Os Ateneus Libertários sempre foram um importante componente no desenvolvimento das idéias e práticas anarquistas, como irradiadores de informação, cultura, ação, transformação... Em suma, mais uma ferramenta na luta pela liberação do ser humano.
Em Florianópolis (SC), um grupo de jovens, resolveu arregaçar às mangas, e aderir a essa corrente da história e da atualidade libertária.
A seguir, um bate-papo que a Agência de Notícias Anarquistas (ANA) teve com um dos animadores do projeto, L. B., que deseja deixar bem claro que falou como indivíduo, e não em nome do grupo.
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Agência de Notícias Anarquistas > Como surgiu a idéia de se criar um espaço libertário em Florianópolis?
L. B. < Talvez faça mais sentido se falar de uma necessecidade sentida que busca ser satisfeita do que de uma idéia propriamente dita. Eu pessoalmente comentava às vezes com alguns amigos que sentia falta de um espaço em Floripa que fizesse convergir os libertários (mesmo aqueles que não se declaram enquanto tais) daqui. Eu percebia que existiam vários indivíduos libertários ou apartidários e anticapitalistas na cidade, mas com praticamente nenhuma articulação e comunciação entre eles: simplesmente estávamos isolados uns dos outros. Existia o potencial mas não as condições desse pontecial se realizar.  E talvez um espaço de convergência, de encontro, de discussões, de troca de ideías, experiências e informações suprisse essas condições. Acho que de certa forma outras pessoas sentiam o mesmo que eu, e alguns indivíduos que voltaram do Carnaval Revolução de Belo Horizonte (MG) e das atividades ácratas que rolaram em Porto Alegre (RS) paralelamente ao FSM, lançaram a primeira faísca para quebrar o isolamento e tentar concretizar um espaço chamando uma reunião, ligando para as pessoas que poderiam se interessar etc. E assim a proposta foi se difundindo (e ainda está em fase de difusão).


ANA > Faísca? É aí que entra aquela história que as revoluções podem se deflagrar a partir de um simples espirro?
L. B. < Às vezes uma coincidência ou um acontecimento banal ou trivial pode ser o estopim ou fazer desencadear processos que talvez demorassem mais tempo para se desenvolver ou nem mesmo ocorressem.  O fato de duas pessoas terem se encontrado fortuitamente por exemplo, sob determinadas circunstâncias, fruto de coincidências triviais, pode propiciar o contato que lança a primeira faísca que irá queimar a palha que estava seca, mas que de outro modo não entraria em combustão. Poderia dar um exemplo bem pessoal agora, mas como é bem pessoal, não darei.

ANA > O que será este espaço? Quem participa deste projeto?  
L. B. <
O que será o espaço dependerá da nossa disposição, energia, capacidade, e isso tudo relativamente aos obstáculos que o sistema econômico e o Estado nos colocará. Idealmente falando pretende-se que ele seja uma espécie de Ateneu eu diria, um local para desenvolver as atividades mais diversas que a imaginação e a necessidade das pessoas envolvidas propiciem, e que tenham obviamente caráter libertário. A idéia é que seja um espaço autogerido pelos libertários e afins, e não um espaço de alguns libertários, por isso seria legal que todas os libertários de Floripa (e afins) que tenham disposição e se interessem pela proposta participem da sua construção e do seu gozo. De qualquer forma, o próprio processo de mobilização em torno dessa idéia já nos tirou (pelo menos os que estão até agora envolvidos) do isolamento em que nos encontrávamos. De certa forma, o próprio processo já é um fim, se é que se pode falar em fim, pois a meu ver o próprio espaço, mesmo que concretizado da forma como cada um de nós idealiza, não seria um fim em si mesmo. Eu, particularmente não me satisfaço com menos do que uma transformação social radical, um processo permanente, destruindo as micro e macro relações de poder, superando o poder e nos superando, para que um dia possamos sentir um cheirinho de vida (espero que isso não vire uma nova marca de perfume). Até agora acho que de 10 a 20 pessoas têm estado envolvidas na construção e concretização dessa proposta. Mas a proposta e o chamado ainda estão sendo difundidos. Gostaria de salientar a participação e ajuda de dois companheiros uruguaios que estão aqui, além do valor humano que eles representam, pois talvez não possâmos tê-los juntos conosco adiante.

ANA > Você acha que esse projeto pode emplacar mesmo?
L. B. < Poder pode. Dependerá das condições objetivas e subjetivas dos libertários de Floripa interessados nesse projeto, e da capacidade de superar os obstáculos impostos pelo capitalismo e pelo Estado. Mas de qualquer forma, como eu disse, acho que o projeto se confunde com o próprio processo, e o proceso já está em andamento, já existem vários indivíduos em contato uns com os outros, e mesmo se "a casa cair" isso não significa que tenhamos que voltar ao estágio que estávamos antes. E afinal, para escandalizar ou afundar essa ilha bastam cinco pessoas, não mais. Embora, mesmo para isso, é bom lembrar, só uma ação coletiva pode trazer resultado, uma mudança real. Bem, estamos já ocupando (e reformando) provisoriamente um espaço não utilizado na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Provisoriamente, porque pretendemos conseguir um lugar no centro da cidade, mas também porque vários de nós particularmente gostariam bastante que o espaço ficasse fora dessa bolha separada da sociedade chamada universidade: nicho de "estudantes", uma espécie feliz em esperar ser explorado um dia.

ANA > Vocês realmente ocuparam um local na UFSC, ou é uma cessão?
L. B. < Parece que o local que estamos provisoriamente ocupando e reformando foi cedido pela universidade ao DCE, mas não pedimos para utilizar o espaço a ninguém, nem à UFSC e nem ao DCE.

ANA > Quando será a abertura do espaço na universidade?
L. B. <  Acho que assim que consertarmos o telhado, acabando com as goteiras e riachos poderemos fazer alguma coisa nesse local provisório. O tempo que vai levar isso irá depender das nossas "habilidades". Bem, estou descobrindo que os anarquistas estão mais acostumados a destruir coisas do que a consertar (risos), afinal, somos "revolucionários" e não "reformistas". Reforma não é com a gente.

ANA > Falando em universidade, a realização do Encontro Internacional de Cultura Libertária, em 2000, na UFSC, deu algum fôlego para o anarquismo no seu estado?
L. B. < Difícil de responder. Pessoalmente eu gostei muito do Encontro, o contato com libertários de vários estados e países etc. Provavelmente deu fôlego, pelo menos durante um tempo, para indivíduos libertários, de um modo bastante pessoal, mas não percebi a formação de algo diferente do que havia antes. A influência talvez não tenha sido tão perceptível para se dizer que tenha dado fôlego ao anarquismo daqui, mas deve ter tido algum resultado subjetivo em vários indivíduos daqui.

ANA > O anarquismo em Santa Catarina está envolvido em alguma luta real no momento, ou só em lutas pontuais?
L. B. < Não quero filosofar muito, mas depende do que se entende por "luta real". Na verdade, do meu ponto de vista, as coisas andam bem paradas em Santa Catarina, pelo que sei. Não tenho tido notícias, por exemplo (e por culpa minha também), de como anda o projeto Anarquistas Contra o Racismo (ACR) em Criciúma, não sei quase nada de um grupo recente que se formou em Balneário Camboriú, por exemplo. Em Florianópolis especificamente, acho que o anarquismo poderia ter muito mais visibilidade na sociedade (se é que tem alguma atualmente), falta é articular os indivíduos libertários em formas de intervenção e ações coletivas. Mas tudo tem seu tempo, como já dizia alguém: "também é revolucionário saber parar e esperar o momento certo".

ANA > Bem, acho que é isso. Boas vibras e anárquica caminhada para vocês. Deixa aí algum endereço para contatos.
L.B. < Para quem quiser mais informações ou se interessou pela proposta de criar um espaço libertário em Floripa, abrimos uma lista de discussão para passar informes entre as pessoas envolvidas e interessadas nesse projeto. Para assinar a lista basta enviar uma mensagem em branco para
[email protected] Escreva e pergunte o que quiser. Podemos fornecer mais detalhes sobre "o que queremos", "quem somos" e "como faremos" e a que pé andam as coisas. Tudo está em aberto.

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