Para
despertar a classe mais silenciosa e passiva...
e
nao menos miseravel
O texto
que segue é dirigido principalmente à jovem geração da classe
média brasileira. Trata-se de uma proposta para a
criação de práticas coletivas contestatórias a partir das
especificidades de um grupo social que tem as negligenciado junto
com sua realidade e sua miséria.
Aos que
amanhecem e dormem nas urbes latino-americanas do século II
pós-Comuna de Paris... ou século VI pós-Colombo...
Uma versão impressa do texto abaixo pode ser encontrada na revista Letralivre # 36 (março de 2003), revista de cultura libertária, arte e literatura da editora Achiamé - [email protected] Caixa Postal 50083, Rio de Janeiro-RJ, CEP 20062-970.
Da
nossa miséria
Toda a história do movimento operário, a história da luta dos trabalhadores, desde o início da Revolução Industrial na Inglaterra e a revolta ludita até o pós-guerra e a formação dos chamados Estados de bem-estar social, tem mostrado que o desejo por melhores condições materiais[1] de vida a reivindicação de coisas nunca foi e nunca será, em si, uma reivindicação antagônica ao ideal burguês que estrutura a sociedade capitalista.
O grande golpe de prestidigitação da burguesia consistiu em esconder todas as misérias da vida que não fossem de ordem material ou que não pudessem ser reduzidas a um consumo. (E com certeza a manga do seu paletó ainda está cheia; é certo que as reivindicações de participação e controle que iam de encontro à alienação imposta pela propriedade privada dos meios de produção foram recuperadas e transformadas em participação no próprio processo de alienação). A pobreza assim não diz mais respeito à vida, mas ao consumo, ou, se se preferir, à participação no consumo dirigido. As reivindicações dessa pobreza podem ser resolvidas com uma readaptação, não necessitam da ruptura. O consumo define assim os coitados e os afortunados, a caridade dos últimos e a inveja dos primeiros. Define mais: define o próprio ser humano (nesta sociedade) e seus desejos.
Impossibilitando a realização a experiência real, autêntica, orgástica , o capitalismo contemporâneo e as formas de poder atuais liberam o caminho para a aparência de realização humana, ou à realização aparente, organizada pelo consumo. O consumo da aparência é o derradeiro estágio do distanciamento realização/consumo, autenticidade/simulacro. Mais do que uma fetichização, ele é o consumo do fetiche. Seu exemplo mais cabal é o consumo do corpo através da estética: os corpos sarados, os padrões estéticos corporais que, tirando proveito da repressão e da miséria sexual reinante em toda a sociedade já muito bem exposta por Reich, servem como gerador de receitas aos meios de controle-comunicação visuais, que por sua vez, na ânsia do lucro, retroalimentam com um bombardeiro de imagens de corpos vazios o fetiche da estética, o consumo da aparência, a padronização dos desejos e com isso a própria miséria sexual, fechando assim um círculo vicioso. O grande erro ou hipocrisia dos liberais está em afirmar, com base na quantidade de sexo disponível para consumo, que hoje a repressão/miséria sexual é menor que outrora. Pode-se encontrar sexo na TV, nos outdoors, na internet, nas esquinas, nas boates. Não percebem eles a diferença entre realização e consumo, entre autenticidade e simulacro? Ora, como já dizia Raoul Vaneigem: Quanto menos realidade erótica existe, mais numerosas são as formas sexualizadas no espetáculo. O mercado crescente de sexo, a audiência que dão os corpos nus e o fetichismo da estética só comprovam a existência da miséria sexual na vida cotidiana de cada um e de uma moral sexual repressora que estrutura essa sociedade.
Quanto mais pobre é a vida cotidiana, mais atrativo se torna o inautêntico[2].
E a prisão aparecerá como uma possibilidade de liberdade. O que são o casamento e o namoro[3] em meios sociais em que eles não são mais impostos como obrigação moral? Os presos políticos sabem bem que a prisão é muitas vezes o único lugar na sociedade onde podem ter alguma sensação de liberdade (uma pseudo-liberdade evidentemente), onde não precisam esconder quem são e nem o que pensam.
Qual o grau de perversidade de um sistema que nos faz agradecer termos família e emprego? Família: o primeiro nível de autoridade que nos condiciona, nos castra e nos controla. Emprego: servidão em embalagem de realização pessoal e auto-respeito. Temos que agradecer sobreviver, e é somente no âmbito da sobrevivência que família e trabalho (assim como o casamento e o namoro) podem exercer uma positividade ao indivíduo. A estabilidade dessa perversidade erigida em sistema se assenta sobre a limitação das reivindicações (conscientes) dos indivíduos à sobrevivência, mesmo que seja uma sobrevivência rica, isto é, farta em consumo. A partir da hora em que o agradecimento da sobrevivência dá lugar a uma necessidade de viver, a uma necessidade por uma vida rica e autêntica não mais subordinável, o que aparecia como positividade (família, trabalho, escola e demais instituições) toma a forma clara de negatividade: a estabilidade do sistema assim se esvai, e uma readaptação não será suficiente. Como poderia essa chamada sociedade capitalista propiciar uma comunidade e vida autênticas senão se autodestruindo?
Os programas de esquerda (ou de direita) só nos prometem instituições desta sociedade que eles pretensamente querem transformar: trabalho, família, escolas, universidades, segurança pública, renda mínima, consumo mínimo, carro, quando se torna cada vez mais evidente que a ausência que se sente, eu e você, é a ausência de uma comunidade real e de uma vida autêntica, uma vida constituída, entre outras coisas, por relacionamentos que não se reduzem à troca mercantil, ao consumo, à aparência. Queremos instituições da VIDA e não da SOBREVIVÊNCIA! Instituições não-autoritárias, não-capitalistas, e não aquelas de uma sociedade autoritária e capitalista!
E nós, aqueles nascidos no seio de uma chamada classe média, nesse país latino-americano, nascidos no tempo da sociedade de consumo, no tempo dos empregos estáveis que garantem a sobrevivência, que garantem a independência econômica dos indivíduos em relação à família e o consumo de bugigangas diversas, nos deparamos com a ausência até mesmo dessas compensações prometidas em troca de nossas vidas. O empobrecimento do nível de sobrevivência dos jovens da classe média no Brasil e no mundo de uma forma geral em relação à geração anterior é tão brusco, a falta de perspectiva concreta de se atingir o padrão de sobrevivência dos próprios pais muitas vezes é tão flagrante que estes indivíduos, em grande parte desempregados ou subempregados apesar de muitas vezes altamente escolarizados[4], passam a ter poucos motivos para agradecer a sobrevivência. Muitos já não aceitam trocar a possibilidade ou a esperança de sentir o gosto da vida por uma sobrevivência cada vez mais pobre, e já não vêem no desemprego motivo de desespero, mas sim na impossibilidade de viver. Abre-se deste modo mais facilmente a possibilidade dessas pessoas, isto é, de NÓS pormos o jogo em questão, e conseqüentemente de pormos em risco a estabilidade desse sistema através de um movimento espontâneo e ao mesmo tempo organizado e consciente, construído a partir da especificidade da nossa realidade, da nossa experiência e da nossa subjetividade. Mas para isso é necessário romper com o isolamento, e perceber que a sua situação individual é compartilhada por outros, fruto de uma condição social, deixando de lado as saídas individualistas que só reforçam a própria opressão.
Por muito tempo os indivíduos nascidos na chamada classe média isto é, nós que têm contestado a ordem capitalista e o Estado, o tem feito tentando tomar para si a perspectiva e a realidade das classes mais exploradas e marginalizadas em relação ao consumo. Obviamente não devemos e não queremos ser cegos a essas realidades e tempo, que porém não são os nossos. A miséria deles também nos atinge, mas não é a nossa miséria. Só encontramos até agora motivos para contestar a ordem capitalista e hierárquica com base na miséria material, na impossibilidade de um consumo, seja deles ou de nós mesmos.
No entanto é a nós que são receitados prozacs e todas as espécies de antidepressivos e embotadores de mentes. Pode-se afirmar, sem temer se distanciar da realidade, que aquele que lê estas linhas possui algum parente, ou ao menos algum amigo ou amiga, que consome alguma espécie de droga antidepressiva (falo daquelas que teoricamente necessitam de receita médica). Em 1990 a depressão ganhou a quarta posição entre as causas de morte no mundo. E é a Organização Mundial de Saúde, o Banco Mundial e a Escola de Saúde Pública de Harvard que afirmam que em 2010 ela afetará 30% de todos os adultos e em 2020 será a segunda maior causa de invalidez e morte em todo o mundo.
A vida
miserável mata de diversas formas, porque são diversas as
misérias da vida.
Temos uma miséria real, uma realidade miserável inteira para teorizarmos, e que não é a mesma dos escravos ou dos proletários do início da Revolução Industrial. Sentimos isso, mas na prática agimos como privilegiados.
Quanto mais integrados ao capitalismo, seja pelo consumo dirigido ou por qualquer outra forma, mais a miséria despe seus trapos e veste seu vestido de luxo, que a torna imperceptível enquanto tal, e penetra em todos os aspectos da vida cotidiana. Nós poderíamos afirmar pela nossa realidade e sensações: a miséria na sociedade capitalista e hierárquica vai muito além da miséria material, a miséria é total, da vida. Como Marx[5] dizia: A questão não é saber se existe vida após a morte, mas se existe vida antes da morte.
Travestir de privilégio o que não passa de miséria é o que mantém a estabilidade da ordem burguesa. Aceitarmos o status de privilegiados é sucumbirmos à ideologia burguesa. Não termos nosso próprio pensamento, nosso próprio movimento construído com base na nossa subjetividade e realidade é sucumbirmos na prática ao status de privilegiados. E conseqüentemente, na prática, afirmarmos a ideologia burguesa da realização pelo consumo e do homo economicus aos setores mais pauperizados materialmente. É afirmarmos que o bem-estar é dado pelo consumo, que a vida se reduz a isso, sendo ao mesmo tempo uma incitação para que eles desejem o que de fato nós não suportamos.
A hierarquia das misérias e dos sofrimentos só serve ao intuito de passar alguns por privilegiados e outros por coitados, e assim demonstrar que na sociedade capitalista há espaço para uma tal felicidade. Realidades diferentes contêm misérias diferentes, e com que padrão poderia-se hierarquizá-las? Quem é mais oprimido, quem sofre mais a miséria: o sem-terra assassinado pela polícia no Paraná ou o jovem de Pinheiros que é assassinado pelo suicídio num sábado à noite? Qual o sentido em querer hierarquizar essas misérias?
Do
nosso tempo
Se aquilo que o Critical Art Ensemble chama de fractalização do tempo[6] abre uma perspectiva interessante e talvez até mesmo necessária para entender a sociedade européia e norte-americana atual, no caso da América Latina essa perspectiva se impõe diante daqueles que pretendem compreender a complexidade dessas sociedades sem reducionismos e simplificações demasiadas.
A economia, dentro da sociedade capitalista, se precipita ao futuro numa velocidade dada pela necessidade de inovações competição pelo lucro e mudanças no mundo do consumo e da aparência de modo que tudo permaneça igual; a manutenção das diferenciações sociais. Uma vez que a própria sociedade capitalista é caracterizada pelo domínio da economia, não é de estranhar que seja ela que determine o avançado e o atrasado. No entanto, a velocidade que se tornou tão imperativa ao setor econômico abre novas realidades sem necessariamente desfazer ou substituir as antigas, ou sem que essa substituição seja total e completa. Mais do que carregar a sociedade a um futuro, a dinâmica da economia capitalista fractaliza o tempo, gera múltiplas realidades distintas temporalmente, mas coexistentes num mesmo presente. Decorre desse fato uma diversidade e complexidade tal na sociedade, no mundo, e principalmente na América Latina, que dificultam muito o poder de abrangência de qualquer teoria social ou paradigma que busque ser globalizante. O passado e o futuro se misturam num mesmo presente.
Em termos de relações de trabalho, o escravo divide o presente com o trabalhador assalariado possuidor de direitos trabalhistas e seguridade social, com o trabalhador assalariado sem direitos trabalhistas e seguridade social, com trabalhadores autônomos da Nova Economia e assim por diante.
Um exemplo particularmente ilustrativo de como múltiplas realidades se cruzam no presente pode ser visto se tomarmos uma corporação multinacional como a Nestlé, cujo cacau para a fabricação de chocolate provém em grande parte do trabalho escravo nas fazendas africanas (em especial da Costa do Marfim), cujo processo de fabricação de seus produtos utiliza operários assalariados, e cuja eficácia operacional, administrativa e publicitária requer e impulsiona a Nova Economia. A novidade certamente não está na compra de matéria-prima produzida com trabalho escravo para alimentar processos industriais (o século XIX está repleto de exemplos), mas na fragmentação maior e cada vez mais acelerada de realidades diversas em um mesmo presente, produzida pela velocidade cada vez maior com que a economia se lança ao futuro.
No caso da América Latina essa fractalização do tempo é evidente na própria diversidade das demandas sociais e das realidades e personagens aos quais essas demandas se referem. Pense nos indígenas em Chiapas (ou mesmo no Brasil), pense nos sem-terras, naqueles cuja vida cotidiana é estabelecida sob as condições dos primórdios do capitalismo industrial, ou mesmo de resistência ao capitalismo (caso da resistência indígena de mais de 500 anos), pense nas classes médias e altas das quais você faz parte que se encontram nos centros urbanos em meio aos shopping centers, computadores e cuja vida cotidiana é estabelecida sob condições semelhantes a da maior parte da população das sociedades de consumo mais avançadas.
No entanto, até hoje, na América Latina, os indivíduos dessa última fração quando imbuídos de um certo espírito de justiça social e de contestação têm virado as costas à sua realidade, à realidade do seu tempo e da sua existência, seja por ter incorporado uma doutrina que diz que ele não pertence à classe revolucionária ou por simplesmente não conseguir se desfazer dos óculos burgueses através dos quais a vida se reduz ao consumo e à sobrevivência, e a pobreza e a miséria por conseqüência se reduzem à não participação no consumo. Esquece-se ele de que, por exemplo, existe uma riqueza que os indígenas zapatistas em Chiapas buscam defender, e que é ao mesmo tempo a própria condição da existência de uma resistência conseqüente; uma riqueza ausente da sua realidade e da sua existência, uma realidade ausente do seu tempo: a comunidade[7].
Enterrada de vez nos meios urbanos pela sociedade de consumo, os seus últimos vestígios remontam às associações e cultura operárias, época em que não por coincidência a revolução estava ainda na ordem do dia. Mas a racionalidade capitalista deixou o lócus fechado da fábrica e conseguiu ocupar e moldar todos os espaços-tempo da vida cotidiana nas urbes. A indústria cultural preencheu com a sua semi-cultura (para usar a expressão de Adorno) o espaço ocupado anteriormente pela cultura operária autônoma e revolucionária. A construção das subjetividades coletivas e individuais passou a partir de então a ter menos probabilidade e margem para produzir uma ruptura com a ordem existente. Eis a sociedade de consumo. O consumo se torna cultura, e a cultura objeto de consumo e não mais os comportamentos, valores e o imaginário que fazem e sustentam uma comunidade. A ausência de comunidade real, autêntica, pode ser observada através de aparentes comunidades, ou de comunidades da aparência, comunidades de estereótipos, de signos... pobres tentativas de fugir do mal-estar existencial próprio da sociedade de consumo e da ausência de laços comunitários reais. Sobre essa ausência, o câncer, a depressão e o suicídio sendo apontados entre as principais causas de morte entre as pessoas principalmente jovens que se encontram na zona de tempo da sociedade de consumo, em todo o mundo, certamente também nos dizem alguma coisa.
Das lutas
Não se trata evidentemente de negligenciar o valor e até mesmo a importância individual e coletiva de uma inserção e apoio a uma luta que se trava a partir de uma outra realidade que não a nossa. Até porque essa inserção acaba sendo também um antídoto contra as visões e críticas parciais, muito prováveis quando não se trava conhecimento com outras realidades coexistentes. Porém o apoio dado poderá ser muito mais valioso se ele partir de alguém insatisfeito com a condição da sua vida cotidiana, consciente da miséria presente na realidade da zona de tempo em que vive e envolvido coletivamente para criar as condições da sua superação. Os comunicados do EZLN, através do Subcomandante Marcos, por exemplo, são claros quanto a isso: a maior solidariedade e apoio que podem ser dados aos zapatistas é levando adiante suas próprias lutas. Negligenciar sua própria situação, sua própria realidade, sua própria miséria é deixar de contestar o capitalismo, a sociedade, o estabelecido em seu tempo; é deixar de construir a luta do seu tempo, que só aqueles que se encontram na realidade desse tempo podem o fazer; é deixar um espaço em branco na solidariedade de lutas separadas temporalmente mas vivas num mesmo presente.
Do atraso da consciência
A passividade com que a jovem geração da classe média brasileira tem aceitado sua sorte individual (que na verdade é coletiva) é dada na mesma medida com que cada um se esconde no seu desespero solitário e na busca de diplomas universitários que já não garantem sequer a sobrevivência.
E de qualquer forma, boa parte já não consegue suportar o trabalho, os empregos burocráticos, as suas rotinas alienantes, o tempo morto da jornada diária e mal remunerada. Já não trocam facilmente a busca em viver pelo monopólio martirizante que o trabalho exerce sobre suas vidas.
Não se trata de um simples acaso. Retirando maior proveito do consumo generalizado do que da produção, o sistema da mercadoria precipita a substituição do autoritarismo pela sedução do mercado, do economizar pelo gastar, do puritanismo pelo hedonismo (Raoul Vaneigem). E é essa mudança que caracteriza a era da sociedade de consumo na qual a classe média brasileira se encontra em grande parte.
Abandonando o puritanismo autoritário da produção, ela [a economia] cai no mercado, mais lucrativo, da satisfação individual. Nas mentalidades e nos costumes se propaga então uma lassidão que se traduziria no reconhecimento oficial do prazer (...). A frieza do cálculo chegou muito próximo do calor das paixões. Como evitar que a vontade de viver, ao mesmo tempo estimulada e negada, denuncie o engodo das liberdades de mercado? (idem).
No entanto a atitude da juventude de classe média brasileira no sentido de uma consciência da sua miséria e de práticas e ações coletivas para transformar essa realidade se encontra em um descompasso tão grande em relação à sua situação, à miséria da sua realidade, que uma explicação para isso também só poderia ser encontrada dentro das condições e características específicas do tempo em que se encontram, e que moldam sua subjetividade. A esse respeito pode-se notar que até mesmo os meios de controle-comunicação mais reacionários, como a TV Globo, já exibem programas que mostram explicitamente a miséria da juventude de classe média brasileira[8], estando assim à frente da própria tomada de consciência e da prática consciente de contestação e superação por parte dessa mesma juventude.
Dos caminhos
Qualquer tentativa de contestação e transformação social, e por conseqüência de transformação da condição existencial individual, que não vise à comunidade e ao mesmo tempo a tenha como base, como suporte e como força, não poderá mais do que fazer barulho, com grandes chances de ser uma experiência frustrante tanto individualmente quanto coletivamente.
Palavra tão gasta quanto a liberdade e ao mesmo tempo tão ausente da nossa vida quanto ela. É necessário precisar. Hoje em dia usa-se a palavra comunidade para se reportar a todo tipo de agrupamento concreto ou abstrato de indivíduos definido a partir de um gosto comum ou afinidade entre os mesmos. É assim que se fala de comunidade gay, comunidade dos fãs de Elvis, comunidade hacker, comunidade punk etc. etc.etc. Como que a palavra comunidade pôde adquirir um significado tão vazio e superficial diz muito sobre a sociedade em que vivemos. Simplesmente não há uma significação concreta mais profunda e recheada de sentido sociológico e social com existência na sociedade de consumo capitalista que ate estritamente a si o significante comunidade. A comunidade foi extinta espero que ninguém se choque com a constatação de que vivemos numa sociedade preponderantemente individualista , mas o significante comunidade não foi extinto junto com ela. Ele foi realocado e hoje é usado para definir pessoas com gostos, afinidades ou comportamentos comuns.
Não, não é coincidência que sua ausência esteja ligada à miséria na sociedade capitalista (e evidentemente não falamos apenas da miséria relativa ao consumo). Ela é a riqueza necessariamente ausente da esfera do consumo. É o que fala de real, de autêntico, contraposto ao ilusório e compensatório do consumo.
No entanto recriar a comunidade a partir de sujeitos preparados, condicionados, moldados, educados pela e para a sociedade de consumo capitalista e individualista em que nos encontramos não é tarefa fácil. A prova dessa dificuldade está em que, mesmo contendo em si um poderoso potencial subversivo, não há nenhuma força estatal, nenhum aparato físico designado para nos impedir de recria-la. A sua impossibilidade é dada pela nossa própria estrutura de caráter, e por uma teia de hierarquizações, gostos e desejos construídos, cujo conjunto compõe aquilo que nos seduz e aquilo que nos repele.
Mas, uma vez alcançada, mesmo que com limitações e problemas, a comunidade se torna ao mesmo tempo referência e contágio a outros, além de deixar explícita toda a irracionalidade de uma série de instituições, práticas, comportamentos e sentimentos corriqueiros na sociedade capitalista.
Afinal, o que exatamente significa essa comunidade?
Evidentemente a capacidade criativa inerente ao ser humano pode lhe atribuir variadas formas e aspectos. O que importa frisar são as características que a tornam ao mesmo tempo um fim e a base necessária para a superação das condições da nossa miséria atual e à transformação social.
Primeiramente a comunidade é fim porque ela é a negação da sociabilidade própria do capitalismo, é a negação das condições da miséria da sociedade de consumo.
A comunidade é a base, o suporte, a força e a célula necessária para qualquer tentativa sincera e não ilusória de superação das condições de sobrevivência atuais na medida que:
a) preenche as necessidades existenciais e materiais dos indivíduos de forma autêntica e não compensatória, através de relacionamentos interpessoais não utilitários, baseados na sinceridade e na afeição e apoio mútuos. Falando de uma maneira ao mesmo tempo resumida e abrangente: na medida que propicia ao indivíduo aquilo[9] que se faz ausente ou raro na sociedade de consumo exatamente por não poder ser reduzido à mercadoria forma que é incapaz de conter sua característica essencial ou qualidade;
b) fornece uma multiplicidade de ligações e laços interpessoais passíveis de preencher as necessidades individuais do item a, e que não são mais do que a pré-condição necessária de qualquer liberdade que não seja metafísica. Como Proudhon já dizia, a pessoa mais livre é aquela que possui maior número de ligações e relações. A liberdade, como se vê, e como Proudhon já observara, possui relação direta com as garantias implícitas nas relações sociais, com a solidariedade, com o mutualismo. Trata-se de uma segurança necessária que é pressuposto da liberdade individual. Uma segurança fornecida ao indivíduo pela existência de comunidade, muito diferente do sentimento de segurança que se adquire pelo casamento, ou seja, pela ausência de liberdade do outro, segurança esta impotente para construir liberdade. Sem que o indivíduo encontre no meio em que luta ou busca lutar as condições dadas neste item e no item a, a revolução será muito provavelmente um cadáver na boca de alguém. A não ser no caso de um exército de masoquistas que na melhor das hipóteses só pode fazer surgir uma sociedade tão miserável quanto esta, quem realmente pode acreditar e se empenhar por um mundo novo por vir se o próprio processo de resistência e de luta não elabora e antecipa esse mundo na experiência cotidiana e pessoal de cada um? Quanto a isso nos diz muito a célebre frase de Emma Goldman: se não posso dançar, não é a minha revolução. A comunidade, na medida que preenche as necessidades existenciais e propicia as condições para a liberdade do indivíduo, fornece as condições subjetivas e um objetivo sentido, não metafísico, para a luta e a resistência. Em suma, fortalece psicologicamente o indivíduo de diversas formas, além da mais óbvia que é fazendo-o sentir-se parte e expressão de uma autêntica comunidade;
c) a comunidade não é mais do que o indivíduo, não é uma entidade acima dele, mas o indivíduo é mais na comunidade. É ele que trava a luta, mas é dela que vem a energia e a coerência.
Elas podem ser inicialmente pequenas, formadas por algumas poucas pessoas unidas por afinidade, empatia e por objetivos comuns. De qualquer forma elas deverão ser a resposta a uma dupla inquietação, uma dupla inquietação que hoje surge como uma equação contra o militantismo revolucionário que esmaga a revolução esmagando o indivíduo, e contra o conformismo implícito tanto nos comportamentos e relacionamentos normalizados quanto nos entretenimentos vazios da sociedade de consumo:
Se não posso dançar, não é a minha
revolução.
Se não é uma revolução, não é a minha dança.
***
Os video-games, o álcool do fim de semana, as luzes de néon, a carreira promissora já não podem mais nos ocultar a miséria que se espalha do amanhecer ao anoitecer; já não podem mais nos sedar. Inútil nos oferecerem o papel principal no espetáculo: sabemos que é uma jaula que serve de palco para a encenação.
Só há uma escolha possível: viver a equação. Pois certamente seguir o curso do estabelecido não é, propriamente, uma escolha.
maio e
novembro de 2002.
[1] A palavra material é usada aqui no sentido de coisas, objetos.
[2] Raoul Vaneigem.
[3] Por namoro quer-se dizer os relacionamentos exclusivos e exclusivistas entre indivíduos, ou seja, os namoros no sentido e na forma mais comum que encontramos na nossa sociedade.
[4] A indústria da empregabilidade o chamado sistema de ensino , que cresce na medida que cresce o desemprego, absorve em parte esse excedente e procria um ciclo irracional: a indústria da empregabilidade se torna o gerador de empregos.
[5] Groucho Marx.
[6] Ver o livro Distúrbio Eletrônico do Critical Art Ensemble.
[7] Evidentemente reconhecer essa riqueza social que nos é ausente, em meio aos zapatistas em Chiapas, por exemplo, não significa achar que a situação de machismo e desigualdade de gênero em Chiapas (em certo sentido bastante pior que nas camadas sociais dos centros urbanos que vivem nas zonas de tempo mais avançadas da sociedade de consumo) seja um componente dessa riqueza.
[8] A alusão é especificamente ao quarto episódio da micro-série A Cidade dos Homens, exibida na TV Globo, no qual a vida cotidiana de um adolescente de classe média é posta em paralelo a de um adolescente de favela. A história revela que a situação existencial de ambos não difere no essencial. Parece ser necessária a Rede Globo para dizer à classe média que não são apenas os favelados que estão na merda.
[9] Transformar o cotidiano é produzir algo novo que pede palavras novas (Henri Lefebvre).