialismo histórico é "o mais importante meio de luta" do proletariado, que "a classe operária recebe sua arma mais afiada das mãos da verdadeira ciência", ele se junta aos idealistas mais patenteados dos séculos XVIII e XIX, expondo como postulado que é a consciência que determina a vida e não a vida que determina a consciência, invertendo assim os termos de Marx ("Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência"( A Ideologia Alemã, K. Marx).

Inúmeros outros, marxistas ou não, viram o paradoxo que consiste, para o criador da dialética materialista, em empregar o método indutivo em sua principal obra, O Capital.

Preobrajenski, o teórico da N.E.P. (Nova Economia Planificada - 1921-1928), no primeiro capítulo de sua obra A Nova Economia, declara: "Não é evidente que devamos estudar nossa economia deixando-nos guiar pelo método marxista?" O autor parece desencorajado pelas diferenças de aplicação (grifo nosso) do "método da dialética materialista devido à matéria concreta do estudo":

"A fim de compreender a lei dialética fundamental do desenvolvimento da economia capitalista e de seu equilíbrio em geral, é preciso em primeiro lugar elevar-se acima de todos os fenômenos do capitalismo concreto que impedem de compreender esta forma e seu movimento sob o aspecto mais duro."(grifo nosso).

Para compreender as leis do capitalismo, diz Preobrajenski, é preciso construir um "conceito de capitalismo puro", e é "precisamente o que faz Marx em O Capital".

Mas esta utilização da abstração não é "a diferença mais característica" entre o que Preobrajenski chama "o método sociológico universal" de Marx e o método de sua economia política. Com efeito, na análise de certas particularidades deste "capitalismo puro", Marx é levado a empregar um método "analítico-abstrato". Após uma tentativa de justificação um pouco confusa deste método, Preobrajenski contorna a dificuldade batizando-a: "Método dialético analítico abstrato".

Lukács desde 1922 deplorava o mau hábito de "considerar a dialética em Marx como uma vantagem estilística superficial...". Em uma passagem do posfácio da edição alemã de O Capital, suprimido posteriormente na edição francesa, Marx vitupera os "imitadores rabugentos, pretenciosos e medíocres que ocupam atualmente posições de destaque na Alemanha culta" e que maltratam Hegel. Para pregar-lhes uma peça, declara: "Também declarei-me abertamente discípulo deste grande pensador e, no capítulo sobre a teoria do valor, cheguei até mesmo a flertar aqui e ali com seu estilo particular." Tendo os hegelianismos quase totalmente desaparecido da edição francesa, Engels foi reclamar a Marx, assinalando-lhe o "pedantismo da lógica formal" da tradução francesa.

J. A. Schumpeter, um crítico de Marx, não marxista, reconhece, ainda que o autor de O Capital tennha sido neo-hegeliano, que seria "cometer um erro e não fazer justiça ao valor científico de Marx" fazer deste elemento filosófico (a dialética hegeliana) "a chave principal de seus sistema". Marx, diz Schumpeter, "conservou seu amor de juventude toda sua vida.

"Ele se comprazia em certas analogias formais que se pode constatar entre sua argumentação e a de Hegel. Adorava confessar seu hegelianismo e usar a fraseologia hegeliana. Em nenhum lugar Marx traiu a ciência positiva em favor da metafísica" (Schumpeter, Capitalismo, Socialismo e Democracia).

Rosdolsky, militante marxista ucraniano contemporâneo da revolução russa, tem muita dificuldade para demonstrar que muitas "categorias decisivas continuamente empregadas vêm diretamente da lógica de Hegel". Ele cita uma Carta sobre o capital de Marx onde este se alegra por ter bem conduzido seus desenvolvimentos sobre a teoria do lucro, e onde conclui: "Alguma coisa prestou-me um serviço by mere accidente eu havia refolheado a Lógica de Hegel, sem observar o alcance real desta observação (by mere accident: por acaso).

Rosdolsky analisando detalhadamente o Rascunho de O Capital, interessas-se pelas razões que levaram Marx a modificar inúmeras vezes o plano e o método de elaboração de sua obra, e declara:

"Se em O Capital a influência de Hegel parece se manifestar à primeira vista, somente em algumas notas, o Rascunho deve ser caracterizado em sua totalidade como uma referência a Hegel e à Lógica deste último - tão radical quanto seja aqui também a queda materialista de Hegel" (Rodolsky, Génèse du Capital).

Significa dizer que Marx pretendia empregar o método dialético quando começou a redigir O Capital, mas na versão final não há mais nenhum sinal. Marx derruba Hegel e Rosdolsky derruba Marx. Mas Rosdolsky permanece muito vago sobre as razões e o alcance da modificação no método de exposição.

O próprio Marx explicou-se no prefácio da primeira edição de O Capital:

"A análise das formas econômicas nào pode ser ajudada pelo microscópio ou pelos regentes fornecidos pela química; a abstração é a única força que possa servir-lhe de instrumento."

No posfácio da segunda edição alemã, parece vexatório que um professor de economia política, N.I. Sieber, tenha podido declarar que "o método de Marx e o de toda escola inglesa, é o método dedutivo cujas vantagens e inconveniências são comuns aos maiores teóricos da economia política."

Marx tinha a ambição de elevar a ciência da sociedade ao nível de uma ciência da natureza. Ele declara no posfácio citado que "o físico, para compreender os comportamentos da natureza, ou estuda os fenômenos quando eles se apresentam sob a forma mais acentuada e a menos obscurecida por influências pertubadoras, ou experimenta em condições que asseguram tanto quanto é possível a regularidade de sua marcha". O segundo método não sendo possível, Marx vai revelar "o ato de formação, a geração destas categorias, leis, idéias, pensamentos" (1) tal com ele censurava Proudhon por fazê-lo:

"À força de abstrair de cada questão todos os pretensos acidentes, animados ou inanimados, homens ou coisas, temos razão em dizer que em última abstração chega-se a ter como substância as categorias lógicas."

É assim que se exprime Marx em 1850 contra Le Système des Contradictions Economiques. Vinte anos mais tarde ele retomará o mesmo gênero de argumentos para justificar O Capital.

 

CONCLUSÃO

Neste texto, não nos interessou fazer, ponto por ponto, uma análise crítica das principais teses de Marx em matéria de economia. Pareceu-nos mais importante ir mais ao fundo do problema e evocar as questões de método pois um método de análise pode permanecer bom, mesmo que seus resultados sejam levados a ser ultrapassados um dia. Gostaríamos também de fazer justiça a Proudhon por todas as asneiras que foram ditas em seu nome.

O método marxista de análise foi mistificado tanto pelos marxitas, que fizeram dele uma panacéia, quanto por um certo número de anarquistas que tudo rejeitaram em bloco, fazendo assim economia de uma verdadeira crítica.

Poder-se-á objetar, entretanto, que se aceitarmos certas proposições do marxismo, somos obrigados a tudo aceitar, pois é uma teoria coerente cujos elementos se sustentam e não são dissociáveis.

Ora, O Capital não chega a nenhuma conclusão em matéria de estratégia política, modo de organização, programa; atesta simplesmente o fracasso de todas as tentativas da burguesia de restaurar o sistema e de vedar as brechas.

Fora disso, pode-se fazer o marxismo dizer aproximadamente o que se quer. Pode-se até mesmo ser anarquista e se referir a Marx, sob a condição de selecionar seus textos. É o que alguns quiseram fazer, às vezes de modo quase convincente.

O ponto de partida de toda a obra de Marx é que o motor da história é a luta de classes. Enquanto militantes, a luta de classes é para nós uma coisa real, palpável e podemos raciocinar como Engels: a demonstração da luta de classes é que nós a ressentimos. Mas sobre o plano do princípio filosófico, podemos dizer que ela é o motor da história? Tal afirmação é simplesmente inverificável cientificamente: é uma hipótese de trabalho, entre outras.

Há outras, ou pelo menos uma. Kropotkin partiu da idéia que o motor da história não é a luta de classes entre si, mas a tendência dos homens de se solidarizar para sobreviver.

Seu sistema constitui um conjunto coerente, descrevendo exatamente a mesma história que Marx, em contraponto. As duas concepções são como o negativo e o positivo da mesma foto: elas representam a mesma imagem.

A história da humanidade é a história da criação, pelas massas, dos modos e das instituições que permitem a sobrevivência e a vida em sociedade, organizando-se em tudo aquilo que pede um esforço combinado.

Este esforço criador é contrariado por uma minoria que tenta se aproveitar do poder, do saber, da superstição. Esta categoria de indivíduos está repleta de contradições internas. "Em certos períodos eles se combatiam uns aos outros" mas "acabavam sempre, com o tempo, por se entender" para poder "dominar as massas, mantê-las na obediência, governá-las e fazê-las trabalhar para si".

Mas as instituições que se constituíram com um objetivo construtivo inicialmente, evoluíram, acabando por se petrificar. "Elas perdiam seu sentido primitivo, caíam sob o domínio de uma minoria ambiciosa e acabavam por se tornar um impedimento ao desenvolvimento ulterior da sociedade" (La Science Moderne et l'Anarchie). Assim, produziam-se mutações - ou revoluções - que Kropotkin descreve de modo magistral em sua obra sobre a Revolução Francesa:

"Uma revolução, é a rápida derrubada, em poucos anos, das instituições que tinham precisado de séculos para se enraizar no solo e que pareciam tão estáveis, tão imutáveis, que os reformadores mais fogosos apenas ousavam atacá-las em seus escritos..."

É, diz Kropotkin, a rápida decomposição de tudo que fazia a essência da vida social, religiosa, política, econômica da nação. É a eclosão de novas concepções sobre as relações entre os homens que estremeceram o mundo e "dão ao século seguinte sua palavra de ordem, seus problemas, sua ciência, suas linhas de desenvolvimento econômico, político e moral" (ibid).

"Para chegar a um resultado desta importância (...) não basta que um movimento de idéias se produza nas classes instruídas, qualquer que seja a profundeza; não basta também que se produzam revoltas no seio do povo, quaisquer que sejam seu número e sua extensão. É preciso que a ação revolucionária, vinda do povo, coincida com o movimento do pensamento revolucionário, vindo das classes instruídas" (ibid).

Assim, a Revolução Francesa foi, "como qualquer outro evento de grande importância, o resultado de um conjunto de causas, convergindo a um dado momento e criando os homens que contribuíram por seu lado a reforçar os efeitos dessas causas" (ibid).

Poder-se-ia analisar a vontade Kropotkin de fazer da anarquia uma concepção do universo com base em uma interpretação mecânica dos fenômenos. Ele se junta nisso à maior parte dos pensadores do século XIX e sua visão científica do universo.

Apesar de sua recusa pelo método dialético (7), vê-se pelo que precede, que o próprio Kropotkin, em suas obras históricas, demonstra uma percepção claramente materialista e dialética da história, que seria interessante estudar mais a fundo. É que, simplesmente, um pesquisador, um savant não tem uma escolha indefinida de métodos para atingir seus fins. Que Marx, em tal circunstância, tenha empregado o método indutivo, e Kropotkin em tal outra, o método dialético, não é um acaso nem uma coincidência. Mas o método em si mesmo não prevê nada do resultado obtido. Se o emprego de um método ruim resulta raramente em resultados justos, não basta empregar o bom método para garantir o resultado. É o erro idealista que cometeram numerosos marxistas considerando o materialismo histórico como uma arma infalível. É o uso que se faz de uma arma que lhe confere sua eficácia.

O objetivo deste estudo é o de restituir em um terreno mais seguro, e mesmo mais são, as relações de anarquismo e de Marx, no que se refere à análise econômica. Que se queira ou não, que satisfaça ou não, os elementos metodológicos introduzidos por toda uma corrente de pensamento no século XIX, no qual Proudhon tomou parte e do qual Marx se fez a expressão mais clara, são uma conquista que não é possível afastar hoje. Isto é tão verdadeiro que mesmo os capitalistas e os governos mais reacionários, na França, sabem utilizar com muita vantagem antigos militantes marxistas que se tornaram executivos, sociólogos, psicólogos, etc.

Privado de sua aura mágica e de seu caráter encantatório, o marxismo volta a ser o que não deveria ter deixado de ser: um método de análise da sociedade, por um lado, e por outro, uma estratégia política, uma teoria de organização. As questões de estratégia e de organização, sobretudo, mereceriam ser desenvolvidos para que a análise crítica do marxismo seja completa, para que a amplitude das divergências apareçam claramente.

É preciso, entretanto, tomar cuidado para não se juntar a estes antimarxistas para quem "o trabalho, como forma de uma relação de exploração a um grau qualquer, não é mais para eles a matriz essencial da estrutura social" (Le Nouveau Léviathan Naville). O que Proudhon já exprimia quando dizia: "A unidade constitutiva da sociedade é a oficina" (Système des Contradictions Economiques).

E.V.

 

Notas

  1. Toda teoria sócio-política tem como base uma teoria do conhecimento, quer dizer, o processo pelo qual o cogito sucedo aos homens. O assunto é importante. Trata-se nem mais nem menos, para cada pensador, de demonstrar que a humanidade atingirá naturalmente um nível de consciência que confirmará suas opiniões. Pierre Ansart em Marx et l'Anarchisme estuda a teoria do conhecimento de Proudhon. O mesmo trabalho ainda está por ser feito para Bakunin e demonstraria o extraordinário vigor e atualidade do pensamento deste autor.
  2. Uma carta desapaixonad de Marx demonstra que ele observava uma possibilidade de autonomização do Estado em relação à infra-estrutura econômica: "A esfera particular a quem, em conseqüência da divisão do trabalho, cabe a administração dos interesses públicos, adquiriu uma independência anormal que foi levada mais longe na burocracia moderna" (A Ideologia Alemã). Assim, não há concordância sistemática entre a realidade sócio-econômica das classes e sua atitude política ou ideológica: as condições econômicas não determinam necessariamente as atitudes políticas: "Na França, o pequeno-burguês faz o que normalmente deveria fazer o burguês industrial; o operário faz o que normalmente seria a tarefa do pequeno-burguês, e a tarefa do operário, quem a realiza? - Ninguém." (As Lutas de Classe na França).
  3. Mao, antigo anarquista (segundo dizem) "inovará" o marxismo introduzindo a noção de "contradição no seio do povo" (não antagônico) e de contradição entre o povo e a classe dominante. (Mao, De la contradicion, cap. 6, Oeuvres Choisies, Pékin, 1966, tomo I).
  4. Escrito em 1846, A Ideologia Alemã não foi publicada e permaneceu desconhecida durante muito tempo. O desconhecimento deste livro muito importante contribuiu para forjar a interpretação do pensamento de Marx meio-darwinista, meio positivista que devemos principalmente a Kautsky e Plekhanov.
  5. Lembro-me de ter lido este argumento em uma introdução de Socialisme utopique, socialismo scientifique, mas não me lembro se é o próprio Engels que o diz. Lapso Ou não, é em todo o caso um absurdo no plano do materialismo utópico.
  6. Kropotkin: "Nenhuma das descobertas do século XIX - em mecânica, astronomia, física, química, biologia, psicologia, antropologia - foi feita pelo método dialético. Todas foram feitas pelo método indutivo, o único método científico.
  7. "O método indutivo que nós empregamos nas ciências naturais provou tão bem seu poder que o século XIX pôde fazer avançar as ciências em cem anos mais do que elas tinham feito anteriormente, durante dois mil anos. E quando se começou a aplicar, na segunda metade do século, ao estudo das sociedades humanas, em nenhum lugar chocou-se a um ponto onde fosse necessário rejeitá-la, a fim de retornar à escolástica medieval ressuscitada por Hegel" (La Science Moderne et l'Anarchie).
  8. O ponto de vista de Kropotkin sobre Marx, suas teorias, seu método, revela um conjunto disparate de julgamentos clarividentes e de erros grosseiros que mostram que não compreendia o que lia. Assim, ele crê refutar a teoria da concentração do capital afirmando que "o número daqueles que vivem às expensas do trabalho de outrem é sempre mais considerável (arrendador, intermediários). (La Conquête du Pain).

Os "arrendadores, intermediários" são tudo que quisermos menos detentores do capital, ou em outros termos, detentores de meios de produção.

No que se refere à questão da concentração do capital e suas "refutações", conferir uma carta aberta da Alliance Syndicaliste a Gaston Leval, que nos tinha pedido um artigo que não publicou, mas que "refutou" em seu jornal, recusando-nos o direito de resposta.

 

Texto retirado do livro Os Anarquistas Julgam Marx, lançado pela Editora Imaginário.

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